terça-feira, novembro 02, 2010

Eleições nos EUA: propostas inacreditáveis, por André Scherer

As eleições nos EUA são bastante importantes para o governo Obama. Na oposição republicana, destaca-se a novidade dos candidatos Tea Party, ultra-conservadores, que defendem a volta aos valores do século XIX... Misturando misticismo religioso a um conservadorismo rígido, eles querem fazer os EUA retornar aos tempos da colonização e aos "Pais Fundadores".

Amostras do que pensam os representantes do Tea Party:

Many Americans who end up voting for Tea Party-backed Republicans because they are worried about the state of the economy or size of the deficit will be shocked to find the kind of gridlock that will be caused if and when candidates get elected to office who have pledged not to support anything they don't find in their 19th-century view of the Constitution.

A few of the many races to watch:

  • Mike Lee, U.S. Senate Candidate from Utah: Lee, virtually guaranteed a win in this heavily Republican state, will bring to the Senate a remarkably reactionary view of the Constitution and the U.S. government's role in society. He has denounced as "domestic enemies" those who disagree with his radically limited view of the (divinely inspired) Constitution. He would abolish the federal departments of Energy and Education, dismantle the Department of Housing and Urban Development, and phase out Social Security. He says earmarks are unconstitutional. Lee could be one of a number of new senators who take the GOP's already unprecedented campaign of partisan obstruction to a damaging new level.
  • Joe Miller, U.S. Senate candidate from Alaska: Miller says the Department of Education should be eliminated because it's not in the Constitution. Also violating the Constitution, in Miller's mind, was health-care reform and legislation to extend jobless benefits to out-of-work Americans. He says he would phase out Social Security and Medicare.
  • Ken Buck, U.S. Senate candidate from Colorado: Buck calls for the elimination of the federal Department of Energy and Department of Education, the privatization of the Centers for Disease Control and Prevention, and the elimination of student loans. He says he "doesn't know" whether Social Security is constitutional, but calls it a "horrible policy" and says the federal government should not be running health care or retirement programs.
  • Marco Rubio, U.S. Senate candidate from Florida: Rubio calls "statism" the "fastest-growing religion in America."
  • Rand Paul, U.S. Senate candidate from Kentucky: Paul has suggested that Congress should not be making mine safety rules. He says Medicare is socialized medicine. He wants to eliminate the Departments of Education and Agriculture, do away with the Federal Reserve, and abolish the Americans with Disabilities Act.
  • David Hamer, U.S. House candidate from California's 11th Congressional District: Hamer, who calls public schools "socialism in education," wants to abolish public schools entirely and return education to "the way things worked through the first century of American nationhood," when an awful lot of people had no access to educational opportunities.

Ainda sobre o resultado das eleições.. Por André Scherer

Dá para recomendar a leitura desse artigo publicado no blog do Nassif e que ajuda a ter uma precisão maior sobre a distribuição regional da votação em 2010 em comparação com 2006: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/regionalizacao-preconceitos-politicos#more

Boa leitura a todos.

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Um protesto real e efetivo: retirar seu dinheiro dos bancos! Por André Scherer

Premidos pela loucura neoliberal remanescente que pede que os povos paguem via ajustes ficais absurdos pela estupidez financeira reinante nos últimos 30 anos, a reação (tardia ma non troppo) dos europeus não poderia ser mais radical: já que protestar nas ruas não faz mais efeito no mundo dos bancos centrais independentes (dos interesses das populações, evidente), os europeus querem agora sacar seus depósitos dos bancos!!!!!

E o protesto tem até data: 07 de dezembro! E o nome do protesto está absolutamente correto: REVOLUÇÃO.

Independente se vai funcionar, se vão fazer, se vai ter adesão: o simples fato dessa iniciativa estar sendo organizada em larga escala, de forma continental e via internet (ou seja, sem necessidade da cumplicidade da mídia oficial) mostra mais uma vez o óbvio: o neoliberalismo acabou enquanto ordem político-econômica dominante. E a simplicidade (e óbvia eficácia) da forma de luta escolhida mostra que hoje existe uma compreensão quanto ao fenômeno da hegemonia financeira que não permitirá mais que os argumentos de um falso interesse global na manutenção da ordem vigente triunfem.

O mundo mudou radicalmente com a crise financeira de 2007. Está na hora de entregar os anéis... ou ficarão sem as mãos.

domingo, outubro 31, 2010

Dilma Presidenta do Brasil! Mudanças na economia? Por André Scherer

Bom, no estilo twitter, muito poucos caracteres:

Primeiro discurso de Dilma, nas entrelinhas:

- o Brasil vai adotar medidas protecionistas (excelente decisão), com o discurso de que é uma forma de forçar a negociação de parte dos países ricos;

- o Brasil não vai fazer ajuste fiscal, aliás, ela já trocou o discurso do equilíbrio por "o governo não vai gastar de modo insustentável"!).

Me parece que vem mudança na economia por aí... mas, do discurso à prática, por vezes demanda tempo e por vezes nem acaba acontecendo.

quinta-feira, outubro 28, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
28 de outubro de 2010
CRONICA DAS QUINTAS



DECIDIDAMENTE DILMA!
Por Enéas de Souza


No meu modo de ver, a superioridade de Dilma sobre Serra é notória e vertiginosa. A primeira razão – razão substancial – é que ela tem, fazendo parte do governo Lula, uma visão e uma proposta de Brasil mais ampla e mais brasileira do que Serra. Seu papel como ministra da Casa Civil foi essencial para o sucesso do atual do governo. Em que ponto? Em verdade, ela foi uma espécie de Super-Ministro do Planejamento. Logo de saída, deu ordenação e coerência nas obras dos diversos ministérios. Deu unidade e tornou denso o trabalho do governo. Pois, antes de Dilma, as pernas estavam para um lado, os braços para outro, a cabeça jogada lá diante, e os calcanhares e os pés andavam sozinhos pela Esplanada dos Ministérios. Tudo existindo, mas, todas as partes dispersas. Uma espécie de diáspora do governo Lula. Dilma fez como os mágicos: agregou um cenário ao conjunto e reuniu tudo num corpo só. E surgiu daí a envergadura do governo Lula. Era o que o político Lula precisava. Tinha que vir alguém que soubesse organizar as peças do governo numa cara de governo. Precisava de um ministro que planejasse e coordenasse as ações para que Lula se tornasse o estadista. E ele o foi. E é. Assim, no final do Lula I, a população já tinha se dado conta que todo um projeto estava organizado: aumento de salário mínimo consistente, Bolsa Família, crédito consignado, ProUni. E Dilma, vindo do Ministério de Minas e Energia acrescentou o que faltava: Luz para Todos. Isto depois da secura e dos apagões dos anos neoliberais de FHC e Serra, onde grassava a hemorragia da privatização, a volúpia desastrosa da dívida, o crescimento ralo do PIB (média de 2,2%), o crescente desemprego, o empréstimo “fraternal” Clinton-FMI, a decadência da infra-estrutura, etc. Ruth Cardoso é quem forçava os programas sociais que estavam soltos dentro do governo de FHC (Não nos esqueçamos das palavras caniculares e afrontosas de Sérgio Motta sobre “Comunidade Solidária” da Dona Ruth: “Essa masturbação sociológica me irrita porque não chega a nenhum resultado”. 1995. Que diria em 2010 do sociológico sucesso total do governo Lula?).

O Luz para Todos. Se pensarmos bem foi um dos grandes projetos de Dilma. Pense o leitor e imagine. Na época, discutia com um amigo e lhe disse: “Ah, você acha que esse é um programa banal, é? Faça o seguinte, você que é classe média: apague as luzes da sua casa e fique uns 15 dias sem luz. Pense como será o seu dia; pense, sobretudo, como será a sua noite. Você está na Idade Média. São 15 milhões de pessoas que viajaram 500/600 anos”. E não deu outra. Lula apesar dos grandes ataques do Mensalão, conseguiu uma vitória espetacular naquela eleição de 2006. Dilma botou a sua parcela de votos na cesta eleitoral de Lula. Só isso já seria bastante para consagrá-la: dar coerência ao governo e apoiar a população a ter um melhor padrão de vida.

