quinta-feira, maio 06, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
06 de abril de 2010
COLUNA DAS QUINTAS

OBAMA
COMEÇA
A ROMPER
O CERCO


Por Enéas de Souza


SÓ EXISTE UMA APOSTA

1)
Obama está conseguindo furar o cerco que levou no primeiro ano de seu governo. Isto quer dizer que, depois de muito tempo, começou a produzir atos visando à realização de sua estratégia. Deixou de lado o campo da observação e do constrangimento para lutar por seus objetivos políticos Em primeiro lugar, conseguiu uma semi-vitória, a aprovação do seu Healthcare, que significou, no concreto, uma melhoria de vida para 32 milhões de pessoas. Foi uma semi-vitória, porque não alcançou a universalização dos serviços médicos. Mas, para um país avesso à presença do Estado na economia, a aprovação deste projeto se constituiu, obviamente num passo para os pobres - de um modo geral deserdados no maior potência econômica do mundo. Não há dúvida, o resultado foi espetacular. E Obama, percebendo-se um herói vitaminado, sentiu-se com poder, amparado simbolicamente, para iniciar o longo processo de combate e de solução da questão financeira.

2) Mas, há que considerar o estilo de Obama. Antes de mais nada, Obama é um estrategista. Tem bem claro a sua política e os pontos que organizam a sua ação. O alvo do seu empreendimento é o retorno a um liberalismo econômico e político, através da reorganização do capitalismo. Significa, sem hesitação, desmontar este absurdo capitalismo financeiro, que embora seja um “finance led growth” (as finanças conduzindo ao crescimento), na verdade é muito mais transferência de renda para as finanças do que crescimento, Bom, este é o ponto chave: desmontar as finanças para as finanças. Desartiular um sistema financeiro que deixava apenas sobras miúdas à produção e à camada popular da sociedade. Logo, está em pauta, uma nova batucada e um novo objetivo, uma estratégia de longo prazo. Pretende Obama que as finanças aportem o seu mel para a atividade produtiva. E se esta proposição tiver sucesso e ela ocorrer, teremos a retomada de um capitalismo industrial como centro da economia. E ele virá, não liderado pelas velhas indústrias, mas com outras alavancas e com outros pontos de impulso. Pode-se dizer que terá o seu rosto baseado numa ampliação e numa maturação das novas tecnologias de informação e comunicação, acompanhadas, porque necessária econômica e ambientalmente, de uma transformação da matriz e da infra-estrutura energética. Nesta reviravolta fundamental, o segredo das jóias é a reposição das finanças como motor do financiamento da produção. Ou seja, o que está na ronda da noite e na roda do samba é a estratégia de longo prazo de Obama.

A POLÍTICA DO LONGO PRAZO

No campo político, o objetivo de longo prazo de Obama é retomar e reformar o capitalismo e desenvolver uma forma democrática peculiar, estruturando-o para a paz. Claro, “si vis pacem para bellum” (“se queres a paz prepara-te para a guerra”), pois a estrutura política dos homens – e não seria diferente do capitalismo - não é outra do que uma estrutura de conflito. Nessa visão, os Estados Unidos continuariam a sua liderança, partindo do seu poder militar (apenas como potência, evitando o esforço bélico), e enjambrando no bojo desta força, o poder político e o poder ideológico. Tal manobra daria tempo para reformular a liderança econômica, cuja substância viria da sua vanguarda tecnológica. Embora pareça claro, para os próprios americanos, que eles vão partilhar uma menor figuração no crescimento do PIB mundial, o que lhe interessa é manter o domínio da ordem econômica a partir do político. Eles estão dispostos a tolerarem as presenças renovadas da China e dos emergentes (incluindo o Brasil), tanto na ordem econômica e política, mas não abrem mão da sua “vocação de liderança”. E dada as configurações bélicas, Obama propõe, então, uma liderança militar pela paz, reformulando o mapa do mundo, começando com acordos nucleares com a Rússia, harmonizando o Oriente Médio e tentando trabalhar cooperativamente com os países líderes dos diversos continentes, Por via da política há um objetivo estratégico nítido, a reformulação do capitalismo, com inovações tecnológicas significativas, sob a liderança dos Estados Unidos.

A UTOPIA DE OBAMA

A visão idílico-realista de Obama leva-o a atuar, pelo menos imediatamente, em três frentes: 1. na frente econômica; jogando, por sua vez, três pontos chaves: a desmontagem das finanças, a reorganização das relações com a China e a abertura para o longo prazo na questão energética; 2. na frente da política externa, onde o ponto chave é a construção um outro tipo de liderança, através de um reposicionamento da Europa; de uma estabilização da frente nuclear, ao mesmo tempo, que recompõe um novo equilíbrio na questão do Oriente Médio. De um lado deslocando o eixo da guerra para o Afeganistão e de outro, tentando dar novos contornos ao tema Israel-Palestina, contendo Israel e diminuindo o voluntarismo do Irã. 3) na frente da realidade social americana. Aqui as ações visam à metamorfose da economia a curto e longo prazo, o que significa no primeiro aspecto recuperar o emprego, e no segundo, proporcionar uma proteção maior aos cidadãos comuns americanos.

E O ESTADO COMO FICA?

Nesses três pontos, está embutida uma tentativa de reorganização do Estado. O princípio que gera este movimento é a tentativa de fazer dele, algo independente do capital – basicamente do capital financeiro. Embora pretenda ser, e continue a ser, aliado de diversas facções desta figura econômica da sociedade (de tal forma que possa ser um Estado pró-capital), tem, distintamente, um alvo superior. Tem um “up grade”. tem uma grande proposição: o de querer poder controlar e ser o regulador político dos mercados. Notoriamente, não tem objetivo de ser um Estado social-democrata, mas um Estado capitalista com preocupações sociais - um pouco mais marcantes do que as do governo Buch. Ou seja, um Estado onde as desigualdades entre as classes não atinja o nível selvagem deste capitalismo financeiro. Então, este desenho estatal tem como movimento prioritário a manutenção modificada do capitalismo. E passa, como seria esperado, por uma liderança internacional, onde vai desfazer-se das idéias de unilateralismo dos “neocons”, assumindo um lado liberal mais clássico. Com essa rota, o governo de Obama e os Estdos Unidos se preparam para dar uma ordem política ao mundo, enquanto se preparam para reencontrar o caminho econômico. Nesta trajetórias está em projeto uma disputa e uma reordenação das relações Ocidente e Oriente, baseados, ao menos em intenção explícita, num confronto pacífico com a China. E esta certamente vai colaborar, pela forma do seu governo e de suas instituições políticas, com o reforço do papel do Estado em todo o Ocidente e nos Estados Unidos. O que não estão excluídas rugas num tempo mais distante.

A OPOSIÇÃO CAPITALISTA A OBAMA

1) A questão básica é, no entanto, as diversas frações políticas e econômicas que se opõem à Obama. Ele está cercado. E por essa razão vai ter que matar um leão a cada tarefa. Tem diante de si grandes combates. É verdade que agora está se sentindo com mínimas forças sociais para encarar os monstros. No meu modo de ver, ele tem pelo menos três frentes complexas para desbastar: a área financeira, a área militar e a área energética.

2) A questão financeira é a principal, porque significa pôr um freio, dar um chega para lá, na turma das finanças, que não quer de modo nenhum afastar-se da desregulamentação e da sua concepção exclusiva de fazer negócios. O que se alterou nos últimos tempos no panorama americano foi, sem dúvida, a estratégia de Obama. No meio de um Congresso, inclusive com democratas hostis à regulação, o presidente armou uma dupla ação. De um lado, preparou via Geithner o “Finantial Regulatory Reform”, que deu motivos a grandes discussões e inúmeras sugestões no Congresso, E de outro, a Volker Rule, que o próprio Paul Volker disse ter ido ao Congresso apenas para aparecer na fotografia. O que não expressa a força efetiva e subterrânea da proposta.

3) A “Finantial Regulatory Reform” pretende modestamente criar um FED, um pouco mais forte, com poder de resolver qualquer crise sistêmica que se anuncie. E também um conselho de diretores de agências que orientaria o FED a estas intervenções, etc. Já a Volker rule, tem dois pontos suculentos: um, a necessidade de uma capitalização efetiva para os bancos, e dois, a procura de impedir que os bancos usem os capitais de terceiros para especularem. O que na prática voltaria a divisão, supressa ao longo do processo de desregulamentação, entre os bancos comerciais e os bancos de investimentos.

4) Mas, o importante não foi exatamente isso. Pelo menos até agora. O importante foi o jogo de boxe entre as finanças e Obama. Logo nos primeiro momentos, os banqueiros, que saíram na dianteira, jogaram uma barragem de fogo no Congresso, através do seu Partido dos lobbies. Só que Obama usou uma estratégia mais silenciosa e sutil contra eles. Nosso personagem lembra aquele grande pugilista, meio médio ligeiro, Ray Sugar Robinson, um boxeador elegante, competente nos punhos e de grande estilo. Começou com ataques aparentemente sem muita envergadura, discretos, ao nomear personalidades fiéis as suas visões para as agencias reguladores. (Neste último mês já está tornando o FED com um jeito mais seu). Tratou, enfim, com astúcia, de colocar nomes que não fossem representantes maquiados dos bancos. Só para dar uma idéia da importância destas nomeações. A SEC (o equivalente a Comissão de Valores Mobiliários no Brasil), por exemplo, na crise de 2001, na crise da Enron, uma semana antes dela falir, a corporação era considerada, pela agência reguladora, uma empresa sem nenhum problema.

5) Agora, a fotografia é distinta. A atual SEC fez uma acusação pública e formal contra a Goldman Sachs, levando ao chefe desta instsituição a reconhecer que a conduta da Goldman na crise financeira em 2007, “visto de hoje”, 2009, era de fato altamente questionável. Claro, ela foi a corporação que formou com os títulos podres da Paulson & CO um Collateral Debt Obligation. E depois, saiu olimpicamente a vender estes títulos aos seus clientes, sem falar das porcarias que vendiam. E mais tarde, com a vivacidade delituosa dos atores do mercado financeiro, jogaram contra este Collateral Debt Obligation, um Credit Swapps Default, ou seja, enganaram os seus clientes de forma vergonhosa. E hoje, na imprensa e no Senado, tiveram a cara de pau de dizer que essa era uma prática ética comum no mercado. Dito no acessível: ganharam, por um lado, por vender um título podre e depois ganharam porque jogaram contra ele. No que importa: Obama deu um golpe no fígado deles. Não foi um “knock out”, mas foi ao menos um “knock down”. O que significa que atacando um banco símbolo do sucesso do capitalismo financeiro, e de maneira contundente, Obama acrescentou inúmeros pontos nos “rounds” para a vitória final da luta. E, vejam bem, leitores do esporte financeiro, a estratégia de Obama está montada no longo prazo. E nunca, nunca, joga tudo numa parada; vai minando como Sugar Ray Robinson progressivamente os adversários. São golpes aqui, golpes ali, pausa, novos ataques, até que dá a pancada final. Se esta visão é correta, a luta entre as finanças e Obama não se encerra na presente proposta de regulamentação. Mas de passo em passo, jogando inclusive tanto quanto possível com a população, o presidente vai fazendo recuar o sistema financeiro.

