quinta-feira, abril 16, 2009

Quinta-feira, 16 de abril de 2009
OS LAÇOS DO CAPITAL
(ou a funcionalidade das finanças)
Por Enéas de Souza

A permanente desconfiança

A grande questão do sistema financeiro é política. A crise mostrou com clareza que esta forma de desenvolvimento do capital chegou ao seu limite. Mostrou que ela não tem perspectivas, mesmo quando os capitais que sobraram da grande luta das finanças gostariam de retornar aos bons tempos da especulação. Portanto, a grande questão política – de Obama, sobretudo – é como encarar o rosto petulante e nauseabundo dos delírios do mercado financeiro. Do ponto de vista econômico, esta forma se esgotou, porque não há alternativas visíveis para as finanças fazerem o que sempre fizeram. Não há mais possibilidades de manter o nível de alavancagem delirante dos últimos tempos, não há nenhuma viabilidade de manter a securitização e a multiplicação de produtos típica desta fase, não há possibilidade de retornar a essa articulação do setor produtivo e do setor financeiro via hipotecas imobiliárias. Este mundo congelou e o seu resultado é a paralisia do crédito, a desconfiança permanente dos banqueiros uns contra os outros, o credit crunch. Todos, na terra dos ativos financeiros, são bandidos e a liquidez não desliza. O rio das aplicações perdidas não anda, parece tudo flutuar num mundo de fantasmas. As finanças zumbi.

As questões douradas da crise

Existem duas perguntas fundamentais: 1) já atingiram a sua plena expressão as tendências declinantes da economia? 2) As condições para uma recuperação já estão dadas?

Choques que dão impressão de retomada

Vamos responder a primeira pergunta. As tendências declinantes ainda não completaram a sua queda. Pelo lado financeiro, o que há são manobras dos especuladores na bolsa para recuperarem as suas perdas, ao mesmo tempo, que procuram dar a impressão que tudo já está terminando. Veja o leitor, o esquema do capitalismo financeiro. As valorizações das empresas são dadas pelo mercado, através da bolsa. Então, forçar a bolsa para cima é uma forma de tentar manter o valor das corporações. Trata-se de oportunidades para realizar a recuperação de prejuízos e, não, como dizem os players da Bolsa, realização de lucros. O esquema não se recuperou. São apenas choques com a finalidade de dar a impressão de retomada. E porque a bolsa não se recupera sustentadamente? Primeiro, porque o mercado financeiro continua emperrado, o crédito não flui, muitos setores como os hedge funds e os fundos de pensões estão sofrendo percalços. Segundo, porque as atividades produtivas continuam em retração, as fábricas estão demitindo e a produção está em baixa. Portanto, no nível macro, o consumo continua descendo e o investimento não está se reanimando. Pelas observações aqui feitas, a órbita financeira, apesar dos espasmos da Bolsa, vai vestida de tendência declinante, e a órbita produtiva, prossegue em descer esvaziada ainda mais fortemente. Apesar de medidas do governo de trazer estímulos às obras públicas, aos gastos em saúde, educação, etc.

A insistência no decréscimo

Quanto à segunda pergunta, sobre as condições da recuperação, as questões são mais críticas. Primeiro, de fato, como escrevemos acima, o governo já está possibilitando um gás ao setor produtivo. Mas, uma economia quando se recupera, não se recupera na antiga direção. Ela é como o rio de Heráclito, está atravessando novas e novas águas. Ou seja, aponta para uma renovação profunda da estrutura produtiva da economia, um sinal de longo prazo. Precisamos ser claros: há uma primeira etapa que é deter e travar a queda da economia, fazer com que ela suspenda o ritmo da desaceleração, que se estabilize num ponto determinado; uma segunda etapa, que pode ser concomitante: injetar na economia recursos para que as forças de reversão estabeleçam algum ânimo e dinamizem abertamente os impulsos. A semente tem que fazer crescer os brotos para chegarmos aos frutos. O governo americano já está proporcionando, por intermédio do pacote fiscal, a sua partida. Assim, atendendo à primeira e à segunda perguntas feitas no início desta postagem, encontramos um conjunto de ameaças de desaceleração tanto na área financeira quanto na área produtiva, pois só há estímulos do Estado. Mas, o resultado das forças negativas e positivas tem evidenciado um saldo que ainda insiste em favor do decréscimo da economia.

As flores do longo prazo

Porém há um aspecto extremamente importante. É que uma economia capitalista não retorna à mesma navegação, ao mesmo curso. E aqui parece realmente a questão. A questão política - proposta na primeira linha do primeiro parágrafo. A economia financeira deseja apenas que se encontre um ponto de reversão para que ela retorne aos velhos tempos. Ou seja, há todo um processo que está atravancado, brutalizado, profundamente ferido: a alavancagem, a multiplicação de produtos, etc. que vão desembocar numa problemática muito mais funda. A questão, como o crepúsculo, é iminente: é possível retornar ao sistema anterior? Acho muito pouco provável. Então, me parece que as coisas se encaminham para dois outros pontos decisivos. De um lado, como é que o capitalismo vai combinar as suas duas órbitas, a financeira e a produtiva? Parece que, estrategicamente, o trabalho principal passa pela tentativa de parar a queda da economia e buscar e recomeçar a recuperação, inclinando o avião da expansão para uma nova realidade. Do meu ponto de vista, o governo americano sabe, Obama fala em qualquer reunião, qual é o rumo: mudar a estrutura produtiva de longo prazo. Esta estrutura precisa construir e atravessar duas mudanças: a base energética e a incorporação de novas tecnologias. Portanto, um revolver de terra que mal está semeando o terreno, há um longo processo de maturação dessas flores. Os jardins ainda vão ter que ser cuidados durante muito tempo para poder florir.

O polvo maldito e a resistência das finanças

Bem chegamos ao ponto crucial. Se a gente sabe para onde vai a economia produtiva, mesmo que a trajetória seja longa, o problema que emerge é o seguinte: o que fazer com as finanças? De cara, uma questão estrutural: qual será o papel das finanças nessa próxima fase do capitalismo? Isto quer dizer o seguinte: as finanças conduzirão o processo ou serão conduzidas por ele? Dito ainda de outra forma: continuará predominando para o mercado financeiro o papel especulativo sobre o papel funcional, aquele de prover crédito para a produção? E nesta altura da análise é que aparece a ostra da questão política. As finanças resistem a mudarem o seu perfil. Elas não resistem à função creditícia; o que elas resistem é deixar a função especulativa como a sua vocação principal. Elas amam a especulação, é todo o seu gozo, todo o seu coração. Ou seja, a função especulativa foi o núcleo móvel e crescente e altamente rendoso deste capitalismo centrado nas finanças. Mas este processo levou como conseqüência uma desarrumação jamais vista da economia desde a segunda guerra mundial. A depressão ainda não está afastada. E ela poderá, como um polvo maldito, ser o resultado dessa resistência das finanças às mudanças estruturais de uma nova economia capitalista. Assim, se a economia começa a ser postada para mudanças estruturais na esfera da produção, o lógico é que as finanças sejam acomodadas a cumprirem um novo papel, o de fornecer crédito, prioritariamente, para as atividades produtivas. Deixar de lado a sua auto-alimentação.

Não há como continuar

A conclusão que chegamos: decidida a nova estrutura de longo prazo da economia, o que sobra estrategicamente, é como resolver as questões estruturais das finanças. Assim, acredito que a questão financeira está mal posta. Pois, de um lado, as finanças não querem deixar de cumprir a função especulativa como ponto primordial de sua atividade. Querem o que eles chamam de “indústria financeira” (sic!): produzir dinheiro e papéis por meio da valorização de papéis. Mas, isto é óbvio, não há como continuar. Os próprios banqueiros e financistas desconfiam uns dos outros. E a economia produtiva não produz tanto lucro para alimentar o investimento na própria produção e para a aplicação no mercado financeiro. E, ao mesmo tempo, a poupança dos consumidores, numa época de crise, não encontraria recursos para muito além das transações normais; quando muito para precauções imediatas. Ou seja, a remuneração dos trabalhadores também não poderia ser financeirizada. Dito isso, retornamos à resistência dos financistas. Porque negar que há uma evidente necessidade de mudar o comportamento delas? Mesmo que continue a ser especulativa por resíduo, teria que haver uma profunda mudança. Caso contrário, o capital ficará prisioneiro das finanças zumbi, e não haverá a transformação do padrão de acumulação produtiva.

Ou será funcional ou não será

As mudanças são claramente visíveis: funções do banco central, atividades regulatórias consistindo na definição da amplitude e unificação da regulação; na constituição de um novo sistema financeiro (com a separação ou não das instituições financeiras bancárias e não-bancárias); na fiscalização e no estabelecimento de regras de alavancagem, das características das inovações dos produtos financeiros, da segurança das operações, das punições, etc.; na constituição de uma contabilidade para os diversos segmentos do setor financeiro que fosse adequada para o controle social – e não somente para esconder os problemas do próprio setor; etc. Com isso podemos verificar que esta armação terá que atender aos dois problemas propostos: a recuperação do sistema financeiro e a funcionalidade do sistema dentro da trajetória da economia. Talvez, as questões sejam extensas e a solução progressiva e longa, mas é indispensável que passe por três passos políticos: construir um poder capaz de levar as finanças, seja pela nacionalização ou não, a admitir que elas precisam ser reguladas pela sociedade e pelo Estado; segundo, que tem que haver a institucionalização de um novo sistema financeiro subordinado aos desejos e objetivos sociais; e terceiro, que elas tem que ser funcionais à economia – isto quer dizer; pôr à disposição da produção e dos consumidores, o crédito indispensável para a fabricação e circulação das mercadorias. E que nesta nova etapa do capitalismo, o poder político do capital vai destinar às finanças um papel fundamental, mas subordinado na renovação da estrutura produtiva. Será a única maneira de haver a metamorfose dos laços do capital.

quarta-feira, abril 15, 2009

Mais malandragem: Goldman Sachs muda o calendário e esquece as perdas de dezembro

A Goldman Sachs mudou seu calendário. Seu ano fiscal acabou em novembro. A partir daí, os relatórios contábeis passaram a utilizar o ano de 2009 como referência. A pergunta que fica quando eles reportaram o seu resultado no primeiro trimestre de 2009 é: onde foi parar dezembro de 2008?  Sim, ele está lá, escamoteado em diversas análises que reportam os resultados trimestre até março comparados aos resultados do trimestre até fevereiro. 

Em realidade, a Goldman Sachs estava focando nos resultados de março. E, convenientemente, esquecendo os resultados de dezembro. A criatividade dos caras não em limites...

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Produção industrial cai novamente nos EUA em março

Esperem um PIB do primeiro trimestre bastante ruim nos EUA, com a queda na produção industrial e no consumo bastante acentuadas no período.

