quinta-feira, fevereiro 18, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
18 de fevereiro de 2010
Coluna das quintas

A GRÉCIA PÕE
A EUROPA
EM QUESTÃO

Por Enéas de Souza


O ABSURDO DA GRÉCIA

A crise grega colocou mais economia na política, mais privado no público. E de uma forma assustadora. Uma forma onde a vigarice penetrou profundamente no setor estatal e fez do Estado fonte de rendimento, fonte de especulação, fonte de expansão das finanças e fonte de desmoralização do próprio Estado. A situação da Grécia é imensamente grave e suntuosamente absurda, a tal ponto que o que está em jogo não é apenas a credibilidade de um país; pôs na reta, e em perspectiva de crise, o euro. E no limite, jogou a questão no colo da União Européia. Isto sem contar que apareceu, de novo, como um leme inacreditável, a revelação da audácia, da impunidade e do descontrole das entidades financeiras. Elas mantêm, sem perder a irracionalidade, ainda, um cenário de contundente instabilidade na economia mundial.E no fundo dos bastidores do caso grego, emerge a indisfarçável presença de um capital predador, o Goldman Sachs, para confirmar a fotografia dos gestos contemporâneo preferido das finanças.

ESTÁ NA HORA DO RETORNO DA POLÍTICA

De onde surgiu esta impressionante desenvoltura das finanças, que passou pela produção da crise grega? Primeiro: surgiu por causa do avanço triunfal do capital financeiro, que fez do Estado um ente visivelmente a seu serviço, liberando os capitais no seu movimento e desregulamentando a economia. Segundo: surgiu porque o Estado esteve sempre de prontidão com seus bancos centrais para resguardar a política monetária e financeira definida ou imposta pelas finanças. E, portanto, para salvar as instituições bancárias e não bancárias de colapsos e bancarrotas em suas fantasiosas aplicações. Um exemplo vivo: os bailouts e as linhas de liquidez do FED durante a crise americana. Terceiro: surgiu por efeito de uma cisão operada no Estado, que separou na sua figura o ente financeiro e o ente político. Assim, ao ser financiado pelas finanças, o Estado poderia ser tratado ambiguamente. De um lado, os títulos públicos eram valorizados por terem garantia estatal, mas de outro lado, estes ativos eram operados de modo semelhante aos papéis do setor privado, títulos que entravam no carrossel especulativo, pelo fato de serem submetidos à securitização. Assim, se ligarmos os itens 1,2 e 3, fica registrado que, por via do endividamento público, as finanças tornaram-se uma ameaça a estabilidade e a integridade do Estado. Ponha-se então na quadra o caso grego. Ele é exemplar da absoluta delinqüência com que atuou a corporação financeira. E com isso chegamos ao quarto ponto. Para comprovar o afirmado acima, sabemos que o setor privado tem uma expertise na forma de manobrar nesses mercados de auto-regulação e mal supervisionados. Com essa experiência, o Goldman Sachs ajudou a Grécia a lançar títulos, para colocá-los, em seguida, na voragem da especulação, atuando, via CDS, contra o citado país. Mas foi além e fez pior. Deu consultoria para a burla decisiva: com sua experiência contábil financeira ajudou ao Estado grego na maquiagem da contabilidade pública. Com isso, colaborou com o governo conservador da Grécia no ludibrio à comunidade européia, justamente por ocasião do ingresso nesta daquele país. O que evidenciou, também é óbvio, a fragilidade da UE no controle fiscal das Estados participantes.

Sinta o leitor, a ousadia da fraude e a falta de caráter político do governo conservador e corrupto de Costas Caramanlis na Grécia, permitindo que o Goldman Sachs fosse o seu conselheiro de estrada e de enganação financeira. Se os conservadores não fossem batidos por Papandreou a gravidade da situação levaria ainda algum tempo a ser conhecida. E o que se conclui desse processo de absoluta privatização do Estado? É que ele deve dar a oportunidade a um recomeço de um movimento político, cuja finalidade deve ser a de transformar as relações entre o público e o privado. Mas, não só na Grécia. Também na Europa como no resto do mundo.

OS CAMINHOS DA EUROPA

1
- A Europa está sofrendo uma ameaça econômica e política complexa. É preciso atentar para a sua realidade. Ela é uma entidade social com corpo e sem cabeça. Ou seja, tem moeda, mas não tem Estado. Gere uma política monetária e financeira, mas não gere uma política fiscal. Na verdade, cada país tem a sua própria e a Europa não tem nenhuma. Portanto, não há integração dos fiscos. Por essa razão, emerge uma motivação fundamental. Este processo da Grécia está pedindo que a União Européia dê mais um passo na direção de um Estado europeu. Esse Estado está longe de acontecer. Mas, a solução da crise grega tem que se dirigir para lá. De um modo ou de outro, a Comunidade deve encontrar mecanismos para alcançar uma nova etapa. O ponto que está visível é a busca de uma coordenação econômica que assegure um mínimo de coerência no campo da fiscalidade coletiva. E esta coordenação vai ser um degrau a mais para a integração das finanças públicas dos Estados membros. Dito claramente: esta coordenação pode esboçar no futuro a criação de um Tesouro europeu. Ao mesmo tempo, que será uma nova baliza no rumo da constituição de um Estados Unidos da Europa ou de uma verdadeira União política européia. Se este não for o itinerário, certamente uma trajetória de longo prazo, a Europa estará ameaçada não só de ficar inerte, como ameaçada de regredir profundamente. E não esqueçamos que além da crise grega temos pela frente a possibilidade de crises fiscais em Portugal, na Itália e na Espanha, etc. Não há escolha. O caminho das decisões, o objetivo estratégico prioritário de ampla duração, deve rumar para a construção de um Estado europeu, na forma preferida e negociada entre os seus participantes.

2- Cada vez fica mais claro, que a Europa foi ultrapassada pela China. Portanto, para se firmar e retornar ao jogo precisa fazer movimentos políticos amplos, e muito difíceis, de busca de unidade dos seus Estados membros. Precisa desenvolver no mínimo uma união econômica de ordem monetária, financeira e fiscal. Precisa elaborar uma estratégia de construção de um Estado, onde a Comissão, o Conselho e o Parlamento europeu, possam de fato ter plenas condições para definir, para os habitantes da região, metas de caráter político, econômico, militar, social e cultural. E, sobretudo, há que encontrar força, portanto poder, para fazê-las cumprir. O primeiro passo principia agora, nesse momento: dar solidariedade ao Estado grego para a solução de seus problemas financeiros. Em benefício da comunidade européia e da sociedade grega. Para tal, será preciso estabelecer um plano adequado de solução da dívida (em 12,7% do PIB quando a permitida pela legislação da Europa é 3%). Contudo, a União Européia não pode parar aí, deve continuar a sua trajetória. Deve estabelecer uma relação institucional de verificação dos dados econômicos dos países membros com segurança. Deve prosseguir com uma política de coordenação fiscal, tanto com a finalidade de solucionar este caso, como de preparar-se para resolver outros que porventura apareçam. E obviamente, estabelecer uma estratégia de unificação política. Cada vez fica mais claro que esse é o caminho a seguir. A Europa ultrapassa a questão shakesperiana. Se recuar, morre. Pois o seu dilema não é ser ou não ser. O seu dilema é ser ou ser. Não há saída - eis a questão!

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Goldman Sachs por trás do desastre grego

Demorou, mas veio à tona. Mais uma vez a Goldman Sachs tem um papel obscuro em uma crise financeira maior. Conta a lenda (real nesse caso) que a GS teria feito um swap de divisas com o governo grego, invisível contabilmente, quando da ascensão da Grécia à Zona do Euro (2002, data de criação da moeda única europeia). Esse empréstimo disfarçado teria sido essencial para que as contas públicas gregas pudessem alcançar as exigências da União Europeia de aderência ao euro. Um certo Mario Draghi (atual presidente do Banco Central da Itália e candidato à sucessão de Jean Claude Trichet como presidente da BCE), então empregado da Goldman, teria sido o intermediário utilizado para a concretização do acordo secreto...

Mais uma vez se misturam burocratas poderosos, governos e a Goldman Sachs em transações mais que nebulosas e que permitem ao banco de investimentos de Nova York lucrar posteriormente a partir de inside information, utilizada inclusive contra seus próprios clientes.

Até quando?

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Vencedor moral?

O resgate da UE pra os gregos mais se parece a um presente de grego: estão dando "apoio moral" às medidas de ajuste fiscal do governo grego. Se comprometem, em caso de agravamento da situação, a tomarem medidas concretas, desde que o governo grego tenha implementado um plano de ajuste crível.
Eessa história toda parece, para nós brasileiros, aquela conversa da Copa de 1982, ainda hoje de má memória: o Brasil foi o "vencedor moral" da Copa. Não ganhou, mas merecia ter ganho. Os gregos não levaram nada, mas tem o "apoio moral" da União Européia. Para agirem direitnho.
No futuro veremos do acerto dessa inação em um contexto onde os rastilhos da desconfiança já se espalharam à Portugal, Espanha, Itália e Irlanda. Num mundo que conta com a pesença de aproximadamente 10.000 hedge funds alavancados, não agir é um convite para maiores turbulências "lucrativas" no futuro próximo. E a economia realizada pela recusa do bail-out aos gregos pode se transformar em mais um gigantesco prejuízo a ser atacado de urgência no futuro, em um filme já reprisado dezenas de vezes.
Links relacionados:
CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
11 de fevereiro de 2010
Coluna das quintas

A SINFONIA
INACABADA
DA CRISE
Por Enéas de Souza

PASSAMOS AO COMPASSO FISCAL

Dando uma volta no mundo, a gente percebe que a crise é como aquele fogo lento que vai comendo uma erva aqui, desamparando uma árvore ali, subindo numa parede mais adiante e devorando uma folha de jornal, logo depois da esquina. E assim, o movimento da chama trabalha o seu passo inexorável. Contudo, um item é claro: não podemos ter como parâmetro para a crise atual a crise dos anos 30. Os desabamentos do capitalismo não são os mesmos. Ele sempre tomba, mas cada vez com um tombo diferente. Dito de outra forma: a configuração das crises não tem nunca o mesmo perfil, cada vez o seu retrato é diferente. Hoje, a foto de lado está mostrando uma profunda crise financeira e produtiva. Mas, já estamos flagrando o desdobramento dela, que vai se dando na península do Estado. Surgiu uma crise fiscal de corpo inteiro, a começar pela Grécia. De mais a mais, são candidatos fortes também Portugal, Espanha, Itália, Irlanda. Ponha-se igualmente a câmera sobre os Estados Unidos: uma dívida enorme, um déficit fiscal alentado, com o governo procurando controlar o orçamento. (E não estamos descrevendo a luta aberta entre as Finanças e Obama.) Mas, voltando à crise fiscal, não podemos negar que os investidores em títulos gregos, além de estarem forçando aumento de taxas para novas aplicações, estão jogando “proteção” contra os referidos ativos através do CDS. O que nos faz pensar que algum rombo nesta área pode levar a crise fiscal a por mais fogo na crise financeira. Ou seja, estamos vendo o começo de uma nova etapa da mesma crise que principiou em 2007?
(Comentário lateral: crise lenta tem este tom! Não termina só porque jornalistas e empresários e economistas dizem que a crise já passou e que estamos no pós-crise. Esta é uma crise que não se decifra num manual de economia matematizado ou no vai que vai de um financista voluntarioso).