Mas, o grande lance veio a 22 de janeiro de 2007, logo depois da vitória de Lula, no Lula II, o lançamento do PAC. Fiquei tão entusiasmado que escrevi imediatamente um artigo: “DA ESTRATÉGIA DO INVESTIMENTO NASCEM AS NAÇÕES”, datado de 29 de janeiro de 2007 e publicado em Indicadores Econômicos FEE, vol. 34, n.4, março de 2007. Mas, qual o motivo do entusiasmo? Era como dizemos, nós os gaúchos: “o tal de PAC”. E o PAC, disse Serra, “era uma lista de obras”. Não sejamos tão apressados na conclusão, vamos pensar um pouco. Sim, o PAC tinha uma lista de obras, alguns projetos com dificuldades para sair do papel, inclusive, vimos depois, por briga entre empresas. Mas, isso é ver pouco, é ficar com o olho grudado no chão. Vamos fazer um contraste, a diferença entre o projeto econômico de Lula e o de Fernando Henrique. O governo de FHC tinha sustentado um modelo financeiro de acumulação. A jogatina das finanças dava um falso ar de festa. FHC e Serra continuaram a crise produtiva de 1982 e terminaram o século e entraram no século XXI sem investimento. Tudo se pautava pela multiplicação dos pães miraculosos dos títulos financeiros públicos e privados. Na verdade, não eram pães, era papel que rendia dinheiro e não dava emprego. Eles construíram um Estado que chamei, em outros textos, de Estado Financeiro, onde o núcleo da sua estratégia se pautava numa política econômica peculiar, uma “política econômica reduzida”. Só se pensava em moeda, câmbio, taxa de juros e contas públicas. Não havia política industrial, política agrícola, política agrária, política tecnológica, política de rendas, etc. Tudo ficava para o mercado. O Estado só se preocupava com a acumulação financeira. E houve um abandono melancólico e desesperado, dostoievskiano, do investimento. Deu-se um investimento raquítico e tudo ia para o circuito financeiro. E é nesse ponto que surge o PAC, para quebrar o cassino brasileiro.

Não fiquemos na idiotice empírica, a lista de obras. O grande do PAC foi o gesto simbólico, imponente, maior, um gesto estratégico. Um toque de reunir dos empresários com uma forte declaração do governo: O FUNDAMENTAL DE UM PAÍS É O INVESTIMENTO. O velho Keynes veio do Além e conversou com a Dilma, o Lorde sabia das coisas: “Dilma, joga as tuas fichas no investimento”. Vejam caros leitores, não tinha havido ainda a crise financeira americana e mundial. O Lehman Brothers não tinha falido. O Lorde sabia por que nos anos trinta ele tinha escrito e batalhado por isso, pelo investimento. A especulação financeira estava matando o Brasil. E o que fez Dilma? Fez mais que um programa, fez um ato político da maior transcendência. No meio do neoliberalismo, com o barco das aplicações financeiras velejando a todo vapor para o boom, que vai desabar logo em seguida, ela ousa. E Lula? A apóia vigorosamente. E o investimento viaja mar afora, o mar que vai, mais tarde, nos levar ao Pré-Sal. Fernando Pessoa falava do mar português; com a Petrobrás o mar pode ser brasileiro. E então vamos para o investimento.

Mas, este ato político de Dilma trouxe mais duas coisas decisivas – e fundamentais. Ela estava dizendo de forma magistral que havia uma inspiração no pensamento econômico brasileiro na hora e a vez do PAC. Veio na herança de Celso Furtado, de Ignácio Rangel, de Maria da Conceição Tavares, E de todos outros economistas nacionais que são “desenvolvimentistas”. Qual o ensinamento? É preciso recuperar o ESTADO, é preciso recuperar a nossa capacidade de PLANEJAMENTO. Que coisa bendita, poder ser herdeira de uma grande corrente, da corrente que veio construindo e lutando pelo Brasil, desde os anos 30. Mas, o PAC não passou apenas esta mensagem. Tinha mais coisa. Para muitos, foi um capricho de Lula pôr Dilma como candidata a presidente da República. Nada disso, descrentes brasileiros. Não, Lula, viu tudo; viu tudo porque também se beneficiou deste vigor de pensamento de Dilma. Um ESTADO para ser forte tem que ter instrumentos para realizar o seu projeto e sua estratégia. E aí que o PAC mostrou a arma engatilhada desde sempre.

O PAC trouxe para o núcleo estratégico do governo a filha pródiga, a filha dileta, a filha por quem a nação tinha lutado. A Petrobrás. A campanha “O Petróleo é nosso” é uma memória histórica tão forte, tão contundente, tão brasileira, tão nossa, que impediu que FHC e Serra vendessem a Petrobrás. E o gesto de Dilma na época do Programa de Aceleração do Crescimento, pouca gente entendeu. Ora, para quê trazer, para dentro do PAC, a Petrobrás que já tinha um programa avantajado de investimentos? A miopia neoliberal não permitiu às pessoas enxergarem que o PAC era um fabuloso gesto simbólico e político, do qual falamos antes, e que trazia para o centro estratégico do governo um verdadeiro núcleo de acumulação. E quando veio a descoberta do Pré-Sal, a cabeça oca de muita gente “explodiu de lucidez”, como dizia meu colega Galeno da UNICAMP. Perceberam que o Pré-Sal iria encadear um conjunto de indústrias, todas investindo adoidado. E, principalmente, dentro de um programa que assegurasse às empresas um conjunto de obras. Uma demanda garantida. Na verdade, o sonho de todo empresário. Basta ouvir o presidente da Petrobrás Sérgio Gabrielli para ver o gigantismo do projeto, da riqueza que temos pela frente, das possibilidades de aumentar o índice de nacionalização da cadeia produtiva. O mundo do investimento – o futuro – voltou a reabrir-se para o Brasil. E tudo veio da audácia do Governo Lula de ir contra o neoliberalismo, de buscar novamente o investimento e o emprego e desenvolver a riqueza brasileira. E Lula encontrou em Dilma o talento para continuar a sua obra: despachar o neoliberalismo, “bye, bye, forever”. E com esse lance, retomar o baú de riquezas nacional: desenvolvimento com distribuição de renda.

DECIDIDAMENTE DILMA!

quinta-feira, outubro 21, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
21 de outubro de 2010
COLUNA DAS QUINTAS

QUATRO
LANCES
DE DADOS
Por Enéas de Souza



PRIMEIRO LANCE
O Dramaturgo da Vida olhou para a eleição brasileira e viu dois personagens. Serra e Dilma. Para definir o jogo teatral das campanhas imaginou como faria a natureza das figuras dramáticas. Para Dilma não lhe veio nada imediatamente. Talvez lutadora, talvez firme, talvez de pronta resposta. "Não sei, não estou certo. Vou pensar um pouco". Quanto ao Serra, vou concebê-lo agora. Botou-se a imaginar e a sua definição veio logo: camaleão. Porque? Porque ele vai tentando se amoldar às coisas. Se está perto da terra, fica como terra. Se está do lado das folhas, fica verde. "Camaleão" é uma boa, pensou o Dramaturgo. Ele vai mudando sempre. Tem efetivamente um mérito, funciona como uma matéria plástica, vai se conformando ao debate, vai escapando aos ataques. Como não tem posição, vai saltando para todos os lados. Sobre aborto, ele pula para cá e se funde ao assunto. Sobre religião, para lá e já tem cara de beato. Sobre privatização, para um terceiro lugar e já pensa no pré-sal. Mas, como a personagem Dilma reagiu, Serra, camaleão, respondeu rápido: vou fortalecer a Petrobras.
SEGUNDO LANCE
Depois, de camaleão, escolheu o Dramaturgo da Vida uma outra face do Serra. Ter dois estilos. Na frente das câmeras, nas discussões fazer-se de santo, procurar construir a figura de homem sereno, que tem perfil de retidão moral, absolutamente imbatível. Fez tudo, projetos, leis, medidas. Sempre foi o primeiro. Seja no Ministério, na Câmara, no Senado e como Governador. Fora dos holofotes, articula e arma vários golpes e várias tramas. E vem o aborto, e vem a religião, e vem os santinhos da Igreja. Por isso, ao lado camaleão se agrega o lado daquele que tem a capacidade de dividir-se. Enquanto no primeiro vai se adequando ao terreno, no segundo se cinde para melhor combater. A face visível, a que pode ser exposta, constrói a figura do puro. Na face invisível emerge um químico sutil, torna-se um fabricador de enredos e de história como ninguém. E todas as suas fábulas são para fazer a DIlma, sua adversária, perder tempo com problemas importantes, mas menores. As questões maiores, como uma estratégia e um projeto nacional, isso não lhe diz respeito.
TERCEIRO LANCE
A terceira característica do candidato é ser privatizador. Como é que é esta figura? Ela começou com Fernando Henrique Cardoso, mágico do neoliberalismo, que convenceu a todos de sua equipe que enfraquecer o Estado, que eliminar o capital estatal, que dar a liderança ao investimento estrangeiro na dinâmica econômica brasileira, traria vantagens. E o Brasil seria feliz. Então precisou de um privatizador; na verdade, de um mestre, de um doutor, de um engeneiro da privatização. E o escolhido foi o Dr. Serra. E podemos vê-lo, nas fotos e nos filmes da época, incessante, no mandado de FHC, fazendo rápidas e muitas privatizações. Assumiu esta personalidade e guardou para si a receita, com carinho e fraternidade, da relação com os investidores estrangeiros. Mas, o mais importante é que guardou o pensamento. Pois bem, Lula foi extraordinário, fez um desenvolvimento com distribuição de renda. E também descobriu o pré-sal. Com isso deixa uma herança para o povo brasileiro. E para a Dilma e a Petrobrás o caminho da exploração da riqueza. E com um projeto amplo, a partir dos seus resultados, desenvolver ciência e tecnologia e dar à população do Brasil, educação, saúde, segurança, etc. Na verdade, resumindo numa frase de efeito: o pré-sal vai sustentar o bolsa família. Só que Lula não contava com uma surpresa. Atrás da porta, está o privatizador das estatais, com um objetivo, anunciado por um de seus assessores: privatizar o pré-sal. E claro, se se animar, mais tarde, virá a própria Petrobrás, depois o BB e quem sabe num futuroo oportuno, a financiadora dos imóveis, a Caixa Econômica Federal. Mas, o Dramaturgo da Vida vai jogar este problema, este conflito no bojo das eleições: riqueza para a população versus venda para o setor privado. As peripécias do confronto trarão os encaminhamentos do desenlace.
QUARTO LANCE
Para dar maior sensação a este personagem, o Dramaturgo da Vida vai colocá-lo como um dos protagonistas de sua geração. Talvez o maior dela tenha sido FHC, o grande neoliberal, mas que hoje está semi-retirado, numa quase obscuridade dourada. FHC teria um novo rosto. E este rosto cabe bem em José Serra. São ambos vinhos da mesma bodega, da mesma vinícola. E qual é a marca suprema, o traço peculiar destes personagens? No fundo, realizar a grande metamorfose: ser de esquerda na juventude - Serra foi presidente da UNE - e de direita na maturidade. Com isso, o Dramaturgo da Vida está satisfeito, já que se completa, numa primeira amostragem, os mais importantes determinantes de sua figura dramática, este neoliberal candidato a presidente da Repúlica.

