quinta-feira, janeiro 07, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
Coluna das quintas
07 de janeiro de 2010

DE SOROS A LULA
Por Enéas de Souza

Quando a gente lê George Soros, pode-se não concordar com ele, mas vê-se que é alguém que tem a garra no pensamento. Não se ocupa com o senso comum; melhor, critica-o. Porque Soros tem a vontade de ganhar como especulador, mas tem igualmente o desejo de saber onde está, em que mundo está inserido, qual é a natureza dos acontecimentos. Sua mente trabalha sempre desenhando o movimento da realidade, aquilo que está caindo, aquilo que está fazendo ferida. Pois este especulador – e amador da filosofia, aluno de Karl Popp – está a prever (vamos usar verbo à portuguesa) que o mundo no qual vivemos não será nunca mais o mesmo. Ora, não é outra coisa que estamos dizendo há meses nesta coluna. Mas, óbvio, devemos nos perguntar imediatamente, se não estamos sendo capturados pelo pensamento de George Soros. Acho que não. Primeiro, porque nós é que estamos dizendo, faz tempo, que este mundo neoliberal acabou. Ora, o que parece é que Soros é que está chegando à nossa interpretação, ao nosso rio. Pois, o que sempre anunciamos – e continuamos a dizer – é que apesar de possíveis recuperações eventuais de um ou de outro setor, e até mesmo de um pequeno crescimento, o que importa é que este capitalismo neoliberal desabou estruturalmente.
E porque? Soros coincide, no principal, com a nossa opinião. Estamos num capitalismo esfacelado pela desregulação. Para os que pensam mais forte do que Soros, esta desregulação é um sonho de pretensiosos, de estultos e de delirantes. Delirantes, sim. O delírio foi tanto e com tanta força que o tombo aconteceu de um coqueiro extremamente alto. Como dizia o samba: mais alto o coqueiro, maior é o tombo. O que significa dizer que os especuladores financeiros foram levados ao pináculo da árvore financeira, ao cume da inflação de ativos – e não da glória – pela ganância e pelo o descontrole do sistema. E, de lá, despencaram, atraídos pela gravidade econômica, com seus ativos financeiros embuchados. Ben Bernanke, o chefe do FED, outro dia numa conferência, foi absolutamente claro: o problema da bolha imobiliária não foi um problema de política monetária, mas de regulamentação e de supervisão. Ora, é dizer clara e efetivamente: o capital financeiro comeu as suas próprias entranhas. Porque não tinha regras que o comandassem. E a sociedade, que acreditou nas finanças e deixou o Estado ser construído por ela para fazer exatamente esta desregulação, viu, sentiu e ficou estupefata diante deste tombo. E é um tombo, valha-nos Deus, que está arrastando os Estados: não há dívida que segure este buraco negro. Por isso, o próximo visado vai ser o dólar. Só que até ele chegar a estar na mira, ainda vai levar tempo. E nem sei se lá chegaremos, depende de outros fatores estratégicos como o declínio acentuado da Europa, uma intransigência monetária da China, por exemplo; etc. Ainda há muito jogo nesse campo. Tudo está indeciso. De qualquer forma, o império americano declina politicamente e, pelo menos, está estacionário economicamente. Sofre, no momento, variadas turbulências: afegãs, iranianas, chinesas, iêminianas, climáticas, etc. Embora ele faça força para sacudir a poeira, dar a volta por cima, talvez leve muito tempo. Na minha opinião, os americanos têm que terminar com a auto-regulação das finanças. Isso também vai levar tempo, há uma discussão congressual sem fim. É verdade que o país está se movendo no subterrâneo, mas na superfície a geologia continua imóvel, sem alterações significativas e aparentes. O “depois da queda”, como dialogaria conosco Arthur Miller, ainda não mostrou a outra face da lua.

Lula, quem diria?

