quinta-feira, dezembro 30, 2010

ECONOBRASIL em 2011: TUMBLOG, TWITTER e FACEBOOK (Obs: link para o Tumblog corrigido)

Aos amigos que acompanham o EconoBrasil:

Criamos um tumblog (http://www.econobrasil.tumblr.com/ ) para onde migrei as postagens desse nosso blog, que aos poucos deve começar a substituí-lo como plataforma prioritária de postagens para 2011. O Tumblr permite maior agilidade e interatividade do que o Blogspot e, principalmente, a possibilidade de "reblogar" postagens àqueles que seguem o EconoBrasil.  O processo ainda está em caráter experimental em termos de layout e informações, mas está lá para quem quiser dar uma conferida e sugerir elementos (estou aceitando a sugestão para um template, quem quiser colaborar, agradeço). Já existem postagens por lá que não estão sendo reproduzidas aqui, ou seja, vale começar a seguir o blog já na nova plataforma.

Também estamos ativando o Twitter @econobrasil, que já existia desde março , mas estava ali abandonado... Convido a todos para nos seguirem também nessa plataforma, muito dinâmica e bastante interativa.  Em breve estaremos disponibilizando uma página EconoBrasil no Facebook. 

Nosso objetivo com essa ampliação dos espaços de atuação na rede é atingir um número maior de leitores em 2011 e, principalmente, melhorar a interatividade com o público interessado nos temas aqui tratados. Ressalto mais uma vez que essas mudanças ainda estão longe de terem uma forma (principalmente visual) definitva, esperamos ter algo melhor formatado na primeira quinzena de janeiro próximo.

Um Feliz Ano Novo a todos, 2011 promete muito!


André Scherer e Enéas de Souza

terça-feira, dezembro 28, 2010

Brasil eleva imposto de importação de brinquedos; por André Scherer

Mais uma pedra que foi cantada na palestra de 24/11 na FEE... e tinha gente que duvidava do aumento do intervencionismo no Governo Dilma. 

Link relacionado: http://tiny.cc/j4pr2

segunda-feira, dezembro 27, 2010

Mais sobre as hipóteses de futuro; por André Scherer

Leiam esse artigo publicado no blog Viomundo e notem onde pode desembocar a mudança no capitalismo mundial e a crise da civilização. É uma realidade que ainda pode ser revertida, mas o espaço para isso está se estreitando. O que não significa sua inexistência.

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Um novo mundo é inevitável...; por André Scherer

Retomada econômica não ocorrerá calcada na "ordem antiga"; novo sistema será movido a "conhecimento" com foco em recursos humanos
ANDREA MURTA
DE WASHINGTON

O mundo atual não é "plano", como insiste a imagem de uma era digital que supostamente aboliu as fronteiras geográficas da economia.


Para o urbanista Richard Florida, o cenário moderno é mais irregular: cheio de "pontas", que concentram a atividade econômica e criativa, e "vales", cuja desigualdade traz ameaças à ordem política global como não se via há mais de um século.

Sem reconhecer essa realidade -e seus perigos-, o planeta vem seguindo um caminho para sair da crise que, para ele, é totalmente errado.

"Há um conceito introjetado de que é preciso ressuscitar a ordem antiga e uma resistência em admitir que essa crise representa seu colapso e o nascimento de um novo capitalismo criativo, movido a conhecimento, que vai exigir novas formas de crescimento e novas instituições sociais e econômicas", diz.

Bom, parece que aos poucos algumas "realidades" há muito preconizadas no EconoBrasil estão se tornando evidentes e começam a ganhar espaço na "grande mídia", como mostra essa matéria da FSP de hoje. Há uma enorme crise do capitalismo mundial e da civilização e isso começa a ser reconhecido. Um "mundo capitalista plano" nunca passou de um utopia em uma cabeça rasa. Claro que essa conversa de "capitalismo movido a conhecimento" é outra grande balela, como se a mudança tecnológica não estivesse desde SEMPRE no centro da acumulação capitalista, mas, traduzindo o que ele quer dizer sem o ranço ideológico-propagandístico, vai haver uma modificação que colocará no centro da ação organizada do Estado capitalista as empresas ligadas às novas tecnologias de informação e de comunicação, que "eles" interpretam como sendo, por si só, intensivas em conhecimento. E é essa a tese que permeia o artigo sobre as "hipóteses de futuro"  escrito pelo Enéas... quanto tempo vai levar para que essa realidade se estabeleça? Depende do tempo que vai levar para que o Estado, especialmente nos EUA, deixe de alocar a imensa maior parte dos recursos da sociedade na preservação dos interesses econômicos de um sistema financeiro falido. A nova rodem capitalista será "melhor" para a maior parte da população do que a velha ordem neoliberal-financeirizada? Não necessariamente, depende em muito da forma como se dará seu nascimento. Mas, essa nova ordem será CAPITALISTA, ou seja, não dá para colocar muita fé em seus traços de justiça social... 

terça-feira, dezembro 14, 2010

Entrevista ao Sul 21, por André Scherer

A mídia, mesmo a não oficial, anda preocupada  com o recrudescimento da inflação. Apesar do título não condizer com o corpo da matéria, acho que a entrevista ficou bem interessante e dá uma ideia do que passa pela cabeça do governo para 2011.

Link relacionado:
http://tinyurl.com/2c7a8b9

Mais sobre o lobby americano de olho no petróleo do pré-sal; por André Scherer

Confiram a excelente matéria da Natália Viana sobre os telegramas relacionados ao "interesse" das petroleiras norte-americanas pelo marco regulatório do pré-sal:

Do CartaCapital WikiLeaks
"A indústria de petróleo vai conseguir combater a lei do pré-sal?". Este é o título de um extenso telegrama enviado pelo consulado americano no Rio de Janeiro a Washington em 2 de dezembro do ano passado.
Como ele, outros cinco telegramas a serem publicados hoje pelo WikiLeaks mostram como a missão americana no Brasil tem acompanhado desde os primeiros rumores até a elaboração das regras para a exploração do pré-sal – e como fazem lobby pelos interesses das petroleiras.