6) Tudo é ainda muito pouco. É preciso encarar os meandros e a duração das discórdias Mas, o decisivo é, como já firmei nos parágrafos acima, que Obama tem projeto de longo prazo. Toda a sua habilidade está empenhada em tentar ligar este ponto mais longínquo com o imediato, para empinar a economia e a política americana para o patamar de uma nova realidade. O que se nota, todavia, é que, com ataque cerrado a Goldman Sachs, se esboça, pela primeira vez, algo inusitado: uma leve ruptura do cerco a que foi submetido desde o seu triunfo eleitoral. Obama sempre esteve acuado. Só que agora com os lances efetuados no tabuleiro social, já pode começar a se olhar no espelho. O que apenas quer dizer que Obama está pronto para agir. Embora se possa escrever que a crise, como o verme dos livros de Machado de Assis, continue a roer.

quinta-feira, abril 29, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
29 de abril de 2010
COLUNA DAS QUINTAS


DA CRISE GREGA
ÀS FINANÇAS:
PERGUNTAS,
SEMPRE PERGUNTAS


Por Enéas de Souza



A QUESTÃO GREGA

1)
A Grécia está numa enrascada violenta. Uma dívida colossal, com muita pressão de curto prazo, em função do vencimento de parcelas. Esta pressão tem uma companhia de coloração negra, já que nos mercados existe um movimento especulativo contra os títulos helênicos. Está no horizonte, muito enrolada, uma ajuda dos países da Comunidade Européia. Só que esta ação tem um correlato, uma imensa pressão para que sejam definidas as condições dos empréstimos. E a campeã destas exigências é a loira Alemanha (cujos bancos estão atolados em ativos originados da dívida impagável). E, como um personagem que parece um corvo, está presente o FMI, o que assegura uma turbulência grande nos palcos políticos da Grécia, uma mobilização interna da população grega contra o governo, contra o FMI, contra os alemães, etc..

2) De um lado, para a Europa o problema é sério. Vejamos com mais detalhes. / Primeiro, se a Grécia não honrar suas dívidas, os bancos, a Europa, o euro, etc., além da própria Grécia, vão ficar abalados criticamente. Fala-se que a Alemanha tem 28 bilhões de euros em títulos gregos, a França, surpreendentemente tem uma cota maior, 50 bilhões e a Itália, 20 bi. A fotografia parece clara: o cachorro vai sim, morder o seu próprio rabo. / Segundo, se a Grécia aceitar as condições da Comunidade européia, ela e sua população vão atravessar um longo período de sofrimento, pois além de queda no PIB e da baixa do padrão de vida, pode ocorrer o aumento de impostos como já houve uma baixa de salários. E perdendo, através das condicionalidades, o controle fiscal, nada poderá ser feito pelos gregos, porque não podendo desvalorizar a moeda, que é européia, para exportar mais, acabaria com qualquer resquício de política econômica. Seria uma longa guerra de Tróia, só que com os antigos invasores, hoje, sitiados de dentro da fortaleza. / Terceiro, se ocorrer o fracasso da solução da dívida grega, todo mundo verá a continuação de um processo de especulação contra os países com altos déficits públicos. Isso seria feito através de uma progressiva e candente alta dos juros contra os títulos nacionais, até torná-los inegociáveis. Nessa direção, Portugal já está na borda do abismo, sabendo-se que depois de Portugal, são candidatos a Espanha (que teve a sua nota, ontem, quarta-feira, rebaixada pela Standard & Poor´s), a Irlanda, a Itália.,etc. Este processo poderia ser nomeado de o itinerário da pólvora e se constituiria numa espiral explosiva devastadora. / E quarto, se ouvirmos os mais catastrofistas, o observador consegue enxergar o rastilho destas dívidas, fulgurante, cujo elo final da cadeia seria a Inglaterra e os Estados Unidos.

3) A melodia da crise está esboçada: os seus compassos financeiros atingiriam o tom de uma profunda crise fiscal. E, por sua vez, esta devolveria às finanças o impulso para uma crise mais vasta, que culminaria numa falência do Estado, envolvendo um climax dramático de crise monetária. Na ordem das coisas, o euro tombaria primeiro. E, num segundo momento, numa etapa mais distante, viria o crepúsculo, o dólar desabaria. Parece, contudo, que estamos longe disso, mas certamente decidir bem a questão da Grécia, será um passo para deter este movimento. Teria se trabalhado para a interrupção desta cadeia de incêndio, desta força imperativa cujo termino seria, inevitávelmente, a depressão. No entanto, as perguntas são: serão atendidas as reivindicações da Grécia? E, por conseqüência, se encaminharão bem as soluções para as demais nações ameaçadas? Por outro lado, querem os europeus mesmo defender o euro? Não estará se formando um movimento de destruição econômica e política da Comunidade Européia? Se a Europa se for, os Estados Unidos terão, sem sombras de dúvidas, o dólar ameaçado? Serão os financistas e os políticos suscetíveis a uma ameaça sistêmica à economia? Será o Estado americano capaz de bloquear este escorregador do desastre que vai dar na areia do dólar?

O SISTEMA FINANCEIRO ESTÁ EM CHAMAS?

1) Obama conseguiu reunir energias para fazer uma ação contra o sistema financeiro. Foi a Nova Iorque, na semana passada, para dar um recado. “Join us”. Ou seja, está clamando por uma resposta positiva às suas propostas de reforma do sistema. Diga-se de passagem, reformas tímidas, mas que cheiram como um começo. Porém, a raça inflexível dos financistas está de ouvido fechado. Ouvem, mas não escutam. Os seus auriculares não captam estas vozes e esta ópera. O contra-ataque de Obama já está ocorrendo desde o verão americano do ano passado, de modo ritmado. Destacam-se dois pontos evidentes: o “Regulatory Finantial Reform”, com uma proposta de negociação dessas reformas e a “Volker rule”, tentando conter o desbragamento financeiro.

2) Só que no desdobramento de muitas escaramuças, apareceu, recentemente, uma cena dramática: a ação independente da SEC (apesar dos desmentidos de que tenha havido interferência do Obama) contra os bancos. O alvo inicial foi o Goldman Sacks, esta pantera financeira. Mas, claro estava na mira um certo Blankfein, turbulento, arrogante e ganancioso chefe desta instituição. E o problema se proclamou em cor berrante, a Goldman Sachs teria dado um passo em falso, agindo fraudulentamente no começo da crise financeira de 2007. Ora, os financistas não estão apenas lutando na concorrência dos mercados. Usam, como quem lava as mãos no banheiro, as armas que possuem: a mídia e os lobbies. E a publicidade é obvia: tudo contra a regulação! O que é que esse cara (o Obama) está querendo, fazer o seu nome às nossas custas?

3) Pois, como se viu, a desregulação é um incentivo à turbulência anunciada, à facilidade de ganhos financeiros ilícitos. Dando uma recuada no panorama, a pergunta fica nítida e exuberante: as finanças que se recuperaram - ao menos no curto prazo dos impactos da crise, através dos “bailouts” do Estado - tem disposição agora para negociar, justamente quando voltaram a jogar de mão? Ou ainda dito numa forma diferente: será necessário um outro Lehman Brothers - a metáfora básica da crise financeira - para que então sim, as finanças aceitem sentar à mesa de negociações com intuito de buscar uma nova realidade, uma nova arquitetura do sistema, uma nova função? Somando tudo isso, Grécia, Europa, impasse na regulação dos bancos, outras indagações surgem. O sistema financeiro está indo para o espaço? Será que Obama não tinha razão, quando disse no começo de sua gestão aos banqueiros: “Eu sou a salvação de vocês”? Esta frase seria lenda ou “bene trovato”?

quinta-feira, abril 22, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
22 de abril de 2010
COLUNA DAS QUINTAS

O FUTURO
DA
INCERTEZA
Por Enéas de Souza



ESTAMOS NO CAMINHO DA QUEDA?

1) Novos lances da economia em desagregação. O primeiro foi a Grécia trazendo as aventuras da crise explícita para o campo dos Estados. Neste sentido a Europa aparece como um mirante para a contemplação do abismo. Só que uma radiografia mais geral da globalização, recentemente feita pelo FMI, mostra que vários Estados estão em posição adversa e crítica - e não apenas no continente europeu. O segundo lance foi a ação da SEC (Securities Exchange Commission) contra a Goldman Sachs, acusando esta instituição financeira de fraude, por ocasião do início da crise financeira. (Não esqueçamos que a Goldman também esteve envolvida, recentemente, no caso dos títulos da Grécia). Esta acusação cria, apesar da exuberância desta corporação que teve lucros expressivos no primeiro trimestre de 2010, uma sombra de desconfiança sobre o seu comportamento e o do próprio mercado financeiro.

2) De um lado, a pólvora visitou a Grécia, e ainda está rondando por ali, fumegando, prometendo seguir em direção a Portugal, Espanha, Irlanda, Itália, etc. Logo, logo, a gente vê, olhando com cuidado, no fundo da foto, o panorama de uma Europa ameaçando se desintegrar. A solução dada ao caso grego não aliviou muito as dores.. O FMI e a Comunidade, dando cobertura, não conseguiram desbastar as nuvens do perigo, o mercado continua achando que nada está resolvido. A indicação está nas taxas dos bônus de 10 anos da Grécia, que não caíram, os olhos dos especuladores estão atentos. As coisas estão mais claras que a cor branca: se não estancarem a hemorragia helênica, o Minotauro pegará a Europa. De outro lado, a crise financeira, que parecia estagnada, controlada, volta ao campo das finanças com uma imponderável força. E depois da acusação contra a Goldman Sachs, começou-se a enxergar uma lista de instituições na mesma condição dela. O que significa, amice lectore, uma reboldosa no pedaço. Certamente é por isso que Obama fala hoje, dia 22, sobre a reforma financeira, para dizer "(Esta reforma) É essencial para que aprendamos as lições desta crise, para que nós não sejamos condenados a repetí-la". Será que as finanças e o seus lobbies têm bons nervos acústicos e têm orelhas bem limpas?

3) A crise está passando então para uma nova etapa, enrolando dois eixos: finanças e Estados. Setor privado e setor público. Existe uma forte possibilidade de que a crise continuada do mercado financeiro possa marcar um passo para o seu futuro controle. Antes, contudo, prosseguirá fazendo estragos como fez na Grécia. Mas, diz a lei da dialética, que o desastre leva ao seu contrário. Podemos, por isso, pensar que começamos a chegar ao portal da via da regulamentação do sistema. E junho/julho será o momento da decisão do Congresso americano sobre a questão do controle dos bancos e das finanças. Porém, o que agora está balançando forte no trapézio da crise é a consciência da emergência do problema fiscal dos Estados, sobretudo na Europa. E uma crise desta ordem é o sinônimo de um desdobramento direto numa crise política. É preciso ficar dando uma olhada neste quesito.

4) O que pode nos levar a conclusão de que a questão viaja nas bordas da contaminação financeira. Alguns vislumbram uma trajetória: do mercado às instituições financeiras, destas aos Estados, e dos Estados às regiões do mundo. Assim, a crise grega e européia aparece como um detonador do movimento geral de transformações contemporânea, tanto da geopolítica como da geoeconomia mundiais. Com isso, cresce o grau de incerteza da realidade econômica. Temos um sopro de abalo tanto nas atividades produtivas e financeiras quanto nas disputas da competição política, como dizem certos politólogos. Portanto, com a incerteza, o que cai para o segundo e esquecido plano, em função da crise dos capitais aplicados nas finanças e da crise no Estado, é sem dúvida o investimento. E o pior, o problema monetário ainda está longe de emergir, mas lá no labirinto do cenário, lá na esquina da crise terminal (se houver) está pronta uma crise monetária, uma crise da moeda reserva de valor, uma crise do dólar. Estamos longe sim, mas a gente tem visto que a crise, até agora, teve um compasso lento, mas persistente. Será inexorável a fogueira sobre a moeda fiduciária principal?