O ELÁSTICO DA CRISE

1
- Olhando a anatomia da crise vemos que ela não fica somente nos elementos de uma parte do corpo. O rosto, por exemplo, que poderiam representar as finanças. O rosto com seus olhos que calculam a potencialidade pecuniária dos títulos. Ao contrário, ela revela que este corpo ocupa um lugar no conjunto do espaço e do mundo. E que este espaço e este mundo também estão empoeirados, estão bichados, estão devastados. Olhe só um pouquinho: o planeta atravessa uma crise ecológica sem precedentes, que afeta tanto a realidade rural como a urbana. E neste último aspecto, fala-se pouco, mas aqui o trauma é lancinante. Caos de transporte, caos de circulação, caos de distribuição de espaços, caos de moradias, caos de prevenções as mais diversas, caos de acessibilidade. E toda esta bagunça descortina na moldura das cidades, expressivas neves, temporais assustadores, terríveis abalos sísmicos, tempestades dementes, desaforados temporais e tsunamis terroristas. Dizendo rapidamente: uma série de catástrofes. Longamente anunciadas pelos ambientalistas, pelos ecologistas, pelos urbanistas, pelos arquitetos. E se a gente olha atrás deste panorama, há como que uma fiel companheira, mais guia do que seguidora, uma robusta crise de valores, cuja dança termina numa crise da civilização. Parece que estamos cortejando o pessimismo. Mas, Tarkovski, não terá razão quando diz que o pessimista é um otimista bem informado?

2 - Veja-se a crise de 30. A expectativa, não confirmada, era que havia a esperança de uma mudança para o socialismo, onde tudo seria diferente. Esta utopia que começava a fazer plantão já na guerra de 1914, atravessou a segunda guerra mundial, e esvaiu-se na praia e na queda dos muros dos anos 90. Hoje, na verdade, esta crise não tem utopia, tem o rosto de Medusa. Porque além se ser uma crise muito feia, as pessoas ficaram amnésicas; buscam saídas imaginárias, fantasiosas, de um otimismo prá cima. E não chegam a sentir que há de fato uma tremenda crise. No fundo, no fundo, esta amnésia mostra a máscara de um outro rosto, o rosto da impotência. A crise de fato está se autonomizando. Escapou das finanças, escapou da produção. E ameaça escapar do Estado. Falam que a verdadeira ameaça é o niilismo, como diria Nietzsche, que segue comandando este declínio americano e este tumulto da contemporaneidade. Com a barbárie dando vivas aos seus maiorais, a crise mergulha na noite dos crimes e dos medos. Bósnia, Bagdá, não são apenas nomes. Mas esperemos a inversão dialética: toda barbárie tem um quê de civilização. E que esta possa mudar o sinal da dinâmica social. E o tempo é uma questão chave. A crise dos anos 30 só inverteu o caminho da destruição depois da segunda guerra mundial. Uma guerra não é inexorável, porque os conflitos não necessariamente se solucionam apenas através da devastação bélica. Pois, a política está aí para isso. Mas, a pergunta, que vai ao ar, indaga: como a barbárie toma o míssil da civilização?

O TEMPO REI

1 - A temporalidade desta crise é complexa. Ela não é linear e, ao contrário daquela dos anos 30, não tem uma perspectiva fora do sistema capitalista. O capitalismo se mostra vulnerável, mas não parece estar numa crise terminal. Portanto, há que examinar e pensar a sua temporalidade. Crise financeira e crise produtiva chegaram juntas. A crise fiscal vem atravessando a rua e pode dar um novo choque na crise financeira e produtiva. Usando uma idéia schumpeteriana, o mundo tem um caminho de evolução que passa pela maturidade da trajetória das novas tecnologias de informação e pela busca de um novo paradigma energético. Mas, estes pontos estão apenas vislumbrados para daqui a pouco, no futuro da temporalidade. Fazem parte da resolução da crise. No entanto, eles habitam a beira da margem, ainda escura, deste rio. Há que clarear o horizonte para que eles naveguem. Não se pode deixar de ter cuidados, pois com o capitalismo se tornando cada vez mais companheiro do crime (desde o narcotráfico às empresas militares privadas), o trânsito do tempo em busca de uma nova perspectiva, inclusive de civilização, tem um longo caminho a percorrer. Thiago de Mello sempre teve razão: faz noite, mas eu canto.

2 – O atencioso leitor cético deve se questionar e inquirir: porque a sociedade se recusa a enfrentar todos esses personagens do apocalipse? (Que para muitos não são quatro como pensava Minelli, são muito mais. Guerra, peste, fome, corrupção, traição, predação, dizimação, genocídio, etc.) Daí, mesmo na sombra, com um olhar mais avantajado, passamos à pergunta seguinte: porque as festas do consumo, o gozo da guerra, a destruição do corpo do outro, a busca da escravidão, o assassinato como forma de política e de sociabilidade, etc. continuam a vigorar com uma intensidade perigosamente alta? Vamos assim de Ruanda ao Haiti, da máfia chinesa às finanças, do tráfico de drogas ao tráfico de pessoas, do consumo de drogas pesadas às “notícias de uma guerra particular”? Se a nuvem da ideologia é rompida, o mundo parece tenebroso. E estas facetas são coisas tão ativas que fazem do mundo atual a hora de uma sinfonia inacabada, por excesso de barulho e de bandoleiros. Mas, a temporalidade da crise continua avançando enquanto o celular da detonação está sendo ativado. O tempo, no entanto, continua rei, se transforma dando as cartas. A equação está pronta corretamente: de um lado a crise tende a sua explosão; de outro, a humanidade só é capaz de colocar os problemas que pode resolver. Como é que, então, se tira a cabeça do prêmio?

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
04 de fevereiro de 2010
Coluna das quintas

DONOS DO PODER
E SEUS
LANCES DE DADOS

Por Enéas de Souza


I - A SUPREMA CORTE DECIDE A FAVOR DE QUEM?

1 - A primeira coisa que está complicando, fazendo um certo rombo na turma do Obama, é um forte ataque dos conservadores, dos financistas e dos grandes empresários contra o controle da democracia. Poucos estão se dando conta desta decisão da Suprema Corte (5 a 4) que definiu pela não-limitação dos recursos que as corporações podem dar nas contribuições pecuniárias à política. Não interessa os artifícios que sustentaram esta aprovação (absurdos como este argumento de igualar corporações a pessoas, afirmando que todos devem ter liberdade para manifestar sua opinião). O que importa, verdadeiramente, é que, através do judiciário, o Estado americano tomou uma decisão favorável à presença mais intensa e sem limites dos setores produtivos, financeiros e mercantis – enfim, empresariais – na arena da política.

2 - Ora, obviamente, isto é uma dupla ameaça para Obama. De um lado, a abertura para o capital financeiro dando-lhe uma poderosíssima arma: usar todos os seus recursos com a finalidade de derrotar qualquer pretensão de organização, por parte do Estado, da arquitetura financeira. Continua a vontade predadora de bancos e entidades financeiras, seja na propaganda, seja nos lobbies, seja no volume de dispêndio, seja na própria atividade econômica. E, no fundo, no fundo, uma derrota para a justiça e para a democracia americanas. E, por extensão, um revés para a população pobre, um bloqueio evidente com a finalidade de deter as transformações sociais. De outro lado, não há dúvida: estão se abrindo perspectivas para gastos favoráveis, seja à promoção do retorno à velha especulação financeira, seja à atuação bélica, cujo orçamento praticamente não foi cortado. São os perdedores da guerra do Iraque, entre elas as empresas de construção de infra-estrutura, que retornam pela porta do tribunal. Ou seja, o setor financeiro e o setor bélico se unem para se abraçarem no declínio dos Estados Unidos, mas não sem resistirem e não sem atuarem fortemente na cadência de uma melodia de baixa qualidade, em nome da democracia para, pensamos nós, destruir a democracia. E pensar que os Estados Unidos, na Segunda Guerra Mundial, foram os campeões da liberdade. Certamente, Machado de Assis diria: mudou o Natal!

3 - Obama está novamente em cheque. Estão gostando dele como alvo. Esta decisão da Suprema Corte dá armas aos seus adversários e está contra a maioria do povo americano, que votou e aceitou a proposta de Obama. O problema é que não basta um governante ser eleito, existem instituições e estruturas sociais e governamentais que impedem um presidente de dar curso aos seus projetos. Anulou-se a grande amplitude do healthcare e busca-se impedir o controle das finanças, via lobbies e ações financeiras. E as forças adversárias mandaram um recado ao presidente: nós vamos usar a justiça e na justiça não vai ser fácil. E é verdade, a batalha está se deslocando do econômico para o campo político, mas com colorações jurídicas. Pois vejam, além desta medida da Suprema Corte, as finanças ameaçam entrar em campo no judiciário contra a taxação dos 50 maiores bancos por terem causado prejuízos aos contribuintes na crise financeira recente. Uma lei que seria aprovada no Congresso. E os 50 bancos ajuizariam contra ela, por ela ser uma lei discriminadora dos 50 bancos (sic!). Por tudo isso, Obama vai estar este ano sob forte ameaça de temporais e perigosos deslizamentos, portanto não apenas um cerco, mas estocadas visando a paralisia do Estado. Senão, a conversão para o conservadorismo da direita. Como o presidente não deu o golpe de morte logo que assumiu o governo, agora, depois de vitaminadas, elas, as finanças, jamais aceitarão a bênção de um projeto de ampliação da democracia, via controle das finanças e da guerra, um projeto de criação de um sistema de proteção da saúde.

II - VOLTAMOS A SER QUINTAL?

1 - Eis uma segunda coisa que está complicando: é preciso sentir uma mudança geral dos Estados Unidos em relação à América Latina. Primeiro Objetivo: apossar-se da Venezuela sob forma política, ideológica e militar. Como ação: desmoralizar o projeto bolivariano e, com isso, derrotar Chaves. E ameaçar e isolar Evo Morales. Claro o objetivo fundamental é econômico, obter o petróleo venezuelano, cujas reservas estão notavelmente expressivas, sobretudo, depois da descoberta das reservas do Orinoco. Portanto, retorna o objetivo predador do grupo bélico e petroleiro. Tudo à moda Texas. Será que a Venezuela vai ser mais comodamente o Iraque que este grupo não teve?

2 - Segundo objetivo: desvincular a crescente presença do Brasil na liderança da América Latina. Naturalmente, que não está em questão forçar um golpe no país, como em 1964. Isso seria uma incompetência no momento, mesmo porque o Brasil cresceu econômica e politicamente. Apenas, se trata de botar o Brasil, esta aspiração de liderança, no seu lugar. Episódios como de Honduras e do Haiti mostram isso. E como a vulnerabilidade brasileira é militar, nada melhor do que a Quarta Frota para mostrar um pouco das garras da águia americana. O interesse dos Estados Unidos continua sendo dividir o controle da América Latina com o Brasil, mas sob a sua estrita obediência. Mas, não somos mais como antigamente. Crescemos e pretendemos ser uma potência média mundial O problema é que o Brasil é muito pequeno diante da primeira nação do mundo. Deve, portanto, frente as últimas manifestações do nosso parceiro, responder, desde agora, com uma certa flexibilidade no campo diplomático. Depois de tanto capital acumulado, as manobras tem que visar não sofrer derrotas contundentes.