Os documento revelam a insatisfação das pretroleiras com a lei de exploração aprovada pelo Congresso – em especial, com o fato de que a Petrobras será a única operadora – e como elas atuaram fortemente no Senado para mudar a lei.
"Eles são os profissionais e nós somos os amadores", teria afirmado Patrícia Padral, diretora da americana Chevron no Brasil, sobre a lei proposta pelo governo . Segundo ela, o tucano José Serra teria prometido mudar as regras se fosse eleito presidente.
Partilha
Pouco depois das primeiras propostas para a regulação do pré-sal, o consulado do Rio de Janeiro enviou um telegrama confidencial reunindo as impressões de executivos das petroleiras.
O telegrama de 27 de agosto de 2009 mostra que a exclusividade da Petrobras na exploração é vista como um "anátema" pela indústria.
É que, para o pré-sal, o governo brasileiro mudou o sistema de exploração. As exploradoras não terão, como em outros locais, a concessão dos campos de petróleo, sendo "donas" do petróleo por um deteminado tempo. No pré-sal elas terão que seguir um modelo de partilha, entregando pelo menos 30% à União. Além disso, a Petrobras será a operadora exclusiva.
Para a diretora de relações internacionais da Exxon Mobile, Carla Lacerda, a Petrobras terá todo controle sobre a compra de equipamentos, tecnologia e a contratação de pessoal, o que poderia prejudicar os fornecedores americanos.
A diretora de relações governamentais da Chevron, Patrícia Padral, vai mais longe, acusando o governo de fazer uso "político" do modelo.
Outra decisão bastante criticada é a criação da estatal PetroSal para administrar as novas reservas.
Fernando José Cunha, diretor-geral da Petrobras para África, Ásia, e Eurásia, chega a dizer ao representante econômico do consulado que a nova empresa iria acabar minando recursos da Petrobrás. O único fim, para ele, seria político: "O PMDB precisa da sua própria empresa".
Mesmo com tanta reclamação, o telegrama deixa claro que as empresas americanas querem ficar no Brasil para explorar o pré-sal.
Para a Exxon Mobile, o mercado brasileiro é atraente em especial considerando o acesso cada vez mais limitado às reservas no mundo todo.
"As regras sempre podem mudar depois", teria afirmado Patrícia Padral, da Chevron.
Combatendo a lei
Essa mesma a postura teria sido transmitida pelo pré-candidtao do PSDB a presidência José Serra, segundo outro telegrama enviado a Washington em 2 de dezembro de 2009.
O telegrama intitulado "A indústria de petróleo vai conseguir combater a lei do pré-sal?" detalha a estratégia de lobby adotada pela indústria no Congresso.
Uma das maiores preocupações dos americanos era que o modelo favorecesse a competição chinesa, já que a empresa estatal da China, poderia oferecer mais lucros ao governo brasileiro.
Patrícia Padral teria reclamado da apatia da oposição: "O PSDB não apareceu neste debate".
Segundo ela, José Serra se opunha à lei, mas não demonstrava "senso de urgência". "Deixa esses caras (do PT) fazerem o que eles quiserem. As rodadas de licitações não vão acontecer, e aí nós vamos mostrar a todos que o modelo antigo funcionava... E nós mudaremos de volta", teria dito o pré-candidato.
O jeito, segundo Padral, era se resignar. "Eles são os profissionais e nós somos os amadores", teria dito sobre o assessor da presidência Marco Aurelio Garcia e o secretário de comunicação Franklin Martins, grandes articuladores da legislação.
"Com a indústria resignada com a aprovação da lei na Câmara dos Deputados, a estratégia agora é recrutar novos parceiros para trabalhar no Senado, buscando aprovar emendas essenciais na lei, assim como empurrar a decisão para depois das eleições de outubro", conclui o telegrama do consulado.
Entre os parceiros, o OGX, do empresário Eike Batista, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e a Confederação Naiconal das Indústrias (CNI).
"Lacerda, da Exxon, disse que a indústria planeja fazer um 'marcação cerrada' no Senado, mas, em todos os casos, a Exxon também iria trabalhar por conta própria para fazer lobby".
Já a Chevron afirmou que o futuro embaixador, Thomas Shannon, poderia ter grande influência nesse debate – e pressionou pela confirmação do seu nome no Congresso americano.
"As empresas vão ter que ser cuidadosas", conclui o documento. "Diversos contatos no Congresso (brasileiro) avaliam que, ao falar mais abertamente sobre o assunto, as empresas de petróleo estrangeiras correm o risco de galvanizar o sentimento nacionalista sobre o tema e prejudicar a sua causa". 

Vale a pena acompanhar o excelente trabalho da Natália em  http://cartacapitalwikileaks.wordpress.com/ e também no blog http://operamundi.uol.com.br/

segunda-feira, dezembro 13, 2010

Desmoralizado... finalmente!; por André Scherer

Folha de S.Paulo - Petroleiras foram contra novas regras para pré-sal - 13/12/2010

Petroleiras foram contra novas regras para pré-sal

Segundo telegrama do WikiLeaks, Serra prometeu alterar regras caso vencesse

Assessor do tucano na campanha confirma que candidato era contrário à mudança do marco regulatório do petróleo

JULIANA ROCHA
DE BRASÍLIA
CATIA SEABRA
DE SÃO PAULO

"As petroleiras americanas não queriam a mudança no marco de exploração de petróleo no pré-sal que o governo aprovou no Congresso, e uma delas ouviu do então pré-candidato favorito à Presidência, José Serra (PSDB), a promessa de que a regra seria alterada caso ele vencesse.

É isso que mostra telegrama diplomático dos EUA, de dezembro de 2009, obtido pelo site WikiLeaks (www.wikileaks.ch). A organização teve acesso a milhares de despachos. A Folha e outras seis publicações têm acesso antecipado à divulgação no site do WikiLeaks.

"Deixa esses caras [do PT] fazerem o que eles quiserem. As rodadas de licitações não vão acontecer, e aí nós vamos mostrar a todos que o modelo antigo funcionava... E nós mudaremos de volta", disse Serra a Patricia Pradal, diretora de Desenvolvimento de Negócios e Relações com o Governo da petroleira norte-americana Chevron, segundo relato do telegrama.

Um dos responsáveis pelo programa de governo de Serra, o economista Geraldo Biasoto confirmou que a proposta do PSDB previa a reedição do modelo passado."

Não é necessário comentar nada, está tudo aí! Temos que notar como o Serra fala "nós" quando está conversando com os representantes estadunidenses. É o caso de colocar aquela camiseta: EU JÁ SABIA!

quinta-feira, dezembro 09, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: A nova guerra do ópio; por André Scherer

Em busca de redução de custos, corretoras dos EUA estão "ensinando" jovens chineses a especular na bolsa... É bem possível que tenham conseguido achar a solução para conter o avanço mundial da economia chinesa à médio prazo, hehehe...

Link relacionado:
http://www.nytimes.com/2010/12/10/business/global/10daytrade.html?_r=1&partner=rss&emc=rss

quarta-feira, dezembro 08, 2010

A nova dinâmica do capital financeiro, por Enéas de Souza

Pessoal, o Enéas está em férias, mas aí está para vocês o novo artigo dele, recém-publicado pela FEE. Trata-se de um excelente texto, inspirado na palestra que demos ainda em julho deste ano, já sob impacto do contágio europeu. No artigo, o Enéas explora hipóteses e condições para uma superação da crise mundial. 

Boa leitura.

sábado, dezembro 04, 2010

Hummm... Descobriram que os juros reais não devem aumentar no Governo Dilma; por André Scherer

Pois é, começou a cair a ficha... ao menos para os japoneses do banco Nomura, hehehe (ver último link abaixo do post) Um dia depois do anúncio de medidas que fogem ao cardápio utilizado nos últimos doze anos (frente à possibilidade de elevação da inflação, sobem os juros e, com isso, os gastos do governo e o rendimento dos aplicadores em renda fixa; o câmbio se aprecia e a inflação cai; em detrimento dos exportadores do país; como consequencia o déficit externo se aprofunda e vivemos felizes para sempre) já há vozes alertando para o que realmente isso significa: a determinação do futuro governo em reduzir as taxas reais de juros e em utilizar, para isso, vasto cardápio de intervenções na economia disponível.

Não há determinação "se a taxa de câmbio não valorizar, haverá inflação" - e aqui poderia citar tantas outras -  dado que as possibilidades de política econômica são... infinitas! Isso mesmo, infinitas, quando se entra no campo de intervenções pontuais... e o governo Dilma parece disposto a seguir esse caminho. Por exemplo, as metas de inflação passarão a ser definidas por um índice que exclua a variação dos preços voláteis e sazonais (a chamada core inflation, que orienta a política monetária do FED), muito influenciados pelo ultra-especulativo mercado internacional de commodities, dando um folguinha a mais para a manutenção ou queda dos juros nominais. Era óbvio que o novo governo faria qualquer coisa para derrubar as taxas de juros, as taxas de juros reais elevadas sepultam toda a estratégia neo-desnvolvimentista do governo Dilma (ver http://econobrasil.blogspot.com/2010/12/governo-dilma-ampliacao-do.html ).

Os rentistas que se beneficiaram dos juros reais elevadíssimos nos últimos 30 anos não vão gostar nem um pouquinho da novidade. Vem chumbo grosso por aí, pois agora vai começar a tocar no bolso e é aí que o bicho pega.

Links relacionados:



sexta-feira, dezembro 03, 2010

Governo Dilma: ampliação do intervencionismo para acomodar uma política de crescimento; por André Scherer

No último dia 24 de novembro fizemos um painel sobre economia brasileira bastante interessante no auditório da FEE. Quem lá esteve, me ouviu dizer, entre outras coisas, que há um projeto de unificar a política econômica brasileira sem o contrapeso ortodoxo que representava o Banco Central de Meirelles. E, que para impedir tanto o aumento da inflação quanto um desequilíbrio fatal nas contas externas, o governo lançaria mão tanto do protecionismo seletivo (aumentando as tarifas de importação de alguns produtos) quanto de medidas de intervenção discricionária no mercado de crédito. Isso evitaria uma expansão acelerada do consumo, especialmente de bens duráveis, sem necessidade de elevações abruptas dos juros (ao contrário, os juros reais devem cair no próximo governo, essa é a base da política que se vislumbra). Isso foi dito na FEE como detalhamento ao último slide da palestra.

