quarta-feira, fevereiro 25, 2009

OBAMA E O PRIMEIRO LANCE DE DADOS

Por Enéas de Souza



Acabei de assistir o pronunciamento do presidente Obama. Impressionante o apoio dos congressistas e a capacidade dele de dar esperanças, tentando por essas últimas nos trilhos do sonho americano. Expôs, de forma coerente, uma estratégia. Talvez a parte problemática – e certamente será um das pedras mais difíceis de ultrapassar – seja a quase indomável questão financeira.

Vamos tentar fazer um primeiro balanço de sua proposta global. Em primeiro lugar, o que parece importante, tem a ver com o seu fundamento político. De um lado, reorganizar a liderança e o Estado americano, e de outro, ter como apoio básico dessa reorganização o povo dos Estados Unidos. “Não somos pessoas que desistam”. Isto significa dizer que o Estado vai ter um presidente efetivo e que ele vai liderar e comandar, o oposto do que fazia George Bush. O novo presidente não vai deixar o Estado ficar dividido entre as finanças e os ministérios subordinados a sua influência (Tesouro e FED) e a indústria bélica e a energia tratando das guerras do Iraque e do Afeganistão, onde as empresas privadas militares tinham um papel considerável.
Obama pretende construir totalmente um outro mundo. Liderar e reorganizar o Estado, fazer um orçamento realista, supervisionado, mas sobretudo, honesto, transparente em última instância. E com um o objetivo explícito: o retorno do crescimento e da hegemonia americana. Para tal tem uma estratégia clara: o primeiro passo é a consolidação de uma organização da economia em torno da área de produção, com o Estado tornando-se o investidor inaugural. Definiu muito profundamente: o fundamental passa a ser uma visão de longo prazo. É esta que tem que prevalecer sobre os ganhos de curta duração. No primeiro momento, o objetivo fixado é 3 milhões de empregos em 2 anos.(Bem como já falamos em outra postagem, isto só poder ser apenas um começo, porque o número de desempregados é da ordem 11 milhões e com mais 5 milhões em “part-time”. Ou seja, o entusiasmo pelo gesto não deve esconder o vasto e enorme e amplo perfil do desemprego. Bernanke mesmo, o presidente do FED, já prognosticou uma taxa de 9% para este perfil no final de 2009. O time de Obama vai ter que jogar muita bola para reverter este quadro do desemprego).

Dada a resolução estratégica de retorno da presença do Estado (defendida com exemplos históricos) e se posicionando, estrategicamente, em favor da produção e do emprego, o segundo passo é retomar a funcionalidade dos bancos, assinalando como tema prioritário, o crédito, pois não existe economia capitalista sem crédito.Obama fala na regulação, fala num fundo de empréstimo para carros, pequenos negócios, energia, etc., mas, o problema chave (e o André e eu já escrevemos sobre isso) é o seguinte: sem uma reformulação do sistema financeiro, do Banco Central, dos atores bancários e não bancários, do controle e da supervisão das atividades bancárias, de como vai solucionar o buraco volumoso, assustador e ainda desconhecido dos ativos podres enfiados nos bancos, o sistema não vai funcionar e a questão do crédito não chegará a se resolver. (Bem continuo a achar que o Obama nesse ponto está perdido. A pressão das finanças deve continuar muito forte. E não serão as finanças que vão resolver contra elas, mesmo que elas tenham se tornado disfuncionais. Ou como diria Hegel: irreais).

Porém agradou bastante uma certa definição de uma política econômica para a indústria, a busca de sustentá-la em energias renováveis e limpas, a integração da educação na reformulação de um novo desenho e uma nova trajetória tecnológica desta indústria que virá. Sua visão passa por uma nova reconfiguração da indústria automobilística, um dos centros de acumulação da economia americana. Claro, há um apoio solar para a saúde, que é uma questão econômica por vários lados, mas é também uma questão social, e um apoio aos cidadãos diante dos absurdos aumentos dos preços dos planos face aos salários.