quinta-feira, outubro 14, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
14 de outubro de 2010
COLUNA DAS QUINTAS

TROPA DE ELITE
Por Enéas de Souza


O que fizeram FHC/Serra?
FHC e Serra enganaram muito tempo, mascararam durante muitos anos. O primeiro, cognominado como Príncipe da Sociologia, com uma carreira acadêmica sublinhada pela glória de ter sido aluno de Florestan Fernandes e de ter participado de um seminário de Marx em tempos de ditadura, escreveu um livro famoso em parceria com Enzo Faletto e foi eleito suplente de senador, suplente de Franco Montoro. Este último episódio trouxe uma movimentação de classe média inédita, única, porque a favor de um grande intelectual. Me lembro que a UNICAMP e o resto de São Paulo se moveu toda em torno dele. E apostem para saber quem era o puxador da campanha do ilustre sociólogo? Advinhem? Acertaram. O prof. Serra. Como Fernando, também se apresentava como um nacionalista, um intelectual que, colado na Maria Conceição Tavares, participou de um trabalho marco na época da ditadura: “Mas allá del desarollo”, escrito nas plagas promissoras e depois, terríveis do Chile dos anos 70. E naquela época, Fernando Henrique tinha a sua luz e a sua aura; era o farol e a cintilação, o grande resistente da ditadura. Nada mais justo que José Serra fosse o seu escudeiro, sempre ligado a muitas estatísticas, avizinhando uma possível posição nacionalista. Nunca foi uma grande figura como Fernando Henrique, me lembro do seu único e belo trabalho “solo”. Trata do desempenho do Brasil no século XX até os anos 70, mostrando a performance de longo prazo nacional, só superada, no mundo pelos japoneses. Fernando Henrique era o Zeus do Olimpo paulista, e Serra, o Mercúrio do chefe da assembléia de deuses.

A dança da política trouxe duas carreiras políticas, com um ou outro percalço para o pleno de sucesso. Glória, glória, nas alturas. Nas múltiplas trajetórias das pessoas existem episódios menores, porém pode ocorrer algo maior, algo que mude tudo. Tudo se transforma. FHC é escolhido presidente. Aqui é o salto do tigre. FHC pula do nacionalismo para o liberalismo. Poucos viram antes das eleições. José Luís Fiori viu claro. Anunciou para todos que Fernando vinha como o cavaleiro andante do Consenso de Washington. Anunciou e escreveu. De todos que falavam da opção do futuro presidente, foi o único que o Príncipe se dignou a responder. Respondeu por que José Luís tinha visto o coração da reforma intelectual e política de FHC, que ao longo do processo foi de todo o seu grupo. O nacionalismo virou liberalismo. A defesa do Estado virou delapidação das suas propriedades. Diga-se: propriedades do povo brasileiro. As empresas foram torradas por títulos podres, o governo permitiu o uso de títulos desvalorizados no processo de compra, o governo financiou grupos internacionais e nacionais na compra destas corporações. E José Serra, o escudeiro fiel, tornou-se o agilizador das vendas, o cirurgião – porque Ministro do Planejamento – da amputação do Brasil, o Chefe do Plano de Privatização.

Caiu a máscara da face, diz o samba antecipador. E venderam mal, pois cobraram pouco, permitiram que as moedas podres entrassem na jogada. A Vale foi um crime de lesa-pátria. E por que? Porque estrategicamente foi como perder uma das armas decisivas numa política de agigantamento do país. Olhem onde a Petrobrás foi novamente colocada por Lula e Dilma, no centro do grande movimento de retorno do Estado à economia brasileira. Ocupa o nervo estratégico do governo. Se a Vale fosse do Estado seria o segundo grande suporte. (A descoberta do pré-sal veio na corcova deste processo.) E o FHC não queria deixar a Petrobrás de fora, queriam fazer a Petrobrax. Olha só, Petrobrax! Mente de colonizado. Não conseguiram vender, o fantasma do velho Getúlio e a história do “Petróleo é nosso” impediram a venda. E isso nos salvou. Um dia, discutindo sobre a economia brasileira, no final do segundo mandato de FHC, com o economista francês Pierre Salama, (Salama temia que o Brasil seguisse os passos da Argentina) lhe disse: “a grande diferença é que o Brasil não entregou nem a Petrobrás, nem o Banco do Brasil, nem a Caixa”. E, de fato, o Fernando Henrique não teve coragem de ir até o fim no seu processo de venda. E com o Brasil quebrando três vezes, com a privatização desamparada e desarvorada pendendo para os lados dos compradores, com a abertura do comércio externo (completando Fernando Collor) e com a abertura financeira, sem pedir nada em troca, o Fernando Henrique tornou-se um grande entregador de empresas estatais. Tudo em nome da modernidade da economia. E nós, brasileiros, ficando sem investimentos e com alto desemprego, e sendo chamados, por cima, de “neo-bobos”.

Mas, o que queria salientar era outra coisa. Pela primeira vez, temos concorrendo à presidência da República dois candidatos que, de uma forma ou de outro vem das batalhas dos anos 60, mais exatamente da ditadura. Serra era presidente da UNE na hora do golpe, participou dos discursos do famoso comício de 13 de março, o comício onde Jango bradava por um caminho inexistente e Maria Tereza olhava perdida para o infinito. Como se antevisse a derrota, o golpe militar. Duvidam que Maria Tereza olhava para o infinito? Vejam o filme de Silvio Tendler sobre “Jango”. Como dissemos, Serra era presidente da UNE. Um das músicas do CPC da UNE, acho que uma música do Carlos Lira, falava nos “capitais amigos dos Estados Unidos”. A UNE do Serra. Pois, mirem-se nos engajamentos políticos dos anos sessenta. Havia muitos caminhos: ser golpista, ser pró-americano, ser resistente – e aqui com várias raízes, vindas de dois troncos fortes: a guerrilha e a resistência legal. Fernando Henrique e Serra foram contra a ditadura. E Dilma, a adversária de Serra, nem se fala.

Mas, a aranha que formata as teias da história não formata como poderia parecer a lógica dos personagens. Qual seria esta lógica? Que a resistência à ditadura por parte de gente de esquerda (Fernando Henrique era, Serra sempre pareceu que, e Dilma esteve sintomaticamente na contramão da ditadura) os levasse não só à democracia, mas com uma posição nacionalista. Pois, o que é a realidade, o cara que foi da UNE, o cara que participou do Seminário de Marx dos anos 60, ao entrarem no templo da política culminaram como vendedores do patrimônio estatal. Entregaram a preços de amendoim. O que foi a venda da Vale? E Serra vendeu muito mais. Fernando Henrique aprovou tudo. Pois não é que oito anos depois do FHC, depois que o neoliberalismo está em decomposição, Serra não desmente o “anúncio” de David Sylbersztajn de que o pré-sal pode ser vendido. O Serra, como dizia a minha mãe, “o Serra não se emendou”. Parece continuar na ponta do balcão a dizer: “Quem quer comprar o pré-sal? Se for presidente, o pré-sal vai estar à venda”. Comprem, comprem. A astúcia da História mostrou bem: a tropa de elite da intelectualidade e da política brasileira quer vender o Brasil.