Dez dias depois, a coisa já está em pleno andamento. O que são as medidas que dificultam a possibilidade de refinanciamento dos saldos de cartões de crédito e a medida de hoje, de limitar o prazo de financiamento dos automóveis, senão medidas de limitação discricionária do crédito? E a medida de elevar o compulsório dos bancos, não se trata de restringir  e encarecer o crédito sem elevar as taxas de juros que o governo paga para rolar a dívida interna?  

Soube antes quem estava na FEE dia 24. E, posso garantir, não era nenhuma informação privilegiada de fontes governamentais ou bola de cristal. Essas medidas são só as primeiras, o andar da carruagem irá exigir muito mais do governo. Vai funcionar? Depende, em grande parte, do cenário externo. Como foi descrito na mesma apresentação.

quinta-feira, dezembro 02, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
02 de dezembro de 2010
COLUNA DAS QUINTAS


O DOMINÓ EUROPEU
Por Enéas de Souza



Incerteza é uma palavra usada muito pelos economistas. E tudo porque a economia capitalista financeira tem, no seu bojo, um verme que se chama especulação, que atende em certos momentos pelo título de bolha financeira. Ou seja, a bolha é um elemento do sistema que tem uma peculiaridade contundente: a certa altura do panorama, explode. E o pior é que quando ela faz uma lambança, a economia não se conserta assim no mais. É preciso um Estado forte para dar um jeito nesta história. Mas, os Estados não são iguais, uns são robustos, outros nem tanto, e terceiros, sempre levam a pior, porque miúdos e frágeis. E quando se trata de Europa, a diferença entre eles é notável, afetando, sobretudo, os menores, os mais atiçados. Acertou quem apontou Grécia e Irlanda. Mas podem estar certos também aqueles que falaram em Portugal, Espanha e Itália. E até quem indicou a poderosa Inglaterra. Tudo por quê? Porque, as finanças desabaram em crise sistêmica. No caso dos Estados Unidos, não o salvou, como se dizia antigamente, o Rhum Creosotado, salvou-o o FED, o Banco Central americano. Mas, assim mesmo, elas estão convalescentes. E a convalescença é um estado que requer cuidados.

Ora, este estado só ocorreu depois de bons e admiráveis resultados. Era um sistema, centrado em títulos securitizados, uns garantindo outros, ativos podres que ninguém sabia, assegurando bons. Até que puxaram o tapete deles e o vulcão começou a expelir títulos tóxicos, verdadeiras bombas caindo no bolso dos aplicadores, dos investidores e de bancos e instituições financeiras não-bancárias. História conhecida, falada desde 2007. Também é história contada, catalogada e dolorosa, aquela do Estado americano que botou uma grana fabulosa para salvar os bancos. Tudo isso é conhecido. Ou seja, aqui o tempo de perder já deu o seu primeiro e profundo passo. Mas, o perder não foi só para os bancos, raspou também as contas correntes da população. Os trabalhadores formais e informais perderam rendimentos, perderam créditos, perderam casas, perderam empregos. E o Obama, que foi eleito nessa onda, acabou ficando totalmente cercado pelas finanças, pelos republicanos, pelo Congresso, pelos lobbies. Por toda uma fauna da direita, todos liberais, agora profundamente conservadores. Isto que Obama tinha a estratégia certa: salvar os bancos, investir na produção, tratar de resolver as questões energéticas, bloquear as guerras, saindo da mais dura, o Iraque, e chegar para uma mais leve, o Afeganistão. Mas, Obama tem levado uma surra do Tea Party, dos políticos de ambos os partidos e de grande parte da população. Veremos se ele consegue a solução do estilo Lula: “I love this guy!”. E por quê? Porque Lula deu tanto o pulo do gato no primeiro mandato, como o pulo da terceira eleição. Obama tem que ganhar o segundo salto. Será que depois deste cerco, ele vai conseguir o tempo de ganhar?

E os bancos, que receberam grana do Bush e do Obama, querem voltar a ganhar mais grana, só que tanto do governo como do mercado. E jogam difamando Obama. Mas, quem está perdendo são os americanos. Vejam como, geopoliticamente, têm que fazer acordo com Moscou, ensaiam avanços na Otan, tentam atuar no Atlântico Sul, não conseguem convencer o mundo de que a China é a culpada pela crise exportadora americana e pelo fracasso da sua indústria. Mas, o pior, a sua aliada, que Bush desprezava, a Europa, entrou em pane. Tudo porque – e o André Scherer lembrou, outro dia, muito bem – estamos no “Merkel Crash”. A Europa é uma febre. Os Estados da região, de um modo geral, estão endividados e não há possibilidades de salva-los, nem via o Fundo de Estabilidade Européia nem com o FMI. Ontem, conjeturávamos André e eu, a possibilidade da China poder salvar parte da Europa, seja via FMI, seja por outro tipo de solução. O que está se tornando patente é uma corrida de ladeira abaixo dos europeus. A razão é a incapacidade de resolver a insolvência (!) dos Estados, a incapacidade de fazer uma unidade fiscal e uma unidade política (!). Isso que era uma esperança em outros tempos, agora fica cada vez mais impensável. Parece que, claro, os capitais financeiros alemães e franceses ganharam com o processo, à custa dos Estados, da população, à custa dos funcionários públicos, à custa da queda de arrecadação dos países, à custa de acréscimo de endividamentos, que não resultarão em nenhuma melhora para as nações endividadas. Por isso, muitos falam da solução Argentina: não pagar a dívida, romper com o financiamento dos capitais privados estrangeiros. Só que aí tem um problema: a moeda. Enfim, o furúnculo está estourando.

Bela questão, esta, a monetária. O dólar vai se derretendo e o euro, às vésperas da derrapagem. E a China, grande vencedora neste momento, não tem moeda de curso internacional – porque o yuan é uma moeda administrada. Portanto, não é capaz de ser a moeda de troca, capaz de ser medida de valores e, sobretudo, impossível neste momento, de ser moeda de reserva de valor do mundo. Se do ponto de vista produtivo e do ponto vista geopolítico, este é um tempo de ganhos para a China, o mesmo não acontece com a sua moeda. Então, o sol não está a aparecer na crise mundial, a manhã e a aurora não estão à vista, temos dinamites espalhados pelos Estados Unidos e pela Europa. O que não quer dizer que estes artefatos não vão chegar à China, à Índia e ao Brasil. Tudo é uma questão de encadeamento e dos Estados usarem suas portas corta-fogos. O Brasil está tentando como a China valorizar o mercado interno, mas está pensando também em controle de capitais, está pensando em fazer políticas contra-cíclicas – agora que o ciclo no país reaqueceu e a que a inflação pode estar ali na esquina. Então, em 2011, o tempo vai se acelerar.

Olho, em primeiro lugar, no dominó europeu. As finanças estão especulando contra os Estados e querem o seu sangue; elas parecem vampiros açulados, tudo parente do Drácula. Os Estados estão fazendo a coisa mais burra possível, programas de austeridade. Mas é preciso entender: isto é burrice do ponto de vista da nação, das camadas sociais, de uma economia política dos paises, porque uma economia política não se gere como uma economia doméstica. A questão é apenas apetitosa do ponto de vista exclusivo das finanças. Elas estão pensando só no seu ganho, no seu tempo de ganhar. E elas agora já querem agir como queriam fazer com a Argentina – que a política econômica dos Estados europeus em crise seja gerida por comitês de credores, o que significa transformar as receitas estatais em pagamentos de juros. E a população que se vire; quem mandou os seus Estados se endividarem com os bancos e caírem nas notações das agências de ratings? Como se fosse a população que tivessem feito as dívidas e os déficits correntes! É óbvio que foram os políticos gananciosos, corruptos – e muitos pró-finanças – que tomaram essas decisões. Então, o grande perigo do momento é que os investidores queiram antecipar os resultados de suas aplicações, saindo e abandonando os títulos desses países. Ou seja, como resultado dessa feijoada e dessas caipirinhas e das azeitonas malditas, não fica em perigo apenas a Grécia, a Irlanda, Portugal, Espanha, Itália, Bélgica e a Inglaterra; mas também o euro, e, quem sabe, a Europa, e não apenas a Comunidade Européia. O diabo pode inventar todos os cenários desastrosos possíveis. Trichet, o presidente do Banco Central Europeu, garante que a Irlanda e a Grécia estão solventes, mas o mercado, em dúvida – satanazim astuto, como diria Guimarães Rosa – não acredita. Esperemos, lembrando ainda o romancista brasileiro, que Deus venha ao sertão europeu, armado. Armado de políticas econômicas inventivas, de concepções financeiras saudáveis para todos e, sobretudo, de bom senso, coisa que não é, certamente, a mercadoria mais disponível no mundo.





