quinta-feira, abril 15, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
15 de abril de 2009
Coluna das quintas

RIO DE JANEIRO,
CIDADE QUE ME SEDUZ
Por Enéas de Souza

Disse que voltava em duas semanas, voltei em três. Tive uma contusão no braço e no ombro direito que me impediu inclusive de escrever. Não parei, no entanto, de andar pelo espaço da economia e da política, ao contrário, deu até para perceber o circo que anda o mundo. Na verdade, a política tem o seu lado de comédia, de sarcasmo, e a economia, a sua sombra de felinos tentando nos vender seus interesses como se esses fossem nossos. Lembro da Maria da Conceição Tavares (salve seus oitenta anos!), dizendo com ênfase e sabedoria: “A gente tem que aprender economia inclusive para não ser enganado pelos próprios economistas”. Outro dia, conversando com André Scherer e Pedro Fernando Almeida, falávamos com ironia sobre os economistas. Raça terrível escrevendo uma profusão de textos sobre nada de importante e mentindo com volúpia. E Pedrinho acrescentava com contundência. “E desde a metade do século XX”. Estou de acordo, só vemos equações e modelagem e interpretações ineptas. E o que isto gera de idéia absurda. Salvam-se raros, aqui e no exterior. Mas, olhem esta pérola: “Acredito mesmo que uma das lições dessa experiência dos povos é que é fundamental investir na educação financeira das pessoas”. Quá, quá, quá, quá. Que idéia supimpa! (Vocês se lembram desta expressão!). Que flor mais exótica! Imaginem que esta crise foi por causa da falta de educação financeira das pessoas! Vejam só e meditem: fal-ta-de-e-du-ca-ção-fi-nan-cei-ra-das-pe-sso-as! Parece que a economia não tem capital, que não existem aplicações e especulações financeiras, que não existem busca de maximização de lucros e oportunidades anti-sociais de grana, que não existem oligopólios, que os cartéis são atualmente inexistentes, etc. É fatal a doce e inocente pergunta: a especulação com ativos financeiros ou commodities ou terrenos faz parte da educação financeira?

Este escritor econômico citado, em outros tempos, foi uma alta autoridade econômica no Brasil. Pode?

A CATÁSTROFE NATURAL É IRMÃ DA CATÁSTROFE ECONÔMICA

Temos tido recentemente – este é um trabalho político e ambíguo da TV – uma série de catástrofes naturais, em toda parte, sendo as mais recentes Haiti, Chile, São Paulo – e agora, o desmoronamento quase que permanente do Rio de Janeiro, desde a noite da passagem do ano até “as águas de março”, este ano também em abril. E todas as catástrofes têm a mesma explicação: o problema veio dos governos anteriores, o país e a cidade não tem recursos, a população não queria sair das áreas de risco; todavia os governos já estão agindo prontamente, já tem planos que definir a solução para 2% dos necessitados, insinuando que estes planos são o início de uma série desbravadora e gloriosa de salvação dos pobres e de redenção da política. Ou seja, estamos vendo a reformulação dos erros anteriores dos governantes e uma nova aplicação dos dirigentes para a salvação da lavoura e da nossa gente. Deus salve a nova luz que surge!

I – E verdadeira explicação?

1) Como sempre o arroz com guisadinho das explicações é o imponderável da vida. E lá no fundo, os culpados verdadeiros são os pobres que resistem a não sair das áreas calamitosas, irreversíveis passaportes para a morte. Mas, porque ocorre isso? O que estas precárias e enganosas razões tentam impedir é que se discuta a vida das cidades e do país do ponto de vista macroeconômico e social. Impera o domínio do micro. E no caso, o subjetivo (“Não quero sair”) estendido para o grupo social (“A resistência dos moradores”). E muitas vezes para a condição social (“A região pobre do Estado”). É óbvio, até as crianças sabem que esta é a famosa conversa para a população dormir. A canção de ninar que florece nos lixões de cada catástrofe.

2) Há que pensar sobre tudo isso, como uma cadeia de estruturação social, advinda do nosso atual modelo econômico e social, onde as hegemonias das finanças e da especulação de terras e terrenos e da construção civil predominam – e são exaltadas. Por isso é preciso ver como esses fatos se enlaçam. Sem pretendermos ser exaustivos na explicação, damos alguns elos da questão.

II – A ausência do Estado

1) O leitor já está farto de saber que a economia atual se gere pelo capital financeiro. Só que o velho Hilferding nos diz que o capital financeiro é uma forma de capital que se valoriza através de duas órbitas: a esfera produtiva e a esfera financeira propriamente dita, com hegemonia dessa última. E que o capital financeiro gera um processo de desenvolvimento econômico, sobretudo na fase neoliberal, com a diminuição e suspensão da presença do Estado. A busca do famoso Estado Zero (que nem Coca Zero). E sempre, na opinião dos espoliadores, de que o Estado é um ente que cresce e que é injusto e se alimenta de recursos apenas em seu benefício. Pois bem, uma das formas de ausência é esta, deixar o setor urbano totalmente livre para ser submetido a duas forças fundamentais das cidades modernas: a urbanização automobilística (resultado da venda fantástica de automóveis, ônibus e caminhões) e a especulação imobiliária, cujo objetivo é retirar do Estado qualquer restrição – pois aumenta o custo da construção – de zoneamento, de medidas protetoras, de obrigações indispensáveis, de requerimentos fundamentais para a acessibilidade, etc. Ou seja, deixar a urbe à disposição do lucro vigoroso e da devastação das construções viárias e habitacionais.

2) Estes construtores inventam os mais diversos nomes para venderem os seus produtos cariados, a preços cada vez mais dominados por taxas especulativas. Só basta ver a crise do subprime da economia americana, para verificar que os preços do setor não são dominados pelos preços concorrenciais, mesmo que oligopolísticos, mas pela elevação permanente de preços em função da valorização das casas. Ou seja, são regidos pela especulação.

3) Conclusão: é o capital financeiro que na sua volúpia de expansão é dominado por preços cada vez mais especulativos. E para que tal aconteça, procura e consegue afastar o Estado de qualquer regulamentação. Como desdobramento deste afastamento, o Estado não consegue fazer nenhum planejamento urbano. Seus planos diretores, quando existem, são cada vez mais “disciplinados” pelos especuladores e construtores civis (imobiliários, de infra-estrutura urbana ou logísticos). Ou seja, o Estado desaparece para só reaparecer como elemento “humano” na hora da catástrofe. Isso se chama luta de classe e hegemonia do capital financeiro sobre o Estado. Portanto, poder. E poder, inclusive, para não regulamentar, não vigiar, não controlar, etc. E só surgir diante do desastre, tirando o seu da reta ("isto está aí há muitos anos") e desviando a culpa final para os moradores (“eles não querem sair”), quando não silenciando sobre qualquer explicação.

4) Em tempo: vocês se recordam daquele candidato a presidente da República que foi prefeito de uma grande cidade, que realizou uma obra para uma estação de metrô que desabou? Lembro bem do vasto buraco de escombros que ficou em frente de um edifício luxuoso, daqueles imensos, com piscina em cada andar. O luxo no meio do lixão. Pois, não recordo, no entanto, nenhuma explicação do ágil político que se colocava como uma alternativa inovadora diante dos demais candidatos. Queria vender a Petrobrás e o Banco do Brasil. Dar curso às reformas neoliberais.

5) É isso que dá querer tirar o Estado das suas tarefas de controle da economia, da redistribuição da renda, das reformas urbanas e das reformas rurais. E o pior: eles, economistas e ideólogos da barbárie, continuam. Não andou por aqui um filhote do Friedman; sim, sim, do neo-clássico, Milton Friedman, falando na retirada total do Estado da sociedade? Falando e propugnando o tal de “anarcoliberalismo”, nas palavras do próprio?

terça-feira, abril 13, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Lucros financeiros de novo perto do record com juros baixos; por André Scherer

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Para a Grécia, o melhor caminho é o default; por André Scherer

Satyajit Das, o especialista em risco e derivativos financeiros, coloca muito bem as coisas. Em primeiro lugar, lembra que "problema pequeno" e "está contido" foram expressões ouvidas quando eclodiu o problema do subprime em 2007. O fim nós ainda nem conhecemos... Essas expressões voltam à tona nesse momento com a crise fiscal grega e podem postergar ainda mais que se conheça o fim dessa história. Em segundo lugar, o autor raciocina, com propriedade, que o caminho menos custoso para o povo grego é o default em sua dívida e o abandono ao euro. Manter-se no euro e aceitar os termos do resgate proposto pela Europa e pelo FMI significará aumentar em mais de 50% o endividamento do país, situação já insustentável. E, mantendo-se no euro, a competitividade internacional da economia grega não será recuperada, pois apenas uma grande desvalorização de sua moeda pode ajudar nesse caminho. Mas o mais interessante é que esse custoso resgate em realidade beneficia principalmente credores estrangeiros... Ora, confrontados à realidade da ameaça de não-pagamento estes terão de aceitar substanciais reduções no valor de face da dívida em questão. A Grécia, falida, só tem a ganhar se declarar ao mundo essa condição. Já para a Europa, pode ser o início da dissolução...

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segunda-feira, abril 05, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Os riscos infinitos do Plano Ômega

O sistema financeiro mundial continua em crise. Os grande bancos norte-americanos foram salvos graças aos aportes financeiros do Estado e, atualmente, dedicam-se ao business as usual, envolvidos em apostas tão ou mais arriscadas do que as que faziam até 2007. Por que acreditar que desta vez os resultados serão diferentes, se o sentimento de impunidade com que os grandes bancos tocam habitualmente seus negócios está agora respaldado pela certeza do salvamento estatal? Os bancos menores lutam desesperadamente pela sobrevivência em um ambiente cada vez mais hostil, pois sua base de clientes (pequenos negócios, imobiliário local e pessoas físicas) também está em crise. Na Europa, o salvamento dos bancos colocou o continente à beira da crise fiscal e o processo de "socialização" dos prejuízos prossegue, como mostra a discussão essa semana da necessidade de absorção de mais prejuízos privados em um país na mira dos "investidores" internacionais. A solução dada para a Grécia – uma garantia mista entre Europa e FMI em caso de agravamento da solvência do país - já suscita a desconfiança do "mercado". A venda de títulos da dívida grega nessa semana ocorreu a um custo muito alto, mostrando que as iniciativas de solução do problema ainda não surtiram o efeito desejado.

Essa situação de incerteza radical, da qual anedoticamente me utilizo de fatos da conjuntura para mostrar sua validade, tem levado, em um plano estrutural, à busca incessante de novas fontes de lucratividade e de novos modos de funcionamento do sistema de hegemonia financeira. E think- tanks, universidades, consultores não faltam para isso, não apenas nos países desenvolvidos, em especial os EUA. Seus epígonos estão por aí, espalhados pelo mundo, sempre prontos a apoiar as idéias dos "mestres" e elevá-las em seu discurso ao mais alto interesse público local. É a fome e a vontade de comer... dólares, of course.

