quarta-feira, outubro 14, 2009
CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Novo artigo de Enéas de Souza
Segue link para o novo artigo de Enéas de Souza publicado hoje na carta de Conjuntura FEE:
terça-feira, outubro 13, 2009
CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Você confiaria seu dinheiro a um hedge fund?
O Financial Times relata uma pesquisa da NY University na qual se constatou que 1/5 dos mais de 400 fundos auditados revelaram que as informações dadas pelo manager se mostraram falsas no que concerne ao valor presente dos ativos. Ou seja, suas performances não são as relatadas aos cotistas.
Quantos Madoffs a mais antes da regulação efetiva desses fundos? A continuar tudo como está uma nova (velha) crise será inevitável.
Link relacionado:
quinta-feira, outubro 08, 2009
CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
Coluna das quintas
8 de outubro de 2009
AS FINANÇAS TÊM
SOLUÇÃO
PARA A CRISE?
(ou, tentando passar um pano no balcão)
Por Enéas de Souza
Coluna das quintas
8 de outubro de 2009
AS FINANÇAS TÊM
SOLUÇÃO
PARA A CRISE?
(ou, tentando passar um pano no balcão)
Por Enéas de Souza
Para Obama pensar entre um memorando e outro
As soluções da crise estão aí. Todas as forças sociais têm soluções, se não idéias de transformação. Mas existe, na verdade, uma posição cardeal, uma posição que tenta fazer o mundo acreditar que ela é que possui a verdade. Trata-se daquela posição que se destaca pela superioridade aparente da riqueza, daquele grupo que manda pela pressão de um “lobby” nas votações decisivas do Congresso, daquela que cerca a Presidência de Obama com o FED, com o Tesouro e com National Adviser Council. Trata-se daquela que insiste em dizer que é a melhor, porque diz que sabe o que é melhor para a sociedade. Apesar desta força social ter levado os Estados Unidos e o mundo a uma vasta crise, ela continua a propor tudo igual, nada diferente das suas idéias. E claro, antigas idéias. De fato, o leitor já acertou, é o retorno do pensamento único querendo o retorno do mundo passado, aquele que terminou em 2007. Mas, não há como pensar que as Finanças poderão ser derrotadas assim no mais. Não é com uma simples vontade pessoal que Obama vai mudar o quadro, a correlação de forças. Obama só vai alterar a sua inferioridade política com as Finanças se conseguir armar energias sociais, preciosas, capazes de entender e agir, visando à interrupção de uma visão, de uma política e de uma política econômica, exclusivamente gerida pelo setor financeiro. E por quê? Porque as finanças é uma força social que no momento não tem proposta para além de suas próprias aventuras. Então, qual é a sua solução?
A solução das Finanças
1 - As forças financeiras estão buscando duas coisas. A primeira: elas estão tentando arrumar um tempo e dinheiro para conseguir retomar a dinâmica do processo econômico montada no movimento da especulação. A segunda: elas estão aguardando que o mercado produtivo pare de descer, que ele estacione e que o setor imobiliário retorne aos bons velhos tempos. A felicidade da casa própria. Só que esta solução já é passada, e não vai voltar mais. Na economia, uma solução despenca, pode retornar, mas volta subordinada a novas e diferentes articulações. Mas, mesmo que pudesse, o cenário continua devastador, o setor está em farrapos. E nesse ponto da recessão/depressão não há possibilidade de que o esquema anterior volte, regresse. As Finanças podem esperar, podem se desesperar, podem alucinar, podem tentar dar algum jeito de que sua visão de economia continue valendo, mas a economia não vai ceder, ela vai para frente. O tempo é implacável e degolador, ceifador e fulminante. As estruturas estão abaladas definitivamente. E, neste sentido, qual a mágica que as finanças têm de achar para conseguir ludibriar a realidade da ruptura definitiva do modelo que passou? Não é que não possa haver uma restauração da economia financeira. Mas numa outra pauta. A economia atual é como uma maçã que está apodrecendo, só uma parte pode ser comida, a outra tem que ser posta fora. Ou seja, hoje as finanças é uma sobremesa falida. Sua única chance é tentar aprisionar o tempo, fazer com que através do poder do Estado, a economia estacione.
2 - Tudo é problema na atual e persistente proposta financeira. Algumas perguntas podem nos orientar. Primeiro, pode haver recuperação com a manutenção da auto-regulação ou com uma regulação pálida e anêmica? Segundo, será que é possível que, com o seu estoque de títulos podres, de todas as ordens e que depende do governo para se sustentar, esta solução pode ser controlada sem que ameace a dívida pública – e, por fim, a moeda americana? Terceiro: será que auto-regulação vai atrair alavancagens vigorosas num momento em que todo mundo desconfia de todo mundo, num mundo que desabou recentemente por excesso de risco? Quarto: como vai ser recuperada e transformada e renovada a securitização? Quinto: quem serão os compradores dos produtos arriscados das finanças bichada? Sexto: quem vai segurar estes títulos duvidosos de instituições duvidosas?
3 - Mas, agora vem a questão mais visível. Não há como puxar do setor produtivo – pois todos os setores estão em reformulação – produtos capazes de montar, como foi o caso imobiliário, um processo de especulação. Commodities e petróleo e ouro já foram, e continuam a ser tentados. E o resultado é miserável, a especulação é sempre de curto fôlego até agora. O ouro talvez seja a mais consistente e mais promissora, sobretudo por causa da fragilidade monetária do dólar. Então, o esquema da vinculação especulativa das finanças com a produção fracassa devido tanto à fraqueza da estrutura produtiva americana como da ausência de produtos capazes de se tornarem o ativo real da vez. Acresce que um dos elementos do embaraço das atividades do “cassino” é, sem dúvida, a carência de participação do aplicador comum, porque este está quebrado, está tentando conseguir um emprego, está tentando pagar suas dívidas, está tentando salvar a perda de sua residência. Portanto, é preciso se convencer: o horizonte para as finanças, na tentativa de reconstrução do esquema antigo, é uma impossibilidade histórica.
4 - A impossibilidade histórica se baseia numa razão substancial e estrutural. A dinâmica econômica desta liderança e desta articulação contém uma inviabilidade de lógica econômica. O que foi desatado numa crise econômica não pode ser reatado, nem mesmo pelo Estado. O fulcro da questão econômica não é mais a salvação das Finanças. O fulcro é a recuperação da economia, cujo ponto de partida é o investimento e o emprego, e não a recuperação do antigo “status quo” do sistema financeiro. E para salvar a embarcação na zona dos furacões não se pode prosseguir a viagem, tem-se que mudar a rota. Esta viagem do neoliberalismo está podre. O que não quer dizer que o capital não possa desviar o seu andar, ter solução. O grupo do Obama já tem. Uma nova solução, mas uma solução de longo prazo. E não, esta demência do curto, como se fosse uma solução de lancheria, troca o refrigerante, passa um pano no balcão, etc. Mas, infelizmente, pelo triunfo passado, o mundo continua a girar em torno das falsas soluções das finanças. É como diz o samba: “quem demora, perde a hora”.
A festa das finanças revela sua aristocracia
1 - A embriaguez das finanças foi um porre daqueles. Mas, se a ressaca começar a ser curada, pode ser que aqueles espertos pensem um pouco que a questão não é de retomada da sua proposta. E sim de reformulação da sua visão econômica. Portanto, um reposicionamento da idéia de que tudo é ativo financeiro – ao menos, agora. Aquela idéia minskyana de que todos ativos – ativos reais, ativos monetários e, principalmente, ativos financeiros, tudo, tudo – era financeiro, vai ter que ser um pouco alterada. A mudança é uma mudança para o longo prazo, a reposição em cena do papel do ativo real como ativo real. O que viria através de uma retomada da indústria, da área produtiva, de transformações tecnológicas, seja da produção, seja da organização empresarial, seja do mercado de trabalho, inclusive de suas proteções sociais. Há a necessidade de um tempo econômico para os ativos reais. Ou seja, há que ter uma taxa de lucro prospectiva superior à taxa de juros. Ou dito keynesiamente: há que recuperar a eficiência marginal do capital face à taxa de juros da economia definida pelo Banco Central e hierarquizada pelos bancos privados a partir dessa taxa. Só o Estado pode, através de medidas fiscais e estratégicas, mudar o estado do carro que empacou. Mas...
2 - Mas, no corpo das empresas existe um obstáculo sério, um obstáculo grave: a governança corporativa. Assim, a forma atual de organização das corporações é que é o problema. Por quê? Porque como o André e eu temos salientado desde 2003, a governança corporativa é a maneira que as finanças encontraram para se infiltrarem na área produtiva e financeirizarem todo o setor produtivo. Ou seja, a empresa produtiva é na verdade além de um ativo financeiro, via ações, uma fábrica de produção não de lucros, mas de dividendos, sob a inspiração do famoso ROE (Return On Equity), a prioridade do valor acionário. Este império da geração de resultados monetários para valorizar as ações, inclusive por meio de aplicações financeiras, de empréstimos bancários para a compra das suas próprias, acaba como acabou, por levar a firma produtiva a um endividamento cruel, que termina por ser aprisionada na secura do crédito. Ou seja, sem a mudança das regras e da política da governança corporativa – que, ainda por cima, constrói uma divisão mortal para o funcionamento da empresa entre os proprietários das ações e os dirigentes do capital em funções – não há bailout possível. Porque, vejam, aqui temos duas contradições: uma a da transformação da empresa produtiva em empresa financeirizada; e outra, a da divisão que atinge tanto as finanças como a produção, de uma sociedade acionária onde o proprietário do capital não é o condutor do capital. E que numa sociedade moderna, o condutor dele, isto é, os executivos têm o domínio da situação e da empresa e, é espantoso, de uma participação positiva nos seus resultados, mesmo quando estes são negativos.
3 - Vimos na crise da Nasdaq, na crise das empresas ponto com, na crise da e-economy, na crise de 2001, como na crise do sistema financeiro nacional e mundial de 2007, a forma como houve a quebra, a falência, a bancarrota, a profunda crise da corporação. Crise que ocorreu sem que os executivos perdessem não só a suas remunerações como os seus bônus. De outro lado, dada as formas acionárias vigentes, os shareholders, os acionistas, não têm poder para alterar a conduta destes dirigentes, seja através dos conselhos deliberativos, seja por meio de auditorias, seja por intermédios de consultores, seja inclusive pela introdução de representantes dos acionistas na dinâmica das atividades, seja por conseqüência de um efetivo aumento de controle, etc. Nada deu certo, porque quem dirige tem o poder imediato das corporações. E como são estes os operadores efetivos, mesmo na crise, eles tiveram sucesso nas suas carreiras. Dizendo com rima pobre: tiveram o bônus e não arcaram com o ônus. O que dá para ver que estes, os executivos, são os integrantes da verdadeira fração de classe que dirige a classe dos financistas, a aristocracia do capital.
A eutanásia das finanças
1 - Na esteira de nossas considerações, a primeira proposta seria que as Finanças recuassem diante da tentativa de recuperação de sua situação anterior. E abandonassem o pensamento de retomarem a dinâmica econômica centrada na economia financeira. E que, politicamente propusessem, estando ainda na direção política do Estado, uma transformação da atual política econômica. O propósito central: um plano de estímulo fiscal amplo, audacioso, mais sólido, robusto para a esfera econômica. Seria a clara percepção de que a tarefa indispensável para a expansão da sociedade é a recuperação do investimento e do emprego.
2 - Para isso, teriam que alterar o papel do Estado. E fazer com que os recursos financeiros deste, sua capacidade de endividamento, sua capacidade de liderança fosse retomada, em benefício da produção, como nos anos trinta. Desta forma, só assim a alavanca de Arquimedes do Estado estaria catapultando um novo mundo. Obviamente, as finanças teriam que passar forçosa e até forçadamente a definir o movimento do crédito na direção da produção. Mas, na competição presente dos mercados financeiros, impossível. Sem uma alteração da relação atual entre a taxa de lucro esperada e a taxa de juros, a alavanca nem sairia do sono. E só, sob a intervenção do Estado, seria possível bloquear a tendência atual do desequilíbrio desta relação permanentemente em favor da taxa de juros. Dito de outra forma e secamente: vamos parar de favorecer a renda financeira. Chegamos a um pensamento cínico: seria até uma forma de forçar o capital financeiro a pensar que a órbita produtiva traria, no futuro, a salvação de novas especulações. Como isso não é uma proposta de solução imediata e que permita o retorno da volúpia dos mercados financeiros, não há pensamento viável para atender esta proposta.
3 - O Estado pode realmente intervir, mas não sob a inspiração da área financeira. Precisaria a esta uma capacidade de compreender – não os mercados – mas a economia capitalista no seu processo dialético entre as finanças e a produção. O que parece que até agora os banqueiros, os investidores e aplicadores financeiros, os financistas estão longe de compreenderem e pensarem. Não parece verídico e nem crível que a idéia de Keynes possa ser posta em prática: a eutanásia dos rentistas. Os banqueiros não são politicamente capazes de propor uma nova idéia de Estado, nem são aptos a passarem de financistas a estadistas. Com isso, perde-se, neste momento, a necessária transformação da lógica econômica do capital, substituindo a ênfase no financeiro para a produção. Embora, seria ótimo para a sociedade que os financistas pensassem na sua eutanásia, a transformação da economia tende a ficar estacionada até uma modificação política de envergadura. De fato, salvo se a atual recessão fugir do controle e passar à depressão. Pode ser que entre eutanásia e o retorno da especulação, haja um espaço para a política encontrar alguma solução. O que é concreto é que a sociedade vai empurrar as forças sociais para algum caminho; e o melhor é que ele seja negociado, visionado, pois o futuro já nos abana, mas pode ainda estar muito longe: ampliação das tecnologias de informação e comunicação, renovação das tecnologias e da produção de energia, introdução de tecnologia e de soluções políticas e econômicas para as questões ambientais. A agenda, de uma forma ou de outra, não pode deixar de contemplar uma fundamental discussão sobre o futuro dos direitos sociais, dos direitos civis e da proteção social do trabalho.
quinta-feira, outubro 01, 2009
CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: More "unexpectedly"...
Eu sei, vai acabar se tornando repetitivo... Mas, vamos aos "unexpectedly" de hoje: os pedidos de seguro desemprego vieram acima do esperado e o relatório sobre o dsempenho industrial abaixo das expectativas.
Unexpectedly foi que índices ruins trouxeram abaixo a bolsa, com o Dow caindo mais de 2%. Se a moda pega (em economês financeiro - se a convenção altista se esboroa...)...
CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
Coluna das quintas
1° de outubro de 2009
SHAKESPEARE E O G-20
Por Enéas de Souza
Cirurgia na ordem do mundo
1 – O encontro dos G-20 serviu para mostrar uma cisão, uma fissura, uma separação entre a realidade geopolítica e a geoeconômica do mundo. De um lado, dada a crise financeira internacional e seus desdobramentos, o ponto essencial é a ascensão de países como a China, o Brasil e a Índia no cenário internacional. Só que esta ascensão se marca apenas no plano econômico. Porque de outro lado, as instâncias políticas continuam praticamente intocadas com a liderança americana. De um lado, a economia trouxe o G-20 e a política ficou no G-8, para dizer simplificadamente.
2 – Quanto às modificações econômicas, elas querem dizer duas coisas. A primeira é que embora os Estados Unidos seja de fato o elemento fundamental da dinâmica econômica, ele não segura mais sozinho o coração, isto é, o movimento da economia do mundo. Certamente, o contrapeso imperioso é a China, mas os demais países do G-20 fazem parte deste contrapeso. Sim, menores que a China, é verdade, contudo presentes. Portanto, no barco desta crise, estamos todos em busca de um novo porto, de uma nova mundialização. O que significa dizer que a dinâmica neoliberal se foi. E que a economia capitalista começa a dar-se conta, muito lentamente e a contragosto, que a sua saída passará pela tentativa de encontrar uma dinâmica diferente. E que seja um relançamento das múltiplas economias nacionais, em sintonia com uma transformação da própria economia internacional. Para que isso aconteça, é preciso que sejam ouvidos todos. Pois quanto mais forem discutidos e debatidos os temas que embaraçam o mundo econômico, mais será possível alguma coordenação geral. Não há saída sem a participação de todos, mesmo nos obstáculos, nas barreiras e nas trapaças da decomposição atual do sistema capitalista. Pois estamos num processo de avanço do capital, tanto no nível das nações como do planeta. Capital é crise. Mas é também concentração e centralização, que é relançamento da dominação, mas num outro patamar superior. Dominância americana evidentemente, secundada nos dias de hoje pela China. O que vale dizer que a resistência da esquerda, no momento, pode fazer com que a relação de forças seja bem menos contundente do que o triunfo do capital no liberalismo.
3 – Porém, quanto ao segundo aspecto, no nível geopolítico, a questão não pode ser posta da mesma maneira. O certo é que aqui o G-8, para não dizer o G-2 é quem decidirá, e, os outros, serão diplomaticamente – se forem – consultados minimamente. A exceção, pela tradição, é a Europa, que pode ser convidada a participar em algumas ações diplomático-político-militares, mas sempre sob o comando americano. Na realidade, a estratégia, a decisão e a ação virão dos Estados Unidos. E a China passa a ocupar um plano distinto, que já vinha ocupando no final do capitalismo neoliberal, sobretudo por causa de sua atual importância econômica. Talvez seja uma primeira mudança, mas é ainda muito tênue em relação ao poder americano. As demais nações podem até serem consideradas quando as questões passarem pelas zonas regionais onde tem vigência. E onde são árvores que dão sombra. No mais, é fatal, serão ignoradas. Deve-se dar um pequeno relevo, no campo nuclear, com pequena exceção, à Rússia. E com essas observações, nota-se, que a crise econômica e a ascensão dos emergentes não provocaram notórias mudanças na política global.
4 – Assim, os acontecimentos da Assembléia Geral da ONU com a presença nela de Obama; a declaração da França, Inglaterra e Estados Unidos contra o Irã; a transferência do centro da guerra no Oriente Médio do Iraque para o Afeganistão; e declarações explícitas de autoridades de várias nações, inclusive dos emergentes, dão a perceber que a condução política continua limitada e restrita. Os Estados Unidos, como os verdadeiros líderes, continuam tentando, mesmo com a pata econômica operada no menisco, organizar paralelamente uma nova ordem política, visando manejar adequadamente a questão nuclear, ao mesmo tempo, que tentam impor, cautelosamente, pelo lado do poder político-militar um constrangimento ao novo poder recém chegado, a China. Como disse um comentarista, a paranóia americana que tinha antigamente como inimigo o Japão, agora encara a China como esse objeto assustador. Velha técnica da elite dos Estados Unidos. Gritam, esperneiam, apontam a nação ameaçadora, para melhor combatê-la. Obviamente, o mundo hoje é mais complexo do que essa simplificação, e o que começamos a ver é a elaboração de uma nova gênese não só da ordem política como da ordem econômica. De qualquer forma o que se percebe é que os americanos ainda se põem, ainda se colocam como aqueles que falam pela “multilateralidade” para dar um sentido ao mundo em construção. Mas, a política tem uma relação dialética com a economia. E a pergunta é essa: a colisão de interesses do G-20 com as decisões do G-8 (G-2) vão produzir apenas a fissura destes dois Gs, ou haverá uma geopolítica e uma geoeconomia, absolutamente distinta, ainda não vislumbrada e assinalada? Pode-se perguntar mais pragmaticamente: que transformações vão ser possíveis a partir da instalação do G-20? Ou inquirir ainda: a fenda constatada agora não imporá uma nova caracterização geral, de uma forma ou de outra?