(p.s. – Entro em férias, volto em 2011. O artigo pode ter um tom de esperança pessimista, mas, para os amigos e leitores, ele se envolve com uma energia ambicionando felicidades. Até lá).

quarta-feira, dezembro 01, 2010

Sarkozy: Herói da América; por André Scherer

Que esse cara é um imbecil proto-fascista todo mundo sabe faz anos... A fotinho dele com o Bush que ilustra a reportagem do Monde vale mais do que mil vazamentos.E os comentários vazados pelo WikiLeaks comprovam. Segundo os diplomatas estadunidenses, o homem é "visceralmente pró-americano". 

A França decadente sob Sarkozy? Pleonasmo.

Clique aqui para ler a matéria do Monde sobre Sarkozy e o WikiLeaks (em francês).

terça-feira, novembro 30, 2010

Liberdade... Assange perseguido pela Interpol: crimes sexuais; por André Scherer

Um dia após divulgar um "vazamento" de documentos comprometendo um "grande banco" dos EUA (em outra entrevista ele confirma ser o BofA), o fundador do WikiLeaks passa a ser perseguido internacionalmente pela Interpol. Crimes sexuais. Alguém acredita?

segunda-feira, novembro 29, 2010

China constrói hotel em seis dias; por André Scherer

Sei que esse vídeo já está um pouco antigo (está já faz quase um mês na Internet), mas me parece espetacular a construção de um hotel de quinze andares em seis dias... ainda mais quando se leva 6 anos para duplicar uma estrada no Brasil.

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Vazamentos financeiros ameaçam Wall Street; por André Scherer

WIKILEAKS... Pouca gente entendeu a real importância do que está ocorrendo. Prometo aos leitores do ECONOBRASIL  uma grande matéria interpretativa sobre o tema. E sobre o que o ativismo de Assange representa, ao meu modo de ver...

Vocês sabem que o site WikiLeaks vazou para todo o mundo as "opiniões" da diplomacia norte-americana sobre os mais diversos temas e também sobre os principais líderes mundiais... muitos deles haviam dado informações aos EUA sob compromisso de sigilo. Bem, Assange, o fundador e porta-voz do site, agora promete um vazamento espetacular com documentos "leakados" de um ou dois grandes bancos norte-americanos. Tudo isso para o início de 2011.

 Assange gosta mesmo de uma boa encrenca, quero ver se ele resiste à força conjunta do Pentágono e Wall Street. Vale a pena dar uma lida no que ele pensa, no que faz e por que faz.

Link relacionado:

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Vencimento dos títulos espanhóis... hummmmm; por André Scherer

Hummmm... a maturidade dos títulos espanhóis não ajuda em nada a conter o contágio europeu. Que aliás, com  toda a justiça, já tem nome devido: Merkel Crash.

Link relacionado:
http://tiny.cc/evr11

sábado, novembro 27, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Europa em contágio fatal?

Três artigos interessantes sobre a possibilidade de contágio das grandes economias europeias dados os sucessivos resgates das economias menores. aliás (e aí está o problema), o estoque de pequenas economias em crise está acabando...

Comentário de um professor alemão recolhido por Evans-Pritchard, do Telegraph: "não se encontra um cofre  bancário disponível  na Alemanha inteira porque eles já estão cheios de ouro e de prata". Preocupante. 

Artigos relacionados:

quinta-feira, novembro 25, 2010

HOJE - Palestra em Chapecó

IX Ciclo de Debates sobre o Desenvolvimento Regional - UNOCHAPECO

Palestra: "Conjuntura Internacional: Oportunidades e Desafios para o Brasil", com André Scherer

Hoje, 25/11 as 19:30 hs.

Convidamos aos leitores do EconoBrasil no oeste catarinense a comparecerem ao evento.

Painel na FEE

O painel de ontem na FEE sobre a economia brasileira no governo Dilma  foi tema de reportagem do Sul21 hoje. 

CRÍTICA FINANCEIRA MUNDIAL
25 de novembro de 2010
COLUNA DAS QUINTAS



A DANÇA RITUAL
DA UNIDADE ECONÔMICA

Por Enéas de Souza



A unidade de política econômica parece ser a grande conquista do governo Dilma. E ela não se fez de rogada. Escolheu uma equipe que vai seguir as suas determinações. Naturalmente, que o ministro da Fazenda tem autonomia para fazer a política determinada pela presidente, como também o ministra do Planejamento tem autonomia para seguir as orientações da Dilma. É o que o mercado financeiro mais esperava; confirmou-se, o presidente do Banco Central também terá a sua autonomia. Ou seja, tem todos autonomia. E são todos auxiliares da presidente do Brasil. Esta talvez seja uma linguagem que os mercados não entendam. Autonomia após as diretrizes.. Felizmente, as instituições financeiras ficaram contentes. O problema da autonomia do Banco Central é importante porque ela é diferente de sua independência. Esta é uma coisa que passa pela incapacidade que tem o presidente da República, depois de escolhido o presidente da Autoridade Monetária, de retirá-lo do jogo. Escolheu, não tira mais. O cara tem mandato definido por lei especial. E a independência significa que o Banco Central não tem que estar alinhado com o Executivo, com o país. O Banco Central escolhe as políticas, as metas, a execução e o Estado que se vire para arrumar os seus gastos, os seus títulos, a sua dívida, a sua política de desenvolvimento, etc. Este modelo é o ideal para as finanças. Por quê? Porque ele não segue a postura estratégica da nação, segue e faz a política dos capitais, dos mercados. Parece que funciona assim: é como se estudantes definissem os temas dos cursos, os horários e a periodicidade das aulas, dos estudos e as questões que vão cair na prova. O professor que se vire, a partir daí pode fazer o que quiser.

Mas, não é disso que queremos falar. O nosso negócio é a unidade do governo, a unidade da economia. Quando o neoliberalismo dominava na época de Fernando Henrique o esquema era o seguinte: O comando do Executivo estava dividido entre o presidente da República de um lado, a Fazenda e o Banco Central de outro. Num segundo momento, sobretudo depois da intervenção do FMI, a cisão foi absolutamente crítica: de um lado, FHC, do outro, a Fazenda e o Banco Central, mas agora com um lado picante, o Armínio Fraga, que dirigia este último, passou a mandar mais do que Pedro Malan e até mesmo que o FHC. Claro que esta linha de fissura era sutil, pois quando tocava assuntos propriamente políticos, seguramente, o Fernando comandava, mas quando se tratava de assunto econômico, o presidente não palpitava. Um, que ele não sabia nada de economia; dois, que o poder estava com os bancos – e logo com o Armínio Fraga.

