quinta-feira, junho 11, 2009

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
Coluna das quintas
11 de junho de 2009

BRASIL: NO MÁXIMO
UMA GRIPE FORTE

Por Enéas de Souza

Cai, cai balão

Duas quedas que caem bem na economia brasileira. O PIB caiu –1,8 % no primeiro trimestre de 2009 em relação ao mesmo período do ano passado e a taxa Selic foi alterada ontem e ficou em 9,25, perdendo 1%. Digo que são quedas que caem bem, porque a primeira foi uma diminuição menor do que a que o governo, o mercado e os analistas pensavam. E a segunda, foi a surpresa, quase escandalosa, do COPOM. É verdade, que já deveriam ter tomado esta medida. Só que um grupo tão conservador precisou ver, e a olho nu, que a economia brasileira estava perdendo altura, voando baixo, quase rasante. Por isso, o COPOM, como órgão do Estado, não poderia ficar como o navio de Fernando Pessoa, o da Ode Marítima, saindo e entrando no cais. O COPOM tem que atentar para o crescimento da economia. E parece que desta vez, olhou e olhou fundo e viu que é preciso criar forças que levem a reversão da queda da economia.

Salve lindo pendão da esperança

Um dos pontos mais interessantes desta crise financeira, que é uma crise de várias bolhas – bolha pontocom, bolha imobiliária, bolha das commodities – é, sem dúvida, o efeito mais tardio e menos profundo nos países emergentes do que o que ocorreu antes no centro da economia mundial. Os resultados recentemente divulgados sobre o Brasil mostram com clareza que de fato a crise chegou à terra de Machado de Assis, mas que depois de outubro de 2008 quando o mar encrespou feio como a cabeça de Medusa, este primeiro semestre de 2009 já revelou uma beliscada com um pouco de menos velocidade. Há alguns pequenos pontos a pôr em consideração, como quando a gente olha um panorama e algumas coisas desta paisagem ressaltam e nossa atenção, porque fazem relevo. E a gente nomeia e diz.

O primeiro ponto a extrair do nosso olhar é a já falada queda do PIB, que comparada com o final do trimestre do ano passado, deve ser comemorada. Caímos em relação a ele somente 0,8%. O que demonstra a desaceleração em ritmo de quase parando. Só que há um segundo ponto, um tanto desabusado, como se fosse um furúnculo grave. A queda brutal do investimento. Ou seja, a economia não vai se levantar tão rapidamente quanto gostaríamos. O BNDES fez projeções patrióticas, prevendo para 2009, um crescimento do investimento para 19%. Parece que eles estão olhando esta variável com uma lente de aumento poderosa, que nós - modestos observadores da economia - não estamos conseguindo ver.

Ora, a queda do investimento é um elemento decisivo da economia, porque as inversões produtivas possibilitam o crescimento da capacidade produtiva e repercutem como uma batida de samba na alegria do aumento do emprego. Com a caída referida e o acréscimo da capacidade ociosa, a manutenção da taxa de investimento – que, em 2008, foi de 19% – não parece estar assegurada. Evidentemente que um toque de baixa taxa de juros – caso da Selic – pode incrementar a esperança de uma melhoria da variável. Assim, com esta taxa básica de juros de 9,25%, estabelecendo uma taxa real de juros um pouco acima de 5%, vai reforçar, mesmo que levemente, as possibilidades de investimento. Porque é preciso considerar: as expectativas do empresariado de recuperação da economia ainda estão diminutas e a capacidade ociosa ainda está muito alta. Há que aumentar a ocupação das plantas e de forma consistente para que os empresários pensem em investir.

A pneumonia virou resfriado?

O recuo do PIB no primeiro trimestre foi certamente comemorativo, porque se dermos uma olhada no tombo americano, na escorregada das taxas européias, o Brasil, fica muito nítido com uma flor vermelha, saiu-se bem. E essa figura, nos conduz ao exame de um terceiro ponto: o comportamento do Governo. O que se pode constatar, então, é que ele tem respondido bem aos desafios, propondo atividades e soluções de natureza contra-cíclicas. Com essas intervenções, conseguiu colocar novamente o fortalecimento da presença do Estado na economia brasileira algo retirado pelo neoliberalismo. Mire o leitor no conjunto de medidas tomadas. Já lá atrás, o PAC, que foi meio apoiado, meio criticado pelos banqueiros, é hoje reclamado, por alguns empresários produtivos, como tímido. O maior empresário gaúcho chegou a dizer que seria necessário pelo menos o dobro de recursos para o Programa. Ou seja, o Governo estava certo na sua proposição. Agora, estamos em pleno lançamento do Plano de Habitação Popular, que está levando muita crítica, por parte de especialistas da realidade urbana, porém, que do ponto de vista econômico estrito senso, é uma postura forte e adequada. Quem sabe o Governo não consulta apenas os empresários, mas também a população, os urbanistas, os arquitetos, os ambientalistas, etc.? Isto quer dizer, vamos trazer a sociedade para o cenário das decisões.

Estas duas medidas acima têm sido acompanhadas por outras, como a diminuição ou isenção de tributos, que tem garantido uma demanda forte ao menos no setor automobilístico e no setor eletro-doméstico, linha branca. Ou seja, se nos dois primeiros pontos, expressos no parágrafo anterior, o PAC e o Plano de Habitação, os gastos do governo e/ou de órgãos do governo vestem a camiseta e entram em campo, nos outros, a liberação parcial ou global de impostos faz com que a economia não caia violentamente. Ou seja, um gesto político de oportunidade. E isso tudo deixando a dívida/PIB em 38,4% (dado de abril). Desta forma, o leitor poderá comparar o dado com os mais de 110% da relação japonesa, com os quase 80% da relação alemã, com os 70,4% da americana. E existe outro dado sintomático: com déficit fiscal confortável. Veja-se, inclusive, a previsão para o ano que vem é de 0,8% do nosso PIB contra um possível 13,6% dos Estados Unidos.

Falando ainda no Estado brasileiro, ressalta o continuado alto nível das reservas externas do Brasil – hoje em 205,5 bilhões de dólares – depois da hecatombe generalizada do efeito da crise global sobre todos os países. E tudo num ambiente não-inflacionário – pelo menos até agora. Estamos sim em crise, mas acho que estamos fazendo o melhor e o possível. Veja-se a diferença do Brasil de hoje para o de antes: antigamente se dizia que quando os Estados Unidos davam um espirro, a economia brasileira tinha uma pneumonia. Neste momento, é certo que teremos, no máximo, uma forte gripe; talvez fiquemos, no máximo, resfriados.

sábado, junho 06, 2009

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: O mundo dos quants em desencanto

A partir do segundo semestre de 2007, a engenharia financeira sofreu seu maior revés: os preços dos ativos começaram a se comportar de forma imprevista e trilhões de dólares (vide http://econobrasil.blogspot.com/2009/06/crise-financeira-mundial-abordagem-das.html) foram perdidos. Os matemáticos, físicos e pseudo-economistas que geraram essa fórmulas mágicas amargam hoje o merecido descrédito.

Paul Wilmott, um expert não-trivial na área, explica o que aconteceu. E como isso está mudando o comportamento e as crenças dos bancos e de seus matemáticos em todo o mundo.

Link relacionado:

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: A abordagem das "duas crises bancárias"

O último McKinsey Quarterly traz uma bordagem interessante sobre o que chamam de "duas crises bancárias". Uma, a da securitização de imíeis, estaria controlada pela intervenção dos Bancos Centrais. Outra, a dos defaults em empréstimos os mais diversos como cartões de crédito, empréstimos estudantis e outras formas de crédito, deve se materializar em sua plenitude apenas daqui a dois anos! e o pior, 2/3 dos ativos bancários nos EUA estão adossados a essa forma de crédito.

E o pior, o artigo mostra que até o final de 2010 os bancos terão perdas acumuladas superiores aos 2 trilhões de dólares, frente aos 930 bilhões de dólares reconhecidos até o momento! Arffffff... Para os autores, pertencentes a uma grande consultoria financeira, o sistema bancário norte-americano enfrenta um ambiente "desafiador" para o futuro próximo. O que será que isso quer dizer?

Nas palavras dos autores:

"The good news is that we appear to be seeing the end of this credit securities crisis. That is in part due to the clarity provided by the stress test exercise and the ongoing commitment on the part of government not to allow a large-scale bank failure. The other credit crisis is a commercial-bank lending crisis. While this crisis also stemmed from bad residential mortgages, it involves a broader array of lending, including commercial real-estate loans, credit card loans, auto loans, and leveraged/high-yield loans, all of which are now going bad because of the economic downturn. The bulk of these loans are subject to hold-to-maturity accounting, which, in contrast to fair-market accounting, typically does not recognize losses until the loans default. The bad news is that this crisis is still in its early stages and may take two years or more to work through the credit losses from these loans.

Of course, all large financial institutions hold both kinds of credit assets on their books. Some of the largest broker–dealers hold 70 percent of their assets at fair value, while some regional banks hold up to 90 percent of their assets in hold-to-maturity accounts. For the banking and securities industry as a whole, about two-thirds of assets are subject to hold-to-maturity accounting.