Vem embutida nesta estratégia, uma tentativa de reformular a economia dos Estados Unidos na sua ligação com o resto do mundo, a China evidentemente. Obama trata de situar a questão em duas proposições. De um lado impedir o deslocalização das indústrias e interromper os incentivos estatais para aquelas que se instalarem no estrangeiro. De outro, inverter o que aconteceu no período anterior, promover uma nova política industrial que leve, não a importação, mas à exportação de produtos americanos para o mundo. Ora, seguindo essa manobra, está em marcha uma ruptura com a política dos déficits gêmeos: os Estados Unidos, que importavam dos demais países, geralmente de empresas americanas que se instalavam no exterior, e ao mesmo tempo, absorviam os saldos comerciais destas nações vendendo títulos do Tesouro Americano, pretendem interromper esse processo. O protecionismo vai entrar na ordem do dia por um bom tempo.

Há um passo na estratégia Obama que vai ser difícil de fazer: trata-se da transformação da dívida e do déficit americano em níveis aceitáveis para que se construa uma política mais caseira, a América para os americanos. Daí a grande ênfase no controle do déficit. Só que aí Obama entra num paradoxo: precisa gastar mais para recuperar a economia produtiva e solucionar os bancos, versus, controlar mais o déficit para poder se liberar dos países que fornecem os recursos ao Tesouro. É nesse paradoxo que se coloca a questão da moeda mundial, o dólar.

De qualquer forma, está sobre a mesa uma proposta de estratégia, o que significa que os Estados Unidos tem um norte. Como acho que a questão dos bancos, por exemplo, não vai funcionar, se isto de fato acontecer, a estratégia terá que ser reajustada, reproposta e isto faz parte do jogo político. Naturalmente, que esta concepção pode causar inúmeros problemas a outros países, detendo a famosa mundialização, seja por um protecionismo vigoroso, seja por obrigar aos demais países a reestruturar suas próprias ações, etc. Mas esta é a função de um país líder que quer continuar a ser líder. De qualquer maneira, Obama se encaminha, com sua simpatia natural, para ser um presidente que comande, mas nós não sabemos ainda a sua proposta para uma nova ordem política e econômica. Proporcionou apenas uma proposta para os Estados Unidos, onde já se advinha repercussões para o mundo, mas que ficará mais claro na discussão com o G-20. Todavia uma coisa já se sabe neste tópico: para instalar esta nova ordem ele vai ter que ter o porte de Lincoln ou de um Roosevelt. Ou talvez uma combinação dos dois.

2 comentários:

André Scherer disse...

Enéas, assisti ao discuros e achei muito, mas muito bom mesmo. Ficou claro que ele tem um projeto de mudança radical da situação que herdou. Ele delineia esse projeto a partir da energia, saúde e educação. Falou nos novos produtos que surgirão dessa iniciativa. Ele se afastou por completo da visão neoliberal ao dizer que a história mostra que um país se desnvolve sob a hégide de um projeto. Reafirmou a necessidade de criação de liderança americana na indústria. Disse que vai conceder incentivos fiscais para as empresas dos EUA que não exportarem empregos; mas criticou o protecionismo (ponto ambíguo, mas fica óbvio que os EUA vão sim adotar medidas protecionistas ao menos enquanto um novo padrão industrial estiver ainda em gestação). Falou contra as figuras dos banqueiros e começou um movimento pelo retorno dos bônus pagos pelas empresas falidas aos banqueiros nos últimos anos (só a Suíça havia feito esse movimento até agora). Enfim o plano apareceu por completo. E o processo de desenvolvimento vai ser conduzido pelo Estado. Mas, fica a questão: como vão se livrar do poder dos banqueiros? Não falo na questão fiscal por que ela pressuporia um excepcional crescimento da economia dos EUA já a partir de 2010, e isso não deve acontecer...

Anônimo disse...

Caro Prof. Enéas

Fiquei muito contente quando soube do Blog. Fui logo para devassá-lo por inteiro, está muito bom!! A propósito do discurso do Obama, lí comentários na imprensa local e nacional, mas ao ler tuas considerações percebi logo a diferença: o "velho e bom método de análise" a partir de uma visão crítica e totalizante da "crise do Estado Americano".

Parabéns e um grande abraço

do amigo Villa