terça-feira, fevereiro 10, 2009

O Plano Geithner: qual plano?

O incrível está uma vez mais ocorrendo nessa crise. O secretário Geithner apontou quatro pontos para um possível plano de salvação do sistema financeiro e não detalhou nenhum! Deixou a nítida impressão que os EUA tem ainda muito dinheiro para gastar com planos de resgate, mas que não sabem o que fazer com esse dinheiro. US$ 3 trilhões já foram para o ralo e, com os planos anunciados nessa semana, outros US$ 3 trilhões terão o mesmo destino. A mera idéia de que será criado um portal na internet onde serão divulgadas as ações, os resultados e até mesmo os contratos comprados pelo governo norte-americano junto ao setor privado pode até ser simpática, mas é simplesmente absurda! Apesar da retórica da transparência, o sistema funciona na mais profunda opacidade e é incapaz de suportar esse grau de exposição da realidade. Não vai acontecer da forma como Mr Geithner colocou por que traria uma corrida bancária sem precedentes acoplada a uma crise institucional. 
Os quatro pontos de Geithner são: a) promoção de stress tests com os maiores bancos norte-americanos para estimar o tamanho do "lixo tóxico" nos mais diversos cenários (basta a publicação de uma relatório oficial sobre isso e os bancos com maiores dificuldades passarão a valer centavos de dólar; não foi por outro motivo que as bolsas caíam enquanto o plano era anunciado, todo mundo sabe que a combinação stress tests com ampla publicidade é dinamite pura); b) criação de um fundo público-privado para a compra de ativos tóxicos; c) elevação do valor do TALF (ver http://econobrasil.blogspot.com/2009/02/talf-pode-desbloquear-o-credito.html) para US$ 1 trilhão - no mar do nada, ainda é a medida mais efetiva e d) a divulgação "em algumas semanas" de um plano de ajuda aos compradores de imóveis em dificuldades. 
As questões mais espinhosas (como serão avaliados os ativos insolventes?; sob que condições poderão os agentes privados se habilitarem a participar dos programas?; como afinal serão modificados os contratos hipotecários?, etc.), que constituíriam minimamente um plano, não foram sequer mencionadas. Ao contrário, houve mais um show de ideologia barata, com a ênfase na idéia de que o papel do governo é promover a potencial participação de dinheiro rivado no resgate do sistema financeiro. 
Ficou a certeza de que os EUA têm dinheiro (por enquanto ao menos), mas não tem nem a estratégia nem um plano. A recepção ao programa de intenções governamental foi péssima. E segue crescendo a pressão por medidas de nacionalização dos principais bancos dos EUA (ver links abaixo, M. Wolf abre sua coluna perguntando se a presidência Obama não teria acabado ontem?; Roubini reafirma a idéia que já havia levantado aqui no blog, de que a nacionalização dos bancos insolventes é, paradoxalmente, a verdadeira solução "capitalista" para o problema). 
O pacote foi amplo em termos de recursos, mas pequeno quanto ao seu escopo, sem falar em sua inconsistência.

Links relacionados:
Opinião de Martin Wolf e de Roubini:


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