A METAMORFOSE E A POSTERGAÇÃO

1) Há um verso de Tennyson, que Borges cita: ‘Time flowing in the middle of the night” (Tempo fluindo no meio da noite) que pode nos dar o sentido atual da crise. Há uma energia deslizando que impele a economia e a política para uma outra confluência hidrográfica. O verso força a mão no tempo e no meio da noite. Pois é exatamente, onde estamos, no meio da noite. E com isso se evidencia um dos aspectos fundamentais da atual questão. Estamos no escuro, estamos na escuridão, estamos sem luz. Estamos sem saber do nosso destino na voragem da corrente do rio. Diante desta noite, o que o economista pode fazer é especular teoricamente. Ou como nos diz Keynes, num momento como este, as probabilidades não caem do lado matemático. O que nós temos são juízos; na verdade, opiniões. E a nossa opinião vem sustentada no entanto por uma suposição.

2) Todavia, antes de falarmos da suposição, cabe tentar explicitar, num nível mais abstrato, o que está em jogo. É muito simples. O essencial é que existe uma lógica que conduz uma forma econômica, a atual forma do capital financeiro, a sua transformação. É bem sobre ela que estamos considerando. Estamos escutando a sua transição e a sua metamorfose. O som e a fúria. Só que em economia, as ações e os frutos são humanos. E são estes mesmos que, fazendo os seus gestos iluminados por estruturas e no seu grau de independência, têm a possibilidade de invenção, que pode surpreender. As surpresas devem fazer parte das previsões. E desta forma, se estas atuações forem criativas, elas terminam por acelerar a forma social onde se desenvolvem. Se o engenho por qualquer razão não florescer, temos, na melhor das hipóteses, o vírus da estagnação, que causa uma petrificação da dinâmica da sociedade. Mas, os homens não agem todos no mesmo sentido E as ações na sociedade são conflitos, batalhas, discórdias, em todas as dimensões humanas, políticas, econômicas, ideológicas, culturais, judiciais, legislativas. Como sintoma deste sistema, a incerteza é a parceira do meio da noite.

3) Porém, como falava Corneille, adaptando-o para a situação atual: é lógico que a crise tenha uma lógica. E esta lógica é a que tentamos compreender. No caso da sociedade contemporânea a lógica é a lógica do capital, uma lógica dinâmica e desequilibrada, que não se deixa aprisionar por equações e modelos econométricos ou modelos estocásticos. A lógica do capital tem seus fundamentos originados nas relações sociais de produção, que atualmente estão hegemonizadas pelas finanças. Só que as relações estão se transformando. E cabe ao economista apontar o(s) eixo (s) desta crise e de uma possível nova revolução do capital. Podemos dizer que eles, os eixos, e elas, a crise e a revolução, passam pelas finanças, pela produção (investimento, tecnologia e o trabalho), pelo Estado e pela ordem mundial. Falamos hoje, neste texto, de vibrações estranhas que estão ocorrendo em dois eixos, na crise e no caminho desta revolução (?). Mas, antes que os apressados compreendam mal: revolução aqui está empregada no sentido astronômico, assim como quem diz revolução solar. Pois a metamorfose social profunda não é uma revolução deste porte. Para usar uma metáfora de um artigo da mestra Maria da Conceição Tavares: a metamorfose social profunda é “a explosão do sol”. Contudo, esta é um acontecimento que navega no meio da noite como Hamlet: na postergação. Resta sem dúvida detectar a lógica que impera atualmente, sustentada por um vasto processo de concentração e centralização de capital. E lutar para que a barbárie não faça da civilização um puro mercado, onde tudo se compra, da honra aos automóveis, do computador ao voto, sobretudo quando são os financistas que dão o tom da ética, da política e da cultura. Se reafirma então a questão: para onde vai a lógica do capital?

quinta-feira, abril 15, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
15 de abril de 2009
Coluna das quintas

RIO DE JANEIRO,
CIDADE QUE ME SEDUZ
Por Enéas de Souza

Disse que voltava em duas semanas, voltei em três. Tive uma contusão no braço e no ombro direito que me impediu inclusive de escrever. Não parei, no entanto, de andar pelo espaço da economia e da política, ao contrário, deu até para perceber o circo que anda o mundo. Na verdade, a política tem o seu lado de comédia, de sarcasmo, e a economia, a sua sombra de felinos tentando nos vender seus interesses como se esses fossem nossos. Lembro da Maria da Conceição Tavares (salve seus oitenta anos!), dizendo com ênfase e sabedoria: “A gente tem que aprender economia inclusive para não ser enganado pelos próprios economistas”. Outro dia, conversando com André Scherer e Pedro Fernando Almeida, falávamos com ironia sobre os economistas. Raça terrível escrevendo uma profusão de textos sobre nada de importante e mentindo com volúpia. E Pedrinho acrescentava com contundência. “E desde a metade do século XX”. Estou de acordo, só vemos equações e modelagem e interpretações ineptas. E o que isto gera de idéia absurda. Salvam-se raros, aqui e no exterior. Mas, olhem esta pérola: “Acredito mesmo que uma das lições dessa experiência dos povos é que é fundamental investir na educação financeira das pessoas”. Quá, quá, quá, quá. Que idéia supimpa! (Vocês se lembram desta expressão!). Que flor mais exótica! Imaginem que esta crise foi por causa da falta de educação financeira das pessoas! Vejam só e meditem: fal-ta-de-e-du-ca-ção-fi-nan-cei-ra-das-pe-sso-as! Parece que a economia não tem capital, que não existem aplicações e especulações financeiras, que não existem busca de maximização de lucros e oportunidades anti-sociais de grana, que não existem oligopólios, que os cartéis são atualmente inexistentes, etc. É fatal a doce e inocente pergunta: a especulação com ativos financeiros ou commodities ou terrenos faz parte da educação financeira?

Este escritor econômico citado, em outros tempos, foi uma alta autoridade econômica no Brasil. Pode?

A CATÁSTROFE NATURAL É IRMÃ DA CATÁSTROFE ECONÔMICA

Temos tido recentemente – este é um trabalho político e ambíguo da TV – uma série de catástrofes naturais, em toda parte, sendo as mais recentes Haiti, Chile, São Paulo – e agora, o desmoronamento quase que permanente do Rio de Janeiro, desde a noite da passagem do ano até “as águas de março”, este ano também em abril. E todas as catástrofes têm a mesma explicação: o problema veio dos governos anteriores, o país e a cidade não tem recursos, a população não queria sair das áreas de risco; todavia os governos já estão agindo prontamente, já tem planos que definir a solução para 2% dos necessitados, insinuando que estes planos são o início de uma série desbravadora e gloriosa de salvação dos pobres e de redenção da política. Ou seja, estamos vendo a reformulação dos erros anteriores dos governantes e uma nova aplicação dos dirigentes para a salvação da lavoura e da nossa gente. Deus salve a nova luz que surge!

I – E verdadeira explicação?

1) Como sempre o arroz com guisadinho das explicações é o imponderável da vida. E lá no fundo, os culpados verdadeiros são os pobres que resistem a não sair das áreas calamitosas, irreversíveis passaportes para a morte. Mas, porque ocorre isso? O que estas precárias e enganosas razões tentam impedir é que se discuta a vida das cidades e do país do ponto de vista macroeconômico e social. Impera o domínio do micro. E no caso, o subjetivo (“Não quero sair”) estendido para o grupo social (“A resistência dos moradores”). E muitas vezes para a condição social (“A região pobre do Estado”). É óbvio, até as crianças sabem que esta é a famosa conversa para a população dormir. A canção de ninar que florece nos lixões de cada catástrofe.

2) Há que pensar sobre tudo isso, como uma cadeia de estruturação social, advinda do nosso atual modelo econômico e social, onde as hegemonias das finanças e da especulação de terras e terrenos e da construção civil predominam – e são exaltadas. Por isso é preciso ver como esses fatos se enlaçam. Sem pretendermos ser exaustivos na explicação, damos alguns elos da questão.

II – A ausência do Estado

1) O leitor já está farto de saber que a economia atual se gere pelo capital financeiro. Só que o velho Hilferding nos diz que o capital financeiro é uma forma de capital que se valoriza através de duas órbitas: a esfera produtiva e a esfera financeira propriamente dita, com hegemonia dessa última. E que o capital financeiro gera um processo de desenvolvimento econômico, sobretudo na fase neoliberal, com a diminuição e suspensão da presença do Estado. A busca do famoso Estado Zero (que nem Coca Zero). E sempre, na opinião dos espoliadores, de que o Estado é um ente que cresce e que é injusto e se alimenta de recursos apenas em seu benefício. Pois bem, uma das formas de ausência é esta, deixar o setor urbano totalmente livre para ser submetido a duas forças fundamentais das cidades modernas: a urbanização automobilística (resultado da venda fantástica de automóveis, ônibus e caminhões) e a especulação imobiliária, cujo objetivo é retirar do Estado qualquer restrição – pois aumenta o custo da construção – de zoneamento, de medidas protetoras, de obrigações indispensáveis, de requerimentos fundamentais para a acessibilidade, etc. Ou seja, deixar a urbe à disposição do lucro vigoroso e da devastação das construções viárias e habitacionais.

2) Estes construtores inventam os mais diversos nomes para venderem os seus produtos cariados, a preços cada vez mais dominados por taxas especulativas. Só basta ver a crise do subprime da economia americana, para verificar que os preços do setor não são dominados pelos preços concorrenciais, mesmo que oligopolísticos, mas pela elevação permanente de preços em função da valorização das casas. Ou seja, são regidos pela especulação.

3) Conclusão: é o capital financeiro que na sua volúpia de expansão é dominado por preços cada vez mais especulativos. E para que tal aconteça, procura e consegue afastar o Estado de qualquer regulamentação. Como desdobramento deste afastamento, o Estado não consegue fazer nenhum planejamento urbano. Seus planos diretores, quando existem, são cada vez mais “disciplinados” pelos especuladores e construtores civis (imobiliários, de infra-estrutura urbana ou logísticos). Ou seja, o Estado desaparece para só reaparecer como elemento “humano” na hora da catástrofe. Isso se chama luta de classe e hegemonia do capital financeiro sobre o Estado. Portanto, poder. E poder, inclusive, para não regulamentar, não vigiar, não controlar, etc. E só surgir diante do desastre, tirando o seu da reta ("isto está aí há muitos anos") e desviando a culpa final para os moradores (“eles não querem sair”), quando não silenciando sobre qualquer explicação.

4) Em tempo: vocês se recordam daquele candidato a presidente da República que foi prefeito de uma grande cidade, que realizou uma obra para uma estação de metrô que desabou? Lembro bem do vasto buraco de escombros que ficou em frente de um edifício luxuoso, daqueles imensos, com piscina em cada andar. O luxo no meio do lixão. Pois, não recordo, no entanto, nenhuma explicação do ágil político que se colocava como uma alternativa inovadora diante dos demais candidatos. Queria vender a Petrobrás e o Banco do Brasil. Dar curso às reformas neoliberais.