3 – E, em segundo lugar, buscar rapidamente essa associação com a França, para estabelecer uma mínima capacidade bélica, seja para se atuar nestas situações como a do Haiti e não sair lascado; seja, inclusive, para proteger nossas riquezas como a Amazônia, como a água, como o petróleo. Não podemos nos enganar: o quadro tem mudado. Olhe-se o episódio de Honduras e o deslocamento “humanitário” que os americanos fizeram no Haiti, e perceba-se o novo eixo Uribe-Piñeyra, além da ampliação das bases americanas na região. Os meteorologistas detectaram que os ventos dos anos 60 estão retornando. Enquanto Bush e Cheney pensavam no Iraque, as coisas estavam bem; agora que Obama pensa na América Latinas, as coisas pioraram. Não se enxerga na oficina do Pentágono algo de novo? Não haverá uma busca de propor ao Brasil uma lição de conflito para que ele se situe, no mundo e na América do Sul, sob o insofismável comando americano? Um Brasil alinhado ajudaria a reconversão venezuelana. Mas há uma pergunta que diplomatas brasileiros conservadores, como nos falava num artigo José Luis Fiori, não ousam perguntar: um pouco de independência para o país não faz bem? (Mas, não é verdade também, como escrevia Florestan Fernandes, que há gente no Brasil que prefere a submissão voluntária e proveitosa para comerciar à sombra do guarda-chuva do irmão maior?)

quinta-feira, janeiro 28, 2010



CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
28 de janeiro de 2010
Coluna das quintas

QUÁ, QUÁ, RÁ, QUÁ, QUÁ
Por Enéas de Souza

Olha lá, Davos! Estão discutindo a tentativa de regulação da economia financeira. Só este fato, já é algo picante, sobretudo quando este Fórum for olhado pelo ângulo de anos atrás, quando a arrogância dele era extrema. Mas, isso não é o melhor. O mais hilário são certos economistas, que ainda tem cara de pau de vir na televisão, e dizer que Davos não tem mais sentido. E a razão é única: Davos está atacando os princípios do capitalismo. E fundamentalmente, porque a solução agora proposta vai na direção anti-capitalista. Disse um, numa TV brasileira por assinatura, que as causas do diagnóstico estavam erradas. O problema não tinha sido o capital financeiro, mas os governos.Claro, os governos. Olha a velha cantoria: gastam muito, não controlam suas contas, não fazem o dever de casa.. Os governos é que foram os verdadeiros culpados. E, sobretudo agora, quando estão aumentando a sua gigantesca dívida.

A cara de pau chegou ao inimaginável, porque nem o mendigo da esquina desconhece que o endividamento, mais recente dos Estados, foi para salvar os bancos. Realmente aquele personagem do Jô Soares de anos atrás, serve bem para este cidadão falante, quando dizia: “Fica vermelha cara sem vergonha”. Mas, o mais terrível está na figura: não era um banqueiro, não era um capitalista, não era um político, quem dava a entrevista. Era um colega economista. Ora, que cara maneiro. Será que o verso de Ataulfo Alves está certo: “quanto mais conheço os homens, cada vez mais gosto do meu cão”? E o que é estarrecedor: este argumento, que foi lançado logo no início da crise, pelos banqueiro, não pegou nem mesmo entre os próprios banqueiros. Como é que tempos depois, um futuro prêmio Nobel, sim só pode ser, – e prêmio Nobel brasileiro – vem apregoar esta deliciosa parábola: a causa da crise foram os governos. A minha decepção foi imensa e abismal, não pelas suas declarações ditas a sério, mas porque não ouvi sonoras e gostosas gargalhadas no estúdio. Podia ser de todo o estúdio, não ficava mal; podia ser toda emissora de televisão, sairia consagrada; podiam ser de todos seus tele-espectadores, o que evidenciaria a seriedade da audição. O riso podia explodir com toda a gratuidade porque a piada é ótima. Mas, as risadas não apareceram. Terá tido algum coitado que tenha acreditado? Não, não acredito. E por isso me arrisco: tenho um conselho, se é que posso dar, aos banqueiros descuidados que gostam de contratar esses ideólogos de cintura grossa. Olha, querido banqueiro, pega mal, essa gente é mercadoria deteriorada, beberam. E se foram contratados, rápido, cancela a conta. E se ele insistir, diz que não está!

POPULISTA!

Continuamos em Davos. O Presidente de uma agência de auditoria famosa « Pricewaterhouse », o inimitável Denis Hallis, disse que o debate sobre as reformas econômicas é um “debate populista”. Pode ter um bom ar, soa bem. “Mas, será que ele é eficaz?. O populismo domina o debate » Estou chorando com a infelicidade e a preocupação cívica do referido presidente. Novamente o refrão. Quando se toma posição que afeta o setor privilegiado, o setor dos bancos, os assessores saem que nem uma matilha de lobos e acusam a, b, c, ou qualquer autoridade de “populista”. E queriam que Obama fosse o que? Elistista? Por mais que financiem a campanha, quem vota sãos os populares.

Quando o governo saiu em defesa dos banqueiros, ninguém gritou: populista. Todos os financistas falaram em risco sistêmico. Como aqui na época do FHC, por ocasião do PROER. O delicioso nesses tempos atuais tem esta face: os banqueiros que exploraram os investidores, que exploraram os aplicadores, que exploraram os portadores de ações, que exploraram o governo, que exploraram os contribuintes, não acharam nada. Jogaram como a Goldman Sachs apostando contra os seus próprios clientes; mas isso não é vigarice, faz parte do jogo econômico E agora, no Congresso americano ao deporem sobre o imposto proposto por Obama, sobre os bancos para compensar perdas do governo e dos contribuintes, por estes banqueiros terem usado o dinheiro público, eles disseram descaradamente que quem ia pagar, de qualquer jeito mesmo, eram os contribuintes. Por isso, não querem pagar. E, atenção,este imposto era para ser pago em 10 anos, hein? Agora, quando Obama insiste, assoprado por Volker - o conservador que sabe dos revolveres - em separar os bancos comerciais dos bancos de investimento, a fúria dos bancos redobra. Populista! Socialista! Que seja! Porque o banco de investimento é o dínamo da especulação e o dinamite da economia. Eles foram dizimados logo no início da crise. A sua volta é a volta de uma morte anunciada. Mesmo assim as finanças insistem. Porque? Como me disse uma vez um capitalista: “vamos tirar desta laranja todo o suco possível, enquanto der”. E o caso é o seguinte: se os banqueiros não forem parados, adeus a presidência do Obama. A revolta do povo americano que sopra forte estará cada vez mais em alto mar. Obama está jogando a sua vida política.

sexta-feira, janeiro 22, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Obama vai conseguir colocar a finança de volta na garrafa?

A proposta de reforma financeira de Obama "chocou" o mundo financeiro. O "inimaginável' aconteceu mais uma vez nessa crise: Obama propõe aprisionar e cantonar as instituições financeiras, amordaçando-as em regras rígidas.

Vamos a uma avaliação geral da situação antes de entrarmos nos detalhes da proposta. Tal qual eu e o Enéas vimos alertando desde o início desse processo ainda em 2007, dada a explosão em todos os pontos que articulavam o sistema e que ficou explícita em 2008, seria impossível mantê-lo intacto. A melhora de 2009 fortaleceu essa ilusão, mas essa foi uma recuperação exclusivamente contábil do balanço das empresas financeiras, a partir de uma transferência massiva de recursos do Estado para o setor. Ao contrário da saída de outras crises, a capacidade de soprar bolhas nos preços dos ativos (como vem ocorrendo nas bolsas de valores, nos "mercados emergentes" e nas commodities) não mais consegue dinamizar a economia como um todo. A hegemonia financeira não é mais funcional à acumulação do capital, ao contrário, é um entrave que exaure a capacidade do Estado de apoiar outras alternativas capazes de aglutinar um novo núcleo sistêmico expansivo. O centro do capitalismo mundial, os EUA, estão correndo sério risco de se arrastarem durante longos anos na digestão dessas perdas em uma economia estagnada à la Japão (isso apesar dos áulicos nos lembrarem todo o tempo das virtudes da flexibilidade e da capacidade adaptativa da economia norte-americana).

Os reflexos políticos da crise econômica provocada pela finança inevitavelmente se fariam sentir. Obama não conseguiu nem mesmo propor uma reforma financeira quando de sua posse e existem algumas hipóteses para esse fato. Ele teria acreditado na recuperação da finança e na eficácia permanente do estímulo fiscal e, portanto, teria sido persuadido pelo lobby financeiro a empurrar para o futuro alguma solução para a questão. Em outra possibilidade, Obama teria sido convencido que, dada a péssima situação do setor financeiro, qualquer regulação e restrição das atividades seria contraproducente (o timing seria inadequado). Uma outra, dentre tantas hipóteses a mais provável, dá conta de que a ação do lobby financeiro no Congresso teria impedido até mesmo a discussão de uma reforma. O certo é que alguns conselheiros de Obama (como Paul Volcker principalmente) e outros economistas ligados ao partido com influência na opinião pública (como Paul Krugman e Robert Reich, dentre outros) vem alertando para a imperiosidade de controlar o setor financeiro, embora em minoria numa administração cujos nomes proeminentes são Summers e Geithner.

Mas o tempo político se acelerou nesse início de 2010. A derrota dos Democratas em Massachussets, a péssima perspectiva do partido para as futuras eleições congressuais e a necessidade de ter algo a apresentar no discurso sobre o Estado da União na próxima semana empurraram Obama à ação nesse momento. A popularidade do Presidente está em queda e a bronca da opinião pública com a liberdade de ação do setor financeiro, em alta. Ao contrário do que parece quando se escuta a mídia triunfante, a economia norte-americana já apresenta sinais de que a estagnação está se transformando em nova desaceleração, como mostra o aumento no número de pedidos de seguro desemprego nas últimas semanas e o aumento no número de foreclosures combinado à queda na venda de imóveis novos.

E Obama passou da inação ao ataque com uma velocidade que surpreendeu o lobby financeiro. Sua proposta, espertamente cunhada "Volcker Rule" para se aproveitar do prestígio junto aos conservadores do ex-Presidente monetarista do FED Paul Volcker, é de compartimentar novamente a estrutura do sistema financeiro, proibindo a atuação de bancos comerciais em atividades próprias aos bancos de investimento. É um ataque direto à estrutura de bancos múltiplos que transformou as instituições em supermercados financeiros com uma infinidade de produtos. Os bancos não poderiam mais emprestar recursos aos fundos hedge e aos fundos de private equity, e, principalmente, não poderiam utilizar recursos próprios para a constituição de mesas de operação especulativas (atividades típicas de hedge funds, o chamado proprietary trading).

Estas atividades levam a vários conflitos de interesse, pois permitem a prática do front running (tomar a frente se engajando na compra de ações e títulos cujos preços sofrerão variação posterior por ordens de compra dos próprios clientes do banco) e outras operações de arbitragem possibilitadas pela interação entre os negócios com dinheiro próprio e os negócios com dinheiro dos clientes. A reforma de Obama levaria ao fim das atividades de divisões que operam como hedge funds dentro dos bancos e ao fim do uso de dinheiro de depósitos bancários (seguros pelo governo) em operações eminentemente especulativas. Obrigatoriamente, os bancos comerciais teriam de se desfazer de suas operações como bancos de investimento, levando a uma fissão das instituições e a uma redução do tamanho dos bancos (reduziindo o risco sistêmico ), bem como a um melhor controle e supervisão das atividades bancárias típicas. Uma limitação da alavancagem nas operações com divisas também está em estudo. Ou seja, trata-se de uma completa mudança na estrutura e na forma de atuação do sistema financeiro, separando atividades especulativas das atividades bancárias tradicionais.

A proposta, entretanto, é incompleta, ao não trazer regras para a operação com derivativos, nem para a difusão das chamadas inovações financeiras. Sabe-se, de outra parte, que essa reforma vem sendo estudada em nível da BIS e de outras instituições como algo geral e planetário, uma vez que sua implantação em um mercado nacional apenas deslocaria as operações geograficamente, sem alterar o risco por elas colocado.

As cartas agora estão na mesa e o Congresso norte-americano vai decidir a parada. Os lobbies vão lutar com todas as forças para ao menos amenizar as restrições à atuação do setor (ao que parece, a definição do que é proprietary trading é o ponto crucial para a efetividade da propsição e é aí que os lobbies vão atuar). Wall Street foi pega de surpresa e considera que "Obama declarou guerra ao setor financeiro". Obama afirmou que "se é luta que querem, eles terão e eu estou pronto para a luta". Imediatamente a mídia financeira passou a ridicularizar a proposta, dizendo-a 'inócua e populista" (essa expressão não podia faltar...). Caso a reforma passe nos termos propostos por Obama, o capítulo da desregulamentação financeira será página virada para os próximos anos. E, provavelmente, será um marco na desmontagem da hegemonia financeira. Mas a força política do setor financeiro é imensa e o resultado dessa luta é tão incerto quanto é importante para o futuro da economia mundial.

