segunda-feira, fevereiro 16, 2009

TEM QUE SER LINCOLN OU ROOSEVELT, KENNEDY NÃO BASTA

Por Enéas de Souza

Já queria escrever a mais tempo, mas agora que na semana passada Martin Wolf do Finantial Times colocou o tema, me senti mais motivado a discutir o assunto. Talvez numa outra pauta, não apenas na pauta econômica. Quero colocar a questão do Obama como presidente dos Estados Unidos, como líder da sociedade mundial. Parece que ele ainda não se deu conta do fenômeno. Porque ser presidente da mais poderosa nação do mundo, não é apenas visionar qual o destino dos Estados Unidos, mas ter uma estratégia e um projeto tanto para a ordem política, quanto para a ordem econômica mundial. Nem ele, nem a sua equipe, nem a maioria dos americanos se deram conta que estamos no bojo de uma crise imensa, que conjuga muitas crises.

A mais óbvia, é a econômica. Mas, temos uma crise política, uma crise energética, uma crise tecnológica, uma crise ecológica, uma crise de confiança – que na verdade, é uma crise moral -, mas temos também uma crise do capitalismo e uma crise da cultura. Nosso amigo Freud diria a palavra certa: vivemos um “Mal estar da civilização”. E, é preciso saber, que não estamos numa crise revolucionária, como poderia falar alguém inspirado em Marx. Contudo foi Mészàros quem colocou, outro dia, inquietantemente: o neokeynesianisno e um novo Bretton Woods não vão funcionar, são fantasias. O que significa, se ele estiver certo, uma prolongada crise do capital. Ouvindo todas essas vozes, como Macbeth ouvia as vozes das bruxas no começo da peça que leva seu nome, podemos colocar: a tendência da economia é seguir, se as decisões forem tomadas erradas, no rumo inexorável da recessão.

Diante disso o desafio para Obama não é ser um presidente melhor que Busch. Não é ser um presidente que lembre Kennedy. Não – e ele sabe e não sabe – que, na crise atual, tem que ter o porte de Lincoln ou o porte de Roosevelt. Ou talvez, uma combinação dos dois. Por isso, não concordo muito com o debate proposto por Martin Wolf. O tema verdadeiro para Obama não é apenas a economia, o tema é outro: como liderar a reconstrução da sociedade contemporânea. E o presidente, se quiser ir fundo, se quiser optar por esta proposta, tem que assumir a condução dos acontecimentos, não se deixar cercar pelas finanças, por exemplo. Bush e seus apoiadores legaram um país desabando. É preciso dar, portanto, uma nova figura e uma nova cara aos Estados Unidos.

Será que Obama pode, será que Obama tem essa capacidade? Esta é a pergunta decisiva. Obama foi jogado no meio do inferno, no ventre do tsunami, e lhe disseram: agora, meu caro, resolve. E veja o leitor, como a coisa parece difícil, um pequeno detalhe, mas revela muito: ele nunca teve algum cargo público administrativo. Ou seja, ele vai ter que aprender a governar. E as decisões exigidas são de uma urgência inadiável. E mais, para decidir no dia a dia da Casa Branca, há que ter uma estratégia de longo prazo. E a pergunta vem fácil: será que Obama e seus companheiros têm? E se não tem, há tempo para tal? Mas, estes, agaora, não são tempos normais, “o tempo está fora dos gonzos”, por isso para que a crise possa se solucionar, a questão é hamletiana: ser ou não ser. Ou dito em tempos modernos e esportivos: ganhar ou ganhar. Obama não tem escolha.

domingo, fevereiro 15, 2009

Chile baixou a taxa de juros em 250 pontos base

O Chile baixou a taxa de juros em 250 pontos base. De uma vez só! Esperava-se 100 pontos base, mas a fraqueza da economia local induzida pela queda nos preços das commodities radicalizou a decisão. Eles podem, nós não. Claro, as pressões inflacionárias endógenas sobre a economia brasileira, o risco do retorno da indexação, a memória inflacionária (e blá-blá-blá-blá-blá à exaustão, tudo conversa mole) nos dizem que a situaçao do Brasil é outra. E é outra mesmo, aqui o domínio financeiro é muito mais profundo.
A CORRIDA DO OURO

Por Enéas de Souza

Olha só leitor. O ouro voltou a casa dos 900 dólares. As ações estão ainda no teatro de especuladores, enquanto existirem aventureiros ou desinformados. Os títulos do Tesouro Americano são seguros, mas rendem pouco. O dólar e as moedas entram num horizonte de perturbações. As commodities não são mais a especulação da vez. Ficam os investidores e os que apostam nos ativos para pegarem os incautos, buscando áreas para segurança ou lucros oportunistas. E temos o ensaio geral de uma situação crítica. A velha relíquia, o ouro, volta e meia, é um porto seguro. Mas, o importante é ter consciência que a especulação é como a roda da vida, gira, gira, mas nunca se fixa num mesmo ponto. Como diria o velho Nietzsche: estamos no eterno retorno do ouro. Só que agora noutro ponto do retorno: meio do caminho de uma crise monetária.

sábado, fevereiro 14, 2009

COMO REORGANIZAR O SISTEMA BANCÁRIO BRASILEIRO

Por Enéas de Souza

Um novo projeto de desenvolvimento da economia brasileira deve considerar alguns pontos. Dentre eles a organização do sistema bancário no contexto da crise mundial. De um lado, o Estado pode e vai assumir o papel de financiador da estrutura produtiva, através de dois pólos significativos: o PAC e o BNDES, colocando o investimento no centro da economia. Ou seja, o financiamento de longo prazo parece garantido. Mas, há que construir a economia também para os movimentos de crédito de curta e média duração. Na realidade, a hegemonia financeira armou uma taxa de juros muito elevada, tanto através das definições do COPOM, quanto das operações do setor bancário. Por mais que o Banco Central lubrifique, regue, inunde o mercado com dinheiro, com juros mais baixos, etc. os bancos não passam a liquidez nos seus empréstimos. Então, a estratégia alternativa do governo é clara: usar os bancos estatais ou semi-estatais, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica, para emprestar mais barato, encurtando os seus spreads, sem deixar de captar ao nível do mercado, o que seria uma forma de combater o oligopólio bancário. Logo temos aqui mais um ponto fundamental: conduzir os dirigentes do BB e da CEF a uma política agressiva de Estado. Com isso, em épocas de tendências a nacionalização, o Governo buscaria não liquidar os bancos privados (mesmo, porque, parece que os bancos nacionais, ao que tudo indica, estão bem), mas reformular o comportamento deles na atual conjuntura. Em todo caso, com seus instrumentos de política, forçaria o setor privado a uma nova realidade. E qual esta nova realidade? A do fracasso rotundo das finanças na condução da economia de mercado, na economia do capitalismo. E embora os bancos brasileiros particulares possam estar bem no atual estado de coisas, o que acontece é que certamente o comando das finanças internacional vai diminuir o seu braço sobre os diversos países. Dentro desse novo quadro, há algo importante a fazer pelo Brasil: redesenhar o Banco Central e o COPOM, preparando-os para o controle dos juros, o controle do câmbio, e no limite para que o Banco Central e os bancos públicos e ptivados trabalhem, também, para o desenvolvimento da economia brasileira. Como ocorreu no passado, antes da era fernandina (leia-se: era neo-liberal de FHC). Todas estas medidas darão possibilidades – e digo enfaticamente: apenas darão possibilidades – para que se possa fazer a passagem da economia de hegemonia financeira para uma economia produtiva, nas correntezas voluptuosas da crise atual.

sexta-feira, fevereiro 13, 2009

É BOM SE PREPARAR QUE A ESCADA É LONGA

Por Enéas de Souza


Um dos maiores equívocos do momento é pensar que a crise econômica atual é uma crise financeira. Não, não é. Ela é uma crise da economia como um todo, ela é uma crise financeira e uma crise produtiva. Mas, ela é uma pluralidade de outras crises também. Uma crise energética, uma crise tecnológica e uma crise ecológica. Portanto, há crise para todos os gostos. Contudo, pode-se ampliar este conjunto de crise, porque vivemos também uma crise política, uma crise ética, uma crise do sistema capitalista, uma crise da cultura e uma crise da civilização. Porque insistimos nessa temática? Porque, a mídia do sistema tem concentrado muito na crise financeira, como se qualquer solução financeira que satisfizesse aos bancos, resolveria tudo. Nada disso. É preciso parar com essas fantasias. Estamos vivendo algo muito profundo, porém com um pensamento superficial. Construiu-se uma permanente visão otimista, um sonho de menina que vai ao baile de debutantes, tudo é um sonho, um espetáculo. Não, não é; esta crise é vasta. Mas tem uma característica muito interessante. Até agora, pelo menos, o ritmo da crise é sob a forma de escada. Nesse momento, vamos descer um degrau e sentimos uma queda. Logo em seguida, pisamos no patamar do degrau e achamos que tudo está ótimo, a crise já passou. Não há como negar, respiramos aliviados e a visão otimista retorna, até que se começa a descer um novo degrau e a dança do susto recomeça. O que estamos verdadeiramente dizendo: a crise não é só financeira. É bom se preparar que a escada é longa.


VAMOS TER OUTRA INDÚSTRIA?

Por Enéas de Souza

A crise industrial ela tem componentes complexos. Vamos escolher a crise da indústria do automóvel para dar um exemplo. Qualquer que seja a recuperação deste setor é indispensável que se veja que a solução começará por um dos problemas básicos, não somente deste setor, mas um problema que é de toda a indústria. Trata-se da metamorfose da infra-estrutura energética da produção. O que está em questão neste ponto - e que dá muita incerteza - é a atual indefinição tecnológica, industrial e comercial da área da energia. Emergem dúvidas por todos os horizontes. Quanto tempo durará o petróleo? Qual o tempo para a sua substituição? Teremos um “mix” de energia? Qual é a duração deste “mix”? Qual será a matriz alternativa? O Hidrogênio será o substituto do petróleo? E o biocombustível? E a energia nuclear? E a energia eólica? E a energia solar? Enfim, um festival de perguntas. E de outro lado, em função não só destes aspectos, mas de algo que faz parte da própria lógica da indústria automobilística, não se pode ocultar que há um problema tecnológico para que uma empresa possa disputar (e conquistar, se for o caso) o mercado do ramo que estamos discutindo. Exemplificando. Como será o novo carro? Com que materiais ela será construído? Qual o tipo de motor? Qual o seu tamanho? Quais as condições autonomia e de abastecimento? Qual a relação deste veículo com as cidades, com a circulação urbana, com os transportes coletivos, com os “shoppings”? Etc., etc. E, vocês já imaginaram que perturbação vai representar na sociedade contemporânea, na concorrência mundial das montadoras, a entrada de um carro pequeno com um preço de venda de 2.500 dólares?
Decididamente, esta crise não é somente financeira!

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Chegou o bode...