It might seem odd that accounting methodologies can make such a big difference. At the end of the day, what counts is the net present value of the cash flows from each asset, but those are unknowable until after a debt is repaid. Fair-value accounting, based on mark-to-market principles, immediately discounts assets when the expectation of a default arises and ability to trade the assets declines. Fair-value therefore makes the holder of the assets look worse, sooner. Hold-to-maturity accounting works in reverse and makes the holder look better for a longer time."

Link relacionado (requer inscrição gratuita para acessso ao artigo completo):

sexta-feira, junho 05, 2009

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: EUA perdem 345.000 empregos em maio. E isso é uma boa notícia!

O desemprego oficial nos EUA atingiu 9,4% em maio de 2009, com aperda de mais 345.000 empregos. Isso foi considerado uma boa notícia pelo mercado financeiro. O importante foi a adição de mais 90.000 desmpregados oas números de março e abril.

As constantes revisões vêm fazendo com que os números anunciados estejam substancialmente subestimados, mês após mês. Mesmo assim, economistas ouvidos pela Bloomberg falam em provável fim da recessão nos EUA.

Link relacionado:

quinta-feira, junho 04, 2009

 CRISE FINANCEIRA MUNDIAL

4 de junho de 2009

 

Coluna das quintas

Por Enéas de Souza

 

A PAUSA QUE REFRESCA

 

Temos que dar boas notícias!

 

A crise já passou! Olha só a bolsa subindo, as finanças estão ficando contentes. No entanto, é preciso tomar cuidado com estas observações. Primeiro, a mídia hoje virou uma publicidade única, quase uma espécie de órgão de divulgação do capital financeiro. Segundo, mesmo na hipótese correta de que a esfera financeira tivesse se ajeitado, o que é uma insensatez, haveria que considerar que o problema fundamental não é a recuperação das finanças. Só isso não basta. O que é decisivo é sim, a recuperação da sociedade americana. Dêem uma olhada na produção industrial, no nível de capacidade ociosa, nas taxas de desemprego, nos níveis mensais de seguro-desemprego, e podemos ver que o desastre continua forte, nem ao menos diminuindo visível e substancialmente. Pode ser que cheguemos à conclusão que estamos num “pit stop” para um novo caminho desarvorado. Portanto, a economia americana é um Titanic que ainda não afundou totalmente.

 

Engodo - Parte II?

 

Voltemos ao sistema financeiro. O que é que mudou? A capitalização das finanças? Sim. Mas, em que nível? Foi suficiente? Não se sabe. Vamos, agora, como uma câmera que salta de fora para dentro dos bancos e das entidades que trabalham no setor, perguntar: aqueles “ativinhos podres” que estragaram a vida do neoliberalismo, já foram todos erradicados? Os balanços estão limpos? Duvido. Novas perguntas se seguem: estão todos voltando ao jogo, uns emprestando aos outros com taxas normais? Resposta: realmente os mercados estão fluindo razoavelmente. É verdade. Mas, salta logo a dúvida: não há nenhum medo de que o crédit crunch retorne com a mesma força? E continuam as questões: todas as instituições financeiras estão retomando e reorganizando os mercados americanos? Ou seja, mesmo sem nenhum desenho preparado, houve a recomposição de alguma arquitetura financeira?  Certo, a alavancagem voltou e o dinheiro começa a se avolumar. O FED lambusou o sistema de liquidez, com taxas de juros zero, mas pergunta-se: o fluxo financeiro voltou sem nenhum entrave? Não.

Então...

 

Pode-se pensar num neo-neoliberalismo?

 

Então, o que há? O que há é um enorme poder social das finanças, que pôde usar um forte e denodado apoio do Estado - empregando os títulos e a dívida estatal e a maquineta de fazer dinheiro - para conseguir dar ao setor uma capacidade de manobra, de manipulação dos números, de ativos, e de mercados – enfim, tempo – para tentar mudar o panorama da esfera financeira. E pode até mudar. Pode até enlaçar, via novos métodos de crédito, o setor produtivo; mas isso é ainda coisa impensável. Pode até fazer um neo-neoliberalismo, mas nunca mais fará o movimento original. Porque? Só se a sociedade for estúpida para cair no engodo de achar que pode ganhar dinheiro do jeito que ganhavam. Onde encontrar mercados? Onde estão os produtos, os ativos? No exterior, no Brasil, por exemplo. Mas, jogar no Brasil, jogar em outros mercados deste porte, não é recompor o neoliberalismo; é apenas seguir, de um certo modo, o mesmo caminho original, porém menos consistente, de buscar recuperar o capital perdido nos Estados Unidos. O Brasil sustentará as necessidades de acumulação financeira dos grandes capitais especulativos do mundo? Nem por megalomania dos ufanistas das finanças pode-se pensar nisto. Ou seja, há que ter cuidado em examinar os sinais de recuperação. E é importante assinalar: o fundamental nesse momento, não é apenas uma leve melhora no mercado financeiro; o importante é a economia como um todo. Olha só, caro leitor, como a esfera produtiva está embaralhada, com problemas espetaculares como as do setor automobilístico americano. Vamos, com calma, para dizer que a crise já passou! Pode haver um ventinho favorável, um ou outro indicador melhor, mas as forças que levantam uma economia têm que predominar sobre os elementos que a levam para baixo. E isso ainda não está no cone de possibilidades.

 

Adivinhe quem vai fazer o jantar?  A energia limpa?

 

Há também outro ponto a considerar. A economia produtiva atual está envolvida em problemas complexos. O mais fundamental é, sem dúvida, a questão energética. Tem havido esperanças fortes no campo do petróleo. Estão achando petróleo até em Cuba! Mas, a verdadeira questão é outra. Pois se o petróleo retornar a preços baixos, etc. etc., o tema se desloca para o meio ambiente, os estragos que este tipo de energia está fazendo. Que falem os ambientalistas!  Pergunta decisiva: é possível fazer uma energia limpa com o petróleo, a preços convenientes? Mas, ainda na questão produtiva, como é que podemos pensar em recuperação sem modificações tecnológicas profundas, devido à competição aguçada e à queda da eficiência marginal do capital em diversas áreas?

(Não está parecendo tudo um golpe publicitário para enganar os incautos habitantes do planeta?).

 

A pergunta inquietante

 

Tudo isso nos leva a um problema sério. Quais são as possibilidades dos cidadãos do mundo de mudarem, em seu benefício, um pouco esta enorme máquina de fazer dinheiro e de engano que se constituiu o neoliberalismo - e que apesar de falido, continua gerindo as nossas consciências e os nossos destinos?

 

 

terça-feira, junho 02, 2009

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Para Martin Wolf, alta dos juros de longo prazo é bom sinal

Martin Wolf, em sua coluna semanal no FT, revém sobre a verdadeira controvérsia do momento: a alta dos juros de longo prazo nos EUA é um sinal de reaquecimento econômico ou de desconfiança no dólar?  Para ele, o que está ocorrendo é uma "normalização" do mercado.  Assim mesmo, ele alerta: o governo dos EUA tem de cuidar para não "virar o fio".  Acho que ele tem razão: até o momento, não há razão para uma preocupação excessiva. 

Mas, a continuidade do endividamento público nos EUA pode mudar esse quadro. E parece que o sistema financeiro ainda vai drenar muito dinheiro do "contribuinte" por lá...

Link relacionado:

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: S&P 500 vs. Desemprego (U6) - EUA

quinta-feira, maio 28, 2009

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL

28 de maio de 2009
Coluna das quintas
por Enéas de Souza

DOS BLOQUEIOS À MUDANÇA


A informação também é uma arma

Trata-se, no momento, de apurar os verdadeiros contornos da crise. A primeira constatação que percebemos é que um sistema, que sempre pregou a informação e a transparência, a eficiência e a probidade, tem um sistema de informação absolutamente competente, altamente profissional, mas definitivamente – perdoem a palavra – cretino. Ou seja, o sistema é totalmente mentiroso, falsificador, mas muito bem feito e opera extremamente bem no objetivo principal: manter a dominância das finanças e sustentar a idéia de que a crise, se não passou, ela esta em vias de passar. Isto desde 2007. E continua assim. Há um amor cínico pela mentira, por tentar produzir fantasias. E porque se faz isso? Um ponto é obvio faz parte da estratégia das finanças. Mas, eles só mantém estas proposições porque a sociedade aceita. E porque ela aceita? Porque, a ideologia atual perdeu um dos seus braços, a proposta neo-liberal. Isto está morto, desmoralizado, etc. Mas, o que continua vigorando, com muita força, com extrema sedução, é a ideologia do individualismo.

O individualismo é a moeda de ouro do capitalismo

Os indivíduos sabem que a sociedade está em crise, que as finanças se batem entre si, mas não vem alternativas. Não acreditam na esquerda. Não pensam quem revoltas, revoluções, etc. possam ser a solução. Mas, sabem, que numa sociedade capitalista, por menos mobilidade que tenham, ela existe, e portanto, cada indivíduo, você, por exemplo, pode pensar que escapa da debacle geral, pelo seu talento, pelas suas relações, pela sua história, etc. Ou seja, há no coração desta crise, no meio do desabamento da direita e da esquerda, da crise das finanças e do desemprego, a ideologia do individualismo, que é capaz de aceitar e não reagir a estas derrapadas desastrosas e fulminantes deste capitalismo endoidecido.