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terça-feira, abril 14, 2009

Cingapura: -9% de crescimento do PIB em 2009

A economia de Cingapura deve cair 9% esse ano, conforme previsão do governo local. Quanto mais depednente e voltado ao comércio externo, maior a queda... É a desglobalização, meu amigo!

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Gráficos da Crise: vendas no varejo, EUA

HSBC: prejuízos em sua filial norte-americana

O HSBC está com problemas devido ao crescimento da inadimplência nos EUA. Os defaults em seus empréstimos realizados à consumidores norte-americanos por meio de cartões de crédito devem somar cerca de US$ 10 bilhões em 2009!

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Vendas do comércio caem nos EUA em março

Um verdadeiro balde de água fria no coro do "o pior já passou" que se repete a cada momento de calmaria na crise financeira. Como dissemos inúmeras vezes, a crise nesse momento é financeira e econômica, e elas estão se realimentando em um ciclo vicioso. assim o aumento no desmprego leva a uma queda ainda maior nas vendas, já prejudicadas pela necessidade forçada dos consumidores em aumentar sua poupança já que os mecanismos de extração de renda financeira em voga nas últimas três décadas, secaram ( processo de desalavancagem do consumidor). 

 Esse processo aumenta a inadimplência, o que reforça as perdas do sistema financeiro, embora os inúmeros mecanismos de maquiagem financeira utilizados e que escamoteiam a real situação dos bancos nos EUA.  quando isso aconteceu em outras economias, os EUA proveram a necessária demanda externa para evitar um desdobramento depressivo pela economia global. Nesse momento, quem pode prover essa demanda á economia norte-americana?

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domingo, abril 12, 2009

Mais sobre Credit Default Swaps, por Satyajit Das

"The unpalatable reality that very few, self interested industry participants are prepared to admit is that much of what passed for financial innovation was specifically designed to conceal risk, obfuscate investors and reduce transparency. The process was entirely deliberate. Efficiency and transparency are not consistent with the high profit margins that are much sought after on Wall Street. Financial products need to be opaque and priced inefficiently to produce excessive profits or economic rents. "
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Nos EUA, shoppings em dificuldade estão fechando as portas

Interesante artigo mostra a decadência da "cultura shopping" nos EUA, um fenômeno que se iniciou ainda antes do recrudescimento da crise e que se intensifica com ela. O público está canado dos grandes espaços e da perda de tempo que significa andar pelo shopping. O problema é que a falência de um shopping pode siginificar graves problemas pra uma cidade.
Já pensaram em um imenso shopping abandonado como "lixo urbano"?
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Situação política na Tailândia acaba com cúpula asiática e governo decreta estado de emergência

Protestos na Tailândia impediram a continuidade da cúpula asiática naquele país e forçaram o governo a decretar estado de emergência. A situação no país é definida como caótica pelo Financial Times.
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sábado, abril 11, 2009

Mais sobre o estado lamentável dos conhecimentos "científicos" da macroeconomia contemporâna

Frequentemente escrevemos sobre a destruição dos conhecimentos "científicos" que imputam aos incautos em nossas faculdades sob o nome de macroeconomia. Diversas gerações, após meados dos anos 1980, não aprenderam nada de realmente útil, os manuais são um lixo e o estado da disciplina é lamentável. Agora vem uma crise e a religião mostra seus pés de barro... Diversos analistas e comentaristas têm se dado conta dessa realidade. 

Mas, uma teoria não cai por que é falha e ineficaz, ela é substituída por que outra mais adequada ao novo consenso aparece... 

A macroeconomia a partir dos anos 1980 é um caso incrível, pois ela é uma involução frente ao estado anterior do conhecimento. Mas que foi funcional para os mais ricos dos ricos, ah, isso foi... E o que é a economia no capitalismo senão uma justificativa "científica" para o agravamento das injustiças, desde que lucrativa?  

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Gráficos da Crise: inadimplência nos contratos securitizados de hipotecas comerciais (EUA)

Gráficos da Crise: queda nas importações dos EUA e da China (média móvel, 3 meses)

Esperem uma enorme volatilidade nos mercados de capitais

Excelente artigo nos mostra que a desalavancagem atinge de forma consistente os chamandos fundos quantativos de hedge, ou seja, aqueles que baseiam sua operação em ordens de  compras e de  vendas dadas por modelos e operadas automaticamente. Isso é importante por que grande parte das operações em bolsa são realizadas a partir desses comandos.  

A redução no volume de operações tem permitido uma grande manipulação nos mercados recentemnte, sem que a liquidez efetiva tenha voltado. Ao contrário, ela está secando. Nessas circunstências, na medida em que a relaidade se imponha e as profecias auto-realizadoras deixem de funcionar, o mercado acionário estará cada vez mais propício a enormes reviravoltas, tanto para cima quanto para baixo, dada a escassez progressiva de liquidez e a saída de agentes cada vez mais importantes do mercado. Com isso, os custos de realização das transações e expulsam cada vez um maior número de participante do mercado. 

Sem dúvida, os bagholders finais  serão os peixes miúdos, com suas esperanças de neriquecimento fácil estimuladas mpor uma mídia financeira irresponsável e, por vezes, criminosa.

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A força da internet: Goldman Sachs processa blogger

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quinta-feira, abril 09, 2009

Pensar o impensável: o fim da independência do Banco Central da Islândia

Os Bancos Centrais nunca são independentes. A noção de independência do banco central é tão válida quanto o é aquela de uma cobertura "neutra" de parte da imprensa de qualquer evento. É uma impossibilidade prática, Quando se fala em independência do banco central, isso é um eufemismo para torná-los menos influenciados politicamente pelos governos... mas a contrapartida é uma influência maior dos"mercados", ou seja, dos bancos regulados (dos maiores deles, para ser mais preciso). É ideologia e poder político e financeiro travestidos em teoria econômica (má teoria, aliás, que deu naquilo que estamos assistindo agora). Em outra seara, o presodente Lula ontem tomou medoda exemplar e necessária, demitindo o recalcitrante presidente do Banco do Brasil que não queria baixar o spreado bancário. O Eneás tem um artigo exemplar e demolidor sobre esse besteirol de independência dos bancos centrais no livro "O Brasil frente à ditadura do capital financeiro" que eu organizei junto com a Carla.
A Islãndia era reconhecidamente um dos países politicamente mais influenciadospor essasidéias absurdas. Com a crise, o país do gelo derreteu. Agora, é o primeiro a renunciar a essa falácia. Por lá, maior poder ao mercado financeiro frente ao Estado virou palavrão. Gato escaldado tem medo de água fria. Sinal dos tempos.
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Crise e as soluções mágicas: a volta do padrão-ouro

Em tempos de crise, ninguémm sabe ao certo para nde se voltar. Uma prova é o debate que vem a luz hoje no Financial Times, onde a influente e bem-informada Gillian Tett repercute a possibilidade de uma volta a "algum tipo de padrão-ouro". O artigo mostra acertadamente que a devinculação do dólar ao ouro em 1971 possibilitou um avanço quase infinito do crédito, "financeirizando" completamente a economia mundial.
Não há dúvidas quanto a isso. E não há dúvidas de que a criação de algum lastro monetário colocaria uma "base" para a expanão financeira. Mas traria duas consequências: se aplicada hoje, a medida traria uma deflação e uma depressão econômica bastante maiores do que a de 1930. Em segundo lugar, o que todos sempre esquecem, é que as decisões quanto ao sistema monetário internacional sãoapenas (se tanto) 10% economia. A questão é puramente política. Como seformaria e quem controlaria esa nova moeda de reserva lastreada em ouro? Dado o poder dos EUA, reafirmado de forma passiva no G-20 agora há pouco, o debate parece sem fundamento no momento. A história não retorna e as soluções dopassado são... passadas. A mudança virá somente se (e quando) o dólar for mais seriamente questionado.
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Quinta-feira, 9 de abril de 2009

O PUNHAL DO DESAFIO
(ou a estratégia política de Obama)

As areias do sol queimando

O caminho para a renovação do poder americano começa pela sua liderança. E ela vem com uma mudança de tom e com uma mudança de objetivos. Curiosamente, depois de uma presidência tosca, grotesca e truculenta socialmente, os Estados Unidos transformaram o seu rumo, desenhando um comando diferente. Naturalmente que em política, não existe apenas uma cor, existe um espectro de cores, o que significa que não só se travam disputas, como emergem contrastes e brotam-se diferenças, neste jogo entre vários competidores. O que interessa marcar aqui é a novidade estratégica dos americanos. Num primeiro sentido, a América do Norte, quando Obama entra em cena, atravessa uma arena muito complicada. Seguir na estrada proposta por Bush e Cheney e pelo neoliberalismo era seguir para um deserto, pleno de areia, adornado por montanhas pedregosas no horizonte, e um sol de chapa queimando, um verdadeiro campo explosivo.

A fenda e a operação

Pois, a questão objetiva, quando Obama adentra ao teatro político, se mostra e se passa assim: uma crise econômica de uma vastidão impensável - descalabro financeiro e esgotamento de um padrão de acumulação produtiva - acompanhada de uma devastadora crise da política externa. Resultado mais que óbvio, de um poder imperial que tinha se imolado na guerra contra o terrorismo, na guerra contra o Iraque, na desconfiança geral dos países e numa descrença manifesta quanto a sua capacidade de liderar a sociedade ocidental. Os Estados Unidos estavam isolados e perdidos. A vitória de Obama foi a chance que os americanos se deram a si mesmo para tentar uma transformação. O ato final da administração Bush principiou com a crise do sub-prime, um furacão que atravessou a América e desdobrou seus efeitos e pôs a nação desnuda, revelando as suas contradições desde os problemas econômicos e políticos até as questões culturais e civilizacionais. Não há mais dúvida nenhuma, houve uma fenda que se abriu em abismo no coração do gigante do Norte.

O lance para deter o ponto irreversível

Agora, com a viagem de Obama a Europa, houve o primeiro lance. E já se pode ver que há um novo Estados Unidos em ação. Houve o disparo de uma primeira idéia estratégica. O ponto chave foi recuar de sua pretensão imperial via guerra e finanças. Com isso, a tensão criada no sistema, que estava muito alta e poderia chegar a um ponto virtualmente perigoso e ameaçante para a nação americana, teria que diminuir para não atingir um ponto irreversível. Então, o primeiro objetivo dos Estados Unidos para transformar o império foi um lance (1) que mudasse o estado do jogo entre as nações; (2) e que estabelecesse proposições que fossem o oposto do que estava acontecendo: em vez de guerra, desarmamento e paz; em vez de especulação, tecnologia e produção; em vez de crise de energia; pesquisa energética; em vez de aquecimento global; luta contra a questão climática. Foi nesse lance que começou a reversão do quadro internacional.

