sábado, fevereiro 28, 2009

Protesto contra efeitos da crise reúne 120.000 pessoas na Irlanda

A Europa Ocidental se preocupa como Leste Europeu e com a possibilidade de insolvência de países como a Irlanda, onde o governo segurou ativos bancários em um volume mais de quatro vezes superior ao PIB... O artigo fala em uma situação "impensável"!
Continuo apostando em uma crise do Euro em 2009 na medida em que os desafios aparentemente insuperáveis se avolumam perigosamente.
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Gráficos da Crise: milhas rodadas (EUA)

Pressão sobre os bancos (EUA)

Relatórios divulgados nesta sexta-feira mostraram que os balanços dos principais bancos norte-americanos sobreavaliaram empréstimos na seguinte proporção:
- Bank of America - US$ 44 bilhões;
- Citigroup - US$ 18,2 bilhões
- Wells Fargo - US$ 14 bilhões
Isso representa o reconhecimento de novas perdas, ainda não contabilizadas.
Algum prognóstico para o desempenho das bolsas na segunda-feira caso não haja mais uma intervenção salvadora do governo?

Fundo de pensão? Quebrou!

Os fundos de pensão foram um componente central no processo de dominação financeira. Favorecidos fiscalmente pelo Estado, eles passaram a captar o grosso das poupanças trabalhadoras e, com o avanço dos índices bursáteis e modificações laxistas em sua regulamentação, passaram a se direcionar cada vez mais a investimentos mais arriscados e voláteis, como as ações. Era um modelo absolutamente tautológico, em realidade, e, ainda mais, um esquema ponzi: como as bolsas têm apresentado maior retorno, os gestores dos fundos direcionavam maiores recursos às bolsas, as quais assim alimentadas, apresentavam altas continuadas, etc... Picaretagem da grossa. Tudo isso sob estímulo dos governos.
Uma outra função ainda mais importante era cumprida pelo esquema. Ele soldava socialmente os interesses dos trabalhadores aos interesses dos proprietários-acionistas, fazendo com que aqueles aceitassem com docilidade a brutalidade destes! O resultado era o avanço na disparidade da distribuição dos ganhos, com os salários penalizados no processo em nome da promessa de uma aposentadoria dourada (é interessante notar que o neoliberalismo sempre se baseou na troca "cristã" do sacrifício presente pela promessa do paraíso futuro). Hegemonia é fazer o outro adotar o teu interesse como se dele fosse ...
Avisos não faltaram quanto à óbvia fragilidade do modelo adotado e aceito pelos trabalhadores. Em um livro emblemático e demolidor, já ao final dos anos 1990, o economista francês Frédèric Lordon chamou o processo de "armadilha para imbecis" (Fonds de Pension: piège à cons). Qualquer analista da situação com um mínimo de senso sabia que essa enorme pirâmide era frágil e que seu desabamento levaria junto esses recursos. E que o Estado seria chamado a garantir ao menos parcialmente a aposentadoria dos enganados pelo sistema. Nesse sentido, vale a pena ler a excelente reportagem sobre o que está ocorrendo no sistema de pensões públicas canadense, como um exemplo daquilo que já está correndo nos EUA. Segundo o artigo, "o modelo quebrou".
Mas, não serão as perdas dessa imensa fraude mundial de 30 anos muito grandes até mesmo para os mais poderosos Estados mundiais? O avanço no preço do ouro dá mostras de que alguns começam a se preocupar seriamente de que a resposta seja sim.
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ENTRE SAN JUAN E MENDOZA, TEM A VIAGEM

Por Enéas de Souza


Tenho tentado aqui desenhar o possível caminho da economia americana; e com algumas pinturas, também o da economia mundial. Um exercício de imaginação baseado nas tendências das forças econômicas e suas potencialidades para responder a crise. Tenho colocado, com cores quentes, que estamos saindo de um modelo de acumulação financeira para um modelo de acumulação produtiva. Então, temos no mapa o ponto de partida e vislumbramos o ponto de chegada. O problema é a da passagem de um ponto a outro, como aquela do ovo à omelete. E o grande passo foi dado por Obama e sua equipe: definir o plano de vôo e a estratégia a seguir. Ou seja, o governo disse: basta de desenvolver a esfera financeira do capital. Mas, é claro, que não basta dizer que o bom, que o doce, que o dinheiro do almoço e do jantar das pessoas virá da esfera produtiva. Não basta somente pensar em investir nela, para que tudo saia bem, para que o mundo econômico das finanças e dos serviços se construa, para que o emprego resplandeça. Porque a produção também está vindo a baixo. E o pior: temos uma espiral descendente e a pendente negativa continua sucumbindo. A reversão ainda não se deu, ainda tem muito espaço para chegar ao chão do ciclo.

O leitor duvida? Olhe companheiro, já estamos falando à náusea do movimento entrópico das duas esferas citadas. Aonde dominam as finanças, além dos dinamitados ativos financeiros que continuam a ocupar a moita, ou seja, o balanço dos bancos, a gente se acautela diante dos hedge funds e dos fundos de pensões, ameaçados que estão por títulos sem valor, pela queda progressiva dos preços das ações e pela volubilidade das commodities. O vento do temporal ainda está presente. A verdade é que o Banco Central (FED) está atento a tudo isso e existem recursos para ir girando o barco. Dinheiro público naturalmente. Mas a religião econômica é como a religião católica: não basta comprar as indulgências ou receber recursos do FED para chegar ao caminho do céu. Depois desta asa da economia temos a esfera produtiva e seus dois núcleos de acumulação, os imóveis e os automóveis, que desabaram, sem piedade, como lutadores nocauteados. E a queda destes mercados produziu um efeito catastrófico sobre a cadeia que sustentava produtivamente estes dois centros. Portanto, examinando o corpo fraturado da economia, vemos que estamos no meio de um processo de desvalorização do capital. As finanças desprecificando os ativos financeiros e a produção torrando as mercadorias ou não podendo vendê-las. Basta ver a queda dos preços dos imóveis e o tempo necessário para que o estoque de novas habitações seja absorvido pelo mercado. (Dê uma olhada no gráfico de quinta-feira do André).

Então, temos o ponto de partida: a decomposição do modelo de acumulação financeira, que funcionava com as finanças puxando o consumo de forma empinada, pois os salários ajudados pelas rendas financeiras o punham lá no alto. E como o consumo tinha vigor, as empresas se destacavam em desenhar novos projetos de investimento. Pois este modelo tombou, vencido, pelo excesso de especulação, que é a essência da atividade financeira. E o que o Obama e sua equipe fizeram foi montar uma estratégia para inverter este modelo. Antes de tudo, dar prioridade ao investimento produtivo e não à aplicação em papéis. Como as empresas estão receosas e a lucratividade esperada está no calcanhar, o jogo é tocar na frente o investimento público para impulsionar a dinâmica econômica. Do investimento público virá o investimento privado e como uma onda do mar que chega à praia, o efeito atingirá o emprego. E o consumo, como um balão de São João, poderá voltar a crescer e a subir. E sem deixar de ter mercados próprios, as finanças estarão articuladas ao setor produtivo, via a expansão do crédito.

Até mesmo desenhei, dado o esfalfamento cíclico da atual estrutura tecnológica, um novo paradigma industrial, que começasse pela renovação da infra-estrutura energética com efeitos tecnológicos sobre todo o sistema. Mas o que gostaria de frisar, de salientar e de trazer à discussão é o problema do tempo. Do tempo-rei como diria o Gilberto Gil. Ou seja, a passagem de um modelo a outro exige uma transformação que tem que percorrer uma viagem, um caminho, um itinerário. A passagem da semente a fruto requer metamorfoses mais ou menos demoradas. Pois é o nosso caso: quanto tempo levará para que os capitais se desvalorizem, tanto o financeiro quanto o produtivo? Quanto tempo levará para que se reformulem as tecnologias do novo padrão industrial? Quanto tempo levará para que se consiga armar um novo sistema financeiro? Quanto tempo levará, mesmo com apoio público, para que as forças que fazem o ciclo progredir alcancem a magia do círculo vicioso? Quanto tempo levará para que se invertam as estruturas do modelo financeiro de acumulação? E, igualmente, é preciso saber que este modelo financeiro trabalhava internacionalmente com dois déficits gêmeos e o modelo produtivo vai ter que trabalhar com a exportação tanto produtiva quanto financeira. Logo, quanto tempo levará para que a torção de um modelo a outro dê origem a uma nova economia internacional? Então, os apressados das soluções têm que compreender que entre o ponto de partida e o ponto de chegada existe a dimensão da trajetória. E ao contrário da semente que chega a fruto, na economia, a passagem de um modelo a outro se dá por meio de duros combates sociais, de acertos e erros, de avanços e de recuos. Sim, já avançamos alguma coisa, talvez o básico: temos estratégia. Temos quase tudo, falta apenas a versão material desta estratégia. O que é a mesma coisa que dizer que falta tudo: falta livrar-se do declínio cíclico e falta construir uma longa e imprevisível trajetória.

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Four bad bears...

Problemas para o "novo mundo"

O Enéas e, em certo sentido, eu, temos ressaltado tanto a importância do projeto Obama como a própria necessidade capitalista de alteração no paradigma tecnológico vigente a partir da desfinanceirização da economia que essa crise impõe. Acreditamos que o que foi válido nos últimos 30 anos agora, ou deixará de ser, ou será rearranjado em um novo sistema.

O problema é que ainda estamos muito longe de começar a movimentação nesse sentido. Tenho salientado - e o Enéas tem concordado em suas intervenções - que, sem novas regras para a questão financeira, nada feito. É necessário notar que todas as atividades sob o capitalismo dependem do crédito para serem promovidas e que a forma de concessão de crédito que vigorou após os anos 1980 - colocação de títulos no mercado a partir de bancos de investimento comprados por fundos institucionais; fundos de venture capital para empresas inovadoras, aportes especulativos de fundos hedge nos mercado ligados as artes (cinema, artes visuais, etc.) - morreu sob o signo do necessário pagamento de dívidas e ressarcimento de prejuízos que estão sofrendo essas instituições. Ou seja, se antes bastava um projeto supostamente lucrativo, agora até mesmo esses têm dificuldades para encontrarem financiadores.