5) É isso que dá querer tirar o Estado das suas tarefas de controle da economia, da redistribuição da renda, das reformas urbanas e das reformas rurais. E o pior: eles, economistas e ideólogos da barbárie, continuam. Não andou por aqui um filhote do Friedman; sim, sim, do neo-clássico, Milton Friedman, falando na retirada total do Estado da sociedade? Falando e propugnando o tal de “anarcoliberalismo”, nas palavras do próprio?

terça-feira, abril 13, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Lucros financeiros de novo perto do record com juros baixos; por André Scherer

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Para a Grécia, o melhor caminho é o default; por André Scherer

Satyajit Das, o especialista em risco e derivativos financeiros, coloca muito bem as coisas. Em primeiro lugar, lembra que "problema pequeno" e "está contido" foram expressões ouvidas quando eclodiu o problema do subprime em 2007. O fim nós ainda nem conhecemos... Essas expressões voltam à tona nesse momento com a crise fiscal grega e podem postergar ainda mais que se conheça o fim dessa história. Em segundo lugar, o autor raciocina, com propriedade, que o caminho menos custoso para o povo grego é o default em sua dívida e o abandono ao euro. Manter-se no euro e aceitar os termos do resgate proposto pela Europa e pelo FMI significará aumentar em mais de 50% o endividamento do país, situação já insustentável. E, mantendo-se no euro, a competitividade internacional da economia grega não será recuperada, pois apenas uma grande desvalorização de sua moeda pode ajudar nesse caminho. Mas o mais interessante é que esse custoso resgate em realidade beneficia principalmente credores estrangeiros... Ora, confrontados à realidade da ameaça de não-pagamento estes terão de aceitar substanciais reduções no valor de face da dívida em questão. A Grécia, falida, só tem a ganhar se declarar ao mundo essa condição. Já para a Europa, pode ser o início da dissolução...

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segunda-feira, abril 05, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Os riscos infinitos do Plano Ômega

O sistema financeiro mundial continua em crise. Os grande bancos norte-americanos foram salvos graças aos aportes financeiros do Estado e, atualmente, dedicam-se ao business as usual, envolvidos em apostas tão ou mais arriscadas do que as que faziam até 2007. Por que acreditar que desta vez os resultados serão diferentes, se o sentimento de impunidade com que os grandes bancos tocam habitualmente seus negócios está agora respaldado pela certeza do salvamento estatal? Os bancos menores lutam desesperadamente pela sobrevivência em um ambiente cada vez mais hostil, pois sua base de clientes (pequenos negócios, imobiliário local e pessoas físicas) também está em crise. Na Europa, o salvamento dos bancos colocou o continente à beira da crise fiscal e o processo de "socialização" dos prejuízos prossegue, como mostra a discussão essa semana da necessidade de absorção de mais prejuízos privados em um país na mira dos "investidores" internacionais. A solução dada para a Grécia – uma garantia mista entre Europa e FMI em caso de agravamento da solvência do país - já suscita a desconfiança do "mercado". A venda de títulos da dívida grega nessa semana ocorreu a um custo muito alto, mostrando que as iniciativas de solução do problema ainda não surtiram o efeito desejado.

Essa situação de incerteza radical, da qual anedoticamente me utilizo de fatos da conjuntura para mostrar sua validade, tem levado, em um plano estrutural, à busca incessante de novas fontes de lucratividade e de novos modos de funcionamento do sistema de hegemonia financeira. E think- tanks, universidades, consultores não faltam para isso, não apenas nos países desenvolvidos, em especial os EUA. Seus epígonos estão por aí, espalhados pelo mundo, sempre prontos a apoiar as idéias dos "mestres" e elevá-las em seu discurso ao mais alto interesse público local. É a fome e a vontade de comer... dólares, of course.

É nesse contexto que tem de ser entendido o chamado Plano Ômega. Dada a fragilização dos mercados financeiros tradicionais, busca-se descentralizar as operações financeiras para locais com maior potencial de crescimento econômico nas próximas décadas. Obviamente, isso tem de ser entendido como um movimento de extensão geográfica do centro pensante da globalização financeira e não como uma disputa "vencida" pelos mercados emergentes. O Brasil, e mais apropriadamente a cidade de São Paulo, tem sido lembrada nessas discussões sobre os rumos do capitalismo global. O Plano Ômega seria um conjunto de mudanças institucionais que, em conjunto com a movimentação dos bancos de investimento globais, colocaria a cidade como centro de fornecimento de serviços financeiros para a região latino-americana. O financiamento das empresas da América Latina como um todo, seja por emissão de ações ou por emissão de títulos no mercado internacional, seria realizado a partir de empresas localizadas em São Paulo. No jargão do mercado, São Paulo seria um hub, uma conexão, entre as empresas da América Latina e os aplicadores globais.

Mas, para isso, seriam necessárias reformas com apenas um sentido: promover uma ainda maior abertura financeira da economia brasileira de modo a integrá-la ainda mais ao resto do mundo. A legislação tributária para aplicadores estrangeiros teria de ser simplificada e nenhuma restrição a entrada e a saída de divisas é o ideal a ser perseguido. Assim, o recentemente criado imposto de 2% de IOF para aplicações estrangeiras especulativas teria de ser revogado. No âmbito cambial, buscar-se-ia um aumento na conversibilidade do real, provavelmente com a admissibilidade da criação de contas em moeda estrangeira no sistema financeiro brasileiro. No âmbito contábil, está em curso uma adequação das normas brasileiras às internacionais, de modo a facilitar a avaliação internacional das empresas locais (e, daquelas que vierem aqui buscar financiamento, em caso de avanço do Plano).

Pode parecer pouco, mas o impacto dessas medidas sobre a economia brasileira pode ser decisivo para os rumos do capitalismo local nas próximas décadas. Na prática, teríamos o aprofundamento do processo de desnacionalização da economia brasileira, maiores dificuldades em conter a volatilidade cambial (e, portanto, da lucratividade relativa entre os setores integrados comercialmente ao mercado mundial e aqueles que não o são, prejudicando a alocação setorial dos investimentos) e uma maior integração do sistema financeiro local com o internacional. Esse imbricamento aumentaria a vulnerabilidade do sistema financeiro brasileiro aos choque internacionais, acabando com o relativo isolamento dos bancos nacionais que se mostrou decisivo para a rápida recuperação do Brasil quando da crise de 2007-08 (não por acaso o banco brasileiro que estava mais relacionado ao capital internacional, o Unibanco, sucumbiu à crise financeira mundial). O Brasil se tornaria ainda mais dependente do fluxo de capitais estrangeiros e cada vez menos teria possibilidade de implementar uma política econômica autônoma. Ora, os ciclos financeiros variam entre momentos de euforia (capital abundante e juros baixos) e de crise (onde o capital migra para os países do centro, em especial os EUA). Na euforia, teríamos um real excessivamente valorizado, crédito abundante e crescimento econômico acelerado, a partir do endividamento de famílias e de empresas. Na crise, o movimento oposto.

Isso já ocorre hoje, alguém poderia contestar. Mas o que se propõe é enorme e, quando se trata de finanças, o volume é determinante. Criar-se-ia um armadilha que condicionaria completamente a política econômica às possibilidades de entrada de capitais, sob pena de uma crise enorme. Tome-se o exemplo próximo do Uruguay e veja-se como é difícil desmontar o mecanismo de contas em dólar sigilosas existente nos bancos locais sem criar uma enorme crise financeira, com uma desvalorização desastrosa do peso. Os mecanismos seriam outros (aparentemente, não se trata de tornar o Brasil um paraíso fiscal, embora as reformas o aproximem destes), mas as conseqüências, dado o volume de capital envolvido, seriam de ainda mais difícil reversão. Trata-se de um caminho que, se adotado, somente poderá ser modificado com uma enorme crise, provavelmente vinda do próprio funcionamento do sistema em nível global, pois ninguém terá condições políticas de se contrapor à liberalização financeira (estaria criando uma crise econômica, qual governo teria força para agüentar as conseqüências disso?).

Por fim, cabe salientar que a totalidade das medidas que promovem tal mudança podem ser adotadas no âmbito administrativo do Ministério da Fazenda e do Banco Central. Ou seja, trata-se de um verdadeiro "golpe branco", decidido entre "eles" (o principal articulador do Plano Ômega é o Sr. Armínio Fraga, presidente do Conselho da BM&F Bovespa, acho que não é necessário dizer mais nada) exclusivamente, mas com repercussão permanente para "nós". É claro que serão agitadas as bandeiras da "modernização" e, até mesmo, da "criação de empregos" no setor financeiro como justificativas para essa ousadia, como mostra nota na Revista IstoÉ Dinheiro do início de março. Historicamente, o déficit democrático no que tange a finança é sempre determinante de seus movimentos de aprofundamento, provavelmente por que se fôssemos discutir as claras as intenções e repercussões de propostas como essas, elas nunca seriam adotadas. Mas, normalmente, denúncias públicas forçam uma discussão mais aberta de temas que eles querem (e necessitam) manter à sombra.


Artigo publicado no blog Diario Gauche (www.diariogauche.blogspot.com).

quinta-feira, março 18, 2010

CRISE ECONÔMICA MUNDIAL
18 de março de 2010
Coluna das quintas

QUEM NÃO TEM
ESTADO,
NÃO SE DÁ BEM
Por Enéas de Souza


O PARTIDO DO LOBBY ESTÁ EM CENA

As lutas das classes nos Estados Unidos mostram que as finanças com o seu partido, o Partido do Lobby, estão vencendo o governo de Obama, de forma aguda, tanto no plano do Healthcare como na supervisão da regulação financeira. É preciso sentir que as finanças continuam mandando no governo: o FED e o Tesouro são deles; o dirigente máximo do Council Advisor Economics também. Só, o espartano, e fiel defensor do capital, Volker, de um capital financeiro e regulado, está do lado de Obama. O resto segue na defesa dos pássaros predadores das finanças. Volker, de sua parte, quer aumento de capital para os bancos, para protegê-los do risco; quer a separação dos bancos comerciais e dos bancos de investimentos, para que estes não levem de arrasto o sistema bancário. Façamos, portanto, um intervalo. E olhemos os acontecimentos políticos no Congresso, sobretudo aqueles que tratam do tema da regulação financeira. É preciso confessar que Obama não tem cacife para ganhar das finanças. Talvez mais tarde, agora, não. O momento passou. A economia financeira parou de tropeçar; os bancos voltaram a operar; e as suas vulnerabilidades foram contrabalançadas por intermédio dos bail-outs, das linhas de liquidez, da incorporação dos ativos podres nos seus balanços contabilmente prontos para os absorverem. Assim, estabilizados, os bancos e as instituições financeiras se resguardaram de qualquer adversidade. E, águias fulminantes, atacaram a reforma financeira do governo no Congresso. E vejam a perfídia do poder, o movimento da economia foi freado para salvar as finanças, lançando para longe qualquer possibilidade de ajudar os consumidores. (E isso que Ludwig Von Mises dizia que o consumidor é o rei.) Contudo, o Estado, ardiloso, deu um gole para a produção, mas o copo da liquidez ficou mesmo com o sistema financeiro. Enquanto isso, os eleitores dos Estados Unidos, numa batalha memorável, colocaram no Executivo, uma cunha não financeira que se chama Obama. Só que, como peixe de lago, não teve e não tem suficiente força para derrotar o esquema pretérito das finanças. Pois estas viveram, e querem continuar a viver, o que Paulo Mendes Campos chamava “o domingo azul do mar”. No caso delas, do mar das rendas financeiras.

COMO É LONGO O MANTO DO ESTADO FINANCEIRO

1
- Aqui está o ponto fundamental da transformação da economia americana. É preciso mudar este Estado, de natureza financeira, para que a economia possa funcionar. Cabe calibrar uma verdadeira metamorfose na dinâmica econômica. O que significa colocar na liderança do processo capitalista as novas tecnologias de comunicação e informação (NTCI). E com esse movimento, reverter o sistema financeiro de exclusivo beneficiário das atividades econômicas para um desejado suporte das atividades produtivas. Ou seja, as finanças precisam renunciar à sua hegemonia, e deixar que a economia siga o seu curso produtivo. Mais do que nunca é preciso que o longo prazo domine – e atraia para si o curto período. O cassino passará, então, a ser um ponto secundário, pois o movimento decisivo será o de sustentação dos negócios da produção. Só que isto, se não é uma utopia, está longe de acontecer. Por enquanto, as finanças estão saindo pelo mundo, buscando mercados e aventuras especulativas. E parece que a liderança delas continua inquestionável concretamente, apesar da economia produtiva e do emprego não passarem de performances medíocres. O problema, então, na questão industrial é mais do que simples. Cabe deixar que as indústrias vinculadas às NTCI passem para a primeira posição no palco. O que sublinha a necessidade de pôr para o fundo da cena as indústrias do estilo automobilístico, que são indústrias não mais amadurecidas e sim em processo de precoce envelhecimento.

