sexta-feira, julho 30, 2010

Painel na FEE - 04/07/2010 - Convite aos leitores

Painel

A nova etapa da crise mundial

Data: Dia 04 de agosto de 2010 (quarta-feira)

Horário: 14h30min

Local: Auditório da FEE (Rua Duque de Caxias, 1691)

Promoção: Núcleo de Estudos de Política Econômica /Centro de Estudos Econômicos e Sociais (NEPE/CEES/FEE)


Entrada Gratuita

Painelistas

Perspectivas da conjuntura econômica mundial

Econ. André Scherer (FEE e PUCRS)

A nova dinâmica do capitalismo financeiro

Econ. Enéas de Souza (FEE)

A economia brasileira e sua inserção na economia mundial

Econ. Pedro Almeida (FEE e Unisinos)

Informações

Assessoria de Comunicação Social (Ascom): 3216-9013

quinta-feira, julho 29, 2010

CRISE MUNDIAL FINANCEIRA
29 de julho de 2010
COLUNA DAS QUINTAS

O QUE IMPORTA
É
A LÓGICA ECONÔMICA
Por Enéas de Souza
1) O nome decisivo em economia é lógica – lógica do capital. E no caso presente, lógica do capital financeiro. Portanto, ao contrário do que pensam certos economistas, a matemática não é uma lógica econômica, e só pode funcionar subordinada a esta. Fazer equações e modelagens só tem sentido se forem construídas em torno de proposições oriundas da economia. Ao mesmo tempo que não se pode aplicar uma teoria já preparada para a compreensão da realidade, um modelo ou uma visão a priori. O meu ex-professor de filosofia, católico, apostólico, romano, Armando Câmara, sempre dizia como Lênin – e eu sempre me lembro desta frase quando falo sobre o assunto – “nada tão prático como uma boa teoria”. Só que a boa teoria é o resultado apurado de idéias que se envolvem com a práxis. E que neste face a face com a realidade confirma aspectos verdadeiros, mas permite a correção de outros. E arma, por aprendizado, novas figuras intelectuais que o real vai exaltando e desenvolvendo. Portanto, o decisivo numa situação econômica é sempre saber por que a dinâmica da conjuntura é essa; que estrutura está presidindo essa correnteza histórica.

2) E porque razão? Já que esta razão não nos é dada antes dos acontecimentos, de modo a priori. Sabe-se igualmente que uma concepção também não é um apanhado e uma amálgama de variáveis que se pegou para descrever uma presente situação analítica. O que parece decisivo é saber por que se está numa situação como se está. E construir com a interação da teoria e da realidade uma teoria sempre em ato, uma concepção que está sempre aberta à elaboração de novas proposições que nos dêem a inteligibilidade do desenvolvimento econômico. E essa abordagem só existe se, por trás dessa presença de conhecimento, aparecem forças sociais suficientes para sustentar determinadas posições. Então, tomamos três pontos – um: uma teoria é o que permite compreender uma determinada realidade em movimento, o que significa entender a dupla história, da teoria e da realidade; dois: a teoria precisa ser sempre apreciada pela capacidade de incorporar novidades da realidade que ela mesma é incapaz de antecipar; e, por último, três: uma teoria só pode avançar para a transformação da prática se tiver grupos sociais que estejam apoiando tal direção da teoria sob formas de ações políticas. Uma política econômica tem a sua gênese da economia política.

3) Esses pontos estão envolvidos na lógica que vai compondo a compreensão da dinâmica capitalista numa certa direção. Sem esta lógica, o que temos é a vacuidade insignificante dos números usados a bel prazer por qualquer um. No fundo, hoje, existe um bom número de economistas e de gente que se autodenominam de gestores, cuja vocação é furtar a interpretação, já tendo eles próprios uma interpretação confusa, para que possam servir ao conservadorismo como se estivessem servindo ao bem público. Esta é mais uma das banalidades da contemporaneidade, a adoração dos números. O que significa que não sabem o que está acontecendo. Não pensam, passam a vida a calcular. A grande nudez destas posições apareceu nitidamente na incapacidade que tiveram de entender a crise quando ela estava estourando no mundo, quando não havia sinais de fogo, mas quando, em verdade, o fogo já estava grassando a olho nu. O número é cego, só a teoria proporciona a fala deste número. Na ocasião, estes analistas, continuavam seu triste destino ideológico e a dizer: tudo vai bem. E tudo vai bem por quê? Simplesmente porque um número, uma equação, uma modelagem não tem uma lógica que perceba a dinâmica de uma lógica econômica instalada. Uma variável tem que ter sociedade, classe social, teoria para sustentá-la. Sem essa condição, nenhum analista é capaz de entender minimamente o que está acontecendo.