De outro lado, a incerteza quanto aos rumos da atividade econômica é total nesse momento. O dado de uma queda de 6,2% no PIB norte-americano divulgado hoje e a perspectiva de aprofundamento dessa queda que venho alientando em diversas postagens nesse blog, em conjunto com os estarrecedores dados das quedas em economias asiáticas e aprofunda recessão européia, mostram que ainda não há sinais mínimos de estabilização nesse movimento. Muitos têm falado sobre a desproporção da comparação da situação atual com a Grande Depressão. É óbvio que hoje temos ainda menos desempregados e a atividade não despencou como nos anos 1930. Só que aquela situação é passado e a atual encontra-se ainda em curso e agravamento.

Resumindo: mesmo os projetos e intervenções fiscais do Estado nesse contexto são insuficientes, pois, de um lado, os financiamentos estão escassos e caros, sua forma futura ainda não está definida e, de outro lado, as perspectiva de ganhos para o capital estão reduzidas pela depressão atual. Em linguagem keynesiana, a eficiência marginal do capital é bastante pequena. Nessa perspectiva, é evidente que os investimentos privados estarão postergados até que haja um mínimo de clareza quanto ao seu financiamento esua lucratividade e isso vai levar a economia mundial há uma crise que se prolongará ao menos até 2011 (isso que não falei na luta política que se desenvolverá entre ganhadores e perdedores no mundo da "economia real" pela apropriação dos incentivos públicos). Se tudo der certo, o projeto Obama começará a surtir efeitos a partir daí, mas esse é o cenário hiper-otimista.

APRIL LOVE

Por Enéas de Souza



As declarações de Obama de que vai negociar um novo desenho do mundo econômico, em abril, no G-20, nos dá uma perspectiva de novas emoções no teatro das relações internacionais. E indica que o próximo período, pleno de peças dramáticas, vai ser um misto de atos de imposição e de negociação. Porque? Num sentido, os Estados Unidos, a partir do discurso de Obama, vão mudar completamente o jogo; como num campo de futebol, eles vão passar a bola do lado direito para outro lado, o lado esquerdo. Pretendem, fruto principal do presente desafio, transformar uma economia de acumulação financeira numa economia de acumulação produtiva. Percebem os críticos, os analistas e os leitores, que estamos na véspera histórica da tentativa de uma mutação estrutural profunda. O mundo vai mudar e a construção passará por um longo período de avanços e recuos.

Veja então o leitor: se seguirmos na direção do longo prazo, tudo vai estar sustentado, a meu ver, na substituição da infra-estrutura energética; de tal modo que vamos caminhar, nos próximos anos, para uma matriz composta de diversas energias. Uma matriz chamada de mista. Já que ela resultará da combinação das energias eólica, solar, nuclear, petrolífera, ou do hidrogênio, até atingirmos uma nova matriz com outra dominância. E essa marcha terá como efeito fatal, impulsionar e revolucionar a tecnologia de várias indústrias. Mesmo porque essas próprias indústrias terão que perseguir novos métodos, novas formas produtivas, novos produtos; não há como esconder, os seus lucros indispensáveis estão caindo. E os mercados precisam de produtos mais competitivos para que surjam os preciosos resultados que os empresários almejam tanto.

Na nossa civilização, um dos centros básicos da acumulação de capital é o abrangente mercado do automóvel. Qualquer mudança neste setor provoca a alteração em muitas coisas, inclusive no perfil de nossas cidades. Claro que no atual estado das tecnologias, a questão do aquecimento global vai exigir medidas e atitudes e instituições e empresas para suprirem as questões da área. Como se vê o que está em causa é a busca de um novo paradigma industrial - e até mesmo uma nova sociedade - cuja formatação os americanos esperam liderar.

A metamorfose do modelo atual de acumulação transfigura igualmente o conjunto dos mercados internacionais. E com isso as relações entre as nações. Relações que darão origem a novas posições dentro da hierarquia de uma possível e futura ordem, que não será alcançada sem perturbações, sem atritos, sem fragores. O que significa a reformulação e a criação de instituições para-estatais no campo internacional, como o FMI por exemplo, que terão que regular, fiscalizar, conduzir, direcionar esses novos processos econômicos. Só esse festival colorido de aspectos revela que deverá haver inúmeras e intensas discussões, se não combates, até mesmo conflitos demorados e belicosos para que um novo arranjo se estabeleça tanto na economia quanto na política. Este teatro shakespeariano começa, sob intensa expectativa, na reunião do G-20, como já dissemos logo ali em abril. Os mais cínicos e os mais céticos já dizem que esta peça tem nome – e nome irônico: April Love.

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

Gráficos da Crise: estoque de casas novas (EUA)

Péssimos indicadores - EUA

Ontem foi a vez das exportações de janeiro no Japão e em Taiwan apontarem para uma queda superior a 40% em janeiro contra o mesmo mês do ano anterior.  Hoje, a recessão nos os EUA  segue se aprofundando, com os pedidos de seguro desemprego crescendo novamente, as encomendas de bens duráveis caindo pelo sexto mês consecutivo, a venda de casa novas caindo em ritmo ainda mais acelerado (o que aumenta o estoque de moradias á venda e pressiona ainda mais os preços) e a GM apresntando um prejuízo estonteante de US$ 9,4 bilhões no quarto trimestre. 

Razão de sobra para otimismo nas bolsas mundiais. 

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Mais "pessimismo"

O prognóstico do LEAP ganhou ontem as páginas do Le Monde, o que, por si só, demonstra o momento de incerteza pelo qual passa o planeta.

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TODO PODER PASSA PELO SONHO AMERICANO
Por Enéas de Souza


A luta econômica atual é a divisão que está ocorrendo entre as finanças, a produção e os serviços, marcando uma divisão no setor empresarial. Esta divisão se dá em razão da crise do mercado financeiro e da incapacidade das instituições bancárias e das instituições financeiras não-bancárias de reorganizarem o setor, entrando numa crise sem precedentes. Naturalmente, que as finanças tinham uma forte hegemonia no governo de Bush. Mas hoje dada a sua imensa necessidade de recapitalização; dada a existência de balanços contaminados cuja dimensão ninguém sabe qual é; dada a liberdade de ação diminuída cassando as vantajosas possibilidades de alavancagem; dada a interrupção da infinita possibilidade de criar ativos para serem negociados sem garantias efetivas; o sistema financeiro perdeu, como uma árvore depauperada, o comando da economia. A sua desestruturação levou não só a queda substancial dos seus rendimentos nas suas aplicações, mas também a sua quase total retirada do fornecimento de crédito aos setores necessitados. Contudo, esta área da economia ainda tem balas para ferir, talvez já não tenha nenhuma munição pesada, talvez seu estoque esteja terminando, mas não perdeu definitivamente o seu poder político, ainda tem capacidade de negociação.

Todos esses aspectos se notam fortemente no quase silencio do discurso de terça-feira de Obama, quanto ao destino do setor; nas oscilações de comportamento de Tim Geithner, o secretário do Tesouro; e nas atitudes do presidente do Banco Central, Ben Bernanke, principalmente com a decisão de ontem, de conceder um prazo de seis meses para que bancos em dificuldade arranjem capital. E prometendo, como uma jóia rara, uma outra tolerância: se depois deste prazo, o capital não aparecer, abre-se mais uma oportunidade: estes bancos podem pedir auxílio ao governo. Ou seja, há um lance à brasileira, uma postergação atrevidamente evidente. E nesse jogo político e econômico, os bancos encontram, feras feridas, forças para lamberem as suas feridas e para protelarem decisões que são urgentes.

De uma maneira inarredável e progressiva, as finanças vêem a balança do poder e do governo tomar a direção da área produtiva. Obama deu um vigoroso recado: a economia deve reestruturar-se visando o longo prazo. Indústria, energia, saúde e educação devem trabalhar em conjunto para construir um novo padrão capitalista, um novo paradigma industrial, uma nova sociedade. Se isto é profundamente visível, como se fosse um míssil estratégico, o que não está claro para o público se refere à reformulação financeira, que é uma sombra a ser iluminada. E há duas razões: a primeira é a necessidade de salvar o que se puder e construir um outro sistema financeiro, pois o problema do crédito é a chave do sistema capitalista. E a segunda razão, se pode creditar a brutal resistência das finanças à mudança, seja porque a atual configuração – ou o que resta dela - está lutando em desespero para não ser destruída, seja porque a desocupação social da hegemonia ainda não se fez decisivamente. Observe-se que a área produtiva está ainda muito fraca, num processo cumulativo de convalescença. E por isso, Obama se escuda no povo, ou dito mais claramente, na classe trabalhadora - empregados e desempregados - para aproveitando-se da divisão na ordem social instalada pelas finanças, tentar, com essa nova força, unir a produção e frações do setor serviços. E com essa manobra forçar e fustigar no tempo o setor financeiro, objetivando, no momento possível, a recomposição das finanças na reconstrução da sociedade para um novo padrão de desenvolvimento da economia.

Com esse projeto estratégico, a relação dos Estados Unidos com o mundo também vai mudar. Sendo a indústria o centro do futuro sistema, a posição em relação ao comércio externo passa a ser outra, a ênfase vai ser novamente na exportação. E para que tal aconteça o governo vai dar incentivos fiscais, vai fazer protecionismo e tentar reorganizar, com o G-20, o mundo a esta nova feição. Mas, para tal, as finanças terão que se transformadas. E por enquanto, o processo é de dissimulação, de enrolação, para dar tempo a que o setor financeiro se enquadre ou que as forças triunfantes da nova política possam impor os seus requerimentos. Estamos num luta entre as finanças enfraquecidas e uma produção ainda sem forças. E nesta tensão a se resolver, por causa dos excessos de duas superacumulações, inflação de ativos financeiros e inflação de mercadorias, a metamorfose vai se desembocar na necessidade de reformulação de um outro padrão de acumulação de capital. Há, no entanto, um vulcão caótico a ser organizado, a massa de pessoas que trabalha e que tem medo de perder o emprego ou que já o perderam. Obama se concentra nela e promete recuperar o sonho americano, que é o seu lance de evitar que o fogo caia nesta Roma em processo de desfinanceirização.