2 - Vejam agora como é complicado transformar tudo: primeiro, precisa-se controlar as finanças. Dar-lhes supervisão. E, no mesmo momento, construir uma nova arquitetura financeira. E com isso, indicar às instituições bancárias e às instituições não-bancárias uma nova função. Em segundo lugar, passamos para a produção, e aí, é preciso transpor as NTCI para o posto de locomotiva do processo. E, minha Nossa Senhora, isto é fazer duas coisas difíceis: dominar as finanças e suplantar as indústrias do automóvel. E como é que se faz isso? O problema tem que vir de uma combinação de luta política, de luta econômica e de luta ideológica. Logo, Obama não pode fazer como o Senhor, e descansar no sétimo dia. Obama não pode repousar um só momento. Qualquer vacilo, qualquer sono - a demora na mudança - será a ampliação do inferno americano. E isso, que nós não estamos falando das questões geopolíticas do Império. Substituir o Iraque pelo Afeganistão é quase trocar seis por meia dúzia. E ficar às turras com o Irã não é melhorar a situação no Oriente Médio. Embora até que os States têm tentado mudar um pouco a sua inserção por lá. No entanto, o segmento militar, companheiros de rota das finanças, tem uma política externa baseada na segurança mundial...

A FACE DO NOVO ESTADO

1 - Como quebrar o poder do Lobby que reforça o lado conservador dos democratas e dos republicanos? Somente com uma crise devastadora que ponha as finanças em recuo. O problema atualmente é que a crise está entrando num segundo tempo. Pois, vai acontecendo que ela, de crise das finanças privadas, está se afeiçoando à potencialidade de uma crise das finanças públicas. A prova é o que está se passando na Grécia e na Europa. E a pergunta é: já se pode ver a corda que puxa o tipo de Estado forçando a barra para aparecer na sociedade contemporânea? Olhemos no retrovisor e vejamos o que aconteceu no mundo. As finanças estrangularam o antigo Estado e, com o apoio das elites dominantes, instalaram a sua hegemonia. Através do seu poder político transformaram o Estado de uma maneira interessante. Primeiro: desarmaram a sua capacidade universal, o Estado para todos. E mantiveram, exultantes, seu poder de coerção, só que lhe deram um destino diferente. O Estado foi, nesse caminho, induzido e conduzido a ficar de fora da economia. As finanças, por sua vez, “optaram” por se auto-regularem. E a política econômica foi definida como produto microeconômico das corporações. O Estado, agora controlado pelo sistema financeiro, amparava, via somente com as políticas monetárias, financeira e fiscal, a definição da taxa de juros e dos títulos do Tesouro. Porque estes dois aspectos sustentavam uma moeda, que, como uma champanhe esfuziante, asseguravam que as finanças montassem toda a sorte de especulação, principalmente com a estratégia da securitização. Ou seja, para um título emitido se faz outro título para dar seguro a este. E aí foram os CDOs, os CDS, e toda a montanha títulos. E se valeu para os Estados Unidos, valeu para a dupla Wall Street–City; e se valeu para a Europa, valeu para o mundo. E por fim, as finanças financeirizaram tudo. Como diria o poeta Paulo Martins do filme “Terra em transe” de Glauber Rocha: “Vocês venderam tudo”. E financeirizando toda a dimensão da economia, financeirizaram, inclusive, a criação de dois déficits gêmeos, o déficit fiscal e o déficit da balança comercial dos americanos, enlaçando a China. Ora, quando toda essa conexão despenca e se desmancha, é preciso um outro Estado. É uma necessidade lógica. Só que para mudar a economia, no real, tem que mudar a política.

2 - Pois, aí é que está o difícil. Porque, ao salvar os bancos, ao nacionalizar a AIG, por exemplo, o Estado americano não espanejou o campo de batalha, nem conseguiu mudar aqueles que destruíram a confiança no sistema. Certo, alguns foram prô saco, tipo Madoff, porém outros foram absorvidos com o Lehman Brother e a Merrill Lynch. Um ou dois ou três CEOs, altos dirigentes, perderam os seus empregos, contudo todos esses "talentos", como se chamam, ficaram por aí, trocando de corporação ou à espera de uma nova possibilidade de recuperação da volúpia financeira. Os bancos se salvaram, mas nem o governo nem eles mesmos, retomaram efetivamente a economia. Por quê? Porque o capital financeiro, que se valoriza pelas finanças e pela produção, sucumbiu como um todo. Não foi apenas uma crise financeira que ocorreu, foi também um vendaval produtivo – veio abaixo toda a cadeia de valor da produção. O que houve foi, portanto, uma queda de toda – digo: de toda – a economia capitalista. Por isso, o fundamental para que a economia ressurja, há que mudar o padrão de acumulação vigente. E isso só se muda, alterando tudo – desde o Estado e a organização da arquitetura financeira até a liderança e a ordenação da estrutura produtiva. E esse projeto só vai avançar, quando houver uma mutação no comando político da economia, quando o setor financeiro abdicar de sua manha de continuar o joguinho financeiro ou quando o setor produtivo assumir de fato a orientação da nova armação econômica. Ou seja, há que mudar a economia e para tal há que mudar o Estado. A nova cara vai ser um Estado que possa dirigir a economia através de uma política econômica que atenda as questões do longo prazo: tecnologia, produtividade, salários, assistência social e serviços públicos: educação, segurança, saúde, meio ambiente, etc. Se você lê jornal, se você escuta rádio, se você vê televisão, se você entra na internet, você sabe, claramente, que o caldeirão está fervendo. Mas não se muda de uma hora para outra, nem o Estado, nem a economia. As batalhas estão mal começando, mas o subterrâneo já está em andamento, suas placas tectônicas estão se movendo.

3 - Enquanto isso, estamos vendo o crescimento da China, o reposicionamento da Índia e do Brasil, a presença da Rússia, o entravamento e a busca de reposicionamento da Europa (com a Alemanha assumindo um papel importante). Tudo isso está em curso, gerando girassóis e trovoadas por toda a parte, o que significa que estão em movimento duas grandes modificações: a ordem geoeconômica e a ordem geopolítica mundial. E essas moções levam a itinerários amplos na mudança das instituições políticas nacionais e internacionais. Nunca esquecer que a China tendo um Estado central muito forte – e crescendo como está – certamente vai provocar mudanças nas estruturas estatais dos seus concorrentes. Está sendo um esfrega, esfrega. Terminou a moleza do Estado poderoso e retirado do cenário para que as finanças se locupletassem com o bombeamento do capital e do dinheiro da sociedade para eles. Um mundo está indo abaixo e outro está nascendo. (E no Brasil, o redemoinho já está em curso, o trânsito passa pelas eleições deste ano).
E COMO DIZ...
E como diz a música do Tom Zé: "estou te explicando para te confundir, tou te confundindo para te esclarecer".

NOTA - Por duas semanas vou estar ausente deste espaço, retornarei em abril.

quinta-feira, março 11, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
11 de março de 2010
Coluna das quintas

O PODER FINANCEIRO
VERSUS
O PODER DOS ESTADOS

Por Enéas de Souza


SEM LIQUIDEZ, AS FINANÇAS NÃO FUNCIONAM

1
- Estamos vendo um segundo tempo da crise. E nos dá uma nova visão do entrelaçamento pernicioso da economia financeira. Pois encadeia na sua corrente devastadora a economia privada e a economia pública. De que maneira? Antes de mais nada, a economia como um todo precisa de uma moeda, sobretudo uma economia financeira. E uma moeda adequada para esta atividade, para a predominância das finanças, é obviamente uma moeda ágil, veloz, flexível, açulada. E só pode ser uma moeda que não tenha mais como base uma mercadoria concreta, uma mercadoria como o ouro. Logo, uma moeda sem nenhum valor intrínseco, uma moeda abstrata, com um valor garantido pelo Estado. Por isso, a moeda financeira articula a taxa de juros – definida pelo Banco Central – e os títulos públicos – emitidos pelo Tesouro Nacional.

2 - Por quê? Por causa da função monetária de reserva de valor. Pois, como sabemos, uma moeda é meio de circulação e medida de valor. Mas a potência de uma moeda se sabe exatamente pela sua capacidade de ser reserva de valor. Quando tiver preferência pela liquidez, como numa crise, o que faço? Busco aportar numa moeda forte, que é robusta porque é garantida pelo Estado. Pois esta é a coisa que a economia financeira construiu. Um Estado para emitir uma moeda adaptada a seu requerimento, uma moeda que tenha flexibilidade, cuja circulação e cuja velocidade seja fornecedora de liquidez. A liquidez, como forma de valorização do capital aplicado em títulos privados e públicos, é o desejo fundamental do capital financeiro. Mas, para ter uma moeda deste porte, só um Estado pode garantir. Mas quem garante esse Estado? O poder econômico, político, militar e ideológico de uma nação. No caso contemporâneo, o principal Estado é o americano, e por isso, o dólar é a moeda entre as moedas. Como diria o cineasta Scorcese, ele é a cor do dinheiro.

O DESEJO DE QUE TUDO SEJA ATIVO

1 - O mercado financeiro é a alegria dos ricos e dos investidores. Não é um clube exclusivo, mas é um clube para cachorro grande, para espertos e de raciocínio rápido. E ações extremamente prontas, como a de cavalos ligeiros. Agora. Neste instante. E daí, a busca permanente de ativos que dêem lucro fácil, lucro de ocasião, talvez até um lucro descuidista. Na verdade, o objetivo é o rendimento mais exagerado possível. Pois a alma das finanças é a especulação. E a idéia de especulação, para o sistema financeiro, é função de um rendimento, se possível, infinito. Ou seja, as finanças querem e têm mercados instantâneos, que são, pela rapidez dos movimentos, instáveis pela própria natureza. Permite, quando estamos no pró-ciclo, quando o ciclo sobe, que haja sempre um ganho crescente, um avanço aparentemente infindável no território feliz da lucratividade. Por isso, o desejo do mercado financeiro é de girar ativos, muito ativos, supostamente protegidos – securitizados é o termo – com o sonho irrealizado, mas sempre presente, de que eles rendam ilimitadamente. O capitalismo é um sistema transgressor, o capitalismo financeiro um capital vorazmente atravessador de limites. Capital bandoleiro.

2 - Nessa seqüência, o financista faz de tudo para que um ativo possa ter liquidez. E na volúpia do mercado, há que ter ativos. E tudo, na verdade tudo, passa a ser ativo financeiro: ativos reais, títulos privados, títulos públicos, commodities, compondo uma “corbeille”, uma diversificação enorme de títulos. Há no financista e nas finanças o gozo do jogo. É a tesão do movimento da bolsa, do movimento dos títulos públicos, da especulação, etc. O que alegra e faz deste mercado um verdadeiro ”crack”, uma venusiana “drug”, como a guerra para o soldado de “A Guerra ao Terror”, o ganhador do Oscar. O calor da fome de dinheiro é o próprio jogo do movimento financeiro. A mente está sempre buscando alguma coisa para dar grana, para render imediatamente. E assim, é preciso inventar e inovar em termos de ativos. Mas o que mexe com a alma do financista é achar sempre um papel cujo rendimento tenha uma elasticidade em excesso. Foi o que pensou o setor com os primes, os Alt-A, os sub-primes – a escalação das hipotecas do setor imobiliário. É o que pensam agora os especuladores com os títulos gregos. Só que cada ativo porta o seu risco. E, no fundo, a Medusa está ali para pegar os financistas, sempre em algum dia, no mercado financeiro, a casa cai.