O símbolo e a máscara

Como se vê, foram propostas feitas em perspectiva, abrindo itinerários, avenidas e trajetórias de longo alcance, e que não serão operacionalizadas sem obstáculos, sem adversidades e sem adversários. Mas, o lance de Obama se dá e se constrói a partir do símbolo. Ele próprio, Obama, é a mudança. Antes de tudo porque é o primeiro negro a ganhar a presidência da nação. Na verdade, o vencedor é um mestiço onde está incluída uma herança muçulmana. No entanto, existem mais dois aspectos significantes que dão amparo ao caráter simbólico de sua presença no cenário político: contra as finanças, no discurso no Congresso em fevereiro, revela um projeto de longo prazo para a economia dos Estados Unidos. Este discurso encadeia, ao lado de outros discursos, de diversas ações, de múltiplas negociações e tantas proposições, um estilo que tem como objetivo assegurar que o líder e a liderança dos Estados Unidos mudaram. A finalidade é tirar a mascara do medo e da prepotência e pôr no seu lugar o rosto da confiança, da sensibilidade e da escuta. A liderança pela sua própria aparição tem a ambição de ser uma nova figura, um símbolo para detonar a máscara.

O Clausewitz da paz

O que Obama representa e o que ele quer? Ele representa a visão liberal que volta a aparecer historicamente para tentar romper com a imagem guerreira introduzida acintosamente por George Bush, uma imagem guerreira desastrada, uma liderança avessa ao debate e às discussões, um comando de pura imposição da força. Ou seja, Obama traz a tentativa de construir a imagem de um império, no sentido contrário, que nasça da negociação, da riqueza benevolente e da tentativa de harmonia. Porém, ele surge no bojo de uma renovação da própria força do império, que pretende reconstruir um capitalismo baseado numa outra forma produtiva, que deixa espaço para as finanças, mas que quer um sistema financeiro mais controlado, mais a serviço do crédito do que da especulação. Pretende trocar um capitalismo “hard” para um capitalismo “soft”, se isto for possível, superando a guerra como o elemento básico, deixando espaço para a dinâmica da paz. Por essa razão, diríamos, fazendo um jogo de palavras, que os Estados Unidos nos propõe, pensando em Clausewitz, que se a guerra é uma forma de política, vamos para a paz como uma forma de guerra e, por consequência, uma forma de política.

O real e a utopia

A estratégia do novo presidente é fazer um deslocamento do movimento bélico do Iraque para o Afeganistão e, com isso, ir arrebanhando o apoio da Europa. E visa paralelamente conseguir uma diminuição da tensão com o Irã, embora sem ceder na questão do escudo nuclear. Com essa lógica, trata de mudar a inflexão no mundo muçulmano, afirmando que os Estados Unidos não estão nem estarão em guerra contra o Islã. Faz assim uma ação propositiva de acabar com a idéia conservadora e quase ridícula da “guerra das civilizações”, por consequência abrindo também a perspectiva de um relacionamento novo entre Israel e Palestina, etc. Contudo há uma nuance a estabelecer no presente tema. Além do deslocamento da guerra ao terrorismo para o Afeganistão, concentrando o ponto de frontal antagonismo, ao mesmo tempo, investe na idéia principal de sua estratégia política: inverter o tema da guerra pelo da paz, lançando, sobretudo, a estratégia do desarmamento. Com rigor, Obama faz um lance oposto ao normal dos últimos anos dos Estados Unidos. Ao contrário de exigir que os adversários abram mão de seu arsenal atômico, os Estados Unidos giram o jogo e dão o exemplo: eles se propõem abrir mão de suas armas. Este lance começou em Londres com a Rússia, na tentativa de diminuir o arsenal nuclear. O método de Obama é combinar um movimento real com uma utopia geral pela paz. Com isso alimenta um conteúdo moral na sua liderança e abre o jogo na direção de um apaziguamento das tensões. Todo este aspecto da sua estratégia não será feito sem discordâncias, sem combates, sem desconfianças, e talvez não sem turbulências imprevistas.

A racionalidade para domesticar

Então, a racionalidade do jogo de Obama começa efetivamente com essa carta da paz, essa carta do desarmamento. Diante dos impasses políticos de toda ordem dos Estados Unidos, o que se evidenciou nesta conjuntura é que ele deve voltar ao caminho da utopia liberal e a designação da paz como forma de vida entre as nações. Trata-se de uma maneira de mudar a sua liderança e o seu poder, com um objetivo substancial de conseguir tempo para que possa – um dos pontos reais de sua crise - domesticar as finanças, abrindo espaço para a reconstrução produtiva do planeta. Pois o embrulho americano foi total, o neoliberalismo levou esse navio para um impasse econômico e para um impasse político, para o desgoverno das finanças e para a desorganização política da guerra. Pois se o oposto é o que vai ser tentado, a paz e a produção, nesta mesma mudança, se poderá perceber os adversários internos de Obama, aqueles que se filiaram ao governo Bush, a indústria financeira, a indústria bélica e a indústria de construção civil com base na guerra. Esses grupos em processo de derrota vão responder fustigando de uma forma ou de outra. Cheney, por exemplo, já disse que os americanos não estão protegidos contra o terrorismo. E no plano da competição entre as nações, não podemos esquecer que se ninguém tem poder para enfrentar os Estados Unidos, há, no entanto, a necessidade de definir um novo mosaico de relações internacionais. Nessas relações se cruzam aspectos políticos e aspectos econômicos, constituindo um panorama que vai mudar a antiga configuração da disputa entre as nações. (Um exemplo desta “corrida imperialista”, como chama José Luís Fiori, é, dada a crise das finanças americanas, o avanço financeiro da China acertando swaps com a Argentina e instalando uma filial de um banco chinês na cidade de São Paulo).

A dialética do poder e do capital

Desta forma, a estratégia de Obama é muito nítida: desfraldar a campanha do desarmamento e da paz para obter um determinado tempo, com o fim de reformular as atividades econômicas, re-encaminhar as finanças, reorganizar o curto prazo produtivo e lançar um novo projeto de um outro padrão de acumulação. Mas, para modificar e expandir o poder americano é preciso torcer o objetivo da política externa e angariar condições para a construção de uma nova economia. E esta economia, de volta, poderá confirmar a renovação deste poder. É uma tarefa que para ter êxito há que articular bem a estratégia política e a estratégia econômica, armando uma dialética muito fina e muito firme entre o curto e o longo prazo. É dela, desta dialética, que nós poderemos julgar se os trabalhos de Obama vão, de fato, construir uma nova liderança, um novo capitalismo e um novo poder americano. Aqui está o punhal do desafio.

quarta-feira, abril 08, 2009

Quarta-feira, 8 de abril de 2009

O OCULTO E O VISÍVEL
(ou a estratégia econômica de Obama)
Por Enéas de Souza

O vento das incertezas

Para pensar a estratégia de Obama é preciso fazer duas coisas: primeiro, perceber que ele está querendo muito ser um grande presidente, porque ele é o presidente de uma transição econômica fundamental. E para tal é preciso que tenha, e esta é a segunda coisa, uma estratégia. E uma estratégia muito bem pensada, ampla, firme e vigorosa, mas uma estratégia que esteja sujeita às variações táticas em função das adversidades e dos adversários. E pensar a estratégia de Obama é uma questão decisiva tanto para os aliados quanto para os adversários. Só que, neste ponto e neste momento, não podemos ter certezas, porque muito discurso, diversas idéias, algumas ações nos dão apenas sinais muito precários, muito iniciais e razoavelmente diáfanos dos seus objetivos. Não se pode negar que há algo mais importante do que está visível, é aquilo que está envolto no oculto, algo que se vislumbra no escuro. E o que não aparece, mas que está grudado e encoberto pela luz, é aquilo que temos que supor, é o pulo do gato, e que, no atual correr do vento, está pleno de incertezas.

A visão e o norte

À primeira vista, a impressão que se tem é que Obama tem uma visão da totalidade. Ele sabe que um ato feito num ponto do sistema afeta os demais pontos e que há uma interconexão entre os elementos que estão em jogo. Em segundo lugar, parece que Obama tem um norte que vai ficando mais nítido à medida que os lances são jogados, como um rosto de um desenho que um artista está fazendo. E combinando os atos e a possível totalidade pensada por Obama, podemos esclarecer tanto o que está na luz como o que está na sombra dos seus gestos estratégicos.

Existem rumos para a mudança?

Nesse sentido vamos fazer um primeiro retrato, um primeiro esboço de sua estratégia. Diremos que a sua visão geral parte da necessidade de uma mudança no capitalismo e do poder americano. Vamos analisar hoje, especificamente, a mudança econômica, embora ela esteja acoplada com a questão do poder nacional. Elas são duas realidades interligadas, mas para efeito de análise, vamos discuti-las por partes. Queremos tratar, em primeiro lugar, da transformação do capitalismo. E o que importa para Obama, é sairmos desse capitalismo financeiro predador e que está abraçado com a guerra. Quer desfazer este enlace de morte. E quer re-posicionar as finanças, levá-la de um exclusivo setor especulativo para um setor disposto a fornecer crédito para o desenvolvimento produtivo da sociedade. Só que há um terrível obstáculo: a produção está atravessando uma crise tecnológica impressionante, envolvendo a questão energética, a questão ambiental, a renovação tecnológica de inúmeras indústrias, como a automobilística, etc. O que Obama pretende, então, para dar início à nova dinâmica econômica, é posicionar a economia para o longo prazo. E neste posicionamento vem uma enxurrada de problemas: o que fazer no curto prazo? Como financiar a pesquisa tecnológica? Qual o tempo de duração destas pesquisas? Como relacionar o curto e o longo prazo? Para que tal aconteça, Obama está disposto a fazer o Estado cumprir o seu papel. E tentar novas alianças setor público-setor privado, produção e trabalho, que estavam fora de questão na hegemonia das finanças.

A pedra no roubo

E é aí que surge a grande interrogação: como atuar com as finanças? Este setor é altamente poderoso, tem um sistema perverso de lucratividade, manda em toda a parte, desregulamenta o que pode e, ainda assim, burla as poucas regras que existem. Trata-se, até agora, de um setor totalmente fora de controle. E mais, Obama tendo, no seu elenco de atores, dois prêmios Nobel, Krugman e Stiglitz, não pode deixar de contar com o grupo dos “financistas”, Geithner e Summers, e o presidente do FED, Bernanke. As finanças estão como ostras encravadas nas pedras do Estado. Obama, mais cercado impossível. E, assim, se “financistas” dizem A e os outros, dizem B, se Geithner diz que o seu plano é dez, os outros – Stiglitz, por exemplo – diz que o plano não é zero, é pior, é um roubo; Obama, dado o maior poder das finanças, opta por aqueles que dizem A. Apenas bota uma pequena pedra, um grão de areia no sapato e decide que os executivos dos bancos ajudados pelo governo não podem ganhar essas fábulas que Wall Street paga. Essa decisão foi uma navalha afiada e uma cisão importante no grupo especulativo.