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Mais Taleb

Taleb ataca a distribuição de bônus aos banqueiros em sua coluna no Financial Times de hoje. Ele diz que os lucros presentes não são uma boa medida do desempenho de alguém como gestor e que, no setor financeiro, se pagava em realidade para quem assumia mais riscos. E que isso, via competição, levava à demissão dos "prudentes" e a recompensa aos aloucados. Grosso modo, o que Taleb está tacando é a formatação do processo conhecido como "governança corporativa", que funciona, seja para empresas financeiras quanto para empresas não financeiras, nesses moldes. O prêmio vai, como exigência dos acionistas, para aqueles que conseguem lucros no presente e distribuem fartos dividendos. São recompensados com a alta no valor das ações, mas em realidade, adotam políticas de saque às empresas.
Nesse mundo, eram os investidores e gerentes quem viviam do dinheiro das empresas e não o contrário. É interessante que já alertávamos para isso em 2003, comentando o papel da governança corporativa na fraude que se tornou clara com a quebra da bolha tecnológica nos EUA (ver link para artigo abaixo). Essa história se repetiu em proporções gigantescas na crise atual. Acabar com a hegemonia financeira passa por reformas profundas nessa relação entre proprietários e gerentes e, como as empresas estão sumetidas à competição e não podem individualmente corrigirem o rumo sem sofrerem as sanções dos "mercados", somente o Estado pode impor a mudança.
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OBAMA E O PRIMEIRO LANCE DE DADOS

Por Enéas de Souza



Acabei de assistir o pronunciamento do presidente Obama. Impressionante o apoio dos congressistas e a capacidade dele de dar esperanças, tentando por essas últimas nos trilhos do sonho americano. Expôs, de forma coerente, uma estratégia. Talvez a parte problemática – e certamente será um das pedras mais difíceis de ultrapassar – seja a quase indomável questão financeira.

Vamos tentar fazer um primeiro balanço de sua proposta global. Em primeiro lugar, o que parece importante, tem a ver com o seu fundamento político. De um lado, reorganizar a liderança e o Estado americano, e de outro, ter como apoio básico dessa reorganização o povo dos Estados Unidos. “Não somos pessoas que desistam”. Isto significa dizer que o Estado vai ter um presidente efetivo e que ele vai liderar e comandar, o oposto do que fazia George Bush. O novo presidente não vai deixar o Estado ficar dividido entre as finanças e os ministérios subordinados a sua influência (Tesouro e FED) e a indústria bélica e a energia tratando das guerras do Iraque e do Afeganistão, onde as empresas privadas militares tinham um papel considerável.
Obama pretende construir totalmente um outro mundo. Liderar e reorganizar o Estado, fazer um orçamento realista, supervisionado, mas sobretudo, honesto, transparente em última instância. E com um o objetivo explícito: o retorno do crescimento e da hegemonia americana. Para tal tem uma estratégia clara: o primeiro passo é a consolidação de uma organização da economia em torno da área de produção, com o Estado tornando-se o investidor inaugural. Definiu muito profundamente: o fundamental passa a ser uma visão de longo prazo. É esta que tem que prevalecer sobre os ganhos de curta duração. No primeiro momento, o objetivo fixado é 3 milhões de empregos em 2 anos.(Bem como já falamos em outra postagem, isto só poder ser apenas um começo, porque o número de desempregados é da ordem 11 milhões e com mais 5 milhões em “part-time”. Ou seja, o entusiasmo pelo gesto não deve esconder o vasto e enorme e amplo perfil do desemprego. Bernanke mesmo, o presidente do FED, já prognosticou uma taxa de 9% para este perfil no final de 2009. O time de Obama vai ter que jogar muita bola para reverter este quadro do desemprego).

Dada a resolução estratégica de retorno da presença do Estado (defendida com exemplos históricos) e se posicionando, estrategicamente, em favor da produção e do emprego, o segundo passo é retomar a funcionalidade dos bancos, assinalando como tema prioritário, o crédito, pois não existe economia capitalista sem crédito.Obama fala na regulação, fala num fundo de empréstimo para carros, pequenos negócios, energia, etc., mas, o problema chave (e o André e eu já escrevemos sobre isso) é o seguinte: sem uma reformulação do sistema financeiro, do Banco Central, dos atores bancários e não bancários, do controle e da supervisão das atividades bancárias, de como vai solucionar o buraco volumoso, assustador e ainda desconhecido dos ativos podres enfiados nos bancos, o sistema não vai funcionar e a questão do crédito não chegará a se resolver. (Bem continuo a achar que o Obama nesse ponto está perdido. A pressão das finanças deve continuar muito forte. E não serão as finanças que vão resolver contra elas, mesmo que elas tenham se tornado disfuncionais. Ou como diria Hegel: irreais).

Porém agradou bastante uma certa definição de uma política econômica para a indústria, a busca de sustentá-la em energias renováveis e limpas, a integração da educação na reformulação de um novo desenho e uma nova trajetória tecnológica desta indústria que virá. Sua visão passa por uma nova reconfiguração da indústria automobilística, um dos centros de acumulação da economia americana. Claro, há um apoio solar para a saúde, que é uma questão econômica por vários lados, mas é também uma questão social, e um apoio aos cidadãos diante dos absurdos aumentos dos preços dos planos face aos salários.

Vem embutida nesta estratégia, uma tentativa de reformular a economia dos Estados Unidos na sua ligação com o resto do mundo, a China evidentemente. Obama trata de situar a questão em duas proposições. De um lado impedir o deslocalização das indústrias e interromper os incentivos estatais para aquelas que se instalarem no estrangeiro. De outro, inverter o que aconteceu no período anterior, promover uma nova política industrial que leve, não a importação, mas à exportação de produtos americanos para o mundo. Ora, seguindo essa manobra, está em marcha uma ruptura com a política dos déficits gêmeos: os Estados Unidos, que importavam dos demais países, geralmente de empresas americanas que se instalavam no exterior, e ao mesmo tempo, absorviam os saldos comerciais destas nações vendendo títulos do Tesouro Americano, pretendem interromper esse processo. O protecionismo vai entrar na ordem do dia por um bom tempo.

Há um passo na estratégia Obama que vai ser difícil de fazer: trata-se da transformação da dívida e do déficit americano em níveis aceitáveis para que se construa uma política mais caseira, a América para os americanos. Daí a grande ênfase no controle do déficit. Só que aí Obama entra num paradoxo: precisa gastar mais para recuperar a economia produtiva e solucionar os bancos, versus, controlar mais o déficit para poder se liberar dos países que fornecem os recursos ao Tesouro. É nesse paradoxo que se coloca a questão da moeda mundial, o dólar.

De qualquer forma, está sobre a mesa uma proposta de estratégia, o que significa que os Estados Unidos tem um norte. Como acho que a questão dos bancos, por exemplo, não vai funcionar, se isto de fato acontecer, a estratégia terá que ser reajustada, reproposta e isto faz parte do jogo político. Naturalmente, que esta concepção pode causar inúmeros problemas a outros países, detendo a famosa mundialização, seja por um protecionismo vigoroso, seja por obrigar aos demais países a reestruturar suas próprias ações, etc. Mas esta é a função de um país líder que quer continuar a ser líder. De qualquer maneira, Obama se encaminha, com sua simpatia natural, para ser um presidente que comande, mas nós não sabemos ainda a sua proposta para uma nova ordem política e econômica. Proporcionou apenas uma proposta para os Estados Unidos, onde já se advinha repercussões para o mundo, mas que ficará mais claro na discussão com o G-20. Todavia uma coisa já se sabe neste tópico: para instalar esta nova ordem ele vai ter que ter o porte de Lincoln ou de um Roosevelt. Ou talvez uma combinação dos dois.
A QUEDA DA EUROPA

Por Enéas de Souza


O ritmo da crise da Europa segue o caminho americano, mas com peculiaridades próprias. Temos uma ladeira a baixo e uma preocupação e um temor generalizado. Os bancos, de forma variada, estão sofrendo grandes perdas, a Suíça está sob ameaça de um ataque contra a sua política de segredos bancários. O presidente do Banco Central Europeu está preocupado com a descida do crédito. E há um determinado consenso dos líderes dos governos de que o sistema tem que encontrar regulação e supervisão adequadas. E atacam as agências de notação e querem controlar os hedge funds. Pensam, com urgência, num novo capital para o FMI (500 bilhõesde dólares) e com novas funções, não só de ajuda (?), mas também atuando num papel preventivo da crise. (A Sérvia, a Ucrânia, Hungria, por exemplo, estão em situação desesperadora)

No caso da regulação temos o mesmo fenômeno dos Estados Unidos: todo mundo concorda com a regulação e a supervisão, contudo até agora nada. Porque ? Porque a um grupo social não se destrói o seu poder assim no mais. A desregulamentação era a marca dos tempos gloriosos das finanças. Voltar atrás leva tempo. Tem que ter projeto e idéia. Mesmo porque a liderança americana ainda não decidiu nada, e a Europa segue, a sua maneira, aos Estados Unidos.

É preciso frisar que a posição de Gordon Brown, apesar da Inglaterra estar numa situação crítica, bancos em boa parte nacionalizados, uma crise muito forte no setor imobiliário, etc. etc., tem uma visão de líder mais ampla que os demais, já que pretende que a solução do capitalismo tenha que ser global, coisa que vem defendendo já a mais tempo. Sirva de exemplo a proposta de uma nova moeda internacional. Mas, quando a unidade do capital se desmancha, um pergunta assume o primeiro plano: é possível ter uma nova ação conjunta sem que os participantes dos conflitos encontrem uma nova maioria e um novo acordo e um novo poder para que haja um encaminhamento diferente?