5 – O mundo, sob o comando dos Estados Unidos, sofreu uma cirurgia, onde o resultado é a gênese de dois tabuleiros - ou dois pólos, se assim quisermos dizer. Num deles, no tabuleiro econômico, a crise trouxe à praia das nações, com os destroços do crash econômico, o chamado G-20. Todos são soldados esfarrapados da financeirização. Uns com os uniformes esburacados, outros com rasgões. Nesse cenário, os países desenvolvidos foram os mais afetados, por exemplo, os Estados Unidos e a Inglaterra; e os emergentes, como novos atores, seguem em melhor estado, principalmente, a China. Nisso não contamos os países fora do teatro dos G-20, como os africanos, pobres maltratados da mundialização financeira e da mundialização bushiana/cheneyana. Mas, toda essa cozinha, toda essa feijoada cairá também no tabuleiro político. Provavelmente, ao longo dos novos tempos, o calor do G-20 acabará forçosamente por alterar aspectos profundos da aparente e intocada geopolítica contemporânea. Certamente mostrando novas forças, novas lâminas, resultados subterrâneos da operação econômica recente.
O Estado tem um Minotauro dentro dele
1 – Política é conversa, é sondagem, é proposta, é negaceio, é sedução, é chantagem, é ideologia, é compra, é venda, é ameaça, é invasão, é guerra. Clausewitz já falou: a guerra é uma outra forma de política. Hoje, o céu tem novas nuvens, pode-se dizer que a economia é uma outra forma de política e uma outra forma de guerra. E por isso, o G-20 é economia, mas é também política. E cada vez mais se constata que apesar de ser uma grande derrotada, as finanças continuam um império, uma “ditadura”, como uma vez disse François Chesnais. Porque? Simplesmente, porque as finanças, usando uma ideologia e uma política neoliberais, conseguiram aprisionar o Estado, tanto nas suas armações institucionais como na sua política econômica. Institucionalmente tudo foi radical e eficiente. Fizeram, para melhor domínio, uma divisão dentro do Estado entre a Fazenda (Tesouro, nos Estados Unidos) e o Banco Central, para tornar este independente ou autônomo. Desta forma, acabaram com a hegemonia política da política sobre a economia. Na verdade, a manobra foi um sucesso, a hegemonia financeira acabou politicamente por destruir a autonomia e soberania do Estado. A soberania até o início da crise foi das Finanças, usando em seu benefício o poder do Estado.
2 – Levará muito tempo para nos darmos conta do extraordinário desta vitória das Finanças sobre as demais forças sociais, inclusive nesta vasta vitória ideológica que pôs o financeiro como a sabedoria da economia e da política. A tal ponto, que sob esta astúcia, o financeiro proporcionou ao capital algo fantástico, a idéia de que a saúde, a educação, a segurança, os serviços públicos, inclusive as penitenciárias, seriam mais bem organizadas pelo serviço privado do que pelo próprio serviço público. Como a população se deixou enganar! Vejam o monumental fracasso do capital na questão da energia elétrica nos Estados Unidos e o fracasso algumas privatizações no Brasil. Porém, o néctar deste banquete era a idéia de Estado Mínimo, onde se conseguiu vender que tanto as privatizações como as terceirizações melhorariam os serviços públicos e eliminaria a corrupção. (Quá, quá, quá! Ao escrever frase anterior, ouço gargalhadas espalhadas pelo mundo!). O Estado tinha que sair de tudo. Houve um gênio, do estilo Fukuyama, que propôs que o Estado tivesse a sua administração privada. Como os humanos são doidos! Basta só pensar um pouquinho: o que seria o Estado privatizado no meio desta crise americana? Um pandemônio certamente! Olhemos só mais um exemplo: a crise financeira nos Estados Unidos, de fato, se tornou irremediável e antecipadamente incontornável, quando o secretário de Estado, Paulson, que tinha sido da Goldman Sachs, permitiu a quebra do Lehman Brothers, concorrente direto da primeira, levando a uma crise sistêmica absolutamente catastrófica para os Estados Unidos e para o sistema financeiro. Não que a crise poderia ser abortada, mas ao menos poderia ser tratada de maneira distinta.
3 – Tudo isso para dizer que o Estado com a hegemonia das Finanças, a divisão da Fazenda e do Banco Central, a visão de Estado Mínimo, com os serviços e direitos públicos privatizados, não pode reagir comandando politicamente a crise. Teve que reagir apenas financeiramente. E de que maneira? Criando nos Estados Unidos os famosos e substanciosos bail-outs, deixando parcos recursos fiscais para projetos na área produtiva e na área social, salvando os bancos das bancarrotas e não impedindo que os cidadãos perdessem casas, carros, empregos, encharcados que estavam no endividamento financeiro do crédito sem controle da sociedade, do público e do Banco Central. Por isso, o Estado não pode assumir um papel de liderança no processo. Barack Obama está preso nos fios deste labirinto político e financeiro. Michele não consegue lhe dar o fio de Ariadne para fugir do Minotauro das Finanças. O Estado manda muito, manda muito diante de cidadãos comuns, mas não consegue mandar nas Finanças (Onde está a regulação indispensável do sistema financeiro?).
4 – Pois, o que as Finanças conseguiram fazer foi deslocar o poder do Estado para fora dele, para as Finanças que, impondo o Estado Mínimo e dividindo o Estado entre Fazenda e Banco Central, impede que o Estado, numa crise, tenha uma resposta decisiva, canalizando um comando social na direção do investimento produtivo e do emprego. Para que fundamentalmente a recuperação não seja apenas do setor financeiro, no falso suposto que seria também da economia, mas que seja da sociedade como um todo, do capital e do trabalho. Aqui está o fulcro de toda a problemática: o investimento na produção. A sua impossibilidade (dada a exigência também neoliberal e aceita pela população de controle da inflação) do Estado Mínimo mostrou toda a sua dificuldade de propostas. Olhemos o Brasil de Lula. A reação do Governo foi exemplar diante da crise: desonerou os impostos para sustentar pelo consumo a demanda na economia, mantendo inclusive os empregos. Porém, a desoneração é uma política econômica defensiva, pois a verdadeira política seria o lançamento, com dinheiro público, inclusive através de impostos seletivos (outra medida condenada pelos liberais) sobre fortunas, sobre finanças, etc., com a finalidade de um programa público baseado num projeto nacional. Inúmeros setores estavam e estão precisando da intervenção estatal para reativar a economia (empresas e trabalhadores). Um projeto nacional pode ampliar os amparos, propondo desenvolvimentos amplos. Pode-se listar: a infra-estrutura urbana, a infra-estrutura energética, uma nova concepção de transportes no território nacional, um grande projeto de integração latino-americana, uma nova rede de serviços públicos eficientes (desde educação até proteção social). Ou seja, se não fosse um programa desse tipo poderia ser outro parecido. As Finanças, aqui e em toda parte, vêm impedindo, brincando de cabra-cega, por todos os meios – e o mais eficiente tem sido a ideologia – a transformação de um Estado político, cuja expressão social não seja metamorfoseada numa adesão pura e simples à política das Finanças.
O G-20 continua das finanças
1 – Olhe-se a comunicado do G-20. Como a crise estacionou, como alguns indicadores (muito poucos) dão alguns sinais de vida, os líderes se eriçaram em otimismo. Mesmo porque um dos lados da política é a ilusão, é a fantasia, é a esperança. Os governantes estão fazendo o seu trabalho e fazendo o melhor que podem. Porém, as propostas são sempre modestas, são sempre dourados sonhos. Por exemplo: há que tratar de cara e com força, da questão da elevação de capital na área financeira. Só que tratar de capital é tratar de aporte de capital. E com isso coloca-se em cheque a sua propriedade. Porque aí entra a questão da estatização, da nacionalização, da compra de bancos estratégicos por estrangeiros, etc.
2 – Há que mudar a governança corporativa. Até se falou nisso no G-20. Mas como se vai alterar a confronto entre os proprietários do capital e os dirigentes (esses que ganharam o recheio, quando botaram o bolo fora; esses que foram para casa com milhões de dólares no bolso e deixaram as corporações quebradas)? Essas mudanças, só poderiam alterar o sistema se rompessem com a forma financeirizada das corporações. Quanto às modificações do sistema financeiro, só se fala em medidas menores. Nada sobre unificação e controle das finanças, nacionais ou internacionais; nenhuma alusão ao controle social das instituições financeiras; nada sobre o crédito para os setores produtivos; nada sobre medidas técnicas de supervisão de alavancagens, de secutirização, das agências de ratings; nada sobre impostos sobre as instituições financeiras; etc. etc. Roosevelt falava em “Soft talk, big stick”. Agora é “soft talk, bull shit”. Ou seja, as finanças não querem mudanças. E estão conseguindo bloqueá-las, porque os governos que se reúnem são governos relativamente hegemonizados pelas referidas finanças.
3 – O G-20 fala contra o protecionismo. Só que o protecionismo, quem deve abdicar são os outros; nós, os Estados Unidos, somos os primeiros a tentar a proteção. Há declarações favoráveis aos estímulos fiscais, mas nos aportes financeiros do Estado, o principal vai para os Bancos, para o resto a ilusão dos cartões postais. Então, pode-se perguntar: quer-se recuperar a demanda com quê, com a preferência pela liquidez? Porque o setor privado não assume o investimento produtivo? Não foi outra a conclamação de Lula aos empresários, ao mostrar o elenco das respostas públicas das desonerações e do programa de Habitação Popular. Sabe o que fizeram os empresários? Os industriais reclamaram do custo Brasil (vamos botar mais ainda a crise no colo dos trabalhadores!) e os banqueiros souberam encontrar no silêncio a sua resposta preferida, quando se busca o seu apoio. (Não é o silêncio, ouro?). Por isso, quando se exalta o comércio internacional, quando os Estados Unidos pedem que os países superavitários gastem mais, fica cada vez mais evidente que o protecionismo é a mola, quem sabe suicida, do atual estágio do neoliberalismo na busca de sua salvação.
4 – Etc., etc., etc.
Onde olhar a melhora?
Pouco importa o que falamos. As sociedades constroem a sua saída. A mídia e o comunicado dos G-20 falam o que Shakespeare dizia muito bem: “Words, words, words”. A solução em economia e em política poderia ser uma mudança de letra, o d pelo k: “Works, works, works”. Se expressa deste modo o critério que vai nos permitir perceber quando a sociedade contemporânea estiver saindo desta Recessão/Depressão. Cape-se ou não o sistema financeiro, faça-o ou não funcional, somente a economia se recuperará como um todo quando dois aspectos inseridos no critério proposto forem atendidos: o investimento produtivo e o emprego. Até agora os primeiros tomaram um susto e levaram um tombo (menos na China) e o emprego sumiu das estatísticas e da realidade (inclusive na própria China). Concentra-se, nestas duas variáveis, o foco onde nós poderemos constatar se as pequenas melhoras que anunciam a retomada do consumo e da bolsa, do lucro dos bancos e das fusões corporativas, etc. são, de fato, efeitos de melhoras substanciais na organização econômica da sociedade. O ciclo só reabre a pendente positiva, a pendente ascensional, com o investimento produtivo e a queda acelerada do desemprego. Porque o resto não é silêncio, é bull shit de banqueiro. Ou como diz o samba de Elton Medeiros e Roque Ferreira: “a lama é lama e o ouro é o ouro”.
Coluna das quintas
1° de outubro de 2009
SHAKESPEARE E O G-20
Por Enéas de Souza
Cirurgia na ordem do mundo
1 – O encontro dos G-20 serviu para mostrar uma cisão, uma fissura, uma separação entre a realidade geopolítica e a geoeconômica do mundo. De um lado, dada a crise financeira internacional e seus desdobramentos, o ponto essencial é a ascensão de países como a China, o Brasil e a Índia no cenário internacional. Só que esta ascensão se marca apenas no plano econômico. Porque de outro lado, as instâncias políticas continuam praticamente intocadas com a liderança americana. De um lado, a economia trouxe o G-20 e a política ficou no G-8, para dizer simplificadamente.
2 – Quanto às modificações econômicas, elas querem dizer duas coisas. A primeira é que embora os Estados Unidos seja de fato o elemento fundamental da dinâmica econômica, ele não segura mais sozinho o coração, isto é, o movimento da economia do mundo. Certamente, o contrapeso imperioso é a China, mas os demais países do G-20 fazem parte deste contrapeso. Sim, menores que a China, é verdade, contudo presentes. Portanto, no barco desta crise, estamos todos em busca de um novo porto, de uma nova mundialização. O que significa dizer que a dinâmica neoliberal se foi. E que a economia capitalista começa a dar-se conta, muito lentamente e a contragosto, que a sua saída passará pela tentativa de encontrar uma dinâmica diferente. E que seja um relançamento das múltiplas economias nacionais, em sintonia com uma transformação da própria economia internacional. Para que isso aconteça, é preciso que sejam ouvidos todos. Pois quanto mais forem discutidos e debatidos os temas que embaraçam o mundo econômico, mais será possível alguma coordenação geral. Não há saída sem a participação de todos, mesmo nos obstáculos, nas barreiras e nas trapaças da decomposição atual do sistema capitalista. Pois estamos num processo de avanço do capital, tanto no nível das nações como do planeta. Capital é crise. Mas é também concentração e centralização, que é relançamento da dominação, mas num outro patamar superior. Dominância americana evidentemente, secundada nos dias de hoje pela China. O que vale dizer que a resistência da esquerda, no momento, pode fazer com que a relação de forças seja bem menos contundente do que o triunfo do capital no liberalismo.
3 – Porém, quanto ao segundo aspecto, no nível geopolítico, a questão não pode ser posta da mesma maneira. O certo é que aqui o G-8, para não dizer o G-2 é quem decidirá, e, os outros, serão diplomaticamente – se forem – consultados minimamente. A exceção, pela tradição, é a Europa, que pode ser convidada a participar em algumas ações diplomático-político-militares, mas sempre sob o comando americano. Na realidade, a estratégia, a decisão e a ação virão dos Estados Unidos. E a China passa a ocupar um plano distinto, que já vinha ocupando no final do capitalismo neoliberal, sobretudo por causa de sua atual importância econômica. Talvez seja uma primeira mudança, mas é ainda muito tênue em relação ao poder americano. As demais nações podem até serem consideradas quando as questões passarem pelas zonas regionais onde tem vigência. E onde são árvores que dão sombra. No mais, é fatal, serão ignoradas. Deve-se dar um pequeno relevo, no campo nuclear, com pequena exceção, à Rússia. E com essas observações, nota-se, que a crise econômica e a ascensão dos emergentes não provocaram notórias mudanças na política global.
4 – Assim, os acontecimentos da Assembléia Geral da ONU com a presença nela de Obama; a declaração da França, Inglaterra e Estados Unidos contra o Irã; a transferência do centro da guerra no Oriente Médio do Iraque para o Afeganistão; e declarações explícitas de autoridades de várias nações, inclusive dos emergentes, dão a perceber que a condução política continua limitada e restrita. Os Estados Unidos, como os verdadeiros líderes, continuam tentando, mesmo com a pata econômica operada no menisco, organizar paralelamente uma nova ordem política, visando manejar adequadamente a questão nuclear, ao mesmo tempo, que tentam impor, cautelosamente, pelo lado do poder político-militar um constrangimento ao novo poder recém chegado, a China. Como disse um comentarista, a paranóia americana que tinha antigamente como inimigo o Japão, agora encara a China como esse objeto assustador. Velha técnica da elite dos Estados Unidos. Gritam, esperneiam, apontam a nação ameaçadora, para melhor combatê-la. Obviamente, o mundo hoje é mais complexo do que essa simplificação, e o que começamos a ver é a elaboração de uma nova gênese não só da ordem política como da ordem econômica. De qualquer forma o que se percebe é que os americanos ainda se põem, ainda se colocam como aqueles que falam pela “multilateralidade” para dar um sentido ao mundo em construção. Mas, a política tem uma relação dialética com a economia. E a pergunta é essa: a colisão de interesses do G-20 com as decisões do G-8 (G-2) vão produzir apenas a fissura destes dois Gs, ou haverá uma geopolítica e uma geoeconomia, absolutamente distinta, ainda não vislumbrada e assinalada? Pode-se perguntar mais pragmaticamente: que transformações vão ser possíveis a partir da instalação do G-20? Ou inquirir ainda: a fenda constatada agora não imporá uma nova caracterização geral, de uma forma ou de outra?
5 – O mundo, sob o comando dos Estados Unidos, sofreu uma cirurgia, onde o resultado é a gênese de dois tabuleiros - ou dois pólos, se assim quisermos dizer. Num deles, no tabuleiro econômico, a crise trouxe à praia das nações, com os destroços do crash econômico, o chamado G-20. Todos são soldados esfarrapados da financeirização. Uns com os uniformes esburacados, outros com rasgões. Nesse cenário, os países desenvolvidos foram os mais afetados, por exemplo, os Estados Unidos e a Inglaterra; e os emergentes, como novos atores, seguem em melhor estado, principalmente, a China. Nisso não contamos os países fora do teatro dos G-20, como os africanos, pobres maltratados da mundialização financeira e da mundialização bushiana/cheneyana. Mas, toda essa cozinha, toda essa feijoada cairá também no tabuleiro político. Provavelmente, ao longo dos novos tempos, o calor do G-20 acabará forçosamente por alterar aspectos profundos da aparente e intocada geopolítica contemporânea. Certamente mostrando novas forças, novas lâminas, resultados subterrâneos da operação econômica recente.
O Estado tem um Minotauro dentro dele
1 – Política é conversa, é sondagem, é proposta, é negaceio, é sedução, é chantagem, é ideologia, é compra, é venda, é ameaça, é invasão, é guerra. Clausewitz já falou: a guerra é uma outra forma de política. Hoje, o céu tem novas nuvens, pode-se dizer que a economia é uma outra forma de política e uma outra forma de guerra. E por isso, o G-20 é economia, mas é também política. E cada vez mais se constata que apesar de ser uma grande derrotada, as finanças continuam um império, uma “ditadura”, como uma vez disse François Chesnais. Porque? Simplesmente, porque as finanças, usando uma ideologia e uma política neoliberais, conseguiram aprisionar o Estado, tanto nas suas armações institucionais como na sua política econômica. Institucionalmente tudo foi radical e eficiente. Fizeram, para melhor domínio, uma divisão dentro do Estado entre a Fazenda (Tesouro, nos Estados Unidos) e o Banco Central, para tornar este independente ou autônomo. Desta forma, acabaram com a hegemonia política da política sobre a economia. Na verdade, a manobra foi um sucesso, a hegemonia financeira acabou politicamente por destruir a autonomia e soberania do Estado. A soberania até o início da crise foi das Finanças, usando em seu benefício o poder do Estado.
2 – Levará muito tempo para nos darmos conta do extraordinário desta vitória das Finanças sobre as demais forças sociais, inclusive nesta vasta vitória ideológica que pôs o financeiro como a sabedoria da economia e da política. A tal ponto, que sob esta astúcia, o financeiro proporcionou ao capital algo fantástico, a idéia de que a saúde, a educação, a segurança, os serviços públicos, inclusive as penitenciárias, seriam mais bem organizadas pelo serviço privado do que pelo próprio serviço público. Como a população se deixou enganar! Vejam o monumental fracasso do capital na questão da energia elétrica nos Estados Unidos e o fracasso algumas privatizações no Brasil. Porém, o néctar deste banquete era a idéia de Estado Mínimo, onde se conseguiu vender que tanto as privatizações como as terceirizações melhorariam os serviços públicos e eliminaria a corrupção. (Quá, quá, quá! Ao escrever frase anterior, ouço gargalhadas espalhadas pelo mundo!). O Estado tinha que sair de tudo. Houve um gênio, do estilo Fukuyama, que propôs que o Estado tivesse a sua administração privada. Como os humanos são doidos! Basta só pensar um pouquinho: o que seria o Estado privatizado no meio desta crise americana? Um pandemônio certamente! Olhemos só mais um exemplo: a crise financeira nos Estados Unidos, de fato, se tornou irremediável e antecipadamente incontornável, quando o secretário de Estado, Paulson, que tinha sido da Goldman Sachs, permitiu a quebra do Lehman Brothers, concorrente direto da primeira, levando a uma crise sistêmica absolutamente catastrófica para os Estados Unidos e para o sistema financeiro. Não que a crise poderia ser abortada, mas ao menos poderia ser tratada de maneira distinta.