É nesse contexto que tem de ser entendido o chamado Plano Ômega. Dada a fragilização dos mercados financeiros tradicionais, busca-se descentralizar as operações financeiras para locais com maior potencial de crescimento econômico nas próximas décadas. Obviamente, isso tem de ser entendido como um movimento de extensão geográfica do centro pensante da globalização financeira e não como uma disputa "vencida" pelos mercados emergentes. O Brasil, e mais apropriadamente a cidade de São Paulo, tem sido lembrada nessas discussões sobre os rumos do capitalismo global. O Plano Ômega seria um conjunto de mudanças institucionais que, em conjunto com a movimentação dos bancos de investimento globais, colocaria a cidade como centro de fornecimento de serviços financeiros para a região latino-americana. O financiamento das empresas da América Latina como um todo, seja por emissão de ações ou por emissão de títulos no mercado internacional, seria realizado a partir de empresas localizadas em São Paulo. No jargão do mercado, São Paulo seria um hub, uma conexão, entre as empresas da América Latina e os aplicadores globais.

Mas, para isso, seriam necessárias reformas com apenas um sentido: promover uma ainda maior abertura financeira da economia brasileira de modo a integrá-la ainda mais ao resto do mundo. A legislação tributária para aplicadores estrangeiros teria de ser simplificada e nenhuma restrição a entrada e a saída de divisas é o ideal a ser perseguido. Assim, o recentemente criado imposto de 2% de IOF para aplicações estrangeiras especulativas teria de ser revogado. No âmbito cambial, buscar-se-ia um aumento na conversibilidade do real, provavelmente com a admissibilidade da criação de contas em moeda estrangeira no sistema financeiro brasileiro. No âmbito contábil, está em curso uma adequação das normas brasileiras às internacionais, de modo a facilitar a avaliação internacional das empresas locais (e, daquelas que vierem aqui buscar financiamento, em caso de avanço do Plano).

Pode parecer pouco, mas o impacto dessas medidas sobre a economia brasileira pode ser decisivo para os rumos do capitalismo local nas próximas décadas. Na prática, teríamos o aprofundamento do processo de desnacionalização da economia brasileira, maiores dificuldades em conter a volatilidade cambial (e, portanto, da lucratividade relativa entre os setores integrados comercialmente ao mercado mundial e aqueles que não o são, prejudicando a alocação setorial dos investimentos) e uma maior integração do sistema financeiro local com o internacional. Esse imbricamento aumentaria a vulnerabilidade do sistema financeiro brasileiro aos choque internacionais, acabando com o relativo isolamento dos bancos nacionais que se mostrou decisivo para a rápida recuperação do Brasil quando da crise de 2007-08 (não por acaso o banco brasileiro que estava mais relacionado ao capital internacional, o Unibanco, sucumbiu à crise financeira mundial). O Brasil se tornaria ainda mais dependente do fluxo de capitais estrangeiros e cada vez menos teria possibilidade de implementar uma política econômica autônoma. Ora, os ciclos financeiros variam entre momentos de euforia (capital abundante e juros baixos) e de crise (onde o capital migra para os países do centro, em especial os EUA). Na euforia, teríamos um real excessivamente valorizado, crédito abundante e crescimento econômico acelerado, a partir do endividamento de famílias e de empresas. Na crise, o movimento oposto.

Isso já ocorre hoje, alguém poderia contestar. Mas o que se propõe é enorme e, quando se trata de finanças, o volume é determinante. Criar-se-ia um armadilha que condicionaria completamente a política econômica às possibilidades de entrada de capitais, sob pena de uma crise enorme. Tome-se o exemplo próximo do Uruguay e veja-se como é difícil desmontar o mecanismo de contas em dólar sigilosas existente nos bancos locais sem criar uma enorme crise financeira, com uma desvalorização desastrosa do peso. Os mecanismos seriam outros (aparentemente, não se trata de tornar o Brasil um paraíso fiscal, embora as reformas o aproximem destes), mas as conseqüências, dado o volume de capital envolvido, seriam de ainda mais difícil reversão. Trata-se de um caminho que, se adotado, somente poderá ser modificado com uma enorme crise, provavelmente vinda do próprio funcionamento do sistema em nível global, pois ninguém terá condições políticas de se contrapor à liberalização financeira (estaria criando uma crise econômica, qual governo teria força para agüentar as conseqüências disso?).

Por fim, cabe salientar que a totalidade das medidas que promovem tal mudança podem ser adotadas no âmbito administrativo do Ministério da Fazenda e do Banco Central. Ou seja, trata-se de um verdadeiro "golpe branco", decidido entre "eles" (o principal articulador do Plano Ômega é o Sr. Armínio Fraga, presidente do Conselho da BM&F Bovespa, acho que não é necessário dizer mais nada) exclusivamente, mas com repercussão permanente para "nós". É claro que serão agitadas as bandeiras da "modernização" e, até mesmo, da "criação de empregos" no setor financeiro como justificativas para essa ousadia, como mostra nota na Revista IstoÉ Dinheiro do início de março. Historicamente, o déficit democrático no que tange a finança é sempre determinante de seus movimentos de aprofundamento, provavelmente por que se fôssemos discutir as claras as intenções e repercussões de propostas como essas, elas nunca seriam adotadas. Mas, normalmente, denúncias públicas forçam uma discussão mais aberta de temas que eles querem (e necessitam) manter à sombra.


Artigo publicado no blog Diario Gauche (www.diariogauche.blogspot.com).

quinta-feira, março 18, 2010

CRISE ECONÔMICA MUNDIAL
18 de março de 2010
Coluna das quintas

QUEM NÃO TEM
ESTADO,
NÃO SE DÁ BEM
Por Enéas de Souza


O PARTIDO DO LOBBY ESTÁ EM CENA

As lutas das classes nos Estados Unidos mostram que as finanças com o seu partido, o Partido do Lobby, estão vencendo o governo de Obama, de forma aguda, tanto no plano do Healthcare como na supervisão da regulação financeira. É preciso sentir que as finanças continuam mandando no governo: o FED e o Tesouro são deles; o dirigente máximo do Council Advisor Economics também. Só, o espartano, e fiel defensor do capital, Volker, de um capital financeiro e regulado, está do lado de Obama. O resto segue na defesa dos pássaros predadores das finanças. Volker, de sua parte, quer aumento de capital para os bancos, para protegê-los do risco; quer a separação dos bancos comerciais e dos bancos de investimentos, para que estes não levem de arrasto o sistema bancário. Façamos, portanto, um intervalo. E olhemos os acontecimentos políticos no Congresso, sobretudo aqueles que tratam do tema da regulação financeira. É preciso confessar que Obama não tem cacife para ganhar das finanças. Talvez mais tarde, agora, não. O momento passou. A economia financeira parou de tropeçar; os bancos voltaram a operar; e as suas vulnerabilidades foram contrabalançadas por intermédio dos bail-outs, das linhas de liquidez, da incorporação dos ativos podres nos seus balanços contabilmente prontos para os absorverem. Assim, estabilizados, os bancos e as instituições financeiras se resguardaram de qualquer adversidade. E, águias fulminantes, atacaram a reforma financeira do governo no Congresso. E vejam a perfídia do poder, o movimento da economia foi freado para salvar as finanças, lançando para longe qualquer possibilidade de ajudar os consumidores. (E isso que Ludwig Von Mises dizia que o consumidor é o rei.) Contudo, o Estado, ardiloso, deu um gole para a produção, mas o copo da liquidez ficou mesmo com o sistema financeiro. Enquanto isso, os eleitores dos Estados Unidos, numa batalha memorável, colocaram no Executivo, uma cunha não financeira que se chama Obama. Só que, como peixe de lago, não teve e não tem suficiente força para derrotar o esquema pretérito das finanças. Pois estas viveram, e querem continuar a viver, o que Paulo Mendes Campos chamava “o domingo azul do mar”. No caso delas, do mar das rendas financeiras.

COMO É LONGO O MANTO DO ESTADO FINANCEIRO

1
- Aqui está o ponto fundamental da transformação da economia americana. É preciso mudar este Estado, de natureza financeira, para que a economia possa funcionar. Cabe calibrar uma verdadeira metamorfose na dinâmica econômica. O que significa colocar na liderança do processo capitalista as novas tecnologias de comunicação e informação (NTCI). E com esse movimento, reverter o sistema financeiro de exclusivo beneficiário das atividades econômicas para um desejado suporte das atividades produtivas. Ou seja, as finanças precisam renunciar à sua hegemonia, e deixar que a economia siga o seu curso produtivo. Mais do que nunca é preciso que o longo prazo domine – e atraia para si o curto período. O cassino passará, então, a ser um ponto secundário, pois o movimento decisivo será o de sustentação dos negócios da produção. Só que isto, se não é uma utopia, está longe de acontecer. Por enquanto, as finanças estão saindo pelo mundo, buscando mercados e aventuras especulativas. E parece que a liderança delas continua inquestionável concretamente, apesar da economia produtiva e do emprego não passarem de performances medíocres. O problema, então, na questão industrial é mais do que simples. Cabe deixar que as indústrias vinculadas às NTCI passem para a primeira posição no palco. O que sublinha a necessidade de pôr para o fundo da cena as indústrias do estilo automobilístico, que são indústrias não mais amadurecidas e sim em processo de precoce envelhecimento.

2 - Vejam agora como é complicado transformar tudo: primeiro, precisa-se controlar as finanças. Dar-lhes supervisão. E, no mesmo momento, construir uma nova arquitetura financeira. E com isso, indicar às instituições bancárias e às instituições não-bancárias uma nova função. Em segundo lugar, passamos para a produção, e aí, é preciso transpor as NTCI para o posto de locomotiva do processo. E, minha Nossa Senhora, isto é fazer duas coisas difíceis: dominar as finanças e suplantar as indústrias do automóvel. E como é que se faz isso? O problema tem que vir de uma combinação de luta política, de luta econômica e de luta ideológica. Logo, Obama não pode fazer como o Senhor, e descansar no sétimo dia. Obama não pode repousar um só momento. Qualquer vacilo, qualquer sono - a demora na mudança - será a ampliação do inferno americano. E isso, que nós não estamos falando das questões geopolíticas do Império. Substituir o Iraque pelo Afeganistão é quase trocar seis por meia dúzia. E ficar às turras com o Irã não é melhorar a situação no Oriente Médio. Embora até que os States têm tentado mudar um pouco a sua inserção por lá. No entanto, o segmento militar, companheiros de rota das finanças, tem uma política externa baseada na segurança mundial...