E Dilma, não. Continua fiel aos princípios pelos quais foi à luta em 64. Pela democracia, pela distribuição da riqueza para os brasileiros. Mas, esta tropa de elite, não, Quando tomaram o poder, foi para negociarem tudo. Venderam tudo. Vale, Telebrás, Banespa, etc. etc. E agora fingem deveras que querem estatizar, (“Vou reestatizar tudo”, disse Serra depois do debate da Bandeirantes) quando pensam em vender. Isto consagra a grande volta que fizeram, quando trocaram de lado: de nacionalistas a neoliberais, de defensores do Estado a adeptos do mercado, de homens de esquerda a políticos de direita. São os pássaros desta vertigem e da fascinação pelo capital financeiro. Constituíram uma tropa de elite, uma formação de primeira (FHC, Serra, Malan, Paulo Renato Souza, Wiston Fritsch, Elena Landau. Mendonça de Barros, Gustavo Franco, Pérsio Arida, Armínio Fraga, Lara Rezende, Edmar Bacha, etc.) para ser a vanguarda econômica e política do neoliberalismo. Anos 90. Agora, no século XXI, não esqueçam que, apesar da crise nos Estados Unidos, existe um movimento forte de capital das finanças, alimentados pela liquidez americana garantida pelo Banco Central (FED). Estes capitais estão dispostos a investirem no Brasil e no mundo afora. Seríamos, portanto, a cauda de um neoliberalismo financeiro retardatário. As metas parecem claras: pré-sal, em primeiro lugar (como disse o economista Pedro Almeida, este patrimônio pode valer 8 trilhões de dólares ou seja mais da metade do PIB anual dos Estados Unidos). E claro, vende-se primeiro o dito pré-sal, e depois pode ser a Petrobrás. Isto pode descortinar um itinerário. E obviamente nessa visão, o Estado não deve ter bancos, pensando assim poderíamos arrastar o Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal para linha de tiro. No fim, quem sabe se ponha o BNDES para correr; ou, como Fernando Gros (outro que foi da Tropa de Elite e já faleceu) fez, transformá-lo em Banco de Investimento (que, na linguagem neoliberal, é banco de aplicações financeiras).

(Como podemos resistir a este itinerário político e econômico da privatização, que já foi efetuado no passado e que está antevisto para o futuro do Brasil na campanha de Serra? O “candidato do bem” sabe a quem oferecê-lo. Que Serra, FHC e seu grupo tomem esta posição faz parte do jogo democrático, mas não queiram passar por nacionalistas e defensores da riqueza nacional, quando são atores da privatização e da venda de empresas estatais para o capital estrangeiro. São atores do neoliberalismo).

quinta-feira, outubro 07, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
07 de outubro de 2010
COLUNA DAS QUINTAS


A CENA FINAL
Por Enéas de Souza


Estamos na seguinte situação: a peça está entrando no último ato. Para que ela fique interessante o Autor do texto, o Senhor, o Acaso - como se queira chamar - fez uma pequena falseta, algo que não estava no “plot”, no enredo, na tessitura dramática. O personagem Dilma que tinha tudo para não perder, não ganhou a consagração no primeiro turno de nossas eleições, foi para o segundo, depois de ter chegado quase lá. Ora, o ardiloso Autor, já que a peça estava tão boa, resolveu, feito esses autores de novelas da TV, espichar um pouco mais as cenas, fazer render os horizontes dos personagens, etc. Mas, como sabem os escritores e os roteiristas, não se pode fazer nada contra a lógica dos personagens, eles são rebeldes a qualquer maltrato. Não me lembro quem, mas recordo de um grande artista dizendo o seguinte (até nem sei se não foi o nosso Erico Verissimo): “se quero que o personagem faça algo diferente de sua natureza, ele não aceita, ele tem rebeldia. Resiste – e não consigo mudar o seu modo de ser. Os diálogos saem falsos e as ações sem sentido”.

Tem um personagem na atual história das eleições que se chama Mídia Convencional. De repente, estando sendo derrotada, se deu conta da mudança de parte da população em face da candidata Dilma Rousseff. E ela fez uma pirueta e apostou nos verdes, nos religiosos e na Marina. E olha só o minuto de traição da história. Prestes a vencer no primeiro turno, Dilma encontrou este obstáculo. O Dramaturgo da Vida resolveu dar mais sensação ao drama, pôr mais caldo no suco de maçã. Dilma ficou ali; 3 pontos da vitória no primeiro turno. E ela, como muitos – eu mesmo, vamos confessar – sentiu que a adversidade tinha aparecido na noite de domingo no nosso apartamento. Como diz o título do filme de Stanley Kramer “Advinhe quem vem para jantar?” Pois é, ficamos todos decepcionados, perplexos. Antes era a vitória certa, agora a vitória adiada... E Dilma falando no domingo, depois de ter tido milhões de votos a favor, quase 15 milhões de diferença para o adversário, ela, Dilma, estava com um ar de decepção, quase de derrota por não ter ganho no primeiro turno.

Como costumavam dizer as gurias no meu tempo de luta política estudantil: “olha aqui, gente”. Sim, olha aqui, gente. O companheiro Hegel já nos falava: vamos encarar o negativo na cara. O negativo foi não termos vencido a eleição no primeiro turno. Mas, o grande resultado foi o seguinte: uma candidata sem experiência de campanha política levou uma mensagem, a de continuidade ampliada do governo Lula, ao povo, aos eleitores. E saiu dos famosos 3% iniciais para 47%, derrotando – vou escrever com letras maiúsculas: DERROTANDO – o seu adversário de forma espetacular. Foi uma vitória maiúscula. “Gente”, não vamos cair nesta armadilha porque não triunfamos de primeira. Não vamos deixar que este sentimento de frustração passe para o primeiro plano, machuque o nosso entusiasmo e dê ao candidato tucano uma vantagem psicológica, que ele, metido a esperto, e que não tem o “physique du rôle”, quer aproveitar. Ora, convenhamos, Dr. Serra, foi um massacre: 47 a 33. Felizmente, a equipe da Dilma se deu conta e já está se reorganizando, lavando as feridas, percebendo as falhas. Já consciente do passa pé do último momento, da surpresa elaborada pelas traças do destino, Dilma está repensando o jogo. E os contra-ataques já estão sendo disparados como quem lava um cacho de uva naturalmente. Pois quem ganhou do jeito que ganhou não pode achar que o jogo vai virar.

O Dramaturgo da Vida está pensando: “que cenas vou botar agora?” Concebe em seguida: o grupo da Dilma vai ter que fazer duas coisas: primeiro, mostrar de onde veio, novamente. Sim, sim, veio do Lula. E aí põe o que o Lula fez. Bolsa-família, aumento de salário mínimo, crédito consignado, luz para todos. Pode contar que ele manteve os empregos com a desoneração fiscal para as indústrias automobilísticas e para a linha branca eletrodoméstica. E ainda cabe neste balaio o fato de que jogou o consumo para cima. Mas, se isto já é muito, veja mais um outro passo do Lula: retoma a Petrobrás para o país assim como deixa também a descoberta de uma riqueza notável como o pré-sal. É pouco? E o Dramaturgo da Vida pensa: “mas isso o povo sabe!” Só que raciocina: Dilma vai ter que dizer tudo de novo, porque é preciso confirmar o que foi feito. Comparar Lula com FHC. “Confirmar o voto”, pensam agora os eleitores das praias e dos sertões, das cidades e dos campos.

“Ah, mas vou ter que dizer o que a Dilma vai fazer”, fala para si mesmo o autor da peça, somando as idéias dela ao que o Lula fez. A candidata vai dizer que vai aumentar o poder do Estado para fazer mais investimentos, para alcançar mais empregos, para melhorar a infra-estrutura do país, para fazer a Petrobrás gerar indústrias na sua cadeia produtiva: indústria naval, indústria de bens de capital para o petróleo, ou seja, produzir navios, plataformas, sondas, etc. E mais, vai mandar alimentos, minerais e petróleo na pauta de exportações para garantir importações brasileiras, sobretudo de equipamentos para a nossa indústria. É isto: Dramaturgo da Vida sabe que a Dilma vai pôr o Estado em defesa do Brasil, seja na questão externa, seja no mercado interno, seja onde for necessário. Estas coisas estão na lógica do personagem. “E claro não se pode esquecer que Dilma vai dar um carinho especial ao trabalho do Lula na diplomacia”. Virá uma herança imensa das jornadas do Celso Amorim. O leitor pode imaginar: Ângela Merkel e Dilma Rousseff?

Antes disso, ainda nos confrontos eleitorais do segundo turno, o personagem Dilma vai ter que indagar: “Mas que é que o outro cara vai fazer?” Ah, aí é que está toda a diferença! O Zé, como disse o Plínio de Arruda Sampaio no debate final do primeiro turno, vai fazer duas coisas, como já disse logo depois da derrota, comemorando como se a Dilma tivesse perdido: “Vamos fazer um Estado forte”. Sim, foi isso que eles – o FHC e ele, o José Serra, Ministro de Planejamento – fizeram quando instalaram no Brasil o neoliberalismo tropical. Engana-se quem conjeturou que retirar o Estado da economia, deixando as finanças livres para ganhar o que puderem, é fazer um Estado fraco. Não. É um Estado forte. Mas, a pergunta se desdobra, e é pergunta de advogado: “Fazer um Estado forte para que? E para quem?”. O José Serra diz agora, como dizia no final dos anos 90 e início do século XXI, que é para dar desenvolvimento e emprego. Pois aí, pensa o Dramaturgo da Vida, a personagem Dilma vai ter que ser explícita: “Ora, candidato” – candidato, como se costuma falar agora – “essa não é a sua linha. Quando FHC estava no governo e você era ministro do Planejamento e depois ministro da Saúde, o que vocês fizeram foi privatização. Venderam as coisas do Estado. Pior: venderam as coisas do povo. Venderam as coisas do Brasil. VENDERAM.”. E aí reflete o Dramaturgo: “Querida Dilma, tens que ser cruel e definitiva” E põe o personagem no ataque: “Será que você, Serra, não quer vender também o Pré-sal? Quem sabe você não quer vender a Petrobrás, como na eleição de 2006, Alckimin disse que queria fazer? Quem sabe você não quer vender o Banco do Brasil e a Caixa Econômica como o Fernando Henrique estava pronto para tocar adiante?”