A especulação é um ponto de fuga no sistema

Digo bem: capitalismo endoidecido. Porque temos um capitalismo cuja sustentação é o movimento desregulamentado da valorização de títulos, que funciona por especulação e portanto, o próprio mercado não tem capacidade de controlar. O mercado financeiro é organizado em torno de dois pontos de fuga, que é o aumento infinito e a redução a zero. Ou seja, o seu sistema de preços é explosivo em qualquer sentido. E é exatamente, por essa razão que o sistema financeiro é suscetível a bolhas. Porque a regulação especulativa é dada pela bolha, que infla e desinfla de acordo com os movimentos em massa dos participantes, sempre suscetíveis a boatos, a idéias, a astúcias, a vigarices, a imaginações, a invenções políticas, econômicas, etc. que conduzem o mercado para um ou para outro lado.

A força dominante no Estado

O momento atual revela que o capitalismo financeiro funciona livremente pelo lado especulativo, mas que tem sempre um companheiro, um personal training que é o Estado. O Estado fica ali, deixando tudo acontecer em nome da confiança do mercado, ou sustentando-a sob a idéia pouco discutida de risco sistêmico. E o Estado é na verdade uma instituição socialmente construída, mas que tem sempre uma força dominante que o impele a definir posições quando formula políticas econômicas. Nessa direção, o que temo hoje é um Estado voltado para a salvação da sociedade da crise financeira. Ora, esta salvação não é a salvação da sociedade. Podem até serem ações para evitar o caos. Mas, o objetivo primeiro – e praticamente único – é salvar o capital. Na verdade, é salvar as finanças, e não deixar que o conflito decisivo capital-trabalho inaugure-se com extenuada corrosão. Por isso, a salvação da esfera produtiva entra com forte e demorada lentidão.

As contradições que seguram o barco

E o que vemos hoje. Em primeiro lugar, uma contradição no grupo dirigente do capitalismo. As finanças não se entendem. E não se entendem porque as necessidades de rendabilidade e de competição dos grupos são divergentes, todos querem sair melhjor que os demais, e se possíveis que eles desapareçam. Veja-se como resultado desta prática, a decisão desastrada de Paulson em quebrar o Lehman Brothers. Mas, a crise nas finanças, politicamente, não os faz inimigos definitivamente mortais. Há um momento anterior, aquele onde os personagens sabem que estão mal, mas sabem também que devem se unir, para enfrentar a derrocada e os demais adversários.

Nesse sentido, as finanças, mesmo em franjas, se unem, continuam mandando no Estado e bloqueiam maiores reivindicações do capital produtivo, e as escandalosas taxas de desempregos, por exmplo da economia americana, são deixadas de lado na discussão. Vejam Keynes escreveu: “Teoria geral do emprego, do juro e da moeda”. Ou seja, o emprego era um dos temas centrais da sua preocupação como economista. Hoje, um economista financeiro está preocupado com a renda e os juros. O emprego é um problema que lhe interessa pouco. Porque para ele o emprego virá como conseqüência fatal das aplicações financeiras. O que é uma parvoíce. GFazer uma aplicação numa ação de uma empresa, não quer dizer que esta aplicação vai incrementar o aumento de emprego. O emprego não é o ponto de interesse do capital financeiro. É, apenas em parte, do capital produtivo, porque a tecnologia já mostrou que o trabalho tem uma importância muito limitada para o capital. Assim, o trabalho – e conseqüentemente, as questões de emprego, estão subjugadas a duas dominâncias do capital: a hegemonia das aplicações financeiras sobre as inversões produtivas, e a constante renovação tecnológica. São dois obstáculos fundamentais ao movimento dos trabalhadores. E o Estado tem cumprido bem o seu papel: manter as finanaçs funcionando e financiando as pesquisas tecnológicas sem alterar as relações sociais de produção.

De outro lado os trabalhadores, não conseguem mais se agregar em torno das idéias de revolução, sobretudo aquelas revoluções do estilo soviético, chinês, cubano. Elas são referências, mas não podem ser imitadas. Assim, como o capitalismo financeiro não pode mais imitar este capitalismo neoliberal que desabou, os socialistas não podem imitar as revoluções anteriores. Ou, seja é preciso encontrar novas saídas para a crise, seja quem lute pelo capital, seja quem lute pela metamorfoses social. Só que apesar de tudo, está mais fácil para o capital do que para os seus adversários. Vejam-se as duas dominações econômicas brutais: as finanças e a tecnologia.

quarta-feira, maio 27, 2009

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Treasuries caem, rendimento chega a 3,7%

Se essa tendência persistir, o que passou ano passado vai realmente parecer uma "marolinha". Apesar da "calmaria" recente nos mercados, uma crise monetária agora traria consequências inimagináveis para a economia e a geopolítica mundiais. A tempestade parece estar se armando apesar do compromisso do FED em comprar os títulos do tesouro dos EUA de maturidade superior aos 10 anos.

Bernanke vai dormir muito mal essa noite...



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terça-feira, maio 26, 2009

domingo, maio 24, 2009

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Alerta da S&P em relação ao Reino Unido pode marcar início da nova etapa da crise

Segundo Simon Johnson, ex-FMI, a decisão de anunciar a deterioração potencial da progressão da nota do Reino Unido de "estável" para "negativo" pode marcar o início a nova fase da crise financeira mundial. Nela, as dívidas dos países, que assumiram a maior parte das perdas dos sistemas financeiros privados, jogarão o papel principal. A crise já foi imobiliária, depois financeira, após econômica. Passaria, em uma evolução nada surpreendentel, a ser monetária.

O cenário pode se configurar de forma trágica ao longo dos próximos anos, marcando a necessidade de refazer o Sistema Financeiro Mundial a partir de uma crise do Sistema Monetário. Notem que não é algo para ser resolvido nos próximos dias e que independe da alta ou não das bolsas de valores (aliás, alguém ainda acredita que as bolsas "avançam" o comportamento da economia em seis meses? Bom, aqueles que acreditam vão tomar a lição correta onde dói mais...). No mesmo registro, mais um relatório do GEAB/LEAP aponta para a possibilidade de desintegração do atual sistema monetário. Com sempre, aprevisão ali é radical: a roda começaria sua movimentação em junho de 2009.

No mundo real, a inclinação da curva de rendimentos deu sinais preocupantes na semana passada e é para lá que devemos olhar para acompanhar mais de perto a situação.

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sexta-feira, maio 22, 2009

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Treasuries caem com fuga de títulos do tesouro dos EUA

Hummmm... parece que a Quantitative Easing de Bernanke não está funcionando muito apropriadamente... A curva de rendimentos está inclinando perigosamente, com os juros para os títulos de 10 anos ultarpassando àqueles pagos para os títulos com prazo de 2 anos. O mercado está testando a disposição do governo em aumentar seu endividamento.  

Ao mesmo tempo, os estados norte-americanos caminham a passos largos para a insolvência.  A Califórnia está cortando o orçamento dos programas de emprego e dos serviços de saúde e educação para os mais pobres, dada a dificuldade apresentada pelo elevação de seus déficits. Vem muito mais nessa área ainda em 2009, sendo esta uma das fontes potenciais de prejuízos para o sistema financeiro. Aliás, trata-se de uma boa demonstração do modus operandi do Estado neoliberal: subsídios e resgates para os mais ricos e  cortes no orçamentodos serviços para o mais pobres, exatamente conforme a cartilha.

Se os juros de longo prazo, que são determinados pelo mercado, dispararem nos EUA, a depressão será uma certeza e não mais uma possibilidade. Fato para ser acompanhando atentamente.

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CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: dólar em queda, ouro em alta




Ao mesmo tempo em que o dólar vem perdendo força, o ouro tem subido com alguma volúpia no mercado internacional. As notícias de que a S&P poderá retirar a nota AAA do rating soberano do Reino Unido realimentou os temores de que o mesmo possa vir a ocorrer com a dívida norte-americana (ver link com a opinião do insider Bill Gross). Isso tem alimentado uma fuga do dólar, anto por aversão ao risco (nesse caso o ouro sobe), quanto por motivos especulativos (nesse caso o real brasileiro valoriza, por exemplo).

Embora a hipótese de um default clássico seja um despropósito para o caso norte-americano (basta imprimir dólares se necessário), o valor futuro da moeda norte-americana pode ser  questionado com propriedade.  

A evolução natural da crise, em caso de sua continuidade,  é para uma crise do sistema monetário internacional. Essa não parece iminente nesse momento, mas os desequilíbrios têm se acumulado perigosamente ao longo dos dois últimos anos (ou seriam dos últimos 30 anos?). Chegaremos lá?

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quarta-feira, maio 20, 2009

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: A difícil regulação dos derivativos

Embora já tenha se mostrado sensível ao tema, a atual administração norte-americana não parece dispor de força política para enfrentear o lobby da indústria financeira no que tange à necessária regulamentação do mercado de derivativos mundial. 