A FACE DO NOVO ESTADO

1 - Como quebrar o poder do Lobby que reforça o lado conservador dos democratas e dos republicanos? Somente com uma crise devastadora que ponha as finanças em recuo. O problema atualmente é que a crise está entrando num segundo tempo. Pois, vai acontecendo que ela, de crise das finanças privadas, está se afeiçoando à potencialidade de uma crise das finanças públicas. A prova é o que está se passando na Grécia e na Europa. E a pergunta é: já se pode ver a corda que puxa o tipo de Estado forçando a barra para aparecer na sociedade contemporânea? Olhemos no retrovisor e vejamos o que aconteceu no mundo. As finanças estrangularam o antigo Estado e, com o apoio das elites dominantes, instalaram a sua hegemonia. Através do seu poder político transformaram o Estado de uma maneira interessante. Primeiro: desarmaram a sua capacidade universal, o Estado para todos. E mantiveram, exultantes, seu poder de coerção, só que lhe deram um destino diferente. O Estado foi, nesse caminho, induzido e conduzido a ficar de fora da economia. As finanças, por sua vez, “optaram” por se auto-regularem. E a política econômica foi definida como produto microeconômico das corporações. O Estado, agora controlado pelo sistema financeiro, amparava, via somente com as políticas monetárias, financeira e fiscal, a definição da taxa de juros e dos títulos do Tesouro. Porque estes dois aspectos sustentavam uma moeda, que, como uma champanhe esfuziante, asseguravam que as finanças montassem toda a sorte de especulação, principalmente com a estratégia da securitização. Ou seja, para um título emitido se faz outro título para dar seguro a este. E aí foram os CDOs, os CDS, e toda a montanha títulos. E se valeu para os Estados Unidos, valeu para a dupla Wall Street–City; e se valeu para a Europa, valeu para o mundo. E por fim, as finanças financeirizaram tudo. Como diria o poeta Paulo Martins do filme “Terra em transe” de Glauber Rocha: “Vocês venderam tudo”. E financeirizando toda a dimensão da economia, financeirizaram, inclusive, a criação de dois déficits gêmeos, o déficit fiscal e o déficit da balança comercial dos americanos, enlaçando a China. Ora, quando toda essa conexão despenca e se desmancha, é preciso um outro Estado. É uma necessidade lógica. Só que para mudar a economia, no real, tem que mudar a política.

2 - Pois, aí é que está o difícil. Porque, ao salvar os bancos, ao nacionalizar a AIG, por exemplo, o Estado americano não espanejou o campo de batalha, nem conseguiu mudar aqueles que destruíram a confiança no sistema. Certo, alguns foram prô saco, tipo Madoff, porém outros foram absorvidos com o Lehman Brother e a Merrill Lynch. Um ou dois ou três CEOs, altos dirigentes, perderam os seus empregos, contudo todos esses "talentos", como se chamam, ficaram por aí, trocando de corporação ou à espera de uma nova possibilidade de recuperação da volúpia financeira. Os bancos se salvaram, mas nem o governo nem eles mesmos, retomaram efetivamente a economia. Por quê? Porque o capital financeiro, que se valoriza pelas finanças e pela produção, sucumbiu como um todo. Não foi apenas uma crise financeira que ocorreu, foi também um vendaval produtivo – veio abaixo toda a cadeia de valor da produção. O que houve foi, portanto, uma queda de toda – digo: de toda – a economia capitalista. Por isso, o fundamental para que a economia ressurja, há que mudar o padrão de acumulação vigente. E isso só se muda, alterando tudo – desde o Estado e a organização da arquitetura financeira até a liderança e a ordenação da estrutura produtiva. E esse projeto só vai avançar, quando houver uma mutação no comando político da economia, quando o setor financeiro abdicar de sua manha de continuar o joguinho financeiro ou quando o setor produtivo assumir de fato a orientação da nova armação econômica. Ou seja, há que mudar a economia e para tal há que mudar o Estado. A nova cara vai ser um Estado que possa dirigir a economia através de uma política econômica que atenda as questões do longo prazo: tecnologia, produtividade, salários, assistência social e serviços públicos: educação, segurança, saúde, meio ambiente, etc. Se você lê jornal, se você escuta rádio, se você vê televisão, se você entra na internet, você sabe, claramente, que o caldeirão está fervendo. Mas não se muda de uma hora para outra, nem o Estado, nem a economia. As batalhas estão mal começando, mas o subterrâneo já está em andamento, suas placas tectônicas estão se movendo.

3 - Enquanto isso, estamos vendo o crescimento da China, o reposicionamento da Índia e do Brasil, a presença da Rússia, o entravamento e a busca de reposicionamento da Europa (com a Alemanha assumindo um papel importante). Tudo isso está em curso, gerando girassóis e trovoadas por toda a parte, o que significa que estão em movimento duas grandes modificações: a ordem geoeconômica e a ordem geopolítica mundial. E essas moções levam a itinerários amplos na mudança das instituições políticas nacionais e internacionais. Nunca esquecer que a China tendo um Estado central muito forte – e crescendo como está – certamente vai provocar mudanças nas estruturas estatais dos seus concorrentes. Está sendo um esfrega, esfrega. Terminou a moleza do Estado poderoso e retirado do cenário para que as finanças se locupletassem com o bombeamento do capital e do dinheiro da sociedade para eles. Um mundo está indo abaixo e outro está nascendo. (E no Brasil, o redemoinho já está em curso, o trânsito passa pelas eleições deste ano).
E COMO DIZ...
E como diz a música do Tom Zé: "estou te explicando para te confundir, tou te confundindo para te esclarecer".

NOTA - Por duas semanas vou estar ausente deste espaço, retornarei em abril.

quinta-feira, março 11, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
11 de março de 2010
Coluna das quintas

O PODER FINANCEIRO
VERSUS
O PODER DOS ESTADOS

Por Enéas de Souza


SEM LIQUIDEZ, AS FINANÇAS NÃO FUNCIONAM

1
- Estamos vendo um segundo tempo da crise. E nos dá uma nova visão do entrelaçamento pernicioso da economia financeira. Pois encadeia na sua corrente devastadora a economia privada e a economia pública. De que maneira? Antes de mais nada, a economia como um todo precisa de uma moeda, sobretudo uma economia financeira. E uma moeda adequada para esta atividade, para a predominância das finanças, é obviamente uma moeda ágil, veloz, flexível, açulada. E só pode ser uma moeda que não tenha mais como base uma mercadoria concreta, uma mercadoria como o ouro. Logo, uma moeda sem nenhum valor intrínseco, uma moeda abstrata, com um valor garantido pelo Estado. Por isso, a moeda financeira articula a taxa de juros – definida pelo Banco Central – e os títulos públicos – emitidos pelo Tesouro Nacional.

2 - Por quê? Por causa da função monetária de reserva de valor. Pois, como sabemos, uma moeda é meio de circulação e medida de valor. Mas a potência de uma moeda se sabe exatamente pela sua capacidade de ser reserva de valor. Quando tiver preferência pela liquidez, como numa crise, o que faço? Busco aportar numa moeda forte, que é robusta porque é garantida pelo Estado. Pois esta é a coisa que a economia financeira construiu. Um Estado para emitir uma moeda adaptada a seu requerimento, uma moeda que tenha flexibilidade, cuja circulação e cuja velocidade seja fornecedora de liquidez. A liquidez, como forma de valorização do capital aplicado em títulos privados e públicos, é o desejo fundamental do capital financeiro. Mas, para ter uma moeda deste porte, só um Estado pode garantir. Mas quem garante esse Estado? O poder econômico, político, militar e ideológico de uma nação. No caso contemporâneo, o principal Estado é o americano, e por isso, o dólar é a moeda entre as moedas. Como diria o cineasta Scorcese, ele é a cor do dinheiro.

O DESEJO DE QUE TUDO SEJA ATIVO

1 - O mercado financeiro é a alegria dos ricos e dos investidores. Não é um clube exclusivo, mas é um clube para cachorro grande, para espertos e de raciocínio rápido. E ações extremamente prontas, como a de cavalos ligeiros. Agora. Neste instante. E daí, a busca permanente de ativos que dêem lucro fácil, lucro de ocasião, talvez até um lucro descuidista. Na verdade, o objetivo é o rendimento mais exagerado possível. Pois a alma das finanças é a especulação. E a idéia de especulação, para o sistema financeiro, é função de um rendimento, se possível, infinito. Ou seja, as finanças querem e têm mercados instantâneos, que são, pela rapidez dos movimentos, instáveis pela própria natureza. Permite, quando estamos no pró-ciclo, quando o ciclo sobe, que haja sempre um ganho crescente, um avanço aparentemente infindável no território feliz da lucratividade. Por isso, o desejo do mercado financeiro é de girar ativos, muito ativos, supostamente protegidos – securitizados é o termo – com o sonho irrealizado, mas sempre presente, de que eles rendam ilimitadamente. O capitalismo é um sistema transgressor, o capitalismo financeiro um capital vorazmente atravessador de limites. Capital bandoleiro.

2 - Nessa seqüência, o financista faz de tudo para que um ativo possa ter liquidez. E na volúpia do mercado, há que ter ativos. E tudo, na verdade tudo, passa a ser ativo financeiro: ativos reais, títulos privados, títulos públicos, commodities, compondo uma “corbeille”, uma diversificação enorme de títulos. Há no financista e nas finanças o gozo do jogo. É a tesão do movimento da bolsa, do movimento dos títulos públicos, da especulação, etc. O que alegra e faz deste mercado um verdadeiro ”crack”, uma venusiana “drug”, como a guerra para o soldado de “A Guerra ao Terror”, o ganhador do Oscar. O calor da fome de dinheiro é o próprio jogo do movimento financeiro. A mente está sempre buscando alguma coisa para dar grana, para render imediatamente. E assim, é preciso inventar e inovar em termos de ativos. Mas o que mexe com a alma do financista é achar sempre um papel cujo rendimento tenha uma elasticidade em excesso. Foi o que pensou o setor com os primes, os Alt-A, os sub-primes – a escalação das hipotecas do setor imobiliário. É o que pensam agora os especuladores com os títulos gregos. Só que cada ativo porta o seu risco. E, no fundo, a Medusa está ali para pegar os financistas, sempre em algum dia, no mercado financeiro, a casa cai.

3- E a saída é isso mesmo, é se aventurar e correr contra o risco. Porque o excesso instaura o risco como uma forma sempre presente de fazer a diferença entre os competidores. Por isso, as finanças inventaram e inovaram com o Credit Swaps Default, este Pelé do cassino financeiro. Mas, um Pelé que joga para todos os lados. Vejamos o esquema: o Goldman Sachs arranjou empréstimos para os filhos longínquos de Aristóteles. Mas, como o mundo é das finanças, o pensamento de Soros segue junto. Ou seja, e se a Grécia não pagar? Vamos nos proteger. E jogar contra a ela. E assim se faz um CDS contra a referida nação, com uma outra instituição financeira, que pagará na hipótese dos gregos não pagarem. Mas, por sua vez, esta outra instituição, para se resguardar do risco, encadeia um outro CDS para o caso de ter que pagar. Mas, não com as mesmas taxas. Quem sabe aposto mais alto? E eis aí a Grécia apanhada numa teia de aranha. E vem, como um pequeno monstro, para complicar o fenômeno, as agências de notação, as agências de ratings. Quando as coisas ficam perigosas, elas dão o alarme e abaixam a classificação da instituição ou do país. Conclusão: a Grécia para conseguir rolar as dívidas tem que pagar mais juros. De 3% passou a oferecer o dobro. De outro lado, como o país estava, por causa de suas contas, com um déficit anual de mais de 12% e uma dívida de 112% do PIB – quando o tratado de Maastricht permite apenas 3% e 60%, – o mundo caiu em cima do governo grego. E este, como acontece sempre nos tropeços da vida, joga para o bolso dos funcionários (baixa de salários e modificações do valor das aposentadorias) e para a carteira da população (um aumento de impostos), com a finalidade de recuperar as contas públicas. Logo, já se viu este drama, um desastre social completo. A solução de mercado e a felicidade dos especuladores é fazer a Grécia e a população grega sangrarem. E toca mais e mais juros. E o pior é que os CDS não têm nenhum controle, é um mercado de balcão, por isso não há nenhuma instituição que fiscalize e que faça a vigilância. É um mercado do caos, vende e garante o bordel dos títulos. E ameaça a Grécia, a Europa e o Euro.
(Chegará, por via da voracidade especulativa, ao dólar?)

