quinta-feira, novembro 18, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL

18 de novembro de 2010
COLUNA DAS QUINTAS


O BURACO NEGRO DO DÓLAR

Por Enéas de Souza




A primeira coisa que a gente tem de considerar com a reunião do G-20 é que o neolibralismo está de fato em decomposição, em dissolução. Assim, o que se pode tentar entender é que esta crise é uma crise do capitalismo. Atenção platéia: falei crise do capitalismo. E com isso, é preciso perceber que o capitalismo está com uma perna quebrada, a financeira, e que está tentando um engessamento do resto da sociedade para se salvar, para evitar a gangrena. Olha só: o neoliberalismo fez com que o Estado despeje uma galáxia de dinheiro nos cofres dos bancos para salvar os ativos podres dos que “cuidam do nosso dinheiro”. Então, vou repetir: o neoliberalismo acabou e o capitalismo está em crise. E quando o capitalismo está em crise é isso mesmo que acontece: incapacidade de efetuar investimentos e alto volume de desemprego. Somando a esse ventinho pneumônico, aparecem as complicações de uma crise no comércio internacional e outra nos movimentos de capitais. Há uma doidura geral nos grandes países, principalmente nas transações mercantis: todo mundo querendo ter preço baixo para que os outros países comprem. E eles também desejam que os outros mantenham abertas as entradas de recursos financeiros para aplicações em títulos, bolsas e até mesmo ativos reais, obviamente para sacar do exterior os resultados que faltam nos seus próprios mercados.

Então, o que ocorre é exatamente isso: crise do capitalismo que se expressa cada vez mais naquilo que permite as trocas: a moeda. Claro que não podia ser diferente. Então, estamos numa crise da moeda que é uma crise do dólar. Por quê? Porque não temos mais um padrão monetário confiável nas trocas. Uma das funções da moeda é ser medida de valores. Ora, se padrão é tão volúvel, e pode ser mexido a toda hora, vão-se os preços, vai-se a moeda, vai-se o dólar. Como dizia o poeta Raymundo Correia: “Vai-se a primeira pomba despertada.../ Vai-se outra mais... mais outra...enfim dezenas.” O que a gente tem que entender tem origem nessa verdade: o dólar é hoje uma moeda instável, uma moeda que vai se desvalorizando, uma moeda problemática. O que traz um odor do início de uma profunda crise monetária. Os americanos querem continuar arranjando a sua economia, como se nada tivesses acontecido, e jogar a sua crise no colo dos outros países. Me joga uma bomba que eu gosto de explosão!

Portanto, tudo começa nos Estados Unidos. E começa porque eles eram a primeira economia do mundo e porque eles quebraram. O modelo financeiro de acumulação quebrou, os bancos quebraram, as indústrias quebraram. E o governo botou dinheiro nos bancos e o Banco Central entupiu com os títulos podres. O governo ficou com uma dívida cavalar e um déficit de urso. Ora, isso tudo que principiou em 2007 continua ainda o seu efeito. Efeito que passa para o campo das trocas, afetando, como um knock down de Cassius Clay, o padrão dólar. E a faísca que está no rastilho da dinamite é que os americanos querem vender agora cada vez mais para o exterior, para melhorar a sua indústria e o seu balanço comercial. Para tal, as outras moedas precisam se valorizar, principalmente o yuan. O diagnóstico já está feito a tempo: a culpada é a China. Ah! Ah! Ah! E vejam de onde eles tiram essa idéia: “antes da crise usamos os chineses para deslocar nossas empresas e ganharmos muito dinheiro. E fizemos muito comércio com os próprios Estados Unidos, pois eram as corporações de Tio Sam que estavam instaladas na China. E o que era melhor: os chineses – mágica suprema – ainda nos emprestavam a grana para cobrirmos os furos da balança comercial, comprando os nossos títulos públicos, sustentando assim os nossos delicados déficits anuais e a nossa interessante dívida. Pois bem, agora o jogo virou. É preciso que os chineses desvalorizem a sua moeda para exportarmos mais, para melhorar nossa balança comercial e também desenvolver a nossa indústria. E vejam só, os mandarins estão dizendo não. Ora, isto está virando bagunça; os chineses não estão com medo do Exterminador”. Será possível?

Ora, o que é que quer dizer isso? Jogo pesado e começo de uma guerra cambial. E este é um jogo que não é só de dois parceiros, mas de todo o planeta. Se esta guerra continuar e se os cowboys, os chins, os europeus, os brasileiros, etc. não se entenderem, a briga vai ser generalizada. No G-20 que passou, eles não se entenderam. E aí a coisa pode ficar feia: protecionismo, controle de capitais, desvalorização de moedas, guerra comercial. E desta cadeia de eventos pode resultar (hipótese ainda longínqua, mas não descartável) que algum militar na ativa ache que é preciso fazer alguma coisa, e tentar buscar produtos essenciais à força. Não é um quadro que não tenha ocorrido; pelo contrário, se dá ares de presença frequentemente neste Ocidente azoado. Lembraram do Iraque e do petróleo? A hora pode chegar novamente!