Com o Lula o jogo foi pouco assim: o Palloci parecia vigorar imperiosamente. Mas, era o Meirelles, então, quem mandava mais que todos. Como diria o Tom Zé, não se podia ofender o Meirelles, porque o mercado não gostava, e obviamente, Pallocci e Lula seguiam o dito. O Pallocci, jeitoso, manêro, sem ofender o Lula, até tava mais com o Meirelles. Diante de alguns clamores do PT, da esquerda, o Lula começou a se aconselhar com economistas; e o Belluzzo e o Delfim insinuaram questões importantes. Lula tinha dúvidas. Até que Palloci, o “médico que sabia mais economia que os economistas”, deu um passo em falso, na sua dança ritual, e foi substituído por Guido Mantega. Pois, Mantega foi a surpresa. Foi um bilhete premiado. Lula foi ver, olhou bem, no princípio Mantega fez uma ou outra bravata, mas logo, logo, se ajeitou e se ajustou; e criou uma primeira cisão forte entre Fazenda e Banco Central. Guido era do lado de cá, era desenvolvimentista. E, embora com alguns arrufos desafetivos, Mantega e Meirelles acabaram encontrando uma linha de convivência e de conduta. Mas, a imbatível combinação Banco Central/Fazenda tinha um trincado na sua taça. O mundo mostrava sinal de mudanças, a fruta tinha amadurecido.

A trajetória vitoriosa de Meirelles - soberbo imperador da economia do Brasil; até Ministro chegou a ser, um posto que no tempo do Delfim era um cargo subordinado - tornou-se por longo tempo o comandante geral da economia, dirigindo medidas, ações, normas, posicionando o Banco Central, o COPOM e a Fazenda, para uma política monetária que favorecia fortemente o modelo financeiro de acumulação, originado aureamente no governo de FHC. Tempos inesquecíveis de Meirelles no Lula I. Depois da queda do Pallocci - o Hipócrates economista - os tempos mudaram. E com a entrada da Dilma na Casa Civil, servindo como o centro de planejamento e aliada inconsutil de Mantega, aconteceu uma transformação na composição do poder econômico na cúpula do governo. O sistema equilibrou. E lentamente, a força foi deixando a praia de Meirelles. Tanto o equilíbrio das contas do governo, com o desempenho de Mantega; como o recomeço do desenvolvimento e o retorno do investimento com a ação firme da Dilma; tanto os resultados da diplomacia de Celso Amorim como os avanços do conhecimento do Estado, do mundo e da economia, por parte do presidente Lula, fizeram com que o balão altivo do Meirelles se tornasse cativo. Acresce a esta química, uma mistura inusitada dos meandros e dos labirintos do fracasso neoliberal no mundo e da recuperação desenvolvimentista, inclusive na China, Índia e que passaram pelo Brasil, foi levando as águas do rio à inevitabilidade da saída de Meirelles. O mundo liberal estava cantando aquela música glorificada por Nora Ney: “Meu mundo caiu”. O tombo sem saudades das finanças, sobretudo dos Estados Unidos; o aumento da taxa de investimento e a busca de crescimento do PIB no Brasil - postulados pela Dilma e também por Mantega - trouxeram um velejar a plenos pulmões para a expansão da economia produtiva. As finanças estavam sendo senão batidas; no mínimo, postas nas cordas com um lutador de boxe acuado. Mas, não esqueçamos: batidas, mas não derrotadas.

Pois, o que está fazendo agora, Dilma? Está tentando dar unidade ao comando da política econômica, que por ser política tem a orientação da presidência da República, e, por ser econômica, deve ser seguida pelos ministros da área. Ou seja, cada um tem individualidade e tem autonomia, cada um deve ter brilho e inteligência pessoal, mas sob as diretrizes do governo e da presidente da República. Portanto, todos agem solidariamente, de modo técnico e político, dentro de uma estratégia e dentro de um projeto de nação. O Estado serve para isso: para organizar e executar uma política nacional. E obviamente, o Estado, via a presidência da República, desenvolve sob este conteúdo uma política econômica global. Pois, além da política monetária, financeira, cambial e fiscal – únicas fundamentais na política econômica neoliberal – constrói-se também uma política industrial, uma política agrícola, uma política de rendas, uma política de comércio exterior, uma política social, uma política tecnológica, etc., etc., etc. Ou seja, o presidente da República trabalha a unidade do Estado no guarda chuva do campo da política e do projeto nacional. Por isso, a unidade da equipe econômica é da maior importância, porque um Estado Desenvolvimentista tem que ter uma unidade de planejamento, de ação e de trajetória. E quem arbitra, obviamente, os conflitos naturais numa equipe do governo é o presidente da República, ouvido os ministros em sua autonomia e complementariedade operativa. Mas, é preciso dizer, e ser claro, nem todos os ministros são iguais, eles agem e são apreciados na sua hierarquia dentro da unidade do governo. Então é bom não confundir hierarquia e autonomia com independência, com o fazer o que bem quiser, com o fazer o que o mercado deseja. O que a Dilma está nos dizendo com as escolhas atuais é isto; há unidade, há hierarquia, há autonomia, mas o ponto principal é a unidade de comando que fica na presidência da República. E o ponto de sustentação de tudo está na política e no projeto nacional. Adeus Meirelles, o tempo do neoliberalismo dominante terminou, começou o do neodesenvolvimentismo. Que este - tenha longa vida!


segunda-feira, novembro 22, 2010

Preconceito em alta no Brasil

Muito interessante o resultado da pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo sobre a percepção dos brasileiros frente aos grupos sociais menos favorecidos. É raiva e ódio para todo lado.

 De minha parte, vale a expressão "eu odeio a quem odeia". Gente chata, se importando com os outros que nunca fizeram nada para eles além de existir e serem diferentes.


CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Irlanda obrigada a pedir auxílio financeiro

Era inevitável, dada a deterioração da situação bancária com a aceleração da fuga de capitais: Irlanda pede ajuda ao European Financial Stability Facility (EFSF) e ao FMI. O montante do resgate é estimado em torno dos 100 bilhões de euros. Ainda se desconhecem os detalhes da operação. 

Agora é esperar para ver se, ao menos momentaneamente, Portugal e Espanha respirarão novamente sem aparelhos.

Link relacionado:

domingo, novembro 21, 2010

Palestra na FEE

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Bancos irlandeses em risco, afirma mídia inglesa.

O jogo pesado continua: o mundo tentando empurrar a conta para o povo irlandês a partir de um plano de resgate do seu sistema financeiro e o governo irlandês, por motivos políticos óbvios, tentando obter termos que não retirem completamente a autonomia econômica do país para assinar esse acordo. 

Mas aí, o "mercado" tem a força: os aplicadores estrangeiros estão retirando seus "investimentos" do sistema bancário irlandês, o que pressiona para que a solução seja adotada o mais rapidamente possível, o que joga em favor das propostas oficiais. O vazamento de notícias a esse respeito desde a sexta-feira é apenas mais uma amostra do quão os bancos alemães e ingleses estão empenhados em abocanhar os recursos do Banco Central Europeu e do FMI o quanto antes, deixando a conta para a população irlandesa pagar pelas próximas décadas. E o governo irlandês está comprometido com uma garantia sobre depósitos bancários de 440 bilhões de euros concedida para acalmar a ameaça de corrida bancária ocorrida em 2008. É uma garantia muito acima das possibilidades do país. Já se sabia disso em 2008...

Veja a notícia alarmista no Daily Mail:

quinta-feira, novembro 18, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL

18 de novembro de 2010
COLUNA DAS QUINTAS


O BURACO NEGRO DO DÓLAR

Por Enéas de Souza




A primeira coisa que a gente tem de considerar com a reunião do G-20 é que o neolibralismo está de fato em decomposição, em dissolução. Assim, o que se pode tentar entender é que esta crise é uma crise do capitalismo. Atenção platéia: falei crise do capitalismo. E com isso, é preciso perceber que o capitalismo está com uma perna quebrada, a financeira, e que está tentando um engessamento do resto da sociedade para se salvar, para evitar a gangrena. Olha só: o neoliberalismo fez com que o Estado despeje uma galáxia de dinheiro nos cofres dos bancos para salvar os ativos podres dos que “cuidam do nosso dinheiro”. Então, vou repetir: o neoliberalismo acabou e o capitalismo está em crise. E quando o capitalismo está em crise é isso mesmo que acontece: incapacidade de efetuar investimentos e alto volume de desemprego. Somando a esse ventinho pneumônico, aparecem as complicações de uma crise no comércio internacional e outra nos movimentos de capitais. Há uma doidura geral nos grandes países, principalmente nas transações mercantis: todo mundo querendo ter preço baixo para que os outros países comprem. E eles também desejam que os outros mantenham abertas as entradas de recursos financeiros para aplicações em títulos, bolsas e até mesmo ativos reais, obviamente para sacar do exterior os resultados que faltam nos seus próprios mercados.