A EXPLOSÃO DA BOMBA

1 - O desejo de que tudo seja ativo e seja motivo de especulação, se no primeiro momento é esperteza, no segundo, é um tiro na fronte, uma bala nos neurônios. Sim, porque este sistema é um sistema suicida. Uma bomba que pode explodir a qualquer momento. Se você, atilado leitor, assistiu ao filme de Kathryn Bigelow, “Guerra ao terror”, que já citamos acima, pode compreender como funciona este sistema, sobretudo o CDS. Ele, o CDS, é um título sempre perigoso, sempre prestes a explodir. E que tem que ser desarmado a cada minuto. Se no momento de euforia, na subida do ciclo, tudo funciona para o aumento das rendas financeiras, quando o ciclo desce, quando o ciclo fica como o Iraque, cada operação é um chamamento a explodir. As finanças se tornam uma ameaça completa e complexa.

2 - Pois vejamos o que está em jogo nesta crise grega. Primeiro, depois da atual crise de várias inovações financeiras nos mercados internacionais, e que leva a uma ruptura da valorização do capital na área das finanças, o rastilho da crise passa da esfera financeira privada para a esfera financeira pública. Com o ataque aos títulos soberanos dos países, começando pela Grécia, o caminho da especulação parece nítido. Visa, de saída, a Grécia, e depois prepara o lança-chamas sobre Portugal, Espanha e Itália, em ordem a ser estabelecida. E por fim, o objetivo – não tenhamos dúvida – é uma bala de canhão sobre o euro. Se a especulação chegar a derrubar esta moeda, o que no momento parece distante, o sistema financeiro terá prosseguido seu movimento suicida em direção à destruição dos Estados. E, no limite, de si mesmo. Naturalmente, que os Estados não quebram, mas podem ficar por muito tempo inviabilizados. E obviamente, é assustador, na mão das finanças. É só especulação e progressivos aumentos das taxas de juros. Se as coisas não funcionarem para os herdeiros de Aquiles e Ulysses, os juros vão subir – e muito. Como, um dia, subiu no Brasil chegando a mais de 40%. Ou seja, a Europa monetária poderá entrar na linha de tiro. Trata-se da trajetória da pólvora financeira.

NOVA RECESSÃO?

Bem, o problema do euro é simples teoricamente. É uma moeda financeira, capenga, coxa e incompleta. De um lado, a Europa é uma união monetária e tem um banco central; com isso, pode gerir a moeda e definir uma taxa de juros para a região, fixando o valor mínimo dos títulos dos países da comunidade. Só que, como não tem um Tesouro, não é uma união fiscal. Têm vários fiscos, os dos países, com situações muito diversas. E assim, ainda teoricamente, o euro, na Alemanha, pode ser moeda de reserva, porque ela pode se garantir, tem capacidade para sustentar uma moeda. Já na Grécia, como é que o euro, ali, pode ser reserva de valor? Impossível. O déficit e a dívida não suportam o balé financeiro. Então, o ataque dos especuladores na Europa começa por ela. Depois, o já dito, avançará para cima de Portugal, Espanha, Itália, etc. Um pouco mais, um pouco menos, eles estão na mesma condição da Grécia. E se esses países caírem, e forem ameaçados com taxas de juros expressivas, o Tesouro da Alemanha não vai resistir. E não resistindo, o euro tombará após a fileira de peixes mortos. Portanto, é hora imperiosa de contra atacar a especulação, para salvar os países e começar uma tentativa de reabilitação do controle dos Estados sobre as finanças. É preciso conter a instabilidade financeira do capitalismo. A crise está, portanto, no segundo tempo. Não é por nada, que Papandreou está pedindo apoio para todos, de Ângela Merkel a Obama. Até quando, Catilina, as finanças devastarão o mundo?

O SEGUNDO TEMPO

As perspectivas de resposta e de metamorfose da economia ainda estão muito nebulosas. Mas, a crise ainda não desatou nos Estados Unidos, o epicentro do terremoto financeiro. As finanças bloqueiam qualquer mudança maior no Congresso, onde o seu partido, o partido do Lobby, é o mais forte, e impede um novo marco regulatório. Enquanto os americanos não resolverem pelo menos: 1) a questão dos grandes bancos (to-big-to-fail), 2) enquanto não regularem ou interditarem os derivativos e 3) enquanto não terminarem o que eles chamam de “consume abuses”, ou seja, a exploração profissional e massacrante dos investidores miúdos e médios, a coisa financeira não vai avançar. Portanto, a sociedade continua na defensiva. E se os americanos estão maltratados, o resto do mundo quase não tem esperança. Desta forma, o que se mostra é que o segundo tempo da crise está promovendo a passagem da crise financeira, envolvendo o setor privado, para o incêndio na área das finanças públicas. Isto quer dizer que é preciso cortar o fogo, pois se ele continuar se alastrando, a recessão em andamento deve crescer. O que vai cortar as labaredas lida com a mudança da arquitetura do sistema financeiro americano e do sistema financeiro mundial. Não parece, no entanto, que as finanças estejam de acordo. E hoje, quem tem o poder são elas. Por um tempo, tudo poderá continuar como está, mas a economia financeira é um mundo de papel que, como a madeira, sofre sem resistência a ação das chamas, no caso das chamas das finanças. A Europa, fortemente ameaçada, esboça um movimento para tentar proibir nos seus domínios o apocalipse da especulação dos derivativos, como resultado do triunfo do capital financeiro.

domingo, março 07, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Islândia rejeita pagamento de dívida de banco privado à Inglaterra e Holanda

Em um plebiscito realizado especificamente para saber a opinião do povo islandês quanto ao pagamento reclamado por Holanda e Inglaterra dos prejuízos que seus cidadãos tiveram com a falência do banco Icesave, mais de 93% dos votantes se declararam contrários aoa cordo proposto entre os governos dos três países. Os islandeses se recusaram, com razão, a assumir uma dívida que totalizaria 48.000 euros para cada cidadão. Isso apesar da tradicional chantagem de que uma decisão contrária aos interesses financeiros "isolaria o país" e "dificultaria sua recuperação econômica"...

É uma lição indesejável para os mercados financeiros de como o povo pode e deve participar na decisão das questões que o afetam diretamente. Esperemos que o exemplo prospere e se difunda mundo afora, afinal, uma das principais características do capitalismo financeiro hora em crise é a negação da participação democrática nas decisões que afetam seus interesses, em nome de uma suposta "auto-regulação".

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quinta-feira, março 04, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
04 de março de 2010
Coluna das quintas

O CÍRCULO MORTAL
DO
O ESTADO FINANCEIRO

Por Enéas de Souza



O CINISMO DAS FINANÇAS

Os financistas e seus arautos voltam a atacar. Um economista do Goldman Sachs, esses dias na TV, previu para o mundo um crescimento de 4 e pouco para 2010 e de 4 e tanto para 2011. O que em princípio para uma economia que caiu vastamente, crescer 4% não é retornar ao ponto em que estava. Mas, aceitemos sua visão inaceitável, de que o mundo crescendo 4% cresce mais que a média dos últimos anos da pré-crise que foi de 3,5%. Ora, o que a gente viu foi, sem dúvida, um tipo cínico, arrogante, presunçoso, pronto para mentir a qualquer momento, excluindo, sem nenhum pudor, o GS de qualquer culpa. Defendia ardorosa e de maneira cega, o bônus nas instituições financeiras, dizendo que este paga, só e justamente, o mérito dos talentos dos executivos de qualquer banco. E numa reviravolta de trapezista do mercado financeiro, culpava os políticos e o Estado pelas desgraças da vida. Principalmente pela crise (sic!). A gente assistia assim, do outro lado da tela (ainda bem que era do outro lado), um gangster falando, um tipo que talvez ficasse bem num filme como “Onde os fracos não têm vez”. Certamente, alguém que não mereceria uma entrevista, salvo neste caso, para vermos a mentalidade do tipo predador, cuja mente e discurso se eximia de qualquer culpa, de qualquer erro. E se mostrava pronto para uma nova caça.

O LIMITE INTRANSPONÍVEL

Pois aqui está um ponto essencial. As finanças não querem arredar nenhum pé, nenhum passo, pensam que a mundo sem eles seria muito pior. E o velho Keynes que tinha a ironia britânica falava da eutanásia do rentista... E os integrantes desta fração de classe, sem visão nenhuma de economia, a não ser do lucro imediato e do caixa do banco, do bônus e da sua conta corrente, têm, da atividade econômica, uma idéia de anti-longo prazo. Só a valorização instantânea dos ativos financeiros, só o curtíssimo prazo, só o ato de predação é que os motiva “socialmente”. E, portanto, não sabem, nem querem, nem identificam que a economia financeira chegou a um limite intransponível. O que não quer dizer que a economia não possa dar uma crescida, que não possa dar uma levantada. Ela até pode; contudo, de modo efêmero. Já que o jeito como se comportam as finanças, não aceitando nenhuma regulação, não possibilita que possa haver um trânsito para um outro padrão de acumulação de capital. Por quê? Porque permanecer num padrão não-regulado é simplesmente continuar dentro de um padrão que se extinguiu. O que quer dizer que não existe perspectiva de um crescimento duradouro, nem para elas nem para ninguém. Nessa direção é preciso atentar que, de um lado, as inovações financeiras neste modelo tendem a ser limitadas, por suspeita do próprio mercado. Dito fortemente; a securitização precisa ser reformulada. E de outro lado, a crise produtiva navega num mar revolto, sobretudo as velhas indústrias, do tipo automobilístico. Fora desses aspectos, certamente o astuto economista do primeiro parágrafo, fingiu que não viu o conjunto de ativos podres que estão na contabilidade dos bancos e que vicejam no interior do sistema financeiro como bactérias ameaçadoras. Ou seja, a recuperação, se houver, não mudando o padrão da economia vigente, será como uma festa de despedida, um canto de cisne numa noite de trevas.

FINANÇAS VERSUS A NOVA PRODUÇÃO

1 -Uma economia só funciona quando a produção funciona e quando a economia financeira se desenvolve, especulativamente ou não, em cima deste desenvolvimento. Pois nós temos agora uma crise muito forte, é necessário transformar esta economia do automóvel numa economia das tecnologias de comunicação e informação. Primeiro: esta passagem supõe: uma mudança de liderança na dinâmica da atividade econômica como um todo; segundo: supõe a adequação da economia financeira a esta produção reordenada; terceiro: requer uma metamorfose na arquitetura do sistema financeiro, pondo este conectado com o sistema industrial e seus companheiros o comércio e os serviços; quarto: requer que o Estado assuma um comando sobre a economia, principalmente disciplinando o capital, ou seja, regulando a atividade econômica.