A coisa preocupante é o que os pedidos para a indústria caíram desde novembro 5,2%, o que indica que a superacumulação produtiva mostra os seus efeitos e explica também o crescimento do desemprego e a crescente insatisfação social. Um caso absolutamente interessante é que na França a divergência que vai crescer num novo patamar: Sarkozy propugna pela refundação do capitalismo e Besancenot funda o NPA (Novo Parido Anti-Capitalista) já com 9.000 associados, o que marca um passo a frente nas posturas do PS e da esquerda francesa. Um modelo que quer virar a página da proposta soviética de 1917, um modelo aberto ao movimento operário na sua diversidade, como escreve um dos seus apoiadores. A pergunta européia é a seguinte: esta proposta partidária vai se ampliar pela França e pela Europa?

terça-feira, fevereiro 24, 2009

Gráficos da Crise: o resgate norte-americano (até agora)

Ciclo Vicioso 2: Inadimplência atinge os bancos comerciais (EUA)

Gráficos da Crise: Multiplicador Monetário (EUA)


Isso está ocorrendo em maior ou menor grau em todo o mundo: preferência pela liquidez. Por isso os governos podem criar moeda "substituta" sem risco inflacionário. O problema é que essa moeda adicional também não consegue estimular a economia!
Bernanke deve estar se jactando junto ao Congresso de queo pior já passou devido à perninha ascendente ao fim do gráfico. No entanto, o clima atual acentua a incerteza e a desconfiança frente ao futuro faz com que todos fiquem mais receosos para acelerarem gastos/créditos. Qualquer melhoria da situação econômica nos EUA depende de uma contínua recuperação da velocidade da moeda. Trata-se de um jogo entre as ações governamentais expansivas e as forças deflacionárias poderosas, as quais, até o momento, estão ganhando de goleada.

Ciclo vicioso

Não há dúvidas, uma espiral viciosa financeira-real está instalada nos EUA. Para quebrá-la é necessário primeiro uma ação efetiva sobre o sistema financeiro e depois setímulos fiscais consequentes. Essa ação somente se completará com a completa reestruturação do sistema econômico-financeiro mundial.
Dados de hoje:
Confiança do consumidor (fev): 25, pior desde 1967, 37,5 em janeiro;
Peço dos imóveis (dez., 20 maiores cidades): queda de 18,5% frente a dezembro de 2007, pior resultado desde o começo da divulgação do índice.
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A presença da AIG na China

Enquanto Bernanke se explica ao Congresso dos EUA, outro assunto toma conta dos blogs econômicos. A presença histórica da AIG na China, o fato da empresa já ter recebido mais de US$ 200 bilhões em regate do governo norte-americano, apimentado por nova demanda de US$ 60 bilhões em resgate e novos extraordinários prejuízos no quarto trimestre estão alimentando todo tipo de teoria conspiratória envolvendo a empresa, o governo norte-americano e a China. O resumo seria que o governo dos EUA está resgatando os pensionistas chineses e os investimentos dos bancos de investimento daquele pais que estão segurados pela AIG com o dinheiro do "contribuinte"... Engraçado, nós aqui no Brasil cansamos de resgatar os "investimentos" dos gringos com o dinheiro de quem será; e não me lembro de ter visto tanta choradeira, eheheh...
Mas, que está estranha essa história está, acompanhem aí as evidências das relações entre AIG e China (hoje a AIG é a única instituição financeira 100% estrangeira autorizada a operar na China):


AIG companies in China —— At a glance
1919
The AIG companies were one of the very few U.S. companies to have their origins in China when their founder, C.V. Starr, formed American Asiatic Underwriters in Shanghai.
1921
C. V. Starr founded Asia Life Insurance Company, the first foreign life operation to offer products and services to the Chinese people.
1931
International Assurance Company, Ltd was established. It was renamed American International Assurance Company, Limited in 1948.
1975
AIG former Chairman & CEO, Maurice R. Greenberg, made his first visit to Beijing and has since traveled many times to China.
1980
The AIG companies opened a representative office in Beijing, the first set up in modern China by a foreign financial institution.China America Insurance Company (CAIC) was formed as a 50-50 joint venture between AIG companies and the People's Insurance Company of China (PICC). This was the first joint venture between a foreign insurance organization and PICC.
1990
The AIG companies organized, financed and chaired a major financial services conference in Shanghai to assist then Mayor Zhu Rongji in introducing the international financial community to investment opportunities in Shanghai.
1992
The AIG companies strengthened their presence in China through a branch office of AIA in Shanghai, the first foreign-owned life and non-life insurance business to receive a license from the People's Bank of China.
1994
AIA-Shanghai and Fudan University jointly established AIA-Fudan Actuarial Center. AIA Information Technology (Guangzhou) Co., Ltd. was established.
1995
The AIG companies were granted life and non-life insurance licenses for Guangzhou by the People's Bank of China.
1996
AIA signed a 30-year lease agreement on the building at 17 Zhongshan East No. 1 Road in the heart of Shanghai's famous Bund. This special building was home to C. V. Starr's original Shanghai insurance companies. AIA-Zhongda Actuarial Center was established in Guangzhou.
1997
On approval from the People's Bank of China, AIA Shanghai General Insurance Division was re-named and established as AIU Insurance Company Shanghai Branch.
1998
AIA celebrated its historic return to Shanghai's Bund.
1999
The AIG companies obtained licenses from the China Insurance Regulatory Commission (CIRC) to operate life and non-life insurance business in Foshan and Shenzhen. AIA and AIU Foshan sub-branches and Shenzhen branches were officially opened to operate life and non-life insurance. AIA-Keda Actuarial Center was established in Hefei, capital of Anhui province.
2000
AIA Information Technology (Beijing) Co. Ltd. was established.
2001
The AIG companies were granted approval from the CIRC to set up wholly-owned life insurance operations in Beijing and Suzhou, as well as two sub-branches in the cities of Dongguan and Jiangmen in Guangdong Province. A representative office was opened in Chengdu, Sichuan Province.
2002
AIA branch offices were opened in Beijing and Suzhou, and sub-branch offices in Dongguan and Jiangmen. AIG Consulting Services Co, Ltd. was established in Beijing.AIG Global Investment Corporation (Asia) established a representative office in Shanghai. AIA-Beida Actuarial Center was established in Beijing.
2003
The AIG companies acquired a 9.9% stake in PICC P&C's outstanding share capital at its Initial Public Offering in Hong Kong, and reached a co-operative agreement with PICC P&C to develop the accident and health insurance market in China.
2004
AIG Global Investment Corporation, Huatai Securities Company Limited and three other participants were granted approval from the China Securities Regulatory Commission (CSRC) to start preparatory work for the establishment of AIG-Huatai Fund Management Company Limited. The compamy was approved to open business in November.
2005
Approved by the China Securities Regulatory Commission, The Ministry of Commerce and the State Administration for Industry and Commerce, AIG Global Investment Corp. raised its stake in AIG-Huaitai Fund Management Company Limited, from 33 percent to 49 percent.AIG Private Bank Ltd. received approval from the China banking Regulatory Commission to set up its representative office in Shanghai. It is the first foreign private bank to receive approval to open a representative office in Shanghai.
OBAMA PERDIDO

Por Enéas de Souza


Vem uma notícia: jogo de gato e rato: o governo americano quer cortar o déficit que já se mostra assustador. Previsto para 1,3 trilhões, já tem gente que espera 2 trilhões. Quanto mais cresce o déficit, mais se aproxima uma crise monetária. Vem outra notícia: o governo não vai nacionalizar os bancos, mas está negociando com o Citi um aumento na participação acionária da entidade, que está fazendo água. Suas ações estão no calcanhar. Logo atrás negaceando, mas querendo socorro, vem o Bank of América. Os dois muitos grandes para quebrar, muito grandes para salvá-los. E o governo continua fazendo declarações contra a nacionalização... Já tem gente achando que a coisa vai ser como Fanny Mae e Freddy Mac: tudo está bem, não vamos intervir - e acabaram por intervir. É verdade que isto foi no tempo do Bush. Mas, olha só, outro ponto: a seguradora AIG está pedindo mais 60 bi de dólares ao Estado.
Vê-se que o governo está atrás dos barcos. Ou das bactérias. Pois estas estão avançando, vão ganhando espaço, se proliferando e o governo sem um plano firme de ataque. Um governo não se faz com boas intenções, um governo tem que ter claros e firmes propósitos, tem que tomar a iniciativa, tem que ter uma estratégia definida, cumpri-la, apenas variando as táticas. O objetivo final tem que estar lá, vivo, visível, nítido para as forças sociais. Faz assim para incorporar energia e angariar confiança. Mas, do jeito que a coisa aparece, do jeito que a bateria toca, a impressão que se tem é que não há estratégia, sobram apenas táticas. E elas, mudam com a cor e a música dos acontecimentos, sem ter um alvo a atingir, um caminho a percorrer. Olhando-se bem, o governo parece à mercê das pressões dos acontecimentos e dos atores econômicos.

Há uma hipótese de esperança, já que se gosta de ter esperança: que tudo seja uma grande manobra do governo, que tudo represente um gesto de dissimulação, que esteja em marcha um ardil para encarar os opositores no momento certo. Até pode ser, mas nada indica que esteja em campo a astúcia do mágico.

segunda-feira, fevereiro 23, 2009

Taleb, outro iconoclasta (link corrigido)

Nicholas Taleb odeia economistas. Não dá para tirar dele a razão, uma vez que ele pensa de modo não convencional. Autor de um best-seller financeiro lançado no Brasil nesse ano, Taleb popularizou a expressão "black swan" em referência à eventos que não podem ser previstos, mas podem ocorrer. Em realidade, Taleb trabalha a conhecida idéia de incerteza versus risco e demole (uma vez mais) a teoria dos mercados eficientes e a noção de expectativas racionais, as quais estão(avam) na base das recomendações da macroeconomia "contemporânea". Isso explica a aversão dele pelos economistas: como alguém pode acreditar em tamanhas baboseiras que não convenceriam nem uma criança de dez anos em pleno uso das faculdades mentais?
Taleb acha que a débâcle financeira não é um black swan, ou seja, era um evento relativamente previsível. Para ele, o verdadeiro cisne negro será sair dessa fria evitando o pior. Ele sabe o que diz.