E um dos problemas mais importantes é exatamente o fato de que o mercado de derivativos é global. Ou seja, as decisõe dos EUA repercutem com igual - ou maior - intensidade na Europa e na Ásia. Londres, por exemplo, que se especializou em ser o centro desnvolvido financeiro mais desregulamentado, têm verdadeiro terror quando se fala em regulamentar hedge funds ou derivativos de balcão. e seu lobby é ativíssimo em Washington... 

Ou seja, a luta entre o status quo que degenerou na maior crise desde os anos 1930 e os adeptos das mudanças nas bases institucionais necessárias a uma nova etapa do capitalismo ainda vai longe...

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CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Produto japonês cai 15,2% no primeiro trimestre

O PIB japonês continua em queda livre, tendo atingido a impressionante marca de 15,2% no primeiro trimestre de 2009 frente ao produzido no primeiro trimestre de 2008. Em relação ao quarto trimestre de 2008, a queda no primeiro trimestre do atual ano chegou a 4%.

Em outro registro, também a Rússia ainda não apresenta os sinais de recuperação que animam os mercados ao redor do mundo. A produção industrial caiu 16,9% em abril na comparação com o mesmo mês de 2008 e a expectativa para o PIB  desse ano é de cerca de -10%... 

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quinta-feira, maio 14, 2009

A retomada chinesa e os preços das commodities

Em realidade, o único país que tem apresentado alguns sinais convincentes de recuperação da economia é a China. Entretanto, essa recuperação terá dificuldades em se sustentar. Ela é resultado quase exclusivo dos estímulos fiscais e monetários do governos chinês, mas, segundo Buitter entre outros, não afeta a questão básica: quais mudanças podem, de forma continuada, voltar à dinâmica e à estrutura da economia chinesa para seu mercado interno? Isso leva tempo, e ainda não está mesmo em execução. Visto de fora, dá a impressão que, para a as autoridades chinesas, a crise dos países desenvolvidos e dos EUA em particular, é uma crise de resolução relativamente rápida. 

Ou seja, a economia está estimulada pelo governo, mas isso resulta em uma superprodução de bens que não tem demanda, nem na China nem em outros países.  Exemplo é a intervenção de hoje ho mercado de aço, com o governos cortando o crédito às empresas que têm elevado sua produção muito acima da capacidade de demanda. O sinal de alerta nesse mesmo setor veio com a elevação da importação de minério de ferro, considerada excessiva pelas autoridades locais.  Se estima que a demanda por aço deva cair 5% em 2009. 

Ou seja, aqueles que esperam uma retomada permanente nos preços das commodities com base em um progressivo aumento da demanda chinesa, provavelmente estão errados. A crise é longa e o país que pode dar - quando ocorrer - elementos concretos de uma recuperação econômica ainda são so EUA.


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quarta-feira, maio 13, 2009

Gráficos da Crise: a "recuperação" das bolsas americanas (S&P 500)

É a recessão, estúpido!

A economia real mostra as garras nos EUA... Se esperava aumento co consumo em abril, o resultado foram decepcionante 0,4% de queda frente ao mês anterior (10,1% de queda frente ao mesmo mês do ano anterior).  Mas, o desemprego segue aumentando, já atinge 8,9% em abril...

Em abril, 342.038 imóveis foram retomados pelos bancos , um record que aponta para maior pressão sobre o preço dos imóveis, ainda que as vendas aumentem graças à necessidade do setor financeiro de transformar esse imenso estoque em cash.  Os preços em queda vêm aumentando os prejuízos de inanciadoras como a Freddie Mac, que apontou para um novo prejuízo de mais de US$ 9 bilhões no primeiro trimestre de 2009...

Todo esse apanhado de dados é para mostrar que os problemas no setor financeiro quebraram o eixo da dinâmica de crescimento anterior... e que a recessão vai realimentar os probelmas financeiros de maneira bem pior do que os números do stress test apontaram. Dado que o Estado já mostrou que irá defender o status quo do sistema financeiro a qualquer preço, pode-se esperar uma lenta e longa agonia da economia dos EUA e, por consequência, da economia mundial. 


 

sábado, maio 09, 2009

O que valem os stress tests?

Roubini aponta razões para que o stress test realizado em 19 bancos nos EUA mostre suas fragilidades logo logo... a abordagem do problema pelo governo dos EUA tem tudo para criar os famosos bancos zoombies que fragilizaram a economia japonesa nos últimos, 15 anos.
Vale a pena dar uma olhada nas razões apontadas por Roubini para uma descrença na retomada do sistema financeiro dos EUA.
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Banco da Inglatera assustado com possibilidade de terceira onda da crise financeira

Se escuta que a crise acabou... será? O Banco da Inglaterra aposta que não. Na última quinta-eira, mais L$ 50 bilhões foram injetadas no sistema financeiro inglês e Banco da Inglaterra teme que isso não seja suficiente.
Como o Enéas já colocou, iremos de bailout em bailout, até uma crise do sistema monetário internacional?
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quinta-feira, maio 07, 2009

Coluna das quintas
7 de maio de 2009

DIZEM QUE A CRISE TERMINOU
Por Enéas de Souza

(Entro em férias e deixo 3 questões.)

Será que a crise terminou?

Vários jornais tentam passar a idéia de que a crise deu a sua volta na praça, recolheu os seus trapos e se mandou para casa. Indicações: a bolsa voltou com toda força; os bancos deram resultados lucrativos; o presidente do FED consegue ver sinais de recuperação; a libor baixou; as questões do hedge não avançaram, etc. etc..Mas, há indicações no sentido contrário: os bancos precisam cada vez mais de capital e capital; a contabilidade não chegou a ser aberta, tornou-se mais flexível para esconder os verdadeiros resultados do setor bancário; o setor imobiliário continua crítico e com um horizonte de recuperação indeterminado; os Credits Default Swaps (CDS) não estouraram ainda, continuam um mistério; e a bolsa, apesar de eventuais bons movimentos, não é o centro da questão financeira, etc. etc. Das duas uma: ou o capitalismo financeiro conseguiu alguma fórmula que escapa aos observadores atentos ou estamos diante de um grande movimento de simulação. Se for este o caso, a indagação se precisa: será que a mídia, como ponta de lança das finanças, não está fazendo um belo trabalho ao produzir uma cortina de fumaça para ocultar e prolongar um tempo para que o setor financeiro tente encontrar alguma solução? Será viável esta estratégia? Qual o resultado desta postergação?

O conflito da governança corporativa vai terminar?

A forma da empresa capitalista, financeira ou produtiva, de um capitalismo avançado como o americano, traz no seu bojo, uma disparidade frontal. De um lado temos os proprietários das ações, os “shareholders”, cujo interesse está expresso no princípio de valorização máxima das ações. (O “Return on equity – ROE). Eles estão fora da empresa, mas a controlam acionariamente. De outro lado temos, os dirigentes, os banqueiros, que são empregados de luxo, que ganham salários avultados, que tem ações da companhia e que auferem bônus, mesmo quando a empresa entra em bancarrota. Portanto, logo se vê, ambos podem ter alguns objetivos que coincidem, mas também podem ter outros alvos distintos. Assim, quando a economia entra em crise, quando as empresas vão mal e quando a bolsa de valores sofrem adversidades, dá para perceber que os acionistas e os dirigentes ficam em lado opostos. E a coisa se complica mais ainda, quando Obama condiciona o auxílio à salvação dos bancos a limitação dos bônus para os executivos. Ou mesmo, quando o Congresso busca taxar em 90% os bônus dos executivos da AIG, uma empresa de seguros que deu um prejuízo de 240 bilhões de dólares aos contribuintes, e que os dirigentes queriam sair com os seus volumosos prêmios. Obama e o Congresso podem ser uma pedra em qualquer acordo dos acionistas e dos banqueiros. As divergências se exacerbam e a contradição aumenta o seu movimento.

Como disse um empresário: esta forma de fazer negócio - leia-se esta forma de organizar a empresa contemporânea – precisa ser mudada. Então as perguntas se exibem notórias: pode esta crise se resolver sem que uma nova forma empresarial se estabeleça? Esta fórmula está à vista? Pode-se manter, por um retrocesso histórico, a governança corporativa, após uma nova salvação dos grandes bancos pelo Estado? Pode ser a governança corporativa conservada, se o caminho for a nacionalização?

Quantas salvações dos bancos serão necessárias?