Bem ou mal, a idéia de um stress test e da divulgação dos seus resultados pode ter sido a forma que a equipe Obama encontrou de quebrar a resistência políica dos bancos à nacionalização. E, bem ou mal, omercado financeiro já se deu conta disso... Sem os stress test e sua divulgação, teríamos ouvido apenas aplausos dos turiferários do mercado à distribuição de dinheiro público ao sistema financeiro. talvez isso explique a rapidez com que a medida começou a ser executada, embora ainda seja muito cedo para prever que ela possa chegar ao final exitosamente (com a ancionalização dos bancos insolventes). E falta contar quem conseguiu colocar essa proposta no pacote de Geithner...
Link relacionado:
DAS INDECISÕES DO MOMENTO

OS BANQUEIROS NÃO QUEREM NADA por Enéas de Souza

Dá para achar graça. Todos os grandes banqueiros depondo no Congresso Americano. Rostos preocupados, todos pensativos. Um ao lado no outro na mesa de depoimento, tendo viajado de avião comercial para mostrar ridiculamente que não vão ganhar os monstruosos bônus do passado, nem vão comprar jatinhos para viagens julgadas necessárias. Eles compunham uma mesa patética e inquietante. Diziam que, no meio do atual “credit crunch”, no meio do atual aperto de crédito, eles estavam emprestando, que eles estavam fazendo o seu papel social. Mas, na verdade, uns estavam ao lado dos outros, todos solidários, todos querendo passar o mico para o Estado. Vejamos, então, as soluções possíveis da crise dos bancos: botar todos os títulos podres num “bad bank” governamental; manter esses títulos nos balanços, mas garantidos pelo Estado; fazer um fundo misto setor público-setor privado para solucionar a questão. Todas essas soluções caem solidária e inexoravelmente nas costas do Governo e do contribuinte. Ou seja, há uma proposta confortável à mão: socialização dos prejuízos. Pois, a solução mais radical, a quebra dos bancos, esta já foi descartada há mais tempo, haveria uma crise social inimaginária. Há, no entanto outra solução: manter, via FED e seus instrumentos de liquidez, tudo em banho-maria para ir aos poucos desovando os ativos tóxicos. Esta é uma decisão inviável numa economia do porte dos Estados Unidos. Foi possível no Japão, que era um país dependente e tutelado, é impossível num país líder da economia, da política, da diplomacia e da ação militar. Por isso, os economistas mais atentos, falam na nacionalização das instituições bancárias. Mas, esta é uma solução, os banqueiros não querem. Como os bancos são muito grandes para quebrar, podem forçar, pelo seu poder, uma solução que os beneficiem. Porém, como são muito grandes para serem salvos, sem um grande déficit fiscal, a decisão não pode ser explícita e sem dor. De qualquer modo, as finanças estão jogando a sua hegemonia, cercando Obama, trabalhando o Congresso e usando a ideologia da livre iniciativa (sic!), enfim, estão esperneando o que dá. Elas, obviamente, têm uma dupla finalidade: primeiro salvar a pele; depois, continuar mandando na política do Estado. Por isso, os nervos estão tensos, porque, sérios e pensativos, os banqueiros não querem nada, apenas querem continuar a dominar a economia e a sociedade. E por tabela e por cerco, o Estado. Até quando?

A ESTRATÉGIA BRASILEIRA por Enéas de Souza

A entrevista da ministra Dilma Roussef, segunda-feira, no Valor nos mostra que a estratégia brasileira passa pelo comando do Estado, que vai centrar – e já está centrando - sua política econômica no investimento. E ela tem dois pilares, o PAC e o BNDES. Com isso, se percebe que ela articula o planejamento e o financiamento público com a participação do setor privado. O que não está claro - e isso vai depender, de maneira aguda do grau de abertura ou do protecionismo da economia mundial - é qual a estratégia de inserção da economia brasileira no mundo. Falta, então, uma estratégia global. No plano externo, tudo está na dependência do andar da carruagem e do desdobramento da crise mundial. Porém, a grande definição para a estratégia global é de como se vai passar do antigo modelo de acumulação financeira para um novo modelo de desenvolvimento econômico. Isto significa uma inclinação nova na política econômica: os papéis do Estado, do Banco Central, da taxa de juros, da taxa de câmbio, das reservas, solução de reformas trabalhistas, da reforma agrária, da segurança, da saúde, etc. O estado atual dos conflitos das classes sociais permite que o Estado dê um primeiro passo, fazendo uma opção forte pelo investimento. Mas, as disputas entre as finanças nacionais e internacionais; a produção nacional e internacional; e os trabalhadores empregados e desempregados; definirão um segundo lado da estratégia, pois o novo modelo de desenvolvimento precisa encontrar uma resultante que se materialize num papel do Brasil na divisão internacional do trabalho.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

DUAS PINCELADAS RÁPIDAS

O RITMO DA CRISE por Enéas de Souza

Uma coisa são as declarações das autoridades, cujo fim é tentar ordenar, com o maior grau de tranqüilidade, as respostas dos Estados à crise econômica. E outra é o ritmo da economia, o seu destino, a sua tendência, que é o resultado das múltiplas forças inscritas nas múltiplas áreas da atividade financeira, produtiva, política e social. E nesse sentido, diante das decisões dos diversos governos, prioritariamente dos Estados Unidos, o que se pode perceber é um ritmo progressivamente descendente, rumando da recessão, mais ainda não chegando, à depressão. Mas, indo para lá. Crédito apertado, ativos sem valores nos balanços dos bancos, falta de uma definição da arquitetura financeira, etc. Ou seja, a crise financeira está longe de ser equacionada, quanto mais resolvida. De outro lado, a crise produtiva está enrolada nos aspectos financeiros e com absoluta falta de crédito, sob qualquer ângulo que se olhe., do financiamento à produção ao bem final a ser vendido. A demanda está despencando vertiginosamente: não há consumo, não há investimento. Só o investimento público pode vir a dar uma sustentação neste pássaro que cai. Mesmo assim, o ritmo da queda é maior do que a melodia do crescimento. A questão é como cada um, cada país, vai se safar desta estrutura profunda global, mundializada, que vai se modificando sem que tenhamos total consciência dela. Embora os Estados Unidos sejam os atores principais, todos são atores, todos os demais têm que desempenhar o seu papel. Só que quem define a economia no interior das nações são os grupos sociais, que lutam desesperadamente para desbaratar as outras classes, com diferentes equações de força. Mas, o mais incrível, difícil de crer, mas é verdade, veja-se pelos Estados Unidos, os que afundaram o Titanic continuam no comando dos barcos salva-vidas.


A VOZ DO TESOURO por Enéas de Souza

Lendo as declarações do secretário do Tesouro americano percebemos que sua fala, após a de Obama, segue o caminho generoso da recuperação do emprego, das empresas e do crédito. E salienta, com fervor, que dentro do crédito, a retomada da securitização é a peça chave. Qual, de fato, a proposta, não sabemos. Mas, promete transparência e compromisso de prestar contas. Como idéias básicas, elas podem ser boas. Pois, o que está em jogo na economia americana são duas coisas: a retomada da esfera produtiva e a re-formatação do sistema financeiro. Por enquanto, tudo são boas intenções, e todos são absolutamente escrupulosos com o dinheiro do contribuinte. Nada mais elogiável. O problema é que já foram comprometidos pelo Estado americano 9,7 trilhões (leia-se o texto de André Scherer de 2ª feira), dos quais 350 bilhões do primeiro “baillout”, e o mundo parece que não saiu do pesadelo, a crise continua descendo a ladeira com cabelos ao vento. Na verdade, Stiglitz e Roubini botaram o Picasso na sala. O verdadeiro problema está nesta frase de Stiglitz, que poderia ser de Roubini, “Nacionalização é a única resposta. Estes bancos estão efetivamente em bancarrota” Quanto mais prossegue a crise, menos o sistema financeiro sabe o que fazer, E menos, os seus representantes no governo, tem uma orientação clara. O que esconde esta idéia quase absurda de uma parceria do setor público e do setor privado para solucionar a questão bancária? A nacionalização que seria uma saída, ela vai ser obviamente anulada, postergada, desbaratada, bloqueada. E veja o leitor, nacionalização não quer dizer estatização.Quer dizer, apenas, que vai se procurar gente mais competente e com visão social para dirigirem os bancos, em nome da sociedade e do Estado. Quando eles estiverem saneados, a nacionalização supõe a devolução dos bancos ao setor privado. Não, aos mesmos que quebraram o sistema, mas para outros mais íntegros economicamente . Contudo, se esta decisão de nacionalizar demorar, a crise pode ter chegado a um nível ainda mais catastrófico. Mas, não nos preocupemos Thymoty Geithner é do ramo. Quem sabe esteja fazendo uma manobra de dissimulação, para aprovar o pacote? E, lá no fundo, Thymoty Geithner saiba verdadeiramente o que está fazendo. Todavia temos uma fulgurante certeza: como homem do ramo, a nacionalização não será o seu caminho.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

O Plano Geithner: qual plano?

O incrível está uma vez mais ocorrendo nessa crise. O secretário Geithner apontou quatro pontos para um possível plano de salvação do sistema financeiro e não detalhou nenhum! Deixou a nítida impressão que os EUA tem ainda muito dinheiro para gastar com planos de resgate, mas que não sabem o que fazer com esse dinheiro. US$ 3 trilhões já foram para o ralo e, com os planos anunciados nessa semana, outros US$ 3 trilhões terão o mesmo destino. A mera idéia de que será criado um portal na internet onde serão divulgadas as ações, os resultados e até mesmo os contratos comprados pelo governo norte-americano junto ao setor privado pode até ser simpática, mas é simplesmente absurda! Apesar da retórica da transparência, o sistema funciona na mais profunda opacidade e é incapaz de suportar esse grau de exposição da realidade. Não vai acontecer da forma como Mr Geithner colocou por que traria uma corrida bancária sem precedentes acoplada a uma crise institucional. 
Os quatro pontos de Geithner são: a) promoção de stress tests com os maiores bancos norte-americanos para estimar o tamanho do "lixo tóxico" nos mais diversos cenários (basta a publicação de uma relatório oficial sobre isso e os bancos com maiores dificuldades passarão a valer centavos de dólar; não foi por outro motivo que as bolsas caíam enquanto o plano era anunciado, todo mundo sabe que a combinação stress tests com ampla publicidade é dinamite pura); b) criação de um fundo público-privado para a compra de ativos tóxicos; c) elevação do valor do TALF (ver http://econobrasil.blogspot.com/2009/02/talf-pode-desbloquear-o-credito.html) para US$ 1 trilhão - no mar do nada, ainda é a medida mais efetiva e d) a divulgação "em algumas semanas" de um plano de ajuda aos compradores de imóveis em dificuldades. 
As questões mais espinhosas (como serão avaliados os ativos insolventes?; sob que condições poderão os agentes privados se habilitarem a participar dos programas?; como afinal serão modificados os contratos hipotecários?, etc.), que constituíriam minimamente um plano, não foram sequer mencionadas. Ao contrário, houve mais um show de ideologia barata, com a ênfase na idéia de que o papel do governo é promover a potencial participação de dinheiro rivado no resgate do sistema financeiro. 
Ficou a certeza de que os EUA têm dinheiro (por enquanto ao menos), mas não tem nem a estratégia nem um plano. A recepção ao programa de intenções governamental foi péssima. E segue crescendo a pressão por medidas de nacionalização dos principais bancos dos EUA (ver links abaixo, M. Wolf abre sua coluna perguntando se a presidência Obama não teria acabado ontem?; Roubini reafirma a idéia que já havia levantado aqui no blog, de que a nacionalização dos bancos insolventes é, paradoxalmente, a verdadeira solução "capitalista" para o problema). 
O pacote foi amplo em termos de recursos, mas pequeno quanto ao seu escopo, sem falar em sua inconsistência.