Suíça também na berlinda

A Suíça, já abalada pelo envolvimento de seus bancos em prejuízos bilionários e fraudes fiscais nos EUA (UBS), também parece ter envolvimentos bilionários na Europa Central e na Europa do Leste. Mais um caso de um sistema financeiro "muito grande para ser salvo"?
Link relacionado:

Descrédito total


Há um certo cansaço no ar... em pleno carnaval, se poderia pensar na Bahia ou Olinda; mas, em realidade, esse cansaço se manifesta hoje em Wall Sreet. Cansaço em acreditar que o pior já passou, cansaço em acreditar que as medidas do governo podem resolver algo. Essa mesma situação de descrença foi vista pela última vez em 1987... podemos estar perto de uma capitulação nas bolsas, na medida em que sucessivos "esquemas", anunciados convenientemente em horas críticas, não permitiram até o momento a ocorrência de um crash de proporções épicas. Entretanto, a retirada de coelhos na cartola de parte do FED e do Tesouro (facilitação da política monetária, esímulos fiscais sucessivos TARP, garantias, injeção de capital, etc...) não parece convencer mais.
Nessa segunda-feira, tudo foi tentado para devolver a "confiança" aos especuladores (não haverá nacionalização, novo plano, ajuda aos bancos ingleses, etc...) , mas o blefe não está durando nem mesmo o tempo de um pregão completo (ver gráfico parcial com a cotação do índice Dow Jones entre sexta-feira e segunda-feira). A bolsa norte-americana pode até se recuperar hoje até o final de seus negócios, isso não se sabe até o momento e, nesse mercado, tudo é possível. Mas, mantenho a aposta com cada vez maior convicção: como previsto, no mercado de capitais, a despeito das opiniões cor-de-rosa de início de ano, 2009 deve repetir 2008. Se tudo correr bem!
ps: instantes após eu screver essa nota, Obama vai mais uma vez se manifestar sobre economia. É incrível, mas, desde o início da crise, toda a atuação do governo norte-americano foi pautada em timing e escopo pela tentativa de "recuperar" o mercado acionário. Ora, a crise não é uma crise bursátil. Com essa compreensão sobre o que é essa crise, suas causas e consequências, não pode funcionar!
ps2: Obama falou sobre a política fiscal prometendo reduzir o déficit à metade durante seu mandato. Com a atividade em queda, vai taxar os mais ricos? E quem são hoje os mais ricos, dado que os ativos estão se indo? Essa seria uma mágica e tanto...
DE ONDE VEM O NOVO ESTADO?

Por Enéas de Souza



O que se pode sempre pensar, quando se fala na nacionalização dos bancos, é que o que está em jogo são questões estruturais decisivas. Nesta própria temática da nacionalização vai-se tratar de como recompor, reorganizar, redefinir, reconstruir, reformular e reformatar o sistema financeiro, tanto no nível nacional como no nível internacional. E pode-se afirmar que está neste circo, no momento, um dos fulcros da batalha social. Os bancos continuam que nem peixes fisgados no anzol. Estão pulando, esperneando, saltando para ver se escapam do inescapável. Não há saída: vão ter que ceder. O problema é o grau do que vão ceder. Pois a gente sabe que a maioria destes governos foi eleita, democraticamente, com contribuições vastas e amplas destas entidades. O problema é que estes bancos poderão arrastar essas economias a um desastre maior do que elas já estão. Todas as sugestões nessa área tem sido improdutivas, e se mostrarão inúteis agora ou mais tarde, se objetivarem apenas salvar os bancos. Ao menos a nacionalização temporária – que não é a estatização – poderá levar, após um prolongado conhecimento das realidades destas instituições, ao lento e progressivo desovar dos títulos podres e a aplicação de recursos públicos, no primeiro momento e, depois, de recursos privados, num segundo, objetivando o aumento de capital, ou seja, a recapitalização desses agentes econômicos.

Mas, o que me parece importante, é que junto com a nacionalização dos bancos, se faça um novo desenho do sistema financeiro, definindo o papel das instituições bancárias e não bancárias; definindo o papel do banco central, sublinhando a amplitude de sua atuação e de suas intervenções. No mesmo processo, faz-se necessário construir as regras de uma regulação para evitar e controlar as alavancagens despudoradas, para dar um âmbito e um limite e uma fiscalização à multiplicação de produtos. Mas, nos parece que uma articulação finanças e produção têm que ser esboçada, proposta, negociada, tratando de considerar tanto a recuperação da área financeira, mas também da área produtiva. O que significa que a política econômica não poderá ser mais o efeito macro das decisões microeconômicas das corporações. O que significa dizer que se abre uma era para construção de uma nova figura do Estado. Mas, se este parece o caminho da luta dos capitais e dos governos, uma pergunta deve insistir: o acréscimo de poder do Estado será acompanhado por um aumento de democracia, de igualdade, de liberdade dos cidadãos? O movimento social está trabalhando para isso? Ou estamos vendo apenas uma multidão de ações fragmentadas amparadas por visões antigas? O que é que está aparecendo de novas idéias no horizonte das lutas sociais? Estas forças são capazes de alterar a face desta nova figura do Estado que está sendo elaborada? Como? Em que medida? Com que estratégias?

domingo, fevereiro 22, 2009

Mais Europa, Leste europeu... e Inglaterra!

O suporte da Europa ao Leste europeu está em xeque. E o FMI não tem dinheiro suficiente para o resgate também Hungria, Lituânia, Sérvia e Ucrânia já receberam recursos da instituições; outros países como a Polônia estão em negociações). Uma obscura (?) e obtusa cláusula da União Europeia (será do famigerado tratado de Maastricht? ou da constituição do ECB?) também impede que um país auxilie outro membro da União em dificuldades fiscais. A institucionalidade liberal do acordo europeu se mostra absurdamente inadequada frente às difculdades impostas pela crise. Líderes europeus estão reunidos nesse domingo, discutindo uma saída para a crise que se alastra no continente. Um bom resumo da situação e por que é difícil ser otimista frente ao desfecho está em um post no blog Credit Writedowns com o sugestivo título de "While Rome burns".
Em outro registro relacionado, os principais bancos ingleses estão pedindo 720 bilhões de dólares (500 bilhões delibras) ao governo em novas garantias de ativos duvidosos. .. E o HSBC tenta captar 20 bilhõesde dólaes no mercado antes do novo anúncio de seus resultados (hmmmm, e eu que pensava que meus "milhões" estavam seguros por lá? enfeiou, rs...).
Links relacionados:

Nova bolha x Nacionalização

Nenhum economista tem se destacado tanto na tentativa de manter a hegemonia financeira quanto Riardo Cballero, professor do MIT. O homem é uma verdadeira metralhadora giratória na criação de propostas que mantenham o atual status quo do sistema financeiro.
Nas últimas semanas foram duas: a criação de um seguro público integral sobre o valor dos ativos bancários (obviamente sobre o valor de face e sem exigir praticmente nada em troca) e, sem ter obtido a repercussão esperada, nesse final de semana o ataque veio sob a forma de propostas para a criação de uma bolha acionária artificial. A coisa funcionaria assim: o Estado se comprometeria com um piso de preço para as ações das principais (vejam que ele ainda fala claramente nas principais e não em todas...) instituições bancárias norte-americanas em valor não infeiror ao dobro daquele de mercado hoje (no decorrer do artigo ele chega a sugerir algo como 5 vees o valor atual), durante um período entre 5 e 10 anos. Isso levaria a uma retomada daconfiança privada no mercado acionário e na solvência dos bancos, o que os permitiria captar recursos privados novamente. A valoriação do mercado acionário traria um novo efeito-riqueza e a crise se resolveria assim, com a restauração da "confiança".
Trata-se de uma evidente peça de "financial fiction". O problema não está no valor de mercdo dos bancos e sim na valorização de seus ativos. Eu recomendaria fortemente a um acionista do Citibank a venda de suas ações por um valor 5 vees superior àquele posto pelo mercado hoje. Pelo simples fato de que, ao contrário do que insinua o artigo, a provável valorização "correta" (seja lá o que isso queira dier em um mercado especulativo por natureza) da instituição é mais próxima de zero do que de qualquer outro número. No fundo seria uma nova injeção pública de capital sem prejuío aos atuais acionistas. As tentativas anteriores já fracassaram e começo a duvidar que o professor saiba o motivo...
Na contramão, editorial do NYTimes desse domingo tenta preparar o espírito do público para uma provável nacionaliação da principais instituições bancárias do país, chamando essa de "solução menos pior". A nacionalização é iminente. Será suficiente?
Links relacionados:
O LEGADO DA ERA BUSH

Por Enéas de Souza


Dois caras que sabem das coisas que estão aí: Sóros e Volker. O primeiro, um filósofo especulador, joga sempre na contramão do mercado, sabe que o mercado não se auto-regula. Volker, o homem que instaurou o dólar-forte, em 1979, quando era presidente do FED, o verdadeiro Bretton Woods II, pois possibilitou toda a expansão do capital financeiro. Mas, o capital financeiro é uma construção social sobre a fumaça, sobre a nuvem. Quando o valor dos seus ativos cai, ninguém segura esta economia. Um, Sóros, diz, como afirmávamos já em 2007: esta crise vai ser maior que a Grande Depressão; o outro, Volker, conclui que nunca viu uma velocidade tão grande na queda das atividades econômicas como a que está acontecendo agora. Pois, o rumo dos acontecimentos tem uma lógica econômica clara e nítida: o caminho da depressão. Veja, o leitor atento, como aos Estados Unidos está o descompasso europeu: queda do euro, desvalorização das moedas, PIBs em decréscimo, etc. A Ásia, salvo a China, que mesmo assim está caindo, vai em profunda recessão. É verdade, que Obama, via Geithner tenta mudar as coisas. Mas, Geithner é homem das finanças, está preocupado em salvar os bancos, não o sistema econômico. O porta-voz da White House disse ontem que o governo não vai fazer a nacionalização. Já, Roubini, chamado o Dr. Catástrofe – injustamente, porque a catástrofe não é dele, é do sistema! – assegura que a nacionalização virá, independente, do que pensam os que estão no comando. O desastre do Citi e do Bank of América, cujas ações caíram fortemente na sexta-feira, 20% o primeiro; 12% o segundo, estão a indicar a severidade e a gravidade da situação. Olhe-se por onde olhar, a crise é como a água que vazou de uma pia, de um banheiro, está saindo pela porta, está avançando pela casa inteira. Todos estão com os rostos assombrados e vamos ter reunião sobre reunião. Este domingo, os europeus; logo em seguida o G-7; em abril o G-20. Vocês acham que o “timing” da resposta está no tempo certo? Se qualquer forma, o que está acontecendo, da guerra à crise econômica mundial, é um legado insuspeito do capital financeiro, do neo-liberalismo e da era Bush.
(E não podemos esquecer do homem das sombras, o venerável Dick Cheney. Talvez Joseph Conrad tenha razão, aí está “O Coração das Trevas”!)

sábado, fevereiro 21, 2009

Soros compartilha com o GEAB

Para Soros, nã há fundo do poço na crise atual. "A crise já é pior do que a Grande Depressão", diz ele. E ele compara os possíveis desdobramentos do momento atual com o fim da União Soviética (o qual ele acompanhou bem de perto). Desde o início vimos alertando para o fato de que um sistema, um modo de vida, uma foram civilizacional, estava em xeque. E que o "que foi, não mais será". Isso já era visível em 2007.
Mas, o fato de que os principais governos do mundo (em especial o dos EUA), suas agências e "think-tanks" não estarem se dando conta daquilo que já setá acontecendo é que é preocupante. E que pode levar rapidamente a um desfecho trágico nessa história toda. A obra neoliberal estaria completa, pois nas ruínas somente sobraria o "governo dos mais fortes". Ou das máfias mais fortes. Veremos. Interessante é que em certo sentido o diagnóstico de Soros é semelhante àquele apresentado pelo GEAB, cujo link recoloco abaixo.
Links relacionados:
ONDE ESTÁ A ESPERANÇA?