3 – Tudo isso para dizer que o Estado com a hegemonia das Finanças, a divisão da Fazenda e do Banco Central, a visão de Estado Mínimo, com os serviços e direitos públicos privatizados, não pode reagir comandando politicamente a crise. Teve que reagir apenas financeiramente. E de que maneira? Criando nos Estados Unidos os famosos e substanciosos bail-outs, deixando parcos recursos fiscais para projetos na área produtiva e na área social, salvando os bancos das bancarrotas e não impedindo que os cidadãos perdessem casas, carros, empregos, encharcados que estavam no endividamento financeiro do crédito sem controle da sociedade, do público e do Banco Central. Por isso, o Estado não pode assumir um papel de liderança no processo. Barack Obama está preso nos fios deste labirinto político e financeiro. Michele não consegue lhe dar o fio de Ariadne para fugir do Minotauro das Finanças. O Estado manda muito, manda muito diante de cidadãos comuns, mas não consegue mandar nas Finanças (Onde está a regulação indispensável do sistema financeiro?).
4 – Pois, o que as Finanças conseguiram fazer foi deslocar o poder do Estado para fora dele, para as Finanças que, impondo o Estado Mínimo e dividindo o Estado entre Fazenda e Banco Central, impede que o Estado, numa crise, tenha uma resposta decisiva, canalizando um comando social na direção do investimento produtivo e do emprego. Para que fundamentalmente a recuperação não seja apenas do setor financeiro, no falso suposto que seria também da economia, mas que seja da sociedade como um todo, do capital e do trabalho. Aqui está o fulcro de toda a problemática: o investimento na produção. A sua impossibilidade (dada a exigência também neoliberal e aceita pela população de controle da inflação) do Estado Mínimo mostrou toda a sua dificuldade de propostas. Olhemos o Brasil de Lula. A reação do Governo foi exemplar diante da crise: desonerou os impostos para sustentar pelo consumo a demanda na economia, mantendo inclusive os empregos. Porém, a desoneração é uma política econômica defensiva, pois a verdadeira política seria o lançamento, com dinheiro público, inclusive através de impostos seletivos (outra medida condenada pelos liberais) sobre fortunas, sobre finanças, etc., com a finalidade de um programa público baseado num projeto nacional. Inúmeros setores estavam e estão precisando da intervenção estatal para reativar a economia (empresas e trabalhadores). Um projeto nacional pode ampliar os amparos, propondo desenvolvimentos amplos. Pode-se listar: a infra-estrutura urbana, a infra-estrutura energética, uma nova concepção de transportes no território nacional, um grande projeto de integração latino-americana, uma nova rede de serviços públicos eficientes (desde educação até proteção social). Ou seja, se não fosse um programa desse tipo poderia ser outro parecido. As Finanças, aqui e em toda parte, vêm impedindo, brincando de cabra-cega, por todos os meios – e o mais eficiente tem sido a ideologia – a transformação de um Estado político, cuja expressão social não seja metamorfoseada numa adesão pura e simples à política das Finanças.
O G-20 continua das finanças
1 – Olhe-se a comunicado do G-20. Como a crise estacionou, como alguns indicadores (muito poucos) dão alguns sinais de vida, os líderes se eriçaram em otimismo. Mesmo porque um dos lados da política é a ilusão, é a fantasia, é a esperança. Os governantes estão fazendo o seu trabalho e fazendo o melhor que podem. Porém, as propostas são sempre modestas, são sempre dourados sonhos. Por exemplo: há que tratar de cara e com força, da questão da elevação de capital na área financeira. Só que tratar de capital é tratar de aporte de capital. E com isso coloca-se em cheque a sua propriedade. Porque aí entra a questão da estatização, da nacionalização, da compra de bancos estratégicos por estrangeiros, etc.
2 – Há que mudar a governança corporativa. Até se falou nisso no G-20. Mas como se vai alterar a confronto entre os proprietários do capital e os dirigentes (esses que ganharam o recheio, quando botaram o bolo fora; esses que foram para casa com milhões de dólares no bolso e deixaram as corporações quebradas)? Essas mudanças, só poderiam alterar o sistema se rompessem com a forma financeirizada das corporações. Quanto às modificações do sistema financeiro, só se fala em medidas menores. Nada sobre unificação e controle das finanças, nacionais ou internacionais; nenhuma alusão ao controle social das instituições financeiras; nada sobre o crédito para os setores produtivos; nada sobre medidas técnicas de supervisão de alavancagens, de secutirização, das agências de ratings; nada sobre impostos sobre as instituições financeiras; etc. etc. Roosevelt falava em “Soft talk, big stick”. Agora é “soft talk, bull shit”. Ou seja, as finanças não querem mudanças. E estão conseguindo bloqueá-las, porque os governos que se reúnem são governos relativamente hegemonizados pelas referidas finanças.
3 – O G-20 fala contra o protecionismo. Só que o protecionismo, quem deve abdicar são os outros; nós, os Estados Unidos, somos os primeiros a tentar a proteção. Há declarações favoráveis aos estímulos fiscais, mas nos aportes financeiros do Estado, o principal vai para os Bancos, para o resto a ilusão dos cartões postais. Então, pode-se perguntar: quer-se recuperar a demanda com quê, com a preferência pela liquidez? Porque o setor privado não assume o investimento produtivo? Não foi outra a conclamação de Lula aos empresários, ao mostrar o elenco das respostas públicas das desonerações e do programa de Habitação Popular. Sabe o que fizeram os empresários? Os industriais reclamaram do custo Brasil (vamos botar mais ainda a crise no colo dos trabalhadores!) e os banqueiros souberam encontrar no silêncio a sua resposta preferida, quando se busca o seu apoio. (Não é o silêncio, ouro?). Por isso, quando se exalta o comércio internacional, quando os Estados Unidos pedem que os países superavitários gastem mais, fica cada vez mais evidente que o protecionismo é a mola, quem sabe suicida, do atual estágio do neoliberalismo na busca de sua salvação.
4 – Etc., etc., etc.
Onde olhar a melhora?
Pouco importa o que falamos. As sociedades constroem a sua saída. A mídia e o comunicado dos G-20 falam o que Shakespeare dizia muito bem: “Words, words, words”. A solução em economia e em política poderia ser uma mudança de letra, o d pelo k: “Works, works, works”. Se expressa deste modo o critério que vai nos permitir perceber quando a sociedade contemporânea estiver saindo desta Recessão/Depressão. Cape-se ou não o sistema financeiro, faça-o ou não funcional, somente a economia se recuperará como um todo quando dois aspectos inseridos no critério proposto forem atendidos: o investimento produtivo e o emprego. Até agora os primeiros tomaram um susto e levaram um tombo (menos na China) e o emprego sumiu das estatísticas e da realidade (inclusive na própria China). Concentra-se, nestas duas variáveis, o foco onde nós poderemos constatar se as pequenas melhoras que anunciam a retomada do consumo e da bolsa, do lucro dos bancos e das fusões corporativas, etc. são, de fato, efeitos de melhoras substanciais na organização econômica da sociedade. O ciclo só reabre a pendente positiva, a pendente ascensional, com o investimento produtivo e a queda acelerada do desemprego. Porque o resto não é silêncio, é bull shit de banqueiro. Ou como diz o samba de Elton Medeiros e Roque Ferreira: “a lama é lama e o ouro é o ouro”.
quarta-feira, setembro 30, 2009
CRSISE FINANCEIRA MUNDIAL: Unexpectedly...
Incrível como em todos os dias dessa semana ocorreu alguma coisa desfavorável "unexpectedly"... Ao menos no entender da mídia mainstream, em especial da Bloomberg... Hoje foi a vez do PMI Chicago, que indica intenções de gastos das empresas, e que mostrou uma contração ao invés da expansão esperada, e também do aumento do desemprego registrado pela ADP (254000 novos desempregados contra 200.000 esperados). Mas ontem era a "confiança do consumidor" que "unexpectedly", veio abaixo do previsto. E assim segue a "recuperação" da economia norte-americana.
A grande pergunta é : unexpectedly pra quem? O Econobrasil aposta na estagnação da economia dos EUA, ao menos até o momento.
Link relacionado:
segunda-feira, setembro 28, 2009
CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: O problema dos desequilíbrios globais
Sem surpresa, a agenda durante a reunião do G-20 foi deslocada do tema da reforma e regulação do sistema financeiro mundial (que não interessava aos EUA) para a questão da redução dos desequilíbrios globais (que interessam à economia norte-americana).
Nesse sentido, vale a pna dar uma olhada nos dois capítulos disponíveis até o momento do recém lançado Global Financial Stability Report do FMI. O capítulo II relatório traz uma defesa intransigente dos benefícios da securitização, enquanto o terceiro capítulo aponta para os riscos que as massivas intervenções governamentais podem colocar para a estabilidade futura da economia mundial. Ou seja, afinadíssimo com o discurso anglo-saxão, uma vez que o deslocamento da questão em direção aos desequilíbrios globais interessa também ao Reino Unido na tentativa de preservação do espaço privilegiado ocupado pela City londrina no mundo financeiro europeu.
O especialista em finanças internacionais Brad Setser, agora atuando como negociador pelo lado do governo norte-americano, também teceu loas a abordagem da questão pelo G-20. Ou seja, que os superavitários gastem mais para compensarem a queda na demanda norte-americana e reequilibrem economia global. Falta apenas convencer Japão, Alemanha e China...
Links relacionados:
quinta-feira, setembro 24, 2009
CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Esperem mais, não menos protecionismo
Os idealistas econômicos mundiais estão descobrindo agora aquilo que vimos alertando faz bastante tempo: a economia é política, os movimentos são do capital e não dos homens e na crise faz sentido aos debilitados capitais espalhados pelo mundo buscarem proteção contra as ameaças externas à sua reprodução. resumindo: podem não gostar e espernear o quanto quiserem, o protecionismo virá sob os mais diversos caminhos, pois ele está na lógica do capital (e das políticas domésticas de apoio ao capital) em momentos de crise.
Não há novidade alguma para nós no fato de que, após a retórica liberalizante do último G-20, os países que a propuseram tiveram de lançar mais de 400 medidas protecionistas, que impactam em maior ou menor grau o comércio em todo o planeta, como pode ser visto em http://www.voxeu.org/index.php?q=node/4008 . A novidade está em que isso está sendo notado.
Links relacionados:
CRSE FINANCEIRA MUNDIAL: Bolha orquestrada com o dinheiro do FED?
Os bancos utilizaram o dinheiro do bailout mundo à fora não para retomarem os empréstimos aos consumidores e aos investidores, mas sim para comprarem ativos financeiros. Não é uma denúncia nova, mas chama a atenção a forma como foi colocada pelo Moonraker Fund Management hoje pela manhã.
A ideia é ter um lucro com a venda destes ativos agora mais valorizados, o problema é ter quem os compre pelo valor em que talvez estejam quando os bancos queiram vendê-los...
Links relacionados:
CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
Coluna das quintas
24 de setembro de 2009
REDONDO É RIR DA VIDA
Por Enéas de Souza
A civilização e o estilo de vida das finanças
A primeira grande pergunta sobre a situação atual é se os atores políticos têm idéia de que a crise financeira não é uma crise financeira. E sim, uma crise do capitalismo, uma crise do capital, que, no seu processo de acumulação, encontrou neste modelo da “finance led growth” o seu limite. É fundamental perceber que a crise não é apenas financeira, mas também produtiva e vem combinada e acompanhada de uma crise política, de uma crise climática e de uma crise de civilização. Isto significa que há uma necessidade de uma revolução nos métodos de solução desta crise. Ou seja, a crise, se bem olhada, tem uma fisionomia realmente muito maior do que se sua face fosse apenas financeira. É verdade que esta sintetiza quase tudo. Vejam-se os padrões éticos, os comportamentos políticos dos financistas, as propostas de idéias econômicas, as visões de civilização desta elite dominante do processo atual. E se não fosse cômica esta faceta, bastaria olhar as propostas fúteis do estilo de vida desta classe hegemônica. Por isso a arte tem colocado sob diversos pontos, tantos ângulos, a terrível decomposição da civilização, sobretudo, quando exemplificada, por exemplo, pelo comportamento de bancos que vendem um ativo para um cliente e através de uma cadeia de securitização acabam por apostar contra o primeiro comprador. Isto quer dizer, que a traição é um elemento básico do sistema. Uma civilização que trabalha com o crime, através dos jogos mafiosos ou de empresas militares privadas, como forma de ajustes de suas diferenças sociais e nacionais não pode se sustentar. Uma civilização que usa e se apropria do corpo do outro como instrumento de destruição, de gozo, de escravização, falando em nome da democracia, tem tudo para perder o seu rumo e a sua dignidade. Sem contar, com essa corrosão lenta, mas fantástica da devastação dos recursos naturais e da explosão dos temas climáticos como vem falando o prof. Loss.
A magia do cinema
Se duvidam basta ver os vários filmes que tratam sobre estes temas: “Carlito´s Way” de Brian de Palma, “Senhores Crime” de David Cronemberg, “ Cidade dos Sonhos” de David Lynch, “Sangue Negro” de Paul Anderson Thomas, “Cinema Falado” de Manuel de Oliveira; “La vie Nouvelle” de Phillipe Grandrieux, “Onde os fracos não tem vez” dos Irmãos Cohen, “Gran Torino” de Clint Eastwood, “Collateral” de Michael Mann, “Dogville” de Lars von Trier, “Histoire(s) du Cinema” de Jean-Luc Godard. Ao assinalarmos estas películas, não excluímos outras, inclusive destes mesmos autores. O que importa apenas é que temos nestas obras uma amostra da civilização que direta ou indiretamente as finanças criaram. É verdade que “Os Pássaros” de Hitchcock, já em 1963, ainda no século XX, anunciava um maltrato geral com a natureza, e os efeitos danosos sobre o próprio homem, em ação reversa, desta apropriação “racional” dos recursos naturais, Somando o que dissemos, a pergunta aqui é: trata-se de um momento onde a natureza histórica do homem volta-se contra ele próprio ou estes comportamentos fazem parte da natureza humana propriamente dita?
Onde está a sociedade?
O segundo ponto que analisamos é o seguinte: apesar do desastre produzido pelas finanças, estas continuam a comandar o processo econômico. Não na sua recuperação, mas no impedimento de qualquer mudança, de qualquer transformação para que as finanças sejam funcionais para o sistema econômico. Exemplo claro é o cerco, já tantas vezes falado por essa coluna, que sofre o governo Obama, que não consegue propor nenhum maior controle sobre o desempenho deste setor. Vejam o que é indispensável para resolver a questão do sistema financeiro americano e internacional: aportes significativos de recursos para o capital das instituições financeiras; definições de regras claras sobre alavancagem e seus níveis, estabelecimento de critérios seguros sobre securitização e seus produtos financeiros; tratamento adequado do controle destas falsas autoridades que são as agências de ratings; o desenho de uma regulação estatal que reúna as múltiplas agências que controlam partes do sistema financeira e que colidem muitas vezes entre elas; uma concepção clara das funções do sistema financeiro em relação ao sistema produtivo, etc. A pergunta que fazemos é a seguinte: como é que com um nível de desemprego altíssimo e com uma paralisia alentada da economia americana, a sociedade dos Estados Unidos não foi capaz de pressionar para transformações profundas na sua estrutura produtiva e financeira?
Intervalo para uma pergunta tupiniquim
Agora uma temática mais nativa. Começamos salientando os seguintes pontos: o governo brasileiro jogou na crise defensivamente muito bem; acertou desonerações de impostos para alguns setores com a finalidade de manter o consumo; forçou os bancos públicos a criarem uma certa concorrência ao setor bancário privado; propôs um plano de habitação popular, etc. Enfim só bola no gol. Mas, este lance foi seqüência de um passo sólido já dado anteriormente, quando elegendo a Petrobrás como um dos centros do PAC, o Estado nacional já tinha se proposto a mostrar que só há uma saída: atuar fortemente como um elemento articulador da política e da economia, sobretudo num momento de crise.
Do ponto de vista econômico, o neoliberalismo amarrou os Estados para ficarem numa posição externa à economia, ao menos enquanto o setor financeiro não precisasse de recursos para salvar as suas instituições. Porém se o Estado brasileiro soube sair do cerco atuando ativamente nas desonerações, na forma de atuação dos bancos públicos, etc,, ele não pode sair na frente fazendo investimentos autônomos. Estava obviamente amarrado. A interconexão das economias no plano internacional e as condições políticas internas do país bloqueavam a possibilidade de usar a inflação, bem como aumentar a carga de impostos com a finalidade desenvolvimentista. Dito isso, o que se percebe é que o Estado brasileiro acabou por conceber um projeto de futuro, que vai da energia (petróleo, pré-sal, bio-combustíveis), passando pela produção de alimentos para chegar até a organização de indústrias tanto ao redor do pré-sal como no campo militar. Com isso, o projeto se torna explícito: de um lado, tornar-se uma potência de grau intermediário, buscando inclusive participar do Conselho de Segurança da ONU como integrante permanente; e de outro, arrancar para uma maior presença na divisão internacional do trabalho.
Para fazer a ligação entre a postura defensiva depois da emergência da crise e o projeto de futuro do Brasil, são necessários e indispensáveis investimentos, a pergunta que se faz necessária é a seguinte: qual ou que atores farão estas inversões indispensáveis? De maneira crua: de onde vão sair esses recursos? E daí, passamos a outras perguntas, dentro da mesma zona de questões, considerando os processos internacionais que tentam superar a crise. A burguesia nacional estará ousando ultrapassar sua posição sempre temerosa e subordinada no processo de acumulação de capital? Terá a Petrobrás e a Petrosal a capacidade política e econômica de atrair parceiros privados no nível capaz de fazer mudar o status do país? Quais serão os capitais estrangeiros que entrarão num mix para investir nos múltiplos projetos nacionais? Como? Quais? Enfim, este momento histórico de crise do capitalismo é um momento de grande oportunidade que permitirá o Brasil sair da longa fase de paralisia que atingiu o país, desde o fim dos governos militares até o governo de Fernando Henrique Cardoso?
O enterro do G-8
Voltando ao mundo. Este G-20 está revelando a liquidação do G-8, o que significa uma necessidade de reformulação da estratégia americana; do reconhecimento de uma fraqueza crucial da Europa e da necessidade de uma reposicionamento de suas forças; da emergência muito forte e decisiva dos países emergentes com a China, como a India, como o Brasil, etc. Seja como for, a tarefa deste G-20 é imensa. Vai trabalhar na tentativa de evitar o protecionismo - o que é um fato quase impossível -, vai requerer a busca de uma coordenação na regulação financeira nacional e internacional, vai lutar por uma reativação do comércio internacional num tempo breve e vai exercer uma diplomacia visando bloquear conflitos que terminem em hostilidades tão agudas como conflitos armados. Mas sobre G-20 não escapamos de fazer uma pergunta: se os Estados Unidos, que é a nação mais poderosa do mundo – econômica, política, financeira, tecnológica e militarmente - não consegue nem se organizar internamente, como poderá liderar um processo de reorganização internacional? Depois desta interrogação, podemos fazer mais outra questão. O G-20 vai conseguir – se conseguir - fazer alterações negociadas na ordem política e econômica mundial. em que prazo? No curto, no médio ou no longo prazo?