Em tempos de Fórum Social Mundial, Obama está a dizer que um outro mundo capitalista é urgente, possível e necessário. Não é o meu mundo, nem o nosso mundo dos sonhos, mas é o projeto norte-americano para a economia mundial que começa a ser reformulado, de dentro para fora. As instituições do neoliberalismo começam a ser definitivamente desmontadas, ao menos, essa é a tentativa de Obama. O que virá em seu lugar?

quinta-feira, janeiro 21, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
Coluna das quintas
21 de janeiro de 2010

OBAMA E O NOVO
FAROESTE AMERICANO

Por Enéas de Souza

A vitória republicana em Massachusetts demonstra não o fracasso de Obama, representa um recado, o povo americano está insatisfeito. E pelos dois lados. Pela direita, sob o império dos bancos e da mente neoliberal de guerra, a vontade de liberdade para o sistema financeiro e para a expansão do poder militar com gastos governamentais justamente nesta área. Pelo centro e pela esquerda, um grito contra a impotência imediata do presidente diante do poderio das instituições bancárias e dos financistas, a fraqueza diante das questões energéticas e ecológicas, como aconteceu em Copenhagen; a lentidão em apoiar a retomada industrial; a falta de atenção ao emprego que atinge mais de 10% da força de trabalho, etc. A mistura do coquetel de posições de direita e de esquerda deu, num estado que tinha como representante um Kennedy, portanto, um democrata, a mensagem, o aviso da população. Take care.

OBAMA ESTÁ NA RODA

a) O balanço do descaramento

Olhando de um ponto de vista mais estrutural, pode-se ver o seguinte: Obama dança o seu cool jazz no meio de um círculo de ferro das classes no poder. A hegemonia está com as finanças, o que significa não apenas liderar economicamente a nação e o mundo, mas ter condições de influir na definição do Estado. E o que ela quer mesmo é a continuidade dele com a sua atual organização. Ou seja, O Estado deve continuar financeiro. E diz isso descaradamente. Agora. E diz com todas as pressões e abertamente, porque antes a hegemonia estava coberta com o véu ideológico. Agora não; agora escancarou tudo. Agora é nu frontal. Senão, vejamos. Para estupefação geral, os banqueiros tomaram dinheiro do Estado com a finalidade de resolver seus problemas com os ativos podres, com falta de caixa, com a carência de capital. E todo mundo viu, todo mundo sabe, não resolveram. O Citi, por exemplo, anunciou nesta semana, que deu prejuízo, mas foi um preju que não impediu a direção de pensar em distribuir os famosos bônus. Envergonhado, fala em diminuir os valores, mas outros bancos, que tem dinheiro do Estado como o próprio Citi, reservaram para si polpudas recompensas. O bônus é o escândalo da dominação e da hegemonia financeira. Logo, um fato como esse, revela, como uma fenda geológica num terremoto, a visão da desigualdade social. E na hora presente, o tratamento político e econômico débil, por parte do Estado, na preservação dos interesses coletivos. E aparece como evidente – absolutamente evidente para a população – que os financistas mandam e o governo obedece contrafeito por falta de força e age com inquietante hesitação. Logo, a conseqüência emerge: os eleitores votam pelos republicanos, contra Obama.

b) O equívoco do lance estratégico

A direita tem mais um outro grupo, os fiéis da guerra, os seguidores da seita Cheney, que fustigam fortemente a política externa americana. São cães que ladram no limite da ferocidade. Batalham em defesa da “América” em perigo. O discurso segue sempre na mesma direção: precisa-se de mais militares no Iraque, Obama disse e diz que não. Tentou uma manobra: deslocar o eixo da guerra para o Afeganistão. Ampliou o espaço para a fala guerreira. Pois não dá para sair do Iraque porque senão ele desmancha. E acabou por se envolver no Afeganistão. Ganhou o prêmio da Paz, por declarações de princípios não confirmadas. E está perdendo a batalha da guerra por equívoco de concessão aos militaristas na sua estratégia política. E os atentados dos Talibans põem fogo nas esperanças dos pacifistas. Enquanto isso, a direita americana, rejubilando-se, tenta empurrar o rastilho para o Irã. Só que o Irã está escapando, acabou de fazer um acordo concreto para uma rede de gás e petróleo, que envolve o Turbequistão, a China, a Rússia e o próprio Irã. Ou seja, os americanos não conseguiram isolar este país e tiveram como resposta política um eixo econômico que garante a Ahmadinejad um trunfo de resistência muito forte. Claro, a direita fustiga Obama. E o centro, e a esquerda e os pacifistas clamam contra as tortuosidades do presidente. Resultado: as urnas votam contra.

I LOVE THIS GUY

Claro, Obama tem uma estratégia semelhante ao Lula. Está cercado e vai tentar sair do terreno minado. Sair pelo popular. Tem mais dois anos para ganhar a esperança da reeleição. Até agora está faltando para ele algo como uma bolsa família e seus derivados. Começou com o Healthcare, mas o resultado é ainda indeciso, talvez nebuloso. Não conseguiu emplacar o alvo maior que era o seguro do Estado. Não conseguiu a cobertura universal, é verdade, mas ao menos botou 36 milhões de novos segurados, via recursos do Estado no jogo. Só que este dinheiro vai entrar nos cofres do setor privado. Mas a proposta ainda não é vencedora, tem que passar no Senado. E com a derrota de Massachusetts o projeto treme e Obama vai ter negociar para ganhar. Se perder, sua reputação vai se derreter vivamente.

Já na reforma financeira a coisa tá preta, tem uma montanha de lobbies das finanças jogando no ataque. E agora a adversidade aumentou, há uma fúria dos banqueiros e financistas na questão das taxas sobre os cinquenta maiores bancos. Aqui nesta arena a impulsão contra Obama é devastadora. Suas cartas não têm a natureza do curto prazo, são aquelas que atingem o curso longo: energia, meio ambiente, mudança da estrutura produtiva com ampliações da área tecnológica de comunicações e informações, reformulação no médio prazo do setor financeiro, etc. Bem, para cumprir a rota e pousar neste aeroporto, de fato, tem que fazer uma estratégia à la Lula: tentar ganhar a população no primeiro mandato para alcançar, no segundo, a intensidade suficiente, com o fim de produzir as mudanças que levariam aos seus objetivos. O problema é que, para atrapalhar o cenário, o prestígio americano está declinando tanto na economia como na política. E isso serve à direita e ao voto contra Obama para fabricar a tentativa de cortar o segundo período presidencial.

Assim, o ano de largada do novo mandatário foi um prolongado e progressivo desgaste do eleito, uma erosão do seu governo. Mas na política democrática o que importa não é o hoje, é o balanço que o povo faz na próxima eleição. O peso do pró e do contra, ou seja, da avaliação concreta das múltiplas medidas e das múltiplas atitudes, da materialização da estratégia proposta e da imagem que o presidente vai conseguir construir. De qualquer maneira, o sentimento que se tem do primeiro ano é o que se nota: Obama tem jogo, mas está cercado. Como nos antigos filmes de faroeste, a caravana está envolvida pelos índios. Só que nestes anos do século XXI, a Cavalaria que vem é contra e está do lado dos índios.

Quem poderá intervir a favor de Obama? Haverá um deus ex-machina, um super-herói, que salvará o segundo mandato? A estratégia à la Lula de furar o muro terá sucesso? É fatal: Obama tem dois, dois anos e meio, para abrir o cerco das finanças e dos homens da guerra.

quinta-feira, janeiro 14, 2010

CRISE ECONÔMICA MUNDIAL
Coluna das quintas
14 de janeiro de 2010

ECONOMIA
BRASILEIRA:
NA VERTIGEM
DA EUFORIA

Por Enéas de Souza



Temos falado que o Brasil saiu, dentro das possibilidades, muito bem na crise. Agora se começa a pensar o que será o ano de 2010. E é preciso tentar entender este fenômeno, este corpo de economia brasileira na qual ela está se transformando. E se transformará. É preciso olhar como nos filmes de Philippe Grandrieux: ver o corpo, o seu ritmo, o peso dele, os seus ossos, a sua carne, o direito e o avesso das entranhas, etc. No caso específico de um crítico de conjuntura, dar uma olhada no esboço que trama como será este corpo da economia brasileira. E por quê? Porque já há gente que quer fazer da economia brasileira um espetáculo. Será o espetáculo de crescimento de que falava Lula? Antes de seguirmos adiante, pensemos um pouco nos nossos comportamentos de nação: de um lado, temos o “complexo de vira lata” de que nos falava Nelson Rodrigues, mas também aquela imagem megalô, “somos os campeões” do mundo, “Deus é brasileiro”. E vai ser difícil de nos demorarmos nesse olhar sobre o futuro (“Brasil, país do futuro”) porque 2010 vai ser o campo e o festival e o carnaval das ideologias. Trata-se, nem o mais desligado mauricinho desconhece, de um ano eleitoral, imensamente decisivo para a nossa história. Está em jogo o projeto Lula, mesmo que o antilulismo do PSDB queira evitar o tema.

Como se mexe a serpente

A economia é uma víbora que se mexe em busca de alimento, tem uma fome desgraçada. Quando está razoavelmente alimentada – aleluia! – viaja dando esperanças, fica quieta e deixa o mundo ter contentamentos e viver. Mas, quando entra em colapso, joga excremento em todo mundo, e põe uns contra outros, acusações e vociferações. Dito isso, como é que vamos entender as coisas agora? Os Estados Unidos sonharam a eternidade financeira e deram uma topada em ativos podres e se esborracharam no chão. Levaram consigo todas as economias do mundo, mas nem todos os países na globalização caíram do mesmo jeito. Mesmo porque as economias reagem diferente. A China, antes das outras, revirou-se, o Estado agiu e já está crescendo a mais de 9%. E, o Brasil? O Estado, limitado na sua força pelos anos neoliberais, desdobrou-se, renunciou impostos, definiu setores privilegiados e dinâmicos, escalonando uma série de isenções – desde automóveis até infra-estrutura, e segurou a queda da economia no abismo. Fez como Gary Grant quando reteve a queda de Eva Marie Saint nas cenas finais de “Intriga Internacional”, filme de Alfred Hitchcock. Neste movimento, o Brasil mostrou sua nova fase. A tradicional e falada pneumonia, que durante as crises anteriores se abatia sobre o Brasil, tornou-se, desta vez, fortes espirros de uma boa gripe. E não passou disso: uma boa gripe. E passageira. E, sobretudo, o setor mais pobre continuou atendido: bolsa família, aumento do salário mínimo, crédito consignado; incentivo para compra de produtos de eletrodomésticos, linha branca. Até a classe média baixa, média e alta trocaram de carro. De outro lado, para os de menor renda desenhou-se um programa especial: minha vida, minha casa. Portanto, o governo fica como passarinho imobilizado na frente da serpente.

Vamos dar um passo a mais na nossa análise. Sempre falamos que havia uma divisão, um corte profundo no Estado. Um setor desenvolvimentista, ligado num Estado intervencionista, e um setor que tenta forçar uma política de acumulação para as finanças, um Estado neoliberal, aberto – e bota braços abertos – para o capital internacional, para o setor financeiro. Bom, pois são estes caras que estão deslumbrados com o Brasil (também com a China, a Índia, etc.). E por quê? Ah, meus irmãos, o olho gordo das finanças. Ela está enxergando aqui no Brasil um espaço para a sua acumulação privada. Duvidam? Temos uma taxa de lucratividade altíssima, como nos afirma Delfim Netto (Carta Capital, desta semana), a valorização é de 7 a 8%, ao mês – e em dólar. Claro que ela vai vir, como já está vindo. Uma tempestade de investimentos internacionais em direção ao Brasil. Para que servem as taxas de juros zero ou quase zero nos países maduros? Temos aí a origem da alavancagem que propicia a emigração dos capitais para a terra de Macunaíma. E na revoada desses pássaros, apenas um partezinha pequena desce no ninho da produção. O grosso das tropas, a massa de insetos e de gafanhotos, vem não para o barco dos produtos, mas para a bacia financeira, para o mercado financeiro e para a Bolsa. E é ainda porque todo mundo está de férias que não estamos sentindo o ruído da manada. Mas já têm gente, alguns programas de televisão conhecidos, entrando na fase que Kindleberger chamaria de “euforia”. Ou, seja o Brasil já está entrando em campo para ser o campeão do mundo.

