quinta-feira, março 19, 2009

Quinta-feira, 19 de março de 2009

O G-20 DO PROJETO OBAMA
Por Enéas de Souza


Fiz uma metáfora para esta crise, dizendo que a crise funciona sob a forma de escada. E o que nos interessa na verdade, agora neste momento, talvez não seja a escada, mas sim o degrau. Então, a gente desce um degrau e a perna e o pé vão baixando em queda no vazio, mas em seguida, encontram, aliviados, a base do novo degrau. Quando o movimento do corpo começa a descer, há uma caída que dá uma sensação de pequeno precipício. Logo depois o sentimento de segurança retorna e o patamar a que se chega, mesmo mais baixo, nos faz sentir bastante confiantes. A escada continua, contudo os apressados e os ideólogos logo afirmam que a crise terminou; os governos de toda a parte falam que as coisas melhoraram; e o Bernanke – presidente do Banco Central Americano – pode dizer como disse outro dia, que ela, a crise, só vai até o fim do ano. A gente lê nos jornais on-line ou nos jornais impressos que todos os países falam contra o protecionismo. Os Estados Unidos, o Brasil, a Ásia, todos. Mas, o Banco Mundial cutuca a hipocrisia e diz que num levantamento feito por ele, 17 dos participantes do G-20, de uma ou de outra maneira, já implantaram medidas protecionistas.

O que todo mundo queria ouvir

Ontem em Londres, vários representantes industriais do mundo, inclusive da Confederação Nacional da Indústria, falaram com Gordon Brown. . Todos chegaram na conversa a uma conclusão global com dois pontos decisivos para a recuperação da crise: “a reconstrução do fraturado sistema financeiro” e a proteção da abertura dos mercados. Porém, o mundo está descendo mais um degrau, a tendência de queda do PIB é generalizada. Mas, reconstruir o fraturado sistema financeiro, americano e do mundo, parece que deveria ser o primeiro passo de envergadura do encontro. Como o navio que volta ao seu ponto de origem, a questão é sim, o retorno do crédito. Porém, o que temos, como manobra dos próprios bancos, com certa anuência do Tesouro e do FED americano, são as finanças zumbis, E nesta percepção afigura-se claramente, que Obama não vai levar para o encontro de 2 de abril o que todo mundo quer ouvir: a reformulação, a reformatação do sistema financeiros dos Estados Unidos. Ele teria que levar uma nova proposição de regulação do banco central, um novo desenho das instituições bancárias e não-bancárias, um conjunto de normas severas e fiscalização para alavancagens, multiplicação de produtos, hedge funds, private equity, etc..

O câncer do furacão

E, se a reconstrução fosse para valer mesmo, o mar tinha que ser encarado, de frente: o furacão dos paraísos fiscais. Lá estão como jóias de árvores frutíferas: filiais de bancos e firmas fantasmas, dentro de segredos bancários. Onde está, portanto, a fiscalização de toda essa engenharia financeira para que se pudesse rastrear ou conhecer os caminhos deste dinheiro? Mas, pergunta é a seguinte: quanto destes países estão dispostos a controlarem estes “investidores”? O câncer é grave: a elite dominante não é só constituída de banqueiros, investidores, grandes acionistas, altos executivos da cena normal do mundo financeiro, etc. mas também de senhores do crime como as máfias, os investidores ilegais orientados pelos Madoffs do terreiro, as organizações terroristas, além de políticos corruptos de países os mais diversos, etc. Duvido que vamos nessa.

Bota o retrato outra vez

Então fica claro, que a estratégia de Obama, salvo mudança frontal das finanças, é não centrar a discussão na transformação do sistema financeiro, porque as finanças ainda não se acertaram, e nem a área produtiva, nem o governo tem neste momento capacidade de forçar a mudança do comportamento deste grupo social. Eles já estão feridos, deteriorados, retorcidos, mas ainda mandam. Então, no estado de informação que se tem, os americanos vão dar um drible, vão dar o lado nesta questão. Ou no máximo aceitarão as sugestões daqueles que desejam o sistema bad bank/good bank. Por isso, a principal ação vai ser de outra natureza, uma forte pressão sobre a sustentação da demanda, dando aos Estados a tarefa de reformularem o que vinham fazendo até agora, ou seja, não se trata mais de deixar o Estado fora da economia. E sim, que ele como o velho Getúlio Vargas, volte: bota o retrato do Estado outra vez. Desta forma, este deve voltar, deve entrar na economia, gastando, incentivando, fazendo que com que a demanda se recomponha decentemente através de estímulos fiscais. Ora, isso está dentro de um projeto básico dos Estados Unidos: provocar uma metamorfose na sua posição na economia mundial. O que quer dizer: deixar de comandar o processo econômico pelo lado da importação de mercadorias e de capitais e trabalhar para o inverso, para a exportação destas duas formas da economia capitalista.