Então, o que ocorre é exatamente isso: crise do capitalismo que se expressa cada vez mais naquilo que permite as trocas: a moeda. Claro que não podia ser diferente. Então, estamos numa crise da moeda que é uma crise do dólar. Por quê? Porque não temos mais um padrão monetário confiável nas trocas. Uma das funções da moeda é ser medida de valores. Ora, se padrão é tão volúvel, e pode ser mexido a toda hora, vão-se os preços, vai-se a moeda, vai-se o dólar. Como dizia o poeta Raymundo Correia: “Vai-se a primeira pomba despertada.../ Vai-se outra mais... mais outra...enfim dezenas.” O que a gente tem que entender tem origem nessa verdade: o dólar é hoje uma moeda instável, uma moeda que vai se desvalorizando, uma moeda problemática. O que traz um odor do início de uma profunda crise monetária. Os americanos querem continuar arranjando a sua economia, como se nada tivesses acontecido, e jogar a sua crise no colo dos outros países. Me joga uma bomba que eu gosto de explosão!

Portanto, tudo começa nos Estados Unidos. E começa porque eles eram a primeira economia do mundo e porque eles quebraram. O modelo financeiro de acumulação quebrou, os bancos quebraram, as indústrias quebraram. E o governo botou dinheiro nos bancos e o Banco Central entupiu com os títulos podres. O governo ficou com uma dívida cavalar e um déficit de urso. Ora, isso tudo que principiou em 2007 continua ainda o seu efeito. Efeito que passa para o campo das trocas, afetando, como um knock down de Cassius Clay, o padrão dólar. E a faísca que está no rastilho da dinamite é que os americanos querem vender agora cada vez mais para o exterior, para melhorar a sua indústria e o seu balanço comercial. Para tal, as outras moedas precisam se valorizar, principalmente o yuan. O diagnóstico já está feito a tempo: a culpada é a China. Ah! Ah! Ah! E vejam de onde eles tiram essa idéia: “antes da crise usamos os chineses para deslocar nossas empresas e ganharmos muito dinheiro. E fizemos muito comércio com os próprios Estados Unidos, pois eram as corporações de Tio Sam que estavam instaladas na China. E o que era melhor: os chineses – mágica suprema – ainda nos emprestavam a grana para cobrirmos os furos da balança comercial, comprando os nossos títulos públicos, sustentando assim os nossos delicados déficits anuais e a nossa interessante dívida. Pois bem, agora o jogo virou. É preciso que os chineses desvalorizem a sua moeda para exportarmos mais, para melhorar nossa balança comercial e também desenvolver a nossa indústria. E vejam só, os mandarins estão dizendo não. Ora, isto está virando bagunça; os chineses não estão com medo do Exterminador”. Será possível?

Ora, o que é que quer dizer isso? Jogo pesado e começo de uma guerra cambial. E este é um jogo que não é só de dois parceiros, mas de todo o planeta. Se esta guerra continuar e se os cowboys, os chins, os europeus, os brasileiros, etc. não se entenderem, a briga vai ser generalizada. No G-20 que passou, eles não se entenderam. E aí a coisa pode ficar feia: protecionismo, controle de capitais, desvalorização de moedas, guerra comercial. E desta cadeia de eventos pode resultar (hipótese ainda longínqua, mas não descartável) que algum militar na ativa ache que é preciso fazer alguma coisa, e tentar buscar produtos essenciais à força. Não é um quadro que não tenha ocorrido; pelo contrário, se dá ares de presença frequentemente neste Ocidente azoado. Lembraram do Iraque e do petróleo? A hora pode chegar novamente!

Então repito: crise do capitalismo, crise da moeda. E se o barco continua navegando pode chegar a outros portos; como uma guerra comercial. Ah!, a guerra da moeda não se trata apenas da desvalorização. Toda a questão monetária está em brasa. E por essa razão, duas coisas se insinuam no horizonte da crise. Primeira coisa: ou o dólar no seu processo de valorização progressiva deixa de ser padrão monetário e perde o lugar de equivalente geral; ou este último lugar fica sendo ocupado por diversos outros substitutos em situações pontuais: num momento pelo euro, noutro pelo yen, talvez num instante efêmero pela libra; etc. Nesse ponto, a função reserva de valor da moeda passa a não ter uma moeda mundial, uma moeda de um país que faça o papel universal, que garanta a plenitude da função examinada. E o mundo vira um bordel e uma algazarra. A inquietude torna-se a ave de mau olhar e a bagunça, a cortesia de mercados em decadência. Dito assim, logo se vê, os países vão brigar como Caim e Abel. Até que dê uma inspiração súbita pelo cansaço e aconteça um acordo internacional. O que só emergirá quando ficar nítido quem mandará no mundo. E o que se sabe é que os Estados Unidos são uma potência em caminho descendente..

E parece que não estamos equivocados, porque, se conseguirem se acomodar, o mundo vai ser comandado não por um, mas por dois líderes: USA e China. Cabe, com certeza, uma pergunta: quanto tempo vai levar para que se estabeleça essa conveniência que eles – e o mundo, por conseqüência – se entendam? Os chineses estão progressivamente organizando o seu mercadinho; os americanos nem começaram. A razão é notória: as entidades financeiras, com o seu Congresso republicano anti-Obama, não vão deixar. E o pior é que a antiga economia que eles organizaram se esfalfou e não vai dar mais nem pudim nem doce de leite. No entanto, as finanças vão morrer sempre dizendo que tudo tem que começar com o mercado financeiro, aquele que dá crédito para a produção. (Ouvem-se ao fundo novas e sonoras gargalhadas, porque as finanças são matreiramente especulativas, dão crédito praticamente apenas para o jogo do mercado de títulos e ações). Portanto, este acordo não é para agora. E, de outro lado, sabemos que os chineses não têm uma moeda de curso no mercado mundial. Vão ter que construir uma, possivelmente. Só que isso leva tempo. Ou seja, deste mato não vai sair padrão universal por um bom tempo.

A outra coisa que fica apontando no horizonte é o velho Bankor do Keynes. Uma moeda mundial, uma moeda de referência. Porém, agora, sob a idéia de ser uma moeda ponderada por várias moedas, por uma cesta delas. Até já teve gente falando no Direito Especial de Saque (DES), uma moeda do FMI. Só que aí teríamos vários problemas e a necessidade de uma instituição que tivesse capacidade de controlar essa nova realidade monetária. E obviamente que tivesse força. E não será esse FMI, um pouco vitaminado com novas contribuições dos participantes, que iria fazer o seu trabalho. Seja como for, essa solução vai ter que ter uma arquitetura, tem que ser construída sob um fogo duro e uma batalha vigorosa. Não há no oceano da economia terra à vista. E enquanto a caravana não passa, os cães vão se trucidando. O dólar, via o “quantitative easing 2” (olha o nome!), vai tentando emagrecer e perder valor e, por causa desse movimento, o administrado yuan busca a sombra do dinheiro americano. Já o euro, uma luta das finanças européias; tenta se manter vivo com a Europa se rasgando. Irlanda, Portugal, Grécia e Espanha na mira permanente do default. E na fila, ainda estão presentes candidatos um pouco mais robustos do que estes. A Itália, por exemplo.