Perguntar não ofende
A depresssão está descartada? Pois este é um problema que economistas e políticos tentam esconder, colocar em baixo da terra, como se não falar sobre o assunto fosse uma forma de descartar a sua possibilidade. Esta pergunta é uma flor do mal. Mas, a meu ver, ela está presente, ela é como aquelas pessoas que a gente quer evitar, mas que aparecem, que se infiltram e estão aí. Se a gente começa a conjeturar, a gente vê que esta idéia não pode ser descartada assim tão facilmente. E porque? Em primeiro lugar, o buraco deixado pelas finanças e o encadeamento da superacumulação na área produtiva não está permitindo que o investimento se faça e adquira robustez. O Estado, de fato, está ajudando fortemente os financistas e as instituições financeiras, mas muito pouco ao setor industrial. E olhando bem, a superacumulação na esfera produtiva está levando a uma queima de capital e a uma certa aversão ao investimento. Acresce que a necessidade de transformações tecnológicas profundas está sendo modestamente alcançada. De outro lado, o crédito não está fluindo e as empresas produtivas não tem recursos próprios suficientes para aplicarem em equipamentos e máquinas e em novos processos de produção. A preferência pela liquidez continua florescendo. Os bancos que são a chave nesse processo, sobretudo no capitalismo americano, estão engordados com ativos tóxicos de todas as espécies. O crédito não deslanchou e os setores que tem dinheiro não conseguem encontrar, com segurança, setores que precisam de capital. O sistema financeiro como hegemônico está totalmente desarvorado e só girando em torno de sua salvação. Já falamos muito nisso: falta a ele capital, ele está atolado em ativos podres e não está conseguindo padrões de rendimentos atrativos como nos grandes tempos. As especulações são raras e efêmeras e sem grandes compensações. Tudo está dominado por um ambiente de incerteza e medo. E ao mesmo tempo, o resultado total desta finance led growth é o desemprego, é a ausência de investimento, é a preferência pela liquidez, é a inapetência pela aplicação na produção. E o governo, abraçado às finanças, vai aumentando o seu déficit fiscal, levando o dólar a uma trajetória de desvalorização, minguando consequentemente o seu poder de troca. Por isso, leitores, é importante perguntar sem nenhum pudor: quais são os argumentos que nos garantem que uma segunda grande depressão está descartada definitivamente?
Coluna das quintas
24 de setembro de 2009
REDONDO É RIR DA VIDA
Por Enéas de Souza
A civilização e o estilo de vida das finanças
A primeira grande pergunta sobre a situação atual é se os atores políticos têm idéia de que a crise financeira não é uma crise financeira. E sim, uma crise do capitalismo, uma crise do capital, que, no seu processo de acumulação, encontrou neste modelo da “finance led growth” o seu limite. É fundamental perceber que a crise não é apenas financeira, mas também produtiva e vem combinada e acompanhada de uma crise política, de uma crise climática e de uma crise de civilização. Isto significa que há uma necessidade de uma revolução nos métodos de solução desta crise. Ou seja, a crise, se bem olhada, tem uma fisionomia realmente muito maior do que se sua face fosse apenas financeira. É verdade que esta sintetiza quase tudo. Vejam-se os padrões éticos, os comportamentos políticos dos financistas, as propostas de idéias econômicas, as visões de civilização desta elite dominante do processo atual. E se não fosse cômica esta faceta, bastaria olhar as propostas fúteis do estilo de vida desta classe hegemônica. Por isso a arte tem colocado sob diversos pontos, tantos ângulos, a terrível decomposição da civilização, sobretudo, quando exemplificada, por exemplo, pelo comportamento de bancos que vendem um ativo para um cliente e através de uma cadeia de securitização acabam por apostar contra o primeiro comprador. Isto quer dizer, que a traição é um elemento básico do sistema. Uma civilização que trabalha com o crime, através dos jogos mafiosos ou de empresas militares privadas, como forma de ajustes de suas diferenças sociais e nacionais não pode se sustentar. Uma civilização que usa e se apropria do corpo do outro como instrumento de destruição, de gozo, de escravização, falando em nome da democracia, tem tudo para perder o seu rumo e a sua dignidade. Sem contar, com essa corrosão lenta, mas fantástica da devastação dos recursos naturais e da explosão dos temas climáticos como vem falando o prof. Loss.
A magia do cinema
Se duvidam basta ver os vários filmes que tratam sobre estes temas: “Carlito´s Way” de Brian de Palma, “Senhores Crime” de David Cronemberg, “ Cidade dos Sonhos” de David Lynch, “Sangue Negro” de Paul Anderson Thomas, “Cinema Falado” de Manuel de Oliveira; “La vie Nouvelle” de Phillipe Grandrieux, “Onde os fracos não tem vez” dos Irmãos Cohen, “Gran Torino” de Clint Eastwood, “Collateral” de Michael Mann, “Dogville” de Lars von Trier, “Histoire(s) du Cinema” de Jean-Luc Godard. Ao assinalarmos estas películas, não excluímos outras, inclusive destes mesmos autores. O que importa apenas é que temos nestas obras uma amostra da civilização que direta ou indiretamente as finanças criaram. É verdade que “Os Pássaros” de Hitchcock, já em 1963, ainda no século XX, anunciava um maltrato geral com a natureza, e os efeitos danosos sobre o próprio homem, em ação reversa, desta apropriação “racional” dos recursos naturais, Somando o que dissemos, a pergunta aqui é: trata-se de um momento onde a natureza histórica do homem volta-se contra ele próprio ou estes comportamentos fazem parte da natureza humana propriamente dita?
Onde está a sociedade?
O segundo ponto que analisamos é o seguinte: apesar do desastre produzido pelas finanças, estas continuam a comandar o processo econômico. Não na sua recuperação, mas no impedimento de qualquer mudança, de qualquer transformação para que as finanças sejam funcionais para o sistema econômico. Exemplo claro é o cerco, já tantas vezes falado por essa coluna, que sofre o governo Obama, que não consegue propor nenhum maior controle sobre o desempenho deste setor. Vejam o que é indispensável para resolver a questão do sistema financeiro americano e internacional: aportes significativos de recursos para o capital das instituições financeiras; definições de regras claras sobre alavancagem e seus níveis, estabelecimento de critérios seguros sobre securitização e seus produtos financeiros; tratamento adequado do controle destas falsas autoridades que são as agências de ratings; o desenho de uma regulação estatal que reúna as múltiplas agências que controlam partes do sistema financeira e que colidem muitas vezes entre elas; uma concepção clara das funções do sistema financeiro em relação ao sistema produtivo, etc. A pergunta que fazemos é a seguinte: como é que com um nível de desemprego altíssimo e com uma paralisia alentada da economia americana, a sociedade dos Estados Unidos não foi capaz de pressionar para transformações profundas na sua estrutura produtiva e financeira?
Intervalo para uma pergunta tupiniquim
Agora uma temática mais nativa. Começamos salientando os seguintes pontos: o governo brasileiro jogou na crise defensivamente muito bem; acertou desonerações de impostos para alguns setores com a finalidade de manter o consumo; forçou os bancos públicos a criarem uma certa concorrência ao setor bancário privado; propôs um plano de habitação popular, etc. Enfim só bola no gol. Mas, este lance foi seqüência de um passo sólido já dado anteriormente, quando elegendo a Petrobrás como um dos centros do PAC, o Estado nacional já tinha se proposto a mostrar que só há uma saída: atuar fortemente como um elemento articulador da política e da economia, sobretudo num momento de crise.
Do ponto de vista econômico, o neoliberalismo amarrou os Estados para ficarem numa posição externa à economia, ao menos enquanto o setor financeiro não precisasse de recursos para salvar as suas instituições. Porém se o Estado brasileiro soube sair do cerco atuando ativamente nas desonerações, na forma de atuação dos bancos públicos, etc,, ele não pode sair na frente fazendo investimentos autônomos. Estava obviamente amarrado. A interconexão das economias no plano internacional e as condições políticas internas do país bloqueavam a possibilidade de usar a inflação, bem como aumentar a carga de impostos com a finalidade desenvolvimentista. Dito isso, o que se percebe é que o Estado brasileiro acabou por conceber um projeto de futuro, que vai da energia (petróleo, pré-sal, bio-combustíveis), passando pela produção de alimentos para chegar até a organização de indústrias tanto ao redor do pré-sal como no campo militar. Com isso, o projeto se torna explícito: de um lado, tornar-se uma potência de grau intermediário, buscando inclusive participar do Conselho de Segurança da ONU como integrante permanente; e de outro, arrancar para uma maior presença na divisão internacional do trabalho.
Para fazer a ligação entre a postura defensiva depois da emergência da crise e o projeto de futuro do Brasil, são necessários e indispensáveis investimentos, a pergunta que se faz necessária é a seguinte: qual ou que atores farão estas inversões indispensáveis? De maneira crua: de onde vão sair esses recursos? E daí, passamos a outras perguntas, dentro da mesma zona de questões, considerando os processos internacionais que tentam superar a crise. A burguesia nacional estará ousando ultrapassar sua posição sempre temerosa e subordinada no processo de acumulação de capital? Terá a Petrobrás e a Petrosal a capacidade política e econômica de atrair parceiros privados no nível capaz de fazer mudar o status do país? Quais serão os capitais estrangeiros que entrarão num mix para investir nos múltiplos projetos nacionais? Como? Quais? Enfim, este momento histórico de crise do capitalismo é um momento de grande oportunidade que permitirá o Brasil sair da longa fase de paralisia que atingiu o país, desde o fim dos governos militares até o governo de Fernando Henrique Cardoso?
O enterro do G-8
Voltando ao mundo. Este G-20 está revelando a liquidação do G-8, o que significa uma necessidade de reformulação da estratégia americana; do reconhecimento de uma fraqueza crucial da Europa e da necessidade de uma reposicionamento de suas forças; da emergência muito forte e decisiva dos países emergentes com a China, como a India, como o Brasil, etc. Seja como for, a tarefa deste G-20 é imensa. Vai trabalhar na tentativa de evitar o protecionismo - o que é um fato quase impossível -, vai requerer a busca de uma coordenação na regulação financeira nacional e internacional, vai lutar por uma reativação do comércio internacional num tempo breve e vai exercer uma diplomacia visando bloquear conflitos que terminem em hostilidades tão agudas como conflitos armados. Mas sobre G-20 não escapamos de fazer uma pergunta: se os Estados Unidos, que é a nação mais poderosa do mundo – econômica, política, financeira, tecnológica e militarmente - não consegue nem se organizar internamente, como poderá liderar um processo de reorganização internacional? Depois desta interrogação, podemos fazer mais outra questão. O G-20 vai conseguir – se conseguir - fazer alterações negociadas na ordem política e econômica mundial. em que prazo? No curto, no médio ou no longo prazo?
Perguntar não ofende
A depresssão está descartada? Pois este é um problema que economistas e políticos tentam esconder, colocar em baixo da terra, como se não falar sobre o assunto fosse uma forma de descartar a sua possibilidade. Esta pergunta é uma flor do mal. Mas, a meu ver, ela está presente, ela é como aquelas pessoas que a gente quer evitar, mas que aparecem, que se infiltram e estão aí. Se a gente começa a conjeturar, a gente vê que esta idéia não pode ser descartada assim tão facilmente. E porque? Em primeiro lugar, o buraco deixado pelas finanças e o encadeamento da superacumulação na área produtiva não está permitindo que o investimento se faça e adquira robustez. O Estado, de fato, está ajudando fortemente os financistas e as instituições financeiras, mas muito pouco ao setor industrial. E olhando bem, a superacumulação na esfera produtiva está levando a uma queima de capital e a uma certa aversão ao investimento. Acresce que a necessidade de transformações tecnológicas profundas está sendo modestamente alcançada. De outro lado, o crédito não está fluindo e as empresas produtivas não tem recursos próprios suficientes para aplicarem em equipamentos e máquinas e em novos processos de produção. A preferência pela liquidez continua florescendo. Os bancos que são a chave nesse processo, sobretudo no capitalismo americano, estão engordados com ativos tóxicos de todas as espécies. O crédito não deslanchou e os setores que tem dinheiro não conseguem encontrar, com segurança, setores que precisam de capital. O sistema financeiro como hegemônico está totalmente desarvorado e só girando em torno de sua salvação. Já falamos muito nisso: falta a ele capital, ele está atolado em ativos podres e não está conseguindo padrões de rendimentos atrativos como nos grandes tempos. As especulações são raras e efêmeras e sem grandes compensações. Tudo está dominado por um ambiente de incerteza e medo. E ao mesmo tempo, o resultado total desta finance led growth é o desemprego, é a ausência de investimento, é a preferência pela liquidez, é a inapetência pela aplicação na produção. E o governo, abraçado às finanças, vai aumentando o seu déficit fiscal, levando o dólar a uma trajetória de desvalorização, minguando consequentemente o seu poder de troca. Por isso, leitores, é importante perguntar sem nenhum pudor: quais são os argumentos que nos garantem que uma segunda grande depressão está descartada definitivamente?
segunda-feira, setembro 21, 2009
CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Bomba jurídica ameaça bancos nos EUA
Uma corte de justiça do Kansas admitiu que os vendedores tendo sido pagos eplos securitizadores não é possível que os detentores deses títulos possam despejar os moradores das casas. Ou seja, se a sua dívida foi securitizada pelos bancos o não pagamento da mesma não poderá implicar em despejo do morador.
Caso essa decisão fosse estendida ao sitema norte-americano como um todo a partir de um julgamento na Suprema Corte, os principais bancos do país estariam imediatamente insolventes... duvido que isso possa ocorrer, mas é mais um componente de incerteza no intrincado xadrez das finanças norte-americanas.
Link relacionado:
http://www.opednews.com/articles/LANDMARK-DECISION-PROMISES-by-Ellen-Brown-090921-894.html
quinta-feira, setembro 17, 2009
CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
Coluna das quintas
17 de setembro de 2009
EMPREGO,
Coluna das quintas
17 de setembro de 2009
EMPREGO,
TEU NOME
É INVESTIMENTO!
Por Enéas de Souza
Uma crise que tinha tudo para virar uma depressão e que se tornou uma grande recessão, ao menos até o momento, nos leva a meditar sobre o lado político dos acontecimentos, inclusive na atuação e os méritos do Estado. Antes de mais nada, o que observamos é que o capital tem o domínio total da sociedade e, dentro do capital, o setor financeiro tem levado a melhor. Ele é o centro solar do universo econômico. No momento, vive um instante dramático porque aquele poder absoluto, vigoroso, charmoso e, ao mesmo tempo, arrogante, impositivo, fazendo apologia de si mesmo, foi substituído por um período onde as finanças foram postas em questão. Por quê?
A coesão na divergência
Primeiro porque o setor sofreu um abalo econômico, político e porque não dizer emocional, uma vez que lhe escapava a lucratividade dos tempos da vertigem especulativa, aquela música que tinha dançado antes. E, em segundo lugar, porque essa decadência da renda financeira dividiu o setor, provocou bancarrotas e diferenças de estatuto do sucesso das entidades da área. E, claro, posições divergentes só trazem posturas distintas quanto às propostas de saída da crise. Seja de como cada um vai sair da crise, seja porque alguns foram eliminados no caminho, seja pelos interesses que se tornam claramente opostos. Portanto, se estabeleceu imediatamente uma luta fratricida e bélica de envergadura. Só que, diante da ameaça do extermínio de sua liberdade, os capitais pastando na área financeira, mesmo com contradições, encontraram uma ação minimamente coerente, uma espécie de reconversão ou uma tentativa de restauração do império financeiro. Nesta direção, nos Estados Unidos, foi trabalhada, ao longo do tempo, uma série de medidas para construir uma frente do setor: jogar pesado política e ideologicamente contra a nacionalização dos bancos; jogar ideológica, congressual e praticamente contra a regulação desejada pela sociedade, aceitando uma regulação que seja favorável e garanta o lado financeiro da economia; construir um cerco ao presidente Obama com titulares de cargos que sejam favoráveis ao seu grupo e à sua visão; resistir o máximo possível à proposição de limitar os amados bônus dos dirigentes financistas; assegurar que a política econômica, na sua parte monetária e financeira, defenda tanto capital e bailouts do Estado como as ajudas financeiras do Banco Central e as mudanças de critério na contabilidade para permitir o manejo dos ativos tóxicos; preparar o Estado para que os déficits fiscais venham a cobrir furos financeiros e não necessariamente necessidades do setor produtivo e da população; manter uma relação de liderança com a mídia, capaz de fazer com que esta apenas desgaste a superfície das finanças, limando as bordas ao atacar Maddof, o vigarista e apoiando o núcleo, ao louvar, por exemplo, o Goldman Sachs, por suas invenções e seu apetite de risco. Como disse um entrevistado num programa de televisão: o risco faz parte da cultura americana (sic!).
Camões inspirando a mídia para as finanças
A conclusão imediata a qual se chega é apenas uma: apesar de um ano de desastre financeiro, o Estado continua dominado pelas finanças, trabalhando, apoiando e aprovando estratégias financeiras para a saída da crise. E tendo conseguido para a área cada vez mais tempo para ela pudesse pensar, planejar e agir. Com isso, conceberam – as finanças e o Estado – um sentimento absolutamente novo: o pior da crise já passou. Pois esta chegou a um patamar de segurança, onde a economia financeira parou de cair. O que parece real, sobretudo com a corneta gloriosa, “a tuba canora e belicosa” como diria Camões, dos múltiplos setores da imprensa. Mas, lá no porão do Estado, as contas públicas estão se deteriorando, e o dólar anda em discórdia com a vida e está sendo um pouco mal visto e até mal aceito. Ninguém mais se espanta: ele começa a ser questionado. O importante é saber se este movimento e esta tendência são passageiros. Sinais contrários apareceram, apontando para um horizonte de cores cinzas, quem sabe, negras, na elevação do preço do ouro e na busca de construção de uma de reserva monetária internacional chinesa.
A conversa mole da recessão que terminou
Em todo caso, os Estados Unidos continuam em recessão. Aliás, é bom discutir o que é uma recessão. Vamos combinar que diremos que uma economia está em recessão quando ela não cobre a necessidade de investimento capaz de incorporar, no processo de trabalho, os candidatos de uma nova geração de trabalhadores. Portanto, quando não oferece oportunidade de emprego para atender o crescimento anual de uma população de uma determinada sociedade. O leitor pense um pouco comigo. Nos Estados Unidos, temos 9,7% de taxa de desemprego, sem contar os novos pretendentes. Realmente, estes números sustentam a idéia de que a economia saiu da recessão? Obviamente, para começar a afastar-se dela a atividade econômica teria que estar recomeçando a recuperar o emprego daqueles quase 10% que falamos acima e ensaiando um projeto de empregar os novos advindos ao mercado de trabalho, no rumo do pleno emprego (Será que algum dia as finanças ouviram falar no assunto?). Naturalmente, estamos muito longe disso. E por quê? Primeiro, porque a tentativa de saída da economia é continuadamente um pensar a recuperação pelo lado das finanças. E para estas sim, pouco importa, imediatamente, se as pessoas estão empregadas ou não. A solução da economia para as instituições financeiras é provocar uma dinâmica de alavancagem, de crédito e de securitização que leve e retorne aos polpudos rendimentos nas suas aplicações. O emprego é um efeito derivado destas rendas. Pois parte delas, se tornando consumo, por derivação, quando a capacidade ociosa da produção vai se esgotando, se transformam em investimento. E só aí ocorre a recuperação do emprego, que é também ajudado pelo ressurgimento dos serviços ligados à esfera produtiva. O terceiro fato de crescimento do emprego surge de uma reativação do mercado externo. Não existe nesta visão das finanças nenhuma questão social do emprego. A finance led growth não é automática e nem promove a recuperação e criação de postos de trabalho como reativação da economia. Portanto, para quem pensa em termos de sociedade, não pode acreditar que qualquer movimento na área financeira se arma como recuperação dos negócios e do emprego. Para as finanças, este vem por último. (Isso sem falar, que até agora, o desastre financeiro dos compradores de casas não foi resolvido, sequer razoavelmente encaminhado pelo governo, pelo Estado, pela nação.) Assim, a pergunta que se faz é a seguinte: é viável pensar que a recessão acabou? Ou mesmo como nos diz Bernanke: há sinais de que ela está indo embora?