Pensando no desenvolvimento da trama da peça, o Dramaturgo da Vida cogita: “Aqui, para o conflito da peça crescer – pois é o último ato – tenho que forçar o clímax. E Dilma vai ter que botar o José Serra diante de sua biografia, já que é isto que ele diz que tem”. “Como é, candidato, como é que você diz que vai fazer o que nós queremos fazer, um governo para o povo, quando no governo você aconselhou FHC a vender a Vale do Rio Doce? Como é que você vai fazer os bancos serem a favor da população, como o Banco do Brasil, a Caixa Federal – sobretudo para o setor habitacional – e o BNDES, quando você logo que assumiu o governo de São Paulo queria vender a NOSSA CAIXA. Como é que você vai ajudar o Brasil privatizando o país. Vai vender o BB e a Caixa?”

E aí o Dramaturgo da Vida pode até pôr uma frase popular no seu enredo como fala derradeira.. Pode pôr o Plínio, no fundo da cena, dizendo: “Acorda, Zé. O neoliberalismo acabou”.

terça-feira, outubro 05, 2010

Fernanda Torres leu o EconoBrasil... e não entendeu!

Na FSP de domingo dia 03, dia da eleição brasileira em primeiro turno, a excelente atriz e colunista Fernandinha Torres deu o recado: ela é fã de carteirinha do EconoBrasil e do Enéas, nosso co-editor. O artigo do Enéas sobre a motivação do papel da mídia na eleição (http://econobrasil.blogspot.com/2010/09/crise-financeira-mundial-23-de-setembro.html#links) foi tão brilhante, tocou tão fundo, que nossa Fernanda não se recusou em refutá-lo em plena Folha de São Paulo domingueira.

E, vejam o paradoxo: ela queria mostrar em seu artigo o quão desprezível é a força da nova mídia (blogs, redes sociais, etc...).

Para nós, do EconoBrasil, é exatamente o oposto: a nova mídia pauta a velha, que deverá existir para ter repercussão cada vez maior dentre nós. Estamos fazendo nossa parte, Fernanda. Publicamos abaixo seu artigo, e esperamos que continue nos seguindo, pois certamente o tema "mídia e novas tecnologias de informação e de comunicação" não deixará tão cedo a pauta do EconoBrasil:

São Paulo, domingo, 03 de outubro de 2010

FERNANDA TORRES

Cronos


Rezo para que a antropofagia estéril das mágoas acumuladas não seja a grande vencedora em 2010


SE DILMA se eleger neste domingo, eu terei ao menos um grande alívio: o fim da preocupação de escrever essa coluna semanal.
Quando me foi feito o convite, a possibilidade de uma leiga como eu analisar a corrida eleitoral pelo seu lado teatral, o da política como fenômeno de comunicação, me seduziu a aceitar a proposta.
No meio do caminho, a disputa antes velada entre o poder e a imprensa se acirrou violentamente. Em um pronunciamento privado, José Dirceu nomeou seus principais desafetos: o Grupo Folha e as Organizações Globo.
Apesar de não ter contrato fixo com a TV Globo, eu, assim como centenas de atores que conheço, trabalho com frequência na maior produtora de conteúdo dramatúrgico do país. Não satisfeita, aceito participar do caderno Eleições 2010 da Folha de S.Paulo. Péssimos antecedentes.
Sempre que acontece uma polarização extrema, exige-se dos que estão envolvidos um posicionamento claro, partidário. Ou bem você ama a liberdade de expressão ou o povo. Ou você é Dilma, ou Serra. PT ou PSDB.
Lula sugeriu que os jornais explicitassem seu voto, em vez de mascararem o partido político pelo qual torcem com denúncias aparentemente isentas.
Ao longo dos últimos oito anos, aconteceram excessos de todos os lados, capas de revistas com pontapés na bunda do presidente e pronunciamentos de rancor público por parte das autoridades.
O economista Enéas de Souza, em um texto na rede, declarou que a imprensa se transformou na voz agonizante das oligarquias, em pânico diante da ameaça da verdadeira democracia opinativa das novas mídias de comunicação via internet.
O profético radicalismo apocalíptico do dilúvio tecnológico de Enéas, que virá abalar a atual concentração de poder e reinventar um mundo melhor, me incomoda tanto quanto os exageros difamatórios e o protecionismo de mercado das grandes corporações de comunicação.
Mais uma vez, reafirmo minha frágil posição de ovo sobre um muro estreito. Detesto extremismos e me preocupa o reflexo deste ódio mútuo nos setores menores da sociedade.
Em uma reunião entre a classe teatral e a secretária de Cultura do Rio, o diretor de um grupo teatral tomou o microfone para dizer que a dificuldade de sobrevivência, a falta de recursos e conexão com as plateias, ou seja, toda a crise do setor seria culpa dos atores, nas palavras dele, GLOBAIS, que além de fazer um teatro comercial, visam o lucro, viciando plateias com produções digestivas e destruindo a possibilidade de sua trupe, essa sim, séria, pura e competente, de existir como criadora.
Me deu vontade de mandá-lo assistir Marco Nanini em Pterodátilos para saber que ofensa há na existência de um trabalho extraordinário como aquele, que recebeu um redondo não de todos os possíveis patrocinadores, e que luta para existir tanto quanto qualquer mortal.
Rezo para que a antropofagia estéril das mágoas acumuladas não seja a grande vencedora em 2010.


FERNANDA TORRES é atriz




Ciro Gomes fala a verdade sobre a "era FHC-Serra"

quinta-feira, setembro 30, 2010

­CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
30 de setembro de 2010
COLUNA DAS QUINTAS


Uma fábula brasileira

PORQUE
MACHADO DE ASSIS
VOTARIA EM
DILMA ROUSSEF

Por Enéas de Souza


Ora, Machado era um conservador, portanto não poderia votar em Dilma Roussef. Mas, Machado tinha o senso da observação e da construção dos romances e dos personagens, da narrativa na História Numa época como a de hoje, com o seu ceticismo – e não cinismo – ele duvidaria que o PT fosse fazer um bom governo. Mas, seu ceticismo era um método para não se entusiasmar com resultados humanos. Do homem, ele tinha uma certa dúvida; achava que o que os movia era o interesse. (Brizola diria os interésses). Bom cara, este. Achava que os homens não eram confiáveis. Machado, todavia, tinha uma grande virtude; se poderia dizer que tinha uma grande aposta. Quando pensava na Independência do Brasil, descortinava-se nele um grande júbilo. E pensava certo: se a Independência do Brasil fosse a origem de uma nação vigorosa, essa nação deveria ter uma literatura de primeiro nível, capaz de se medir com as literaturas dos países formidáveis do velho mundo. O lado colonizado era querer ser igual à Europa; o lado revolucionário era querer ter uma literatura que pudesse se bater com a dos europeus.

Pois, o Machado de Capitu, pensou certo. E se pôs, como um gato serpenteante, a escrever, com a sua língua plástica e simples, sobre a fisionomia do Brasil. O Brasil já tinha Joaquim Manuel de Macedo e sua “A Moreninha”; Manuel Antonio de Almeida trazendo “Memórias de um Sargento de Milícias” e José Martiniano de Alencar, a prosa mais caudalosa do Brasil. As cores brasileiras escrevendo as letras verde-amarelas. Mas, por mais que fossem gigantes, os três não tinham feito uma literatura capaz de se medir com a literatura portuguesa ou mesmo a literatura francesa ou inglesa. Enfim, José de Alencar tinha uma linguagem como as matas nacionais, luxuriantes, verdes, altivas, indianista, genuinamente vegetal, cheio de fauna, mas também trabalhando a realidade urbana da época. Seus personagens tinham muito de europeus. Quem não leu o Guarani? (Meu pai me obrigou a ler numas férias. E para se certificar que lia, tomava o capítulo após a inesquecível e aborrecida hora de leitura). Nossa imaginação romântica viajava com Ceci e Perí.

Daí veio Machado. Primeira coisa que fez, sobretudo depois de sua doença, que o levou a voltar indisfarçavelmente maduro e mais cético ainda, foi escrever.... Que é que ele escreveu mesmo? “As Memórias Póstumas de Brás Cubas”. Corra para ler e reler; este é um livro revolucionário, audacioso, fantástico, brilhante, corajoso, pleno de ironia, zombando de alguns PSDBs da época. O próprio Brás Cubas, o seu cunhado Cotrim, Lobo Neves, Virgília, Quincas Borba, o filósofo; etc. E se a gente vai lendo o romance, a gente percebe que o autor terça armas com os grandes escritores do mundo: Pascal, Goethe, Voltaire, e desaba a sua história num mundo onde quem comanda é Pandora, que traz sempre uma sacola de bondade e de maldades ( sendo a esperança a pior delas). O gesto de Machado é medir-se com Cervantes, com Dante, com Shakespeare, ele, um pobre do Brasil, um coitado. Mas foi o primeiro que botou para longe o “complexo de vira-lata”, que Nelson Rodrigues inventou décadas mais tarde para definir a condição do Brasil e dos brasileiros.