Links relacionados:
Opinião de Martin Wolf e de Roubini:


Rússia: um default que pode deflagrar uma enorme crise

A Rússia está à beira do default. O governo aumentou a taxa de juros hoje, em urgência, na tentativa de deter a desvalorização do rublo. Já vimos esse filme ante e sabemos como termina. O interessante é que a Rússia tinha antes da crise cerca de US$ 550 bilhões em reservas amealhadas com alta dos preços do petróleo! Um terço disso já se foi, até o momento... Fala-se em "reestruturação" da dívida dos bancos e das empresas russas com o resto do mundo, concentrada especialmente na Europa. Esses bancos, ao que parece, estariam dispostos a aceitar essa reestruturação e, em alguns casos, inclusive estariam propondo a negociação. mais pressão sobre os bancos europeus e o euro. Um default da Rússia e suas ramificações pelo leste europeu podem trazer a crise, que se iniciou financeira ao patamar (já esperado) de uma crise monetária. Os riscos são grandes e, mesmo que esse episódio de hoje não passe de um alerta, devem se materializar em algum instante ao longo de 2009. Uma crise do sistema monetário internacional tendo como epicentro o euro está inscrita na forma como se desdobrou a crise (de imobiliária à financeira, de financeira à econômica e, sempre, global) até o momento. Nessa hora o jogo vai ficar mais pesado para o Brasil e a hora da verdade chegará: ou vamos assistir complacentemente a fuga de capitais ou vamos tomar as providências necessárias (para o que poderá ser tarde demais) É evidente, não vê quem não quer ou não deseja enxergar.

Links relacionados:

A resposta do NY Times à questão do Enéas: SIM!

Geithner prevaleceu na elaboração do pacote, que é um enorme "mais do mesmo". Frase essencial da reportagem que dá o tom da dominação financeira:
"He resisted those who wanted to dictate how banks would spend their rescue money. And he prevailed over top administration aides who wanted to replace bank executives and wipe out shareholders at institutions receiving aid."
Em capitalização devem ser cerca de US$ 500 bilhões para bancos cujo valor de mercado não chega hoje aos US$ 200 bilhões! Esperemos os detalhes. Mas o que transpira na reportagem mostra que o pacote é um Frankenstein destinado a dar uma sobrevida a um sistema financeiro falido. Não vai funcionar e entre junho e agosto teremos outro plano em marcha.
Link relacionado:

Entrevista em ZH: pacote(s) americano

Estranhamente eu e Maílson da Nóbrega na mesma posição (com exceção quanto ao prognóstico dele quanto à duração da crise)... Aproveitem, é raríssimo. Me lembro que em março do ano passado Maílson declarou em Porto Alegre que a crise era restrita aos EUA e que as providências dos governos como os cortes nos juros bastariam para resolver o problema. E louvava a possibilidade do Brasil ocnquiestar o "investment grade" (alguém se lembra dessa proeza hoje?). Bom ver que a interpretação do colega sobre os fatos avançou de lá para cá.
Mas a frase mais interessante é a de Marcelo Suano: "Eu não defendo a iniciativa pública na economia, mas defendo o público na hora da crise". Na prática é mais ou menos assim: quando está tudo bem nós ganhamos o dinheiro e ele é nossa recompensa pelos "riscos" que tomamos. Quando está tudo mal, vocês entram pagando a conta. E viva o capítalismo global! Alguém pode passar a minha parte, please?
Link relacionado:
http://zerohora.clicrbs.com.br/pdf/5897835.pdf
AS FINANÇAS ESTÃO CERCANDO OBAMA?
por Enéas de Souza

Acabamos de ouvir o presidente Obama. E percebemos, e ele também está percebendo, que a crise, na qual estamos metidos, nós e ele, é de uma dimensão volumosa, senão gigantesca. Independente dos múltiplos aspectos de sua fala, todas merecendo comentários, nós ficamos, para análise, apenas na discussão da questão econômica. Furtando-se comentar extensivamente o pacote e remetendo os temas para o secretário do Tesouro, Obama deixou claro três pontos fundamentais da sua estratégia, da sua orientação ao seu governo. O primeiro passo seria a recuperação do emprego; o segundo, o retorno do crédito, e o terceiro, a questão da habitação.
Com esses três passos, Obama deu o norte, mas para que o governo chegue até lá, muito esforço, muita discussão, muitos interesses, muito desespero terá que ser vencido e ultrapassado. Veja-se o primeiro ponto, o emprego. Obama deu inclusive um número de sua meta: 4 milhões de novos postos de trabalho. Ora, este é um projeto difícil, porque a dinâmica recessiva acumulada já trouxe na contabilidade geral mais de 10 milhões de pessoas para fora do mercado. E isto sem contar mais uns 5 milhões trabalhando em tempo parcial. Pode-se, então, verificar que a economia está caminhando para a depressão, e um pacote de 300 bilhões não terá a capacidade de recuperar tão expressivamente o nível o emprego. Talvez chegue a 1,5 a 2 milhões. Mas, para ser otimista, o importante é que o pacote aciona a única força que pode investir no momento, que é o Estado. Dá-se um passo na direção correta, eliminar a idéia de que a acumulação financeira pode fornecer os recursos indispensáveis para o crescimento econômico. Felizmente, começa-se a pensar que o investimento produtivo é o centro da economia, e não a festa das aplicações financeiras.
O segundo ponto é a recuperação do crédito. Não há como negar, sob qualquer ângulo, que a economia capitalista é creditícia. E aí, o problema se acopla com o primeiro. Ou seja, cabe centrar a economia no investimento, mas para que este prossiga tem-se que dispensar um sistema financeiro voltado praticamente para a especulação. Todavia, a crise é dramática nesse particular. Como estamos constantemente falando neste blog, o poder que cerca Obama, o poder que tem força na mídia, o poder que tem um lobby forte no Congresso é naturalmente o poder financeiro. Embora, em bancarrota, ele não pensa em ficar no segundo plano, a renda dos bons tempos ainda é um estimulo a pensar contra o investimento produtivo como a chave da economia contemporânea. De qualquer forma, a partir da estratégia simples do presidente norte-americano há que fazer um longo caminho para construir um novo modelo de desenvolvimento e crescimento da economia americana e da economia mundial. E para tal tem que fugir ao cerco das finanças.
O último item, a questão da habitação, é uma preocupação de limpar o mercado especulativo de imóveis e seus efeitos danosos para mais de 10 milhões de compradores de residências. Mercado que foi atravessado por falcatruas imobiliárias e financeiras e das agências de ratings. Convém que se pense que os objetivos aqui de Obama são possibilitar que os consumidores possam solucionar as suas dívidas, que possam, de uma maneira ou de outra, a atenuar a perda de riqueza que tiveram ao entrar nesses negócios. Mas, se relacionarmos este item com os outros dois, o que se pode constatar é que a entrevista de Obama revelou que ele tem, de fato, uma estratégia. Mas que ele nada falou sobre os múltiplos e vastos obstáculos que estão no caminho para a solução da atual crise econômica. Deixou sim, a questão para o secretário do Tesouro, um homem vindo do sistema financeiro, do FED de Nova York. Então, a pergunta que vem surgindo nos últimos dias: as finanças continuam comandando o processo de decisões sobre a economia americana?

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

US$ 9,7 trilhões comprometidos!

A Bloomberg atualiza as estimativas de comprometimento do Estado norte-americano com os diversos planos de resgate do sistema financeiro, de ajuda ao setor imobiliário e de estímulo à atividade econômica. O comprometimento potencial atinge US$ 9,7 trilhões, já incluídos aí esse segundo pacote de estímulo fiscal que está em análise no Senado. Desse total, US$ 3 trilhões já foram utilizados... E pensar que tinha gente que estimava o custo da crise em US$ 100 bilhões em 2007... A grande questão é se cerca de US$ 10 trilhões, caso se materializem, não são muito mesmo para um país poderoso como os EUA.
Veja o detalhamento dos gastos e do comprometimento com os custos da crise nos EUA no link abaixo:

Roubini fora dos EUA

O Prof. Roubini fica bem mais solto quando não está falando especificamente ao público norte-americano. Convidado pela Financial Times a responder as perguntas dos leitores ele foi bem mais incisivo e claro do que tem sido em seu site e nas entrevistas paraórgãos de imprensa dos EUA. Da leitura fica claro que ele não está gostando em nada das medidas tomadas pela equipe de Obama, que ele não acredita em solução indolor para os problemas do sistema financeiro e bancário, que ele vê ameaças sobre alguns países europeus que assumiram garantias sobre sistemas financeiros que são maiores do que a capacidade dos Estados e que ele acredita em uma estagnação prolongada da economia mundial.
Aos poucos, Roubini vai se afastando de seu prognóstico inicial de uma recessão profunda mas com duração de dois a três anos (até 2011) para admitir um cenário bem mais assustador, de uma crise bem mais prolongada e profunda. Dada a timidez e a incapacidade política para contrariar a dominação financeira que vem demonstrando o time Obama, o prognóstico "EUA (e o mundo) um novo Japão" vem aumentando de chances. Obama vai mudar de caminho ali adiante por que politicamente os EUA não são o Japão, mas haverá tempo (e recursos) para que essa modificação se mostre eficaz?
Link relacionado:
AS FINANÇAS, O ESTADO E A CRISE AMERICANA por Enéas de Souza

O processo econômico que está se desmanchando é um só: o modelo de hegemonia financeira com a desmontagem de vários aspectos: alavancagem, organização do sistema bancário e do sistema não -bancário: alcance da intervenção do banco central, estrutura do crédito, o papel da securitização, a imensa multiplicação de produtos financeiros e as agências de ratings. Mas há algo especial, a incapacidade do sistema financeiro de amparar o sistema produtivo, seja pelo lado do financiamento da produção (equipamentos,inovações, tecnologia, etc.), seja pelo lado dos comercial papers, seja pelo lado do financiamento dos bens aos consumidores, seja pelo financiamento dos cartões de créditos, etc. Desta forma este modelo falhou tanto no lado financeiro quanto no lado produtivo. E, é preciso salientar, que nos dois setores, a dinâmica estourou pela superacumulação de capital, expressos na inflação de ativos financeiros bichados e pela considerável quantidade de bens produzidos pela indústria e tornados invendáveis. O desdobramento desse modelo de hegemonia financeira nos Estados Unidos, encadeou outros dois pontos importantes: um comércio internacional ancorado em déficits volumosos do comércio externo americano, sobretudo com a China; e recursos de capitais vindo do exterior, desta e dos países emergentes, para atraídos pelos títulos do Tesouro dos Estados Unidos que constituíram um segundo déficit, o déficit fiscal, que fez a dívida pública alcançar mais de 10 trilhões.
O desenho de quadro serve apenas para dizer o seguinte: a gravidade da crise, a partir deste novo governo, o governo Obama, não alterou significativamente a política do Estado para a economia. Ou seja, basta ver o comportamento da Secretaria do Tesouro e do Banco Central (o FED). Na verdade, estes dois pilares estatais continuam na antiga prioridade: salvar os bancos. Não é que o sistema não deva encontrar um formato de reformulação da função das finanças na economia. Mas, fica claro, no entanto, que o objetivo daquelas instituições não é certamente modificar a relação de forças entre as finanças e a produção (empresas e trabalhadores). Trata-se de recondicionar o sistema, dando tempo (!) para que a combalida área financeira volte a utilizar a economia a seu favor. Só que a crise vai continuar se desdobrando fortemente. Prova disso são os ativos tóxicos ainda não desativados, a insuficiência capitalização dos bancos, a crescente ameaça sobre os Hedge Funds, os Private equitys e os Fundos de Pensões, etc. Por isso, o duplo jogo das finanças emerge com nitidez: além do objetivo de ganhar tempo, elas precisam manter a disponibilidade do Estado em fornecer recursos para o funil insaciável e aparentemente intermiável do setor.
Por essas razões, o pacote americano dá apenas uma modesta contribuição para o relançamento das obras públicas ligadas à retomada da produção e do emprego, não chegando a 400 bilhões de dólares. Acrescenta-se a esses aspectos, a não existência, no plano, de um atendimento expressivo e consistente para a população que perdeu com as hipotecas imobiliárias. Ou seja, o pacote, na sua timidez, continua sob o império das finanças. Isso significa que os Estados Unidos podem ser punidos por concepções deste tipo, pois a solução hoje não pode ser das finanças para as finanças, com uma pequena contemporização para os demais setores. A solução passa por um Estado que organize coordenadamente a mutação da sociedade, atendendo os vastos problemas da produção, da renovação da matriz energética, das mutações tecnológicas, e sobretudo da combinação de todas as crises da economia e da sociedade com a crise ecológica.