Quando a gangorra sobe...

Tudo está pronto para a festa. O Estado está com o comando da situação, mesmo dividido internamente. O lado desenvolvimentista conseguiu conclamar os empresários ao investimento, pelo PAC, pelas ações da Petrobrás, pelas isenções fiscais, pela ação do sistema de financiamento público (Banco do Brasil, Caixa, BNDES), pela força que tem dado ao mercado interno: salário mínimo, crédito, programa habitacional, isenções fiscais, etc. Os únicos pontos adversos são o câmbio (que facilitará as importações e dificultará as exportações) e a taxa de juros, como sempre alta para deter inflações, mas apetitosa para atrair capitais, etc. Além do mais estão disponíveis uma vasta e interessante gama de empresas que podem ser adquiridas e fusionadas no processo e no vendaval de capitais, que já está aportando e aportará por aqui. Ou seja, tudo promete um 2010 um ano de oba, oba, uma caravana jubilatória. Ainda mais que, sendo ano eleitoral, os gastos governamentais estarão em ação. E não adianta a oposição econômica e política, os liberais, a direita e o PSDB, pedir: contenção dos gastos correntes, aumento do superávit fiscal, controle da dívida pública, diminuição de impostos e o que mais que seja, que o clima será, se não houver uma queda brutal da economia americana ou internacional, de grandes resultados, de grandes saltos. O nosso Armínio Fraga, insuspeito economista, já disse que a economia brasileira vai crescer entre 4,5 e 5%. Mais do que a média dos oitos anos de FHC. E, se a previsão do governo de 5,8 for alcançada, ela baterá todo e qualquer recorde de crescimento das últimas décadas. O que estamos querendo dizer com tudo isso é que o samba das finanças, da produção e do governo pode dar um bom ano para o Brasil.

O problema é a falação que vem junto, sobretudo a falação dos liberais. Sim, mas tudo isso tem que ser considerado dentro do tumulto da eleição que está chegando. Como no Brasil, a eleição se mede pela economia e a economia se mede pela política, fica claro a quem ela beneficiará. Vai dar capital internacional, vai dar banco brasileiro em primeiro lugar, vai dar setor produtivo estatal e privado em segundo, e vai dar emprego e salário em terceiro. E isso vai assustar o Serra. Será? Será que ele vai arrepiar a corrida presidencial? Mas, seja que ganhe Dilma ou ganhe Serra, o que é certo é que a ideologia neoliberal vai tentar a sua fatia neste condomínio econômico. Mas se isto ocorrer na economia – atenção, estou dizendo: se isto ocorrer – a candidatura da Dilma dará um grande salto, pois colherá a festa das flores e dos cães, dos pássaros e dos rinocerontes. Seja por ser candidata do Lula, seja por ser candidata de uma nova aliança política finanças-setor popular, seja por que é vista e apresentada como a primeira ministra ou a gerente, conforme a visão, da profusão econômica que virá. Mas será que não terá contra-ataque?

Na festa, vai haver deslizamento econômico?

Quem olhar para as possíveis dinâmicas das combinações que serão possíveis com as forças econômicas se aprontando para se apropriar do Brasil, há algo que não é propriamente uma novidade. É preciso ver que toda forma econômica, qualquer que ela seja, já contém si os germes e os vírus de sua deterioração. Então, são esses pontos que o Estado tem que atentar, tem que cuidar, ao longo do tempo, para que não haja desfolhamento das matas. Existem vários problemas, dependendo dos desdobramentos, o que, no entanto, nos parece mais protuberante, se tudo correr bem, é algo que está na cara: o vulcão do saldo do balanço de transações correntes. Todos os economistas do NEPE, da Fundação de Economia de Estatística, têm a mesma opinião que eu. Este fotograma, nós já vimos. FHC II. Ou seja, a balança comercial dado a grande demanda de bens de capital, de matérias primas, peças, etc. e dado o escasso progresso do comércio internacional, vai produzir um resultado reverso. Mais importações do que exportações. Logo, vai dar negativo. E por outro lado, os serviços: lucros, juros, assistência técnica, etc. estarão como sempre dando números adversos. Ou seja, o balanço de transações correntes vai estourar, vai dar o seu salto no vazio. Claro, ao menos em 2010, se o quadro permanecer do jeito que está, vai entrar muito capital, o que dará para cobrir o balanço de pagamentos. Mas, a ferida de uma confusão no balanço de transações correntes nascerá no ano. Ora, isso vai pressionar 2011 de forma contundente. E estará armado o quadro para problemas no câmbio, problemas na dívida, problemas fiscais, problemas de empréstimos internacionais, etc. Isso não é uma fatalidade inexorável. Vai, então, haver muito que fazer e que controlar.

Tudo vai depender da economia política. As vigorosas lutas neste terreno desembocarão numa decisão de Estado, na figura de uma opção estratégica nacional. Definido o rumo, define-se, no correr do tempo, também uma pluralidade de decisões de política econômica. Esta trajetória passa por alianças e adversidades de classes, passa por manobras e apostas de poder, passa por uma forma de Estado e de governo, passa pelos conflitos de nações, etc. Há que atuar, evidentemente, com um grande jogo de cintura. Jogar cima da lâmina, no círculo das múltiplas contradições. É deste jogo de facas no escuro que vai se perceber se o Brasil conseguirá aproveitar as oportunidades que estão vivas. E evitar, ou contornar, ou afrontar, as ameaças com um projeto bem administrado macroeconomicamente. Batalhas perdidas terão que ser mínimas; senão vai tudo explodir no colo da Dilma ou no colo do Serra (se estes forem os candidatos) E se tudo explodir, será uma repetição, sob forma de farsa (?), de FHC II, se é que este já não foi a farsa de FHC I. A economia é antecipadamente imprevisível; se fosse previsível não teria necessariamente solução; e se tivesse solução não seria definitiva. A economia é, como diria Rimbaud, uma estadia no inferno, um barco bêbado. Ela é indomável, porque o capital é cíclico e o ciclo tem um cão embutido que ladra e que se chama crise. Ou seja, o nosso próximo destino se jogará entre 2010 e alguma data, entre a euforia e o colapso. A viagem está claramente começando.

quinta-feira, janeiro 07, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
Coluna das quintas
07 de janeiro de 2010

DE SOROS A LULA
Por Enéas de Souza

Quando a gente lê George Soros, pode-se não concordar com ele, mas vê-se que é alguém que tem a garra no pensamento. Não se ocupa com o senso comum; melhor, critica-o. Porque Soros tem a vontade de ganhar como especulador, mas tem igualmente o desejo de saber onde está, em que mundo está inserido, qual é a natureza dos acontecimentos. Sua mente trabalha sempre desenhando o movimento da realidade, aquilo que está caindo, aquilo que está fazendo ferida. Pois este especulador – e amador da filosofia, aluno de Karl Popp – está a prever (vamos usar verbo à portuguesa) que o mundo no qual vivemos não será nunca mais o mesmo. Ora, não é outra coisa que estamos dizendo há meses nesta coluna. Mas, óbvio, devemos nos perguntar imediatamente, se não estamos sendo capturados pelo pensamento de George Soros. Acho que não. Primeiro, porque nós é que estamos dizendo, faz tempo, que este mundo neoliberal acabou. Ora, o que parece é que Soros é que está chegando à nossa interpretação, ao nosso rio. Pois, o que sempre anunciamos – e continuamos a dizer – é que apesar de possíveis recuperações eventuais de um ou de outro setor, e até mesmo de um pequeno crescimento, o que importa é que este capitalismo neoliberal desabou estruturalmente.
E porque? Soros coincide, no principal, com a nossa opinião. Estamos num capitalismo esfacelado pela desregulação. Para os que pensam mais forte do que Soros, esta desregulação é um sonho de pretensiosos, de estultos e de delirantes. Delirantes, sim. O delírio foi tanto e com tanta força que o tombo aconteceu de um coqueiro extremamente alto. Como dizia o samba: mais alto o coqueiro, maior é o tombo. O que significa dizer que os especuladores financeiros foram levados ao pináculo da árvore financeira, ao cume da inflação de ativos – e não da glória – pela ganância e pelo o descontrole do sistema. E, de lá, despencaram, atraídos pela gravidade econômica, com seus ativos financeiros embuchados. Ben Bernanke, o chefe do FED, outro dia numa conferência, foi absolutamente claro: o problema da bolha imobiliária não foi um problema de política monetária, mas de regulamentação e de supervisão. Ora, é dizer clara e efetivamente: o capital financeiro comeu as suas próprias entranhas. Porque não tinha regras que o comandassem. E a sociedade, que acreditou nas finanças e deixou o Estado ser construído por ela para fazer exatamente esta desregulação, viu, sentiu e ficou estupefata diante deste tombo. E é um tombo, valha-nos Deus, que está arrastando os Estados: não há dívida que segure este buraco negro. Por isso, o próximo visado vai ser o dólar. Só que até ele chegar a estar na mira, ainda vai levar tempo. E nem sei se lá chegaremos, depende de outros fatores estratégicos como o declínio acentuado da Europa, uma intransigência monetária da China, por exemplo; etc. Ainda há muito jogo nesse campo. Tudo está indeciso. De qualquer forma, o império americano declina politicamente e, pelo menos, está estacionário economicamente. Sofre, no momento, variadas turbulências: afegãs, iranianas, chinesas, iêminianas, climáticas, etc. Embora ele faça força para sacudir a poeira, dar a volta por cima, talvez leve muito tempo. Na minha opinião, os americanos têm que terminar com a auto-regulação das finanças. Isso também vai levar tempo, há uma discussão congressual sem fim. É verdade que o país está se movendo no subterrâneo, mas na superfície a geologia continua imóvel, sem alterações significativas e aparentes. O “depois da queda”, como dialogaria conosco Arthur Miller, ainda não mostrou a outra face da lua.

Lula, quem diria?