Então falei até agora, meio como um errante, sobre várias coisas de Machado. E o que é que isto tem a ver com a Dilma? É que a Dilma está impregnada desta loucura do Machado, a audácia. Ou seja, é preciso criar este país que a Independência deixou lá na História. Um país que, na verdade, se a gente lê o Novais, o Fernando, a gente percebe que Portugal é que estava ficando apêndice do Brasil e não o contrário. O Brasil foi abortado por uma Independência que se alçou a ser império, vide José Bonifácio de Andrade e Silva, mas que continuou escravocrata, que deixou-se estar como um país secundário. O contrário do que queria Machado. E o contrário do que fez Machado. Sim, porque Machado foi um gênio, um cara que estava muito adiante de sua época. Veja o que se disse dele Carlos Fuentes: “50 anos antes de Borges, Machado abriu o caminho para ele”. Ou Salmon Rushdie: “Borges é o escritor que tornou possível Garcia Marques; então, não é exagero dizer que Machado de Assis é o escritor que tornou Borges possível.”

O que interessa. Machado estava querendo um Brasil independente, capaz de encarar os grandes. Fez isso na Literatura. Pois, o Lula, depois de Vargas, Juscelino, entrou nesta vereda, neste sertão, neste encontro marcado. Lula mudou a cara do Brasil, com todos os problemas que o seu governo teve no primeiro mandato. O segundo, se não foi céu de brigadeiro, foi audácia. Inclusive na crise. E Dilma e Celso Amorim, foram as duas naus que fizeram o Brasil avançar. De um lado, uma política externa excepcional e, noutro, uma sustentação econômica com uma estratégia econômica robusta. E Dilma pretende continuar a obra de Lula, o que significa “navegar é preciso” neste caminho da construção de um país integrado na economia mundial, com distribuição de renda, com ampliação dos benefícios à população, etc.

Aí é que está. Machado era conservador em face das disputas políticas estabelecidas no Brasil Império. Veja o leitor o que ele pensa ficcionalmente, dessa realidade, em “Esaú e Jacó”, onde dois irmãos políticos acabam por matar Flora, símbolo da política brasileira, Hoje, ele veria que o trapézio da política se mexeu e caminhou para a construção de uma nação integrada medianamente no sistema geopolítico e geoeconômico do mundo. Deixou de ser uma nação onde o ministro das Relações Exteriores tira o sapato sob a ordem de um guarda americano, para ser uma nação que atua fortemente na América do Sul, na articulação de vários fóruns e diversas relações nas múltiplas regiões, na questão do Irã, etc. Ou seja, há um projeto de Brasil que Lula construiu e está legando, dentro da sua ação política, para que Dilma continue. Um projeto de uma nação independente que, dentro de sua limitação econômica, política e cultural, pretende participar nas decisões do que acontece nos rebuliços do planeta.

Bem, pois acho que, apesar de conservador, irônico, com insuspeito pendor cético, Machado, se fosse votar hoje numa secção eleitoral, mesmo um pouco desacostumado com a máquina de votar, cravaria na urna eletrônica o nome de Dilma Roussef. Lula e Dilma estão fazendo o projeto que Machado esperou que a Independência do Brasil trouxesse. Machado votaria, votará, no domingo, com sua barba bem aparada, com os seus óculos de pincenez (a turma perguntando: quem é esse cara?), na candidata que participa de um projeto de Brasil. A mão de Machado porá na urna o voto que dará a Dilma a possibilidade de dar continuidade e destino à trajetória daquele trem que partiu da estação da Independência.

(Ao menos, é o que os brasileiros desejam!)

quinta-feira, setembro 23, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
23 de setembro de 2010
Coluna das quintas

OBSERVAÇÕES SOBRE
O TUNEL ESCURO DA MÍDIA

Por Enéas de Souza



A TRANSFORMAÇÃO PROFUNDA

A mídia é um setor do capital. Ela se desenvolveu amplamente no mundo todo e acabou por instituir um mercado mundial e local de circulação de produtos de uma indústria especial, que chamo a indústria ideológica. Neste momento, em todo o planeta, mas particularmente nestas eleições no Brasil, está sofrendo uma grande derrota. Culpa sua. Saiu, já faz algum tempo, do seu papel original de informar e dar um ponto de vista, seja de um técnico, seja de um analista, sobre os acontecimentos. Dar uma posição de esquerda ou de direita ou de centro de modo honesto e inteligente. Foi se aquerenciando, no entanto, a publicar, como se dizia antigamente, “reclames”, hoje, publicidade. Este último ponto transformou-a profundamente. E com ele, houve uma inversão, a mídia sob as mais diversas formas, foi transformando notícias, novelas e reportagens, em venda de “produtos” determinados. Políticos, artistas, jogadores, empresários, etc. Até chegar a este ápice de tornar-se uma indústria de boatos, de denúncias não comprovadas, entrando, no caso das eleições nacionais, no caminho de uma partidarização e uma sectarização comprometida apenas com as suas fantasias, os seus medos, os seus interesses, a venda de suas páginas.

O NOVO GÊNERO DA MÍDIA

Ela está atravessando a ponte que vai cair e está chegando à margem onde “daqui não tem volta”. Abandonou o tempo onde se inspirava pela objetividade – pode-se até dizer, pela “verdade” – para penetrar no túnel escuro da difamação. Desta forma, mudou de gênero, apagou o campo racional da informação e da amplificação da notícia e do evento, para o campo da ficção, da história, da baixa literatura. De tanto semear este terreno, passou do campo da tragédia e do drama para o reino assustador da farsa. A mídia se transformou numa grande e hilariante comédia, onde ainda não apareceu nenhum Chaplin, nem Buster Keaton, mas onde já surgiram muitos “Os Três Patetas”. E geralmente, o miolo destas histórias são roteiros desmaiados e histórias mal pensadas. E até mal contados. Está faltando a mídia assumir com paixão este novo gênero do seu mercado ideológico, a comédia. E talvez contratar uns escritores como Woody Allen ou atores como Jerry Lewis.

O MERCADO DA DIFAMAÇÃO

Ela, a mídia, por enquanto, tem ficado no mercado das difamações e dos monstros. Cria espantalhos como quem cria coelhos, fabrica demônios como se fosse um “designer” das múltiplas faces do diabo. Veja a quantidade de fantasmas e satanazes construídos. E não se fale de Chaves, Fidel, Evo Morales. Diga-se direto da difamação de Obama, antes e depois das eleições americanas, por exemplo. Mas, agora, nas eleições brasileiras, o diabo veste Dilma. E a mídia alcançou uma nova etapa, a produção de dossiês, com tal generosidade que se pode qualificar o setor como uma economia de alta produtividade. Com essa performance deixa definitivamente a linha da informação pelo patético itinerário dos escândalos, que de drama em drama viraram comédias “sacais”. Temos autores cada vez mais lamentáveis. E com isso a mídia tornou-se uma indústria em processo de queda livre, pois querendo vender comédia por tragédia, boatos por informações, jogou a sua credibilidade no lixo, no fulgor de uma voluptuosa queima da sua respeitabilidade. E o pior: parece que está gostando, a difamação tornou-se um gozo de seu cinismo.

O MOVIMENTO SUBTERRÂNEO DO LIVRE MERCADO

E por quê? Antes de tudo, porque está sofrendo um deslocamento no mercado. Embora de um certo modo, como uma abóbora sem imaginação, ela que sempre defendeu o capitalismo, agora vê o livre mercado e os consumidores, como costuma falar, virar as costas para as suas mercadorias. Significa isso menos lucro, menos vendas, menos leitores, menos publicidade, menos influência. Sente-se, então, um vento de liberdade batendo sobre as páginas impressas, as vozes do rádio, as imagens de tv, despojando a mídia de sua posição. E paradoxalmente, ela reclama da liberdade de imprensa, que na verdade, quase sempre foi reclamo de liberdade de empresa, pois perguntem aos jornalistas quantos tem liberdade para escrever os seus pensamentos.