2 - E a economia é como um rio. Se suas águas forem represadas, elas vão descobrir um desvio para romper com a barreira. Novas e novas águas, diria o Heráclito, vão emergir. Mas, não tem! O mundo vai ter que mudar. E hoje, agora, será muito mais fácil. Depois, se a resistência for grande, só com rasgões, quando o velho – e o velho hoje são as finanças – terá que dar passagem ao novo. E dar passagem por razões estruturais. Mesmo porque se as previsões deste “humanista” da GS se confirmarem, elas não emplacarão num vôo de brigadeiro, como ele pensa e sugere que vai acontecer. É preciso ver que a produção e os trabalhadores vão fazer pressão para que este inverno econômico passe a ser, ao menos, um inverno brando ou, quem sabe, uma primavera. Carlota Pérez, todavia, fala num novo Verão, numa Gold Age. Não chegamos a esta expectativa. Concordamos, não resta dúvida, com ela, quanto a necessidade econômica, política e sociológica de superar este quadro absurdo que está acontecendo neste momento. A rapina salva pelo Estado e pela sociedade volta-se, como uma fera danada, dentes aguçados e vorazes, num monstro diluviano. Um verdadeiro núcleo da barbárie, para morder e liquidar o Estado e a sociedade.

PORQUE O ESTADO SÓ DEFENDE AS FINANÇAS?

Como estamos vendo, uma das dificuldades no embrulho da economia contemporânea tem o nome de Estado financeiro. Sua presença no cenário político e econômico permitiu algumas mudanças decisivas que contribuíram para o sucesso e hegemonia das finanças. Mas estão no bojo desta estrutura estatal características que são pontos nevrálgicos para a sua sobrevivência:

(1) a transformação da moeda-ouro em moeda financeira;
(2) a construção de um sistema de negociação de títulos financeiros, progressivamente auto-regulamentado;
(3) a fissura na estrutura institucional do Estado, entre um setor econômico (reunindo o Banco Central, independente ou autônomo, e a Fazenda, que garantem as operações do sistema financeiro) e um setor constituído pelos demais ministérios, totalmente subordinado ao primeiro;
(4) a necessidade do Estado para bloquear financeiramente, com recursos orçamentários ou endividamento público, qualquer operação de qualquer instituição que traga uma ameaça de risco sistêmico à economia;
(5) a colocação de títulos públicos para servir ao jogo de acumulação do capital financeiro, em momentos de salvação de instituições bancárias e não bancárias, funciona em detrimento do Estado e da sociedade;
(6) a necessidade de manter o controle da moeda contra a especulação dos capitais privados, para evitar que a ameaça do risco sistêmico se transforme em risco social;
(7) a deterioração da moeda, de um país ou de uma região, encadeia uma sucessão de crises, que segue o seguinte movimento: crise financeira, crise fiscal, crise monetária e crise do próprio Estado, à medida que se evidencia a incapacidade do Banco Central e do Tesouro.

Desta forma, lendo estas notas, podemos ver que existe um fantasma, o fantasma do velho Keynes, rondando o paraíso das finanças. Pois se ele propunha, com toda a sua argúcia e clareza, a eutanásia das finanças, ao se observar a estrutura da relação entre capital financeiro e Estado, o que a gente percebe é que o sistema tem um lado de euforia, mas tem também um ponto de vertigem. É nesta altura que está inscrita a hipótese de uma crise imensa, por uma vocação ao suicídio dos rentistas, pois uma crise profunda das finanças engancha o Estado, o Estado financeiro. Por essa razão, não há saída, este Estado tem que defender fortemente as finanças, sob pena de se ver envolvido na voragem da crise do capital. Mas, uma crise deste coloca obviamente em cheque o próprio Estado. Ainda não chegamos a este ponto, mas o círculo capital-Estado pode entrar numa de trajetória de infindável realimentação.

terça-feira, março 02, 2010

ECONOBRASIL no Diario Gauche

Ficamos felizes em saber que os amigos do excelente Diario Gauche (www.diariogauche.blogspot.com ) estão apreciando nossas postagens sobre o desenrolar da crise financeira mundial, como mostra a menção feita no blog ao artigo do Enéas sobre a crise na Grécia e na Europa ("A Grécia põe a Europa em questão", 18/02/2010).
Aproveitamos para recomendar o acompanhamento do Diario Gauche aos nossos leitores interessados em análises e reflexões sobre a sociedade e a política gaúchas que fujam ao lugar comum expresso pela mídia oficial. É sempre uma delícia poder compartilhar os questionamentos que tanto irritam as antigas vozes monocórdias do poder local, dentro do mesmo espírito que nos anima aqui no ECONOBRASIL em relação as notícias da economia internacional e brasileira.

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
25 de fevereiro de 2010
Coluna das quintas


O SEGUNDO
TEMPO
DA CRISE

Por Enéas de Souza


O MEU MUNDO CAIU

1 - Para compreender a possível metamorfose da sociedade contemporânea é preciso saber da construção que está em rota de desabamento. Uma madeira cheia de nós e tensões, cupins e baratas. A finalidade é única: não repetir o mesmo, não realçar de novo esta hegemonia financeira. Pois, é da realidade de agora que temos que falar. Ela se engalanou, se empolgou, cresceu com os seus delírios, as suas especulações e numa das esquinas da vida, esbarrou no carro da crise, que vinha na contramão da ideologia neoliberal. O que aconteceu? Antes de tudo, a articulação sistema financeiro e Estado, sistema financeiro e produção, sistema financeiro e população foi armada, ao longo dos últimos trinta anos, para exibir a vitória das finanças dentro do triunfo do capital. Digo triunfo do capital, porque a Guerra Fria, com a queda da União Soviética, trouxe para o primeiro plano o lado financeiro do empresariado, a arrasadora presença das corporações bancárias e não-bancárias. Coisa que ficou dominando, fustigando, planta viva e planta carnívora, construindo moeda financeira; fazendo subir e descer mini-crises nos mercados de ativos financeiros; entrelaçando moeda, títulos privados e títulos públicos; fazendo um rodízio especulativo contra moedas, contra as aplicações imobiliárias, contra as ações na Bolsa, contra os produtos financeiros e especulando ostensivamente contra o petróleo e commodities. Depois de tantas crises miúdas e médias, explodiu, sem refinamento a grande recessão de 2007, puxada pelo personagem marginal das sub-primes.

2 - Como escrevemos num trabalho chamado a “Insustentável Leveza do Capital Financeiro”, o sistema financeiro girava uma máquina, que unia desregulação, alavancagem, sindicalização, securitização, agências de ratings e articulação especulativa das finanças e da produção”, buscando a acumulação financeira do capital. Ou seja, um modo outro do capital de acumular, ao contrário de aumentar seus volumes de riqueza pela produção, agora, a sua forma tinha a lantejoula e a plumagem do crescimento via papéis. Num mundo, onde tudo era ativo financeiro, desde os próprios, até os ativos monetários e os reais; as fábricas, as mercadorias, as empresas, a tecnologia, as hipotecas, os dólares, os euros, as obrigações, os derivativos, tudo, tudo, se perfilavam e se comportavam como ativo financeiro. Vendeu-se tudo, comprou-se tudo. Só que um dia, como sempre, alguém desconfia desta roda da felicidade, e sai fora. E o mundo cai, as finanças acordam em crise. Mas dormem sonhando com o retorno da forma que desmanchou-se. Na aurora seguinte, começa um devastação social, que devasta nos Estados Unidos, atravessa a Inglaterra, incomoda na China, requer malandragem no Brasil e desmaia na Grécia.
Então a pergunta acorda: “que tipo de construção social está diante de nós?”.

A DIALÉTICA ESTADO-CAPITAL

1 - O Estado a serviço das finanças

Vamos examinar um aspecto da complexa questão. Trata-se da relação entre a economia e a política, e nela, a construção do Estado financeiro, o Estado que acompanhou a carreira das finanças como a linha das ondas que chega com a maré à praia dos ganhos maiúsculos. Todo o objetivo da hegemonia financeira foi exatamente isso, criar um Estado poderoso, altamente coercitivo, mas flácido em relação ao desejo especulativo e a ambição de rendas fartas do setor. Uma sociedade precisa de um Estado que combine seus órgãos, sua burocracia, suas medidas de política econômica, seus planos de tratamento social das classes desfavorecidas, em benefício, maior ou menor, às frações dominantes. No caso atual, ele foi elaborado social, econômica e politicamente pelo capital financeiro. Portanto, esculpiu-se uma entidade a serviço das finanças, por causa da hegemonia desta.

O atual Estado foi um Estado privatizado na sua natureza e em toda a sua extensão, a começar pela mirabolante proposta das instituições financeiras de deixarem em suspenso uma regulação estatal, visando obviamente a instauração da auto-regulação. Renovou-se o faroeste vivo e solto da mitologia americana. Do ponto de vista político, a presença das finanças forçou uma cisão, uma fissura, uma cirurgia no Estado, dividindo de um lado, uma presença forte, até totalitária, do mesmo, em relação a sociedade civil. E de outro lado, a razzia financeira, a livre exploração dos ativos financeiros inventados para aplicações e possíveis proteções empresariais. Quanto ao primeiro aspecto, não foi a troco de outra coisa que o Estado americano agiu guerreiramente no campo externo (exemplo, a ação predatória sobre petróleo no Iraque), e o estabelecimento de uma repressão da coletividade interna, (valham os casos, do Patriotic Act e do violento acréscimo de cidadãos presos). No tocante ao item da razzia financeira, separou-se e isolou-se, em desfavor das demais, a parte do Estado que se dedicou a criar condições para o cultivo dos rendimentos nos jardins dos ativos financeiros.

2 - Sucessão de quinze pontos

Houve uma sucessão de características econômicas nessa contradição, nessa tensão, entre o Estado e o Capital, principalmente quando a pensamos a partir dos Estados Unidos. Destacando a temática desde os anos 70 até agora, enumero facilmente 15 pontos desta aliança/conflito:

Primeiro ponto: a liquidação da moeda que atendia a hegemonia produtiva: a supressão do dólar-ouro.
Segundo ponto: a construção de uma moeda financeira, o dólar papel, para substituir a precedente. O Estado dispôs o Banco Central, o FED, para definir a taxa de juro básica do mercado, e o Tesouro, para fornecer o título - títulos do Tesouro Americano - que possibilita o nível de valorização mínima da aplicação financeira. Acabam, assim, os dois órgãos do Estado, o FED e o Tesouro, por construir a função reserva de valor desta moeda. Também fica revelada a natureza da moeda que se instaura: o Estado garante.
Terceiro ponto: uma cisão na estrutura do Estado. Uma cisão entre o Estado dedicado a política monetária, financeira e fiscal – em resumo, a política macroeconômica de apoio as finanças – e o Estado dedicado aos demais aspectos da sociedade, salientando em primeiro lugar a guerra e o controle interno da sociedade.
Quarto ponto: o desgaste crescente da unidade do Estado nas questões financeiras. Uma das realidades importantes foi a criação de vários órgãos controladores (às vezes, embolando o nível federal, estadual e municipal) de setores financeiros: bolsa, seguros, setor imobiliário, etc. Ou, foi permitir que se estabelecesse o descontrole total, como no caso dos CDS onde a auto-regulação é absoluta. Tudo isso foi um torpedo das finanças no Estado.
Quinto ponto: a ocupação insustentável do Banco Central na posição de emprestador em última instância. No desempenho desta função, durante a crise, o FED teve que pedir auxílio ao Tesouro para poder absorver os títulos podres do sistema, através dos bail-outs e das linhas de liquidez. Em resumo: o Banco Central quebrou. E acredite, salvou-o, como se dizia na infância, o Rhum Creosotado. Aliás o Tesouro; logo, o Estado.
Sexto ponto: o crédito social como uma questão privada. O Estado não estabelece a direção dos empréstimos porque ele, sob a iniciativa das finanças, é submetido fortemente ao critério da máxima rendabilidade. Não há prioridades estratégicas do Estado para os empréstimos e os recursos para aplicações são atraídos pela instantaneidade valorativa do mercado financeiro. As alocações são vertidas para o curto prazo.
Sétimo ponto: a construção de um Estado financeiro. O Estado fica, por conseqüência da lógica econômica presenste, nas mãos das finanças, facilitando as necessidades e os objetivos desta. E fica a serviço inclusive da integridade do capital financeiro, no detrimento da sociedade como um todo. Vejam-se na composição dos bail-outs o que foi doado às finanças, à produção, e aos consumidores. (Aqui não podemos nem falar em cidadãos, pois esta “categoria” não influenciou nas decisões dos pacotes salvadores).
Oitavo ponto: o surgimento da “governança corporativa”. Toda a política de organização das corporações foi submetida à “governança corporativa” porque alisou as pretensões contraditórias dos financistas e dos acionistas, financeirizando toda a corporação, desde os seus objetivos, as suas metas, até a remuneração e a previdência de seus funcionários. Neste último aspecto o Estado deixou que a regulação e o cumprimento de uma política social funcionassem como uma janela de valorização do setor privado.
Nono ponto: o setor público como espaço ampliado de valorização do capital. O financiamento, os títulos e a dívida do governo estão igualmente à serviço das finanças, seja como fonte segura de suas aplicações, seja como a busca de recursos que o Estado traz do mercado financeiro para a salvação de diversos capitais do próprio sistema.