Por Enéas de Souza

André, o teu texto sobre As duas visões “pessimistas” me permite também responder uma questão. Uma amiga me perguntou: “Enéas, porque tu não dás nenhuma esperança, com as tuas análises? Olhando o que tu escreves, não tem saída.” E respondo e digo: de fato, do jeito que estão ensaiando a ópera, não tem saída. Mas, não sou eu, pobre blogueiro, que vou dar uma abertura à civilização, à cultura, à política, à economia, etc. Quem tem que dar solução são os próprios atores do processo, que são os grupos sociais, as classes envolvidas na história. O que até agora o panorama desenhado é que não se pode enxergar um movimento claro daqueles que desejam mudar e proporcionar um mundo otimista. Não há visão catastrofista. O que vejo é que há movimento e desejo, no fundo vontade de salvar a sua pele e seus interesses, sob a aparência de querer construir um mundo melhor, ajudar os menos favorecidos. A saída não é um individuo que dá, a saída é proporcionada por um coletivo, ajudado quem sabe por fortes lideranças, que empunham uma idéia, instrumentos para construí-la, capacidade organizada de luta, habilidade e invenção em muitos níveis, para conduzir o barco da história a um novo porto, a uma nova terra, que aparentemente ignota, será não a terra da felicidade, mas a terra da vida alegre e triste dos homens.

Portanto, não há visão catastrofista sem que nossos contemporâneos, não caminhem para a sua destruição. Portanto, as visões aparentemente sem saída, são compreensões momentâneas – repito momentâneas-, daquilo que o cineasta Tarkovski dizia “o pessimista é um otimista bem informado”. E pensar que estamos no caminho do desastre, não é ser catastrofista; é apenas observar que o real que aqui está é o que insiste. E ele está insistindo muito. E o que está insistindo, neste momento, tem o rumo do desabamento. Esta é a tendência lógica das relações econômicas, políticas e ideológicas. A cultura diz isso. Vejam os filmes: “Sangue Negro”, “De onde os fracos não retornam”, “O Lutador”, etc., etc. Mas, nada é fixo na história, o mundo se mexe, o mundo apresenta mil surpresas. Os homens podem encontrar um furo no caminho do abismo e construir uma alegre morada à beira do precipício ou na estrada de uma nova civilização. Esta é uma das questões que nós teremos que responder. E nunca esquecendo que somos parte de um conjunto e que dentro dele estão vigaristas do estilo Madoff. Parodiando Shakespeare poderíamos ouvir de um personagem: “Agora que eu quero ver como tu reages, carcaça velha. E se continuas a trabalhar por um mundo habitável, olha para tipos como Madoff. Eles estão infestando nossa época. Fazem parte do grupo hegemônico. E faz as contas; examina as idéias. E vê se encontras, ou se te apresentam, soluções. Aí é que eu quero ver o teu otimismo”. Enquanto não aparecem as formas do futuro criador, vamos escrevendo sobre o compasso e o ritmo, até agora implacável, da sociedade. Mas, não podemos esconder que estamos numa crise ampla: econômica, social, política, energética, tecnológica, ética, cultural, civilizacional. Mas, tudo isso tem o seu tempo. Tempo de discussão, tempo de elaboração e tempo de decisões. As questões estão colocadas, cabem aos homens, aos grupos sociais, as classes encontrar o seu rumo e fazer a sua história.

Enquanto o horizonte não se ilumina Horário já nos deu a palavra: carpe diem.

sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Duas visões "pessimistas"

Eu e o Enéas somos frequentemente "acusados" de sermos pessimistas. Isso vem acontecendo sistematicamente desde agosto de 2007. Não que isso me preocupe muito, eu só não entendo, até por que não se trata de pessimismo ou otimismo. Já está acontecendo, assim como já estava acontecendo em agosto de 2007, não era uma "previsão" ou um desejo.
Os eventos destrutivos têm uma sequência lógica desde aquele momento. Como poderia haver uma crise "contida" - expressão usaa pelo FED à época - ao pequeno segmento subprime do mercado imobiliário norte-americano quando a securitização e os derivativos interligavam todo o mercado financeiro global? Como alguém poderia acreditar que os bancos de investimento dos EUA sobreviveriam à sua enorme exposição em ativos tóxicos? Como a crise ficaria confinada aos EUA, se os canais de transmissão eram tanto financeiros quanto reais? Como haveria um descolamento da situação dos"países emergentes" nesse cenário? Como o consumo nos EUA poderia se manter com a queda no valor dos ativos que davam suporte à expansão do crédito? E assim por diante, bastava um pouco de conhecimento e de bom senso para perceber que a crise seria imensa como está ocorrendo. E cada novo dado apenas confirma e acrescenta em nossa crença quanto aos desdobramentos dos eventos, por exemplo: como em 2009 poderíamos ter uma calmaria financeira quando temos ainda tantos problemas pendentes e prontos para estourar? (ver http://econobrasil.blogspot.com/2009/02/pessoes-sobre-o-sistema-financeiro-dos.html).
Mas, apenas para aqueles de coração em bom estado, eu vou deixar para vocês os links para dois artigos realmente "pessimistas" (fique claro que não estou corroborando essa visão, ao menos no momento, eheheh). Só não digam que não avisei, rs...
E, se quiserem algo bem otimista, recomendo a Mirian Leitão, o George Vidor e o Stephen Kanitz!

Saindo do controle

O que se pode esperar quando apenas o resgate banco hipotecário alemão Hypo Real Estate poderá custar 1 trilhão de euros! E isso devido a uma exposição em veículos off-balance de 600 bilhões de euros (uma vez e meia o tamanho da instituição segundo seu balanço), em números ainda preliminares.
Na realidade, como de praxe, ninguém ainda sabe o tamanho exato do rombo.

China e o uso estratégico das reservas

A China está aproveitando a crise financeira para estabelecer contratos de longo prazo de suprimento de petróleo com a Rússia, Brasil e Arábia Saudita. Os acordos passam por financiamento chinês aos planos de investimentos das companhias petroleiras nesse momento em que o acesso aos grandes empréstimos está restrito e caro. No caso brasileiro, o China Developement Bank emprestará US$ 10 bilhões à Petrobrás. Em troca a empresa se comrpomete com o fornecimento mínimo de 100.000 barris de petróleo ao ano para a China. O principal acordo, nos mesmos termos, foi realiado entre a China e aRússia e envolve garantias de fornecimento mínimo de 300.000 barris de petróleo para a China durante 20 anos. Acordo similar envolvendo o fornecimento de minério de ferro foi firmado entre o CDB e a empresa australiana Rio Tinto.
O novo mundo econômico começa a surgir.
Links relacionados:

A batata assou...

O presidente da comissão do Senado norte-americano para o setor bancário, senador Christopher Dodd, declarou hoje que " não se pode descartar uma nacionalização temporária dos bancos nos EUA". Acrescentou a tranquilizadora idéia de que será de "curta duração", para tornar a idéia mais palatável à ultra-conservadora "opinião pública" norte-americana.
Como a mesma idéia ganha corpo na Euopa dada a nova rodada de perdas a que os bancos daquele continente estarão submetidas, parece que o desfecho desse episódio com a nacionalização massiva das principais instituições financeiras mundiais é iminente.
Link relacionado:
PARA ONDE OS ESTADOS UNIDOS NÃO RETORNAM

Por Enéas de Souza.

O André Scherer trouxe à baila a discussão sobre a economia mundial. E põe em questão a sua governança.. Estou de acordo com ele. Há uma união muito clara entre os capitais e os Estados Nacionais. A possibilidade desta governança é zero, ou um sonho de idealistas liberais, no puro sentido. O problema, no entanto, é outro, trata-se da reestruturação do sistema econômico e político mundial. Começamos é claro com a derrapagem americana. Ela está envolta em muitos cenários negativos. O mais dramático é a crise econômica, que vamos examiná-la por outro ângulo.. Digo econômica e não financeira. Porque houve duas superacumulações, a das finanças e a da produção. E como a economia capitalista é movida a credito, o consumidor, endividado até o cérebro, acelerou a queda da demanda, bem como, por tabela, o despencar do investimento. Tudo porque a economia dos Estados Unidos tinha uma dinâmica muito clara: aplicações financeiras puxadas por ativos cada vez mais com preços elevados, coisa que dava rendimentos palpáveis e polpudos. Uma parte deles, para a alegria das empresas de bens de consumo duráveis, não duráveis e serviços, eram gastos num festival de mercadorias, ajudados por créditos agressivos apreciáveis.E estas empresas, que vendiam a festa ao mundo americano, dado o sucesso de venda e de demanda, saltavam para novos investimentos, via recursos próprios, bancos, recursos tomados em bolsas, novos investidores, etc.. Resumindo a dinâmica era, nesta ordem, assim: finanças- consumo – investimento.