O leitor percebe que se falta capital em grande escala para os bancos é possível que novos “bailouts” sejam necessários e que novas salvações possam ser buscadas. Mas, o leitor percebe também que se torna eminente uma escassez de tolerância política não só do Obama e do Congresso, como da população em geral, sobretudo quando emerge uma taxa de desemprego crescente. A luta social e econômica pode trazer alguns revezes aos bancos e pode retornar, com força, a questão da nacionalização. Contudo, mesmo que isso não aconteça, de qualquer forma, o tempo que serve para os bancos encontrarem uma solução, funciona também no sentido adverso, já que significará que a crise não foi parada e que os bancos não têm a bala que pensam ter. Ou seja, lembramos, sempre e mais uma vez, que esta crise tem uma estrutura de escada. Num determinado momento, há um temor imenso, ocorrem pensamentos e declarações sombrias, porque ela está descendo de um patamar para outro. Mas, quando alcança o novo patamar, os problemas parecem se deter e as coisas parecem se endireitar. E então, como um jogador de pôquer e um ilusionista, as finanças fazem algumas manobras - seja por meio dos seus representantes no corpo do Estado, seja através do desenvolvimento de negócios ardilosos, seja por meio de movimentos especulativos ascendentes nas bolsas - para que tudo se mostre como tudo está bem. E a mídia, esta publicitária do sucesso, começa a colocar nas pessoas o pão da esperança, a vigorosa idéia de que a crise já passou. Mas, a crise é como a Pandora, que tem um saco de ativos podres, bancarrotas, retração econômica, desemprego, etc. E tem, igualmente, o maior dos males - como diz Machado de Assis em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” – que é a esperança. Deste modo, amigo leitor, esteja Machado certo ou não, e seja o mundo regido por Pandora ou não, uma questão se faz indispensável: as atuais esperanças de que a crise já passou, não podem ser uma desesperada cartada da mídia e das finanças na busca de um consenso enganador e de uma queda maior na tendência declinante da economia?

Voltamos à velha disjuntiva: ou as finanças descobriram a fórmula milagrosa da regeneração ou a trajetória para a depressão fez mais uma parada. E ela, a questão candente da crise, terminará por se colocar no colo de Obama. Terá ele a capacidade de concertar, para usar o título de um belo livro de Chico Buarque, “o leite derramado”?

(Volto a escrever na última semana de maio.)

quarta-feira, maio 06, 2009

BofA, Citi, Wells fargo e GMAC necessitam aumentar seu apital: resultados preliminares dos stress tests

BofA tem a situação mais problemática: necessita mais US$ 34 bilhões, segundo o teste.


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Crise em etapas

Vamos deixar um pouco de lado a crise financeira. Ela existe e está longe de ser resolvida, principalmente no sistema financeiro dos EUA.  Pensemos em termos da economia real. Essa é uma crise engraçada. Trata-se da luta entre um sistema de financiamento da produção e do consumo em mutação, em crise e, de outro lado, as ações governamentais não apenas no campo financeiro, mas também no campo fiscal, que visam possibilitar uma retomada da produção. Os resultados são imprevisíveis no curto prazo.

A China aparece como grande termômetro da crise da economia real. Não é ,o epicentro, mas o que acontece por lá dá uma dimensão quanto a intensidade das quedas na produção industrial e no comércio internacional, vetore de disseminação global da tendência depressiva. Nos últimos dias, se estabeleceu uma esperança de retomada mais forte da produção e do consumo na região asiática, a partir da melhoria da performance da economia chinesa.  A notícia de que a geração de energia na China caiu novamente em abril vem como uma pá de cal nessa esperança de retomada acelerada. E assim segue o baile. Parece que a produção e o comércio terão algum longo período de estagnação pela frente, sempre sujeitos às notícias explosivas do campo financeiro. 

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terça-feira, maio 05, 2009

Protecionismo financeiro

Obama está certo em sua tentativa de tapar os furos pelo qual as multinacionais norte-americanas evadem centenas de bilhões de dólares. Países como a Suíça, a Irlanda e a Inglaterra, tem muito a perder com a iniciativa de Obama. Multinacionais e opaíses beneficiados estão horrorizados com a iniciativa do presidente Obama.

Em um mundo dominado pela finança, a guerra protecionista toma novass formas: o protecionismo agora é financeiro! Obama (e os EUA) saem na frente na tentativa de retomar, ao menos parcialmente, o poder do Estado. Pena que o dinheiro já tenha sido transferido ao falido sistema financeiro dos EUA... mas, a reação dos atingidos vai ser interessante. Guerra financeira à vista.

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sábado, maio 02, 2009

Como os resultados dos grandes bancos melhoraram em 2009

Banks beat “well managed” low-ball expectations. In the last quarter of 2008, publicly traded banks lost $52 billion. Despite a return to profitability for some institutions, in the first quarter of 2009, banks are still expected to lose around $34 billion. For example, UBS and Morgan Stanley recorded losses.

The quality of earnings was questionable. Core businesses declined by 20-30%. Trading revenues, especially fixed income, rose sharply at most big banks reflecting high volumes of bond issuance, especially investment grade corporate issues and government guaranteed bank debt.

Corporate issuance was the result of the continued tightening in credit availability as banks reduced balance sheet. The issuance of government guaranteed bank debt provided underwriters with a “double subsidy” – the government guaranteed the debt but then allowed the banks to earn generous fees from underwriting government guaranteed debt.

Link realcionado:

http://www.wilmott.com/blogs/satyajitdas/index.cfm/2009/5/1/Banking-Fortunes--From-Catastrophic-to-Just-Awful


Gráficos da Crise: encomendas à indústria (EUA)

Cazaquistão cai na armadilha de Wall Street

Em mais um capítulo romanesco da crise que desvela muito sobre o funcionamento do mercado financeiro, o affair do banco Cazaq (?) BTA com o Morgan Stanley e outro banco traz á luz o papel dos Credit Default Swaps (CDS) na pró-ciclicidade da crise.
Resumindo enormemente a história, vários débitos do BTA com a Morgan Stanley haviam sido refinanciados ao longo de 2008 dentro da ideia de que o credor teria mais a perder com a bancarrota do devedor. Isso deixou os cazqs tranquilos. Para sua surpresa, nesse semana o Morgan Stanley exigiu o pagamento das dívidas. Obviamente, o BTA não teve como honrar a dívida. Em princípio, os cazqs não entenderam o que havia levado o Morgan Stanley a exigir um pagamento que sabiam não seria efetivado.
A resposta está nos CDS que o Morgan Stançey havia comprado e que garantiam o banco norte-americano quanto á prossibilidade de default da dívida do BTA. Quem vendeu a proteção ao Morgan Stanley ficou com o mico. O BTA está em grande dificuldades. O Morgan Stanley levou seu dinheiro. a história mostra como o mercado de CDS permite "planejar" a falência de um devedor pela asficia de crédito, sendo essa falência do interesse do credor.
Histórias semelhantes estão acontecendo com empresas do setor "produtivo" ao redor do planeta. Obviamente, a consequência será uma implosão do mercado de CDS (mais de US$ 12 trilhões) e uma explosão na quantidade de falências corporativas, na medida em que os defaults "planejados" e orquestrados pelos credores se multipliquem. Mesmo gigantes como a GE estão na mira...
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Confusão em torno do stress test bancário

Quando do lançamento do Plano Geithner, ainda em fevereiro, antecipamos que a aplicação de stress tests "transparentes" em todo seu processo seria inviável dada a natueza da formação de preços nos mercados de capitais. Agora, o governo dos EUA se defronta exatamente com o problema: embora o processo não tenha tido a transparência anunciada, os mais diversos boatos surgem quanto aos resultados do teste aplicado nos 19 maiores bancos do país. Começou-se falando na necessidade de capitalizar um banco, depois seis e, nessa manhã, surge a notícia de que 14 bancos necessitariam novos aportes de capital.
Ao mesmo tempo, a divulgação dos resultados do teste foi adiada do dia 4 de maio para o dia 7, após o encerramento da atividade do mercado. Muitas reuniões entre os bancos e as autoridades estão ocorrendo na tentativa de minimizar os efeitos negativos do anúncio. A natureza colusiva dessa relação continua, o que tira a credibilidade do processo. Vamos estar acompanhando com atenção o desenrolar do processo.
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TALF estendido ao setor imobiliário comercial

O FED decidiu estender seu programa de refinanciamento de títulos securitizados TALF ao setor imobiliário comercial. A medida visa limitar o impacto do aumento de defaults que atinge os imóveis comerciais nos EUA sobre o balanço dos bancos, ao permitir o aumento dos prazos de financiamento dos títulos imobiliários securitizados (CMBS). trata-se de um reconhecimento tardio quanto á gravidade da situação no setor, aquele que mais ameaça o balanço dos bancos nesse ano.
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quinta-feira, abril 30, 2009

Crônica das quintas
30 de abril de 2009

OS CEM DIAS DE OBAMA
Por Enéas de Souza


Obama é a cara da atual situação dos Estados Unidos, da crise e do mundo. Sua grande característica é a vontade de alterar o que estava em andamento no Ocidente e na América do Norte. O estado de coisas, cuja imagem absurda era Bush, e pior ainda, Cheney, mostrou a dupla face da insensatez e do ardil insuspeito da cobiça. Guerra e predação, tortura e descalabro. Com a eleição de Obama este clima começou a se alterar. Chegou ao fim a mentira como estratégia de poder. Um dia ela, a mentira, deu meia volta e se jogou nos braços da verdade. Pois, foi o que aconteceu com o governo neoliberal americano. Um desastre absoluto: derrota na guerra do Iraque, um fracasso na expansão financeira, uma figura de país campeão da liberdade em farrapos. Os 100 dias de Obama foram taxativos, Obama veio para mudar. Mas, só não fazer o que Bush e Cheney fizeram, não basta, há que fazer muito mais. Os Estados Unidos estão devendo muito a si mesmo e ao mundo.