Décimo ponto: a ameaça das finanças às contas internas e externas do governo. Obviamente, esta ameaça depende do grau de ousadia dos capitais; da corrupção e da competência do Executivo, do Legislativo e do Judiciário; e do convencimento (via a indústria da mídia), do poder estatal e da sociedade para o uso do Estado em favor da área privada.
Décimo primeiro ponto: a pressão do Estado para o controle da inflação mundial. As finanças utilizaram o governo dos Estados Unidos e instituições para-nacionais, como o FMI e o Banco Mundial - via ajustes, planos, programas – para forçarem os Estados de diversos países a efetuar um controle inflacionário, com o objetivo de assegurar horizontes de cálculo para a valorização das aplicações e especulações da área financeira do capital.
Décimo segundo ponto: os capitais requerem a proteção do Estado contra eles próprios. As finanças concordam que deve haver um mecanismo básico de proteção contra o caráter auto-destruidor da natureza especulativa do capital. E aí o Estado serve. E serve para salvar a concorrência intercapitalista do risco sistêmico.
Décimo terceiro ponto: a competição dos capitais privados com o Estado pelo poder e pela regulação. No processo atual, as instituições chamadas “to big to tail” (“muito grandes para falir”) passam a afrontar o Estado no sentido regulatório, ou no sentido auto-desregulatorio. E com isso ameaçam a coesão unitária do Estado, produzindo, no mínimo, um nível elevado de imposição de suas políticas.
Décimo quarto ponto: as finanças ameaçam a moeda. Os capitais financeiros fazem e jogam na falência da solidez de uma moeda, como um dia fez Soros contra a Inglaterra.
Décimo quinto ponto: a busca de preservação do Estado por causa do tipo de movimentação das finanças. As nações (e os Estados) são ameaçadas pela especulação das finanças e ficam numa dupla situação: de um lado, são sustentadores político-econômicos da continuidade da existência das corporações financeiras; e de outro lado, terminam na dependência, em diversas ocasiões, do crédito privado, porque também se caracterizam como um dos locus de aplicação e fonte de rentabilidade dos capitais da área em pauta. Com isso, os países são internamente constrangidos pelas ações desbragadas e especulativas dos capitais privados. Não há dúvidas, a par das euforias, as finanças tem no seu âmago uma vocação explosiva E se os Estados, governados por um combinação política de classes, não tomarem a precaução de se preservar da competição feroz e destruidora dos capitais, eles terminam por implodir. Pois, o conflito é o rei da economia e da política.

A CRISE FINANCEIRA VAI DESCENDO O RIO

Tudo isso tem a finalidade de mostrar como a crise atual se desdobra do mercado financeiro para o sistema financeiro; do sistema financeiro para o Banco Central, do Banco Central para o Tesouro, do Tesouro para o Estado. E, assim, hoje, com o excessivo endividamento dos Estados Unidos, com as crises anunciadas e efetivas da Grécia, da Espanha, da Itália, da Irlanda, estamos sentindo um cheiro de um segundo tempo: o tempo da crise fiscal. Com isso nos aproximamos de uma crise social e de uma crise monetária. Ou seja, estamos passando da crise dos setores privados para o setor público. E no centro da questão está o Estado, seja na sua relação com o referido setor privado, seja na sua relação consigo próprio, seja na sua relação com a sociedade civil. Pois, neste jogo, emerge uma diferença aguda. Uma diferença entre um Estado com unidade precária e crédito geralmente privado como os Estados Unidos, a Europa e seus países, e um Estado com unidade razoavelmente consistente, com crédito centralizado, como o da China. Por essa razão, é razoável dizer que o futuro do capitalismo sairá destas questões apontadas neste texto. E que envolvem o atual desenvolvimento da crise, do desdobramento do que estamos chamando de crise do segundo tempo, onde o segredo estará no resultado dos múltiplos confrontos sociais que existirão entre o capital financeiro e a sociedade. Combate que se expressará na definição de um Estado, resultante da trajetória dialética do Estado e do Capital.

sexta-feira, fevereiro 19, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Matt Taibbi mostra como a próxima grande crise financeira está em processo

Matt Taibbi é um jornalista que se notabilizou por ter realizado um retrato extremamente crítico das atividades da Goldman Sachs na revista Rolling Stone no auge da crise financeira. É interessante pois ele populariza e mostra a importância para o cidadão comum de temas que são usualmente maltratados (propositalmente) pela mídia oficial. Taibi volta agora com novo artigo que basicamente se pergunta o seguinte: de onde estão vindo os lucros dos bancos norte-americanos, em particular da Goldman Sachs? E chega a uma conclusão: eles não aprenderam nada coma crise da qual foram salvos pela intervenção do Estado e estão manufaturando um desastre ainda maior.

Interessante, pois mostra que o monolítico sistema de proteção às versões financeiras oficiais não existe mais nos EUA e que o ressentimento contra os banqueiros aumenta.

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quinta-feira, fevereiro 18, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: A crise acabou... de recomeçar!

O impressionante na crise financeira é como ela segue os rumos lógicos previamente estabelecidos depois que sua dinâmica se delineou claramente. A crise imobiliária de 2006-2007 se transmutou em agosto daquele ano em crise financeira. Nada mais lógico e evidente. Aqueles que acreditaram no "está contido aos financiadores do subprime" pagaram o histórico mico de demonstrarem em público toda sua ignorância sobre a natureza sistêmica subjacente ao funcionamento do sistema financeiro globalizado (pior que dentre estes estava Ben Bernanke... mas ele logo se deu conta do equívoco, a bem da verdade...).
Um ano depois, a crise financeira se metamorfoseou em crise econômica, com quedas records no pós-guerra na produção industrial e no comércio internacional mundiais. Óbvio, mais uma vez. Para evitar um encadeamento destruidor ainda mais nefasto entre finança e economia, o bombeiro Estado entrou em campo com toda a água disponível. Fez efeito parcialmente, o incêndio parou de se alastrar e alguns pontos chamuscados foram recuperados. Mas, obviamente o fogo permaneceu aceso. Como a capacidade dos Estados para ir além e possibilitar novas bases para o crescimento estava solapada pela dimensão dos gastos realizados para evitar uma queda na depressão generalizada, era evidente que se veriam confrontados com demandas crescentes e receitas diminuídas pela queda na atividade econômica. Sua situação fiscal se deterioraria inexoravelmente, e, mais cedo ou mais tarde, isso levaria a uma ameaça de crise fiscal generalizada.
Aqui estamos. Tudo como previsto, tudo evidente, tudo óbvio. Iremos para o caminho da crise fiscal e depois da crise monetária terminal? O filme é tão claro que sigo me recusando a acreditar que seja trilhado. Como bem coloca o Enéas, a solução é política. Mas, aqui entro eu, o problema também o é. Ou seja, desde o início nada de efetivo, de estruturalmente importante, foi ainda realizado. A situação se encaminha para um longo e lento desenrolar sem que se vislumbre nada capaz de alterar o rumo ao desastre que o óbvio nos aponta.
No início do ano se proclamava em altos brados: a crise acabou! Se disse isso em novembro de 2007, em março de 2008, e em grande parte de 2009. Mas a danada é insistente e como um monstro de filme "B" reaparece, mutante e fortalecida. E, tal qual no terror de quinta categoria, é tudo óbvio, é tudo evidente. Vejam as notícias mais populares das eeção de economia do Telegraph de hoje: a criação de crédito nos EUA bate records negativos, com o multiplicador monetário atingindo apenas 0,81; a União Europeia "pune" a Grécia restringindo sua soberania, impedindo-a de votar medidas que também a concernem e que entrarão em pauta no próximo mês, na maior humilhação já imposta a um estado-membro; Soros investe em ouro, ativo por ele mesmo chamado anteriormente de "a última bolha".
Podem dormir tranquilos, com notícias com esse conteúdo a crise, finalmente, acabou!
Links relacionados:

http://www.telegraph.co.uk/finance/financetopics/financialcrisis/7252288/Greece-loses-EU-voting-power-in-blow-to-sovereignty.html
http://www.telegraph.co.uk/finance/economics/7259323/US-bank-lending-falls-at-fastest-rate-in-history.html
http://www.telegraph.co.uk/finance/personalfinance/investing/gold/7259161/George-Soros-buys-gold-despite-dubbing-it-ultimate-bubble.html
CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
18 de fevereiro de 2010
Coluna das quintas

A GRÉCIA PÕE
A EUROPA
EM QUESTÃO

Por Enéas de Souza


O ABSURDO DA GRÉCIA

A crise grega colocou mais economia na política, mais privado no público. E de uma forma assustadora. Uma forma onde a vigarice penetrou profundamente no setor estatal e fez do Estado fonte de rendimento, fonte de especulação, fonte de expansão das finanças e fonte de desmoralização do próprio Estado. A situação da Grécia é imensamente grave e suntuosamente absurda, a tal ponto que o que está em jogo não é apenas a credibilidade de um país; pôs na reta, e em perspectiva de crise, o euro. E no limite, jogou a questão no colo da União Européia. Isto sem contar que apareceu, de novo, como um leme inacreditável, a revelação da audácia, da impunidade e do descontrole das entidades financeiras. Elas mantêm, sem perder a irracionalidade, ainda, um cenário de contundente instabilidade na economia mundial.E no fundo dos bastidores do caso grego, emerge a indisfarçável presença de um capital predador, o Goldman Sachs, para confirmar a fotografia dos gestos contemporâneo preferido das finanças.