A verdade é que o tombo das finanças requer uma outra dinâmica. O ponto de vibração, que vai aquecer a economia, será certamente o investimento, mas conduzido pelo Estado, através de um gasto fiscal específico. Só que no momento, todo mundo constata, que este plano do Obama é muito tímido. Mas, já é alguma coisa. Assim, o Estado coloca no picadeiro o investimento autônomo e joga o investimento público na frente na demanda.. Com este passo, ele deve atrair, por efeitos de suas obras, o investimento privado, e, obviamente, recompor o consumo das famílias. Isso será feito num tempo relativamente lento, seja por causa do já alto endividamento público, seja por causa dos endividamentos críticos do setor privado. E, sobretudo, pela dificuldade de recuperação do crédito, onde a nacionalização dos bancos talvez seja a forma mais rápida e mais efetiva de alcançá-la. Até o ex-liberal e o ex-presidente do Banco Central americano, o inefável Alan Greenspan já se converteu, pois apóia esta forma de re-capitalização.

O que estes esquemas macroeconômicos estão mostrando, sob forma bem agregada, é que estamos num ponto de reconversão da economia americana. Vamos sair de uma economia gerida pela especulação das finanças para uma nova economia produtiva, que amparada pelo Estado, vai recuperar a produção e permitir que se organize a recomposição das finanças. Todo esse processo e esta recomposição levarão um bom tempo, eles se farão sob a égide de grandes combates políticos, de grandes disputas econômicas, de grandes chantagens ideológicas e de confrontos de todas as ordens. Por isso, escrevemos que a liderança dessa mudança estrutural, que cabe a Obama, terá que ser feita, sob o manto de um grande presidente. Os acontecimentos terão que fazer dele um Lincoln ou um Roosevelt. Ou uma combinação dos dois. Não basta ser Kennedy. Mas, também não basta ser Clinton. Porque se o jogo no âmbito doméstico vai ser muito duro e cheio de contornos dramáticos, na agenda externa as peças e os filmes vão ser muito complicados. Precisa-se uma recomposição da liderança americana, uma coordenação da economia mundial, uma reconstrução de instituições internacionais para-estatais, uma recuperação do comércio internacional e uma consolidação de uma moeda mundial. O que equivale a dizer que o estadista que se nomeou acima tem que estar nos dois planos, na face de dentro e na face de fora dos Estados Unidos. Mas tudo isso são assuntos para novos artigos. O que nos importa aqui neste texto é salientar que o começo de tudo se passará na economia americana, E que ela tem que fazer uma aposta fundamental: reconverter a sua economia de acumulação financeira numa economia de acumulação produtiva. Transformação que só será possível se o Estado for o protagonista político no comando da reordenação econômica. O que significa ter uma estratégia para a ordem política e econômica mundial.

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

Maior contração em fevereiro nos EUA



A economia norte-americana continua enfraquecendo. Um indicador antecedente das condições dos negócios nos EUA, o Philadelphia Fed Survey, mostrou uma queda bastante pronunciada no mês, atingindo um índice -41,3, contra -26,0 esperados pelos "analistas de mercado".  O gráfico mostra a evolução desse índice como indicador antecedente da produção industrial. Ou seja, pode-se esperar novas quedas pronunciadas na produção manufatureira dos EUA a partir desse resultado do Philly Fed de fevereiro.


O debate sobre controle de capitas

O debate sobre a necessidade de controle da entrada e da saída de capitais em países que não possuem uma moeda internacionalmente aceita (uma divisa) já deveria estar encerrado há muito tempo. As crises dos anos 1990 em "mercados emergentes" demonstraram à saciedade a necessidade desses controles. Diversos artigos e livros foram escritos sobre o tema, esse também foi parte central do livro que organizei conjuntamente com Carla Ferreira, o tema foi discutido à exaustão na academia e até no FMI, que recentemente, de forma constrangida, introduziu a esdrúxula idéia de "benefícios colaterais" para demonstrar a superioridade das aberturas financeiras patrocinadas pela instituição nos anos 1990 (uma vez que não conseguiram "provar" econometricamente uma melhor performance econômica dos países com conta de capital aberta ao longo do tempo, a forma foi apelar para a falácia dos "benefícios colaterais". Imaginem se fôssemos começar a computar todos os" malefícios colaterais" do livre comércio, da atuação das multinacionais, da liberdade de capitais, do capitalismo, por exemplo...).

Agora, no contexto da crise da Europa do Leste, mesmo economistas conservadores como W. Buiter reafirmam que a adoção de controles de capitais será tendência inevitável nos países em desenvolvimento, como atesta a conclusão de seu artigo de ontem sobre o tema:

"I predict that at least some of the emerging market countries of CEE and the CIS will impose capital controls before long. I recommend that emerging markets everywhere consider this option seriously."

E o Bacen, só acordará para o óbvio quando não houver mais tempo?


Link relacionado: http://blogs.ft.com/maverecon/2009/02/the-return-of-capital-controls/

Enfrentar riscos globais sem uma regulação global?

Interessante o artigo sobre os desafios da regulação financeira par o futuro de Issing e Krahnen no FT de hoje.  No entanto, sua solução,  a elaboração de um global risk map, embora necessária, não vai funcionar. A questão é quem regula, o quê e com qual atribuição

Conforme os autores: "Setting up a solid information base capturing global financial exposures is imperative. There is a long list of exposures that are not transparent today, for example the cross-border links between large, complex financial institutions (LCFIs) and the whereabouts of credit default swaps, collateralised debt obligations and other asset-backed securities. Putting together a global “risk map” displaying financial links among LCFIs as well as the most important risk drivers, such as asset price changes and yield spread dynamics, would enable authorities to carry out financial system stress tests."

Quais autoridades? Não fica claro em nenhum momento do artigo. E esse é o ponto crucial. A crise demonstrou uma falência regulatória que tem origem não apenas  ideológica, que parece estar sendo superada,  mas tambémde competência institucional. Vamos ter um governo mundial? No sistema capitalista, não! Isso é impossível, o capitalismo e os Estados Nacionais são inseparáveis. Os autores dizem ao longo do artigo que a dificuldade reside no fato de que os governos nacionais não querem expor suas instituições fianceiras ao risco de uma transparência que possa lehs difcultar na arena da competição internacional. Ao que tudo indica, haverá um insulamento, uma desglobalização, dadas as necessidades e a competição dos diversos capitais nacionais. Mas o caminhão está andando, as abóboras ainda estão sacudindo, não cabe empilhá-las ordenadamente no momento.

Ou seja, ao mesmo tempo em que o artigo coloca corretamente a necessidade de uma base de dados global envolvendo a mais ampla gama de instituições (o shadow banking system) e de instrumentos financeiros possíveis (derivativos e títulos estruturados complexos), produzida por organismos supra-nacionais, a supervisão e o controle continuariam no âmbito nacional. Os dados deveriam estar disponíveis de "modo agregado", permitindo o estabelecimento de um level playing field internacional aberto à competição. "Mais do mesmo", outra vez.  Mehor, mas claramente insuficiente e, provavelmente, impossível. Embora seja um passo na direção correta (hoje, em nome da transparência, a opacidade quanto aos riscos "cruzados" é total), os autores partem da premissa de que o mundo financeiro voltará a ser o que era ao final da crise. E eles estão errados a esse respeito. Mas, o reconhecimento de que nada foi feito (e, no meu entender, não será feito enquanto não houver um vislumbre de solução para o sistema financeiro dos EUA) e de que, "se tudo por mágica voltasee atrás, poderia ocorrer outra vez" é absolutamente verdadeiro. 

Bela tentativa, mas os autores estão falando de um mundo que não existirá mais.

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O DUELO DE INTERESSES DIVERGENTES

Por Enéas de Souza


Algo picante está acontecendo com o pacote americano. Um dos banqueiros disse que os limites impostos pelo plano aos ganhos dos executivos poderiam levar a uma evasão de cérebros do sistema bancário. Eu não acredito! Imagina a sorte da sociedade, dos acionistas, dos próprios bancos se estas pessoas não quiserem mais continuar nos postos tops das entidades financeiras. Vai ser uma sorte imensa, pois foram esses cérebros que estabeleceram uma engenharia que destruiu o sistema. Aliás, o UBS, se não me engano, levou um destes executivos para a Suíça. Coitado do UBS. Pois, além deste banco ter sofrido perdas muito grandes, ainda vai pagar caro um tipo que custa um excesso e provavelmente vai tentar, vai articular esquemas complexos e desgastantes. O que fica claro é o seguinte: esta fração de classe, os executivos financeiros, que ganharam muito dinheiro, que ludibriaram muita gente ainda continuam querendo participar da transferência de renda da sociedade para os seus bolsos. Alguns são semelhantes a esta jóia das finanças americanas, o popular Madoff. Ou este Stanford. O gesto de Obama em buscar de limitar os ganhos dos executivos, está sendo visto como um abuso contra a liberdade de negociação pelos executivos, mas está sendo visto como algo extremamente correto pela sociedade, resultado de uma revolta moral e política. Todavia o que está acontecendo é a poda da aristocracia financeira. Por isso estavam todos sérios, na semana passada, nos depoimentos no Congresso. E detalhe comovente e hipócrita: todos viajaram de avião comercial.
O problema econômico propriamente dito é um pouco mais complexo. Trata-se de uma questão da governança corporativa, que afeta bancos e empresas produtivas. E trata-se de algo até agora insuperável, o capitalismo não conseguiu inventar uma boa saída. A governança corporativa foi a introdução da financeirização no dorso da corporação. Pois, no atual momento empresarial, o proprietário do capital, o dono das ações, exige que se cumpra o princípio do acionista, a exigência do maior rendimento possível das ações. Mas, o dono das ações não tem nenhuma preocupação com o processo empresarial, sua cabeça está voltada para o jogo dos ativos financeiros. Já o dirigente, o que um economista do século XIX chamou de capitalista em funções, na verdade não passa de um empregado de porte, de um funcionário de alto escalão, de um aristocrata da burocracia capitalista, que se jacta e tem um currículo que afirma uma determinada expertise. Embora receba como parte dos seus salários ações, a sua identificação maior com a empresa não é a de proprietário, portanto a sua solidariedade com ela é de ocasião, se ampara nos chamados bônus. Este conflito entre o proprietário das ações e o dirigente é a cisão que ocorreu na figura do antigo capitalista, que era proprietário e dirigente ao mesmo tempo. Bem, essa figura, no capitalismo atual, esta cindida, está dividida, ela deixou de existir. E, esta dissociação e esta disjuntiva vieram para ficar. E ela é absolutamente terrível, sobretudo, nos momentos de crise, porque o dirigente joga mais o seu jogo que o da corporação. Acaba tratando somente do seu lance. Lembre o leitor daquele presidente, daquele CEO como dizem os americanos, que quebrou a sua instituição, mas levou 140 milhões de dólares para casa. Pôde-se ver em 2001/2002, repetiu-se agora. Este conflito continua insuperável.