domingo, fevereiro 08, 2009

Mercados desregulamentados

Conhece http://www.jobaphiles.com/ ? Novo serviço de usa de emprego na região de Boston, ele permite que os desempregados e recém-formados possam leiloar seus salários a partir de ofertas de emprego. Obviamente o mais qualificado e que aceita ganhar menos leva o emprego. Vai virar moda, quer apostar? Mas, e os efeitos depressivos da redução de salários sobre a demanda?
E sempre haverá um imbecil para apontar esse tipo de coisa como a prova definitiva da superioridade da economia de mercado norte-americana sobre os mercados regulamentados. E dizer, em alto e bom som, que o problema do Brasil é a falta de uma "reforma trabalhista". Aaaaargghhhhhhh!!!!!!

Ireland, the next Iceland?

As demandas por gasto governamentais aumentam ao mesmo tempo em que as receitas diminuem. Notar que " a demanda por automóveis está próxima de zero e mais de 30.000 empregos foram perdidos em janeiro".
Para um governo que está comprometido com seguros sobre ativos bancários no valor de 4 vezes o PIB, nada mau! Se não etsivessem cobertos pelo Euro, já teriam apelado ao FMI. Será suficiente a cobertura européia?
Link:

Pacote postergado para terça

Novo anúncio do pacote de medidas para o setor financeiro parece estar sendo deixado para terça (não oficial ainda). Isso demonstra as dificuldades em conciliar o inconciliável: o interesse dos bancos com a necessidade de modificações estruturais no setor. Como a equipe econômica de Obama é de insiders do sistema, as dificuldades aumentam. Aposto em um pacote cosmético, light, "mais do mesmo" que já não funcionou. E em um novo pacote no verão norte-americano.
PREFERÊNCIA PELA LIQUIDEZ VERSUS INVESTIMENTO por Enéas de Souza


Um dos nós que embaraça a economia americana e as demais economias é sem dúvida a preferência pela liquidez. O que significa isso? Quem tem dinheiro, não larga, guarda, poupa como dizem alguns. Na verdade, o que ocorre é que é uma atitude de expectativa, de bancos, empresas, consumidores, diante da necessidade de primeiro, não entrar em aventuras com o dinheiro, e em segundo lugar, confundindo-se um pouco com o motivo de precaução, guardá-lo para alguma eventualidade. Assim, se uma empresa pretende ampliar o seu mercado, alterar a sua tecnologia, contratar pessoal, etc. diante de um panorama sombrio, as expectativas arrefecem, não aparece o horizonte de lucratividade nitidamente. A solução é parar para pensar, parar para esperar, parar para ver. A mesma coisa, acontece com os bancos. Emprestar para perder dinheiro, descapitalizar-se, isso não faz sentido. Só se faz se um negócio se ele se apresentar inevitável. Pois antes do crédito ou da aplicação, o dinheiro em caixa. Ou aplicado em títulos seguros como os títulos do Tesouro Americano.
O quadro se mostra interessantemente paralisante. A taxa de juros, em todos os lugares tende a cair. Até no Brasil com a sua morosidade insana. Pois, o fundamental para a economia como um todo é que a produção retorne as suas melhores atividades: produzir. A perspectiva de lucro tem que subir, tornar-se uma promessa fulgurante e a taxa de juros baixar, cair na lona.. Mas, se a preferência pela liquidez se mantem, não se consegue fazer nenhum investimento. E para todo o planeta capitalista existe uma desafiadora realidade: como substituir um modelo de acumulação financeira por um modelo de crescimento produtivo. Se essa realidade já é um atiçado e intrincado problema, a situação atual se complica por outras razões: há uma necessidade de solucionar a infra-estrutura energética, passando de uma matriz energética dominada pelo petróleo para uma matriz energética mista. E há um segundo problema: como enfrentar a questão da renovação tecnológica de muitos setores industriais, num momento de intensa desaceleração por causa da superprodução de capital, de um lado, e a queda do consumo, por causa do alto desemprego dos trabalhadores. É por essa razão que Keynes volta. É preciso que o Estado retorne, pois não está submetido aos imperativos da lucratividade, podendo aumentar sua dívida pública, podendo controlar instrumentos de política econômica como taxa de câmbio, taxa de juros, etc., por conseqüência, pode assumir a chave da questão: o aumento do investimento. Só que é preciso tratar as coisas com doses adequadas. Claro, que isso não faz sem problemas, porque como na vida, na economia também, se segue um caminho e aparecem diversos obstáculos; se segue outro e entram diferentes barreiras. É sobre isso que estamos e iremos conversando. O André e eu.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

A CLASSE TRABALHADORA NÃO VAI AO PARAÍSO por Enéas de Souza

Os dados da economia do trabalho nos Estados Unidos se revelam assustadores. Desde novembro de 2008 foram mais de 1 milhão e setencentas mil pessoas despedidas, o que está elevando a taxa de desemprego em 7,6%. Ora para um país que chegou a ter um patamar de 4%, considerado como pleno emprego, trata-se de uma hecatombe social. Os Estados Unidos foram uma economia que além dos habitantes do país e emigrantes legais, empregavam uma quantidade expressiva de emigrantes ilegais. Esta era uma das formas de manter controlado o custo da mão de obra na economia norte-americana, sabendo que o outro fator era o preço conveniente das mercadorias que eram consumidas pelos trabalhadores, através da importação de bens dos países emergentes, principalmente da China.
A crise financeira se desdobrou numa crise produtiva, que além de causar a queda da produção das empresas dos diversos setores, provocou também um considerável movimento de "liberação" da mão de obra, seja da mão-de-obra não especializada seja trabalhadores especializados. Nestes dois contingente estão, por exemplo, 150 .000 trabalhadores do setor financeiro. O que vem a ser isso? Trata-se, antes de mais nada, de perceber o ritmo da crise com os fracassos da área financeira, em seu processo de inflação de ativos, e a superprodução da área produtiva, com uma estrutura creditícia tocando a economia para cima. Porém, a perda de vigor da dinâmica econômica se refletiu nesta onda de rescisões de contratos, que acabou somando 597.000 desempregados em novembro, 577.000 em dezembro, e agora, neste janeiro de 2009, 598.000 integrantes do mercado de trabalho. 
Quando se olha as grandes empresas de qualquer setor as programações de dispensas são numerosas, porque é preciso se dar conta que a crise continua, que ela tinha dado uma pequena parada, mas que já tomou fôlego e que recomeçou o seu compasso candente e furioso. Ou seja, as projeções, como do RGE Monitor, atingem um número completamente inquietante. Em 2009 a taxa de desemprego está prevista para 9,1%, mesmo com o pacote do Obama, o chamado plano de estímulos fiscais. Ou seja, o Estado está entrando em campo, pronto para gastar, desenvolvendo uma atitude keynesiana, com a finalidade de uma retomada da produção e do emprego. E estará também distribuindo, sob intensa crítica, volumosos recursos para solucionar a profunda crise da área financeira. Fazendo as contas macroeconômicas, nota-se que o pacote não terá a amplitude salvadora ansiada, ele será tímido, e carente de outras medidas mais fortes. Com isso, lentamente, a sociedade, o Governo e o Congresso, serão despertados para a vasta mudança que deve ocorrer tanto na economia como na política dos Estados Unidos, o que significa dizer que o comando financeiro do social vai ser progressiva e continuadamente posto em questão. E os dados sobre o desemprego mostram, com um terrível cenário, que os trabalhadores não vão ao paraíso; em verdade, terão que ir à luta.
A SOLUÇÃO POLÍTICA DA ECONOMIA E A PERGUNTA FATAL por Enéas de Souza



A economia, quando entra em crise, só se soluciona através da política. Pois, é o que está no momento ocorrendo em toda parte. O caso dos americanos é o mais importante, porque muito do futuro do mundo será decidido lá. A questão política, então, se divide em dois aspectos, a política oriunda dos grupos sociais e a política dos partidos políticos. É obvio que existe relações entre ambas. No momento, o que está ocorrendo é o desabamento do domínio político e econômico das finanças. O desastre amplo deste setor, desde os imensos problemas dos bancos tradicionais até o desaparecimento dos bancos de investimento, passando pelo prolongado "credit crunch" do sistema bancário, ainda não atingiu toda a área financeira. Porque as forças que levam a decomposição não completaram o seu trabalho. No mínimo podemos prever a possibilidade de eventos negativos nos private equitys, nos hedges funds e nos fundos de pensões. Apesar disso, a antiga dominante financeira não está derrotada. O que ela está tentando fazer é encontrar o caminho da sua sobrevivência. Mas, o seu poder que era absoluto, em função do seu falso êxito, descortina agora rachaduras, limitações e está entrando em decadência. Ora, a questão agora se transformou e pode ser formulada desta maneira: como as finanças conseguirão ainda deter o mando, mesmo na vasta confusão que estão metidos? Alcançar este objetivo significa poder conseguir uma regulação frouxa, recursos para resolver os seus balanços, dinheiro para se capitalizarem, força para comandarem as instituições nacionais (tipo FED, Secretaria do Tesouro) e instituições supra-nacionais (FMI, Banco Mundial) em função dos seus desígnios, com o mínimo de contestação possível.