ESTÁ NA HORA DO RETORNO DA POLÍTICA

De onde surgiu esta impressionante desenvoltura das finanças, que passou pela produção da crise grega? Primeiro: surgiu por causa do avanço triunfal do capital financeiro, que fez do Estado um ente visivelmente a seu serviço, liberando os capitais no seu movimento e desregulamentando a economia. Segundo: surgiu porque o Estado esteve sempre de prontidão com seus bancos centrais para resguardar a política monetária e financeira definida ou imposta pelas finanças. E, portanto, para salvar as instituições bancárias e não bancárias de colapsos e bancarrotas em suas fantasiosas aplicações. Um exemplo vivo: os bailouts e as linhas de liquidez do FED durante a crise americana. Terceiro: surgiu por efeito de uma cisão operada no Estado, que separou na sua figura o ente financeiro e o ente político. Assim, ao ser financiado pelas finanças, o Estado poderia ser tratado ambiguamente. De um lado, os títulos públicos eram valorizados por terem garantia estatal, mas de outro lado, estes ativos eram operados de modo semelhante aos papéis do setor privado, títulos que entravam no carrossel especulativo, pelo fato de serem submetidos à securitização. Assim, se ligarmos os itens 1,2 e 3, fica registrado que, por via do endividamento público, as finanças tornaram-se uma ameaça a estabilidade e a integridade do Estado. Ponha-se então na quadra o caso grego. Ele é exemplar da absoluta delinqüência com que atuou a corporação financeira. E com isso chegamos ao quarto ponto. Para comprovar o afirmado acima, sabemos que o setor privado tem uma expertise na forma de manobrar nesses mercados de auto-regulação e mal supervisionados. Com essa experiência, o Goldman Sachs ajudou a Grécia a lançar títulos, para colocá-los, em seguida, na voragem da especulação, atuando, via CDS, contra o citado país. Mas foi além e fez pior. Deu consultoria para a burla decisiva: com sua experiência contábil financeira ajudou ao Estado grego na maquiagem da contabilidade pública. Com isso, colaborou com o governo conservador da Grécia no ludibrio à comunidade européia, justamente por ocasião do ingresso nesta daquele país. O que evidenciou, também é óbvio, a fragilidade da UE no controle fiscal das Estados participantes.

Sinta o leitor, a ousadia da fraude e a falta de caráter político do governo conservador e corrupto de Costas Caramanlis na Grécia, permitindo que o Goldman Sachs fosse o seu conselheiro de estrada e de enganação financeira. Se os conservadores não fossem batidos por Papandreou a gravidade da situação levaria ainda algum tempo a ser conhecida. E o que se conclui desse processo de absoluta privatização do Estado? É que ele deve dar a oportunidade a um recomeço de um movimento político, cuja finalidade deve ser a de transformar as relações entre o público e o privado. Mas, não só na Grécia. Também na Europa como no resto do mundo.

OS CAMINHOS DA EUROPA

1
- A Europa está sofrendo uma ameaça econômica e política complexa. É preciso atentar para a sua realidade. Ela é uma entidade social com corpo e sem cabeça. Ou seja, tem moeda, mas não tem Estado. Gere uma política monetária e financeira, mas não gere uma política fiscal. Na verdade, cada país tem a sua própria e a Europa não tem nenhuma. Portanto, não há integração dos fiscos. Por essa razão, emerge uma motivação fundamental. Este processo da Grécia está pedindo que a União Européia dê mais um passo na direção de um Estado europeu. Esse Estado está longe de acontecer. Mas, a solução da crise grega tem que se dirigir para lá. De um modo ou de outro, a Comunidade deve encontrar mecanismos para alcançar uma nova etapa. O ponto que está visível é a busca de uma coordenação econômica que assegure um mínimo de coerência no campo da fiscalidade coletiva. E esta coordenação vai ser um degrau a mais para a integração das finanças públicas dos Estados membros. Dito claramente: esta coordenação pode esboçar no futuro a criação de um Tesouro europeu. Ao mesmo tempo, que será uma nova baliza no rumo da constituição de um Estados Unidos da Europa ou de uma verdadeira União política européia. Se este não for o itinerário, certamente uma trajetória de longo prazo, a Europa estará ameaçada não só de ficar inerte, como ameaçada de regredir profundamente. E não esqueçamos que além da crise grega temos pela frente a possibilidade de crises fiscais em Portugal, na Itália e na Espanha, etc. Não há escolha. O caminho das decisões, o objetivo estratégico prioritário de ampla duração, deve rumar para a construção de um Estado europeu, na forma preferida e negociada entre os seus participantes.

2- Cada vez fica mais claro, que a Europa foi ultrapassada pela China. Portanto, para se firmar e retornar ao jogo precisa fazer movimentos políticos amplos, e muito difíceis, de busca de unidade dos seus Estados membros. Precisa desenvolver no mínimo uma união econômica de ordem monetária, financeira e fiscal. Precisa elaborar uma estratégia de construção de um Estado, onde a Comissão, o Conselho e o Parlamento europeu, possam de fato ter plenas condições para definir, para os habitantes da região, metas de caráter político, econômico, militar, social e cultural. E, sobretudo, há que encontrar força, portanto poder, para fazê-las cumprir. O primeiro passo principia agora, nesse momento: dar solidariedade ao Estado grego para a solução de seus problemas financeiros. Em benefício da comunidade européia e da sociedade grega. Para tal, será preciso estabelecer um plano adequado de solução da dívida (em 12,7% do PIB quando a permitida pela legislação da Europa é 3%). Contudo, a União Européia não pode parar aí, deve continuar a sua trajetória. Deve estabelecer uma relação institucional de verificação dos dados econômicos dos países membros com segurança. Deve prosseguir com uma política de coordenação fiscal, tanto com a finalidade de solucionar este caso, como de preparar-se para resolver outros que porventura apareçam. E obviamente, estabelecer uma estratégia de unificação política. Cada vez fica mais claro que esse é o caminho a seguir. A Europa ultrapassa a questão shakesperiana. Se recuar, morre. Pois o seu dilema não é ser ou não ser. O seu dilema é ser ou ser. Não há saída - eis a questão!

segunda-feira, fevereiro 15, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Goldman Sachs por trás do desastre grego

Demorou, mas veio à tona. Mais uma vez a Goldman Sachs tem um papel obscuro em uma crise financeira maior. Conta a lenda (real nesse caso) que a GS teria feito um swap de divisas com o governo grego, invisível contabilmente, quando da ascensão da Grécia à Zona do Euro (2002, data de criação da moeda única europeia). Esse empréstimo disfarçado teria sido essencial para que as contas públicas gregas pudessem alcançar as exigências da União Europeia de aderência ao euro. Um certo Mario Draghi (atual presidente do Banco Central da Itália e candidato à sucessão de Jean Claude Trichet como presidente da BCE), então empregado da Goldman, teria sido o intermediário utilizado para a concretização do acordo secreto...

Mais uma vez se misturam burocratas poderosos, governos e a Goldman Sachs em transações mais que nebulosas e que permitem ao banco de investimentos de Nova York lucrar posteriormente a partir de inside information, utilizada inclusive contra seus próprios clientes.

Até quando?

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Vencedor moral?

O resgate da UE pra os gregos mais se parece a um presente de grego: estão dando "apoio moral" às medidas de ajuste fiscal do governo grego. Se comprometem, em caso de agravamento da situação, a tomarem medidas concretas, desde que o governo grego tenha implementado um plano de ajuste crível.
Eessa história toda parece, para nós brasileiros, aquela conversa da Copa de 1982, ainda hoje de má memória: o Brasil foi o "vencedor moral" da Copa. Não ganhou, mas merecia ter ganho. Os gregos não levaram nada, mas tem o "apoio moral" da União Européia. Para agirem direitnho.
No futuro veremos do acerto dessa inação em um contexto onde os rastilhos da desconfiança já se espalharam à Portugal, Espanha, Itália e Irlanda. Num mundo que conta com a pesença de aproximadamente 10.000 hedge funds alavancados, não agir é um convite para maiores turbulências "lucrativas" no futuro próximo. E a economia realizada pela recusa do bail-out aos gregos pode se transformar em mais um gigantesco prejuízo a ser atacado de urgência no futuro, em um filme já reprisado dezenas de vezes.
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CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
11 de fevereiro de 2010
Coluna das quintas

A SINFONIA
INACABADA
DA CRISE
Por Enéas de Souza

PASSAMOS AO COMPASSO FISCAL

Dando uma volta no mundo, a gente percebe que a crise é como aquele fogo lento que vai comendo uma erva aqui, desamparando uma árvore ali, subindo numa parede mais adiante e devorando uma folha de jornal, logo depois da esquina. E assim, o movimento da chama trabalha o seu passo inexorável. Contudo, um item é claro: não podemos ter como parâmetro para a crise atual a crise dos anos 30. Os desabamentos do capitalismo não são os mesmos. Ele sempre tomba, mas cada vez com um tombo diferente. Dito de outra forma: a configuração das crises não tem nunca o mesmo perfil, cada vez o seu retrato é diferente. Hoje, a foto de lado está mostrando uma profunda crise financeira e produtiva. Mas, já estamos flagrando o desdobramento dela, que vai se dando na península do Estado. Surgiu uma crise fiscal de corpo inteiro, a começar pela Grécia. De mais a mais, são candidatos fortes também Portugal, Espanha, Itália, Irlanda. Ponha-se igualmente a câmera sobre os Estados Unidos: uma dívida enorme, um déficit fiscal alentado, com o governo procurando controlar o orçamento. (E não estamos descrevendo a luta aberta entre as Finanças e Obama.) Mas, voltando à crise fiscal, não podemos negar que os investidores em títulos gregos, além de estarem forçando aumento de taxas para novas aplicações, estão jogando “proteção” contra os referidos ativos através do CDS. O que nos faz pensar que algum rombo nesta área pode levar a crise fiscal a por mais fogo na crise financeira. Ou seja, estamos vendo o começo de uma nova etapa da mesma crise que principiou em 2007?
(Comentário lateral: crise lenta tem este tom! Não termina só porque jornalistas e empresários e economistas dizem que a crise já passou e que estamos no pós-crise. Esta é uma crise que não se decifra num manual de economia matematizado ou no vai que vai de um financista voluntarioso).

O ELÁSTICO DA CRISE

1
- Olhando a anatomia da crise vemos que ela não fica somente nos elementos de uma parte do corpo. O rosto, por exemplo, que poderiam representar as finanças. O rosto com seus olhos que calculam a potencialidade pecuniária dos títulos. Ao contrário, ela revela que este corpo ocupa um lugar no conjunto do espaço e do mundo. E que este espaço e este mundo também estão empoeirados, estão bichados, estão devastados. Olhe só um pouquinho: o planeta atravessa uma crise ecológica sem precedentes, que afeta tanto a realidade rural como a urbana. E neste último aspecto, fala-se pouco, mas aqui o trauma é lancinante. Caos de transporte, caos de circulação, caos de distribuição de espaços, caos de moradias, caos de prevenções as mais diversas, caos de acessibilidade. E toda esta bagunça descortina na moldura das cidades, expressivas neves, temporais assustadores, terríveis abalos sísmicos, tempestades dementes, desaforados temporais e tsunamis terroristas. Dizendo rapidamente: uma série de catástrofes. Longamente anunciadas pelos ambientalistas, pelos ecologistas, pelos urbanistas, pelos arquitetos. E se a gente olha atrás deste panorama, há como que uma fiel companheira, mais guia do que seguidora, uma robusta crise de valores, cuja dança termina numa crise da civilização. Parece que estamos cortejando o pessimismo. Mas, Tarkovski, não terá razão quando diz que o pessimista é um otimista bem informado?