Pois o velho torneiro mecânico se tornou presidente do Brasil e de presidente do Brasil tornou-se, pelo insuspeito “Le Monde”, a personalidade do ano do mundo em 2009. Desta forma, a visão de Soros dá uma pista do porque Lula atingiu este topo. Pois, a primeira questão, depois de que a economia não pode continuar a ser auto-regulada, é que a antiga cadeia econômica mundial não pode se sustentar como estava. Veja o leitor: depois da 2ª guerra mundial, a oposição Estados Unidos-União Soviética foi extremamente vantajosa para o capitalismo. Pois, ao transformar-se lentamente em capitalismo financeiro hegemônico, e fazer do dinheiro uma mola disparadora, a nação americana do Norte jugulou o adversário e conseguiu um triunfo inexorável, no início dos anos 90. Mas, a vitória é a véspera da derrota. Bastaram dezesseis, dezessete anos (o que na História é menos que um minuto), para os Estados Unidos sucumbirem. Depois da queda do socialismo real, a explosão clintoniana, com final desregulatório, foi seguida pelo terror bushiano/cheneyano, feliz em fanatismo, arrogância, incapacidade estratégica e demência de condução política. Este último período levou os americanos a uma catástrofe financeira ensurdecedora. Curiosamente, no mesmo instante histórico, o país perdia a capacidade de ouvir os seus amigos. O país sucumbiu na economia financeirizada e na guerra do Iraque, não sem deixar de fortalecer um inimigo potencial, a China. Porque todo o sistema exigia que houvesse uma ou um conjunto de nações que fosse o núcleo do fornecimento de produtos de baixo custo para a auto-dita América. E que um país ou uma região financiasse largamente o déficit americano. Deu, entre outros, em primeiro lugar, a China. Esta é uma lei: o vencedor gera o seu inimigo favorito. Mas, ao mesmo tempo, no encadeamento geral, não apenas a China alçou vôo, mas também o Brasil, a Índia, a África do Sul, a Coréia, etc. Ora, o mundo desequilibrou a histórica liderança dos “States”, já comprometida pela infeliz presidência de George Bush. O mundo começou a desenhar-se diferente. E Lula, bem orientado pela diplomacia brasileira e com seu instinto e talento de político, aproveitou os diversos fóruns para aparecer. Mas, só pode aparecer porque o Brasil tinha passado de um país aliado e alinhado aos Estados Unidos da época da FHC para um país aliado, mas crítico (muitas vezes em oposição velada ou aberta), com idéias próprias sobre o mundo. Sobrava também capacidade de articulação regional e internacional de propostas geopolíticas e geoeconômicas. E isto se deu dentro de uma estratégia do Estado brasileiro, comandado por Lula: recuperação do próprio Estado, antes, na e depois da crise; presença infatigável na arena internacional; presença de estatais brasileiras como contraposição do desastre do setor privado mundial: Petrobrás, Banco do Brasil, Caixa Econômica, BNDES; autonomia do petróleo, descoberta do pré-sal e biocombustíveis, tornando-se um país com evidente projeção de futuro, etc. Pensando no acontecido e no ano de 2009, revendo o que escrevemos até agora, só poderia dar Lula na cabeça! Quem diria, depois do primeiro mandato... Como Greta Garbo.

Vai dar Bolsa Família?

Assim, olhando o panorama internacional, a gente enumera três fatos: (1) a constatação de que o capitalismo não será o mesmo, será outro, porque o centro da decadência do mundo foram as finanças; (2) a percepção de que os Estados Unidos chegaram no seu movimento a um ponto de reversão, que proporcionou e deu aos países que puxava uma liderança inédita. Olhem o fiasco americano de Copenhague...; (3) a certeza de que o Brasil efetuou uma estratégia nacional e internacional exitosa, sobretudo depois de 2006. Ora, o resultado da citação desses pontos chega para concluir claramente que a eleição de Lula como o homem do ano não deve, nem pode ser vista como surpresa, mas sim como confirmação da decadência americana e da valorização do desempenho chinês, indiano, dos africanos do sul e dos brasileiros, estes sobretudo pelo encaminhamentos das coisas no campo diplomático, etc. Então, pode-se ter bem claro que Lula sim, sacudiu a lama do mensalão e deu a volta por cima. Claro, não vai tirar o lugar de Obama no cenário do planeta, mas é aquela do carioca tipo Romário:”eu sou mais eu”. Ganhou tudo inclusive a indicação do Rio de Janeiro para a sede das Olimpíadas. Todo isso vai mudar muito pouco o páreo da disputa mundial, contudo a sua política populista, varguista, inventiva da bolsa família, tem condições de invadir o mundo. Podemos, então, até perguntar sobre o destino da política mundial como Maria Gabriela Llansol perguntava sobre a atividade poética: “Onde vais drama-poesia”?

quarta-feira, dezembro 16, 2009

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Grécia: um país de joelhos face ao "mercado"

A história se repete. Mais uma vez um país inteiro se curva ante às exigências de cortes orçamentários feitas pelo "mercado". A Grécia promete baixar seu déficit de 12,7% neste ano para 3% em 2013, às custas de cortes salariais dos servidores públicos e de cortes em programas sociais. Ou seja, o ajuste cai nas costas dos mais pobres como sempre. Pateticamente, o Ministro da Fazenda grego concedeu entrevista à Martin Wolff do FT, na tentativa de acalmar os mercados e, mais ridículo ainda para um país soberano, disse que seu plano é bom pois é mais duro que o irlandês!

Pensávamos que esse tempo de rebaixamento das Nações perante o "mercado" estivesse, senão revogado, em baixa. Infelizmente, estava enganado.

Tomara que a população grega, de tantas lutas nos últimos anos, tenha forças para dar ao seu governo a resposta que merece. Ditadura do "mercado"financeiro no século XXI, depois que os governos mundiais foram chamados para "salvar" esse pessoal no ano passado, ninguém merece!

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quinta-feira, novembro 26, 2009

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Dubai or not Dubai?

Dubai é um paraíso artificial muito ao gosto - duvidoso - de nossa modernidade "pós-moderna". O maior shopping center, o maior hotel e a maior praia onde só havia areia e os dejetos humanos eram devidamente "tratados" por bodes e camelos à guisa de limpeza urbana nos anos 1960. Toda a diversão atrai as grandes "celebridades" mundiais e locais. Quem não conhce Dubai nada viu ou não se divertiu. Não tem "tempo" para tanto ou tem o mau gosto de não gostar do "maior hotel 20 estrelas do mundo".
Eu me incluo nas duas categorias, particularmente: não tenho grana para a brincadeira, mas se tivesse não acharia tão interessante me banhar num falso oásis a 300 metros de altura em algum andar intermediário de um hotel com 110 andares... enfim, o que seria da humanidade e do capitalismo que gira a roda da fortuna sem os imbecis que pagam por tantas emoções?
Digressões à parte, Dubai e seu fundo soberano (se confundem as coisas por lá) estão ameaçando promover um default de mais de US$ 60 bilhões devido a maus investimentos realizados no setor imobiliário norte-americano e europeu. Era tudo o que precisava um sistema financeiro internacional falsamente saneado após março de 2009. Qual o potencial desse estrago se a notícia se confirmar? Não se sabe, mas ela "abala a confiança" na recuperação potencial das economias do mundo desenvolvido e promove movimentos desordenados na alocação dos ativos financeiros em sua incessante arbitragem risco/retorno. Os "mercados" se tornam voláteis e as previsões de uma recuperação "ampla e gradual, mas segura", vão para o saco. Os contágios que daí podem suceder são imprevisíveis , mas a turma do "deixa disso" deve estar a postos e entrar em campo a partir de amanhã. A nuvem financeira entra novamente em estado de tormenta, mas é provável que apenas gotículas d'água caiam no momento.
O problema é que de gota em gota o balde entorna e que a nuvem financeira existe. Como provado na crise financeira de 2007, a segmentação estanque dos mercados financeiros é como Dubai: uma miragem no deserto.
CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
Coluna das quintas
26 de novembro de 2009

O PODER DAS PERGUNTAS
Por Enéas de Souza

Parto para as férias, mas deixo perguntas. Perguntas que nos permitem compreender a evolução dos acontecimentos do que se chamou de crise financeira mundial. Mas, como temos defendido neste pedaço da internet, esta crise é uma crise estrutural. Logo, com estas perguntas, com algumas delas ao menos, teremos um certo norte para avaliar as idéias das soluções micro e macro, sejam econômicas, sejam políticas, que estão sendo propostas por toda parte. Estas perguntas servem de guia para detectar possíveis soluções e prováveis impasses dos conflitos entre as forças sociais que atravessam as conjunturas da sociedade contemporânea. Por outro lado, estas questões, que são inúmeras, podem chamar inúmeras outras. O mundo está em subterrânea transformação. Numa época onde as soluções da crise ainda estão em gestação, em contendas, ou mesmo que ainda estão ocultas para as diversas frações em conflitos, perguntar tem a saúde de encarar os redemoinhos de frente. E é por isso que todos devem exercitar, de coração e prontos para o combate, o formidável móvel do questionar e da indagação. Eis a minha contribuição, leitor infatigável; você pode ampliar, de acordo com o seu espírito crítica e sua posição política. Perguntar é uma forma de ser como D. Quixote, sair pelos horizontes do atual capitalismo e detonar a ideologia de que tudo está bem e que tudo será resolvido pelo crescimento e pela restauração do capital financeiro. E, ao mesmo tempo, saber que as perguntas não são privilégios, nem tem o poder pela sua simples existência de causar a metamorfose do mundo, as palavras podem permitir de nos darmos conta da diversidade e da amplitude dos problemas. E, claro, perceber que há uma vasta manobra de enrolação que estamos sofrendo por parte dos donos do poder. Por isso, a palavra é frágil e as perguntas são, quando muito, o gesto de despir o rei. O capitalismo financeiro está nu. Mas, o que podem tecer as perguntas? Qual o seu poder? Descartes dizia que a gente deve duvidar pelo menos uma vez na vida. E diante deste fracasso do neoliberalismo de guerra, as perguntas poderão ser um corte na continuidade absurda da aceitação deste mundo que acabou. O mundo que virá pode até ser pior, mas não por causa das perguntas. Elas darão um tempero ao grande combate das forças sociais, porque é aí que as coisas vão se definir. Perguntar é também uma forma de proteção. As palavras têm o poder de impedir que o silêncio possa ser usado contra cada um que gostaria de perguntar e não pergunta. O silêncio é ouro individualmente, mas socialmente é o princípio da concessão de coisas que não devem ser concedidas. Perguntar é o começo da resistência. O que não quer dizer que tudo esteja resolvido. Pelo contrário, o triunfo do banal, da insustentável leveza do capital financeiro, da ideologia dos vencedores, reagirá com novas idéias e novas e novas robustas ilusões. Temos que saber, como dizia Custódio Mesquita no seu samba famoso, que o capitalismo financeiro é “nada além de uma ilusão”. E assim, perguntar é uma forma de desvendar o véu e a neblina daqueles que se querem vencedores sem ceder nada. E tentar, com uma visão mais clara, construir um novo acordo político mais favorável a todos.

Pelas finanças, as economias também morrem?

1
– A reforma financeira está sendo discutida no Congresso Americano. O Governo mandou uma Financial Regulatory Reform. Três são as correntes que atravessam a vida dos parlamentares, seja sob a forma de lobbies, de pressões grupais, de e-mails, de artigos na mídia, etc. Os bancos não desejam mudar nada. O governo quer alguma regulação centrada num conselho de reguladores, num Fed capaz de intervir em toda empresa que possa apresentar nas suas operações risco sistêmico e deseja aumento de capital para diminuir o risco dos grandes bancos, os “too big do fail”. E finalmente, existe um terceiro grupo que quer uma regulação muito forte, com muitas propostas tendo muitas nuances. Não importa. A primeira pergunta é a seguinte: qual é a linha que vai marcar a diferença e pela qual se pode ver se os bancos continuarão mandando sem nenhuma ou com poucas concessões; ou se eles, os bancos, vão passar a funcionar para a sociedade, “serve to the public” como disse estes dias Paul Volker, ex-presidente do Banco Central Americano? A importância desta pergunta é evidente, porque a sua resposta vai nos permitir ter certeza que as estruturas vão mudar.

2 – Uma segunda pergunta de interesse nesta área: Se tudo ficar como estava, a economia americana pode se recuperar? Ou dito de outra maneira: a destruição já alcançada em entidades financeiras e de certas operações financeiras em larga escala não afetará decisivamente a estrutura da dinâmica do setor, sua arquitetura, suas funções, etc.? Ou ainda: quando as estruturas econômicas e políticas exigem transformações no capitalismo, um setor da sociedade (no caso, as finanças) pode bloquear estas exigências de mudanças? Se afirmativa a resposta: e por quanto tempo?