A morte é securitizada
E, efetivamente, as finanças, depois da folga, depois do tempo para recomposição, estão pondo, estão combinando ideologia, prática e teoria, novamente. E estão proclamando que a recessão terminou. E para justificar as suas palavras, elas já estão inventando novos produtos. Um exemplo magnífico é o novo produto da securitização das apólices de seguro de vida. Essa inovação financeira significa que você agora pode fazer um seguro sobre a sua existência, e com esta apólice transferí-la para uma instituição financeira, recebendo com uma taxa de desconto, o valor segurado. Essa operação dá o direito à referida entidade, quando você morrer, o recebimento do valor transacionado. E, portanto, em princípio, neste momento, valorizar a sua aplicação mediante uma renda financeira. Só que isso, dado o próprio sistema de auto-regulação e do processo de securitização, pode encadear uma série de papéis, inclusive “tranches” com ativos tóxicos, que vai nos levar, cedo ou tarde, de retorno aos caminhos já traçados pela financeirização da economia nos últimos tempos. E dizem que o raio não pode cair duas vezes no mesmo lugar... Alea jacta est. O ponto é o seguinte: o que vai fazer o Congresso? O que vai fazer o governo americano? Qual a posição do G-20? Pois, é óbvio, o raio não vai se despencar somente sobre nos Estados Unidos. No mínimo, também sobre a Inglaterra, pois como nos falava Peter Gowan, Wall Street não existe sem a sua valorosa companheira, o apêndice londrino da City.
Olhai os lírios da economia
O Lula agora está convocando os industriais a investirem, depois de ter criado condições para que alguns setores esvaíssem o seu estoque e o emprego não desabasse. Ele não deixa de ser o grande caixeiro viajante da sociedade brasileira, o nosso vendedor de flocos de algodão doce do parque de diversões. Este gesto demonstra várias coisas: em primeiro lugar, revela o limite do Estado numa sociedade neoliberal. O Brasil, que é um país de tradição estatal, o máximo que pôde fazer foi, sem dúvida, isentar de impostos o setor automobilístico, o setor de eletrodomésticos, o setor de material de construção civil, o setor de bens de capital. Ou seja, não pôde assumir um projeto de nação independente, nem fazer um programa de investimento que dirigisse o país para um certo destino. Tudo porque o clima do atual capitalismo é a ginástica complicada de passar os rendimentos financeiros para o consumo, e deste para o investimento. Desta forma, o gasto em consumo, se ocorre, passa por compras de bens duráveis e não-duráveis. E estes dispêndios só levarão ao desembolso de recursos em investimento, só e somente, após a ocupação da capacidade ociosa das empresas. Ou seja, é muita coisa de provável e de improvável. Tem que haver inovações financeiras. Elas tem que dar resultados monetários. E estes resultados não podem ser totalmente poupados ou investidos novamente no mercado financeiro. Eles têm que ser canalizados para o consumo. E as fábricas têm que ser usadas ao máximo. Ao mesmo tempo, os empresários têm que achar que a demanda vai continuar alta, pois se não, a resposta vai ser o aumento de preços, e jamais ao aumento do investimento. As empresas produtivas, por outro lado têm que ter acesso ao crédito, sobretudo de longo prazo. Elas têm que poder lançar papéis em bolsa. Tem que etc., etc. O processo do investimento, portanto, é uma longa trajetória de probabilidades e improbabilidades até chegar a se realizar. E os empresários, com toda razão, ficam temerosos e buscam ter certeza sobre uma possível demanda. E tudo se avulta no temor quando a economia mundial parece não se mexer. Só a China não faz esse trajeto, e por isso é mais rápida, porque como o capitalismo chinês é financeiro e estatal, o Estado pode promover um pacote de investimentos para tentar barrar o crescimento do desemprego, numa reconversão da estrutura da produção. Assim, diante dos embaraços a investir produtivamente, Lula está assumindo o papel de criador de ambiente para que a economia brasileira tente sair do chão. E ele está certo. (O que não exclui os rendimentos eleitorais para a candidatura da Dilma se isto ocorrer dando ao PIB o sopro indispensável.)
Empresários do mundo, investi!
Na época getulista, as escolas tinham pregado nas paredes a frase “Criança ama a terra em que nasceste”. Pois, parece que Lula e Obama e Sarkozy e Gordon Brown e todos os governantes do mundo estão operando o teatro da busca do investimento. Proust diria do investimento perdido. Porque, nas dobras dos eventos econômicos, se a economia não for regulada (é preciso escrever em caixa alta: “SE A ECONOMIA NÃO FOR REGULADA”), o dinheiro ou vai ficar trancado na preferência pela liquidez ou vai andar atrás de novos produtos financeiros para serem securitizados (ao estilo dessas apólices de seguro de vida). E só depois, e “muito depois” como dizia o samba. aparece “a estrela do mar”, isto é, o investimento. A pergunta fundamental fica cada vez mais clara: não se trata de uma decisão política da sociedade de repensar este destino de subordinar todo o movimento da economia à necessidade de dar aos bancos e ao setor financeiro o combustível e tempo para que eles deslanchem e descubram formas de ganho? Dito de um segundo modo: não é uma decisão política, que só após a resolução das finanças, a sociedade se preocupe com a produção e, sobretudo, com o emprego?
Na crise de 1930, Keynes escreveu um livro que se chamava “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”. Ou seja, o emprego vinha em primeiro lugar. E foi só por isso que a economia progrediu fantasticamente no pós-guerra. A economia se transformou, se sofisticou; e até se financeirizou mais tarde. Mas a lição do emprego foi, é e será de grande valia para a economia capitalista na emergência de uma crise. (Obviamente, os financistas mataram essa aula!) E claro, Obama tem razão: as finanças precisam ser funcionais para a nova economia que se desenha em cima de novas tecnologias para os múltiplos mercados e com novas energias. O mundo hoje, é sem dúvida, uma grande comédia, se não fosse uma grande pequena tragédia. Não temos mais Édipos, nem Hamlets, temos os bufos do sistema financeiro ao redor da tumba do desemprego, clamando por novas securitizações. E depois prendem apenas o Madoff. Mas, o que vale a prisão de um Madoff num mundo cheio de Madoffs? Que a sociedade sustente o apoio ao investimento!
Por Enéas de Souza
Uma crise que tinha tudo para virar uma depressão e que se tornou uma grande recessão, ao menos até o momento, nos leva a meditar sobre o lado político dos acontecimentos, inclusive na atuação e os méritos do Estado. Antes de mais nada, o que observamos é que o capital tem o domínio total da sociedade e, dentro do capital, o setor financeiro tem levado a melhor. Ele é o centro solar do universo econômico. No momento, vive um instante dramático porque aquele poder absoluto, vigoroso, charmoso e, ao mesmo tempo, arrogante, impositivo, fazendo apologia de si mesmo, foi substituído por um período onde as finanças foram postas em questão. Por quê?
A coesão na divergência
Primeiro porque o setor sofreu um abalo econômico, político e porque não dizer emocional, uma vez que lhe escapava a lucratividade dos tempos da vertigem especulativa, aquela música que tinha dançado antes. E, em segundo lugar, porque essa decadência da renda financeira dividiu o setor, provocou bancarrotas e diferenças de estatuto do sucesso das entidades da área. E, claro, posições divergentes só trazem posturas distintas quanto às propostas de saída da crise. Seja de como cada um vai sair da crise, seja porque alguns foram eliminados no caminho, seja pelos interesses que se tornam claramente opostos. Portanto, se estabeleceu imediatamente uma luta fratricida e bélica de envergadura. Só que, diante da ameaça do extermínio de sua liberdade, os capitais pastando na área financeira, mesmo com contradições, encontraram uma ação minimamente coerente, uma espécie de reconversão ou uma tentativa de restauração do império financeiro. Nesta direção, nos Estados Unidos, foi trabalhada, ao longo do tempo, uma série de medidas para construir uma frente do setor: jogar pesado política e ideologicamente contra a nacionalização dos bancos; jogar ideológica, congressual e praticamente contra a regulação desejada pela sociedade, aceitando uma regulação que seja favorável e garanta o lado financeiro da economia; construir um cerco ao presidente Obama com titulares de cargos que sejam favoráveis ao seu grupo e à sua visão; resistir o máximo possível à proposição de limitar os amados bônus dos dirigentes financistas; assegurar que a política econômica, na sua parte monetária e financeira, defenda tanto capital e bailouts do Estado como as ajudas financeiras do Banco Central e as mudanças de critério na contabilidade para permitir o manejo dos ativos tóxicos; preparar o Estado para que os déficits fiscais venham a cobrir furos financeiros e não necessariamente necessidades do setor produtivo e da população; manter uma relação de liderança com a mídia, capaz de fazer com que esta apenas desgaste a superfície das finanças, limando as bordas ao atacar Maddof, o vigarista e apoiando o núcleo, ao louvar, por exemplo, o Goldman Sachs, por suas invenções e seu apetite de risco. Como disse um entrevistado num programa de televisão: o risco faz parte da cultura americana (sic!).
Camões inspirando a mídia para as finanças
A conclusão imediata a qual se chega é apenas uma: apesar de um ano de desastre financeiro, o Estado continua dominado pelas finanças, trabalhando, apoiando e aprovando estratégias financeiras para a saída da crise. E tendo conseguido para a área cada vez mais tempo para ela pudesse pensar, planejar e agir. Com isso, conceberam – as finanças e o Estado – um sentimento absolutamente novo: o pior da crise já passou. Pois esta chegou a um patamar de segurança, onde a economia financeira parou de cair. O que parece real, sobretudo com a corneta gloriosa, “a tuba canora e belicosa” como diria Camões, dos múltiplos setores da imprensa. Mas, lá no porão do Estado, as contas públicas estão se deteriorando, e o dólar anda em discórdia com a vida e está sendo um pouco mal visto e até mal aceito. Ninguém mais se espanta: ele começa a ser questionado. O importante é saber se este movimento e esta tendência são passageiros. Sinais contrários apareceram, apontando para um horizonte de cores cinzas, quem sabe, negras, na elevação do preço do ouro e na busca de construção de uma de reserva monetária internacional chinesa.
A conversa mole da recessão que terminou
Em todo caso, os Estados Unidos continuam em recessão. Aliás, é bom discutir o que é uma recessão. Vamos combinar que diremos que uma economia está em recessão quando ela não cobre a necessidade de investimento capaz de incorporar, no processo de trabalho, os candidatos de uma nova geração de trabalhadores. Portanto, quando não oferece oportunidade de emprego para atender o crescimento anual de uma população de uma determinada sociedade. O leitor pense um pouco comigo. Nos Estados Unidos, temos 9,7% de taxa de desemprego, sem contar os novos pretendentes. Realmente, estes números sustentam a idéia de que a economia saiu da recessão? Obviamente, para começar a afastar-se dela a atividade econômica teria que estar recomeçando a recuperar o emprego daqueles quase 10% que falamos acima e ensaiando um projeto de empregar os novos advindos ao mercado de trabalho, no rumo do pleno emprego (Será que algum dia as finanças ouviram falar no assunto?). Naturalmente, estamos muito longe disso. E por quê? Primeiro, porque a tentativa de saída da economia é continuadamente um pensar a recuperação pelo lado das finanças. E para estas sim, pouco importa, imediatamente, se as pessoas estão empregadas ou não. A solução da economia para as instituições financeiras é provocar uma dinâmica de alavancagem, de crédito e de securitização que leve e retorne aos polpudos rendimentos nas suas aplicações. O emprego é um efeito derivado destas rendas. Pois parte delas, se tornando consumo, por derivação, quando a capacidade ociosa da produção vai se esgotando, se transformam em investimento. E só aí ocorre a recuperação do emprego, que é também ajudado pelo ressurgimento dos serviços ligados à esfera produtiva. O terceiro fato de crescimento do emprego surge de uma reativação do mercado externo. Não existe nesta visão das finanças nenhuma questão social do emprego. A finance led growth não é automática e nem promove a recuperação e criação de postos de trabalho como reativação da economia. Portanto, para quem pensa em termos de sociedade, não pode acreditar que qualquer movimento na área financeira se arma como recuperação dos negócios e do emprego. Para as finanças, este vem por último. (Isso sem falar, que até agora, o desastre financeiro dos compradores de casas não foi resolvido, sequer razoavelmente encaminhado pelo governo, pelo Estado, pela nação.) Assim, a pergunta que se faz é a seguinte: é viável pensar que a recessão acabou? Ou mesmo como nos diz Bernanke: há sinais de que ela está indo embora?
A morte é securitizada
E, efetivamente, as finanças, depois da folga, depois do tempo para recomposição, estão pondo, estão combinando ideologia, prática e teoria, novamente. E estão proclamando que a recessão terminou. E para justificar as suas palavras, elas já estão inventando novos produtos. Um exemplo magnífico é o novo produto da securitização das apólices de seguro de vida. Essa inovação financeira significa que você agora pode fazer um seguro sobre a sua existência, e com esta apólice transferí-la para uma instituição financeira, recebendo com uma taxa de desconto, o valor segurado. Essa operação dá o direito à referida entidade, quando você morrer, o recebimento do valor transacionado. E, portanto, em princípio, neste momento, valorizar a sua aplicação mediante uma renda financeira. Só que isso, dado o próprio sistema de auto-regulação e do processo de securitização, pode encadear uma série de papéis, inclusive “tranches” com ativos tóxicos, que vai nos levar, cedo ou tarde, de retorno aos caminhos já traçados pela financeirização da economia nos últimos tempos. E dizem que o raio não pode cair duas vezes no mesmo lugar... Alea jacta est. O ponto é o seguinte: o que vai fazer o Congresso? O que vai fazer o governo americano? Qual a posição do G-20? Pois, é óbvio, o raio não vai se despencar somente sobre nos Estados Unidos. No mínimo, também sobre a Inglaterra, pois como nos falava Peter Gowan, Wall Street não existe sem a sua valorosa companheira, o apêndice londrino da City.
Olhai os lírios da economia
O Lula agora está convocando os industriais a investirem, depois de ter criado condições para que alguns setores esvaíssem o seu estoque e o emprego não desabasse. Ele não deixa de ser o grande caixeiro viajante da sociedade brasileira, o nosso vendedor de flocos de algodão doce do parque de diversões. Este gesto demonstra várias coisas: em primeiro lugar, revela o limite do Estado numa sociedade neoliberal. O Brasil, que é um país de tradição estatal, o máximo que pôde fazer foi, sem dúvida, isentar de impostos o setor automobilístico, o setor de eletrodomésticos, o setor de material de construção civil, o setor de bens de capital. Ou seja, não pôde assumir um projeto de nação independente, nem fazer um programa de investimento que dirigisse o país para um certo destino. Tudo porque o clima do atual capitalismo é a ginástica complicada de passar os rendimentos financeiros para o consumo, e deste para o investimento. Desta forma, o gasto em consumo, se ocorre, passa por compras de bens duráveis e não-duráveis. E estes dispêndios só levarão ao desembolso de recursos em investimento, só e somente, após a ocupação da capacidade ociosa das empresas. Ou seja, é muita coisa de provável e de improvável. Tem que haver inovações financeiras. Elas tem que dar resultados monetários. E estes resultados não podem ser totalmente poupados ou investidos novamente no mercado financeiro. Eles têm que ser canalizados para o consumo. E as fábricas têm que ser usadas ao máximo. Ao mesmo tempo, os empresários têm que achar que a demanda vai continuar alta, pois se não, a resposta vai ser o aumento de preços, e jamais ao aumento do investimento. As empresas produtivas, por outro lado têm que ter acesso ao crédito, sobretudo de longo prazo. Elas têm que poder lançar papéis em bolsa. Tem que etc., etc. O processo do investimento, portanto, é uma longa trajetória de probabilidades e improbabilidades até chegar a se realizar. E os empresários, com toda razão, ficam temerosos e buscam ter certeza sobre uma possível demanda. E tudo se avulta no temor quando a economia mundial parece não se mexer. Só a China não faz esse trajeto, e por isso é mais rápida, porque como o capitalismo chinês é financeiro e estatal, o Estado pode promover um pacote de investimentos para tentar barrar o crescimento do desemprego, numa reconversão da estrutura da produção. Assim, diante dos embaraços a investir produtivamente, Lula está assumindo o papel de criador de ambiente para que a economia brasileira tente sair do chão. E ele está certo. (O que não exclui os rendimentos eleitorais para a candidatura da Dilma se isto ocorrer dando ao PIB o sopro indispensável.)
Empresários do mundo, investi!
Na época getulista, as escolas tinham pregado nas paredes a frase “Criança ama a terra em que nasceste”. Pois, parece que Lula e Obama e Sarkozy e Gordon Brown e todos os governantes do mundo estão operando o teatro da busca do investimento. Proust diria do investimento perdido. Porque, nas dobras dos eventos econômicos, se a economia não for regulada (é preciso escrever em caixa alta: “SE A ECONOMIA NÃO FOR REGULADA”), o dinheiro ou vai ficar trancado na preferência pela liquidez ou vai andar atrás de novos produtos financeiros para serem securitizados (ao estilo dessas apólices de seguro de vida). E só depois, e “muito depois” como dizia o samba. aparece “a estrela do mar”, isto é, o investimento. A pergunta fundamental fica cada vez mais clara: não se trata de uma decisão política da sociedade de repensar este destino de subordinar todo o movimento da economia à necessidade de dar aos bancos e ao setor financeiro o combustível e tempo para que eles deslanchem e descubram formas de ganho? Dito de um segundo modo: não é uma decisão política, que só após a resolução das finanças, a sociedade se preocupe com a produção e, sobretudo, com o emprego?
Na crise de 1930, Keynes escreveu um livro que se chamava “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”. Ou seja, o emprego vinha em primeiro lugar. E foi só por isso que a economia progrediu fantasticamente no pós-guerra. A economia se transformou, se sofisticou; e até se financeirizou mais tarde. Mas a lição do emprego foi, é e será de grande valia para a economia capitalista na emergência de uma crise. (Obviamente, os financistas mataram essa aula!) E claro, Obama tem razão: as finanças precisam ser funcionais para a nova economia que se desenha em cima de novas tecnologias para os múltiplos mercados e com novas energias. O mundo hoje, é sem dúvida, uma grande comédia, se não fosse uma grande pequena tragédia. Não temos mais Édipos, nem Hamlets, temos os bufos do sistema financeiro ao redor da tumba do desemprego, clamando por novas securitizações. E depois prendem apenas o Madoff. Mas, o que vale a prisão de um Madoff num mundo cheio de Madoffs? Que a sociedade sustente o apoio ao investimento!
segunda-feira, setembro 14, 2009
CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Navios fantasmas desafiam discurso da recuperação

O comércio internacional segue em marcha lenta, em que pese o discurso da recuperação ter tomado conta dos corações e mentes nesse final de semana. Uma imagem pode ser bastante reveladora. E ela mostra o exército de navios fantasmas abandonados no mar de Cingapura por falta do que transportar. Esse excedente na capacidade de transporte corrobora o que vem mostrando o índice de transporte de cargas chamdo Baltic Dry: uma queda de cerca de 40% no transporte de cargas após maio/junho DESSE ANO (2009). E isso no momento em que deveriam estar sendo transportadas as mercadorias para o próximo Natal. as encomendas foram bastante magras, pelo que se vê.