2 - Veja-se a crise de 30. A expectativa, não confirmada, era que havia a esperança de uma mudança para o socialismo, onde tudo seria diferente. Esta utopia que começava a fazer plantão já na guerra de 1914, atravessou a segunda guerra mundial, e esvaiu-se na praia e na queda dos muros dos anos 90. Hoje, na verdade, esta crise não tem utopia, tem o rosto de Medusa. Porque além se ser uma crise muito feia, as pessoas ficaram amnésicas; buscam saídas imaginárias, fantasiosas, de um otimismo prá cima. E não chegam a sentir que há de fato uma tremenda crise. No fundo, no fundo, esta amnésia mostra a máscara de um outro rosto, o rosto da impotência. A crise de fato está se autonomizando. Escapou das finanças, escapou da produção. E ameaça escapar do Estado. Falam que a verdadeira ameaça é o niilismo, como diria Nietzsche, que segue comandando este declínio americano e este tumulto da contemporaneidade. Com a barbárie dando vivas aos seus maiorais, a crise mergulha na noite dos crimes e dos medos. Bósnia, Bagdá, não são apenas nomes. Mas esperemos a inversão dialética: toda barbárie tem um quê de civilização. E que esta possa mudar o sinal da dinâmica social. E o tempo é uma questão chave. A crise dos anos 30 só inverteu o caminho da destruição depois da segunda guerra mundial. Uma guerra não é inexorável, porque os conflitos não necessariamente se solucionam apenas através da devastação bélica. Pois, a política está aí para isso. Mas, a pergunta, que vai ao ar, indaga: como a barbárie toma o míssil da civilização?

O TEMPO REI

1 - A temporalidade desta crise é complexa. Ela não é linear e, ao contrário daquela dos anos 30, não tem uma perspectiva fora do sistema capitalista. O capitalismo se mostra vulnerável, mas não parece estar numa crise terminal. Portanto, há que examinar e pensar a sua temporalidade. Crise financeira e crise produtiva chegaram juntas. A crise fiscal vem atravessando a rua e pode dar um novo choque na crise financeira e produtiva. Usando uma idéia schumpeteriana, o mundo tem um caminho de evolução que passa pela maturidade da trajetória das novas tecnologias de informação e pela busca de um novo paradigma energético. Mas, estes pontos estão apenas vislumbrados para daqui a pouco, no futuro da temporalidade. Fazem parte da resolução da crise. No entanto, eles habitam a beira da margem, ainda escura, deste rio. Há que clarear o horizonte para que eles naveguem. Não se pode deixar de ter cuidados, pois com o capitalismo se tornando cada vez mais companheiro do crime (desde o narcotráfico às empresas militares privadas), o trânsito do tempo em busca de uma nova perspectiva, inclusive de civilização, tem um longo caminho a percorrer. Thiago de Mello sempre teve razão: faz noite, mas eu canto.

2 – O atencioso leitor cético deve se questionar e inquirir: porque a sociedade se recusa a enfrentar todos esses personagens do apocalipse? (Que para muitos não são quatro como pensava Minelli, são muito mais. Guerra, peste, fome, corrupção, traição, predação, dizimação, genocídio, etc.) Daí, mesmo na sombra, com um olhar mais avantajado, passamos à pergunta seguinte: porque as festas do consumo, o gozo da guerra, a destruição do corpo do outro, a busca da escravidão, o assassinato como forma de política e de sociabilidade, etc. continuam a vigorar com uma intensidade perigosamente alta? Vamos assim de Ruanda ao Haiti, da máfia chinesa às finanças, do tráfico de drogas ao tráfico de pessoas, do consumo de drogas pesadas às “notícias de uma guerra particular”? Se a nuvem da ideologia é rompida, o mundo parece tenebroso. E estas facetas são coisas tão ativas que fazem do mundo atual a hora de uma sinfonia inacabada, por excesso de barulho e de bandoleiros. Mas, a temporalidade da crise continua avançando enquanto o celular da detonação está sendo ativado. O tempo, no entanto, continua rei, se transforma dando as cartas. A equação está pronta corretamente: de um lado a crise tende a sua explosão; de outro, a humanidade só é capaz de colocar os problemas que pode resolver. Como é que, então, se tira a cabeça do prêmio?

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
04 de fevereiro de 2010
Coluna das quintas

DONOS DO PODER
E SEUS
LANCES DE DADOS

Por Enéas de Souza


I - A SUPREMA CORTE DECIDE A FAVOR DE QUEM?

1 - A primeira coisa que está complicando, fazendo um certo rombo na turma do Obama, é um forte ataque dos conservadores, dos financistas e dos grandes empresários contra o controle da democracia. Poucos estão se dando conta desta decisão da Suprema Corte (5 a 4) que definiu pela não-limitação dos recursos que as corporações podem dar nas contribuições pecuniárias à política. Não interessa os artifícios que sustentaram esta aprovação (absurdos como este argumento de igualar corporações a pessoas, afirmando que todos devem ter liberdade para manifestar sua opinião). O que importa, verdadeiramente, é que, através do judiciário, o Estado americano tomou uma decisão favorável à presença mais intensa e sem limites dos setores produtivos, financeiros e mercantis – enfim, empresariais – na arena da política.

2 - Ora, obviamente, isto é uma dupla ameaça para Obama. De um lado, a abertura para o capital financeiro dando-lhe uma poderosíssima arma: usar todos os seus recursos com a finalidade de derrotar qualquer pretensão de organização, por parte do Estado, da arquitetura financeira. Continua a vontade predadora de bancos e entidades financeiras, seja na propaganda, seja nos lobbies, seja no volume de dispêndio, seja na própria atividade econômica. E, no fundo, no fundo, uma derrota para a justiça e para a democracia americanas. E, por extensão, um revés para a população pobre, um bloqueio evidente com a finalidade de deter as transformações sociais. De outro lado, não há dúvida: estão se abrindo perspectivas para gastos favoráveis, seja à promoção do retorno à velha especulação financeira, seja à atuação bélica, cujo orçamento praticamente não foi cortado. São os perdedores da guerra do Iraque, entre elas as empresas de construção de infra-estrutura, que retornam pela porta do tribunal. Ou seja, o setor financeiro e o setor bélico se unem para se abraçarem no declínio dos Estados Unidos, mas não sem resistirem e não sem atuarem fortemente na cadência de uma melodia de baixa qualidade, em nome da democracia para, pensamos nós, destruir a democracia. E pensar que os Estados Unidos, na Segunda Guerra Mundial, foram os campeões da liberdade. Certamente, Machado de Assis diria: mudou o Natal!

3 - Obama está novamente em cheque. Estão gostando dele como alvo. Esta decisão da Suprema Corte dá armas aos seus adversários e está contra a maioria do povo americano, que votou e aceitou a proposta de Obama. O problema é que não basta um governante ser eleito, existem instituições e estruturas sociais e governamentais que impedem um presidente de dar curso aos seus projetos. Anulou-se a grande amplitude do healthcare e busca-se impedir o controle das finanças, via lobbies e ações financeiras. E as forças adversárias mandaram um recado ao presidente: nós vamos usar a justiça e na justiça não vai ser fácil. E é verdade, a batalha está se deslocando do econômico para o campo político, mas com colorações jurídicas. Pois vejam, além desta medida da Suprema Corte, as finanças ameaçam entrar em campo no judiciário contra a taxação dos 50 maiores bancos por terem causado prejuízos aos contribuintes na crise financeira recente. Uma lei que seria aprovada no Congresso. E os 50 bancos ajuizariam contra ela, por ela ser uma lei discriminadora dos 50 bancos (sic!). Por tudo isso, Obama vai estar este ano sob forte ameaça de temporais e perigosos deslizamentos, portanto não apenas um cerco, mas estocadas visando a paralisia do Estado. Senão, a conversão para o conservadorismo da direita. Como o presidente não deu o golpe de morte logo que assumiu o governo, agora, depois de vitaminadas, elas, as finanças, jamais aceitarão a bênção de um projeto de ampliação da democracia, via controle das finanças e da guerra, um projeto de criação de um sistema de proteção da saúde.

II - VOLTAMOS A SER QUINTAL?

1 - Eis uma segunda coisa que está complicando: é preciso sentir uma mudança geral dos Estados Unidos em relação à América Latina. Primeiro Objetivo: apossar-se da Venezuela sob forma política, ideológica e militar. Como ação: desmoralizar o projeto bolivariano e, com isso, derrotar Chaves. E ameaçar e isolar Evo Morales. Claro o objetivo fundamental é econômico, obter o petróleo venezuelano, cujas reservas estão notavelmente expressivas, sobretudo, depois da descoberta das reservas do Orinoco. Portanto, retorna o objetivo predador do grupo bélico e petroleiro. Tudo à moda Texas. Será que a Venezuela vai ser mais comodamente o Iraque que este grupo não teve?

2 - Segundo objetivo: desvincular a crescente presença do Brasil na liderança da América Latina. Naturalmente, que não está em questão forçar um golpe no país, como em 1964. Isso seria uma incompetência no momento, mesmo porque o Brasil cresceu econômica e politicamente. Apenas, se trata de botar o Brasil, esta aspiração de liderança, no seu lugar. Episódios como de Honduras e do Haiti mostram isso. E como a vulnerabilidade brasileira é militar, nada melhor do que a Quarta Frota para mostrar um pouco das garras da águia americana. O interesse dos Estados Unidos continua sendo dividir o controle da América Latina com o Brasil, mas sob a sua estrita obediência. Mas, não somos mais como antigamente. Crescemos e pretendemos ser uma potência média mundial O problema é que o Brasil é muito pequeno diante da primeira nação do mundo. Deve, portanto, frente as últimas manifestações do nosso parceiro, responder, desde agora, com uma certa flexibilidade no campo diplomático. Depois de tanto capital acumulado, as manobras tem que visar não sofrer derrotas contundentes.

3 – E, em segundo lugar, buscar rapidamente essa associação com a França, para estabelecer uma mínima capacidade bélica, seja para se atuar nestas situações como a do Haiti e não sair lascado; seja, inclusive, para proteger nossas riquezas como a Amazônia, como a água, como o petróleo. Não podemos nos enganar: o quadro tem mudado. Olhe-se o episódio de Honduras e o deslocamento “humanitário” que os americanos fizeram no Haiti, e perceba-se o novo eixo Uribe-Piñeyra, além da ampliação das bases americanas na região. Os meteorologistas detectaram que os ventos dos anos 60 estão retornando. Enquanto Bush e Cheney pensavam no Iraque, as coisas estavam bem; agora que Obama pensa na América Latinas, as coisas pioraram. Não se enxerga na oficina do Pentágono algo de novo? Não haverá uma busca de propor ao Brasil uma lição de conflito para que ele se situe, no mundo e na América do Sul, sob o insofismável comando americano? Um Brasil alinhado ajudaria a reconversão venezuelana. Mas há uma pergunta que diplomatas brasileiros conservadores, como nos falava num artigo José Luis Fiori, não ousam perguntar: um pouco de independência para o país não faz bem? (Mas, não é verdade também, como escrevia Florestan Fernandes, que há gente no Brasil que prefere a submissão voluntária e proveitosa para comerciar à sombra do guarda-chuva do irmão maior?)