A corda

Bem, qual é mesmo a estratégia de Obama? Ele tem uma visão de longo prazo centrado na produção; e busca ajustar as finanças a esta dinâmica. Sem ser contra os bancos, pensa que o capitalismo tem que ser produtivo antes de tudo. Mas como reverter as finanças do seu antigo projeto, de financeirização de toda a economia? Só pelo controle do Estado. E como chegar a este objetivo? Parece que o lance de Obama aqui é o seguinte: dar corda para as finanças. Deixar que ela se arranje ou mostre a sua inviabilidade. E aí, Obama deve ter um cálculo, pois não há estratégia sem cálculo. É preciso, então, em primeiro lugar, dizer até quando, mas principalmente até quanto o Estado vai ficar nas mãos das finanças. Ou seja, deve ter claro até que ponto pode ir a estratégia de Geithner, seja em termos de dinheiro, seja em termos de resultados, seja em termos de tempo. O André Scherer publicou ontem, aqui no Econobrasil, que a estimativa do FMI para o custo da crise é de 4 trilhões. Roubini falava em 3,6 tri. Logo, se isto for certo, o plano de Geithner não vai chegar até o gol, fica no meio de campo e, talvez, até a bola vá para fora, vá para a lateral. O problema, então, para os analistas, é ter certeza que dar corda para Geithner é, de fato, a estratégia de Obama, e que ela é uma estratégia correta. Se assim for, cabe pensar com a cabeça dele e responder até quanto vai custar e até quando vai durar a chance. Obviamente que está embutida a pergunta: quem vai ganhar E quem vai perder? O plano de Geithner (e de Summers, como dizem alguns) vai dar dinheiro para os banqueiros. Eles vão ganhar política e economicamente o que perderam financeiramente. A nós, nos parece que este é o jogo do presidente americano, dar corda para que se evidencie socialmente que a solução é outra. Pois só desta maneira o Estado – e ele como presidente – podem tentar sair do cerco em que estão metidos.

No fim do túnel, só perguntas

A estratégia de Obama na área econômica supõe, portanto, uma espera dupla: uma espera para que as finanças se arranjem, uma espera para que produção se reorganize e vá na direção do longo prazo. E Obama confia que estas esperas possam ser regradas pelo Estado. E aí os leques e os trunfos são muitos: ajuda financeira, financiamento de pesquisa, apoio aos trabalhadores: saúde, educação, ajuda nas moratórias habitacionais, etc. Mas, se isto está visível, tem muito mais coisa no oculto: qual a posição do sistema financeiro neste novo projeto? Qual a segurança que vão conseguir os trabalhadores em termos de aposentadoria e de melhorias sociais? Qual será a possibilidade de competição nacional e internacional da indústria americana? Qual o projeto de expansão da economia dos Estados Unidos no quadro internacional? Como será realizado o comércio entre os países do mundo? Qual o papel das finanças neste comércio?

A paz e o tempo

Então, o que se pode ver é que Obama vai ter que fazer um jogo complexo, sair de uma economia financeirizada para uma economia produtiva. Vai ter que alterar os termos do contrato social e político; vai ter que se afastar de uma economia baseada nas finanças, na guerra e nas novas tecnologias de comunicação e informação para tentar a construir uma economia sustentada na infra-estrutura energética, nas novas tecnologias dos múltiplos setores industriais, além da expansão de outras tecnologias de comunicação e informação. E é neste modelo que vão ter que se encaixar as finanças. Mas, atenção, este reposicionamento vai ser feito durante um processo de reformulação do poder americano no mundo, abrindo espaço para uma política de paz, talvez a única forma de assegurar um tempo para a renovação da economia produtiva e financeira americana.

terça-feira, abril 07, 2009

Nova estimativa de custo da crise: US$ 4 trilhões

As estimativas quanto ao custo da crise seguem crescendo. Quem não se lembra que o FED ao início da crise, estimava seu custo entre US$ 100 e US$ 250 bilhões? Quem não se lembra que Roubini foi chamado de apocalíptico ao avançar o número mágico de US$ 1 trilhão em meados do ano passado?

 De lá para cá, com a deterioração econômica, os custos estimados aumentaram e hoje passa batido o novo relatório do FMI a ser publicado em 21 de abril e  que estima, segundo o Times de Londres,  em US$ 4 trilhões o csto fiscal da salvação do sistema financeiro global!

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Terça-feira, 7 de abril de 2009

A COLHEITA DE OBAMA
Por Enéas de Souza


Olhando-se a viagem de Obama cabe perceber alguns pontos para o seu currículo, alguns aspectos que marcaram a sua passagem pela Europa. Uma semana de grandes atividades.

Primeiro: personalidades e mares diferentes

Obama mostrou ao mundo que os Estados Unidos têm uma nova liderança. Uma liderança diferente daquela de Bush. Os dois são mares de natureza diferente. Um é um mar cheio de pedra, multidão de ouriços, uma quantidade enorme de tubarões à solta, mar paradoxalmente raso, mar escuro, sombrio e soturno. O outro não; é um mar onde não tem apenas o rumor das ondas escalpeladas, é um mar que dá para velejar, é um mar onde se pode praticar a pesca submarina, e é um mar que tem naturalmente tubarões, quem sabe tem a astúcia dos polvos, e tem – tem, sim - baleias e golfinhos também. E tem um sorriso que se quer franco. Ou seja, Obama é uma liderança de outra espécie. O seu sucesso talvez não venha somente da sua personalidade, mas talvez venha, sobretudo, do contraste com a presença de oito anos de Bush. A presidência deste foi tão desastrosa, tão arrogante, que as pessoas, os presidentes e os primeiros ministros, surpresos, não queriam acreditar que estavam diante de um cara simpático, que joga, mas que tem franqueza. Obama conquistou o mundo com a sua maneira de ser: simpática, humilde, de escuta, de proposição conjunta, sendo flexível quando necessário e firme quando indispensável. Esta foi a sua primeira colheita, a das uvas, que pode dar vinho de boa qualidade. Pode; não quer dizer que vai dar. Existem muitos temporais ameaçando as parreiras. E um país não é apenas a personalidade de seu presidente; um país como dizia o ex-secretário de Estado John Foster Dulles, tem exclusivamente interesses.

O balaio de frutas estratégicas

Obama mostrou que existe uma nova estratégia no campo geopolítico: retomar e refazer a liderança americana, fortalecendo o poder através de uma estratégia distinta do governo anterior. Este é o seu claro objetivo. Obama não pertence àquela linha totalitária de Bush, cujas motivações eram: guerra, petróleo e obras públicas para os grandes empreiteiros; uma combinação de fanatismo religioso e de fanfarra patrioteira; e auto-endeusamento de um país messiânico e guerreiro. Obama é um liberal à americana. Defensor do capitalismo, sim; sustenta que o mundo deve ter uma liderança americana também, mas esta liderança tem que vir por méritos e pela tradição do país.

E foi neste campo geopolítico – uma estratégia de desarmamento nuclear e de paz – que Obama tomou medidas, cujos produtos foram para o seu cesto de frutas. Verifica-se, então: (1) uma busca de segurança, de controle e diminuição do arsenal nuclear, bem como igualmente de controle dos materiais nucleares que podem chegar às mãos de terroristas; (2) uma mudança da guerra contra o terrorismo, deslocando o foco do Iraque para o Afeganistão. Vantagens: torna a luta mais nítida; e no Afeganistão entram em foco os talibans, o lugar e os treinamentos do Al-Qaeda e a terra onde viveria Osama Bin-Laden; (3) uma orientação política de combate que fixa uma realidade para o enfrentamento com os adversários. E faz deste enfrentamento, não somente uma luta militar, mas também simbólica; o que permite a adesão da Europa e dos aliados dos americanos. Anula, com isso, o disfarce da guerra do governo Bush, cujo verdadeiro objetivo era uma ação predatória sobre o petróleo (medida cujo peso pode ser observado pela tentativa de Obama de centrar as pesquisas tecnológicas em outro tipo de energia); (4) um chamamento da Europa, via OTAN, para esta guerra no Afeganistão, agora, com um gosto mais palatável. (5) uma promessa de liderar a luta contra os problemas climáticos já na reunião de Copenhague; (6) uma declaração de paz diante dos muçulmanos: os Estados Unidos não estão e nem estarão em guerra contra do Islã. Ao mesmo tempo, que Obama se permite aglutinar nessa estratégia geral de paz a relação Israel e Palestina; (7) e, finalmente, uma colheita implícita: a guerra do Afeganistão é também para os Estados Unidos uma forma de manter o emprego, pois a desmobilização poderia levar a um desemprego perigoso de militares altamente treinados.

Em contraste com este balaio de frutas, que constituem uma estratégia geral de paz e uma estratégia de desarmamento nuclear, Obama apresentou outras posições, que respondem como se fossem colméias de abelhas, que vão gerar dificuldades, mas que indicam claramente o seu ponto: (1) uma posição cautelosa, mas firme, pela instalação de um escudo nuclear, contra a possibilidade do lançamento de mísseis vindos do Irã. Trata-se de um complexo a ser localizado na República Tcheca, na Polônia e na vizinhança da Rússia, que obviamente tem resistências ponderáveis sobre o tema; (2) uma postura de apoio ao desejo da Turquia de entrar na União Européia, em desacordo frontal com a posição da França e da Alemanha; e (3) uma resposta à hostilidade calculada da Coréia Norte pelo lançamento de um míssil, numa clara alusão à discordância desta em relação à política externa americana.

As raposas intocadas

Obama (1) mostrou uma postura estratégica cautelosa na questão econômica. Sem dúvida, defendeu a idéia que o sistema financeiro deve sofrer mudanças, mas não se comprometeu com nada, no campo de alterações mais profundas, principalmente na estrutura do sistema financeiro. Obama está cercado pelas finanças, está empacado no meio dos bail outs e até das questões de marcação dos ativos podres, e do “roubo”, como disse Stiegletz, do plano do Geithner. Esta é uma área minada, explosiva. E o G-20 pode até dar apoio para ele nas questões internas, que utilizando a força anti-finanças externa pode tentar diminuir o cerco que existe em torno dele, no campo interno. Porém, (2) houve no summit uma decisão para a criação do Financial Stability Board, um novo regulador ampliando o Financial Stability Forum com a finalidade de promover uma maior estabilidade financeira internacional, buscando melhores informações e cooperação internacional. O FSB, além de controlar os hedge funds, controla o sistema contra o crescimento da sua instabilidade, reportando-se ao G-20, ao FMI e aos bancos centrais. Para Obama, essa instituição poderá ser o embrião de um movimento de deslocamento da posição das finanças no mundo e nos Estados Unidos. Por aí, por uma medida importante, mas ainda não decisiva, apenas preventiva, pode-se ver como o poder das finanças foi – e continua – muito denso, variadamente audacioso e com a astúcia das raposas da engenharia financeira. (3) Do ponto de vista econômico, a grande vitória foi colocar o FMI e o Banco Mundial na linha do desenvolvimento, para atender inclusive a algumas crises de países críticos. E, de quebra, conseguiu tirar dos europeus a indicação do presidente do FMI, abrindo um leque maior para a sua escolha. O problema é de onde o G-20 vai tirar os recursos para este novo FMI e Banco Mundial que somam 1 trilhão de dólares. Todavia, mais dois assuntos deram cor à sua estratégia econômica. De um lado, (4) a reafirmação do livre comércio, com a proposta de equilibrar o comércio internacional, evitando a política dos déficits gêmeos e, sobretudo, o desequilíbrio das importações. E por fim, (5) decisões que agradaram muito aos europeus: o G-20 decidiu exercer controle sobre os paraísos fiscais. Como se pode ver tudo entra numa sacola de boas intenções, mas é preciso aguardar a implantação de todas essas medidas. Em termos de estratégica econômica, as coisas ficaram bem claras: apoio à produção com reformulação da estrutura mercantil e um processo lento e longo, porém progressivo de controle das finanças.