Obama e o desejo do eleitor

A mudança de uma determinada situação nos tempos que correm é de extrema dificuldade. A metamorfose da sociedade muda como a crise; sua forma pode ser expressa pela metáfora da escada. E de uma escada descendente. Uma escada diferente daquela do famoso filme de Hitchcock, “Vertigo”. A crise é também uma escada perigosa. Mas é uma escada na qual cada degrau é como se fosse filmado em câmera lenta. Veja-se bem, a descrição tem uma nuance. Primeiro a gente desce rapidamente o degrau, mas o patamar aonde se vai pousar o pé, este sim, este é captado numa lentidão que engana. Tem-se a impressão que quando se põe o sapato na horizontal, as coisas mudaram, o mundo deixou de cair, e tudo, simplesmente tudo, já passou. Vem, então, aquela sensação de um falso alivio, a sensação de que, enfim, o pior já foi embora. E logo em seguida, quando os nossos espíritos estão aliviados e queremos até comemorar, tomar um vinho e apreciar uma boa mesa, sempre vem aquele chato que diz: não, o pior ainda está por vir. Porque esta é a realidade da crise atual. E, Obama é o contra-movimento deste movimento de queda. Ele pretende um dia dizer: sim, o pior já passou. Mas, o diabo que isso vai levar tempo. Lembro duma americana que no segundo dia do presidente americano disse: “Estou decepcionada, ele não mudou nada”. O eleitor é como o espectador de televisão que acha que o mundo se alterou porque agora ele pode sonhar em comprar um 4 x 4, altamente poderoso. O eleitor hoje age como um consumidor. Mas, o que ocorre é que o desejo de ter o produto não faz com que o produto chegue as suas mãos. Há muitas coisas para fazer no desenrolar da crise. A grande diferença é que Obama sabe que ela não passou e que vai levar tempo. Mas, a boa notícia é que tem estratégia e planos. O que não quer dizer que ele vai ganhar. Quer dizer apenas que sabe em que arena os conflitos vão aparecer.

A dança dos escorpiões

Obama sentiu, por ocasião da sua candidatura, que emergia um momento novo na história americana. Investiu contra o todo soi disant forte Estado bushiano. Jogou e venceu. E venceu fulminantemente: os Estados Unidos queriam outra coisa. Mas, se as estruturas estão corroídas como um corpo degradado, elas não estão destronadas, nem são ainda ruínas, estão abaladas, mas não foram suprimidas. Elas estão aí. E por isso, o primeiro grande problema de Obama é como superar a presença inquietante das finanças, presença que se cravou no interior do Estado constituindo uma cisão importante e decisiva. Temos – e continuamos tendo - um Estado das finanças dentro do próprio Estado. Ele é formado pelo FED, um órgão autônomo, cuja presidência tem sempre o comando de alguém que pensa com a cabeça do mercado, com a visão das finanças. Este Estado dentro do Estado hoje é formado também pelo Tesouro, lugar que normalmente vem alguém da área do capital, alguns com um aconchego em Wall Street, como Rubin no tempo de Clinton e Paulson, no final do Bush II. Nesse momento está ali Timothy Geithner, um pró-finanças indiscutivelmente. Mas, não só nesta paróquia se sente o odor das finanças. O presidente Obama tem um National Economic Council para assessorá-lo, agora ocupado pelo inefável e conturbado Larry Summers. Um camaleão econômico, no presente com um pé no keyneisanismo mas com a alma impregnado pela força dos ativos financeiros. Contudo, as coisas não ficam somente nas costas desta tríade. Paul Volker, o homem que instalou o dólar forte em 1979, como presidente do FED, é também um economista da área financeira. E adivinhem o que ficou para ele? O planejamento do futuro. Ou seja, Obama está cercado. Trata-se de um cerco complicado, pois as finanças, embora ainda jogando de mão, padecem de uma vasta desaprovação popular, como também têm nas suas entranhas, ativos tóxicos que trabalham para torná-la mais frágil ainda. O cerco se configura um tanto desesperado porque o setor quer evitar o que está no horizonte de médio e longo prazo da economia americana: a mudança de um modelo de acumulação financeira para um modelo de acumulação produtiva. Ou seja, a metamorfose da função das finanças no processo econômico. Mas, se for pelo cerco dos escorpiões isso nunca será feito. Logo, estamos num jogo como fazem as equipes futebolísticas argentinas: “jugar a morir”. A questão que não deixa de estar fustigando é a seguinte: conseguirão as finanças sobreviverem ou bloquearem a explosão de ativos inoperantes no interior do sistema bancário e das instituições financeiras não bancárias? É daqui que virá a resposta da mudança ou não do papel das finanças na economia americana e mundial.

Quando pular fora é a solução

As finanças não apenas cercam a presidência, mas dominam totalmente uma parte do Estado. Porém, se eles têm um território onde decidem soberanamente, as suas decisões passam por circuitos e mecanismos econômicos que tem, no entanto, uma dinâmica singular e específica. A política decide sobre a economia, mas a economia tem trajetórias próprias que podem impedir e barrar as decisões políticas. Então, sublinhemos o que se escuta: os bancos estão quebrados. Considere-se conseqüentemente o atual “stress test”. Ele já mostrou que dois dos maiores bancos, o Citigroup e o Bank of América, precisam de capital. Pois, convivemos aqui com uma das questões chaves desta crise. Estes bancos, como tantos outros, trabalharam com capital alavancado, aliado ao capital próprio, e chegaram a tentar valorizar, em ativos descabelados, fartamente multiplicados sem nenhum controle, montantes expressivos do primeiro. O resultado não poderia ser outro, a decomposição de sua realidade fictícia, e a necessidade de botar capital para tornar a ficção, real. Visto deste ponto de vista, as finanças estão em situação crítica. E nada diz que a situação financeira geral não pode se agravar mais, estourar mesmo. Quem diz que os hedge funds não vão entrar em situação crítica? Quem pode afirmar que os fundos de pensão não serão abalados por novas e futuras quedas das bolsas? E quem pode prever que as bolsas não cairão mais ainda, fazendo um mergulho no abismo, provocando com que a riqueza abstrata das corporações financeiras, industriais, comerciais, de serviço, baixe irreversivelmente de valor? Ou seja, o atual domínio das finanças pode se reverter e terminar numa necessidade de intervenção estatal, na famosa nacionalização do sistema bancário. E por isso, como a presença de um monstro num filme de horror ninguém pode predizer que este ser não cometerá um ato de insanidade. Estará, então, o happy-end fora do mundo americano? Por outro lado, todo analista se pergunta: qual é a jogada de Obama? Mostrar a corda na casa de enforcado? Pois, parece ser esta a sua tática; está clara nos seus discursos e no seu projeto: fazer com que as finanças voltem a sua função básica, fornecer crédito, e fornecer crédito não para a especulação, mas para a produção. Por esse motivo, as perguntas tomam a seguinte direção: as finanças querem e aceitam este projeto? Obama conseguirá pressionar, ao longo do tempo, as finanças para a posição desejada? Por enquanto, que nem peixe fisgado pelo anzol, as finanças se debatem para escapar. Conseguirão pular fora? E entrando pela porta lateral, quem sabe pela dos fundos, retornará, com força inusitada, a temática da nacionalização?

Há uma contradição que atingirá as finanças?

Não há saída para Obama, a sua luta é aguardar e esperar. Mesmo, porque ele não é pela eutanásia do rentista. O que ele deseja é reformulação da estrutura das finanças. A questão é que o que está em jogo é uma recomposição delas. Normalmente, o processo capitalista é de concentração e centralização de capital. O que não está claro é como esse processo está se dando e vai se dar no campo financeiro. Muitos falam que os vencedores serão o Goldman Sachs e o JP Morgan. Mas, tudo nas finanças, apesar das famosas idéias de transparência e de simetria de informações, tudo é obscuro e nebuloso. Há que haver recomposições. E o que se sabe nesse momento é que o Citi e o BofA estão entrando na dança das cadeiras. Naturalmente, que estas instituições têm história, têm imagem, têm experiência acumulada, mas nada garante as suas sobrevivências, sobretudo do jeito que eram. Aliás, nada mais será igual nesse setor. Acabaram as alavancagens endoidecidas, há um reclamo de regulações, precisa-se de um novo desenho do sistema financeiro, clamam-se por supervisões rigorosas, examinam-se diversas atitudes de prudência nas práticas bancárias, etc. Ou seja, o que os 100 dias de Obama trouxeram é que foi dado um tempo para que as finanças se ajeitem. Não sabemos quanto tempo, mas o certo é que elas não conseguiram ainda vislumbrar um caminho real de salvação. Mesmo porque é preciso ver que há uma contradição muito forte interior do sistema de negócio no mundo de hoje, que atinge todas as corporações, incluindo a financeira: a contradição entre acionistas e dirigentes. Pois, se os acionistas aportam capital, os dirigentes, que são empregados de luxo, têm o domínio das instituições. E como empregados – e mesmo como capitalistas na prática – não querem perder os bônus que negociam e arrancam das instituições pela sua capacidade de manejar ou manipular o mercado. Então, os planos de salvação do Estado salvam as instituições e salvam os acionistas, mas não salvam os banqueiros. E estes querem não só a salvação das suas entidades, mas a continuação de seus privilégios, dos seus bônus, e por isso, fecham o conhecimento da situação dos bancos. E evidentemente, a crise vai se espichar por mais tempo, enquanto este ponto não for resolvido. Por isso, muitos empresários afirmam que a atual maneira de fazer negócio está terminada. Dito economicamente: a governança corporativa é uma forma que fracassou no desenvolvimento do atual capitalismo? A questão se encaminha para uma boa pergunta: é, por esse caminho, que as finanças começarão a perder a hegemonia e a possibilidade de definir as atividades econômicas?