Pois o velho torneiro mecânico se tornou presidente do Brasil e de presidente do Brasil tornou-se, pelo insuspeito “Le Monde”, a personalidade do ano do mundo em 2009. Desta forma, a visão de Soros dá uma pista do porque Lula atingiu este topo. Pois, a primeira questão, depois de que a economia não pode continuar a ser auto-regulada, é que a antiga cadeia econômica mundial não pode se sustentar como estava. Veja o leitor: depois da 2ª guerra mundial, a oposição Estados Unidos-União Soviética foi extremamente vantajosa para o capitalismo. Pois, ao transformar-se lentamente em capitalismo financeiro hegemônico, e fazer do dinheiro uma mola disparadora, a nação americana do Norte jugulou o adversário e conseguiu um triunfo inexorável, no início dos anos 90. Mas, a vitória é a véspera da derrota. Bastaram dezesseis, dezessete anos (o que na História é menos que um minuto), para os Estados Unidos sucumbirem. Depois da queda do socialismo real, a explosão clintoniana, com final desregulatório, foi seguida pelo terror bushiano/cheneyano, feliz em fanatismo, arrogância, incapacidade estratégica e demência de condução política. Este último período levou os americanos a uma catástrofe financeira ensurdecedora. Curiosamente, no mesmo instante histórico, o país perdia a capacidade de ouvir os seus amigos. O país sucumbiu na economia financeirizada e na guerra do Iraque, não sem deixar de fortalecer um inimigo potencial, a China. Porque todo o sistema exigia que houvesse uma ou um conjunto de nações que fosse o núcleo do fornecimento de produtos de baixo custo para a auto-dita América. E que um país ou uma região financiasse largamente o déficit americano. Deu, entre outros, em primeiro lugar, a China. Esta é uma lei: o vencedor gera o seu inimigo favorito. Mas, ao mesmo tempo, no encadeamento geral, não apenas a China alçou vôo, mas também o Brasil, a Índia, a África do Sul, a Coréia, etc. Ora, o mundo desequilibrou a histórica liderança dos “States”, já comprometida pela infeliz presidência de George Bush. O mundo começou a desenhar-se diferente. E Lula, bem orientado pela diplomacia brasileira e com seu instinto e talento de político, aproveitou os diversos fóruns para aparecer. Mas, só pode aparecer porque o Brasil tinha passado de um país aliado e alinhado aos Estados Unidos da época da FHC para um país aliado, mas crítico (muitas vezes em oposição velada ou aberta), com idéias próprias sobre o mundo. Sobrava também capacidade de articulação regional e internacional de propostas geopolíticas e geoeconômicas. E isto se deu dentro de uma estratégia do Estado brasileiro, comandado por Lula: recuperação do próprio Estado, antes, na e depois da crise; presença infatigável na arena internacional; presença de estatais brasileiras como contraposição do desastre do setor privado mundial: Petrobrás, Banco do Brasil, Caixa Econômica, BNDES; autonomia do petróleo, descoberta do pré-sal e biocombustíveis, tornando-se um país com evidente projeção de futuro, etc. Pensando no acontecido e no ano de 2009, revendo o que escrevemos até agora, só poderia dar Lula na cabeça! Quem diria, depois do primeiro mandato... Como Greta Garbo.

Vai dar Bolsa Família?

Assim, olhando o panorama internacional, a gente enumera três fatos: (1) a constatação de que o capitalismo não será o mesmo, será outro, porque o centro da decadência do mundo foram as finanças; (2) a percepção de que os Estados Unidos chegaram no seu movimento a um ponto de reversão, que proporcionou e deu aos países que puxava uma liderança inédita. Olhem o fiasco americano de Copenhague...; (3) a certeza de que o Brasil efetuou uma estratégia nacional e internacional exitosa, sobretudo depois de 2006. Ora, o resultado da citação desses pontos chega para concluir claramente que a eleição de Lula como o homem do ano não deve, nem pode ser vista como surpresa, mas sim como confirmação da decadência americana e da valorização do desempenho chinês, indiano, dos africanos do sul e dos brasileiros, estes sobretudo pelo encaminhamentos das coisas no campo diplomático, etc. Então, pode-se ter bem claro que Lula sim, sacudiu a lama do mensalão e deu a volta por cima. Claro, não vai tirar o lugar de Obama no cenário do planeta, mas é aquela do carioca tipo Romário:”eu sou mais eu”. Ganhou tudo inclusive a indicação do Rio de Janeiro para a sede das Olimpíadas. Todo isso vai mudar muito pouco o páreo da disputa mundial, contudo a sua política populista, varguista, inventiva da bolsa família, tem condições de invadir o mundo. Podemos, então, até perguntar sobre o destino da política mundial como Maria Gabriela Llansol perguntava sobre a atividade poética: “Onde vais drama-poesia”?

Um comentário:

André Scherer disse...

Excelente artigo Eneás, boa-volta ao nosso convívio blogueiro depois das férias. Só discordo quando dizes que a finança não tinha regras: sim, tinha regras, apenas eram para os outros, os Estados e as empresas não-financeiras; para ela a regra era a liberdade de movimentos e o máximo de garantias... Quando vejo tua reflexão, me parece que 2010 está delineado, com possíveis turbulências na área financeira emanadas dos EUA... Mas os focos de incêndio são tantos e tão variados ao redor do mundo que fica difícil pensar qualquer coisa para 2011, 2012. Incerteza radical: esta expressão nunca significou tanto como agora.