Olhem bem o quadro: as finanças perderam; mas ainda estão querendo construir um futuro que balance, como no passado, plenamente a seu favor. E isso, apesar de terem errado a mão e colocado muitos grandes e pequenos investidores face a vastas perdas do seu portfolio. Existem, todavia, alguns pontos que precisam ser esclarecidos e impedem o imediato retorno senão da hegemonia financeira, ao menos de sua liderança. Qual é o sistema financeiro que vai surgir? Teremos que solução para os ativos tóxicos? Haverá possibilidade de evitar a nacionalização dos bancos? Como os bancos serão capitalizados: dinheiro público, investidores privados ou uma combinação destes dois fatores? O governo terá capacidade financeira para atender as necessidades do sistema? Qual a capacidade do governo para negociar com o Congresso e obter recursos para atender as exigências continuas dos setores financeiro, produtivo e dos trabalhadores, durante o desenrolar da crise?
Desta forma, quando a política das finanças, por divisão interna deste setor, não tem poder para definir um rumo de política econômica, essa impotência significa que não só a luta política social está aberta, mas como esta luta ecoa, grita e se embaralha no Congresso. E aí a confusão e a negociação entre toda a sociedade passam a ser intensas. O que a gente não sabe é se a força das finanças será suficiente para conseguir uma importante socialização das suas perdas e manter a acumulação de capital prioritariamente na esfera financeira ou se algumas entidades vão se salvar, mas terão que aceitar uma nova combinação social com a esfera produtiva, tendo esta uma posição bem mais relevante do que atualmente. O que a gente não sabe também é qual é a capacidade do Estado de gerir toda a dimensão da crise e propiciar as classes médias e trabalhadoras mais benefícios socias. Estas perguntas e obsservações nos levam a pergunta fatal: quanto tempo vai levar para que as tendências descendentes da economia americana encontrarão as múltiplas forças que a farão reverter para um novo ciclo de crescimento?

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Summers versus Volcker: mau sinal

Segundo a Bloomberg, Summers está conseguindo escantear Volcker das discussões sobre o plano de resgate do sistema financeiro dos EUA. Volcker é o único outsider do grupo, alguém de quem se pode discordar das idéias sobre economia, mas que não tem uma ligação mais direta com o sistema financeiro e seus atores. Ou seja, é o único que pode contribuir para uma decisão menos colusiva entre os interesses do governo dos EUA e do estabilishment financeiro. Caso desista da empreitada, será mais um mau sinal.
Link para o artigo:
UMA ESTRATÉGIA PARA O BRASL DIANTE DA CRISE por Enéas de Souza



A queda da produção da indústria, revelada ontem, deu, no país, mais um choque de realidade da crise. Um choque progressivo de que a crise está aí, está nas fábricas, está nos shoppings, está nos restaurantes, está nas lojas, ela está nos espiando com seu rosto soturno e triste. Estes dados da indústria nos mostram uma forte desaleração deste setor e lembram que já existe um crescente desemprego. Mas, é tempo de férias. E então existe um certo descompasso entre o ritmo da crise e o ritmo das pessoas. O choque não parece tão poderoso quanto de fato é. Mas, quando março chegar, a crise vai desabar nas questões econômicas e nas conversas de todo o mundo. Enquanto isso, o governo já anuncia medidas via PAC e via BNDES para incrementar tanto o investimento público quanto o investimento privado. E aqui, segundo nossa perspectiva, está o nervo exposto da questão.
O Brasil precisa ter uma estratégia. Ela deve começar por tratar da inserção do país no mundo. A crise é uma "janela de oportunidade" como costumam dizer certos enfadonhos economistas e administradores. Ou seja, dito de outro modo: esta é a hora, este o momento. Temos que ter claro qual será o papel do Brasil na nova divisão internacional do trabalho. Está absolutamente claro que a desordem mundial vai propiciar uma nova ordem. mas quanto tempo vai levar para tal, não é possível prever. Mas que vai ter uma nova ordem, vai. E do ponto de vista econômico, o que o país precisa é uma estratégia adequada, a partir de um verdadeiro conhecimento de sua situação. É preciso adequar nossos meios a esta nova estratégia.
E o que vemos nesse momento, é que é indispensável a presença significativa do Estado no investimento, já que o investimento é o que liga o presente ao futuro, transformando-o. E o investimento público é aquele que não precisa da motivação do lucro, é um investimento auatônomo, está fundado nas necessidades da nação e da sociedade. Ora, para isso, é preciso urgentemente retornar a um projeto nacional baseado na citada estratégia acima assinalada. E com isso, substituir um modelo financeiro de acumulação de capital por um modelo de crescimento produtivo do Brasil inserido na economia mundial.
De que jeito? Reorganizando o Estado para este novo modelo. Em primeiro lugar, dando ao Estado instituições e capacidade para estabelecer este novo projeto. Significa, então, reorganizar a sua estrutura. Em segundo lugar, dando unidade de ação ao próprio Estado, o que significa que todo o governo, inclusive o Banco Central, atuem na direção do desenvolvimento e não para definir políticas favoráveis a rentabilidade das finanças. Em terceiro lugar, começar a trabalhar para a implantação deste modelo, o que deve fazer valer a estratratégia proposta, que visa, é preciso esclarecer, tanto a inserção do Brasil no mundo como a construção de uma sociedade com desenvolvimento social avançado e profundamente atual. Por isso, há um quarto ponto, o Brasil precisa pulsar politicamente. E a política se faz com uma vasta discussão nacional e com organização das múltiplas frações da sociedade. É preciso de não ter medo de discutir e debater. E o Estado deve integrar no seu interior esta dinâmica brasileira. Por isso, está na hora de buscar este novo modelo de desenvolvimento, sabendo-se que a arma do tiro inicial está ai e está dada: o investimento público.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Martin Wolff está bem assustado... Roubini também...

Interessante a coluna de Martin Wolff sobre Davos... Ele coloca corretamente que a solução tem de vir dos EUA... Ele diz que a estratégia de Obama tem de rapidamente solucionar os problemas das instituições financeiras dos EUA e trazer um plano que enquadre o resto do mundo. Está difícil, ele reconhece. Mr Wolff está pessimista com o que vê. Dadas as notícias sobre as discussões quanto ao plano de resgate financeiro norte-americano, essenciais para os EUA e economia mundial, ele tem razão.
Roubini tem um post ontem na mesma linha, dizendo que as chances dos EUA sofrerem uma estagnação à la japonesa vem aumentando. Ele propõe que o plano norte-americano tem de ser de choque, envolvendo a liquidação das instituições financeiras insolventes. O que tem vazado até o momento vai na direção de uma postergação da solução desse problema. Tanto o plano de criar um bad bank sob comando estatal no qual as instituições insolventes possam depositar os ativos tóxicos quanto a idéia mais recente de uma garantia estatal para os ativos tóxicos apenas empurram o problema para mais adiante. Isso foi feito no Japão com resultados desastrosos.
Fica a questão: se Obama com sua legitimidade não consegue confrontar os interesses da atual elite dirigente de Wall Street, quem conseguirá? A economia sempre foi e sempre será política acima de tudo...
Links para os artigos:
A CRISE E O PACOTE AMERICANO por Enéas de Souza.

A crise mundial se desenha complexa. Primeiro, é preciso deter a crise americana e começar a revertê-la para um caminho de recuperação. No lado financeiro, continuam obstáculos poderosos: não se definiu um desenho para o novo sistema, não se encontrou um plano de regulação (uma Basiléia III, capaz de prevenir o risco sistêmico), não se completou a recapitalização dos bancos, não se solucionou a presença de ativos tóxicos nos seus patrimônios, o crédito continua em "crunch",etc.. No lado produtivo, o pacote aprovado na Câmara ainda está dependendo de decisão do Senado. O pacote é pouco, mas é um começo. Porém, existem senadores contra , talvez até democratas. Se o plano for derrotado, a crise dará mais um passo descendente, sem nenhuma força ascensional. E a aprovação é urgente, pois além de outras ajudas (educação, saúde, etc), prepara-se um aporte de mais de 300 bilhões de dólares para obras públicas. Seria uma medida tentando contrabalançar a crescente queda da produção e do emprego. As últimas notícias sobre a GM, Ford e Toyota são aterradoras, com quedas altamente expressivas nas suas atividades . Nesse sentido, a tendência ao aumento da crise é vasta e perigosa. E dado o efeito progressivo dos Estados Unidos no mundo, o resultado é um decréscimo desalentador, mesmo se existem promessas de programas de recuperação em vários países. Porque o problema nesta era do capital financeiro com os programas de recuperação é que o que se tenta sustentar é antes de mais nada o sistema financeiro, buscando o retorno do esperançoso crédito. Mas, não basta esse reformulação das finanças, a lógica do desenvolvimento produtivo tem um lado próprio e inarredável. E se esta não for transformada, realimentada, reformulada, e mesmo preparada para introduções tecnológicas, energéticas e organizacionais, a crise prosseguirá avassaladora. Por isso, o pacote é apenas uma aspirina, o que sempre pode diminuir a dor. Daria, não resta dúvida, para um pequeno recomeço, proporcionando um pequeno fôlego, para que novas idéias, novas ações, novos pensamentos pudessem ser dispendidos tanto para tratar de apagar o incêndio do desastre financeiro e produtivo, como para dar um novo impulso à economia como um todo. Se isso acontecesse, a economia mundial agradecia. Desde a China ao Brasil.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Mais do mesmo resolve?

Pedersen e Roubini propõem no Financial Times que as técnicas que medem os riscos no interior dos bancos sejam aplicadas pelos reguladores para medirem a imputação de cada banco ao risco sistêmico. Assim, ao exigir-se a capitalização de cada banco conforme sua constribuiçao ao risco do sistema, esse estaria suficientemente capitalizado e, em caso de falência bancária, não representaria grande esforço fiscal para evitar a contaminação do sistema como um todo.
Dois problemas: a)as medidas de risco atualmente utilizadas são pró-ciclícas e utilizam o valor dos ativos no passado como projeção desse valor no futuro; b) os balanços dos bancos controlados pleos reguladores não incluem o total de suas exposições. A solução "mais do mesmo" no atual estado da regulação bancária somente transfere os problemas individuais para outro nível ainda maior. Dentro de um amplo conjunto de reformas que virão, esse item pode voltar a ser novamente analisado, mas esperemos que Basiléia III seja bem mais do que isso. Dessa vez, pisada na bola de Mr. Roubini!
Link para o artigo:

Modelo japonês

O Japão é o país mais afetado até o momento pela crise financeira global. A produção industrial vem caindo cerca de 10% mês contra mês e já totaliza mais de 30% de perdas, o que faz com que o total produzido nos últimos 12 meses esteja ao mesmo nível de 1983! A produção de automóveis vem liderando a queda, devendo se reduzir à metade em 2009 frente ao ano passado.
O modelo japonês de produção industrial foi vitorioso e copiado no mundo inteiro, o que retirou a vantagem competitiva das empresas japonesas. Isso ocorreu em conjunto com a hegemonia financeira a partir dos anos 1980. O próprio sucesso chinês foi construído como uma extensão internacional desse modelo.
A derrocada da globalização financeira não significará o insulamento da produção e uma nova forma de relacionamento entre capital e trabalho, com uma nova organização produtiva? As relações entre o finanças e produção e seu impcato são uma das consequências menos discutidas das trasnforamações a economia mundial após os anos 1980. Seu desconhecimento não permite soar o alarme quanto às consequências da crise sobre a localização e o modo da produção mundial. O Japão talvez seja centro dessas mudanças. O que funcionava antes, talvez agora dê um efeito contrário. Afinal, a idéia central do ponto de vista da acumulação do capital não era liberal capital imobilizado era permiti-lo girar mais rapidamente? Pois bem, nesse momento esse caital "excedente" está sendo destruído com a desalavancagem do sistema financeiro.
A notícia detalhada sobre a economia japonesa pode ser vista em

Nova Fase

O Econobrasil está enrando em nova fase. O blog passa ser dividido entre os economistas André Scherer e Enéas de Souza e manterá o estilo de um diálogo sobre os mais diversos temas que seguem sua proposta inicial, com a diferença de que focalizará especialmente a crise financeira global.