O que está no fundo desta débâcle é uma multidão de fatores, mas destaca-se, principalmente, uma mudança tecnológica que está levando a “grande imprensa” perder para blogs, para jornais on-line, etc. Qual é a razão? Absolutamente evidente: a transformação tecnológica fundamental, a chamada NTCI (Novas tecnologias de comunicação e informação). Um vulcão que vem do progresso da ciência e da tecnologia, lava caindo em cima desta indústria, desmanchando-a como um furacão saneador. Então, ela precisa de favores do Estado, mais do que já tem. Ela precisa gerar governantes que lhe favoreçam substancialmente. Ela, no seu abismo de desespero, quer parar o tempo e a história. Portanto, a tempestade: a tecnologia está transformando a indústria e, mudando a indústria, está mudando o poder. O jogo do mundo está acelerando a velocidade da própria História. E por incapacidade de ver o que acontece, pela contumácia dos caminhos equivocados e por uma incompetência conservadora, está atolada em dívidas e afogada na falta de perspectivas e de futuro. Traz na sua sacola de soluções o descarrilhar do seu trem. A mídia mente, falseia, cria desonrosos testemunhos, abomináveis reportagens, defende causas indefensáveis e gera, como conseqüência, a sua desqualificação. O mundo não é santo, e os artistas bebem na criminalidade e nas imperfeições humanas, do sangue sai a beleza, da morte de Antígona brota a desgraça de Creonte, do crime de Cláudio nasce “Hamlet”, do itinerário maldoso e medíocre de Bentinho encontramos a figura notável de Capitu. Mas o jornalista pode ver em Sófocles, Shakespeare e Machado de Assis, o caminho da transformação do lixo da vida em matéria de verdade. Ou, ao menos, de reflexão. E como dizia um amigo meu, “Quando tu fazes da porcaria mais porcaria ainda, meu caro, teu caminho é tu também tornar-te um personagem cariado e ridículo. Porque como os gregos já sabiam, a pobre gente dá, ao contrário da nobreza, a fonte da comédia”. E, desta vez, a pobre mídia não agüentou, fez de tudo, esperneou, abusou, gritou, reverberou, inventou, para ser o único e verdadeiro centro desta comédia humana.

ONDE ESTÁ O ANTAGONISMO DESTA ELEIÇÃO

A estratégia do desespero está levando a mídia convencional a assumir o primeiro plano do antagonismo político. A mídia, diante do eminente e iminente triunfo de Dilma diante de Serra, o que ela faz? Vê a ineficiência, a incompetência, a nulidade deste último. Sabe que, depois de tanto apoio, o candidato não sai do chão, desaba nas pesquisas, e termina fazendo uma campanha sem idéias, sem propostas, um desastre inolvidável. Por isso, ela deixa de ser uma linha de apoio do candidato do PSDB e emerge como protagonista, já que hoje ninguém da mídia acredita que Serra virará o jogo. E a mídia que começou lançando fogo contra Dilma, querendo incendiá-la, jogá-la no precipício, percebeu que, dada à inexistência de estratégia de Serra, teria que fazer o papel de adversária, quem sabe de inimiga. E assumiu para si este combate. E sua estratégia aparece centrada na idéia de uma progressão crescente de denúncias, verdadeiras ou não. Jogar tantas acusações quantas possíveis para ver se alguma pega. Quando se faz um caminhão de denúncias, elas tendem todas, umas a anularem as outras. De indústria ideológica sutil transformou-se numa indústria ideológica explícita de denúncias. A imprensa virou publicidade de má qualidade, vendendo o que não entrega e veiculando fúrias e raivas por todos os textos, as falas e as imagens. Mas, o resultado é irreversível, ela perdeu a batalha. Vai tentar não perder a guerra, tentando sitiar desde agora Dilma para que ela fique presa no seu mandato ao cerco diário. É um aviso para que ela entre em negociação “conosco, porque senão deixaremos sair de nossos quintais e portões, lobos, chacais, cascavéis, corvos e javalis”. O que se sente é que esta mídia vive hoje o seu estertor de respiração, de vida. As formigas caminham para a sua boca... Para se salvar, terão de encontrar o elixir da longa vida, que é adaptarem-se ao novo mercado midiático e às exigências de uma população com outra visão política do que ela.

QUAL É O VERDADEIRO PAPEL DA MÍDIA?

Curiosa figura esta: liberdade de imprensa. Houve um momento em que ela era uma figura contra as ditaduras, contra os poderosos, contras as violências, a favor da democracia, a favor dos esclarecimentos, a favor da razão. Hoje, o Lula faz um discurso contra o noticiário, não faz nenhuma censura e proclama que a mídia é livre – e apenas protesta contra inverdades – esta mídia salta, faz um carnaval, põe no trombone uma gritaria infernal: “Onde está a liberdade de imprensa?” “Somos atacados. Este governo é ditatorial, etc., etc.” E já sai, em seguida, para não deixar dúvidas, dando tapas em quem nem estava ali: não existe liberdade de imprensa em Cuba, na Venezuela. Os Kirchners querem acabar com a imprensa na Argentina, etc., etc. Se olharmos bem, neste momento, a grande mídia não se interessa mais pela própria liberdade de imprensa; diante das mudanças tecnológicas, ela se interessa mais pela salvação da empresa. E no pânico da perda de mercado, e na confusão dos problemas, a grande mídia se debate para achar um caminho econômico confundindo-o com um projeto político de curto prazo.

Por isso, fechando estas observações: é por essa e por aquelas, ditas no começo deste artigo, que a Mídia convencional está perdendo a mão, o jeito, a confiança. Foram-se os bons tempos quando qualquer pessoa dizia: “Olha, é verdade! Deu no Jornal”. “Deu na Televisão”. Hoje, me disse um taxista: “É, deu no jornal, mas o senhor sabe, não é?, na mídia não dá para a gente acreditar!”

Não está hora de uma grande reflexão sobre o verdadeiro papel da Mídia?


quarta-feira, setembro 15, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
16 de setembro de 2010
COLUNA DAS QUINTAS


A CRISE MUNDIAL
AINDA NÃO TERMINOU (*)

Por Enéas de Souza


O economista, entre outras coisas, é um analista e um avaliador. Examina os dados, estuda as forças que atuam sobre a economia, vê o posicionamento do Estado. E avalia. Pois, é o que estamos fazendo aqui. Há uma aparência de calma nos noticiários, na mídia, mas, há uma tensão na realidade. A crise mundial ainda não terminou. Estamos num mirante privilegiado, o Brasil, onde tudo parece estar bem. onde a economia brincando de alpinismo vai chegar entre 5 e 7% de acréscimo neste ano. Neste mirante se tende a enxergar, a perceber e a avaliar as coisas econômicas mundiais com otimismo. Mas, é preciso tirar estas lentes coloridas. E ver de perto, como a face da realidade tem como em alguns primeiros planos do cinema, uma parte do rosto clara; outra escura. A clara nos dá otimismo, a escura nos faz mistério. E o mistério é que depois da continuada crise americana e da atual crise européia, contrabalançadas pelo extraordinário crescimento da China e dos emergentes o ciclo da economia mundial não recomeça e não deixa para traz os maus tempos. Qual o mistério que se esconde atrás da dificuldade de recuperação desta economia?
No entanto, a economia mundial está mudando. E vai mudar a sua liderança, vai mudar o carro-guia, esta ave condutora da história. Pois, é isso que está em causa: trocar a liderança da era econômica do automóvel e do petróleo pela era das novas tecnologias de comunicação e informação. É uma mudança cíclica, é uma mudança na liderança e na estrutura do processo produtivo, é uma mudança no longo prazo da economia capitalista. Pois, quando se muda alguma coisa na economia deste porte, é preciso derrubar paredes, arrumar financiamento, é preciso mudar o Estado, ter instituições que comandem as mudanças, etc. É isto que está impedindo a metamorfose da economia. Ou melhor, a rapidez das mudanças. É isto que mostra que a economia mundial é ainda uma planta doente. É isto que mostra que o que precisa mudar ainda não mudou e o que é indispensável aparecer ainda não apareceu. Considere para ver como é necessária a liderança explícita de empresas de telecomunicações e não de bancos, como é fundamental um novo encadeamento de novas indústrias: nanotecnologia, bioeletrônica, ciências médicas, etc., e igualmente, substituir a infra-estrutura energética da produção. Estas mudanças são estruturais e levam tempo para serem feitas. A troca de padrão de acumulação que ainda não ocorreu, está se operando lentamente.
No fundo, há que se mudar o que está, no momento, mandando. Trata-se de mudar as finanças de posição. Elas querem que tudo fique como era, visando desenvolver-se livremente no céu da especulação. Então como é que se faz para as finanças saírem da sala de comando? Também é aqui que tudo está se jogando. A pergunta chave é: para onde vai o Estado? Qual é o seu novo sentido e a sua nova direção? Antes de tudo, encaminhar as finanças na economia e pela política econômica para um lugar mais adequado que é financiar as atividades produtivas. E porque, as finanças têm que desaparecer do primeiro plano? A economia deve retornar à liderança da produção com nova estrutura produtiva. Os ativos podres e o cassino especulativo atrapalham o novo desenvolvimento, o sistema bancário precisa ser convertido para o apoio ao sistema produtivo. Hoje as finanças funcionam como tranca-rua. Há, portanto, a necessidade de um reforço do Estado, para que este seja capaz de resolver a algazarra no bar da economia. Em alguns lugares já aconteceu ou está acontecendo; China, Brasil, etc. A mensagem é clara, há que reposicionar as finanças, a prioridade tem que ser da produção, do investimento e do emprego. Este é o novo sinal dos tempos.
No plano da retórica, tudo parece fácil, porque falamos de agregados. No nível macro é simples vislumbrar: muda-se a demanda centrada no consumo e a economia vai ser puxada pelo investimento. No entanto, tem que haver uma troca de política econômica; tem que se reformatar o Estado; tem que ter planejamento; tem que se criar, social e novamente, a mentalidade do investimento; tem que dar novas ênfases na educação para a nova economia que entra; tem que se alterar a hierarquia no Estado; tem que se condicionar o novo crédito, etc. As alterações econômicas são transformações de formas que podem ter passagens longas e difíceis.
A principal cirurgia a fazer tem que ser no DNA da economia, e naquilo que Hilferding chamava a forma financeira do Capital. Esta forma tem duas esferas, a financeira e a produtiva, só que contém em si a hegemonia das finanças sobre a produção. Foi o que ocorreu progressivamente de 1979 até 2009. E isso não se troca assim no mais. Mudar a hegemonia passa pela política e, por extensão, passa pelo Estado. E não basta que forças políticas ponham a sua bandeira nele, é preciso que haja uma reformulação técnica e qualitativa na burocracia. É este andamento da mudança histórica no processo econômico e social que tem uma duração complexa. Pois se trata, em verdade, de construir uma nova dinâmica econômica, o eixo Estados Unidos/China, de onde uma nova ordem internacional do trabalho dará surgimento a um outro processo de acumulação produtiva do capital, onde as finanças encontrão o seu novo lugar.