Link relacionado:
CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Protecionismo é a nova ordem
Estava demorando muito, mas, para quem acompanha esse blog, era evidente que, ao contrário do que publicamente advogavam, os estados Unidos não resistiriam à tentação do protecionismo. A o import uma tarifa de 35% em adição aos 4% vigentes para a importação de pneus de origem chinesa, o Presidente Obama deflagra, de modo mais explícito, uma guerra comercial que não ficará sem resposta de parte dos chineses.
Para os mais desavisados: o mundo relamente mudou após a crise financeira, agora estamos na fase de desorganização daquilo que era considerado intocável anteriormente. Mas, ainda não se vislumbra com clareza do que será feito o futuro do capitalismo.
Link relacionado:
sexta-feira, setembro 11, 2009
CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Crise da civilização
Mais uma notícia liga a crise financeira mundial a uma crise civilizacional. A nota mostra que o UBS vendia títulos (CDOs) que sabia de antemão serem lixo (eram qualificados internamente em e-mails como crap and vomit). Mas, o mais interessante é que os e-mails comprovam que a agência Moddy's participava ativamente do "esquema" de iludir os compradores ao combinar com o UBS o momento exato de iniciar o rebaixamento dos ratings dos papéis de modo a que o banco pudesse se livrar dos mesmos pelo máximo de valor...
Quem confiará em quem em Wall Street e quando, essa é a pergunta que temos de nos fazer.
Link relacionado:
quinta-feira, setembro 10, 2009
CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
Coluna das quintas
10 de setembro de 2009
BALAIO DE OFERTAS
(na volta das férias americanas)
Coluna das quintas
10 de setembro de 2009
BALAIO DE OFERTAS
(na volta das férias americanas)
Por Enéas de Souza
Hoje vamos comentar o trivial variado que está acontecendo na economia americana e mundial. O título da matéria poderia ser “Estratégias e Estruturas”. Pois é disso que trata nosso balaio. Mas, como é balaio – balaio de ofertas – os itens vão saindo a medida que vamos pegando-os. Eis as ofertas que olhamos para hoje.
Desorganização monetária mundial
O mercado monetário mundial está mostrando e revelando que o dólar continua a sua espiral descendente, implicando que a economia americana continua numa zona problemática. E que vivemos, nestes dias, um dos efeitos desta debilidade, sobretudo, olhando a figura do dólar na função de reserva de valor mundial. Naturalmente, que ele continua “prestigiado”, que ele continua a ser a moeda mais importante do planeta, embora a locomotiva da economia americana esteja sofrendo uma demora e uma parada da recessão. E, obviamente, os americanos não estão completamente inertes, nem deixam de buscar uma solução e uma retomada necessária. Só que, claro, tudo está incerto, e nenhuma direção parece definida. Ninguém, em verdade, sabe para onde vão os Estados Unidos. E o que ocorre na sua trajetória geral se reflete na oscilação da sua moeda. Ou seja, essa oscilação mostra a fraqueza atual de sustentação da economia americana, seja na sua face financeira, seja na sua face produtiva. E como uma moeda é um reflexo da economia, a metamorfose incerta de sua navegação, acaba por revelar uma igual incerteza na moeda. Por isso, não adianta o coro apressado de que “crise já passou” para que o dólar volte a ser forte - o próprio mercado está desmentindo.
(Ué! Alguma dúvida? alguma surpresa? Não é o mercado que regula a economia? Não há super-herói que segure uma moeda, só a fortaleza da atividade econômica.E a americana desabou.)
E Midas veio dar uma chegadinha no capitalismo financeiro?
Esta incerteza monetária, porque não dizer também fraqueza, se reflete e emerge em outros registros dos fenômenos econômicos. Mas, para a coluna de hoje, vamos destacar pelo menos dois deles: a expressiva elevação do preço do ouro e a tentativa da China de colocar títulos no mercado, expressos em renminbi. Ora, o primeiro aspecto é claro: o dólar se enfraquece na corrida monetária e o cavalo da velha relíquia aponta o seu rosto na curva. Ou seja, a preferência pelo ouro pode ser o indício de que a preferência pela liquidez em dólar comece a desconfiar da moeda na qual sempre se ancorou. Então, o velho equivalente geral das trocas, porto monetário de outros tempos, retorna como um antigo herói e como ator do teatro financeiro atual. Ele sabe que sua glória, em termos de financeirização, é passageira. Porém, se ela é efêmera, não deixa de ser inquietante, porque nada mais expressivo do que uma corrosão no valor da moeda americana. Com esse desgaste, anuncia-se que o mundo econômico tende a preferir não mais uma moeda financeira, mas, algo mais duradouro fisicamente. Cabe ver, então, este paradoxo: de um lado, assinala-se que o ouro poderá ocupar por um período limitado, ao menos, a posição de reserva de valor. (No momento, ocupa apenas a posição de substituto para os desesperados, para os especuladores ou para os precavidos). E, por outro lado, sendo uma mercadoria, que tendo a durabilidade como propriedade, é capaz de ocupar, no instante de forte crise do capitalismo das finanças - exatamente por essa característica - o posto de moeda universal. Embora apresente obstáculos, exibe uma desvantagem notória quanto ao aspecto de mobilidade e transporte. O paradoxo dessa situação alimenta uma idéia não bizarra, nem surpreendente, de que a crise monetária que se aventa indica que estamos num ponto de transição do sistema econômico, onde nada está claro, onde tudo está por se decidir. Assim, falam alto, nestes instantes, os especuladores, levando de arrasto os desesperados e os assustados precavidos. Claro, por trás, ao menos nesta hora, está a astúcia da mentalidade especulativa, sempre exacerbada no capitalismo. A casa de jogo da moeda americana continua freqüentada, mas tem gente que pensa que a economia do Tio Sam vai pegar fogo. E daí buscam fugir do dólar. E daí começam a apostar contra.
A China quer a desconstrução da universalidade do dólar?
Temos, então, os chineses. Eles são pelo dólar; é mais fácil; eles estão abarrotados desta moeda. Sempre pensaram que iam pegar os americanos pelos fundos, mas de repente perceberam que estes é quem tinham entrada pela porta trazeira da China. Mas, a China é um país onde tem Estado, onde os dirigentes estatais jogam a longo prazo. Constatado que o dólar está em trajetória de enfraquecimento e que o governo americano faz corpo mole (e que eles, os chineses, estão cheios de dólar, depois de terem manejado/manipulado a sua moeda todo o tempo), a China começou a pensar numa outra variante: projetar a possibilidade do Yuan ser uma moeda de transação internacional. Se querem ser uma economia sub-líder, na cola dos Estados Unidos, é fundamental ter uma moeda apreciada, negociada nos mercados, e não regulada pelo próprio Estado. Duas são, em verdade, as condições para uma moeda financeira no mundo capitalista contemporâneo. De um lado, para além das funções de meio de circulação e medida de valores, uma moeda deve cumprir a função de reserva valor. Para tal, ela requer que o Estado que a sustente, tenha que garantir o seu valor através de dois pontos econômicos: da fixação da taxa de juros pelo Estado e do lançamento de títulos assegurados pelo tesouro do país, negociados em mercado. É isto que define e garante o valor da moeda financeira de um país. E que no confronto com outras moedas possa ser uma moeda reserva de valor internacional. E é isto que China está começando a fazer. Tudo, no caso, fortalece a idéia de que o dólar possa inaugurar um segundo ato da crise americana. No roteiro dos acontecimentos pós-suprimes, pós embaraços dos ativos tóxicos, pós-emperramento da securitização - dadas as complicações atuais do mercado financeiro americano e internacional - ele se encontra na eminência de um perigo. E se acrescentarmos no horizonte de adversidades as perspectivaa de um aumento do déficit fiscal e da dívida americana, ele certamente entrará numa faixa crítica. A avaliação da China é que o dólar está se aproximando deste ponto dramático. E o gesto de busca da construção de uma moeda internacional, preparando inclusive o lançamento de títulos públicos chineses em renminbi, avizinha um período de desconstrução do dólar como moeda universal. Não há ainda uma inevitalidade, nem está assegurado que o rumo será nesta direção. Todavia a seta destes acontecimentos diz que no fim deste caminho, definidos pelo aumento do ouro, pel surgimento de uma moeda chinesa e por possíveis problemas fiscais dos Estados Unidos, será o surgimento de uma forte desordem aos mercados monetários internacionais , no estilo dos anos 70, quando dólar, o yen e o marco alemão disputavam a figura principal no palco das moedas de então.
O Estado e as partes desatadas
Falamos da desorganização monetária, mas a conclusão a que estou chegando é outra. Uma economia quando fica entravada em múltiplos aspectos envolvendo o sistema bancário, o sistema financeiro, o sistema produtivo, o sistema tecnológico, e sua conexão com o sistema financeiro internacional, acaba por encontrar distúrbios na área da moeda. Trata-se de um retrato que assegura que as articulações feitas na sua constituição anterior se tornaram cariadas, arruinadas, desmanteladas, e algumas delas, irreversivelmente destruídas. Ora, quando isso acontece, ou seja, quando algumas partes da economia que se ligavam com outras já não tem condições de serem reatadas, o que é que se pode pensar? É preciso projetar a renovação das estruturas passadas. Há que perseguir a reinscrição de novas relações na economia, e não apenas concertar ou alterar uma ou outra ligação. Na verdade, como dizia o mestre Ignácio Rangel quando uma economia desata e quando numa ponta fica uma parte cheia de recursos financeiros e no outro canto, na outra ponta, permanece uma área deserta, abandonada de recursos, o que é fundamental fazer é achar uma forma de reatar esses lados, essas áreas. E isso é um trabalho que passa pelo Estado. E convenhamos amigos, tal não está sendo possível por vários motivos. Dois exemplos: na área financeira americana houve grupos que ficaram com o capital valorizado e/ou doado pelo governo, e só querem largá-lo apenas com vantagens imensas, e, sobretudo, não querem – pior que tudo - transformar a forma como esses capitais fluíam e se robusteciam. É o caso de grupos como o Goldman Sachs, que se acham vencedores e mais espertos que os outros. E que incentivam as finanças e a diversos setores a resistirem a uma metamorfose. O segundo exemplo é a China, abarrotada de dólares, que está disposta a, feliz da vida, aceder à economia americana, Mas, os americanos não querem por razões estratégicas, por razões econômicas e por acharem, que no fim da cena vão dar uma capoeira ou aplicar um golpe de mágica nos mandarins. De qualquer modo, não há Estado, com influência prioritária das finanças, que tenha suficiente vontade política para unir os recursos de uma ponta com as áreas carentes de recursos da outra. Sob certo ponto de vista, a economia mundial só vai sair dessa situação, quando o(s) Estados puderem combinar as partes soltas das estruturas econômicas. E, até agora, só apenas a China, dos países desenvolvidos, está encaminhando as coisas para essa nova configuração.
Não haverá paz social
Dito isso, o que percebemos é uma necessidade estrutural e de lógica econômica que a formatação anterior vai ter que mudar de uma forma ou de outra. Quem sabe teremos toda uma nova economia globalizada. Gordon Brown vem até falando sobre isso, da sua forma diplomática, aliás. Mas, vejamos: o sistema bancário com esse permanente “credit crunch” não pode ficar com está. A securitização terá que encontrar mecanismos de controle para que funcione. A regulação que poderia controlar e vigiar a alavancagem, a dita securitização, os derivativos, as agências de ratings, a recuperação do crédito generalizado, terá que passar pelo pente fino do Congresso, cada vez mais conservador e não apenas por causa da representação republicana. Então, o que se percebe é que na boa vontade das finanças nada vai mudar. Um dos problemas graves que surgem no horizonte é esta terrível taxa de desemprego, que pode ultrapassar 10%, um pouco mais adiante. Ora não haverá paz social sem emprego e sem produção. E não havendo produção, nem emprego, é extremamente complicado que as finanças possam desenvolver e desembaraçar aqueles problemas citados acima. E o enroscar disso vai encrespar a sociedade, o congresso, o governo e as relações internacionais. E na proscênio de tudo isso, como a prima dona desta ópera, o primeiro personagem citado, o dólar.
A troca do modelo econômico
Desta maneira, se o que estamos descrevendo tiver algum parentesco com a realidade, a necessidade de transformação do antigo e atualmente esfarrapado modelo de acumulação financeira vai ter que acontecer. Mesmo que seja por outro ainda sob o comando das finanças. Mas, um modelo econômico não se troca simplesmente como se troca um pneu, uma lâmpada ou um sapato. A troca é um processo social dolorido, cheios de racionalidades e irracionalismos, de lutas entre os próprios grupos sociais vencedores, mas em desacordo. Nesse sentido, as finanças já começaram a sua hemorragia interna e os conflitos terão que aumentar severamente para que as forças que querem a mudança dêem o tom das políticas econômicas. Só que a sociedade americana – e não apenas o Congresso – está voltando de férias. E o resto do mundo, também está retornando das suas férias de verão ou de inverno, conforme o Norte ou o Sul. E, todos, com ânimo ou com raiva ou com esperanças, estão voltando para o combate. O planeta neste agosto e neste começo de setembro estava “too quite”. A sessão vai recomeçar. Já daqui a duas semanas teremos, em 24 de setembro, o G-20, em Pittsburgh, Kansas, o que é capaz de pôr mais gasolina, mais idéias e mais antagonismo no fogo da desordem financeira. Sem dúvida se estes encontros continuarem sem decisões e ações concretas. O jogo indica que novas emoções estarão em campo. E uma hipótese é que se dê mais um passo na desordem econômica geral. Pois, não é demais repetir: o mundo precisa de um novo sistema financeiro, requer um novo sistema produtivo, almeja uma nova interrelação econômica entre os países e tem uma necessidade profunda de uma nova ordem na proteção social da maioria dos habitantes do planeta. Já dissemos: toda mudança se faz com desordem, batalhas e recomposições. E o importante é saber que quando muda a fisionomia das estruturas econômicas e políticas, os lugares não permanecem os mesmos, nem as posições prosseguem idênticas. A China, por exemplo, continuará numa segunda posição, mas certamente o seu lugar será outro. E ela trabalha para isso. O Brasil, quem sabe, esteja melhor preparado para assumir estratégicamente o papel de um médium player com mais presença internacional e mais claro posicionamento na ordenação econômica do mundo. Temos que considerar igualmente os Estados Unidos. Certamente, o mundo não mudará sem eles, mas provavelmente não ocuparão mais o posto de país hegemônico e absoluto dos anos 90. Teremos um novo mundo . Só que não se sabe se será admirável, como pensavam, em outros tempos, os futuristas, poetas e artistas plásticos. Também não se sabe se nãp colheremos “O ovo da serpente”, que fez figura e história na imagem cinematográfica de Ingmar Bergman. Outros poderão pensar que o tema penderá para um melancólico olhar de despedida, como no “O Velho e o Mar”, de Ernest Hemingway. Seja como se queira, uma mudança está inserida desde logo nas adivinhações do tempo que está para chegar. A hora do parto ainda não está prevista. De qualquer maneira, o título do livro de Paul Auster “O Homem no Escuro” dá o tom do momento, o tom da mais incrível incerteza.
quinta-feira, setembro 03, 2009
CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
Coluna das quintas
3 de setembro de 2009
G-20:
LUTA DE TODOS
CONTRA TODOS?
Por Enéas de Souza
Há uma questão incômoda entre os governantes dos Estados que compõe o G-20. De um modo geral, na dimensão pública, o neoliberalismo, com seu escudeiro, a mídia, desempenha o seu lubrificado oratório: “A crise já passou”. Mas a platéia não se convence muito com esta música, e muito menos com os intérpretes. Ocorre que, ao mesmo tempo, para evitar o sentimento de uma realidade angustiante, fingem que acreditam. A mídia tem a estratégia e a estética do fingimento. Fingir para que as pessoas creiam. Fingir de que já estamos em recuperação. Tudo na conta - e pela ordem - do capital financeiro. Um abafa para que as populações continuem na inocência, simplesmente aguardando o retorno da felicidade. Felizmente, os governos, lá nos seus gabinetes, no secreto dos seus pensamentos, não chegam a entrar no engodo da propaganda generalizada e festiva. E de vez enquanto, deixam, eles também, o sorriso do lado externo, do lado de que tudo está bem, para pensarem formas de tentar buscar um caminho para a saída da crise. É nesta viagem que se embala Gordon Brown, na véspera do G-20.
Mr. Brown não usa o charuto de Churchill
Churchill era um primeiro ministro de grande imaginação e de grande coragem, dirigiu a Inglaterra em momentos graves da 2a Guerra Mundial. Ele se celebrizou por um famoso discurso que pedia aos ingleses: “Sangue, suor e lágrimas”. Não foi apenas este discurso que o fez notável. A sua celebridade foi múltipla. Notáveis foram o seu V da vitória, com dois dedos da mão direita, e o seu fumegante e fulgurante e mágico charuto, que lhe dava um tom de poder e de capacidade de liderança. Numa dimensão, este charuto significava o sentimento do dever cumprido, a pausa para o prazer, mas, noutra, o gozo pelo trabalho bem feito, a insistência da teimosia que vence. E daí vinha a imagem do gênio que requer o aplauso até mesmo do inimigo. Pois, há em cada primeiro ministro inglês uma persistente tentativa de ter esta genialidade de Churchill. Vem a galope a comichão que visa a glória que o capitalismo deu a um descendente nobre que o serviu com gala.
Depois, da 2ª Guerra Mundial, a diminuição da importância da Inglaterra e da libra inglesa, botou esta ambição cada vez longe de qualquer político inglês. Vide Blair, o puddle de Bush. Só que o fantasma de Churchill continua rondando. E, ultimamente, como o espectro do Pai que apareceu a Hamlet, o príncipe shakespeariano do “to be or not to be”, agora igualmente Churchill tem aparecido a Gordon Brown. O atual chefe inglês continua pensando em proporcionar ao mundo – e secundariamente para a Inglaterra, como gozam os conservadores – a solução desta crise financeira mundial em múltiplos dos seus quesitos. Foi assim, logo depois que Obama assumiu; é assim agora, nos prolegômenos da reunião de setembro do G-2O em Pittsburgh, Porém, a tarefa é gigantesca. Nem a Inglaterra tem mais o poder da primeira metade do século XX, nem Gordon Brown é Churchill. E, que eu saiba, nem fuma - o que nesses tempos de proibição de fumar seria quase imperdoável para um líder. Mas, mesmo não sendo Churchill, nem fumando, o atual primeiro ministro tenta exercer e dar um sentido glorioso a sua liderança. Pensa. E pensa sem cigarro e sem charuto. Pensa e propõe. E é assim que alguns políticos e economistas no cenário internacional perguntam: o que quer, de fato, Gordon Brown, o primeiro ministro britânico?