Com isso buscamos dar mais regularidade e agilidade ao blog.

Boa diversão a todos!

sexta-feira, outubro 19, 2007

A crise de crédito global e a globalização financeira

A Crise de Crédito Global: uma crise da globalização financeira[1]

A partir de meados de julho de 2007 o mundo financeiro tem sido fortemente chacoalhado por uma sucessão de eventos cuja gravidade não pode mais ser negada ou escondida. Palavras e siglas dantes desconhecidas ou de uso restrito dos especuladores mais diretamente interessados passaram subitamente às primeiras páginas dos cadernos financeiros e foram ouvidas dos lábios de embaraçados apresentadores no mundo blasé e eternamente cor-de-rosa do telejornalismo financeiro. Subprime, ABS, MBS, CDO, ABCP, CDPO e tantas outras siglas e expressões oriundas do mundo mágico da finança global, passaram a rimar com expressões bem mais antigas e conhecidas, com as quais o capitalismo ciclicamente nos brinda: crise, recessão e desemprego, dessa vez com sua origem na principal economia mundial, os Estados Unidos.
Paradoxalmente, a “sopa de letras” confunde e explica ao mesmo tempo. O mundo financeiro se tornou intencionalmente complexo e opaco, fonte de enormes lucros para “espertos” donos da melhor informação e do menor esforço. A chamada “alavancagem” – tomar empréstimos para assumir uma posição especulativa mais rentável em busca de um lucro diferencial ­– é hoje tão normal quanto acordar pela manhã, mesmo que, ao multiplicar ganhos nos momentos de alta, também possa inflar enormemente os prejuízos quando os ventos passam a soprar na direção oposta. E nesse caso, mesmo ventos inicialmente de pequena intensidade são capazes de gerar, na medida em que se intensificam com o acúmulo de prejuízos, estragos de grandes proporções.
Trata-se da primeira crise cujas características decorrem exclusivamente das especificidades do mundo financeiro criado a partir dos anos 1980, momento onde a confluência da desregulamentação com as novas tecnologias da informação liberaram forças cuja contenção escapa inclusive aos Bancos Centrais. A securitização e os derivativos – instrumentos de repartição do risco em um mundo cada vez mais incerto – predominam na busca da proteção, mas também nas “apostas” especulativas. Os fundos de investimento, de pensão, hedge e private equity proliferam e espalham esses títulos pelo planeta, interligando geograficamente mercados aparentemente distantes. Os bancos, procurando fugir das regras que lhes garantiriam a solvência em tempos de crise, criam seus próprios fundos para poderem conceder empréstimos acima dos limites prudenciais. As agências de notação – aquelas que dão notas e opiniões inclusive quanto à capacidade de solvência de países soberanos – participam da festa, chancelando como “seguros” títulos frutos da chamada “engenharia financeira”, cujas características lembram mais um desengonçado Frankenstein, a partir da cobrança de “módicas comissões” que engordam seus crescentes lucros. E tudo isso se passa sem que os Bancos Centrais possam ter uma visão sobre quem “carrega” esses títulos mais perigosos, conhecidos no mercado financeiro pelo sugestivo apelido de “lixo tóxico”.
E o que temos ao final se não uma enorme e perigosa “cascata de dívidas”, onde a inadimplência de um agente se reflete na capacidade de outro em honrar seus compromissos? E como saber quais são os títulos “podres” e as instituições em perigo quando a securitização e os derivativos espalharam os riscos em todas as direções e em diversas partes do mundo, sem supervisão adequada, a partir da confiança nas supostas virtudes da auto-regulação? A incerteza emerge com força inaudita nessa crise contemporânea, paralisando mercados tidos até ontem como “a salvo”, transformando a busca pelos ativos “infectados” em algo muito parecido ao jogo infantil onde se busca encontrar o “Wally” em meio a uma miríade de títulos que podem ou não estar contaminados. A desconfiança mina assim a fluidez de mercados e traz a possibilidade de crises que abalem tanto à saúde das instituições financeiras quanto à capacidade de crescimento do consumo, afetando as empresas ditas “produtivas” com a possibilidade de uma recessão.
Todas essas características gerais que demonstram a insanidade da formação de um complexo sistema que parte da acumulação de capital fictício com o único objetivo de geração maior de capital fictício que caracteriza o capitalismo financeiro contemporâneo (circuito reduzido D-D’ em Marx, caracterizado como a forma fetichista máxima da acumulação de capital), aparecem quase caricaturalmente na crise atual.
Vejamos então o que tem ocorrido e como uma crise com origem no setor imobiliário norte-americano pode abalar profundamente as estruturas do sistema financeiro global. A crise que abalou as bolsas norte-americanas em 2000/2001 foi superada a partir de grandes reduções nas taxas de juros daquele país. Isso incitou, de parte das famílias, a uma retomada em seu endividamento. Com a confiança nas bolsas de valores abalada pelas recentes perdas, os novos empréstimos direcionaram-se especialmente ao setor imobiliário, o que elevou os preços das residências. Na medida em que esses preços aumentaram, foi possível às famílias refinanciarem esses empréstimos e tomarem mais recursos tendo como contrapartida seus imóveis, destinando parte desses recursos ao consumo em geral, o que possibilitou uma nova rodada de crescimento baseada na elevação do consumo.
Com o passar do tempo, com os preços dos imóveis em elevação, as exigências para concessão de crédito foram relaxadas, ao mesmo tempo em que se criaram novos “produtos’, com facilidades iniciais de pagamento aos tomadores de empréstimos que se constituem em verdadeiras “bombas-relógio”, com contratos que contemplam a abrupta possibilidade de elevação nos preços das prestações. Esses contratos são revendidos aos bancos que conformam com eles novos títulos (ABSs ou MBSs) para serem novamente revendidos aos fundos e aos bancos de investimento. Os bancos de investimento misturam esses títulos vendidos pelos bancos comerciais a outros, criando um novo papel (CDOs) que são revendidos aos fundos do mundo todo, com a benção das agências de notação. Esses fundos muitas vezes tomam novos empréstimos dando como contrapartida esses papéis. Podemos notar que esses “investidores” estão bastante distantes dos compradores dos imóveis que deram origem ao primeiro contrato de hipoteca, o que possibilita comportamentos “agressivos” quanto ao risco de todos os envolvidos nessa cascata de títulos.
Mas a história ainda continua. Bancos comerciais do mundo todo criam fundos e tomam recursos nos mercados de curto prazo a juros mais baixos, investindo-os em CDOs de prazo mais longo e maior rendimento, colocando em risco mercados monetários essenciais para o dia a dia financeiro das empresas produtivas.
Com o declínio no preço dos imóveis a partir de 2006 e o aumento da inadimplência nas hipotecas, todo o ciclo se reverte. O valor dos títulos emitidos a partir das hipotecas (MBSs e CDOs) cai abruptamente, uma vez que o fluxo de pagamentos gerado por esse empréstimos se torna mais instável. As perdas se acumulam e “pipocam” casos de falência de fundos e problemas bancários em várias partes do mundo (Alemanha, Inglaterra, Canadá, Nova Zelândia, Austrália, etc.). Fica claro o comportamento irresponsável e ganancioso das agências de notação ao certificar a “segurança” dos títulos emitidos a partir da revenda das hipotecas. Os mercados monetários se fecham, os juros de curto prazo sobem e os bancos passam a desconfiarem uns dos outros, evitando a concessão de empréstimos entre si. Resta apenas a intervenção estatal, a partir de empréstimos dos bancos centrais, para evitar o colapso. Os apologistas “modernos e ousados” do livre-mercado se convertem em bebês chorões, em busca dos recursos salvadores oriundos dos impostos dos contribuintes. Tal qual piromaníacos arrependidos, chamam pela intervenção salvadora dos bombeiros.
Assim se compreende a intervenção dos Bancos Centrais, na tentativa de dar a liquidez necessária para a volta à normalidade dos diversos mercados. Mas a confiança está quebrada, a crise imobiliária norte-americana apenas em seu início, o mercado de crédito não poderá mais ser o mesmo dos últimos anos. Trata-se de uma crise de longa duração – fenômeno admitido em setembro pelo mesmo FMI que em abril dizia não haver risco de crise maior –, a mais grave do capitalismo financeiro contemporâneo, com reflexos econômicos e políticos que apenas o futuro poderá nos revelar. A possibilidade de crescimento mundial com uma crise no consumo norte-americano será brevemente desmentida. Os efeitos da agressiva redução nos juros norte-americanos se revelarão passageiros. O entusiasmo dos especuladores com os “mercados emergentes” das últimas semanas será revertido. Os ganhos com as ações nas bolsas de valores não se manterá e o ano de 2008 marcará o fim das ilusões quanto às possibilidades de um “desendividamento indolor”.
Estamos apenas no início. Devemos estar preparados para aproveitar as oportunidades políticas que se abrirão com essa crise em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil, país completamente entregue à hegemonia dos bancos e da especulação financeira. Infelizmente, muitos que não se beneficiaram em nada com a especulação pagarão a conta da crise. Trata-se de uma das características mais perversas do capitalismo financeiro contemporâneo, que deve despertar a indignação de todos aqueles que buscam uma sociedade com maior justiça e igualdade. A compreensão dos eventos contemporâneos deve ser a base para a ação conseqüente e eficaz na luta contra mistificação ideológica dos benefícios do livre-mercado.

[1] Artigo publicado no jornal Página 50, em outubro de 2007.

domingo, setembro 09, 2007

Antes tarde do que nunca...

Uau! Finalmente aparece uma explicação minimamente conectada com a realidade da crise de crédito global na mídia brasileira (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi0909200716.htm , acesso pago). Ela foi produzida por Vinicius Torres Freire, na FSP de hoje, 09/09... Segue uma parte da matéria, que toca em elementos essenciais da crise de crédito global (SIV's e CDO's e sua relação):
"BANCOS NAS sombras" e estratégias financeiras exóticas multiplicaram os efeitos da crise imobiliária dos EUA. "Banco nas sombras" é um apelido para entidades criadas a fim de multiplicar o volume de operações que os bancos estão legalmente autorizados a realizar. Trata-se dos "conduits" e de "structured investment vehicles" (SIVs, veículos de investimento estruturado), criados por bancos e firmas de "private equity". Os "conduits" emitem (vendem, tomam empréstimo) "commercial papers" (notas promissórias, papéis de curto prazo) a empresas e investidores. Compram papéis de longo prazo, como títulos lastreados em dívidas de hipoteca ou CDOs ("collateralized debt obligations", obrigações de dívida garantida por ativos), papéis cuja rentabilidade e valor é garantida por recebíveis, títulos de dívida imobiliária e outras.
Um objetivo de "conduits" e SIVs é ganhar com a diferença entre a rentabilidade dos "commercial papers" e a dos títulos de longo prazo. Os bancos criam e administram os "conduits", dos quais recebem taxas. Tais transações não estão no balanço dos bancos, que assim podem extrapolar o limite legal de empréstimos e exposição a risco. Os bancos, porém, cobrem os "buracos negros", as eventuais perdas dos "conduits". Esses instrumentos financeiros facilitaram o direcionamento do dinheiro abundante para negócios de risco, como hipotecas de segunda linha ("subprimes"). Mas a crise nunca foi mero problema imobiliário. "
Mas saudemos, parece que agora teremos notícias mais consistentes sobre o que está acontecendo no mundo financeiro. Oremos!