O ideal da estratégia e o vulcão das situações

Ao mesmo tempo em que marca o novo estilo de liderança da presidência dos Estados Unidos, com o objetivo da manutenção e da renovação, e quem sabe, do incremento do poder americano, Obama marca também um estilo pessoal de fazer as coisas: soft, sutil, atacando pelos lados, somando forças, aglutinando pontos comuns, aparando divergências e deixando os combates decisivos para momentos onde a sua acumulação de força for julgada suficiente para o gesto decisivo. O que importa dizer, o que é preciso ver é que, concordemos ou não, Obama tem uma estratégia. E uma estratégia nítida de renovação do capitalismo (veja-se seu discurso do estado da nação) e, dentro dessa renovação, um desenvolvimento de uma nova liderança americana.

Naturalmente, que o que falamos aqui são acontecimentos, impressões e hipóteses, a respeito de sua liderança. É preciso ver se estas sementes vão florescer, precisamos ver qual a sua habilidade de encarar a violência da política e da guerra, da argúcia e da provocação dos adversários (como o caso da Coréia do Norte, quando Obama estava em plena viagem) e a forma de constituir um novo projeto de ordem política e econômica do mundo. O vulcão está aí. E como dizia uma antiga marchinha do carnaval brasileiro: as águas vão rolar. E as águas, como os especialistas em incêndio sabem, podem alimentar o fogo. Ao sair bem, Obama mexeu também nas abelhas, e elas virão de muitas partes: das finanças, da indústria bélica, do Oriente Médio, da Ásia, etc. E de todos aqueles que são inimigos do capitalismo.

segunda-feira, abril 06, 2009

Segunda-feira, 6 de abril de 2009

A DANÇA DO FOGO
Por Enéas de Souza

A contenção dos fortes ataques

As finanças continuam o seu intenso jogo para não perder a posição de comando da economia dos Estados Unidos. Um primeiro ponto foi conseguido: manter uma representação muito forte dentro das instituições do Estado americano. Dominam o FED e o Tesouro, e têm vinculado a elas, de uma forma ou de outra, o diretor do National Economic Council, do Presidente Barack Obama, Lawrence Summers. E além da manutenção desses lugares têm uma vasta rede de lobistas no Congresso Nacional. O seu domínio permitiu, na realidade, que fossem contemplados com tentativas de “bail outs”, inclusive esse último PPIP (Public Private Partnership Investment Program), plano que é um verdadeiro saque no povo, segundo o economista Joseph Stieglitz. De qualquer maneira, para quem entrou numa crise formidável, que inviabilizou o crédito, que paralisou os mercados financeiros no geral, as finanças estão feridas, mas não derrubadas e, institucionalmente, continuam tentando soluções para saírem da crise, obviamente em seu benefício.

Os pães dos ricos não cessam

Como podemos sentir, moralmente, as finanças estão mal situadas politicamente com a população. Primeiro, pelo desastre financeiro que infelicitou inúmeras pessoas, sobretudo nas questões das hipotecas imobiliárias. Segundo, pelas perdas dos múltiplos investidores nas diversas aplicações em títulos financeiros. Terceiro, pela questão dos bônus aos executivos, que se tornaram escandalosos, uma vez que pessoas que causaram rombos financeiros inauditos ficaram, ou mesmo saíram deles, com gratificações retumbantes, incompatíveis com a condução incompetente dessas entidades. E mais, ocorreram situações graves que provocaram imensa irritação. É o caso de funcionários da AIG que receberam alargados bônus, quando esta seguradora teve um aporte de mais de 200 bilhões de dólares do setor público, dinheiro dos contribuintes. Obama, obviamente, não só se manifestou por um limite nos bônus, quanto na questão específica da AIG recomendou que Geithner lutasse, de todas as maneiras, para diminuir os valores envolvidos na questão. Até o Congresso foi sacudido por grandes discussões sobre o tema. (E para que não paire dúvidas, o secretário Geithner, no geral, é favorável ao pagamento de bônus).

Concessões que podem ser benéficas

Agora, na Europa, no G-20, as finanças foram atacadas intensamente por todas as partes, mas aparentemente as concessões foram poucas em termos concretos. Não houve nenhuma definição sobre a nova estrutura do sistema bancário, salvo a criação de Financial Stability Board, um órgão que vai dar uma controlada na instabilidade internacional e vai registrar e fiscalizar os hedge funds, de acordo com os governos, com o G-20 e com os bancos centrais. E houve, cabe registrar, uma outra concessão: um certo controle dos movimentos financeiros na questão dos paraísos fiscais. Olhado sobre os mais diversos ângulos, estas medidas soam mais como medidas preventivas, que poderão ser também benéficas às finanças na prevenção de novas crises. Não provocam transformações profundas no sistema financeiro. Ou seja, nada sobre as modificações das instituições (por exemplo, sobre a nacionalização, sobre a governança corporativa), nada sobre modificações do Banco Central, nada sobre a desbragada criação e controle dos títulos financeiros. Apenas, como um modesto anúncio de um leve outono, três concessões relativamente menores: hedge funds, Financial Stability Board e alguma regra para os paraísos fiscais. Resumindo: ficou algum controle na total desregulamentação que vigia até agora, e que, como as modificações paliativas do Banco Central americano, pode dar uma certa estabilidade para que as finanças consigam atravessar o rio dos mortos.

Os intocáveis

As pressões continuam muito gritantes de todos os lados. E há um ponto que continua sendo muito problemático para as finanças. Um monte de cacos de vidros para atravessar o corredor. É o caso dos executivos, que além de ganharem muito dinheiro, quebraram os bancos e, paradoxalmente, continuam intocáveis, firmes nos seus postos. Geithner, vindo da Europa, do G-20, disse que o governo removerá os executivos dos bancos – olha o tempo! - no futuro (!), se isto for necessário e se houver uma “assistência excepcional” do governo. Na verdade, talvez seja mais uma declaração tática, porque, os exemplos dos bancos Citigroup e Bank of América são contundentes. Houve uma injeção governamental de capital e ninguém foi substituído. Geithner, então, está fazendo esta afirmação porque o governo está sob sol abrasador. Os críticos falam que Obama endureceu com o setor automobilístico, tirando inclusive o chefe executivo da GM, mas até agora não forçou o tom com setor financeiro. Fato que levou alguns congressistas proclamarem que a White House pega leve com Wall Street.

Por quem dobram os sinos?

A conclusão é obvia. Quando um grupo social, uma fração de classe como as finanças, ganhou tal volume de poder como o que acumulou nestes 30 anos, a metamorfose das relações sociais de produção não são fáceis de serem realizadas. As finanças manobram para continuar no comando do processo econômico. E aparecem indicações vindas dos discursos de Obama, sobretudo daquele no “estado da nação” no Congresso, que querem assinalar que existe, no entanto, no subterrâneo da sociedade uma busca de metamorfose. Esta, se crescer como um bolo, como uma nova forma, fará funcionar uma corrente, um fluxo, na direção de um outro modelo capitalista de acumulação. A luta, porém, está instalada, mas ainda não é volumosa. Movimentos anti-capitalistas são personagens coadjuvantes, fazem pequenas pontas, no palco das oposições. Analisando bem, o que está se vendo nesse momento é que há uma forte pressão contra as finanças, que até agora apenas estão dando o lado e cedendo o mínimo. A crise vai demorar muito ainda para ser resolvida. Mas, algo se deslocou, apesar do reduzido deslizamento do setor financeiro. E as finanças que antes tinham o total domínio político, econômico, social e ideológico da sociedade, agora não têm mais, perderam, sim, o domínio ideológico. E estão disputando, ferozmente, os domínios social, político e econômico, nesta seqüência. Então, a sua ditadura, que antes era sólida, está algo abalroada. As finanças estão oscilantes, estão balançando, mas não estão dominadas - e muito menos, estão de joelhos.




domingo, abril 05, 2009

Domingo, 5 de abril de 2009

A CRISE SE AMPLIA
Por Enéas de Souza

O que se enxerga

A sociedade americana vive um momento difícil, o seu capitalismo está em desagregação, embora existam movimentos para a sua alteração. O que se enxerga, no entanto, é o cair das finanças embrulhadas numa crise de capital, de liquidez e afundadas em ativos podres; é o descambar da indústria, em função da superacumulação produtiva recente, para uma competição desesperada, para uma tentativa de reorganização produtiva, inclusive para retornar a liderança mundial em termos de produção e de produtividade; é o setor serviços, por conseqüência, caindo fortemente. Ou seja, a economia americana está em declínio e tenta buscar forças para a sua reformulação. Mas, são os trabalhadores que sofrem no bolso e nas suas vidas, pelo desemprego, toda essa fúria da crise.

O que marca a meteorologia social

Nos tempos áureos de Clinton e mesmo em momentos de Bush, a economia americana estava com uma taxa de desemprego ao redor de 4%. Pois, bem hoje ela chegou a 8,5%, o que significa a maior taxa dos últimos vinte e cinco anos. Fica muito claro, que a devastação social é intensa. Desde dezembro de 2007, quando a crise mal estava no início até agora são mais de cinco milhões e cem mil empregos perdidos, tendo este mês de março de 2009, desempregado 663.000 pessoas. E as perspectivas para os próximos meses continuam graves e parecem sombrias. Há precisões que estas taxas possam atingir 11% , talvez até mesmo este ano. A meteorologia social continua marcando chuvas fortes, temporais e ventanias. Naturalmente, que a ação do governo pode minorar o desemprego, mas o que se pode constatar é que as forças que fazem a economia penetrar na recessão e se encaminhar para a depressão são maiores que aquelas que geram o dinamismo contrário.