De quantas caras se faz um projeto

Os Estados Unidos tem um projeto claro de modificação da economia produtiva. Assim dois pontos básicos desta estratégia são (a) recuperar de imediato a iniciativa da produção nacional e mundial, enquanto preparam o terreno para (b) a mudança da infra-estrutura energética e da criação e implantação de novas tecnologias: um projeto de longo prazo, e que vai ser financiado inicialmente com verbas do Estado norte-americano. 110 bilhões no orçamento deste ano. Ou seja, tratam do relançamento da economia corriqueira no presente e preparam a mudança futura dos paradigmas da economia mundial. É um projeto unitário, porém com duas caras, duas frentes, que devem, todavia, neste momento estar separados. Porque o jogo é fazer a retomada simples da economia como puder, fazendo simultaneamente, com pressa, mas sem precipitação a trajetória de longa duração. E para ação da retomada simples, me parece ser fundamental a reformulação de entidades para-estatais supra-nacionais como o FMI. E é exatamente sobre isto que queremos falar.

A missão possível do FMI

A missão do FMI vai ser alterada. Vai haver um aumento de capital de 250 bi de dólares para lhe dar a possibilidade de concertar o ambiente internacional na área de países menores, que estão dilacerados. Tem - não mais que tem - que equilibrar estas economias. Mas uma segunda tarefa lhe é destinada. É uma coisa que está sendo discutida, ainda não acordada. O FMI teria a possibilidade de emitir Direito Especiais de Saque (DES) passíveis de serem convertidos, pelas nações possuidoras, em dólares. E qual a finalidade? Uma: dar liquidez aos Estados, inclusive para poderem fazer os incentivos fiscais, sempre objetivando a retomada da demanda. E outra: a emissão acentuada de DES; que podendo tornar-se inflacionário, seria muito bom para este projeto americano de exportação. Ao mesmo tempo, provocaria uma desvalorização do dólar, sem que fosse efetuada diretamente pelos Estados Unidos. Ou seja, os americanos poderiam se quisessem, manter internamente sua moeda controlada, mas com o FMI se encarregando de efetuar, se necessário, a inflação indispensável para reativar a demanda. ( E não se deve esquecer, em parêntese, uma mudança apoiada pelos Ministros da Fazenda do G-20: a presidência do Fundo Monetário pode ser um não-americano, um não-europeu. Um asiático, por exemplo; quem sabe um chinês ou alguém alinhado com a China?).

Dois projetos e uma postergação

A manobra americana qualquer que ela seja em face do que dissemos, acima, pode ser sintetizada da seguinte maneira:
1) um projeto de retomada da demanda, apoiada (a) pelos Estados nacionais com gastos públicos e (b) pelo FMI para salvar países pobres e menores, para incrementar a inflação e também gastos públicos via DES. O FMI poderia ser uma moeda de troca para que a China pudesse financiar também essa retomada;
2) um projeto de longo prazo para reformular a base energética e um conjunto de tecnologia. O fundamental no momento seriam gastos públicos inscritos no orçamento dos Estados Unidos. O tema estaria fora da atual reunião do G-20;
3) uma postergação para que o setor financeiro norte-americano e o Tesouro e o Fed e mesmo o Congresso Americano entrem em acordo para a constituição de um projeto para as finanças, onde caberia no médio prazo uma articulação a médio prazo entre as finanças e a produção.

O subterrâneo do G-20

Desta maneira, a questão do protecionismo seria combatida não pelas promessas políticas impossíveis de cumprir, mas através de um plano que envolvesse a sustentação da demanda nos países do planeta (incluindo os Estados Unidos). Do resto do mundo poderia sair assim, por derivação da retomada da produção, uma parte canalizadada para a economia americana, com a finalidade de principiar a mudança desta de importadora para exportadora, no amplo e mais longo movimento que comportaria tanto mercadorias como investimentos e aplicações financeiras. E tudo isso com a participação e a liderança do Estado americano, dando direção e norte a um possível porvir. Estas conjeturas - hipóteses de leitura como se diria no jargão da época - têm a finalidade de tentar observar como é que na profundidade da reunião do G-20, o projeto americano vai começar a ser construído.

Um comentário:

André Scherer disse...

Parabéns Enéas, excelente artigo. Vamos observar atentamente os desdobramentos.