sexta-feira, setembro 07, 2007

Problemas com o carry trade do Yen... problemas para o Fed

Feriadão no Brasil... mas lá fora a coisa pegando fogo... literalmente, eheeh...
O dólar se desvalorizou fortemente frente ao Yen hoje (-2 % no momento em que escrevo)... não estranhamente, a bolsa caiu fortemente em NYork hj... E mais, algo que não vinha acontecendo, o dólar nessa semna voltou a se desvalorizar frente ao Euro.
Prosseguindo nessa queda, o dólar coloca o Fed em um dilema: cortar os juros e correr o risco de uma desvalorização mais forte da moeda norte-americana que tornariam impossível a continuidade dessa operação de alívio aos combalidos mercados monetários (embora de duvidoso êxito), ou deixar tudo como está? A notar que vários ativos em bolsa estão sendo liquidados no Japão por fundos necessitados de liquidez, em um momento em que a confiança e os empréstimos "secaram"... Mas, sem o dinheiro oriundo do Japão, pode-se esperar fortes quedas nas bolsas de valores norte-americanas, alimentadas que foram por esse afluxo de capitais... Ou seja, o risco de pânico é grande e garantia de eficácia do corte dos juros inexistente...
Por outro lado, não cortar os juros em 18/09 corresponde a desapontar imediatamente àqueles que no dia de hoje, dado o aumento do desemprego nos EUA, clamavam por uma redução de 50 pontos bases na taxa básica de curto prazo já na próxima reunião... Certamente uma decisão nesse sentido colocará o mercado acionário em grandes dificuldades, uma vez que grande parte do seu fôlego tem advindo da esperança de um corte dos juros na próxima reunião do Fed. Embora essa crise não seja oriunda do mercado de ações, sua amplitude somente se tornará palpável às grandes massas na medida em que esse seja atingido mais fortemente, o que INEVITAVELMENTE tende a ocorrer em futuro não tão distante (dou no máximo seis meses, mas pode ser na próxima semana).
Interessante que, faz apenas 45 dias, nada disso era problema ou iria acontecer. A retórica era de que, caso ocorresse, o problema ficaria restrito ao mercado imobiliário dos EUA, mais especificamente ao "pequeno" segmento subprime desse mercado. Em pouquíssimo tempo, a maioria dos analistas minimamente sérios fala de uma "crise de crédito global", e os problemas surgem de todo lado, principalmente na Europa e nos EUA. O principal diz respeito aos instrumentos que interligaram o mercado de commercial papers com o mercado de derivativos de crédito e que tem atemorizado às praça financeiras européia e norte-americana.
E se começam a discutir amplamente as enormes falhas regulatórias do sistema. Tem gente achando que com a regulação da época de Bretton Woods era feliz e não sabia! Só agora descobriram os óbvios "furos"? E as virtudes da "auto-regulação", onde ficaram? Deixar o capitalismo nas mãos dos capitalistas, uma excelente idéia para a destruição TOTAL do sistema (o subversivo Hayek como inimigo mortal do capitalismo, que tal?)! A sorte desse pessoal é que eles são pragmáticos: na hora crise eles se lembram do Keynes e do Minsky... e quando a coisa se aprofundar, vão desenterrar o "velho barbudo", fazer o quê? Querem apostar? Karl Marx, economista do ano... 2009!
Aliás, tem uma artigo emblemático no dia 05/09 na página da Bloomberg: um gestor de fundos acusa "os pobres" pela crise! Segundo ele, "pobre não tem respeito pelos nosso dinheiro"! Afinal, quem mandou os filantropos de W. Street quererem ajudar esse pessoal a comprar casa? Deveriam tomar alguma lição aqui pelo Brasil, farol do capitalismo mundial! Aqui, pobre não tem nem CPF, que dirá empréstimo! E banqueiro brasileiro só empresta "consignado", rs...
No Brasil, ainda nessa semana, teve analista anunciando no jornal Valor Econômico "que a crise já terminou". Vocês escutarão essa profissão de fé várias vezes ao longo do próximo ano... ao menos o tratamento inadequado de nosa mídia à problemas sérios não apresenta nenhuma novidade àqueles que possuem algum espírito crítico. Para quem defende até a existência e a necessidade de "agências reguladoras", as práticas e as fraudes das agências de notação devem parecer o "supra-sumo ideal da modernidade", um exemplo "a ser copiado com urgência", afinal, é por isso que "não merecemos mesmo viver em um país de primeiro mundo". A pergunta sempre volta e a resposta me é impossível: será ignorância ou má-fé? Na falta de convicção, fico com as duas alternativas acima, ehehehe...

sábado, setembro 01, 2007

Mishkin acha possível uma saída à la Greenspan

http://www.ft.com/cms/s/0/71958a68-58a7-11dc-b883-0000779fd2ac.html

Conofrme noticia publicada no Financial Times de 01/09, Frederic Mishkin, Fed Governor, pensa ser possível uma saída à la Greenspan para a crise global de crédito.

Focalizando essencialmente os EUA, o que é normal em se tratando de um economista do Fed, F. Mishkin defendeu, no encerramento do encontro em Jackson Hole - onde entre uma caminhada em montanhas pedregosas e um jantar regado aos melhores vinhos os principais economistas dos EUA encerram o verão à cada ano - uma resposta monetária agressiva aos efeitos que a queda nos preços residenciais nos EUA podem ter sobre o crescimento (leia-se consumo) da economia norte-americana. segundo o argumento, existe um tempo suficientemente grande entre a queda nos preços dos imóeis e seu reflexo sobre o consumo para que uma redução da taxa de juros possa surtir efeito.

Segundo o economista, as inovações financeiras e a "criatividade" dos gestores de fundos, conjuntamente com a desregulamentação, prmitiram a expansão do crédito, com o aprofundamento do sistema financeiro sendo "vital" para o sucesso econômico a longo prazo, embora o truncamento das informações possa representar instabilidade à curto prazo. Traduzindo: Mishkin acredita que uma resposta imediata e suficientemente grande em termos de redução das taxas de juros podem fazer com que a máquina do endividamento norte-americano continue girando, com o consumo puxado pela expansão do crédito continuando a dinamizar a economia.

Subjacente a essa saída, que minimizaria os efeitos da queda do preço dos imóveis sobre o crescimento econômico, encontra-se a formação de uma nova bolha especulativa. Trata-se da tentativa de repetição do mecanismo utilizado por Greenspan para impedir que o estouro da bolha da Nasdaq tivesse uma repercussão forte sobre a economis dos EUA. Formou-se assij a bolha imobiliária, que agora termina com a o desiflar do preço ds imóveis.

Interessante é que o mesmo Mishkin lembrou que nas experiências anteriores a bolha não se formou no setor imobiliário e que o Fed não tem experiência a esse respeito...

Pessoalmente, eu acredito que uma forma de minimizar os efeitos da queda dos preços dos imóveis é baixar os juros e que isso nãotrará grandes repercussões sobre o valor do dólar, ao contrário, poderia até mesmo, na medida em que fosse entendido com a possibilidade de um maior crescimento na economia norte-americana, acabar valorizando o dólar... Obviamente teríamos o deslocamento da riqueza financeira para uma nova bolha, provavelmente no preço das ações, com novo efeito riqueza e mais consumo... nada de novo no front, seria uma resposta á la Greenspan: não resolve nada, mas o mundo gira no mesmo sentido por mais um tempo até um novo estouro que encontrará as fundações ainda mais abaladas, mas, quem acredita que o futuro existe ou importa para o mundo financeiro especulativo?

Em compensação, uma resposta tímida da economia à redução agressiva dos juros levaria à ineficácia da política monetária e, provavelmente, a uma recessão deflacionista, o pior dos mundos para o Fed. Notar que o estado da confiança entre os agentes no mercado financeiro é muito ruim no momento, os problemas com commercial papers se mantém grandes, o mercado de crédito corporativo está ainda fechado com mais de US$ 300 bilhões de acordos em papéis invendáveis prontos para ingressar no balanço dos bancos, mais de 2000 fundos hedge com perdas elevadas em agosto (ativos totais no valor de US$ 1,5 trilhão), aproximadamente 150 mortgage lenders já fechados, várias famílias sendo despejadas...

Voltamos à discussão: trata-se de uma crise de insolvência ou liquidez? Em caso de crise de liquidez, a abordagem de Miskin, caso adotada, funcionará... Se for insolvência, tese para a qual existem sobejas evidências e defensores inclusive em órgãos do governo norte-americano - sendo matriz teórica inclusive da recente e tímida proposta de ajuda do Bush ao setor imobiliário - poderemos ter inclusive uma agravamento do processo e a rápida perda de uma das armas que o Fed teria ao seu dispor.

Vamos ver se Bernanke tem coragem de apostar tão alto quanto Mishkin propõe...

quinta-feira, agosto 16, 2007

Desalavancagem global passa pelo yen

O que ninguém está se dando conta no Brasil (e mesmo na Europa pelo que tenho lido): a desalavancagem global passa pelo câmbio yen/dólar! Hoje, a valorização do yen frente aodólar atinge quase 2%... Isso afeta quase definitivmente o chamado "carry trade do yen", ou seja, a operação pela qual os fundos hedge e bancos de investimento tomavam dinehiro emprestado em yens à taxas baixíssimas de juros e aplicavam esse recurso em operações mais lucrativas ao redor do mundo... O Brasil com suas taxas de juros elevadíssimas, foi um dos receptores desse capital. A valorização do yen retia a lucratividade dessa operação e força ao pagamento da dívida, para isso esses fundos devem encerrar outras operações ao redor do mundo (onde o dinheiro foi aplicado), forçando baixas nas ações e títulos onde estão aplicados... Ninguém sabe quanto dinheiro está envolvido no carry trade do yen, mas dadas as correlações observadas entre o câmbio yen/dólar e a cotação das bolsas de valores dos EUA (em particular a S&P 500) em 2007, pouco não é... Uma estimativa: cerca de 1 trilhão de dólares. e hoje o Bank of Japan agiu nbo sentido de limitar a liquidez no mercado, "desalavacando-se" também... A BofJ é conhecida por suas trapalhadas e ações desastradas, com participação nas crises japonesas de 1990 (criada pela instituição mesma), na crise asiática de 1997 e agora, na crise de crédito global (estimuloada por suas baixíssimas taxas de juros).

Japonês é bom na indústria, mas na finança eles são um fracasso total!!!! Vão ficar mais 20 anos pagando essa conta...

sábado, agosto 11, 2007

Atualização

Eu cometi um erro no post anterior. São 116 e não 126 as mortgage lenders norte-americanas fechadas até o momento. Em compensação, já são 11 os fundos hedge falidos...

Os prinicpais Bancos Centrais do mundo coordenaram ações de injeção de liquidez na quinta e, principalmente, na sexta-feira. O FED aceitou como garantia pela primeira vez APENAS mortgage backed securities, os papéis que hoje se encontram sem cotação no mercado devido à desconfiança sobre seu valor e a onda de inadimplência no setor imobiliário. Ou seja, nesse momento seu valor de mercado é ZERO! Na terça-feira veremos se existe a necessidade de operações ainda mais vultuosas envolvendo os mesmos papéis. Nesse caso, tratar-se-á de INSOLVÊNCIA e não de ILIQUIDEZ o cerne do problema de crédito. Provavelemente ao menos um grande banco deixará de existir nesse processo...