(*) Publicado originalmente na CARTA DE CONJUNTURA FEE, edição de setembro de 2010, da Fundação de Economia e Estatística.

quinta-feira, setembro 09, 2010

Neoliberalismo tardio ameaça Porto Alegre (por Tânia J. Faillace)

UM PORTO... ALEGRE SÓ PARA OS RICOS

Tania Jamardo Faillace - jornalista de POA – Região 1

Durante o mandato de João Dib como interventor do regime militar em Porto Alegre, no início dos 80, ele fez algumas propostas chocantes para a então aguerrida população portoalegrense. Tratava-se da “modernização”do Centro de Porto Alegre. Nessa modernização, estavam incluídas:

1. Demolição da Usina do Gasômetro

2. Demolição do Cadeião (Casa de Correção)

3. Demolição do Mercado Público

4. Demolição do Paço dos Açorianos

No lugar do Mercado Público e do Paço Açorianos, seriam construídos enormes estacionamentos subterrâneos para carros de passeio. No lugar do Cadeião e da Usina do Gasômetro, um projeto para o turismo de alto luxo, com marina privada, hotéis de muitas estrelas, etc., etc.

Na época, a sociedade gaúcha agiu rápido. Tombou (preservou) legalmente os prédios ameaçados, mas não conseguiu impedir a demolição do Cadeião, antes de ser publicada a lei no Diário Oficial. Depois disso, o pessoal não mais se descuidou, e conseguiu proteger os outros prédios. Mas a idéia não morreu, apenas ficou em banho-maria.

O neoliberalismo dos governos Yeda, Fogaça e Fortunatti, abriu novamente a temporada de caça ao patrimônio cultural e à memória da cidade. Não se trata mais de um projetinho aqui e outro lá, mas de um plano geral para privatizar (e elitizar) toda a orla do Guaíba e outros espaços privilegiados, e, principalmente, para impedir que o cidadão comum, que não tem carrões e cartões milionários, possa desfrutar das coisas boas de sua cidade.

Diretrizes para a orla.

A Ponta do Gasômetro e o Parque Harmonia são dois sucessos de povo e público, apesar de algumas deficiências. São locais de lazer acessíveis a qualquer morador ou visitante de Porto Alegre, que podem passar seu domingo ou feriado respirando ar puro, admirando o pôr-do-sol, ou batendo bola com os amigos, com um mínimo de despesa ou despesa nenhuma, e sem impedimentos físicos. Totalmente democráticos, o Gasômetro e o Harmonia recebem quem quiser visitá-los, de A a Z, rico, remediado, pobre, morador de rua, artesão, pipoqueiro, malabarista, roqueiro, pintor, atleta, deficiente, velho, bebê, cachorro na trela... e até cabo eleitoral.

Pois a prefeitura de Porto Alegre resolveu retomar o espírito da velha proposta do Dib. Por que tanta beleza e facilidade deveriam ficar à disposição dos portoalegrenses gratuitamente, sem obrigá-los a gastar e apresentar prova de fortuna e destaque social?

As novas diretrizes para a orla vão corrigir esse “defeito” no trecho Gasômetro/Internacional. Avenidas, passarelas, estacionamentos, torres de concreto sem nada a ver, cortes de árvores, mais pistas que avançam rio a dentro (com um estacionamento dentro do rio!) e restaurantes de luxo. Por outro lado, serão proibidas as barraquinhas e coisas de baixo preço. Em resumo, o cidadão comum deverá deixar a área livre para turistas com muitos dólares ou euros, e brasileiros abonados, que não gostam de cruzar com gente de crédito limitado, que não anda de carrão.

Cais Mauá.

Cais são áreas para atracar navios. Nos cais, os navios embarcam e desembarcam mercadorias e passageiros – um transporte muito mais barato e eficiente que o rodoviário. Não são áreas próprias para o comércio varejista ou diversões. Pois bem, os amiguinhos do rodoviarismo e do pedágio, querem construir prédios de 100m de altura, shoppings, escritórios, etc., DENTRO DO CAIS.

Há dezenas de prédios desocupados no Centro, e mais de 30 shoppings na cidade, que serão duplicados nos próximos anos – mas a faixinha do cais encanta o governo Yeda, que quer mais edifícios, mais engarrafamentos e mais shoppings. Pergunto: que empreendedor será tão desmiolado para se estabelecer do outro lado do Trensurb e do dique da Mauá, enfrentar os congestionamentos da Conceição, da Castelo Branco e da Rodoviária, e rodar de 3 a 6 km (ida e volta) para alcançar o portão central, e dali, seu prédio?

Aliás, o governo federal está processando o governo estadual que fez um edital de licitação para as obras, sem ter poder para isso: o porto é federal e não estadual.

A morte anunciada do Brique da Redenção e do Parque

Também o Parque Farroupilha, que se salvou de perder pedaços para o túnel da Conceição, quando o governo Villela quis cortá-lo ao meio e demolir vários prédios históricos da Universidade Federal, está ameaçado e na mira do canhão!

Novidades: 1) estacionamentos no Parque Farroupilha, e 2) destruição do Brique da Redenção para aumentar o Hospital Pronto Socorro, que está pequeno demais para as necessidades.

Achamos o contrário: o Hospital de Pronto Socorro deve ter extensões nos vários bairros, ao invés de ficar concentrado num local só, com todos aqueles problemas de circulação e acesso que se sabe.

Nós, portoalegrenses, usuários da Saúde Pública queremos várias unidades públicas de atendimento de emergência, não uma única, gigantesca, que comerá um bairro inteiro, e destruirá um dos locais mais tradicionais do domingo na cidade.

Não bastou entregarem o Auditório Araújo Viana para uma empresa promocional? Nos anos 50 e 60, ele era de uso público, realizando shows e eventos com entrada liberada.

Gente! vamos permitir que os portoalegrenses sejam segregados e expulsos por faixa de renda? que os bons lugares da cidade sejam reservados apenas para os privilegiados econômicos? Mas não é só.

Condomínios e loteamentos

Vejamos: dona Yeda quer que uma vasta área pública no bairro Humaitá, - que PRECISA de um pulmão verde, por ser o bairro mais poluído da cidade, – seja ocupada por uma porção de prédios de luxo, a serem construídos pela baiana OAS, sob a desculpa de também construir um estádio que levará o nome do Grêmio. Na verdade, o Grêmio não será dono dele nem da área do Olímpico, que será cedida – de graça – à construtora OAS.

Como sabemos, quando os prédios de luxo chegam, os moradores que não são de luxo vão embora, expulsos pela pressão imobiliária.

Sem falar que a regularização fundiária feita pela prefeitura autoriza até lotes de 20 metros quadrados – um tico de terreno de 4 por 5metros. Quem não gostar, pode pegar um bônus financeiro desde que vá morar fora de Porto Alegre. Há, pois, privilegiados e não privilegiados.

Privilegiados e Não Privilegiados

Esses privilegiados são tão privilegiados que não precisam cumprir as regras dos loteamentos. No Beco do Salso, a construtora Rossi está fazendo um condomínio de luxo, o Toscana, para mais de mil pessoas, sem tratar seus esgotos – tudo irá diretamente para o arroio Dilúvio, a menos que o DMAE resolva favorecer a empresa paulista, com o dinheiro dos contribuintes portoalegrenses.

Já os não privilegiados são os comerciantes pobres do Viaduto Otávio Rocha, por exemplo, que a Secretaria de Indústria e Comércio quer despejar para entregar o Viaduto a um empreendedor rico.

Nas reuniões dos forum de planejamento da cidade são conhecidos e discutidos todos esses assuntos. Aproxime-se você também de sua associação, de seu forum, para discutir e reivindicar, e, mais do que tudo, planejar pessoalmente sua região, seu bairro, sua rua, sua vida! (TJF - Região 1)