A demanda endoidecida

O terrível nesse processo é que a queda do emprego mostra profundamente um dos problemas graves dos fundamentos desta economia financeirizada, que tende a chegar ao fim. A dinâmica desta economia estava centrada na especulação, que produzindo rendimentos financeiros assegurava um dispêndio crescente no consumo, de tal modo que era este consumo que puxava, em terceiro lugar o investimento, o alimentador do emprego. Pois foi essa cadeia econômica que desabou. E quando os rendimentos das finanças secam, quando o desemprego cresce, e, portanto, o consumo desce e a demanda tomba endoidecida; nada faz o investimento subir. E então, as forças recessivas e depressivas se instalam, o consumo se enrosca no investimento, ambos despencam e a sociedade entra numa crise profunda.

Porque está mais difícil do que devia estar?

Neste momento, cabe ao Estado entrar em campo e reverter o quadro, centrando fundamentalmente os seus recursos no investimento. Isso se torna extremamente difícil porque há necessidade de salvar os bancos, as finanças sempre próximas, para evitar o risco sistêmico. O risco sistêmico significa a instalação da desordem absoluta na economia e na sociedade. Então, a conversão para uma outra economia é um processo longo, e por mais que o governo se incline para o investimento, há que tentar tapar os furos e salvar o bote financeiro. E nunca se pode esquecer, que o Estado está dominado pelas finanças ao menos em dois pontos, o Tesouro e o FED,. Ah!, devemos lembrar que o diretor do Nacional Economic Council do presidente Obama, o controverso Lawrence Summers, segundo Blomberg.com, de uma forma ou de outra, esteve ligado aos hedge funds e aos bancos. Não está aí, perspicaz leitor, um dos pontos candentes da crise? Obama vai ter que ter muito jogo de cintura. Para contrabalançar, e botar mais grafittis nos ouvidos dele, olha só o que escuta das ruas de Nova Iorque: “bail out the people”. É preciso compreender a crise em toda a sua amplitude, dentro da dinâmica econômica, dentro da política e dentro do Estado.

sábado, abril 04, 2009

Obama fala sério...

Em reunião com os banqueiros norte-americanos, o presidente Obama teria declarado que "minha administração é o que os separa da forca". O recado foi dado e mostra ao que um desastre econômico pode levar nos EUA... Obama está consciente e explicitou aos banqueiros sua apreensão.
O que não isenta alguns burocratas de Obama de acabarem tendo o mesmo destino dos banqueiros em caso de problemasmais sérios...
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FMI sai reforçado do G-20

Ao que tudo indica, o FMI saiu com seu papel reforçado da reunião do G-20. Ele aparece como o embrião e instrumento para uma possível "moeda global" que poderá (ou não) vingar a médio prazo.
O que mostra como será importante, a partir de agora, o controle do FMI. Com seu papel diminuído pela enorme liquidez global da primeira metade da década e sem recursos, recentemente os norte-americanos permitiram que europeus controlassema instituição. Será que isso vai continuar assim?
Sábado, 4 de abril de 2009

OBAMA E A LUTA SOCIAL
Por Enéas de Souza

As finanças são indomáveis?

A pergunta que mais interessa é a seguinte: como Obama vai resolver a grave crise americana? Naturalmente, que envolvido no meio de um tumulto formidável, a sua grande vantagem é ter estratégia. E uma estratégia interessante: ele joga no longo prazo, ele tem um pensamento de longo alcance. Como é que faz? Lança a bola lá adiante, bem longe, e manda a turma correr atrás. Tem a visão de que se ficar preso ao tempo curto, não vai resolver nada, vai perder o jogo. A visão de longo prazo lhe permite ter uma base, ter um centro, ter um ponto de apoio para a tentativa do capital de sair do abismo onde está metido. A sua avaliação política está clara: as finanças têm que ser modificadas com o tempo, por enquanto Obama vai comendo o mingau pelas bordas. Elas foram, são e continuarão poderosas, cada vez menos, mas ainda assim poderosas. São plantas que fenecem, mas ainda podem se recuperar com alguma água, mesmo que o regador tenha sumido.

E, como as finanças estão em apuros, estão com problemas de balanço, de valores dos ativos tóxicos, de capital, de liquidez - sem nenhuma proposta nova para o sistema financeiro e para uma nova organização da economia – elas, de fato, estão enfraquecidas. Mas dado o seu poder de fogo, a perspectiva de Obama é deixá-las soltas, mas não ampliar o seu espaço. O objetivo é tentar desgastá-las, fazê-las perder peso, até poder fazer o cerco derradeiro. Enquanto não resolve a situação, Obama busca amparo em todo lugar, inclusive no âmbito internacional, o G-20 é um exemplo. Porque ele não pode atacá-la de frente para domá-la, para incluí-la no seu projeto Elas estão isoladas, mas continuam comandando, cada vez com menor legitimidade, mas continuam na liderança do processo. Desejam retomar a pura dinâmica financeira, desejam o retorno da especulação. Não dizem, mas desejam. Todavia, há um fato novo: elas perderam o apoio do capital produtivo, e elas perderam objetivamente, porque já não podem proporcionar à tesouraria das grandes corporações produtivas rendimentos financeiros apreciáveis. Então, os dois setores estão se deteriorando, mas estão desatados, ambos têm que se virarem sozinhos. E é por aí, que o governo pensa dar ao capital um novo caminho, deslocando-se do modelo financeiro de acumulação para o modelo de acumulação produtiva.

A estratégia de restabelecimento da economia

Obama percebe que o seu ponto de apoio para o restabelecimento do capitalismo é fazer uma união entre o capital produtivo e os trabalhadores. E uma união que perpasse o mundo, porque há uma proposta do governo americano de que haja um relançamento das atividades produtivas em toda parte. E depois, tão logo que puder, trazer as finanças, reformuladas, para o amparo da produção, na figura do crédito. Num primeiro momento, é preciso usar o Estado para resolver minimamente problemas dos trabalhadores: seguro-desemprego, saúde, educação, solução via impostos para o caso das hipotecas, novos empregos no Estado, fazer investimentos em obras públicas para alcançar novos empregos, etc. O ponto alto é jogar com o investimento público para conseguir dar o primeiro passo na articulação capital produtivo e os empregados.

Por outro lado, Obama prepara estímulos de longo prazo para alcançar a construção de um novo patamar de acumulação, mudando a energia e promovendo a incorporação de novas tecnologias. Mas, como diz o meu colega Pedro Fernando Almeida, a questão para Obama é como ligar o curto prazo - onde ele vai ter que fazer uma limpeza de terreno para por as empresas em condições de competição - e o longo prazo. Nesta passagem, que pode durar um, dois ou três anos, ele vai ter que usar as finanças. Pois é aí que aparece o ponto de encruzilhada da sociedade americana: ou elas serão nacionalizadas e submetidas a um novo sistema financeiro ou o governo se entrega e capitaliza os bancos, e a crise se prolonga indefinidamente. A questão tem uma tonalidade exuberante: qual é o montante para salvar, de fato, os ativos podres dos bancos quebrados? Roubini estimava em 3,6 trilhões. Portanto, diante de cifras que vão ameaçar até a estabilidade do governo, porque vão dinamitar as finanças públicas, e no limite último, o próprio dólar, só resta a Obama começar a unir capital produtivo e trabalho, até que possa aparecer a oportunidade – os gregos davam o nome de kairós – para rearmar as finanças em função do desenvolvimento. Ficou claro, inclusive na reunião do G-20, que o problema vai ser o de cercar e laçar as finanças, desmontar e dominar o seu profundo e alentado esquema especulativo. E, finalmente, trazê-las para acionar a dinâmica da produção de curto, médio e longo prazo. Com todas as letras: incorporá-las ao novo modelo de acumulação produtiva.

sexta-feira, abril 03, 2009

Sexta-feira, 3 de abril de 2009

OS RESULTADOS DO G-20
Por Enéas de Souza

A belicosidade e a aglutinação

A reunião dos chefes de Estados do G-20 serve para que, na dinâmica econômica e política, apareçam pontos de conflitos e alianças, rotas de adversidades e de construções, e possíveis trajetos de temores e de ameaças. Ela serve, enfim, para uma abertura de cena onde se possa ver com mais clareza o tabuleiro do jogo da contemporaneidade. Naturalmente que existem negaças, dribles, conluios, espertezas, manobras de bastidores, sobretudo num momento onde a crise é um rio voluptuoso e causador de divergências. De um modo geral, em face desse panorama, o que se viu foi uma ação exitosa de Obama, que tentou, de maneira soft, hábil, duas coisas: uma liderança disposta a aceitar opiniões e sugestões – Lula disse que ele estava disposto a ouvir – e uma liderança sob a forma de aglutinação, para somar pontos de acordo adiante das disputas. Talvez sejam estas duas metas, o que de mais importante aconteceu na reunião. Ou seja, o lado belicoso de toda a política foi posto momentaneamente em repouso. É algo que existe sim, que está latente, mas que por hora não será o principal. Todo esforço será sempre o de achar algo comum para contornar as disjunções. O primordial parece ser a tentativa de construção de uma saída da crise, de forma segura, porém que será longa, sem que as rivalidades normais deixem de existir. Emerge, com uma ênfase operativa nas relações internacionais, uma idéia ligada na convergência de interesses. Dito de outro modo: o que ficou estampado neste G-20 foi que o poder americano, mesmo arranhado por longos anos de guerra no Iraque e por uma crise financeira e produtiva de dimensão mundial, é ainda um poder que pode avançar e liderar no sentido de uma reconstrução política e econômica. Obama, diante de possíveis conflitos (o gesto de ameaça de Sarkozy é um exemplo midiático), usou este poder para propor um valor (a necessidade de resolver a crise e construir um novo mundo) com a finalidade de ultrapassar e re-posicionar (mas não necessariamente superar) as forças antagônicas em direção a um ponto futuro.

O poder e a hierarquia

Não se pode pensar que a reunião dos chefes decide tudo. A meu ver, o que importa é a direção dada pela liderança. O que parece que Obama quer dinamizar é a fluidez, o entendimento, a abertura das relações, etc. E seu lance mais claro é que, ao passar do G-7 para o G-20 (na verdade, 19 países), o presidente pretende que o círculo das decisões se amplie para que os confrontos imediatos entre alguns participantes sejam postos num enquadramento de poder suficientemente forte para que, ao menos, a maioria canalize os movimentos num determinado sentido. E nós sabemos qual é: uma direção na qual os Estados Unidos possam retomar a sua posição. Mas que esta situação de poder acomode algumas mudanças, onde se admita outra hierarquia e outros participantes como a entrada de nações como a China, a Índia e o Brasil. Todavia não dá para se enganar: há uma luta poderosa entre os países, mas também não há como duvidar de que está em marcha uma nova ordem econômica e política. O que significa dizer que o neoliberalismo está em transformação, que as finanças têm que encontrar uma nova situação na economia, que a economia produtiva vai seguir um caminho de retomada e de direcionamento para um longo prazo.