Uma Confissão que não é a de Santo Agostinho
Não é preciso fazer mistério, Gordon Brown propõe, pelo menos, três pontos para o G-20 de Pittsburgh. Mas quando faz as suas proposições, na verdade, ele confessa algumas coisas que valem a pena registrar. A primeira delas - e decisiva - é que a economia mundial não ultrapassou o caminho do desconforto e nem entrou na zona de recuperação. Contra essa análise, sugere e afirma que é necessária para a economia uma coordenação global, junto com um aperto fiscal generalizado, para que a ordem do mundo entre nos eixos. Busquemos, por nossa vez, agora, entrar um pouco na idéia de Gordon Brown. O que ele está nos dizendo é que as economias estão fazendo esforços, mas cada um para o seu lado. É como um corpo cuja cabeça se dirigisse para o sul, as pernas para o norte, os braços para leste e o tórax para oeste. Ou seja, há necessidade de uma integração, de uma coesão. E isso só virá através de uma coordenação que articule a totalidade econômica. Idéia generosa, mas que a primeira vista parece inviável. E por que? Porque não se enxerga no momento qualquer disposição dos americanos, por exemplo, de fazer um trabalho dentro de uma coordenação mais orquestrada. Os Estados Unidos, com a sua visão messiânica de si mesmo, não acreditam nesta combinação, salvo se ela for comandada por eles. E Gordon Brown sabe das duas coisas: que o ideal seria uma coordenação para um mundo globalizado e que os americanos não a aceitarão. Então, qual o objetivo dessa observação?
A finalidade da palavra de Gordon Brown está na segunda parte da proposta, o recado de política econômica: há que fazer um aperto fiscal. E é um recado, mais que direto, para os Estados Unidos. Pois, o que está ocorrendo é que os americanos vêm tomando decisões que visam resolver, custe o que custar, tanto a economia financeira quanto produtiva do seu próprio país, principalmente a primeira. Com um porem, no entanto: dada as complicações e os labirintos econômicos, do qual temos falado nesta coluna, as decisões dos governos de Bush e de Obama têm sido a de ampliar constantemente a dívida do Estado. E provocar, consequentemente, um progressivo déficit fiscal. Ora, o que Gordon Brown está chamando a atenção é que o que está em perigo, se este caminho continuar a ser trilhado largamente, é o dólar, a moeda de reserva mundial. Nessa direção, ele estará irremediavelmente ameaçado. Ou seja, onde Brown põe o dedo é no ponto delicado do problema. E diz: tudo bem se não quiserem uma coordenação – acho que devemos tentar – mas, ao menos, não entremos em desorganização fiscal, sobretudo os americanos, porque aí, sim, passaremos da Grande Recessão para uma Grande Depressão, que talvez possa ser maior do que aquela de 30.
We trust in God. Mas que Deus salve os bancos.
Gordon Brown foi ministro da Fazenda da Grã-Bretanha, logo conhece o valor da moeda. E, sobretudo, no caso do dólar, sabe daquela frasezinha escrita na cédula do dinheiro americano: We trust in God. Por isso, é preciso salvar o dólar. Mas, a salvação dele não é apenas um requerimento do Estado americano, dos capitais e do povo daquela nação. Nasce também de uma exigência coletiva mundial. A dificuldade de sustentar o dólar, no caso de uma dívida excessiva, talvez tenha que passar por uma solução divina, aquela invocada no dinheiro americano. We trust in God, tal é o encalhamento crítico dos bancos de Tio Sam nas profundezas dos ativos tóxicos. Sim, porque até agora nenhuma idéia de política econômica conseguiu sequer resolver o credit crunch entre os bancos. De onde se conclui que de fato o crédito se tornou uma mercadoria em escassez. O velho Keynes continua maltratando: preferência pela liquidez. Já que a nacionalização e a estatização são ideologicamente quase impossíveis no neoliberalismo, talvez só mesmo Deus poderia mesmo resolver a questão. Mas, enquanto ele não desce ao terreno dos mortais, os nossos financistas trabalham pensando o mesmo: tudo será resolvido se o sistema financeiro continuar sendo desregulado.
Naturalmente, que este é um desejo bem ao gosto das Finanças. Mas, o próprio Gordon Brown diz que as coisas não voltarão ao que eram antes. Logo, se as Finanças se mantiverem no delírio de um apetite de risco interminável, são os dirigentes estatais que tem que solucionar a confusão na área. Mas, o problema é que eles pensam apenas um pouquinho adiante dos bancos. Vejamos, Bernanke, o presidente do FED, o que ele diz. Já anunciou, faz algum tempo, que talvez tenha que pôr mais em jogo 1 trilhão para pescar hipotecas desqualificadas e mais um tri para diversos problemas do sistema. Isso significa que o FED, que tinha 900 bi de capital no início da crise, para dar um novo passo visando resolver a problemática, pode chegar a 4 tri. É isso aí mesmo: estou achando que o Gordon Brown tem razão em falar sobre o aperto fiscal. Mas, Bernanke também, porque para salvar as finanças tem que pôr mais dinheiro. Mas, não terão razão os chineses no seu temor que os americanos possam não sustentar o dólar? E não terão razão também aquêles que acham que a nacionalização, para os mais tímidos, e a estatização, para os mais exagerados, são as únicas e verdadeiras soluções possíveis?
(Ah! o velho fantasma do socialismo impede aos americanos e aos financistas de pensarem nestas hipóteses. Como vêem, os reflexivos leitores, há muitos fantasmas nesta história: Hamlet, Churchill e o socialismo,)
Por andam nossas economias?
Mais do que ninguém, Gordon Brown sabe que não existirá um avanço na globalização sem uma reforma da estrutura na articulação das economias vigentes. Porque, quando diz que o mundo não será como antes, está chamando a atenção para uma alteração indispensável. Exatamente por não querer que as economias contemporâneas sejam como o personagem de Kafka, Gregor Samsa de “A Metamofose”, que de homem virou inseto, ele aspira que haja um adequado “balanceamento” entre as economias ricas e as economias emergentes. Gordon Brown sabe que este mundo terá que se transformar, terá que mudar muito e profundamente. E que vai levar tempo. E que no fundo, quando pensa sobre isso, volta ao seu primeiro ponto, a necessidade básica de uma coordenação. Porque há tanta coisa a resolver: uma nova articulação Estados Unidos e China, um novo sistema financeiro, uma nova estrutura produtiva, uma nova estrutura energética, uma nova divisão internacional do trabalho, etc., que seria preciso um planejamento adequado para que esses elementos se conectassem. Agora estamos dando os nomes às coisas, já que o nome técnico para coordenação é sem dúvida planejamento.
Ou seja, a gastronomia econômica precisa de uma transformação radical. Novos pratos, novas combinações, novas mesas, novas toalhas, novos enfeites na organização do restaurante mundial. É por isso que Gordon Brown está dizendo que nada vai ficar como antes. Vamos ter que cuidar dessa arquitetura tanto quanto antes, e o G-20, a começar no dia 24 de setembro, é um instrumento adequado para tal. Mas, a palavra de Gordon Brown não é mais aquela palavra do Leão Inglês, e nem o planejamento é uma coisa que o capitalismo neoliberal aceitaria. Todavia, mesmo como chefe de uma economia subsidiária à americana, ele sabe para onde vão os ventos, seja porque há uma aliança Wall Street/London, seja porque a sua economia inglesa está a perigo. Mas, Gordon Brown sabe evidentemente que o Leão já não ruge mais como há muito tempo, sabe apenas que agora ele assopra para aliviar a queimadura, para ajudar a evitar que o mundo do capital caia numa profunda depressão. Cabe então refletir sobre este sussurro britânico, sobre esta voz que alerta para as toxinas da economia vigente. Pittsburgh vai ser o lugar das falas e haverá um tempo para uma discussão e para a negociação. Mas, como sempre emergem perguntas. A primeira é fatal: os capitais e os Estados ouvirão o que vai ser dito? E logo em seguida, vem uma segunda: já não estamos nos tempos de Hobbes, onde ocorre a luta de todos contra todos?
Coluna das quintas
3 de setembro de 2009
G-20:
LUTA DE TODOS
CONTRA TODOS?
Por Enéas de Souza
Há uma questão incômoda entre os governantes dos Estados que compõe o G-20. De um modo geral, na dimensão pública, o neoliberalismo, com seu escudeiro, a mídia, desempenha o seu lubrificado oratório: “A crise já passou”. Mas a platéia não se convence muito com esta música, e muito menos com os intérpretes. Ocorre que, ao mesmo tempo, para evitar o sentimento de uma realidade angustiante, fingem que acreditam. A mídia tem a estratégia e a estética do fingimento. Fingir para que as pessoas creiam. Fingir de que já estamos em recuperação. Tudo na conta - e pela ordem - do capital financeiro. Um abafa para que as populações continuem na inocência, simplesmente aguardando o retorno da felicidade. Felizmente, os governos, lá nos seus gabinetes, no secreto dos seus pensamentos, não chegam a entrar no engodo da propaganda generalizada e festiva. E de vez enquanto, deixam, eles também, o sorriso do lado externo, do lado de que tudo está bem, para pensarem formas de tentar buscar um caminho para a saída da crise. É nesta viagem que se embala Gordon Brown, na véspera do G-20.
Mr. Brown não usa o charuto de Churchill
Churchill era um primeiro ministro de grande imaginação e de grande coragem, dirigiu a Inglaterra em momentos graves da 2a Guerra Mundial. Ele se celebrizou por um famoso discurso que pedia aos ingleses: “Sangue, suor e lágrimas”. Não foi apenas este discurso que o fez notável. A sua celebridade foi múltipla. Notáveis foram o seu V da vitória, com dois dedos da mão direita, e o seu fumegante e fulgurante e mágico charuto, que lhe dava um tom de poder e de capacidade de liderança. Numa dimensão, este charuto significava o sentimento do dever cumprido, a pausa para o prazer, mas, noutra, o gozo pelo trabalho bem feito, a insistência da teimosia que vence. E daí vinha a imagem do gênio que requer o aplauso até mesmo do inimigo. Pois, há em cada primeiro ministro inglês uma persistente tentativa de ter esta genialidade de Churchill. Vem a galope a comichão que visa a glória que o capitalismo deu a um descendente nobre que o serviu com gala.
Depois, da 2ª Guerra Mundial, a diminuição da importância da Inglaterra e da libra inglesa, botou esta ambição cada vez longe de qualquer político inglês. Vide Blair, o puddle de Bush. Só que o fantasma de Churchill continua rondando. E, ultimamente, como o espectro do Pai que apareceu a Hamlet, o príncipe shakespeariano do “to be or not to be”, agora igualmente Churchill tem aparecido a Gordon Brown. O atual chefe inglês continua pensando em proporcionar ao mundo – e secundariamente para a Inglaterra, como gozam os conservadores – a solução desta crise financeira mundial em múltiplos dos seus quesitos. Foi assim, logo depois que Obama assumiu; é assim agora, nos prolegômenos da reunião de setembro do G-2O em Pittsburgh, Porém, a tarefa é gigantesca. Nem a Inglaterra tem mais o poder da primeira metade do século XX, nem Gordon Brown é Churchill. E, que eu saiba, nem fuma - o que nesses tempos de proibição de fumar seria quase imperdoável para um líder. Mas, mesmo não sendo Churchill, nem fumando, o atual primeiro ministro tenta exercer e dar um sentido glorioso a sua liderança. Pensa. E pensa sem cigarro e sem charuto. Pensa e propõe. E é assim que alguns políticos e economistas no cenário internacional perguntam: o que quer, de fato, Gordon Brown, o primeiro ministro britânico?
Uma Confissão que não é a de Santo Agostinho
Não é preciso fazer mistério, Gordon Brown propõe, pelo menos, três pontos para o G-20 de Pittsburgh. Mas quando faz as suas proposições, na verdade, ele confessa algumas coisas que valem a pena registrar. A primeira delas - e decisiva - é que a economia mundial não ultrapassou o caminho do desconforto e nem entrou na zona de recuperação. Contra essa análise, sugere e afirma que é necessária para a economia uma coordenação global, junto com um aperto fiscal generalizado, para que a ordem do mundo entre nos eixos. Busquemos, por nossa vez, agora, entrar um pouco na idéia de Gordon Brown. O que ele está nos dizendo é que as economias estão fazendo esforços, mas cada um para o seu lado. É como um corpo cuja cabeça se dirigisse para o sul, as pernas para o norte, os braços para leste e o tórax para oeste. Ou seja, há necessidade de uma integração, de uma coesão. E isso só virá através de uma coordenação que articule a totalidade econômica. Idéia generosa, mas que a primeira vista parece inviável. E por que? Porque não se enxerga no momento qualquer disposição dos americanos, por exemplo, de fazer um trabalho dentro de uma coordenação mais orquestrada. Os Estados Unidos, com a sua visão messiânica de si mesmo, não acreditam nesta combinação, salvo se ela for comandada por eles. E Gordon Brown sabe das duas coisas: que o ideal seria uma coordenação para um mundo globalizado e que os americanos não a aceitarão. Então, qual o objetivo dessa observação?
A finalidade da palavra de Gordon Brown está na segunda parte da proposta, o recado de política econômica: há que fazer um aperto fiscal. E é um recado, mais que direto, para os Estados Unidos. Pois, o que está ocorrendo é que os americanos vêm tomando decisões que visam resolver, custe o que custar, tanto a economia financeira quanto produtiva do seu próprio país, principalmente a primeira. Com um porem, no entanto: dada as complicações e os labirintos econômicos, do qual temos falado nesta coluna, as decisões dos governos de Bush e de Obama têm sido a de ampliar constantemente a dívida do Estado. E provocar, consequentemente, um progressivo déficit fiscal. Ora, o que Gordon Brown está chamando a atenção é que o que está em perigo, se este caminho continuar a ser trilhado largamente, é o dólar, a moeda de reserva mundial. Nessa direção, ele estará irremediavelmente ameaçado. Ou seja, onde Brown põe o dedo é no ponto delicado do problema. E diz: tudo bem se não quiserem uma coordenação – acho que devemos tentar – mas, ao menos, não entremos em desorganização fiscal, sobretudo os americanos, porque aí, sim, passaremos da Grande Recessão para uma Grande Depressão, que talvez possa ser maior do que aquela de 30.
We trust in God. Mas que Deus salve os bancos.
Gordon Brown foi ministro da Fazenda da Grã-Bretanha, logo conhece o valor da moeda. E, sobretudo, no caso do dólar, sabe daquela frasezinha escrita na cédula do dinheiro americano: We trust in God. Por isso, é preciso salvar o dólar. Mas, a salvação dele não é apenas um requerimento do Estado americano, dos capitais e do povo daquela nação. Nasce também de uma exigência coletiva mundial. A dificuldade de sustentar o dólar, no caso de uma dívida excessiva, talvez tenha que passar por uma solução divina, aquela invocada no dinheiro americano. We trust in God, tal é o encalhamento crítico dos bancos de Tio Sam nas profundezas dos ativos tóxicos. Sim, porque até agora nenhuma idéia de política econômica conseguiu sequer resolver o credit crunch entre os bancos. De onde se conclui que de fato o crédito se tornou uma mercadoria em escassez. O velho Keynes continua maltratando: preferência pela liquidez. Já que a nacionalização e a estatização são ideologicamente quase impossíveis no neoliberalismo, talvez só mesmo Deus poderia mesmo resolver a questão. Mas, enquanto ele não desce ao terreno dos mortais, os nossos financistas trabalham pensando o mesmo: tudo será resolvido se o sistema financeiro continuar sendo desregulado.
Naturalmente, que este é um desejo bem ao gosto das Finanças. Mas, o próprio Gordon Brown diz que as coisas não voltarão ao que eram antes. Logo, se as Finanças se mantiverem no delírio de um apetite de risco interminável, são os dirigentes estatais que tem que solucionar a confusão na área. Mas, o problema é que eles pensam apenas um pouquinho adiante dos bancos. Vejamos, Bernanke, o presidente do FED, o que ele diz. Já anunciou, faz algum tempo, que talvez tenha que pôr mais em jogo 1 trilhão para pescar hipotecas desqualificadas e mais um tri para diversos problemas do sistema. Isso significa que o FED, que tinha 900 bi de capital no início da crise, para dar um novo passo visando resolver a problemática, pode chegar a 4 tri. É isso aí mesmo: estou achando que o Gordon Brown tem razão em falar sobre o aperto fiscal. Mas, Bernanke também, porque para salvar as finanças tem que pôr mais dinheiro. Mas, não terão razão os chineses no seu temor que os americanos possam não sustentar o dólar? E não terão razão também aquêles que acham que a nacionalização, para os mais tímidos, e a estatização, para os mais exagerados, são as únicas e verdadeiras soluções possíveis?
(Ah! o velho fantasma do socialismo impede aos americanos e aos financistas de pensarem nestas hipóteses. Como vêem, os reflexivos leitores, há muitos fantasmas nesta história: Hamlet, Churchill e o socialismo,)
Por andam nossas economias?
Mais do que ninguém, Gordon Brown sabe que não existirá um avanço na globalização sem uma reforma da estrutura na articulação das economias vigentes. Porque, quando diz que o mundo não será como antes, está chamando a atenção para uma alteração indispensável. Exatamente por não querer que as economias contemporâneas sejam como o personagem de Kafka, Gregor Samsa de “A Metamofose”, que de homem virou inseto, ele aspira que haja um adequado “balanceamento” entre as economias ricas e as economias emergentes. Gordon Brown sabe que este mundo terá que se transformar, terá que mudar muito e profundamente. E que vai levar tempo. E que no fundo, quando pensa sobre isso, volta ao seu primeiro ponto, a necessidade básica de uma coordenação. Porque há tanta coisa a resolver: uma nova articulação Estados Unidos e China, um novo sistema financeiro, uma nova estrutura produtiva, uma nova estrutura energética, uma nova divisão internacional do trabalho, etc., que seria preciso um planejamento adequado para que esses elementos se conectassem. Agora estamos dando os nomes às coisas, já que o nome técnico para coordenação é sem dúvida planejamento.
Ou seja, a gastronomia econômica precisa de uma transformação radical. Novos pratos, novas combinações, novas mesas, novas toalhas, novos enfeites na organização do restaurante mundial. É por isso que Gordon Brown está dizendo que nada vai ficar como antes. Vamos ter que cuidar dessa arquitetura tanto quanto antes, e o G-20, a começar no dia 24 de setembro, é um instrumento adequado para tal. Mas, a palavra de Gordon Brown não é mais aquela palavra do Leão Inglês, e nem o planejamento é uma coisa que o capitalismo neoliberal aceitaria. Todavia, mesmo como chefe de uma economia subsidiária à americana, ele sabe para onde vão os ventos, seja porque há uma aliança Wall Street/London, seja porque a sua economia inglesa está a perigo. Mas, Gordon Brown sabe evidentemente que o Leão já não ruge mais como há muito tempo, sabe apenas que agora ele assopra para aliviar a queimadura, para ajudar a evitar que o mundo do capital caia numa profunda depressão. Cabe então refletir sobre este sussurro britânico, sobre esta voz que alerta para as toxinas da economia vigente. Pittsburgh vai ser o lugar das falas e haverá um tempo para uma discussão e para a negociação. Mas, como sempre emergem perguntas. A primeira é fatal: os capitais e os Estados ouvirão o que vai ser dito? E logo em seguida, vem uma segunda: já não estamos nos tempos de Hobbes, onde ocorre a luta de todos contra todos?
quinta-feira, agosto 27, 2009
CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
Coluna das quintas
27 de agosto de 2009
O BRASIL DAS INCERTEZAS
Por Enéas de Souza
A incerteza que é certeza
As economias de todo o mundo se encolheram devido às quedas diferenciadas da economia americana e da economia chinesa. Estas causaram problemas e contrações profundos no mercado internacional. O fato é que o comércio mundial se retraiu em 11%. Foi um tombo feio; tombo complicado, sobretudo, para economias do tipo Brasil. É que elas também sofrem, o caso brasileiro é evidente, com as oscilações das exportações graças ao curso especulativo do petróleo e das commodities. Em verdade. o resultado mais geral foi que o Brasil, flor despetalada, teve uma retração muito valente no quesito do comércio externo. O país continua - ainda bem! - mantendo o saldo positivo da balança comercial; mas, o volume global caiu significativamente.