3- E a saída é isso mesmo, é se aventurar e correr contra o risco. Porque o excesso instaura o risco como uma forma sempre presente de fazer a diferença entre os competidores. Por isso, as finanças inventaram e inovaram com o Credit Swaps Default, este Pelé do cassino financeiro. Mas, um Pelé que joga para todos os lados. Vejamos o esquema: o Goldman Sachs arranjou empréstimos para os filhos longínquos de Aristóteles. Mas, como o mundo é das finanças, o pensamento de Soros segue junto. Ou seja, e se a Grécia não pagar? Vamos nos proteger. E jogar contra a ela. E assim se faz um CDS contra a referida nação, com uma outra instituição financeira, que pagará na hipótese dos gregos não pagarem. Mas, por sua vez, esta outra instituição, para se resguardar do risco, encadeia um outro CDS para o caso de ter que pagar. Mas, não com as mesmas taxas. Quem sabe aposto mais alto? E eis aí a Grécia apanhada numa teia de aranha. E vem, como um pequeno monstro, para complicar o fenômeno, as agências de notação, as agências de ratings. Quando as coisas ficam perigosas, elas dão o alarme e abaixam a classificação da instituição ou do país. Conclusão: a Grécia para conseguir rolar as dívidas tem que pagar mais juros. De 3% passou a oferecer o dobro. De outro lado, como o país estava, por causa de suas contas, com um déficit anual de mais de 12% e uma dívida de 112% do PIB – quando o tratado de Maastricht permite apenas 3% e 60%, – o mundo caiu em cima do governo grego. E este, como acontece sempre nos tropeços da vida, joga para o bolso dos funcionários (baixa de salários e modificações do valor das aposentadorias) e para a carteira da população (um aumento de impostos), com a finalidade de recuperar as contas públicas. Logo, já se viu este drama, um desastre social completo. A solução de mercado e a felicidade dos especuladores é fazer a Grécia e a população grega sangrarem. E toca mais e mais juros. E o pior é que os CDS não têm nenhum controle, é um mercado de balcão, por isso não há nenhuma instituição que fiscalize e que faça a vigilância. É um mercado do caos, vende e garante o bordel dos títulos. E ameaça a Grécia, a Europa e o Euro.
(Chegará, por via da voracidade especulativa, ao dólar?)

A EXPLOSÃO DA BOMBA

1 - O desejo de que tudo seja ativo e seja motivo de especulação, se no primeiro momento é esperteza, no segundo, é um tiro na fronte, uma bala nos neurônios. Sim, porque este sistema é um sistema suicida. Uma bomba que pode explodir a qualquer momento. Se você, atilado leitor, assistiu ao filme de Kathryn Bigelow, “Guerra ao terror”, que já citamos acima, pode compreender como funciona este sistema, sobretudo o CDS. Ele, o CDS, é um título sempre perigoso, sempre prestes a explodir. E que tem que ser desarmado a cada minuto. Se no momento de euforia, na subida do ciclo, tudo funciona para o aumento das rendas financeiras, quando o ciclo desce, quando o ciclo fica como o Iraque, cada operação é um chamamento a explodir. As finanças se tornam uma ameaça completa e complexa.

2 - Pois vejamos o que está em jogo nesta crise grega. Primeiro, depois da atual crise de várias inovações financeiras nos mercados internacionais, e que leva a uma ruptura da valorização do capital na área das finanças, o rastilho da crise passa da esfera financeira privada para a esfera financeira pública. Com o ataque aos títulos soberanos dos países, começando pela Grécia, o caminho da especulação parece nítido. Visa, de saída, a Grécia, e depois prepara o lança-chamas sobre Portugal, Espanha e Itália, em ordem a ser estabelecida. E por fim, o objetivo – não tenhamos dúvida – é uma bala de canhão sobre o euro. Se a especulação chegar a derrubar esta moeda, o que no momento parece distante, o sistema financeiro terá prosseguido seu movimento suicida em direção à destruição dos Estados. E, no limite, de si mesmo. Naturalmente, que os Estados não quebram, mas podem ficar por muito tempo inviabilizados. E obviamente, é assustador, na mão das finanças. É só especulação e progressivos aumentos das taxas de juros. Se as coisas não funcionarem para os herdeiros de Aquiles e Ulysses, os juros vão subir – e muito. Como, um dia, subiu no Brasil chegando a mais de 40%. Ou seja, a Europa monetária poderá entrar na linha de tiro. Trata-se da trajetória da pólvora financeira.

NOVA RECESSÃO?

Bem, o problema do euro é simples teoricamente. É uma moeda financeira, capenga, coxa e incompleta. De um lado, a Europa é uma união monetária e tem um banco central; com isso, pode gerir a moeda e definir uma taxa de juros para a região, fixando o valor mínimo dos títulos dos países da comunidade. Só que, como não tem um Tesouro, não é uma união fiscal. Têm vários fiscos, os dos países, com situações muito diversas. E assim, ainda teoricamente, o euro, na Alemanha, pode ser moeda de reserva, porque ela pode se garantir, tem capacidade para sustentar uma moeda. Já na Grécia, como é que o euro, ali, pode ser reserva de valor? Impossível. O déficit e a dívida não suportam o balé financeiro. Então, o ataque dos especuladores na Europa começa por ela. Depois, o já dito, avançará para cima de Portugal, Espanha, Itália, etc. Um pouco mais, um pouco menos, eles estão na mesma condição da Grécia. E se esses países caírem, e forem ameaçados com taxas de juros expressivas, o Tesouro da Alemanha não vai resistir. E não resistindo, o euro tombará após a fileira de peixes mortos. Portanto, é hora imperiosa de contra atacar a especulação, para salvar os países e começar uma tentativa de reabilitação do controle dos Estados sobre as finanças. É preciso conter a instabilidade financeira do capitalismo. A crise está, portanto, no segundo tempo. Não é por nada, que Papandreou está pedindo apoio para todos, de Ângela Merkel a Obama. Até quando, Catilina, as finanças devastarão o mundo?

O SEGUNDO TEMPO

As perspectivas de resposta e de metamorfose da economia ainda estão muito nebulosas. Mas, a crise ainda não desatou nos Estados Unidos, o epicentro do terremoto financeiro. As finanças bloqueiam qualquer mudança maior no Congresso, onde o seu partido, o partido do Lobby, é o mais forte, e impede um novo marco regulatório. Enquanto os americanos não resolverem pelo menos: 1) a questão dos grandes bancos (to-big-to-fail), 2) enquanto não regularem ou interditarem os derivativos e 3) enquanto não terminarem o que eles chamam de “consume abuses”, ou seja, a exploração profissional e massacrante dos investidores miúdos e médios, a coisa financeira não vai avançar. Portanto, a sociedade continua na defensiva. E se os americanos estão maltratados, o resto do mundo quase não tem esperança. Desta forma, o que se mostra é que o segundo tempo da crise está promovendo a passagem da crise financeira, envolvendo o setor privado, para o incêndio na área das finanças públicas. Isto quer dizer que é preciso cortar o fogo, pois se ele continuar se alastrando, a recessão em andamento deve crescer. O que vai cortar as labaredas lida com a mudança da arquitetura do sistema financeiro americano e do sistema financeiro mundial. Não parece, no entanto, que as finanças estejam de acordo. E hoje, quem tem o poder são elas. Por um tempo, tudo poderá continuar como está, mas a economia financeira é um mundo de papel que, como a madeira, sofre sem resistência a ação das chamas, no caso das chamas das finanças. A Europa, fortemente ameaçada, esboça um movimento para tentar proibir nos seus domínios o apocalipse da especulação dos derivativos, como resultado do triunfo do capital financeiro.

domingo, março 07, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Islândia rejeita pagamento de dívida de banco privado à Inglaterra e Holanda

Em um plebiscito realizado especificamente para saber a opinião do povo islandês quanto ao pagamento reclamado por Holanda e Inglaterra dos prejuízos que seus cidadãos tiveram com a falência do banco Icesave, mais de 93% dos votantes se declararam contrários aoa cordo proposto entre os governos dos três países. Os islandeses se recusaram, com razão, a assumir uma dívida que totalizaria 48.000 euros para cada cidadão. Isso apesar da tradicional chantagem de que uma decisão contrária aos interesses financeiros "isolaria o país" e "dificultaria sua recuperação econômica"...

É uma lição indesejável para os mercados financeiros de como o povo pode e deve participar na decisão das questões que o afetam diretamente. Esperemos que o exemplo prospere e se difunda mundo afora, afinal, uma das principais características do capitalismo financeiro hora em crise é a negação da participação democrática nas decisões que afetam seus interesses, em nome de uma suposta "auto-regulação".

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quinta-feira, março 04, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
04 de março de 2010
Coluna das quintas

O CÍRCULO MORTAL
DO
O ESTADO FINANCEIRO

Por Enéas de Souza



O CINISMO DAS FINANÇAS

Os financistas e seus arautos voltam a atacar. Um economista do Goldman Sachs, esses dias na TV, previu para o mundo um crescimento de 4 e pouco para 2010 e de 4 e tanto para 2011. O que em princípio para uma economia que caiu vastamente, crescer 4% não é retornar ao ponto em que estava. Mas, aceitemos sua visão inaceitável, de que o mundo crescendo 4% cresce mais que a média dos últimos anos da pré-crise que foi de 3,5%. Ora, o que a gente viu foi, sem dúvida, um tipo cínico, arrogante, presunçoso, pronto para mentir a qualquer momento, excluindo, sem nenhum pudor, o GS de qualquer culpa. Defendia ardorosa e de maneira cega, o bônus nas instituições financeiras, dizendo que este paga, só e justamente, o mérito dos talentos dos executivos de qualquer banco. E numa reviravolta de trapezista do mercado financeiro, culpava os políticos e o Estado pelas desgraças da vida. Principalmente pela crise (sic!). A gente assistia assim, do outro lado da tela (ainda bem que era do outro lado), um gangster falando, um tipo que talvez ficasse bem num filme como “Onde os fracos não têm vez”. Certamente, alguém que não mereceria uma entrevista, salvo neste caso, para vermos a mentalidade do tipo predador, cuja mente e discurso se eximia de qualquer culpa, de qualquer erro. E se mostrava pronto para uma nova caça.

O LIMITE INTRANSPONÍVEL

Pois aqui está um ponto essencial. As finanças não querem arredar nenhum pé, nenhum passo, pensam que a mundo sem eles seria muito pior. E o velho Keynes que tinha a ironia britânica falava da eutanásia do rentista... E os integrantes desta fração de classe, sem visão nenhuma de economia, a não ser do lucro imediato e do caixa do banco, do bônus e da sua conta corrente, têm, da atividade econômica, uma idéia de anti-longo prazo. Só a valorização instantânea dos ativos financeiros, só o curtíssimo prazo, só o ato de predação é que os motiva “socialmente”. E, portanto, não sabem, nem querem, nem identificam que a economia financeira chegou a um limite intransponível. O que não quer dizer que a economia não possa dar uma crescida, que não possa dar uma levantada. Ela até pode; contudo, de modo efêmero. Já que o jeito como se comportam as finanças, não aceitando nenhuma regulação, não possibilita que possa haver um trânsito para um outro padrão de acumulação de capital. Por quê? Porque permanecer num padrão não-regulado é simplesmente continuar dentro de um padrão que se extinguiu. O que quer dizer que não existe perspectiva de um crescimento duradouro, nem para elas nem para ninguém. Nessa direção é preciso atentar que, de um lado, as inovações financeiras neste modelo tendem a ser limitadas, por suspeita do próprio mercado. Dito fortemente; a securitização precisa ser reformulada. E de outro lado, a crise produtiva navega num mar revolto, sobretudo as velhas indústrias, do tipo automobilístico. Fora desses aspectos, certamente o astuto economista do primeiro parágrafo, fingiu que não viu o conjunto de ativos podres que estão na contabilidade dos bancos e que vicejam no interior do sistema financeiro como bactérias ameaçadoras. Ou seja, a recuperação, se houver, não mudando o padrão da economia vigente, será como uma festa de despedida, um canto de cisne numa noite de trevas.