O buraco na euforia

Assim, o movimento tendencial da política é mover o mundo para outra situação. Só que nada está resolvido. Temos dois eixos de reorganização: o relançamento da economia (com maiores participações do FMI e do Banco Mundial no sentido do desenvolvimento e do comércio internacional) e a regulamentação da esfera financeira (com possíveis controles dos paraísos fiscais, dos hedge funds, das agências de notação, etc.). Só que estes dois eixos exigem uma perspectiva de longo prazo. E é fundamental dizer que nada foi falado sobre aquilo que é o ponto decisivo das finanças: a forma de erradicação dos ativos tóxicos e o desenho e a construção de um novo sistema financeiro, inclusive a forma como vai se resolver a crise bancária de capital, de liquidez e de crédito. Claro, há motivo para euforia. Ela é válida na forma política da reunião, que foi conduzida sob o ângulo do entendimento, mas não há nenhum motivo de euforia na solução econômica imediata da crise. Há sinais, esboço de aspectos a serem desenvolvidos, contudo não há ainda uma firme trajetória em curso. O que pode abrir, logo, logo, uma fissura no entusiasmo.

De cima para baixo e de baixo para cima

Todavia, algo se passa fora das salas das reuniões, e que envolve com intensidade aqueles que querem modificações amplas na ordem das coisas. Há um grande número de participantes, de todos os matizes sociais, que querem alterações muito fortes no clima neoliberal, financeiro e guerreiro que dominou o planeta nos últimos anos. E talvez aqui esteja o espinho da flor, pois se trata do mundo inteiro, de personagens que não estavam nas reuniões, mas que, de uma forma ou de outra, estavam e estarão balizando os acontecimentos, que estavam e estarão dizendo que existe uma cólera, uma fúria, à direita e à esquerda, contra os desmandos dos Estados, dos políticos, dos financistas, dos empresários, etc. Embora possa haver esperança, há insatisfações que aumentarão se as ações forem apenas paliativas. Há um desejo de modificações substanciais. E isso muita gente não consegue ver, mesmo numa reunião cheia de boa vontade e simpatia mútua.

De qualquer maneira, existem dois movimentos no conjunto da obra. Um que vem de cima para baixo: a tentativa de reorganização da liderança do reino capitalista, financeiro, liberal, petrolífero, americano do mundo. Dinâmica que passa por Obama, ou tem Obama como líder. E ela não é uma liderança que se fará sem contradições, ao contrário, mas que segue com um objetivo de longo prazo. E existe um outro e forte movimento, caótico sem dúvida, que vem de baixo, dos esfomeados, dos desempregados, dos empregados, dos aposentados, dos temerosos, dos pesquisadores, dos professores, de intelectuais, da classe média, etc, que querem mudanças radicais, mas em sentidos muitas vezes opostos. Estes movimentos estão mal começando. E é sempre o velho tema: como uma pele nova substitui uma pele velha? Como um outono passa para o inverno, na direção de uma primavera, para alcançar um novo verão? Está em jogo e em marcha um deslizamento no tempo-rei, que leva uma pergunta chave e contínua: para onde?

quinta-feira, abril 02, 2009

Mudanças no market-to-market

Com o Enéas cobrindo tão bem as questões importantíssimas relacionadas ao G-20, vou dar uma voltinha pelas questões financeiras novamente.

Hoje occorre algo importantíssimo nos EUA. Finalmente, as propostas de mudanças na chamada marcação à mercado - a obrigação das empresas, inclusive as financeiras, colocarem em seus balanços os ativos a partir de seus preços de mercado no momento da escrituração - irão, se aprovadas, permitir que os bancos possam estender a extensão dos ativos colocados no chamado Nível 3 de seu balanço, ou seja, aquele onde são colocados os ativos que não tem avaliação  de mercado por falta de transações. A mudança permite que um maior número de ativos seja colocado nos balanços pelo preço que os bancos os avaliam e não pelo preço que o mercado os avalia.

O interessante é que amedida vai na exata contramão do Plano Geithner, pois torna interessante aos bancos manterem os chamados ativos tóxicos em seus balanços ao invés de vendê-los com desàgio aos fundos "público-privados".

Links relacionados:
Quinta-feira, 2 de abril de 2009

PERGUNTAS AO REDOR DO G-20
Por Enéas de Souza.

Hoje, exatamente no dia da reunião do G-20, vamos responder perguntas que nos chegaram e que, de uma forma ou de outra, estão envolvidas ou balizam o contexto amplo desse encontro.

1ª pergunta – de Maria Lucrecia Mendes
→ Qual será a prioridade do G-20: regulação ou relançamento da economia?

Na verdade, temos dois problemas fundamentais. De um lado, a regulação é fundamental para reverter os desastres da economia capitalista, promovida pela área financeira. A solução dos planos de salvação são soluções parciais e precárias, demoradas e não resolvem o problema da fluidez do crédito; e são cada vez politicamente mais difíceis, pois eles apenas buscam resolver a questão dos ativos tóxicos. E não solucionam o ponto fundamental, a mudança institucional da estrutura financeira. É preciso definir-se sobre que tipos de instituições o sistema financeiro deve ter, como será o papel do Banco Central, qual será o grau de regulação que vamos ter, como vão ser controlados as instituições não bancárias, os hedge funds, os private equities, etc. Portanto, a área financeira não está planejada, nem sequer temos um plano decente para resolver a questão dos títulos podres. A meu ver, a nacionalização será a forma mais rápida, mais conseqüente para enfrentar essa desordem financeira americana e global. Pune a incapacidade, a ineficiência e a especulação desbragada. E proporciona, certamente, um grau de confiança inviável com esta falsa salvação, que só posterga a resolução das finanças.

De outro lado, a questão produtiva tem um itinerário. Primeiro, colocar o gasto público na direção do investimento através de obras públicas. Uma reativação das empresas e uma busca de uma recuperação do emprego. Segundo, segurar a queda das corporações, dando a elas uma higiene conveniente. Ou seja, deixar quebrar a GM e a Chrysler, mas salvando as fábricas. Reencaminhando totalmente as empresas para uma nova competitividade. Pois o capitalismo passará para uma nova fase de reorganização. Terceiro, desenvolver, através de pesquisas, de financiamento adequado, o caminho para um novo padrão de acumulação. Isto significa tanto a transformação das pesquisas em energia e das tecnologias em fábricas e produtos que, em determinado momento, vão tirar a economia do buraco para o qual ela se encaminhou. Será a forma de vencer a recessão e a depressão que nos rondam, pois é uma solução de longo prazo.

O processo de recuperação da economia se acelerará se as duas órbitas do capital forem postas em andamento conjuntamente. Pois para a economia produtiva decolar precisa uma adequada estrutura financeira para atender as demandas da área de produção. Em todo o caso, não há no momento, nenhum indicativo que a área financeira esteja disposta a atender os reclamos ligados às necessidades imperiosas de fornecer crédito para esse desenvolvimento produtivo.

2ª pergunta: de Mario da Silva Drummond
→ Qual a importância dos ataques feitos pela China contra o dólar? Ele está ameaçado?

O desastre do capitalismo financeiro americano – destacando os dois déficits gêmeos (o comercial e o financeiro) e a crescente dívida pública para resolver os problemas das finanças – criou suspeita sobre a situação do dólar. Mas não há nenhum substituto à vista. Uma moeda se sustenta através do poder do Estado que, por sua vez, está baseado na potência de sua economia, na sua capacidade militar, na sua força política. Desta maneira, não há nenhuma economia capaz de rivalizar com o dólar. Por outro lado, a China é o maior credor do Tesouro Americano e possui o maior estoque de reservas do mundo. Nesse sentido, o que o presidente da China fez foi, simplesmente, tentar manter o valor de suas reservas e dizer aos Estados Unidos: vocês têm que considerar a nossa posição! Claro, a China poderia retirar as suas reservas e causar um grande problema para o dólar. Mas seria como dar um tiro no pé. A China se evaporaria e se arriscaria a uma situação internacional complicada: política, econômica e militarmente. A sugestão de utilizar o DES como moeda de reserva mundial, só seria viável se tivesse um Estado por trás. E este Estado seria, obviamente, os Estados Unidos. Porque veja, o euro, não poderia ser a moeda substituta do dólar, porque ela, a rigor, não tem um Estado, portanto não tem um Tesouro por trás. Na verdade, o euro é uma moeda enfraquecida pela multiplicidade de Estados que fragmentam a sua unidade política e econômica.

3ª pergunta: de Osvaldo Ribeiro Kreuz
→ E a proposta do retorno ao padrão ouro?

Esta proposta, no momento, não tem viabilidade. Se for o padrão outro puro e simples, é totalmente inviável; o comércio internacional deixaria de funcionar crescentemente. E, em função da limitação da mercadoria ouro, a tendência seria uma deflação e uma recessão enorme. O retorno do dólar-ouro, no momento, também seria inviável, pois um padrão se estabelece não por antecipação, mas já na continuidade dos negócios. Por exemplo, a suspensão do padrão dólar-ouro em 1971 ocorreu porque já havia uma expansão dos bancos americanos, e o dólar precisava dar a possibilidade de uma expansão do capital financeiro. E então teve que se constituir a invenção da moeda financeira, baseada na taxa de juro do FED e nos títulos do Tesouro Americano, fazendo do dólar uma moeda de reserva mundial. Hoje, com a indefinição da economia, a colocação do dólar-ouro manteria a hegemonia dos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, daria as possibilidades aos Estados Unidos fazer a mesma operação que fez em 7l. De qualquer forma, enquanto não se definir a questão da economia – produção, finanças – o dólar será o que é: uma moeda instável, sujeita à desvalorização, capaz de ser questionada por diversos países. E quem sabe, no limite, sujeito a uma crise monetária de proporções. Mas não é o caso nesse momento. E se olharmos bem, não há substituto à vista para o dólar.

4ª pergunta: de Hilda Vieira Jardim
→ Qual seria a possibilidade dos trabalhadores numa crise como esta?