Há que considerar que até o que alguns consideravam um ponto positivo, a importação de bens de capital, dado o recuo da economia planetária e nacional, agora está revertendo. E temos uma paralisia nesta importação, que numa economia mundializada seria essencial para a renovação da nossa estrutura produtiva. Em resumo: a idéia “vamos comprar mais máquinas para enfrentar a nova competição que está em andamento”, não está funcionando como chegou a acontecer nos últimos tempos. Macroeconomicamente, portanto, fica notória a queda de um dos pontos da demanda, ou seja, temos o comércio externo pendendo para baixo. E ainda por cima, não está se avançando na estratégia de resolver o investimento pela compra de equipamentos no exterior. Destas observações, percebe-se que o Brasil está surfando em águas adversas, só que a maior lentidão das relações com o resto do mundo está sendo controlada para que o saldo comercial não venha causar danos às contas externas.
Então, de um lado, tudo parece indefinido no mercado internacional; e de outro, não estamos respondendo ativamente para a melhoria do nosso próprio comércio externo. Estamos respondendo quando muito controladamente. O que já é um bom sinal. No entanto, existe para alguns, uma expectativa aleatória, mas animadora. Ela vem de um fator exógeno, vem de um eventual retorno da especulação. Porém, especulação é especulação, ou seja, especulação é algo que não depende da nossa vontade. E, portanto, só novas aventuras intensas do setor financeiro na busca da variação dos preços do petróleo ou das commodities agrícolas ou industriais podem afetar entusiasmadamente ao Brasil. Caso contrário é isso: o que é certo no país do futebol é que tudo está incerto.
A impossibilidade da política desenvolvimentista
O Brasil teria uma alternativa estratégica, a alternativa dos anos 30, que seria pôr o bloco na rua, pôr o time em campo. Mas, estamos numa outra época. O Estado de fato retomou a iniciativa. Só que há uma limitação extremamente aguda nessa oportunidade. De um lado, ele não tem recursos disponíveis em escala fundamental e apreciável. E a hipótese de aumentar impostos, que seria uma opção para quem teria o desejo de mudar a sua situação na economia internacional, trata-se de uma medida inviável no atual presente histórico. E, no ambiente neoliberal ainda vigente, o Estado, ao menos até o momento, não pode usar a inflação como um elemento forte de financiamento de um projeto desenvolvimentista. Teríamos problemas de credibilidade da nação como “Estado responsável” no campo internacional, e problemas de aceitação da alteração da estabilidade de preços como “um valor social”, pela sociedade brasileira no campo interno. Então, a saída política encontrada pelo governo foi a isenção temporária de impostos para o setor automobilístico e para o setor de eletro-domésticos.
Mas, a isenção de impostos é como dar igualmente aos os banqueiros e aos industriais e aos comerciantes um argumento, igualmente caro à classe média, contra o próprio governo: “o que a economia precisa é, unicamente, baixar impostos”. Tudo que o capital pede a Deus. E agora ao governo. Pois, o caso contrário, o seu aumento, teria uma oposição em forma de complô dos setores empresários, que só admitiriam o fato, se a elevação viesse a ter um fim definido, o encaminhamento dos recursos, sem nenhuma cláusula econômica, para eles. Já a classe média não admitiria o fato em hipótese nenhuma. E mais: ela se sentiria escorchada, esfolada e escamada como um peixe. Porque veria, com sua visão de curtíssimo prazo, diminuir os seus projetos de propriedades e de consumo. Desde logo, então, pede, com gritos e sem sussurros, o mesmo que o capital. Já para a hipótese de isentar momentaneamente os tributos, a resposta, de todos estes setores, é única: ótimo. E logo, incontinenti, saem à mídia com o discurso de interesse mais imediato ainda: “Isso prova. que é possível ao governo viver com menos imposto”.
Estas considerações servem para anotar que há uma luta destas classes contra a presença do Estado na economia, contra qualquer estratégia que envolva uma renovação da geopolítica do Brasil, sobretudo com aumento de impostos, Ocultam-se também uma luta contra a burocracia desenvolvimentista e um confronto contra, no caso do governo Lula, os recursos que este governo propicia à população deserdada, desde a “Bolsa Família” até o “Luz Para Todos”. Desta forma, só vale a isenção. E dada a indispensável e inevitável presença do Estado, a posição da linha neoliberal continua a se concentrar na batalha pelo seguinte ponto: o Estado deve atuar, em primeiro lugar, em favor dos capitais e, em segundo lugar, dos consumidores. A necessidade de um retorno mais amplo do setor estatal, seja em função de uma geopolítica com intensa força brasileira, seja de uma mudança desenvolvimentista na economia nacional, tem um apoio vacilante, sem uma decisão mais clara de muitos grupos sociais e políticos. As frações líderes da sociedade continuam se mantendo na posição irracional de sustentar, custe o que custar, um modelo de acumulação financeira. Principalmente, porque os bancos brasileiros não foram afetados decisivamente na atual crise financeira mundial.
Coluna das quintas
27 de agosto de 2009
O BRASIL DAS INCERTEZAS
Por Enéas de Souza
A incerteza que é certeza
As economias de todo o mundo se encolheram devido às quedas diferenciadas da economia americana e da economia chinesa. Estas causaram problemas e contrações profundos no mercado internacional. O fato é que o comércio mundial se retraiu em 11%. Foi um tombo feio; tombo complicado, sobretudo, para economias do tipo Brasil. É que elas também sofrem, o caso brasileiro é evidente, com as oscilações das exportações graças ao curso especulativo do petróleo e das commodities. Em verdade. o resultado mais geral foi que o Brasil, flor despetalada, teve uma retração muito valente no quesito do comércio externo. O país continua - ainda bem! - mantendo o saldo positivo da balança comercial; mas, o volume global caiu significativamente.
Há que considerar que até o que alguns consideravam um ponto positivo, a importação de bens de capital, dado o recuo da economia planetária e nacional, agora está revertendo. E temos uma paralisia nesta importação, que numa economia mundializada seria essencial para a renovação da nossa estrutura produtiva. Em resumo: a idéia “vamos comprar mais máquinas para enfrentar a nova competição que está em andamento”, não está funcionando como chegou a acontecer nos últimos tempos. Macroeconomicamente, portanto, fica notória a queda de um dos pontos da demanda, ou seja, temos o comércio externo pendendo para baixo. E ainda por cima, não está se avançando na estratégia de resolver o investimento pela compra de equipamentos no exterior. Destas observações, percebe-se que o Brasil está surfando em águas adversas, só que a maior lentidão das relações com o resto do mundo está sendo controlada para que o saldo comercial não venha causar danos às contas externas.
Então, de um lado, tudo parece indefinido no mercado internacional; e de outro, não estamos respondendo ativamente para a melhoria do nosso próprio comércio externo. Estamos respondendo quando muito controladamente. O que já é um bom sinal. No entanto, existe para alguns, uma expectativa aleatória, mas animadora. Ela vem de um fator exógeno, vem de um eventual retorno da especulação. Porém, especulação é especulação, ou seja, especulação é algo que não depende da nossa vontade. E, portanto, só novas aventuras intensas do setor financeiro na busca da variação dos preços do petróleo ou das commodities agrícolas ou industriais podem afetar entusiasmadamente ao Brasil. Caso contrário é isso: o que é certo no país do futebol é que tudo está incerto.
A impossibilidade da política desenvolvimentista
O Brasil teria uma alternativa estratégica, a alternativa dos anos 30, que seria pôr o bloco na rua, pôr o time em campo. Mas, estamos numa outra época. O Estado de fato retomou a iniciativa. Só que há uma limitação extremamente aguda nessa oportunidade. De um lado, ele não tem recursos disponíveis em escala fundamental e apreciável. E a hipótese de aumentar impostos, que seria uma opção para quem teria o desejo de mudar a sua situação na economia internacional, trata-se de uma medida inviável no atual presente histórico. E, no ambiente neoliberal ainda vigente, o Estado, ao menos até o momento, não pode usar a inflação como um elemento forte de financiamento de um projeto desenvolvimentista. Teríamos problemas de credibilidade da nação como “Estado responsável” no campo internacional, e problemas de aceitação da alteração da estabilidade de preços como “um valor social”, pela sociedade brasileira no campo interno. Então, a saída política encontrada pelo governo foi a isenção temporária de impostos para o setor automobilístico e para o setor de eletro-domésticos.
Mas, a isenção de impostos é como dar igualmente aos os banqueiros e aos industriais e aos comerciantes um argumento, igualmente caro à classe média, contra o próprio governo: “o que a economia precisa é, unicamente, baixar impostos”. Tudo que o capital pede a Deus. E agora ao governo. Pois, o caso contrário, o seu aumento, teria uma oposição em forma de complô dos setores empresários, que só admitiriam o fato, se a elevação viesse a ter um fim definido, o encaminhamento dos recursos, sem nenhuma cláusula econômica, para eles. Já a classe média não admitiria o fato em hipótese nenhuma. E mais: ela se sentiria escorchada, esfolada e escamada como um peixe. Porque veria, com sua visão de curtíssimo prazo, diminuir os seus projetos de propriedades e de consumo. Desde logo, então, pede, com gritos e sem sussurros, o mesmo que o capital. Já para a hipótese de isentar momentaneamente os tributos, a resposta, de todos estes setores, é única: ótimo. E logo, incontinenti, saem à mídia com o discurso de interesse mais imediato ainda: “Isso prova. que é possível ao governo viver com menos imposto”.
Estas considerações servem para anotar que há uma luta destas classes contra a presença do Estado na economia, contra qualquer estratégia que envolva uma renovação da geopolítica do Brasil, sobretudo com aumento de impostos, Ocultam-se também uma luta contra a burocracia desenvolvimentista e um confronto contra, no caso do governo Lula, os recursos que este governo propicia à população deserdada, desde a “Bolsa Família” até o “Luz Para Todos”. Desta forma, só vale a isenção. E dada a indispensável e inevitável presença do Estado, a posição da linha neoliberal continua a se concentrar na batalha pelo seguinte ponto: o Estado deve atuar, em primeiro lugar, em favor dos capitais e, em segundo lugar, dos consumidores. A necessidade de um retorno mais amplo do setor estatal, seja em função de uma geopolítica com intensa força brasileira, seja de uma mudança desenvolvimentista na economia nacional, tem um apoio vacilante, sem uma decisão mais clara de muitos grupos sociais e políticos. As frações líderes da sociedade continuam se mantendo na posição irracional de sustentar, custe o que custar, um modelo de acumulação financeira. Principalmente, porque os bancos brasileiros não foram afetados decisivamente na atual crise financeira mundial.
Desta forma, naufragaram até o momento as possibilidades do Estado optar por uma postura desenvolvimentista completa e integral. O que conseguimos, numa saída inteligente, mas não vitoriosa totalmente, foi a isenção de impostos para setores selecionados. Isso permitiu deter a queda destas áreas, bem como segurar o emprego. Havia uma expectativa profunda que a manutenção da demanda de consumo levasse o setor privado ao investimento. E havia também a expectativa de que nesse processo os bancos privados pusessem à disposição da sociedade uma maior concessão de crédito. Ledo e vivo engano. O governo vai ter que usar o crédito público para manter ou tentar manter a demanda nos setores habitacionais e automobilístico. E a conseqüência mais óbvia; sem um projeto de desenvolvimento liderado pelo Estado, o investimento entra também em queda. Portanto o único setor da demanda que resistiu até agora foi o do consumo. Mas, a pergunta escaldante é: até quando?
Estratégia brasileira: recuperação e horizontes
A estratégia do governo brasileiro está bem clara, mas revela-se limitada. Seu objetivo é tentar forçar via o Estado e via a iniciativa privada, a retomada do investimento. Há uma nítida clareza nos economistas desenvolvimentistas do governo que a saída definitiva é só esta. Mas, a indagação se avoluma e é robusta e tremendamente desafiante: como? Pois, se a inflação está vedada - ao menos no atual quadro - e a dimensão proposta para um investimento estatal é insuficiente, o Brasil se afigura como um país cercado de incertezas, dependente da especulação no sentido mais imediato, da recuperação chinesa num tempo um pouco mais largo e da recuperação americana no longo prazo. Muitas iniciativas de investimento do governo com o capital privado têm encontrado reservas e combates dentro do próprio capital privado. Porque razão? Mesmo que o governo tenha um projeto de desenvolvimento para o Brasil, é natural esta resistência. Tudo porque há uma preferência e uma seleção de setores empresariais, o que influi na competição capitalista, que é tudo que esta visão neoliberal detesta, mas que os capitais evetualmente selecionados aceitam. Ora, isso é desesperadamente forte para outros setores. E como os excluídos só enxergam a curta visão, o combate fica como o mar, todo revolto.
Então, muitas vezes, e tem acontecido no PAC, algumas opções de investimento viram batalhas jurídicas entre os competidores ou mesmo de alguns capitais contra o governo. Desta forma, o Brasil, na questão do investimento, está fazendo algo, mas o seu espectro é bastante restrito. Em primeiro lugar, o país está tentando organizar uma frente de expansão, mas como o Estado não tem a autonomia que deveria ter num projeto de desenvolvimentista, a recuperação está sem um horizonte definido. Em segundo lugar, por causa do fraco investimento internacional em função da crise da globalização, o que mostra a falência da estratégia do governo FHC, quando decidiu que o investimento no Brasil seria puxado pelo capital estrangeiro. (Problema que o governo Lula não conseguiu abortar na devida dimensão.) E, em terceiro lugar, porque a incerteza da economia mundial e brasileira afeta o setor privado nas suas decisões de investir, já que não pode sair de peito aberto numa situação crítica como a que estamos vivendo.
Estratégia brasileira: recuperação e horizontes
A estratégia do governo brasileiro está bem clara, mas revela-se limitada. Seu objetivo é tentar forçar via o Estado e via a iniciativa privada, a retomada do investimento. Há uma nítida clareza nos economistas desenvolvimentistas do governo que a saída definitiva é só esta. Mas, a indagação se avoluma e é robusta e tremendamente desafiante: como? Pois, se a inflação está vedada - ao menos no atual quadro - e a dimensão proposta para um investimento estatal é insuficiente, o Brasil se afigura como um país cercado de incertezas, dependente da especulação no sentido mais imediato, da recuperação chinesa num tempo um pouco mais largo e da recuperação americana no longo prazo. Muitas iniciativas de investimento do governo com o capital privado têm encontrado reservas e combates dentro do próprio capital privado. Porque razão? Mesmo que o governo tenha um projeto de desenvolvimento para o Brasil, é natural esta resistência. Tudo porque há uma preferência e uma seleção de setores empresariais, o que influi na competição capitalista, que é tudo que esta visão neoliberal detesta, mas que os capitais evetualmente selecionados aceitam. Ora, isso é desesperadamente forte para outros setores. E como os excluídos só enxergam a curta visão, o combate fica como o mar, todo revolto.
Então, muitas vezes, e tem acontecido no PAC, algumas opções de investimento viram batalhas jurídicas entre os competidores ou mesmo de alguns capitais contra o governo. Desta forma, o Brasil, na questão do investimento, está fazendo algo, mas o seu espectro é bastante restrito. Em primeiro lugar, o país está tentando organizar uma frente de expansão, mas como o Estado não tem a autonomia que deveria ter num projeto de desenvolvimentista, a recuperação está sem um horizonte definido. Em segundo lugar, por causa do fraco investimento internacional em função da crise da globalização, o que mostra a falência da estratégia do governo FHC, quando decidiu que o investimento no Brasil seria puxado pelo capital estrangeiro. (Problema que o governo Lula não conseguiu abortar na devida dimensão.) E, em terceiro lugar, porque a incerteza da economia mundial e brasileira afeta o setor privado nas suas decisões de investir, já que não pode sair de peito aberto numa situação crítica como a que estamos vivendo.
Claro, a postura do Estado de tentar minimizar a crise através de isenções fiscais e do estabelecimento de um plano de Habitação Popular, por exemplo, é absolutamente correta Mas, isto é pouco e é incapaz de conduzir o país a uma sólida recuperação econômica e a uma pretensão de alcançar um novo patamar na ordem da política e da economia no mundo internacional. A sociedade brasileira precisa encarar este fato não como uma fatalidade, mas ao menos como um forte desafio. Ela precisa pensar num projeto de futuro sem ficar considerando apenas a salvação do presente.
Só a energia não nos diz o futuro
O Brasil se encontra face à conjuntura internacional numa aventura complexa. De um lado, graças a política externa, conseguimos ser um país respeitado e chamado a desempenhar um papel na divisão internacional do trabalho, ou seja na globalização. O Brasil terá que assumir uma posição relativamente importante, porque é preciso ver que a crise atual não é uma crise apenas de caráter econômico. É também uma crise energética, uma crise ecológica e uma crise ambiental. Nesses aspectos o país tem intensas e fortes possibilidades de encontrar uma boa posição. No caso da energia, temos um elenco de alternativas viáveis. Petróleo, pré-sal e biocombustíveis. Além de sermos um território beneficiado com sol e ventos, apto, portanto, ao desenvolvimento da energia solar e da energia eólica. Então, estratégica e geopoliticamente o Brasil se evidencia com uma potencialidade, no momento, quase inédita. Somos, em verdade, neste particular uma presença inarredável. Não tanto porque esses recursos podem ser usados exclusivamente por nós, mas porque podem ser fonte de alocação de capital nacional e internacional. Isto quer dizer, que somos parceiros do desenvolvimento global. Por isso nos vêem com olhares cobiçosos. E de outro lado, no campo da agricultura, da agricultura (e da indústria) de alimentos, temos sempre a possibilidade de aparecer como grandes produtores, sobretudo se o liberalismo fosse levado ao extremo, e os governos dos países desenvolvidos, americanos e europeus, não impusessem restrições ao comércio dos produtos de origem agrícola como fazem permanente. Por isso, o Brasil continua um país potencialmente distinto e, paradoxalmente, novamente um país do futuro, como nos anos 50 do século XX. Só que nos outros campos industriais, nem o Estado nem os capitais privados nativos têm munição para mudar o nível atual da concorrência, como também as corporações internacionais não estão interessadas em dinamizarem países como o Brasil. Os seus interesses são corporativos e não nacionais – e isso vale para todas as nações. Olhado por esse prisma, a crise econômica no Brasil foi contida parcialmente na primeira hora. Só que a partir deste segundo semestre, ela trará um conjunto de desafios centrado na retomada do investimento estatal e do investimento privado, para garantir a recuperação e a expansão da produção e do emprego. Pois são estes os pilares de uma sustentação nacional, que vão levar certamente ao aproveitamento adequado, e em prol da sociedade brasileira no longo prazo, da oportunidade das trajetórias energéticas que vão surgir neste século XXI. E tudo vai passar pelo projeto possível do Estado brasileiro. Por isso, o Brasil vive tensamente as atuais incertezas, que passam tanto pela economia como pela política. E não é por essa razão que as eleições de 2010 já estão ocupando o cenário dos dias de hoje?
Assinar:
Postagens (Atom)