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Opções cambiais tóxicas

A Polônia está descobrindo algo que o Brasil conheceu em outubro de 2008: que pequenas e médias empresas foram aconselhadas pelos bancos para apostarem na valorização "sem risco"  da moeda local com a venda de opçõs cambiais, as quais, com a desvalorização do zloty, se mostram agora "tóxicas". 

Alguma semelhança com Aracruz, Sadia e Votorantin, etc.?  No entanto, ao que parece, na Polônia a prática se generalizou devido a agressividade dos bancos locais e não apenas empresas exportadoras aderiram ao esquema, mas também empresas que operavam unicamente na moeda local.  Agora, várias enfrentam perdas que podem acarretar o fechamento dos seus negócios... e, apra comlicar mais ainda a situação dos bancos, o governo polonês se prepara para editar uma medida cancelando a validade desses contratos... Certamente, todo esse imbroglio levará a uma deterioração ainda maior no valor da moeda polonesa, realimentando o ciclo. O sistema se demancha.

Enquanto isso, na Ucrânia o PIB vem caindo a taxas de 20% ao ano, com a moeda (não sei como se chama) tendo se devalorizado 40%.  Obviamente, o default de sua dívida externa é iminente.A União Européia busca formas de "ajudar" o vizinho, mas as dificuldades para alocação de recursos suficientes são imensas. 

Nessa região, a situação ficará Russa... quem viver, verá!

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Pressões sobre o sistema financeiro dos EUA (versão 2) e um novo degrau na escada?

Bah, problemas no meu trato "administrativo-tecnológico" com o blog me levaram a perder dois posts do início de fevereiro. Mas, ao menos de um deles eu consegui recuperar a parte que trata da origem dos problemas que devem afetar o sistema financeiro dos EUA ao longo de 2009. É interessante como a análise feita se mostra mais acurada a cada dia, na medida em que novas notícias nos chegam a esses respeito.

Estava escrito:

"A economia mundial está numa queda ainda mais acentuada do que se poderia esperar. O desemprego nos EUA avança mais rápido, as quedas no consumo e na produção são impressionantes, as importações vêm caindo fortemente. Os reflexos disso para o setor financeiro serão novas perdas no setor de hipotecas comerciais (quebra de bancos regionais menores em grande quantidade, pois esses estão mais expostos ao financiamento dos novos shoppings centers agora vazios), inadimplência nos cartões de crédito (perdas para os securitizadores de dívidas que em geral são os bancos de investimentos e hedge funds), perdas para os securitizadores de dívidas de empresas em geral (grandes empresas seguradoras, um exemplo é o prejuízo dessa semana da gigante Swiss Re), menor arrecadação de impostos e quebra de municipalidades (prejuízos para os bancos e seguradoras a partir do aumento na inadimplência), etc...

Os hedge funds são outro problema ainda sem solução pois a fuga dos aplicadores deve levar a uma massiva venda de ativos financeiros com efeitos depressivos sobre os preços ainda em 2009. E o preço dos imóveis não pára de cair, o que faz com que os títulos hipotecários AAA valham cada vez menos.

Enfim, o setor financeiro ainda é uma bomba relógio, não apenas nos EUA, mas também na Europa (a exposição dos bancos europeus na Europa da Leste, a situação da economia espanhola, irlandesa e inglesa e a exposição de bancos e seguradoras europeus às perdas nos EUA colocam pressão por lá também)."

Em resumo, o setor financeiro norte-americano está exposto ao risco decorrente do aumento na indimplência dos financiamentos imobiliários residencial e comercial, cartõs de crédito, créditos estudantis e outros. A desalavancagem forçada por que passam os hedge funds coloca em xeque o mercado de capitais e os fundos de pensão, os quais também atingem as finanças de Estados e de municípios nos EUA, o que por, sua vez, acaba acrretando mais prejuízos aos bancos. Estima-se em 12% a queda de arrecadação de Estados e municípios nos EUA devido à queda no consumo e à resução no preço dos imóveis.

É interessante como no início de fevereiro também já estava clara a situação deteriorada dos bancos europeus, em particular devido ao seu comprometimento com financiamentos na Europa Oriental. Um exemplo: cerca de 60% das hipotecas originadas na Polônia - o país que representa a maior exposição aos bancos europeus - são denominadas em Francos Suíços! Com a desvalorização da moeda polonesa (o zloti), alguém acredita que os compradores poderão honrar esses compromissos nos termos acordados anteriormente? E alguém acredita que a pressão sobre os bancos europeus não represnta maior pressão ainda sobre o sistema financeiro norte-americano e mundial?

É interessante constatarmos que, nessa semana (mais precisamente após ao lançamento da propota Geithner), a crise retomou o ritmo frenético de successão de acontecimentos (nova fraude multi-bilionária com Stanford, Alan Greenspan defendendo a nacionalização dos bancos nos EUA, PIB da Alemanha caindo a uma taxa anaulizada que se aproxima dos 10%; descrença nos planos de salvamento propostos por Obama; reconhecimento público quanto à situação precária dos bancos europeus, possibilidade de contágio no Leste Europeu; novo pedido de resgate das montadoras nos EUA, novo plano de salvamento do setor imobiliário nos EUA, etc...) que tem caracterizado suas fases agudas desde agosto de 2007. Parece que estamos descendo mais um degrau na escada da crise.

ROTEIRO PARA O FILME DA CRISE

Por Enéas de Souza

Para que o leitor não perca o roteiro da crise, deste verdadeiro filme da crise americana, um filme misto de Hitchcock, Orson Welles e David Lynch, é preciso que ele esteja bem atento a pontos que a trama e a intriga vão anunciar e desdobrar. Pelo menos de alguns destes aspectos, vou fazer uma lista e deixar algumas perguntas, para que se possa ter a noção do buraco, ou da caverna como diria Platão, que estamos metidos. Tente fazer um esforço de análise e de previsão, estaremos já pensando na mutação do nosso estado de coisas.

1) A crise financeira está ainda na metade. É preciso ver que existem muitos papéis tóxicos, oriundos dos cartões de créditos, dos empréstimos de automóveis, de empréstimos estudantis, etc para estourar. E também, cabe observar se a cadeia de papéis podres vai dar origem a novos problemas críticos nos hedge funds, nos private equitys e nos fundos de pensões. Duas perguntas pelo menos. Que medidas podem ser tomadas para deter estas tendências? E que agentes econônmicos poderão toma-las?

2) A crise financeira requer soluções sobre diversos outros pontos. As indagações giram sobre a regulação e seus estatutos; sobre a posição das instituições no sistema financeiro (FED e as demais agências tipo SEC, FDCI, etc).; sobre como os bancos vão ser capitalizados; sobre qual o regime de solução para os ativos podres nos balanços dos bancos, sobre a nacionalização dos bancos ou não.

3) A crise financeira está trazendo uma questão importante: como o crédito na economia americana, dado o permanente “credit crunch” (agora um pouco suavizado), vai ser defintivivamente solucionado?

4) Os recursos do bailout do Paulson, e os recursos do pacote aprovado pelo Congresso terão que ser despendidos pelo Governo dos Estados Unidos. Qual o plano, qual a transparência, qual a fiscalização, que serão efetivamente implantados e exercidos?

5) O pacote, como diz, Obama, será o princípio da solução da crise?

6) A crise produtiva nos leva a algumas questões: como será encontrada a solução para os mercados dos dois centros de acumulação que sucumbiram radicalmente nesta etapa crítica: o imobiliário e os automóveis? Como se dará a recuperação destes dois setores? E qual a atenção que será dada aos demais integrantes da cadeia de valor destes setores?

7) Uma coisa é o crédito de curto prazo, outro o de longo prazo. Quando a bolsa vai retornar a fazer parte deste último papel?

8) Qual é a viabilidade do financiamento do governo para a questão energética dar certo? E qual a matriz de transição a ser feita pelos Estados Unidos?

9) Se o modelo financeiro de acumulação faliu, falindo com ele o engate econômico do comércio externo, como – e esta é a pergunta – vão se organizar as relações mercantis internacionais? Ou teremos antes um forte protecionismo como etapa necessária para a desintegração da atual estrutura econômica?

Porém há perguntas que quero destacar, mais que as outras, para mostrar a envergadura da crise. O que estamos vivendo é o desabamento de um ciclo não apenas financeiro, mas também produtivo. Ao que tudo indica, parece que a solução da economia vai começar através de uma reversão cíclica da produção. E o ponto fundamental para que isso aconteça é que um conjunto de tecnologias possa permitir que a potencialidade dos lucros se derrame por toda a esfera da indústria e da agricultura e que ela cresça vigorosamente, levando também à reversão cíclica financeira. Na direção correta, o Estado certamente estará, desde os primeiros momentos, na origem dos investimentos que, aliados aos posteriores investimentos privados, vão permitir esta metamorfose. Então da pergunta principal não se escapa: qual será o volume de recursos que ele terá que despender para que isso ocorra? Por outro lado, a pergunta subsidiária completa: os recursos do atual plano de estímulos serão suficientes? Vem, igualmente, mais outras interrogações: se não, quais os próximos passos a seguir? E quanto tempo levará? E não deixemos de fazer uma pergunta crucial: o Estado poderá resolver todas essas questões sem que a dívida pública afete e destrua a moeda?