Enfim, o que é certo é que o boteco da economia vai mal e o dono não tem dinheiro para garantir o jogo das mercadorias. E esta crise é ainda resultado da crise financeira que se desdobrou numa crise produtiva, que caminhou para uma crise das dívidas e déficits do Estado, que está na rota da deterioração do dólar, que pode levar a problemas monetários nos inúmeros países, que aponta no horizonte para uma crise comercial e que navega na direção ao maremoto de uma crise da ordem econômica e política mundial. Assim, não tenhamos dúvidas: o perigo é, se o mundo bobear, que o dólar acabe nos arrastando para o buraco negro de uma crise maior que a crise de 30. Mudanças sociais e de liderança na economia tem que ocorrer. O jogo entrou no segundo tempo. Por isso, respondam rapidinho: vocês pensam que as finanças têm solução para a economia mundial?

















quarta-feira, novembro 17, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: A armadilha por trás do EFSF, por André Scherer

O principal dispositivo europeu para combater à crise do sistema financeiro é o European Financial Stability Fund. Criado durante a crise grega, trata-se de um fundo sediado em Luxemburgo para servir de emprestador em última instância aos países em dificuldades. Em realidade,o EFSF lastreia emissões de dívida no mercado a partir de um colchão de capital providenciado pelos membros da Zona do Euro.

Satyajit Das mostra que esse mecanismo tende a se tornar um meio de contágio entre os países em dificuldades e os países em situação "normal".  Na medida em que a Irlanda, por exemplo, venha a utilizar recursos do fundo, mais aportes serão exigidos dos demais países para que o EFSF possa preservar sua capacidade de captação no mercado a juros relativamente reduzidos. Ora, supondo-se que países como Portugal e Espanha também venham a se utilizar dos recursos do fundo, maior será a contribuição dos demais países. Ou seja, as contas públicas alemãs (por exemplo) tendem a se deteriorar pelos aportes que o país terá que fazer ao EFSF, na tentativa de mantê-lo operacional. Isso somente pode ocorrer se os países em boas condições tiverem a possibilidade de levar seu endividamento no mercado, o que mostra bem como existe a possibilidade de contágio das dívidas dos países problemáticos sobre as dívidas dos países em relativamente boa situação.

 Isso mostra também como as opções de transferência das dívidas de um lado para outro - do setor financeiro ao setor público; dos países mais débeis aos países mais fortes - estão se esgotando. Está chegando a hora (provavelmente em 2011) dos credores admitirem  triste realidade:  fizeram maus negócios  e terão prejuízos. A possibilidade da ilusão está se esgotando.

Link relacionado: 

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Entrevista com a economista Maria da Conceição Tavares à TV Senado, primeira parte

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CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Entrevista da economista Maria da Conceição Tavares à TV Senado, segunda parte

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CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Entrevista da economista Maria da Conceição Tavares à TV Senado, última parte

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CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Esquadrão europeu "especialista em crise" vai chegar à Irlanda

Parece piada! Mas a mídia especializada fala em "especialistas do FMI, da ECB e da Comissão Europeia em crises financeiras e bancárias viajando à Irlanda para ultimar detalhes do pacote de resgate da economia do país"... Engraçadíssimo: então esse pessoal que não viu a crise chegar e não sabe o que fazer para resolvê-la são os "especialistas", capazes de "salvar" a economia irlandesa???? Pobres irlandeses... 

A realidade aparece é no relatório da BIS: são 650 bilhões de euros devidos pelo país e seu sistema financeiro aos bancos franceses, alemães e ingleses que devem ser pagos até março 2011. Os especialistas são realmente especialistas nisso: transferir ao povo do país em questão os custos dos problemas dos sistemas financeiros nacionais. E salvar os financiadores da encrenca, que saem de fininho embolsando juros bem acima da média do mercado em seus países de origem. Espoliação, esse é o nome do jogo, nem um pouco novo, apenas com novo alvo. Autofagia europeia, isso não vai acabar bem.

Deixando de lado a brincadeira, o bailout vai sair muito em breve, embora a negativa veemente do governo irlandês. Caíram na rede, agora são peixes. Interessante vai ser acompanhar quanto tempo vai demorar para que a pescaria recomece em outras águas...       

segunda-feira, novembro 15, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Euro em risco? Irlanda forçada a aceitar resgate europeu.

Para Ambroise Evans Pritchard, o conservador analista financeiro do Telegraph, a situação europeia está escapando ao controle graças aos erros da ECB. E da insistência dos governos centrais em propugnar a mistificação moralista do ajuste fiscal como uma possibilidade para países que não mais conseguem sustentar os custos de suas dívidas, tanto no setor financeiro, quanto nos setor corporativo privado. E isso acaba tornando irrelevante qualquer ajuste que possa promover o setor público, a despeito do discurso de austeridade... 

Os outros epísódios desde 2007 (subprime, Lehman Brothers, Grécia, para citar os mais importantes) mostram que o custo da inação é sempre pago com juros estratosféricos no calor da batalha: não há como deixar de resgatar o sistema financeiro pois o risco é sistêmico, portanto, compartilhado por todos os envolvidos. O tempo apenas aumenta a fatura a ser paga pela sociedade. No caso europeu, ainda veremos muita luta sobre em quem recairá o custo da brincadeira de imitação dos "dinâmicos" norte-americanos chamada "globalização financeira". Jogo pesado.

O Guardian mostra que Portugal e Espanha estão pressionando o governo irlandês a aceitar o resgate europeu antes que seja tarde. A Irlanda sabe que o caminho é sem volta e que a tranquilidade vai durar apenas mais alguns meses e tenta garantir um financiamento compartilhado permanente para seus bancos falidos, cujas perdas estão apenas iniciando a serem contabilizadas... É possível que o dia 16 amanheça já com as tratativas avançadas. Editorial do mesmo jornal avisa que o governo irlandês está lutando para manter algo que já perdeu: sua soberania econômica. Já disseram isso da Argentina antes, não lembram? Mas, reconheço que a situação da Irlanda é bastante mais delicada e complexa... Vejam bem o tamanho da encrenca.

Links relacionados:

domingo, novembro 14, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Regulação e Crise Financeira

Seguem os slides da palestra sobre regulação e Crise Financeira realizada no Seminário Tendências do Debate em Economia, no auditório da FACE/PUCRS, dia 28/10/010. Comentários serão bem vindos.
Nova Regulação Financeira - André Scherer

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Ascensão e Queda do Capital Financeiro

Nessa semana foram publicados pela Fundação de Economia e Estatística os livros sobre As Três Décadas da Economia Gaúcha, que podem ser acessados na íntegra em http://www.fee.rs.gov.br/3-decadas/.

Meu artigo com o Enéas, inserido no volume 1, traz uma retrospectiva crítica da trajetória da economia mundial e brasileira entre 1979-2009. Dada a amplitude do tema e a limitação do espaço ficou um pouco denso, mas ainda assim, me parece ser uma leitura agradável para quem se interessa pelo tema. Comentários serão muito bem vindos.



1979-2009: Ascensão e Queda do Capital Financeiro

sexta-feira, novembro 12, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Resgate da economia irlandesa em curso; por André Scherer

O resgate da economia irlandesa não vai esperar para 2011, ao que parece. Com o custo de rolagem da dívida irlandesa superando os 8%, a União Europeia está aproveitando o G-20 para antecipar o resgate. Trata-se de uma das mais delicadas operações desde o início da crise mundial e, certamente, envolverá o European Financial Stability Fund (EFSF), criado no primeiro semestre para tentar conter o contágio da crise grega aos demais países fragilizados do continente, em conjunto do recursos do FMI.

Vamos acompanhar de perto essas tratativas e seus resultados, os quais poderão ser determinantes nos rumos e no ritmo da crise financeira mundial nesses próximos meses.

Mais detalhes:



quinta-feira, novembro 11, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
11 de novembro de 2010
COLUNA DAS QUINTAS


DILMA E
A TEMPESTADE
SOBRE O CÂMBIO
Por Enéas de Souza



Naturalmente, que vencida a etapa das eleições no Brasil, volta a preocupação sobre o cenário mundial onde o Brasil está inserido. O jogo está pesado. Isto porque as finanças continuam dominando nos Estados Unidos, e a solução de Bernanke e do FED (pôr 600 bilhões no mercado comprando títulos públicos até a metade do ano que vem) é tentar equacionar o seu problema com uma inflação que vai mudar a paridade do dólar em relação às demais moedas. É uma solução financeira porque não se dá no âmbito de estímulos fiscais (como queria Paul Krugman), dirigidos, prometidos para áreas onde os investimentos seriam fundamentais. Não; são recursos que vão entrar na área financeira e serão aplicados em títulos, naturalmente em mais festa da especulação. Com isso uma nova alavancagem importante surge para as instituições financeiras. E estas, dada as condições complicadas nos Estados Unidos vão se dirigir para o exterior, Hong Kong, Brasil, Alemanha, ou algum lugar que tenha possibilidades de rendas. Mas o que mais importa é que a expansão do investimento no setor produtivo local parece excluído. O sonho do retorno de Keynes, no crepúsculo das finanças, continua sendo uma ilusão ao longe.