Uma crise do capitalismo sempre traz a possibilidade de modificações profundas na estrutura das relações sociais de produção. É verdade que o capital, apesar de sua vasta crise, conquistou um poder sobre o trabalho com duas poderosas chaves de dominação: a tecnologia e as finanças. Com a tecnologia, ele impediu que os trabalhadores pudessem ameaçar realmente o capital e, com as finanças, ele aliviou a luta dentro da fábrica dos prejuízos financeiros de paralisações e de greves. Porém, falando da oposição capital/trabalho, vimos o fracasso das finanças que põe, no limite, em risco todo o domínio do capital, porque se estabelece uma aliança direta entre trabalho e população. Mas as condições políticas, econômicas, tecnológicas, militares e policiais de domínio do capital não estão paralisadas. A reprodução do capital não se tornou inviável. Mas, os trabalhadores em geral não estão trabalhando neste momento com alguma possibilidade revolucionária. Ao contrário e na verdade, o que eles pedem é a possibilidade de mais democracia, de mais direitos sociais e de maior distribuição da renda, lembram as questões energéticas e ambientais, pois o capital financeiro tem uma inclinação para o congelamento democrático: veja-se Guantánamo, o Patriotic Act, a própria atuação de certas instituições estatais como o Banco Central, etc. E a democracia, com o acréscimo de controles populares, vai depender da queda das instituições falidas do neoliberalismo e do aumento de força e inventividade dos operários, dos desempregados, dos aposentados, etc. Ou seja, os modelos de revoluções francesas, soviética, chinesa, cubana, etc. estão superados política, tecnológica, ideológica e militarmente. A História nunca está fechada definitivamente e chegamos a um momento de incerteza, de indefinição; talvez o momento de agora fosse que os digladiantes da esfera social encontrassem um pacto num outro nível, diferente deste, tão desfavorável aos trabalhadores como foi no neoliberalismo, sobretudo a partir da queda do socialismo real. Hoje ainda não dá para vislumbrar como será a luta real, apenas vemos que os conflitos se multiplicam: finanças/ produção; capital/trabalho; capital financeiro/população; nacionais/emigrantes; emoldurados por conflitos religiosos de diversos matizes, pela banalização inconcebível da cultura etc. Porque, em verdade, a luta política tem muitos níveis e não se pode reduzir os conflitos sociais às formas como se desenvolviam no século XVIII, no século XIX, no século XX. O século XXI nos traz um horizonte de múltiplos conflitos, mas o terrível é que ninguém tem teoria e prática – e estamos falando de todos os lados (como reconhecem, inclusive, os partidos anti-capitalistas) – para que possamos dizer que o caminho será este ou aquele, dizer que a luta será por ali ou por aqui.

quarta-feira, abril 01, 2009

Greenspan se assume como idiota novamente!

Alan Greenspan, em mais um capítulo de suas bombástiacs confissões iniciaasem frente ao Congresso norte-americano no ano passado, dosse textualmente que "os bancos o enganaram com seus modelos de risco e gráficos coloridos como ele nunca havia visto antes"...
Greenspan já é meu candidato quase imbatível a pior economista do mundo. E aquele que o maior prejuízo causou ao capitalismo! Mas, cuidado: ele se disse disposto a "qualquer coisa" para se redimir, inclusive aceitar um "job" no Tesouro... Que medo.
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Quarta-feira, 1º de abril de 2009

G-20
OBAMA E O PODER AMERICANO

Por Enéas de Souza

A dupla ótica dos Estados Unidos

É importante vermos o movimento de Obama nesta temporada européia, que começa hoje com encontros com Gordon Brown, com Medvedev e com Hu Jintao, sob o alarido francês de Nicolas Sarkoyzy, ameaçando deixar “uma cadeira vazia”, se a reunião não se encaminhar para discutir a questão da regulação da economia financeira, de maneira sólida e importante. O movimento de Obama é uma larga e ampla manobra. Atravessa o G-20 amanhã, e engloba depois, nos dias subseqüentes, os encontros com chefes europeus e com dirigentes da Otan. É um esforço decisivo para mostrar a nova posição americana no cenário mundial. Estamos em face de um país disposto a retomar a liderança sob uma dupla ótica: reafirmar a posição estrutural dos Estados Unidos de diálogo com seus parceiros, e a preparação, com invenção progressiva, de uma saída para a infernal crise da economia americana e planetária. Nesse movimento, Obama busca dar ao mundo uma demonstração de sua liderança, tentando, como os grandes heróis da história de quadrinhos, de fazer face às múltiplas e incansáveis tarefas que este trânsito lhe apresenta.

O cão aguerrido e o conflito latente

Nesse momento da contemporaneidade fica claro que temos uma profunda e irreversível crise do capitalismo, do neoliberalismo, da economia financeira e produtiva e uma deplorável crise da liderança americana. Elas todas conjugadas desafiam sem cessar o presidente recém eleito. Para podermos observar seja os lances deste, seja os resultados das reuniões, é fundamental perceber o que vai se estabelecer nesta viagem. O que está se desenhando é um novo padrão de relacionamento e de diálogo entre as nações. Um jogo onde o conflito está latente, revolvendo o ambiente como um cão aguerrido e capaz de raiva. Os Estados estão disputando uma nova forma de liderança, abrangendo a realidade política e econômica do mundo. Sob certos aspectos há uma luta generalizada das nações, mas todas estão sabendo que a única que pode comandar esse processo é os Estados Unidos. Mas, tudo está indefinido, inovadoramente indeterminado, demasiado incerto. E a rota para a saída das múltiplas crises depende de acordos no meio de uma possibilidade ampla de desentendimentos e desencontros.

Quais os links que os Estados Unidos vão linkar?

O momento é da política, no meio de uma realidade se encaminhando para uma desordem generalizada. E a política é o reino da disputa, do antagonismo, dos combates, das contradições. Nesse sentido, o primeiro passo, vai ser a definição daquele que vai dar o dinamismo às disjunções. E é nesse ponto que os Estados Unidos vão assumir a tarefa de liderança, para restaurar o seu poder político moral, para liderar tanto um novo quadro político entre as nações, como uma trajetória de reformulação da economia do planeta. E eles se põem esse esforço, mesmo porque a crise veio deles. Uma desastrosa presidência que, tendo sido guerreira, isolou-se na sua pretensão unilateral e escondeu, sob o pretexto de combate ao terrorismo no Iraque, o seu desejo predatório de petróleo. Só que o ornamento desta moldura foi, sem dúvida, a embriaguez enfeitiçada de uma financeirização de todas as relações de produção. E como a política arma as possibilidades da economia e a economia possibilita a vida das nações, a primeira grande questão de Obama é, no magma da desordem, a construção de uma nova economia política, fazendo a linkagem do front interno com o externo. A própria política, numa dialética com a economia, precisa e principia a se reorganizar. Obama vai ter que enfeixar outros grupos sociais numa nova definição política e de economia no interior do seu país. E os americanos vão também fazer novos entrelaçamentos e novas tramas econômicas e políticas com a Europa, com o Oriente Médio, um outro jogo-confronto com a Rússia, uma nova etapa de colaboração com a China, etc., etc. O G-20 tem este filme, vai de dentro dos Estados Unidos aos outros lugares do mundo.

As contradições de Obama

Mas, Obama tem a suas contradições. Num certo sentido, ele sabe bem que a saída da economia vai ser por etapas: 1) é preciso deter a tendência de queda das atividades produtivas que, estando em recessão, poderão encaminhar à depressão; 2) retomar a dinâmica econômica, reorganizando o curto prazo, através do gasto público, para criar condições da economia se encaminhar para o longo prazo; 3) reformular o padrão produtivo atual, dirigindo a economia para um paradigma centrado na renovação energética da infra-estrutura e na aglutinação de novas tecnologias na construção de um novo padrão produtivo.

Todavia, se isto está muito claro no campo da economia real, nada ainda está muito definido no campo das finanças. Porque as soluções financeiras são todas pensadas pelo grupo que sempre atuou no comando do processo de expansão das finanças. Foram eles que participaram de uma financeirização calamitosa, que teve por base uma excessiva alavancagem dos recursos, uma expressiva securitização, uma multiplicação quase infinita dos produtos financeiros, chegando até a uma articulação distorcida do setor financeiro com o setor produtivo. Ou seja, a questão é simples: é indispensável e necessário mudar as finanças para restabelecer o crédito, no mesmo e amplo processo de reanimar a economia para preparar as mudanças fundamentais do próximo paradigma industrial. Como fazer este elo, cuidando igualmente dos problemas ambientais e energéticos adversos, é o horizonte onde se constrói a presidência política de Obama.

Mas, não há como negar: Obama ainda não tem solução para as finanças. O plano de Geithner não atende a vários problemas financeiros, nem sequer sobre o ponto número um: como desativar este sistema bomba, que pulsa, sem marca-passo, ameaçando explodir? Do ponto de vista positivo, tudo pode se concentrar numa idéia: a falta de um desenho para o sistema financeiro. O que é isso? Trata-se de fato de ter idéias para solucionar a regulação do sistema, envolvendo desde o tipo de instituições que vão atuar até o tema dos paraísos fiscais. As tarefas de supervisão, de controle, de fiscalização, de punição, etc. tanto das instituições bancárias e não-bancárias, se constituem em pontos que as finanças lutam desesperadamente contra.

Tudo para ficar no mesmo

Comparando com o pensamento sobre a esfera produtiva, onde emergem as idéias de curto com as idéias de longo prazo, a esfera financeira ainda é um jogo de protelação, de postergação, de diferimento das ações. A única forma de explicar essa inaptidão do governo Obama é a escolha dos seus auxiliares nesta área. Todas as figuras comprometidas com as finanças destroçadas. Elas mostram a sua força, optando não pelo movimento, pela transformação, mas pela imobilidade. Numa síntese: pela mudança para ficar no mesmo. Pode ser que Obama espere que os ataques dos europeus, dos asiáticos, dos latino-americanos possam criar um clima de pressão, capaz de reverter a tendência de ativa inércia tanto do Secretário do Tesouro dos Estados Unidos como do setor que o sustenta. E com isso se abriria um caminho para a nacionalização do sistema financeiro, que seria o começo de uma reformulação de toda área, dando o início a uma recomposição da economia. Mas, se na política a questão é o conflito, na economia é a competição. E, portanto, só um poder muito forte, capaz de organizar uma saída ordenada da crise poderá mudar este panorama caótico do momento, com previsões de quedas assustadoras para o ano de 2009 da OECD.

As vozes européias e a orelha de Obama

Para concluir este breve panorama, é preciso dizer que existem, neste périplo de Obama, dois aspectos: um, propriamente político, de reafirmação da posição estrutural dos Estados Unidos e da renovação da liderança americana, e outro, propriamente econômico, de reorganização das relações entre as finanças e a produção que vai redobrar-se sobre a questão americana e mundial. E sobre este tema das finanças nada está decidido e, fora o plano Geithner, não existe nem sequer uma proposta. Nela deveriam constar os problemas fundamentais examinados neste texto, porque eles têm repercussões em muitas frentes: além da economia real, eles afetam, por dentro do Estado, as finanças públicas, a taxa de juro e, no caso americano, aquilo que é uma das preocupações chinesas, a sustentabilidade do dólar.

Pois esta é a flecha que vai direto ao ouvido de Obama. Estará ele em condições de ouvir? É por isso que o G-20 vai ter que falar forte, gritar alto, lembrar a Obama que não somente a guerra, mas também o neoliberalismo das finanças foi uma das causas do desastre americano. (No fundo, até o escudeiro Gordon Brown tem essa opinião.)