Para onde aponta o dedo de Obama?

Os 100 dias de Obama trouxeram uma nova visão da economia. Seu pensamento passa pelo longo prazo. E o que ele vê é um novo padrão de acumulação. Primeiro, através de uma nova base, uma renovação da infra-estrutura econômica, o que significa, inevitavelmente, cuidar da questão energética. Para onde ela vai, ele não sabe bem, mas sabe que sem a questão energética a economia capitalista não poderá ir muito longe. Não apenas a economia capitalista, mas a vida no planeta. Então cabe, como uma nova matéria pictórica num quadro, uma mudança da infra-estrutura. E em segundo lugar, essa própria questão energética vai provocar a constituição de outras inovações tecnológicas que vão alterar a estrutura industrial atual. E não se pode dizer que são somente mudanças em relação à energia, mas podemos pensar em inovações tecnológicas resultantes da concorrência capitalista ou como inovações tecnológicas oriundas da evolução das próprias tecnologias existentes, etc. Ou, seja Obama apontou com isso para uma nova realidade econômica, fruto tanto do desdobramento produtivo propriamente dito, mas também como desdobramento da valorização de ativos da crise financeira vigente. Assim, olhando este panorama, temos que observar que a proposta de Obama para o longo prazo na esfera produtiva é o núcleo central de uma estratégia. Uma estratégia que serve para dar uma direção para onde a economia deve seguir, sobretudo se pensarmos que o seu objetivo é eliminar inclusive a visão financeira atual do comércio exterior, porque envolve tanto a construção de uma economia exportadora, como uma economia superavitária de capital. Ou seja, o oposto do que temos nos dias de hoje. Dois pontos são fundamentais para tal - e os 100 dias de Obama deixaram claro -: um projeto econômico para um novo padrão de acumulação e uma nova posição da economia financeira, fornecedora de crédito de acordo com as exigências das atividades produtivas deste novo padrão. Os 100 dias de Obama proporcionaram, como se pode ver, a colocação em jogo de uma estratégia econômica de grande profundidade, algo que servirá para sustentar e reformular o poder americano e a posição da economia dos Estados Unidos no mundo. E com isso, como desdobramento efetivo, mudar radicalmente a economia mundial.

Quem viver, verá?

quarta-feira, abril 29, 2009

Economia norte-americana cai em ritmo aclerado

A primeira estimativa de PIB para o primeiro trimestre de 2009 nos EUA aponta para uma queda de 6,1% quando comparada ao trimestre anterior, taxa anualizada.  O número é similar aos -6,3% apontados para o quarto trimestre de 2008.  

Como esperado, o péssimo desempenho dos investimentos foi o principal motivo desse resultado decepcionante, com declínio de 51,8%. O consumo ao revés, apresentou um crescimento de 2,2%. Será este maior consumo poderoso o suficiente para reverter a queda nos investimentos em médio prazo, quando a inadimplência e as condições do emprego seguem se deteriorando naquele país?

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Entevista de Carlos Winckler sobre a situação do RS

O sociólogo Carlos Winckler, colega da FEE, faz uma análise da condução estratégica do estado do Rio Grande do Sul nos últimos governos. 

Vale  apena dar uma olhada.

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Ao menos seis bancos necessitam aumentar seu capital (EUA)

Aos poucos vai aparecendo que, embora a docilidade do cenário aplicado nos stress tests anunciados em fevereiro desse ano pelo secretário Geithner, uma quantidade razoável de bancos se encontra em dificuldades nos EUA. 

Dos 19 bancos testados, ao menos seis devem precisar aumentar seu capital.  Isso vai ser feito pela troca de ações preferenciais por comuns, as custas dos atuais acionistas.  Dentre estes seis se encontrariam o Citi e o BofA. 

Como a situação no campo do crédito não cessa de deteriorar - vide o US$ 1 trilhão em perdas com empréstimos para imóveis comercias que iniciaram a se materializar apenas em 2009 e ainda não foram reconhecidos na contabilidade bancária -, aqueles que acreditam que a situação está controlada nesse front da crise estão equivocados e se surpreenderão em algum momento no futuro.

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sexta-feira, abril 24, 2009

Mais Taleb e os limites da estatística

Beware the Charlatan. When I was a quant-trader in complex derivatives, people mistaking my profession used to ask me for "stock tips" which put me in a state of rage: a charlatan is someone likely (statistically) to give you positive advice, of the "how to" variety.

Go to a bookstore, and look at the business shelves: you will find plenty of books telling you how to make your first million, or your first quarter-billion, etc. You will not be likely to find a book on "how I failed in business and in life"—though the second type of advice is vastly more informational, and typically less charlatanic. Indeed, the only popular such finance book I found that was not quacky in nature—on how someone lost his fortune—was both self-published and out of print. Even in academia, there is little room for promotion by publishing negative results—though these, are vastly informational and less marred with statistical biases of the kind we call data snooping. So all I am saying is "what is it that we don't know", and my advice is what to avoid, no more.

You can live longer if you avoid death, get better if you avoid bankruptcy, and become prosperous if you avoid blowups in the fourth quadrant.

Now you would think that people would buy my arguments about lack of knowledge and accept unpredictability. But many kept asking me "now that you say that our measures are wrong, do you have anything better?" 


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http://www.edge.org/3rd_culture/taleb08/taleb08_index.html

quinta-feira, abril 23, 2009

Coluna das quintas
23 de abril de 2009

PERGUNTAS PARA A CRISE
(Ou questões candentes da economia)
Por Enéas de Souza


Quando se olha à economia e se quer fazer um estudo amplo, é preciso saber – como diz o meu colega Pedro Almeida - fazer perguntas. E perguntas certas. Já que uma boa pergunta pode encaminhar bem o labirinto da solução dos problemas. E, no fim do percurso, se as questões forem válidas, sairmos com boas respostas e uma trajetória concreta e viável. Um velho professor de filosofia, o professor Armando Câmara, tão conservador, mas tão percuciente, dizia como Lênin: “Nada tão prático quanto uma boa teoria”. No tema aqui proposto, a substituição é direta: nada tão prático quanto um boa pergunta. E o que pretendemos fazer é modesto, é tentar fazer questões, se possível boas, para que elas nos permitam perceber, prever e quem sabe atravessar, como um fio condutor, os diversos prazos da economia e da história. Dito em linguagem econômica: o curto, o médio e o longo prazo. Mas, também, nos deslocando na profundidade, penetrarmos no que Braudel chamava e José Luis Fiori re-propõe, o árduo caminho da “longa duração”. Teremos assim uma imagem, um teatro, talvez um cinema ou, mais fragilmente, uma noção das dificuldades que abraçam a economia e a sociedade ocidental. Naturalmente que a nossa interrogação sobre a crise parte dos Estados Unidos, que teve neste último ciclo, a vocação e a ambição do sol. E o foi, não resta dúvida. Só que o virou pelo avesso; e de sol amarelo, sol vermelho transformou-se num sol negro. E deu aos seus cantores um ar melancólico, cuja origem veio da extensão do desastre cíclico. E estas perguntas colocam, no geral, uma disjuntiva, uma oposição irreversível na realidade atual, que é a seguinte: ou estamos diante do Minotauro sem nenhuma esperança de escape ou então temos que achar o fio de Ariadne e com ele encontrar a saída do embrulho, a saída da crise. Bom momento, astuto leitor, de saber as tuas perguntas e as tuas respostas, porque nós só começamos a fazer as primeiras, as segundas estão contigo e com todos nós.

Perguntas sobre o curto prazo

1) Qual é a lógica do declínio cíclico? Já chegamos ao seu fim? Estamos em que ponto deste declínio? Quanto mais temos que cair, que despencar? Os Hedge Funds, os Fundos de Pensões serão definitivamente abalados? E o que mais?

2) Com a intervenção do Estado, que lógica está ocorrendo? Qual o nível de conflitos que estas ações estão atingindo? Como elas estão sendo vistas e quais as reações que provocam aos diversos setores como o financeiro, o produtivo, o dos trabalhadores, etc.?

3) A nacionalização dos bancos será inevitável? Ou teremos uma longa etapa das finanças zumbis? Há uma terceira solução?

4) No caso da manutenção das finanças zumbis, haveria ou não haveria mudanças institucionais? Quais seriam elas? Haveria mudança do comportamento do Banco Central? Seria possível alguma regulação? Como se daria o entrelaçamento das finanças zumbis americanas com o resto da economia mundial?