FINANÇAS VERSUS A NOVA PRODUÇÃO

1 -Uma economia só funciona quando a produção funciona e quando a economia financeira se desenvolve, especulativamente ou não, em cima deste desenvolvimento. Pois nós temos agora uma crise muito forte, é necessário transformar esta economia do automóvel numa economia das tecnologias de comunicação e informação. Primeiro: esta passagem supõe: uma mudança de liderança na dinâmica da atividade econômica como um todo; segundo: supõe a adequação da economia financeira a esta produção reordenada; terceiro: requer uma metamorfose na arquitetura do sistema financeiro, pondo este conectado com o sistema industrial e seus companheiros o comércio e os serviços; quarto: requer que o Estado assuma um comando sobre a economia, principalmente disciplinando o capital, ou seja, regulando a atividade econômica.

2 - E a economia é como um rio. Se suas águas forem represadas, elas vão descobrir um desvio para romper com a barreira. Novas e novas águas, diria o Heráclito, vão emergir. Mas, não tem! O mundo vai ter que mudar. E hoje, agora, será muito mais fácil. Depois, se a resistência for grande, só com rasgões, quando o velho – e o velho hoje são as finanças – terá que dar passagem ao novo. E dar passagem por razões estruturais. Mesmo porque se as previsões deste “humanista” da GS se confirmarem, elas não emplacarão num vôo de brigadeiro, como ele pensa e sugere que vai acontecer. É preciso ver que a produção e os trabalhadores vão fazer pressão para que este inverno econômico passe a ser, ao menos, um inverno brando ou, quem sabe, uma primavera. Carlota Pérez, todavia, fala num novo Verão, numa Gold Age. Não chegamos a esta expectativa. Concordamos, não resta dúvida, com ela, quanto a necessidade econômica, política e sociológica de superar este quadro absurdo que está acontecendo neste momento. A rapina salva pelo Estado e pela sociedade volta-se, como uma fera danada, dentes aguçados e vorazes, num monstro diluviano. Um verdadeiro núcleo da barbárie, para morder e liquidar o Estado e a sociedade.

PORQUE O ESTADO SÓ DEFENDE AS FINANÇAS?

Como estamos vendo, uma das dificuldades no embrulho da economia contemporânea tem o nome de Estado financeiro. Sua presença no cenário político e econômico permitiu algumas mudanças decisivas que contribuíram para o sucesso e hegemonia das finanças. Mas estão no bojo desta estrutura estatal características que são pontos nevrálgicos para a sua sobrevivência:

(1) a transformação da moeda-ouro em moeda financeira;
(2) a construção de um sistema de negociação de títulos financeiros, progressivamente auto-regulamentado;
(3) a fissura na estrutura institucional do Estado, entre um setor econômico (reunindo o Banco Central, independente ou autônomo, e a Fazenda, que garantem as operações do sistema financeiro) e um setor constituído pelos demais ministérios, totalmente subordinado ao primeiro;
(4) a necessidade do Estado para bloquear financeiramente, com recursos orçamentários ou endividamento público, qualquer operação de qualquer instituição que traga uma ameaça de risco sistêmico à economia;
(5) a colocação de títulos públicos para servir ao jogo de acumulação do capital financeiro, em momentos de salvação de instituições bancárias e não bancárias, funciona em detrimento do Estado e da sociedade;
(6) a necessidade de manter o controle da moeda contra a especulação dos capitais privados, para evitar que a ameaça do risco sistêmico se transforme em risco social;
(7) a deterioração da moeda, de um país ou de uma região, encadeia uma sucessão de crises, que segue o seguinte movimento: crise financeira, crise fiscal, crise monetária e crise do próprio Estado, à medida que se evidencia a incapacidade do Banco Central e do Tesouro.

Desta forma, lendo estas notas, podemos ver que existe um fantasma, o fantasma do velho Keynes, rondando o paraíso das finanças. Pois se ele propunha, com toda a sua argúcia e clareza, a eutanásia das finanças, ao se observar a estrutura da relação entre capital financeiro e Estado, o que a gente percebe é que o sistema tem um lado de euforia, mas tem também um ponto de vertigem. É nesta altura que está inscrita a hipótese de uma crise imensa, por uma vocação ao suicídio dos rentistas, pois uma crise profunda das finanças engancha o Estado, o Estado financeiro. Por essa razão, não há saída, este Estado tem que defender fortemente as finanças, sob pena de se ver envolvido na voragem da crise do capital. Mas, uma crise deste coloca obviamente em cheque o próprio Estado. Ainda não chegamos a este ponto, mas o círculo capital-Estado pode entrar numa de trajetória de infindável realimentação.

terça-feira, março 02, 2010

ECONOBRASIL no Diario Gauche

Ficamos felizes em saber que os amigos do excelente Diario Gauche (www.diariogauche.blogspot.com ) estão apreciando nossas postagens sobre o desenrolar da crise financeira mundial, como mostra a menção feita no blog ao artigo do Enéas sobre a crise na Grécia e na Europa ("A Grécia põe a Europa em questão", 18/02/2010).
Aproveitamos para recomendar o acompanhamento do Diario Gauche aos nossos leitores interessados em análises e reflexões sobre a sociedade e a política gaúchas que fujam ao lugar comum expresso pela mídia oficial. É sempre uma delícia poder compartilhar os questionamentos que tanto irritam as antigas vozes monocórdias do poder local, dentro do mesmo espírito que nos anima aqui no ECONOBRASIL em relação as notícias da economia internacional e brasileira.

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
25 de fevereiro de 2010
Coluna das quintas


O SEGUNDO
TEMPO
DA CRISE

Por Enéas de Souza


O MEU MUNDO CAIU

1 - Para compreender a possível metamorfose da sociedade contemporânea é preciso saber da construção que está em rota de desabamento. Uma madeira cheia de nós e tensões, cupins e baratas. A finalidade é única: não repetir o mesmo, não realçar de novo esta hegemonia financeira. Pois, é da realidade de agora que temos que falar. Ela se engalanou, se empolgou, cresceu com os seus delírios, as suas especulações e numa das esquinas da vida, esbarrou no carro da crise, que vinha na contramão da ideologia neoliberal. O que aconteceu? Antes de tudo, a articulação sistema financeiro e Estado, sistema financeiro e produção, sistema financeiro e população foi armada, ao longo dos últimos trinta anos, para exibir a vitória das finanças dentro do triunfo do capital. Digo triunfo do capital, porque a Guerra Fria, com a queda da União Soviética, trouxe para o primeiro plano o lado financeiro do empresariado, a arrasadora presença das corporações bancárias e não-bancárias. Coisa que ficou dominando, fustigando, planta viva e planta carnívora, construindo moeda financeira; fazendo subir e descer mini-crises nos mercados de ativos financeiros; entrelaçando moeda, títulos privados e títulos públicos; fazendo um rodízio especulativo contra moedas, contra as aplicações imobiliárias, contra as ações na Bolsa, contra os produtos financeiros e especulando ostensivamente contra o petróleo e commodities. Depois de tantas crises miúdas e médias, explodiu, sem refinamento a grande recessão de 2007, puxada pelo personagem marginal das sub-primes.

2 - Como escrevemos num trabalho chamado a “Insustentável Leveza do Capital Financeiro”, o sistema financeiro girava uma máquina, que unia desregulação, alavancagem, sindicalização, securitização, agências de ratings e articulação especulativa das finanças e da produção”, buscando a acumulação financeira do capital. Ou seja, um modo outro do capital de acumular, ao contrário de aumentar seus volumes de riqueza pela produção, agora, a sua forma tinha a lantejoula e a plumagem do crescimento via papéis. Num mundo, onde tudo era ativo financeiro, desde os próprios, até os ativos monetários e os reais; as fábricas, as mercadorias, as empresas, a tecnologia, as hipotecas, os dólares, os euros, as obrigações, os derivativos, tudo, tudo, se perfilavam e se comportavam como ativo financeiro. Vendeu-se tudo, comprou-se tudo. Só que um dia, como sempre, alguém desconfia desta roda da felicidade, e sai fora. E o mundo cai, as finanças acordam em crise. Mas dormem sonhando com o retorno da forma que desmanchou-se. Na aurora seguinte, começa um devastação social, que devasta nos Estados Unidos, atravessa a Inglaterra, incomoda na China, requer malandragem no Brasil e desmaia na Grécia.
Então a pergunta acorda: “que tipo de construção social está diante de nós?”.

A DIALÉTICA ESTADO-CAPITAL

1 - O Estado a serviço das finanças

Vamos examinar um aspecto da complexa questão. Trata-se da relação entre a economia e a política, e nela, a construção do Estado financeiro, o Estado que acompanhou a carreira das finanças como a linha das ondas que chega com a maré à praia dos ganhos maiúsculos. Todo o objetivo da hegemonia financeira foi exatamente isso, criar um Estado poderoso, altamente coercitivo, mas flácido em relação ao desejo especulativo e a ambição de rendas fartas do setor. Uma sociedade precisa de um Estado que combine seus órgãos, sua burocracia, suas medidas de política econômica, seus planos de tratamento social das classes desfavorecidas, em benefício, maior ou menor, às frações dominantes. No caso atual, ele foi elaborado social, econômica e politicamente pelo capital financeiro. Portanto, esculpiu-se uma entidade a serviço das finanças, por causa da hegemonia desta.

O atual Estado foi um Estado privatizado na sua natureza e em toda a sua extensão, a começar pela mirabolante proposta das instituições financeiras de deixarem em suspenso uma regulação estatal, visando obviamente a instauração da auto-regulação. Renovou-se o faroeste vivo e solto da mitologia americana. Do ponto de vista político, a presença das finanças forçou uma cisão, uma fissura, uma cirurgia no Estado, dividindo de um lado, uma presença forte, até totalitária, do mesmo, em relação a sociedade civil. E de outro lado, a razzia financeira, a livre exploração dos ativos financeiros inventados para aplicações e possíveis proteções empresariais. Quanto ao primeiro aspecto, não foi a troco de outra coisa que o Estado americano agiu guerreiramente no campo externo (exemplo, a ação predatória sobre petróleo no Iraque), e o estabelecimento de uma repressão da coletividade interna, (valham os casos, do Patriotic Act e do violento acréscimo de cidadãos presos). No tocante ao item da razzia financeira, separou-se e isolou-se, em desfavor das demais, a parte do Estado que se dedicou a criar condições para o cultivo dos rendimentos nos jardins dos ativos financeiros.