3 – As estruturas contábeis do Banco Central, apoiadas pelo Tesouro, estão trazendo os ativos podres para dentro do Estado, de tal modo que o seu poder fiscal, já em deterioração, será profundamente afetado. As perguntas imperiosas: o desdobramento disso será a progressiva queda do dólar? Há possibilidades de que o dólar se desvalorize totalmente? E será como antigamente quando acontecia com o nosso velho cruzeiro: haverá um dólar novo? Em que ocasião? E em que bases?

Quem quer um Estado diferente?

1 – Dificilmente o Estado que se desenvolveu no período neoliberal continuará a funcionar sem alterações. Como, então, poderemos perceber que estão ocorrendo ou vão ocorrer modificações na estrutura do Estado? Em que direções irão estas modificações? Teremos um Estado mais financista? Um Estado mais produtivista? Qual a articulação que existirá entre o Estado e o setor privado? O Estado e os assalariados? O Estado e os desempregados? O Estado continuará a fazer o jogo dos ricos, permitindo que aumente explosivamente a distribuição de renda? Os impostos aumentarão? As ajudas ao setor financeiro continuarão escandalosamente? Quais os setores produtivos que serão apoiados? E os assalariados recuperarão os seus direitos sociais, sobretudo aqueles altamente capitalizados pelo setor financeiro? O Estado voltará a liderar e fará dispêndios em termos de investimento, apoiando o setor produtivo e incentivando a retomada do emprego? O Estado transformará as suas estruturas internas, diminuindo os poderes das finanças sobre órgãos como o Banco Central, como o Tesouro? Que nova ideologia vai apoiar a construção de um novo Estado? O Estado transformará as suas estruturas internas, diminuindo os poderes das finanças sobre órgãos como o Banco Central, como o Tesouro? Que nova ideologia vai apoiar a construção de um o novo Estado?

2 – Estas perguntas retornam à questão básica da secção anterior: o dólar será banido da posição de moeda mundial? Pergunta que leva o seguinte acréscimo: serão capazes os Estados de sustentarem as suas moedas?


A produção deixará de ser financeirizada?

1 - Um dos aspectos fundamentais da economia é que o capital tem duas órbitas, a financeira e a produtiva, com uma hegemonia fundamental da órbita financeira. Bem, as questões que aparecem são as seguintes: o capital passará por uma nova fase? Como será a relação entre as órbitas? Qual será a hegemônica? Haverá harmonia entre elas? Qual será o Estado? Haverá opção pelo Investimento? Que mudanças existirão na própria estrutura do Estado? (Como se vê as questões, partindo de pontos diferentes, acabam, em determinados momentos, umas se enroscando nas outras.)

2-Quaisquer que sejam as respostas, teremos que descobrir se esta produção será financeirizada ou não. E emerge como uma bomba terrorista a pergunta chave: o que será feito com a governança corporativa? Vai ser alterada? Vai ser suprimida? É possível mudar a estrutura financeirada das corporações produtivas? Se não mudar, a economia capitalista pode deslanchar para um novo período de crescimento e, sobretudo, para uma nova estrutura do sistema?

A classe operária e os assalariados foram para o Inferno?

1 – O que estamos vendo é uma massa crescente de desempregados, que se expandiram desesperadamente como formigas soltas depois que um formigueiro foi destruído. Todos os trabalhadores estão marcados por um forte impacto, maiores para uns, menores para outros. Alguns perderam emprego, o que é um drama; outros perderam casas, carros, empregos e embanaram as contas de seus cartões de crédito, o que é uma ópera próxima da tragédia. Isso tudo significa que a classe operária e os assalariados enfrentam uma muralha. A derrota do capital implicou também na sua derrota econômica. Poderão sair vitoriosos pelo lado político? Como?

2 – Olhando o panorama geral observa-se que, de um lado, os operários enfrentam a tecnologia que os domina e trava as necessidades de aumento de emprego; de outro, as finanças criaram novas barreiras para requerimento de trabalho sob diversas formas: exigência de alto rendimento de ações das empresas, eliminação de empregos em centros de custos elevados, liquidação da variação de produtos lucrativos cujos resultados não levam a expressivas valorizações das ações, etc. E, ainda por cima, os trabalhadores estão com dificuldades de sindicalização e da amplitude de participação dos seus sindicatos. E, no tocante, às suas poupanças nos fundos de pensões privados, olha só o que acontece em muitos destes fundos: eles são administrados por uma direção que se autonomiza dos contribuintes e, que em muitos casos, por má gerência financeira, são submetidos a fracassos na evolução dos rendimentos destas entidades previdenciárias. E, não param aí os problemas dos assalariados. Há, naturalmente, um mal estar em termos de direitos sociais, porque desde a educação até a segurança são todos manobrados pela capitalização imperiosa do neoliberalismo. Portanto, tornaram-se produtos e serviços que estão sob a égide da valorização do capital. E pior, conforme os conflitos dos capitais essas mercadorias se tornam direitos instáveis quando o mercado se mostra adverso. E como o ápice do ápice, os trabalhadores, como fração dominada da sociedade, sofrem a ideologia da mídia financeirizada sob todas as suas formas: publicitária, jornalística, radialista, televisiva, cinematográfica, que passam a gerir e povoar o imaginário e a ambição de sucesso das classes ditas inferiores.

3 – Então, diante deste quadro, as perguntas eclodem: os assalariados, que até agora foram os que mais sofreram com a crise, têm capacidade de reformular este panorama de desvantagens quase interminável? Quais os caminhos que podem permitir um reforço à luta, à mudança destas condições para os trabalhadores? A democracia liberal, que faz com que as eleições sejam definidas pelas classes populares, mas que são apropriadas pelas classes dominantes, por diversas formas, poderá dar lugar a uma democracia mais favorável à pressão dos assalariados? Com que instrumentos? No processo global da sociedade, porque os trabalhadores não têm projeto de modificações de suas condições políticas? O socialismo ficou definitivamente superado pelo capitalismo financeiro? A financeirização da remuneração dos trabalhos (poupança, aplicações financeiras, direitos sociais, etc.) poderá ser alterada?

4 – Mesmo com perdas no domínio político e econômico, o setor financeiro continuará impor aos assalariados, as mesmas regras de flexibilização e precarização do trabalho até o colapso da antiga arquitetura financeira? Quais são as possibilidades de mudança da posição dos assalariados? Que pactos podem fazer os trabalhadores? A expansão do domínio do setor de novas tecnologias de informação e de comunicação, se ocorrer, mudará significativamente o comportamento dos salários, os termos do processo de trabalho, a questão dos direitos sociais, etc.?

Que idéias, valores e imagens dominarão a nova sociedade?

A pergunta já vem sendo escandida de longe: que novas ideologias serão introduzidas nas lutas políticas, econômicas e sociais de uma nova época, de uma nova estrutura do capitalismo? A indústria ideológica (publicidade, cinema, rádio, TV, imprensa, lazer, etc.) funcionará de que maneira e com que modificações na condução e na construção de um novo caminho para a sociedade? Neste setor, o capital continuará imbatível ou surgirão novas formas de oposição e democratização? Os trabalhadores encontrarão saídas para usar as formas das novas tecnologias de comunicação e informação a seu favor?

O que vai soldar a economia internacional?

Se a política der curso pacificamente e a economia deslanchar, estamos às vésperas de uma nova realidade internacional, onde o sistema mundial da concorrência entre as potências vai se modificar com uma menor capacidade hegemônica dos Estados Unidos e com uma presença mais encorpada e de mais longo prazo da China. Ao mesmo tempo, prevê-se o aparecimento de outros emergentes como a Índia, o Brasil, etc. A pergunta é: que economia, que política, que idéias vão permitir o elo internacional e o progresso deste sistema mundial? Qual a ideologia que vai soldar os resultados dos combates entre pos países? O mundo caminha para um estado belicoso severo ou teremos um tempo para o rearranjo do sistema? Qual a temporalidade desta re-acomodação?

(Use o poder das perguntas para entender o que está acontecendo. Você verá que as coisas podem até estar mais complicadas do que estamos pensando. Mas, em todo caso, os problemas e os temas ficarão mais claros. Como pensam os lúcidos, o importante é fazer as perguntas. E fazê-las bem. E, se possível, perguntá-las dos mais diversos pontos de vista. As perguntas são como uma cidade iluminada, elas desenham lugares e esclarecimentos.)

(Até daqui um mês)

quinta-feira, novembro 19, 2009

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
Coluna das quintas
19 de novembro de 2009

QUEM VIU OBAMA POR AÍ?
Por Enéas de Souza

Qual é a sua importância?

Obama vive uma espécie de inferno de início de governo. Sua eleição veio para transformar a política e a economia dos Estados Unidos. Por conseqüência a economia do mundo. Nosso personagem tem idéias claras e de longo prazo, mas os homens não têm a boa vontade que as pessoas esperam deles. Gente complicada. E principalmente se vivem numa sociedade do lucro, do vencedor, da competição. E se tornam piores quando estoura uma crise. Mas, Obama não pode esperar que eles colaborem, tem que derrotá-los no jogo político. Obama é um homem de tino. Aqueles que acreditam nele e nas forças que o apóiam, sabem que ele está cercado de bandidos por toda parte. Nesse jogo não tem mocinhos, nem mesmo Obama. A única diferença é que ele se apresentou e se perfilou pelo lado da humanidade. Então, qual é a sua grande importância, desde logo? Ah! algo precioso. Sepultou a administração e a era Bush, que como dizia um colega meu de mestrado, são “coisas como essas (que) nunca deveriam ter acontecido”.

Os iraquianos que o digam

Mas, aconteceu. E sua trajetória foi conseqüência do triunfo americano na guerra fria. Os titulares da direita já apregoavam há muito tempo a aspiração por um grande projeto militar. Mandamos nós, que os outros tem que obedecer. Conseqüência: podemos intervir em qualquer lugar do mundo. O neoliberalismo de guerra. Todo travestido de liberdade de mercado, de liberalismo e de democracia, uma ideologia que só favoreceu aos ricos e aos predadores. Os iraquianos que o digam. Inclusive não se esqueça, querido leitor, que faz parte da resposta destes, o sapato que aquele jornalista árabe mandou para cima do Bush. Gesto que virou joguinho de esquerdistas, de cínicos e de gozadores. Pois, aí é que entra Obama, este americano “cool”, este americano tranqüilo, com o famoso slogan “Yes, we can”. Transformou a face midiática da presidência americana, mudou a cor da América, procurou nos dar uma imagem outra do cotidiano dos Estados Unidos, ao menos nos primeiros meses. Os verdadeiros liberais exultaram; já os neo (neoliberais e neo-conservadores) estão querendo, desde logo, barrar tudo que é novo e moderno e transformador na terra de Marlboro. Mas olha o resultado até agora: Obama, sim, mudou algo, mas não transformou, infelizmente, nem a política, nem a economia, nem a guerra.

E porque razão?

A herança corrosiva de Bush e Dick Cheney

1 – Quando um presidente entra em campo - embora a campanha já prepare a largada do seu mandato - encontra a fortaleza vai ser sua, já inteiramente cercada, abafada pelos habitantes da véspera e afivelada pelos mandantes de sempre. Os republicanos caíram porque Bush fez uma guerra absurda. Cada vez menos popular com o Iraque, notando-se que a performance de seu governo na área econômica foi desastrosa. Duas bolhas. E sobretudo a segundo, aquela do seu último mandato, quando o sub-prime desabou sobre sua cabeça. Seus auxiliares, mais incompetentes impossível, como por exemplo, o secretário do Tesouro, Paulson. O coitado não tinha a mínima idéia do que era uma crise. E muito menos do que era uma crise financeira. Quis ser esperto e deixou quebrar o Lehman Brothers, a concorrente de sua instituição financeira de origem, o Goldman Sachs. Provocou com essa atitude um brutal risco sistêmico. Ele não tinha a menor consciência do que estava fazendo com o primeiro bailout que em seguida preparou. E, óbvio, não tinha respeito pelo Congresso Americano, que ele enxergava como organizado pelo lobby de sua entidade e do sistema financeiro. Bush realmente foi um desastre. Mas, a pergunta é: como enganou por tanto tempo a nação americana? Como enganou – claro que menos – o mundo ocidental? Uma das respostas, pois talvez existam várias, é que Bush foi eleito porque o capitalismo americano precisava de um tipo desta ordem. De um lado, permitir que as finanças chegassem ao seu limite, soltando Alain Greenspan, o mago, e o doce Bem Bernanke, para propiciarem que elas fossem além do seu limite. Logo, que explodissem. De outro lado, deixar que o seu homem das sombras, Dick Cheney, esta mistura de Iago, Ricardo III e Macbeth da política americana, fosse a presença das trevas na destruição e na reconstrução do Iraque. Sim, Dick Cheney e Bush protagonizaram a frase de Braudel, o capitalismo é o sistema de grandes lucros e grandes predadores. Cheney foi a máscara sutil do iceberg que navegava no interior do Estado americano e que tinha como objetivo permanente a guerra. Que dupla! Obama veio para mudar esta imagem da aventura americana!