5) Qual a função do sistema financeiro numa nova economia americana? Em caso de nacionalização do sistema bancário, qual seria a arquitetura do sistema financeiro que estaria adequada a esta economia americana?

6) Seria possível retornar à dominância financeira com o mesmo tipo de alavancagem, de criação ilimitada de produtos financeiros? Não é o desejo das próprias finanças? E não é por isso que elas se constituem um obstáculo formidável aos encaminhamentos da resolução da crise?

Perguntas sobre o longo prazo

1) Qual será o papel do Estado? Obama tem um projeto econômico produtivo de longo prazo como prioritário. Então, qual será o timing para a sua construção, dado o evidente poder das finanças?

2) Como será a condução do plano de longo prazo de Obama? Ou seja, como será a composição política que terá que fazer para liderar as forças indispensáveis para a sua realização? Como sabemos, o presidente americano destacou energia, novas tecnologias, educação, etc. como elementos fundamentais de um novo patamar de acumulação. O centro desta combinação política será a união da produção e do trabalho? Será possível?

3) Qual será o papel (econômico, político, ideológico, etc.) da energia e do meio ambiente neste projeto?

4) Como conseqüência da reorganização da economia americana qual será a nova organização da Divisão Internacional do Trabalho? Qual será o lugar da China? Quais serão os da Índia, do Brasil, da Rússia? Qual o papel das regiões? Haverá necessidade de novas instituições para-estatais, além da reformulação das atuais como o FMI, o Banco Mundial, etc. No plano geopolítico, qual o papel da ONU e do Conselho de Segurança? Aqui também vale a pergunta: haverá necessidade de outras instituições além destas?

Perguntas sobre a articulação do CP e do LP

Como vemos temos então perguntas – muitas outras podem ser feitas - sobre o curto e o longo prazo. Mas, se temos questões candentes no tempo presente e temos pontos esboçados para serem atingido no longo alcance, é preciso compreender que entre um e outro há uma trajetória a ser construída. Então, poderíamos dizer que são perguntas de médio prazo. Perguntas que podem ligar a intenção de resolver problemas que estão acontecendo neste momento com a estratégia que mira e vislumbra o longo termo. São perguntas que estão nos elos intermediários da trajetória proposta.

1) Como o governo Obama vai encaminhar a questão bancária? Esta é uma questão de curto, médio e longo prazo, pois terá que resolver questões imediatas, como a vasta resistência das finanças; questões de média consideração porque os bancos são instituições que terão de sobreviver; e questões de amplitude vasta porque estas entidades terão que ser compostas e ser funcionais em relação ao projeto de longo prazo, ou seja, ao novo padrão de acumulação.

2) Qual será a estratégia e a dinâmica do déficit público?

3) Qual será a estratégia do comércio externo, dada a declaração de que a economia americana deverá ser novamente mais exportadora do que importadora? Qual será a reação do resto do mundo? Qual é o tempo desta possível transformação?

4) Como conciliar a estratégia dos déficits públicos e da retomada das exportações com a questão da moeda?

5) Qual é o futuro de uma proposta de substituição do dólar como reserva de valor por uma outra moeda, em particular pela proposta dos chineses de utilização do Direito Especial de Saque (DES)?

6) Vai haver uma retração do comércio internacional e uma fragmentação da moeda mundial em várias moedas regionais: dólar, euro, rublo, yuan, por exemplo? O dólar será medida de valor, mas não reserva de valor nem meio de circulação?

7) Como serão os passos de articulação do curto, médio e longo prazo?

Perguntas sobre a longa duração

Se José Luis Fiori tem razão quando trata do modo como o capitalismo tem que ser pensado na longa duração, após a corrida imperialista da atual pressão competitiva, vamos entrar numa expansão explosiva. Então, algumas perguntas podem ser feitas.

1) O triunfo do poder americano, mesmo com uma mudança na sua posição unilateral, imperial, como ocorreu no último período, vai organizar que nova ordem geopolítica? E em que direção?

2) A estratégia de longa duração de manutenção do poder americano conseguirá impedir disputas e questionamentos da sua liderança? E não provocará nenhum movimento de transformação do sistema capitalista? Haverá uma nova utopia? Uma nova ideologia dos oprimidos? Uma busca incessaante de novas condições de igualdade?

3) A guerra como elemento estruturador do sistema político funcionará todo o tempo como uma espada sobre a cabeça dos atores na constituição de uma nova ordem geopolítica ou será constantemente usada apenas para resolver questões localizadas e nunca de longo prazo?

5) A paz, tendo como garantia a possibilidade da guerra, funcionará como um novo ordenador político?

6) A democracia sobreviverá? O fortalecimento do Estado não trará o funcionamento de governos despóticos, ditatoriais, etc.?

7) Alguém poderá prever um roteiro de tensões dos próximos anos? A civilização encontrará outra fase de expansão? E uma pergunta mais dramática: haverá ainda civilização?

Exercício do futuro

Estas perguntas fazem parte de uma química social e histórica que está se desdobrando no momento. Na verdade, existe um forte desejo do capital retomar o seu processo de valorização, só que a contradição entre as órbitas da produção e das finanças, do capital e da sociedade, terá que ser resolvida politicamente. É olhando para esta dura situação que nós fizemos as perguntas, pois independente de estarem contempladas todas as mais importantes – isto é impossível pelas limitações das observações e das análises e do observador –, o que importa é balizar, por intermédio de indagações, possíveis trajetórias, algumas soluções e diversas escolhas. E igualmente perceber que as perguntas também andam. Hoje são estas; amanhã, algumas deixarão a cena; e mais tarde, outras, terceiras, estrearão no questionário que se move.

É preciso marcar com essas perguntas a imensa incerteza que mergulha atualmente o nosso mundo, desde que olhado sem a ilusão fantasiosa da mídia sem escrúpulos. A tarefa americana vai ser como definir o curto prazo e manobrar as dificuldades do médio, inclusive encarando uma ameaça que já se insinuou: a possibilidade de fratura do dólar como moeda mundial, moeda de reserva do comércio planetário. Para o longo prazo, Obama tem estratégia. Tem sim. Mas, os Estados Unidos terão que construir os meios para lá chegar. A economia em desagregação se resolve pela política, mas nunca sem causar percalços extensos no campo social. Haverá luta, brotarão conflitos, se erguerão desavenças. E o que a política precisa fazer é soldar todos os tempos possíveis, abrindo, desenhando, desbastando um itinerário que vá do presente ao longo futuro. Todos os rostos e os atos dos outros países estarão na arena e vão tentar constituir uma nova hierarquia de forças na economia e da política mundial. O poder continuará americano? É neste caldeirão que Obama vai tentar colher os seus frutos e calçar as sandálias do pescador, para fisgar as perguntas certas e desamarrar soluções para um novo mundo.

quarta-feira, abril 22, 2009

Deu no NYTimes: Japoneses pagam passagem aos trabalhadores brasileiros... só de volta!

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Mais um suicídio

Infelizmente, era certo que a aventura irresponsável do liberalismo sem limites levaria a (e ainda levará) a uma enormidade de dramas pessoais. Dessa vez foi o Chief Financial Officer (CFO) da Freddie Mac que cometeu suicídio...

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Governo inglês amplia imposto de renda

O governo inglês irá aumentar a alíquotta mais alta do imposto de renda de 40% para 50% sobre qualquer rendimento que exceda 150.000 libras. Tenta assim fazer frente à queda na receita fiscal decorrente da redução na atividade econômica. É mais uma prova de que as velhas receitas que implicavam em vantagensa desmedidas para os mais ricos terão de ser revistas com a crise.

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sexta-feira, abril 17, 2009

Institutional Risk Analyst concorda com o Enéas: as finanças zumbis tomaram conta dos EUA

"We won't even refer to the Q1 results for C released this morning because, in our view, they really do not show the true condition of the bank nor the ultimate outcome that we expect to see with this institution. As of year-end 2008, C rated an "F" in the IRA Bank Monitor with a overall Stress Index score of 21 vs. the industry average of 1.8. As of the same date, JPM's Stress Index Score was 1.3.

Unfortunately, it is becoming increasingly clear that the Obama Administration lacks the courage to resolve C. Economic policy guru Larry Summers reportedly bought the "systemic risk" argument hook, line and sinker, but the fact remains that with relatively healthy banks like JPM pricing debt at +350 to the curve, the real issue facing financials is not simply capital adequacy as the stress tests suppose, but rather the broader issue of credibility as going concerns. Even were JPM or Goldman Sachs (NYSE:GS) to actually redeem the preferred capital provided by the Treasury TARP program, none of these banks could survive today without government guarantees for their debt."

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quinta-feira, abril 16, 2009

General Growth em concordata

General Growth,  a segunda maior proprietária de centros comerciais dos EUA, entrou em concordata e pode trazer prejuízos de até 27 bilhões de dólares aos credores. 

Os problemas no setor de imóveis comerciais estão se acumulando nos EUA, exatamente como previsto aqui no Econobrasil em fevereiro.  Essa deve ser a grande fonte de prejuízo para o setor financeiro em 2009, secundada de perto pela inadimplência crescente nos cartões de crédito.

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