2 - Sucessão de quinze pontos

Houve uma sucessão de características econômicas nessa contradição, nessa tensão, entre o Estado e o Capital, principalmente quando a pensamos a partir dos Estados Unidos. Destacando a temática desde os anos 70 até agora, enumero facilmente 15 pontos desta aliança/conflito:

Primeiro ponto: a liquidação da moeda que atendia a hegemonia produtiva: a supressão do dólar-ouro.
Segundo ponto: a construção de uma moeda financeira, o dólar papel, para substituir a precedente. O Estado dispôs o Banco Central, o FED, para definir a taxa de juro básica do mercado, e o Tesouro, para fornecer o título - títulos do Tesouro Americano - que possibilita o nível de valorização mínima da aplicação financeira. Acabam, assim, os dois órgãos do Estado, o FED e o Tesouro, por construir a função reserva de valor desta moeda. Também fica revelada a natureza da moeda que se instaura: o Estado garante.
Terceiro ponto: uma cisão na estrutura do Estado. Uma cisão entre o Estado dedicado a política monetária, financeira e fiscal – em resumo, a política macroeconômica de apoio as finanças – e o Estado dedicado aos demais aspectos da sociedade, salientando em primeiro lugar a guerra e o controle interno da sociedade.
Quarto ponto: o desgaste crescente da unidade do Estado nas questões financeiras. Uma das realidades importantes foi a criação de vários órgãos controladores (às vezes, embolando o nível federal, estadual e municipal) de setores financeiros: bolsa, seguros, setor imobiliário, etc. Ou, foi permitir que se estabelecesse o descontrole total, como no caso dos CDS onde a auto-regulação é absoluta. Tudo isso foi um torpedo das finanças no Estado.
Quinto ponto: a ocupação insustentável do Banco Central na posição de emprestador em última instância. No desempenho desta função, durante a crise, o FED teve que pedir auxílio ao Tesouro para poder absorver os títulos podres do sistema, através dos bail-outs e das linhas de liquidez. Em resumo: o Banco Central quebrou. E acredite, salvou-o, como se dizia na infância, o Rhum Creosotado. Aliás o Tesouro; logo, o Estado.
Sexto ponto: o crédito social como uma questão privada. O Estado não estabelece a direção dos empréstimos porque ele, sob a iniciativa das finanças, é submetido fortemente ao critério da máxima rendabilidade. Não há prioridades estratégicas do Estado para os empréstimos e os recursos para aplicações são atraídos pela instantaneidade valorativa do mercado financeiro. As alocações são vertidas para o curto prazo.
Sétimo ponto: a construção de um Estado financeiro. O Estado fica, por conseqüência da lógica econômica presenste, nas mãos das finanças, facilitando as necessidades e os objetivos desta. E fica a serviço inclusive da integridade do capital financeiro, no detrimento da sociedade como um todo. Vejam-se na composição dos bail-outs o que foi doado às finanças, à produção, e aos consumidores. (Aqui não podemos nem falar em cidadãos, pois esta “categoria” não influenciou nas decisões dos pacotes salvadores).
Oitavo ponto: o surgimento da “governança corporativa”. Toda a política de organização das corporações foi submetida à “governança corporativa” porque alisou as pretensões contraditórias dos financistas e dos acionistas, financeirizando toda a corporação, desde os seus objetivos, as suas metas, até a remuneração e a previdência de seus funcionários. Neste último aspecto o Estado deixou que a regulação e o cumprimento de uma política social funcionassem como uma janela de valorização do setor privado.
Nono ponto: o setor público como espaço ampliado de valorização do capital. O financiamento, os títulos e a dívida do governo estão igualmente à serviço das finanças, seja como fonte segura de suas aplicações, seja como a busca de recursos que o Estado traz do mercado financeiro para a salvação de diversos capitais do próprio sistema.

Décimo ponto: a ameaça das finanças às contas internas e externas do governo. Obviamente, esta ameaça depende do grau de ousadia dos capitais; da corrupção e da competência do Executivo, do Legislativo e do Judiciário; e do convencimento (via a indústria da mídia), do poder estatal e da sociedade para o uso do Estado em favor da área privada.
Décimo primeiro ponto: a pressão do Estado para o controle da inflação mundial. As finanças utilizaram o governo dos Estados Unidos e instituições para-nacionais, como o FMI e o Banco Mundial - via ajustes, planos, programas – para forçarem os Estados de diversos países a efetuar um controle inflacionário, com o objetivo de assegurar horizontes de cálculo para a valorização das aplicações e especulações da área financeira do capital.
Décimo segundo ponto: os capitais requerem a proteção do Estado contra eles próprios. As finanças concordam que deve haver um mecanismo básico de proteção contra o caráter auto-destruidor da natureza especulativa do capital. E aí o Estado serve. E serve para salvar a concorrência intercapitalista do risco sistêmico.
Décimo terceiro ponto: a competição dos capitais privados com o Estado pelo poder e pela regulação. No processo atual, as instituições chamadas “to big to tail” (“muito grandes para falir”) passam a afrontar o Estado no sentido regulatório, ou no sentido auto-desregulatorio. E com isso ameaçam a coesão unitária do Estado, produzindo, no mínimo, um nível elevado de imposição de suas políticas.
Décimo quarto ponto: as finanças ameaçam a moeda. Os capitais financeiros fazem e jogam na falência da solidez de uma moeda, como um dia fez Soros contra a Inglaterra.
Décimo quinto ponto: a busca de preservação do Estado por causa do tipo de movimentação das finanças. As nações (e os Estados) são ameaçadas pela especulação das finanças e ficam numa dupla situação: de um lado, são sustentadores político-econômicos da continuidade da existência das corporações financeiras; e de outro lado, terminam na dependência, em diversas ocasiões, do crédito privado, porque também se caracterizam como um dos locus de aplicação e fonte de rentabilidade dos capitais da área em pauta. Com isso, os países são internamente constrangidos pelas ações desbragadas e especulativas dos capitais privados. Não há dúvidas, a par das euforias, as finanças tem no seu âmago uma vocação explosiva E se os Estados, governados por um combinação política de classes, não tomarem a precaução de se preservar da competição feroz e destruidora dos capitais, eles terminam por implodir. Pois, o conflito é o rei da economia e da política.

A CRISE FINANCEIRA VAI DESCENDO O RIO

Tudo isso tem a finalidade de mostrar como a crise atual se desdobra do mercado financeiro para o sistema financeiro; do sistema financeiro para o Banco Central, do Banco Central para o Tesouro, do Tesouro para o Estado. E, assim, hoje, com o excessivo endividamento dos Estados Unidos, com as crises anunciadas e efetivas da Grécia, da Espanha, da Itália, da Irlanda, estamos sentindo um cheiro de um segundo tempo: o tempo da crise fiscal. Com isso nos aproximamos de uma crise social e de uma crise monetária. Ou seja, estamos passando da crise dos setores privados para o setor público. E no centro da questão está o Estado, seja na sua relação com o referido setor privado, seja na sua relação consigo próprio, seja na sua relação com a sociedade civil. Pois, neste jogo, emerge uma diferença aguda. Uma diferença entre um Estado com unidade precária e crédito geralmente privado como os Estados Unidos, a Europa e seus países, e um Estado com unidade razoavelmente consistente, com crédito centralizado, como o da China. Por essa razão, é razoável dizer que o futuro do capitalismo sairá destas questões apontadas neste texto. E que envolvem o atual desenvolvimento da crise, do desdobramento do que estamos chamando de crise do segundo tempo, onde o segredo estará no resultado dos múltiplos confrontos sociais que existirão entre o capital financeiro e a sociedade. Combate que se expressará na definição de um Estado, resultante da trajetória dialética do Estado e do Capital.

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Matt Taibbi mostra como a próxima grande crise financeira está em processo

Matt Taibbi é um jornalista que se notabilizou por ter realizado um retrato extremamente crítico das atividades da Goldman Sachs na revista Rolling Stone no auge da crise financeira. É interessante pois ele populariza e mostra a importância para o cidadão comum de temas que são usualmente maltratados (propositalmente) pela mídia oficial. Taibi volta agora com novo artigo que basicamente se pergunta o seguinte: de onde estão vindo os lucros dos bancos norte-americanos, em particular da Goldman Sachs? E chega a uma conclusão: eles não aprenderam nada coma crise da qual foram salvos pela intervenção do Estado e estão manufaturando um desastre ainda maior.

Interessante, pois mostra que o monolítico sistema de proteção às versões financeiras oficiais não existe mais nos EUA e que o ressentimento contra os banqueiros aumenta.

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quinta-feira, fevereiro 18, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: A crise acabou... de recomeçar!

O impressionante na crise financeira é como ela segue os rumos lógicos previamente estabelecidos depois que sua dinâmica se delineou claramente. A crise imobiliária de 2006-2007 se transmutou em agosto daquele ano em crise financeira. Nada mais lógico e evidente. Aqueles que acreditaram no "está contido aos financiadores do subprime" pagaram o histórico mico de demonstrarem em público toda sua ignorância sobre a natureza sistêmica subjacente ao funcionamento do sistema financeiro globalizado (pior que dentre estes estava Ben Bernanke... mas ele logo se deu conta do equívoco, a bem da verdade...).
Um ano depois, a crise financeira se metamorfoseou em crise econômica, com quedas records no pós-guerra na produção industrial e no comércio internacional mundiais. Óbvio, mais uma vez. Para evitar um encadeamento destruidor ainda mais nefasto entre finança e economia, o bombeiro Estado entrou em campo com toda a água disponível. Fez efeito parcialmente, o incêndio parou de se alastrar e alguns pontos chamuscados foram recuperados. Mas, obviamente o fogo permaneceu aceso. Como a capacidade dos Estados para ir além e possibilitar novas bases para o crescimento estava solapada pela dimensão dos gastos realizados para evitar uma queda na depressão generalizada, era evidente que se veriam confrontados com demandas crescentes e receitas diminuídas pela queda na atividade econômica. Sua situação fiscal se deterioraria inexoravelmente, e, mais cedo ou mais tarde, isso levaria a uma ameaça de crise fiscal generalizada.
Aqui estamos. Tudo como previsto, tudo evidente, tudo óbvio. Iremos para o caminho da crise fiscal e depois da crise monetária terminal? O filme é tão claro que sigo me recusando a acreditar que seja trilhado. Como bem coloca o Enéas, a solução é política. Mas, aqui entro eu, o problema também o é. Ou seja, desde o início nada de efetivo, de estruturalmente importante, foi ainda realizado. A situação se encaminha para um longo e lento desenrolar sem que se vislumbre nada capaz de alterar o rumo ao desastre que o óbvio nos aponta.
No início do ano se proclamava em altos brados: a crise acabou! Se disse isso em novembro de 2007, em março de 2008, e em grande parte de 2009. Mas a danada é insistente e como um monstro de filme "B" reaparece, mutante e fortalecida. E, tal qual no terror de quinta categoria, é tudo óbvio, é tudo evidente. Vejam as notícias mais populares das eeção de economia do Telegraph de hoje: a criação de crédito nos EUA bate records negativos, com o multiplicador monetário atingindo apenas 0,81; a União Europeia "pune" a Grécia restringindo sua soberania, impedindo-a de votar medidas que também a concernem e que entrarão em pauta no próximo mês, na maior humilhação já imposta a um estado-membro; Soros investe em ouro, ativo por ele mesmo chamado anteriormente de "a última bolha".
Podem dormir tranquilos, com notícias com esse conteúdo a crise, finalmente, acabou!
Links relacionados:

http://www.telegraph.co.uk/finance/financetopics/financialcrisis/7252288/Greece-loses-EU-voting-power-in-blow-to-sovereignty.html
http://www.telegraph.co.uk/finance/economics/7259323/US-bank-lending-falls-at-fastest-rate-in-history.html
http://www.telegraph.co.uk/finance/personalfinance/investing/gold/7259161/George-Soros-buys-gold-despite-dubbing-it-ultimate-bubble.html