sábado, fevereiro 21, 2009

ONDE ESTÁ A ESPERANÇA?

Por Enéas de Souza

André, o teu texto sobre As duas visões “pessimistas” me permite também responder uma questão. Uma amiga me perguntou: “Enéas, porque tu não dás nenhuma esperança, com as tuas análises? Olhando o que tu escreves, não tem saída.” E respondo e digo: de fato, do jeito que estão ensaiando a ópera, não tem saída. Mas, não sou eu, pobre blogueiro, que vou dar uma abertura à civilização, à cultura, à política, à economia, etc. Quem tem que dar solução são os próprios atores do processo, que são os grupos sociais, as classes envolvidas na história. O que até agora o panorama desenhado é que não se pode enxergar um movimento claro daqueles que desejam mudar e proporcionar um mundo otimista. Não há visão catastrofista. O que vejo é que há movimento e desejo, no fundo vontade de salvar a sua pele e seus interesses, sob a aparência de querer construir um mundo melhor, ajudar os menos favorecidos. A saída não é um individuo que dá, a saída é proporcionada por um coletivo, ajudado quem sabe por fortes lideranças, que empunham uma idéia, instrumentos para construí-la, capacidade organizada de luta, habilidade e invenção em muitos níveis, para conduzir o barco da história a um novo porto, a uma nova terra, que aparentemente ignota, será não a terra da felicidade, mas a terra da vida alegre e triste dos homens.

Portanto, não há visão catastrofista sem que nossos contemporâneos, não caminhem para a sua destruição. Portanto, as visões aparentemente sem saída, são compreensões momentâneas – repito momentâneas-, daquilo que o cineasta Tarkovski dizia “o pessimista é um otimista bem informado”. E pensar que estamos no caminho do desastre, não é ser catastrofista; é apenas observar que o real que aqui está é o que insiste. E ele está insistindo muito. E o que está insistindo, neste momento, tem o rumo do desabamento. Esta é a tendência lógica das relações econômicas, políticas e ideológicas. A cultura diz isso. Vejam os filmes: “Sangue Negro”, “De onde os fracos não retornam”, “O Lutador”, etc., etc. Mas, nada é fixo na história, o mundo se mexe, o mundo apresenta mil surpresas. Os homens podem encontrar um furo no caminho do abismo e construir uma alegre morada à beira do precipício ou na estrada de uma nova civilização. Esta é uma das questões que nós teremos que responder. E nunca esquecendo que somos parte de um conjunto e que dentro dele estão vigaristas do estilo Madoff. Parodiando Shakespeare poderíamos ouvir de um personagem: “Agora que eu quero ver como tu reages, carcaça velha. E se continuas a trabalhar por um mundo habitável, olha para tipos como Madoff. Eles estão infestando nossa época. Fazem parte do grupo hegemônico. E faz as contas; examina as idéias. E vê se encontras, ou se te apresentam, soluções. Aí é que eu quero ver o teu otimismo”. Enquanto não aparecem as formas do futuro criador, vamos escrevendo sobre o compasso e o ritmo, até agora implacável, da sociedade. Mas, não podemos esconder que estamos numa crise ampla: econômica, social, política, energética, tecnológica, ética, cultural, civilizacional. Mas, tudo isso tem o seu tempo. Tempo de discussão, tempo de elaboração e tempo de decisões. As questões estão colocadas, cabem aos homens, aos grupos sociais, as classes encontrar o seu rumo e fazer a sua história.

Enquanto o horizonte não se ilumina Horário já nos deu a palavra: carpe diem.

Um comentário:

Rafael disse...

Estimado Prof. Eneas,

Parabenizo-o por esse importante 'espaço' de reflexão sobre os desafios atuais que enfrentamos, todos, juntos. Tendo a concordar que o dito pessimismo, pelo menos por ora, parece ser a chave de leitura mais lúcida e indicada. Fico no aguardo de novas postagens. Um abraço, Rafael Ioris (dos EUA)