Interessante que esse pessoal dos fundos ganhou, no ano passado, a título pessoal, vários bilhões de dólares e agora pedem ajuda às "otoridades" públicas... Aliás, será que o FED não se interessa em injetar alguma liquidez nos pobres devedores do terceiro mundo? Sou candidato à ajuda e como garantia estarei depositando um coador de café de papel, usado é claro... Vale tanto quanto ás MBS's que eles caeitaram dos bancos...

quinta-feira, agosto 09, 2007

O medo da "cascata de desalavancagem sistêmica"

Está ficando divertido! Bastante interessante até... para um observador apenas com interesse acadêmico, a crise de crédito global que se inicia é um prato cheio, embora possa causar mais dor do que qualquer outro evento ocorrido no mundo nesses quase 30 anos de globalização financeira...
Algumas características que apontam para o fato de que a coisa não é tão simples como pode parecer aos mais ingênuos:
- a crise parte dos EUA, centro do sistema financeiro mundial;
- a crise atinge o mercado de crédito, na realidade o único mercado existente na época em que todos os ativos são de natureza financeira;
- a crise de crédito tem origem na utilização dos imóveis como instrumento de especulação financeira, fato ligado historicamente à bolhas de preços de dificílima correção sem gerarem uma depressão econômica profunda;
- a crise ocorre em um momento de profundo desequilíbrio nas relações financeiras entre os EUA e o resto do mundo, onde o déficit em transações correntes norte-americano já atinge à 6% do PIB daquele país, o que como contrapartida uma elevação na detenção de reservas em dólar de parte do resto do mundo.
Em realidade, bastariam os dois primeiros fatores para termos consciência da gravidade da situação. A economia capitalista É CRÉDITO. Na globalização financeira, toda a lógica de atuação dos "agentes econômicos" se pauta pela busca da rentabilidade e da liquidez máximas, concomitantemente, fazendo com que a gerência dos ativos "não-financeiros" também adquira essa lógica. Ou seja, todos os ativos (empresas e imóveis, para citarmos o mais comum), passam a serem gerenciados e transacionados a partir de uma lógica que obedece às características da finança.
Sendo assim, qual a medida nos permite reconhecer o sucesso dessa estratégia de genreciamento e de valorização? O acesso privilegiado das empresas ao mercado de crédito! Ou seja, e correndo o risco de dar passos largos demais para permitirem a compreensão dos não iniciados ao que estou dizendo, o único negócio atual para as empresas não financeiras é seu acesso ao crédito!!!!! Elas interessam enquanto ativos quando têm acesso ao mercado de capitais. É isso que determina sua vida ou morte, sua força ou fraqueza... vejam então que a importância do acesso ao crédito é crucial no capitalismo contemporâneo, embora o acesso ao crédito SEMPRE tenha sido fundamental em qualquer época da história da economia capitalista.
A formação da bolha de crédito global
Aqui, mais uma vez, resumo e passo rápido. Em 2001, abalado pelo 11/09 e pela explosão da bolha especulativa da NASDAQ, bolsa de ações das empresas de alta tecnologia nos EUA, o FED baixa fortemente sua taxa de juros. Esse movimento, em sua seqüência, vai dar origem a uma nova bolha especulativa capaz de manter o consumidor norte-americano em atividade. A excessiva liquidez vai possibilitar uma explosão de investimentos e de preços no setor imobiliário daquele país, com os imóveis sendo utilizados como ativo especulativo.
As características do mercado de crédito daquele país possibilitarão, assim, um refinanciamento das famílias a partir da assunção de hipotecas cada vez maiores (uma vez que o preço dos imóveis aumenta) e com baixas taxas de juros, permitindo que esses recursos transbordem ao consumo, mas também à novos investimentos especulativos, principalmente no mercado de ações.
Essas aplicações realimentarão o mercado acionário, ao mesmo tempo em que o mercado de crédito viverá dias de farta possibilidade de colocação de títulos ao redor do mundo. Esse processo é alimentado em sua escalada global pelos desequilíbrios gerados pelo excesso de consumo norte-americano e sua contrapartida em poupança (reservas) pelos outros países do mundo, em especial os países da Ásia, como China e Japão. Além disso, a possibilidade ofertada de tomar empréstimos muito baratos em países como o Japão, também deslocar enormes massas de capital em busca de valorização para outros países, trazendo, por exemplo, efeitos sobre a valorização da moeda brasileira.
Não podemos esqucer que os agentes principais na tomada desses empréstimos são so fundos hedge, de atuação eminentemente especulativa ao redor do globo, interconectando geograficamente os mercados de distintas regiões. Também surgem como importantes na primeira metade da década os fundos de private equity, responsáveis pela compra de grandes empresas para sua posterior "reestruturação" e revenda.
Esses agentes operam de forma fortemente alavancada. A alvancagem é um termo financeiro que indica que oa gente toma crédito para realizar uma determinada operação com montante maior do que o capital inicialmente disponível, ou seja, toma crédito para empregá-lo em operações que devem ter como resultado um maior lucro. Esses fundos possuem um grau de alvancagem que varia muito conforme a estratégia de investimento, mas é bastante normal que para cada dólar próprio eles girm um montante 20 vezes maior com base em créditos obtidos. Esse número pode chegar até a mais de 100 vezes o valor do capital próprio, mostrando que muitas vezes os aplicadores realmente não conhecem o riscos que correm...
Esse crédito tem sua expansão viabilizada e amplificda pela utilização massiva dos instrumentos derivativos. Esses permitem uma enorme criação de crédito, uma vez que apenas uma parcela do capital envolvido é efetivamente colocada "em jogo", ao menos em épocas de operação normal dos mercados.
Esses agentes e esses instrumentos é que vão estar no epicentro da crise que ameaça paralisar o mercado mundial de crédito.
A crise imobiliária nos EUA
Evidentemente, na medida me queo preço dos imóveis subiu, mais investimentos forma sendo alocados no setor. Ao mesmo tempo, principalmente após 2005, estando a crença estabelecida de que o preço dos imóveis apenas se moveria para cima, foram relaxados toda e qualquer norma para a concessão de hipotecas. Assim, créditos forma concedidos para compradores que não possuíam comprovação de renda, não possuíam emprego fixo ou poupança, sendo o pagamento inicial dos juros postergado por até dois anos a partir da data da compra (conhecidos como créditos NINJA - no income, no job, no asset). Ocorre então a expansão do chamado mercado subprime de hipotecas, ao mesmo tempo em que instrumentos de crédito cada vez mais sofisticados são empregados na securitização dessas dívidas.
Assim, a empresa hipotecária se financia em um banco, que por sua vez repasssa esses títulos ao mercado secundário, criando as ABS's (asset backed-securities), as MBS's (mortgage backed-securities) ou as CMBS's (comercial backed-securities), em caso do mercado de imóveis com destinação comercial. Ao colocarem esses títuos no mercado secundário, os bancos "limpam" seus balanços e podem conceder novos empréstimos, relaimentando o ciclo de ctédito.
Essas por sua vez são "empocatadas" por bancos de investimento em um outro título mais sofisticado, chamados CDO's (collateralized debt obligation) ou CLO's (collteralized loan obligation), derivativos dos títulos que se originam nas hipotecas (terceiro nível de títulos sobre uma mesma dívida inicial). Esses derivativos são vendidos aos fundos, em especial os hedge funds, mas também aos fundos mútuos e de pensão, pertencentes a bancos de investimento ou aplicadores, ao redor do mundo. Muitas vezes foram reutulizados por esses fundos como garanti para novos empréstimos, concedidos pelos bancos de investimento, dada a "qualidade" do ativo.
Esses títulos combinam diferentes tipos de empréstimos utilizando-se da idéia de que a diversificação reduz o risco de detenção do título. Dada a extraordinariamente baixa inadimplência nas hipotecas do setor (e dado o interesse das agências de rating e dos bancos de investimento nas taxas cobradas quando da venda desses títulos), normalemente esses ativos foram marcados como AAA, ou seja, ativos que apresentavam pouco ou nenhum risco, embora se originassem emparte de créditos concedidos de forma não segura.
Na medida em que o FED inicia um gradativo processo de alta nos juros e que o preço dos imóvei começa a cair, a inadimplência sobre as hipotecas aumenta, especialmentte no mercado subprime. Isso ocorre ainda em 2006, embora a situação se agrave e atija hipotecas consideradas mais seguras a partir de meados de 2007. Atualmente a expectativa é de um forte aumento na inadimplência em todos os segmentos do mercado hipotecário norte-americano, especialmente no no de 2008.
Entretanto, o pequeno estrago efetivado até o momento já foi suficiente para quebrar 126 mortgage companies (uma delas , a AHM sendo a décima maior desssas empressas no mercado norte-americano, com mais de 6000 empregados e especilaizada nos segmentos mais seguros do mercado) e oito fundos hedge, sendo dois australianos e quatro europeus, destacando-se aí o problema com dois fundos pertencentes ao banco Bear Sterns e um pertencente ao banco francês BNP Paribas. E essa lista vem crescendo diariamente...
Também o mercado de compra de empresas alimentado pelos fundos de private equity está praticamente paalisado no momento, pois o mesmo mecanismo de colacação de títulos no mercado secundário que alimentou a bolha imobiliária era utilizado nas transações de "privatização" das empresas cotadas em bolsa. Como os aplicadoes, em pânico" começaram a fugir desses títulos, os bancos não podem mais "limpar' seus balanços dos empréstimos concedidos a esses fundos, o que impede novos negócios. é interessante resslatar que estima-se que a cotação das empresas em bolsa esteja sobrevalorizada em 30% dada a agressividade da atuaçãod esees fundos nos últimos dois anos, agressividade essa alimentada pela facilidade e baixos custos na obtenção de crédito.
Voltemos então ao título desse post. Aumentam os riscos de uma crise sistêmica. Esses riscos advém de um processo que chamamos "cascata de desalavancagem". Ou seja, uma liquidação de ativos ao redor do mundo para fazer frente às "chamadas de margem" que advém das perdas que atingem todos os mercados concomitantemente. Notem que é diferente de um processo de "vôo para a segurança", ou seja, de troca de ativos arriscados por ativos sem risco. Na desalavancagem, todas as classes de ativos são atingidas, pois trata-se de buscar evitar a insolvência causada pelo excessivo endividamento, em um momento onde não é mais possível refinanciar as dívidas...
O risco sempre atinge de forma inesperada, mostrando mais uma vez que sua natureza não é de risco e sim de incerteza! Compreende-se assim a ação dos bancos centrais europeu e norte-americano ao buscarem injetar liquidez ao sistema bancário no dia de hoje. Entretanto, caso essa crise seja de insolvência, de muito pouco adiantará essa ação.
Colocam-se novos desafios aos reguladores do sistema financeiro mundial no momento em que esse apresenta explicitamente e de forma grandiosa sua enorme fragilidade decorrente, por que não dizer, da insanidade que representa moldar o mundo com base em um castelo de cartas cujo objetivo único é fazer mais dinheiro do dinheiro apenas para deixá-lo em sua forma líquida, da qual não pode escapar sem ocasionar imensas crises.