YUAN NA SOMBRA DO DÓLAR

Ora, esta manobra é uma manobra interessante dos USA, pois o aumento da massa monetária terá como finalidade imediata baixar o dólar e, além de fornecer recursos para as finanças, este aumento vai permitir maior competitividade das suas exportações. E, portanto, melhorar seu persistente déficit no comércio exterior. Na verdade, trata-se de combater também a China, só que a China, de posse de forte capacidade de jogo de política econômica e com um domínio sobre o nível do yuan, está pronta para fazer o lance mais normal possível: acompanhar o caminho do dólar. E logo, como não trabalham pelo mercado, se o dólar baixar, eles também vão baixar o yuan.

G-20, O LUGAR DO BANG-BANG CAMBIAL

É como aquele filme de faroeste “OK Corral” monetário. E naturalmente, o Brasil tem um interesse especial sobre o assunto. Não se pode ficar sem fazer nada diante de um combate, que pode ser sem tréguas, entre USA e China. E é por isso que Dilma está em Seul: para sentir, para poder conversar, mais dificilmente negociar e - se for o caso - orientar o ministro Mantega sobre suas possíveis idéias. O fundamental é ter estratégia, e o Brasil a tem. A explícita é a de tentar incentivar que a dupla que dirige o mundo se acerte e consiga um entendimento razoável. A implícita é ter um plano para o caso dos países não se entenderem, como é o mais provável. Então, existe um arsenal de medidas que podem ser tomadas, porém a principal, a proteção decisiva – e factível de imediato – é o controle de capitais.

O QUE É QUE A DILMA ESTÁ OLHANDO?

A necessidade fundamental é evitar a invasão de capitais que, como gafanhotos, podem arrasar parte da economia, alterando fortemente o mercado financeiro, como também o mercado de ativos reais. Criando, num primeiro momento, por tabela, a apreciação da nossa moeda. E, claro, oportunizando maiores níveis de importações por parte do Brasil e tendo dificuldades crescentes nas exportações. E com um problema adicional, um segundo mais tarde, a bomba explodindo no balanço de pagamentos, na zona das transações correntes. Ou seja, um verdadeiro desastre. Aí sim, aquela pneumonia que foi apenas uma marolinha na crise de 2007, acamparia nos pulmões nacionais agora em 2010/11. Assim, tudo que parecia ir bem, acabaria mal. O inverso do título da peça de Shakespeare.

O que é que Dilma está olhando? São as nuvens que anunciam tempestade sobre o câmbio, mas não somente o câmbio brasileiro. Porque vamos atravessar uma fase complexa, onde o que está na mira no conflito das finanças e da produção é sem dúvida a moeda. A moeda construída pelo capital financeiro, na verdade, a moeda financeira, onde o fundamental era a combinação da taxa de juros do FED com os títulos do Tesouro Americano, que garantiam – ah, garantiam! – o dólar como o dinheiro que sustentava a função monetária mais importante, a de reserva de valor. Pois isso foi jogado na lixeira com a crise, com a baixa dos juros americanos, com as importações sendo maiores que as exportações, etc. O dólar hoje é uma moeda que saiu do rock da especulação desagradavelmente bêbada. Significa imperiosamente a necessidade não só de resolver a economia globalizada (daí a necessidade de uma moeda padrão), como de fornecer condições para uma trajetória da economia que não atente contra as demais nações.

O JOGO DE CINTURA É UMA QUESTÃO DE DEFESA

Certamente, Dilma, por ser economista, já tem um horizonte de solução país, mesmo dentro do governo Lula. Mantega tem sido hábil na condução da política econômica. E o que importa ver é que a crise da globalização e da economia americana tem que ser solucionada sem que o futuro do Brasil seja abalroado. E na economia, sobretudo na crise, as soluções surgem dos conflitos políticos. E é inequívoco e solar, que as finanças, se puderem, devastam o mundo, mas se salvam. E hoje, se nos Estados Unidos elas comandam, com a queda do neoliberalismo, a concertação de instituições financeiras não tem mais o mesmo domínio sobre o mundo – e sobre nós – como teve no governo de FHC ou mesmo durante parte do governo Lula. A luta dos capitais por espaço se tornou mais impetuosa. Já os nossos banqueiros e empresários não farão mais tanta pressão como fizeram nos anos 90 para o avanço do livre mercado. Um pouco de Estado acham que fará bem, para eles inclusive. É uma questão de defesa. Enfim, o mundo mudou, e é isso que Dilma já sabia e está vendo. Pela primeira vez nas histórias das crises mundiais, nós, o Brasil, estamos com razoável jogo de cintura.

PROTEÇÃO CONTRA A CRISE DA MOEDA

Mas temos que estar de olho na fúria tonta dos capitais das finanças. Por isso, a nossa proteção passa por conter os fluxos volumosos de recursos ávidos de grana fácil. E com isso proteger nossa moeda nesse momento selvagem do câmbio que pode virar uma vasta tempestade. E trabalhar com os demais países para a recomposição estrutural do capital financeiro. Um esforço de Estado e de mercado, do setor público e do setor privado para mudar a hegemonia de financeira para produtiva. E, ao mesmo tempo, saber que a “economia mundo”, como chama Braudel, se polarizará no futuro entre Estados Unidos e China. De qualquer forma, Dilma estará vendo o deslizar deste navio globalizado para encontrar um porto monetário razoavelmente seguro, fora da novidade esperta americana, que hoje diz do dólar para o mundo “toma que o filho é teu”. Trata-se então de conseguir que a moeda transite da fraqueza do dólar para um sistema misto (dólar, euro, yuan, libra, etc.) ou mesmo o Direito Especial de Saque, ou... O Zoellig, o sub do sub do sub, assim apelidado pelo Lula, hoje no Banco Mundial, está até propondo, de uma forma ou de outra, incorporar “a relíquia bárbara”, o ouro. É preciso, pode ver o leitor, é necessário encontrar uma referência monetária. Seja como for, a guerra das moedas já está exibindo o seu filme, que pode até receber o título poético de “O Mundo da Vênus Platinada”. A moeda tem sedução e é uma construção social, faz estrondos na geoeconomia e cala fundo na geopolítica. Por essa razão, enquanto as feras rugem e não se acertam, cabe ao Brasil assumir uma posição não-liberal. O objetivo está claro: controle do fluxo de capitais para evitar que a tempestade caia sobre o nosso câmbio. A favor da nossa economia produtiva e contra a especulação financeira internacional.


terça-feira, novembro 09, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Irlanda vai pedir auxílio ao FMI-UE... em 2011

A grande história de 2011 já está escrita desde hoje. No verão europeu próximo a Irlanda será obrigada a demandar ajuda financeira ao FMI ao EFSF, fundo de auxílio da União Europeia. O déficit público irlandês para 2010 está em 32% do PIB... isso, 32% em um ano, agravado pelas recorrentes necessidades de aportes aos bancos locais. A estrutura da dívida permite que até o meados de 2011 a situação esteja sob relativo controle, mas a partir daí novos recursos serão necessários. O custo hoje de um "seguro" (CDS) contra default da dívida irlandesa se encontra em 600 pontos base, ou seja, 6% acima do custo relativo a dívida alemã... e os problemas hipotecários (a Irlanda observou uma das principais bolhas imobiliárias no mundo até 2007) estão apenas começando por lá. A situação da Europa é calamitosa a médio prazo.

Leia mais sobre as dificuldades da economia irlandesa (o ex "tigre celta") neste artigo publicado no Irish Times http://www.irishtimes.com/newspaper/opinion/2010/1108/1224282865400.html