Então repito: crise do capitalismo, crise da moeda. E se o barco continua navegando pode chegar a outros portos; como uma guerra comercial. Ah!, a guerra da moeda não se trata apenas da desvalorização. Toda a questão monetária está em brasa. E por essa razão, duas coisas se insinuam no horizonte da crise. Primeira coisa: ou o dólar no seu processo de valorização progressiva deixa de ser padrão monetário e perde o lugar de equivalente geral; ou este último lugar fica sendo ocupado por diversos outros substitutos em situações pontuais: num momento pelo euro, noutro pelo yen, talvez num instante efêmero pela libra; etc. Nesse ponto, a função reserva de valor da moeda passa a não ter uma moeda mundial, uma moeda de um país que faça o papel universal, que garanta a plenitude da função examinada. E o mundo vira um bordel e uma algazarra. A inquietude torna-se a ave de mau olhar e a bagunça, a cortesia de mercados em decadência. Dito assim, logo se vê, os países vão brigar como Caim e Abel. Até que dê uma inspiração súbita pelo cansaço e aconteça um acordo internacional. O que só emergirá quando ficar nítido quem mandará no mundo. E o que se sabe é que os Estados Unidos são uma potência em caminho descendente..

E parece que não estamos equivocados, porque, se conseguirem se acomodar, o mundo vai ser comandado não por um, mas por dois líderes: USA e China. Cabe, com certeza, uma pergunta: quanto tempo vai levar para que se estabeleça essa conveniência que eles – e o mundo, por conseqüência – se entendam? Os chineses estão progressivamente organizando o seu mercadinho; os americanos nem começaram. A razão é notória: as entidades financeiras, com o seu Congresso republicano anti-Obama, não vão deixar. E o pior é que a antiga economia que eles organizaram se esfalfou e não vai dar mais nem pudim nem doce de leite. No entanto, as finanças vão morrer sempre dizendo que tudo tem que começar com o mercado financeiro, aquele que dá crédito para a produção. (Ouvem-se ao fundo novas e sonoras gargalhadas, porque as finanças são matreiramente especulativas, dão crédito praticamente apenas para o jogo do mercado de títulos e ações). Portanto, este acordo não é para agora. E, de outro lado, sabemos que os chineses não têm uma moeda de curso no mercado mundial. Vão ter que construir uma, possivelmente. Só que isso leva tempo. Ou seja, deste mato não vai sair padrão universal por um bom tempo.

A outra coisa que fica apontando no horizonte é o velho Bankor do Keynes. Uma moeda mundial, uma moeda de referência. Porém, agora, sob a idéia de ser uma moeda ponderada por várias moedas, por uma cesta delas. Até já teve gente falando no Direito Especial de Saque (DES), uma moeda do FMI. Só que aí teríamos vários problemas e a necessidade de uma instituição que tivesse capacidade de controlar essa nova realidade monetária. E obviamente que tivesse força. E não será esse FMI, um pouco vitaminado com novas contribuições dos participantes, que iria fazer o seu trabalho. Seja como for, essa solução vai ter que ter uma arquitetura, tem que ser construída sob um fogo duro e uma batalha vigorosa. Não há no oceano da economia terra à vista. E enquanto a caravana não passa, os cães vão se trucidando. O dólar, via o “quantitative easing 2” (olha o nome!), vai tentando emagrecer e perder valor e, por causa desse movimento, o administrado yuan busca a sombra do dinheiro americano. Já o euro, uma luta das finanças européias; tenta se manter vivo com a Europa se rasgando. Irlanda, Portugal, Grécia e Espanha na mira permanente do default. E na fila, ainda estão presentes candidatos um pouco mais robustos do que estes. A Itália, por exemplo.

Enfim, o que é certo é que o boteco da economia vai mal e o dono não tem dinheiro para garantir o jogo das mercadorias. E esta crise é ainda resultado da crise financeira que se desdobrou numa crise produtiva, que caminhou para uma crise das dívidas e déficits do Estado, que está na rota da deterioração do dólar, que pode levar a problemas monetários nos inúmeros países, que aponta no horizonte para uma crise comercial e que navega na direção ao maremoto de uma crise da ordem econômica e política mundial. Assim, não tenhamos dúvidas: o perigo é, se o mundo bobear, que o dólar acabe nos arrastando para o buraco negro de uma crise maior que a crise de 30. Mudanças sociais e de liderança na economia tem que ocorrer. O jogo entrou no segundo tempo. Por isso, respondam rapidinho: vocês pensam que as finanças têm solução para a economia mundial?

















2 comentários:

valeriobrl disse...

Manifesto pela construção de um "Think tank" em materia de finança international:
O mercado financeiro evolue rapidamente, com uma sofisticação impressionante.
Chegou a ora da esquerda brasileira formar um "Think Tank" especializada em questões de finança international.
O BC NO é suficiente,sempre as pressões das lobbies vai ser pesadas (estou torcendo pela aposentadoria do Meirelles).
Qualquer discussão acima da morte do capitalismo e do Neoliberismo, apesar de ser muito interessante, vai ficar "Academica" , sem consequentia pratica .
O "Think Tank", teria que ser uma usina de propostas endereçadas ao BC ,ao institutos de controle da Bolsa e da finança no Brasil, ao legislativo.
Atenciosamente valeriobrl.

André Scherer disse...

Valerio: e tu achas que alguém ligado ao sistema financeiro quer ouvir as propostas de um think tank de esquerda??? Mas acho que sim, tem que levar as propostas, incomodar os caras mesmo. Nós já fizemos isso na ATTAC Porto Alegre, publicamos em 2005 o livro O Brasil frente à ditadura do capital financeiro, que explicava e trazia propostas para se evitar muitos dos problemas do capitalismo financeiro atual. Só acho difícil que o Banco Central e outros organismos ligados ao capital queiram aproveitar alguma coisa dali....