2 – Obama veio contra isso. Mas, atenção! A indústria bélica era um dos líderes do processo de acumulação de capital nos Estados Unidos. Uniu a direita, o fundamentalismo cristão, os militares e os imigrantes em busca do “green-card”. Michael Moore mostrou bem esta derradeira faceta. E o resultado, foi, de cara, em resposta ao terrorismo do 11 de setembro, uma campanha forte no Afeganistão – arrasado pela segunda vez, já que a guerra civil tinha sido a primeira. Logo depois, um dos verdadeiros alvos do governo bushista, uma ação mais forte ainda, derrubou o Iraque. Terrorismo e petróleo. Embora, o páreo oculto, ainda que inatingível, fosse o Irã. A direita, navegando seu liberalismo, mercado e democracia, ficou com a debacle americana. E o que fez Obama, quando foi eleito presidente? Diante do lobby militar moveu o peão, uma pequena peça do jogo. Passou do Iraque para o Afeganistão. Mais lógico e mais veraz para os americanos e para o mundo: caçar os terroristas. E nesse lance, ao mesmo tempo, busca contentar minimamente os militares e a indústria bélica. Qual foi a reação? Ah! quer dar o dedo? É pouco, queremos o braço! Queremos mais 40 mil homens no Afeganistão!

3 – Claro, a estratégia de Obama, no geral, está certa. Em tempos de crise e de derrota militar no Iraque, vamos para paz. Em momentos de agonia e de crise, a carta anti-bélica pode funcionar como coringa. Foi o que Obama jogou. Belo aratifício. Só que para quem está cercado, não é possível escolher muito. Saiu do Iraque, acossa o Irá, mas joga bombas no Afeganistão. Meia solução numa uma jogada de realismo. Porque ali na primeira trincheira da White House está a indústria bélica e os próprios militares, querendo melhor aparelhagem, melhores armas, melhores engenhos, maior expansão industrial. A famosa frase que a gente aprendia nas aulas de latim “Si vis pacem para bellum” continua imperando. Faz o reforço americano do seu potencial enquanto negaceia pela coisa pacífica. Obama, com seu charme e seu carisma, anda na corda que treme. Guerra e Paz. Todos pergutam: Vai ganhar? Mas não se diga que a idéia da paz em Obama é falsa. Tem trabalhado para isso inclusive com a Rússia, só que a burocracia militar é muito forte, os Estados Unidos tem se envolvido em muitas guerras, ou como disse Bush, os americanos são um povo guerreiro. De qualquer modo, é uma das contradições mais fortes que envolvem o governo Obama: ele joga pela paz e o stablishment - inclusive militar - joga pela guerra. Tudo em nome da segurança.

O lento jogo da mudança

1 – O que a meu ver Obama tem é uma estratégia geral. Sim, veio para mudar. Mas, a sua base de apoio não tem poder real suficiente. Porque politicamente, as finanças, os que mandam, não são a seu favor, não o apoiaram, embora a população queira uma mudança séria e profunda na vida e no sistema financeiro. Contra este, querem regulação, nova arquitetura do setor, limite dos bônus e nova função do sistema. Contudo, como já escrevemos várias vezes, aqui Obama também está cercado, enosado num fio de linha apertado e preocupante. Basta olhar sua proposta de reforma financeira. Ela regula insuficientemente. É um suave pé na escada para não fazer a madeira estalar. E o que temos: um Congresso dividido e animado por lobbies das instituições financeiras. A reforma talvez não saia ou saia pior que o desejo de governante. E no interior do Estado, no poder, o que é que a gente enxerga? Temos o FED, o Tesouro e o Nacional Council Adviser, tudo com infiltrados como diria Martin Scorcese. Ou seja, vai ser uma longa e desanimadora luta por muito tempo. Talvez uma nova crise financeira ou o aumento progressivo do desemprego, que alguns analistas chegam a pensar que pode ir acima de 11%, possam criar uma crise social profunda como foi a depressão dos anos 30. E aí sim, lançar a oportunidade esperada. Obama só pode contar com a paciência. Há que esperar. Esta crise ou algum passo em falso dos seus adversários. Por isso, seus primeiros e apaixonados adeptos, os sonhadores românticos, já desesperados, perguntam: Até quando, Catilina?

2 – Queremos, ampliando, dizer que na economia Obama precisa controlar as finanças. E claro, até agora, as coisas dependem do Congresso e, portanto, nada. Os lobbies estão vencendo. E ao mesmo tempo, Obama precisa recuperar o investimento para aumentar inclusive o emprego (mas com uma indústria como a automobilística isso está longe de acontecer, pelo menos no momento). A metamorfose principal, a passagem para o apoio consistente e renovado às novas tecnologias de comunicação e informação, ao desenvolvimento de novas energias, as ações mais precisas sobre o ambiente, essas ações esbarram no tamanho imenso da dívida fiscal do Estado. Obama terá que contar aqui também com a paciência, antes que faça uma transformação e comece a agir. Por esse lado, são os desempregados que clamam: Oh, até quando?....

3 – Está se vendo: na economia o jogo é muito complicado. Há que retomar as indústrias nos Estados Unidos, recambiar setores que estavam no estrangeiro, retomar a expansão globalizada a partir do país, organizar uma nova relação com a China, etc. Mas, tudo isso está emprerrado. O setor financeiro apenas especulando no exterior e nenhuma reorganização do sistema, nenhuma nova função do crédito. A produção americana continua dependendo muito das importações e o país ainda não aumentou suficientemente o seu nível das exportações. Os déficits continuam. Como reorganizar a relação com a China? A China, é quase óbvio, não pode ser a nova locomotiva do mundo, é um terço da economia americana. Mas, por outro lado, há que negociar uma boa relação com ela (é o que Obama está fazendo na atual viagem), pois os chineses embora não queiram brigar com os americanos, não estão dispostos a serem enganados, sobretudo na questão monetária E os americanos não querem nada: querem desvalorizar o dólar e querem que o yuan se valorize. Os chineses riem – até gargalham - quando Geithner fala de que aos Estados Unidos interessa o dólar forte. Mas, a questão monetária é também uma questão que China não resolveu. Não tem estrutura para produzir uma moeda que seja mundial. E joga lentamente: vai organizando e aglutinando em torno de si os países asiáticos e parte da África e até uma beirada do América Latina. Mas, o impasse continua, o dólar prossegue perdendo para o ouro, para as commodities, para o euro e para outras tantas moedas. Mas, não adianta, não existe moeda que substitua o dólar. Não há Estado para garantir tal coisa. Isso significa que os retrocessos e as instabilidades da economia financeira e produtiva americana afetam a moeda e esta articulação com o mundo, a começar pelo elo fundamental com a China. Aqui, como em toda parte do seu reino, Obama também vai ter que ter paciência. E o pior, a paciência é chinesa. Logo, se esse é o horizonte de longo prazo, no curto, terá que esperar que a combinação americana do self made man e do pragmatismo resolvam este polo da equação. Mas, não basta nem querer, nem esperar. Pessoa já ensinou: “Navegar, é preciso...” A esperança é que Obama já esteja com as velas acesas no mar do “Indefinido”. (Vai aqui também Pessoa, de novo! "Ode Marítima", Álvaro Campos.)

Da roleta onde nascem os estadistas

1 – Que ninguém se engane, Obama tem uma estratégia política global. Pode até não dar certo. E já vimos os obstáculos. Seu norte estratégico é visível: manter os Estados Unidos como país líder. E nessa continuidade de potência planetária, recuperar o poder moral, jogando o jogo caristmático da paz. Seu objetivo é da restauração e do aumento do poder americano global, Faz parte de seu cardápio reformular a economia capitalista, aumentar o poder midiático, e conduzir o mundo para uma leve tensão estratégica com a China, ainda com hegemonia americana. Há um ganho em toda esta estratégia pacífica. Achar tempo para reformar as finanças; achar tempo para retomar a esfera produtiva em termos de tecnologia e de pontos fundamentais de infra-estrutura; achar tempo para redefinir o Oriente Médio; achar tempo para fazer um pacto político interno nos Estados Unidos, etc. O problema que Obama enfrenta é como ele vai conseguir ligar o longo prazo, onde tem um projeto claro, com o curto, onde a ligação com o porvir está difícil, porque a sua conjuntura é uma conjuntura de passagem, uma transição complexa, para uma outra estrutura nacional e internacional. Ele manobra, manobra, mas continua com uma posição oscilante, o mar está cavalgando em meio de temporais. Obama atua em terreno escorregadio, movediço, e enfrenta como estamos vendo atropelos em quase todas as áreas. E, sobretudo, as internas, porque o setor financeiro não quer mudar nem a sua estrutura nem a arquitetura do sistema; porque o setor de tecnologia velha continua pensando em termos de um mundo do século XX; porque o setor bélico está sempre preocupado com a expansão militar, porque o setor de tecnologias modernas depende de muito apoio do Estado e do êxito de sua nova estratégia. E pior de tudo para Obama: as políticas sociais têm avançado muito pouco, estão até desfiando-se. Veja-se a batalha sangrenta do health-care. A idéia que passa tem que ver com a imagem de uma erosão na base popular de apoio ao presidente. Passado um ano, continua sem alcançar uma coesão entre o curto e o longo prazo de sua política global. Por enquanto angariou apenas retalhos. A pressão dos conservadores com seu poder político e de riqueza é enorme. Verdade, o seu nome é aplaudido no exterior, mas o saldo de suas ações é ainda muito pequeno e reduzido. Terá gás e sonho e artifícios e flores políticas para engatar num abraço o presente e o futuro?

2 – Não se pode esquecer que na política moderna, na política pós queda da União Soviética, na época da política neoliberal, as oposições quando ganham tem muita dificuldade de propor políticas progressistas. Os grupos de poder e as associações de classe continuam a dominar a opinião, porque a indústria midiática - a indústria de idéias, valores e imagens - está do seu lado, e gera o ambiente comunicacional, informativo e de opinião, onde joga o governo. Tudo isso mostra que Obama tem que trabalhar duro, com habilidade e em segredo e por muito tempo. Para termos uma noção comparemos com Lula. Este, só no segundo mandato é que conseguiu reverter alguma coisa. E só com a crise, que o beneficiou, pode passar para a ofensiva, o que não quer dizer que tenha triunfado irreversivelmente. Nas raízes do império, as coisas são muito mais complicadas ainda. Tem muito chão para que Obama possa transformar o sistema financeiro, o sistema produtivo, a posição dos trabalhadores, a política externa, etc., em abelhas criativas. Por enquanto são abelhas desesperadas, que se fustigadas atacam. A chamada América é uma colméia exposta à insolação do deserto. O interessante é perguntar se Obama tem a fleuma e a astúcia e a sorte dos jogadores de pôquer dos filmes americanos? Porque se não tiver...

quinta-feira, novembro 12, 2009