4) O capitalismo vai se reerguer, mas não teremos de volta este capitalismo indecente que já passou. Que ele deu? Como disse na sua palavra simples, um chofer de táxi de Buenos Aires: “Los ricos continuán a ganar más plata, y los pobres siguén más pobres que antes”. Tradução: o neoliberalismo piorou em toda a parte a distribuição de renda. Tudo por uma única razão. Conseguiram passar para a sociedade que retirar o Estado da economia iria permitir o desenvolvimento social de todos. Como isso se mostrou uma balela, inventaram a idéia de que o sistema promove vencedores. E que para orgulhar um cara ante todos, existe, entre milhões de pessoas, alguém que é sempre um vencedor: você. Mas, se você não é um vencedor, o problema é seu e não do sistema Que pobreza de espírito, que maluquice mais estúpida! No entanto, o inusitado e o chocante é que esse besteirol colou. Agora que as derrotas das forças populares nos anos 90 foram assimiladas, partes equivocadas das teorias políticas e econômicas foram descortinadas, novas apostas podem ser feitas, principalmente, porque o neoliberalismo mostrou todo o fracasso de sua proposta, como nos disse o motorista de táxi de Buenos Aires. Pois o que se viu foi uma distribuição de renda mais desgastante e um Estado que agiu a serviço dos bancos – sobretudo dos bancos. E veja o milagre da repartição dos pães. Quem os salvou da bancarrota? O Estado. E mais: com o dinheiro da população, com “o nosso dinheiro” como gostam de dizer os donos do mundo, quando é para pagar algo que vai para os pobres, como a Bolsa Família, por exemplo.

5) 2007 destapou o subterrâneo da economia: aquela volúpia financeira através do abuso vigoroso e quase virtuoso da securitização. Claro que se esta só tivesse títulos financeiros de base, a crise teria ficado no reino das finanças. Mas, as hipotecas imobiliárias vinculavam o setor financeiro e o setor produtivo. Então, aconteceu o irreversível, não apenas a superacumulação de direitos financeiros, mas a superacumulação de bens e produtos. Resultado: hecatombe – que poderia ser um nome de fantasia para a crise econômica. E, claro, seguindo o baile, a pergunta se faz: onde é que a crise mundial se resolveu razoavelmente? Resposta: nos lugares onde o Estado estava menos endividado como no Brasil, onde o Estado estava no comando da economia, como na China. E começou-se, então, a sentir que, primeiro, para salvar os bancos e as instituições não-bancárias e as entidades não-financeiras, o que se precisava era de dinheiro público, o tal do “nosso dinheiro”. E, de repente, como um deslizamento mágico, o “nosso” virou dinheiro “deles”. E pior, riram da nossa cara, nos Estados Unidos, os recursos do Estado serviram inclusive para pagar o bônus de alguns dirigentes financeiros. Deboche absoluto. E mais, o Estado, o americano para termos uma idéia, foi longe, foi bastante longe, gastou e se endividou mais ainda, contudo somente para “la pátria financiera”, como dizem os argentinos. Porque, como migalha, só houve uma beirada miúda, quase desprestigiada, para o setor produtivo, automobilístico em especial. E um troquinho, muito mixa, para os trabalhadores, os part times e os desempregados.

6) Já faz no mínimo dois anos que os cantores do sistema dizem que agora sim, a coisa vai virar. E lá vêem eles com atléticos números estatísticos, que são plasmados para dizer o que as finanças querem. E aí está o nosso ponto: mesmo que a aparência mostre que a economia está se recuperando, o inverso é que é verdadeiro. Por quê? Isto está parecendo aquela história do Nelson Rodrigues, que ao ser alertado que tal partida de futebol não tinha sido como ele analisara, respondeu, altivo e triunfante: pior para os fatos. Pois é quase: o setor X cresceu, o banco Y recuperou a lucratividade, a empresa Z bateu o último semestre do ano anterior, etc., etc. Isto tudo são números vazios. O que temos que fazer é botar os números no interior da lógica econômica. Sim, porque a lógica econômica que presidiu o mundo anterior (a dinâmica aplicações financeiras-rendas financeiras-consumo-investimento) levou um tombo, caiu e não se levanta mais. Por quê? Porque não se fazem mais alavancagens como antigamente; os bancos não se emprestam como se emprestavam em outros tempos; as ações não estão rendendo para os investidores como rendiam nos anos 90; a securitização não tem espaço para crescer, nem para retornar ao mesmo nível anterior. A lógica econômica é submetida ao tempo. E o tempo é irreversível. Os ativos financeiros de ontem não são mais negociados como antes e a produção empaca na sua expansão: houve uma superacumulação de capital. O que está havendo é queima de capital. Não adianta dizer que em um mês cresceu um pouco mais aqui, um pouco mais ali. A economia como um todo não está crescendo. O investimento não aumentou, o emprego desabou – e, obviamente, não há horizontes para recuperação. Logo, a economia não é mais a mesma, perdeu a cabeça, perdeu o braço, perdeu o pé. Tem que nascer outra economia. Não adiantam números, não adiantam equações, não adiantam previsões numéricas. Há que mudar a lógica da razão econômica, o que significa dizer: estrutura, funções, dinâmica. E esta transformação não se dá porque um mercado cresceu bem hoje. Este crescimento só é representativo se e somente se ele está integrado numa nova lógica, porque cada período histórico é organizado por uma lógica distinta que se altera conforme a época e a etapa da sociedade. Esta é a plasticidade da lógica do capital e do capitalismo.

7) Então, quando é que os números vão se apresentar significativamente? Quando a economia se transformar; quando dinamicamente, ou seja, quando a finance led growth deixar de ser o movimento fundamental; quando o Estado tiver poder de decisão, como na China, por exemplo, e voltar a realizar uma política econômica não-liberal. Para isso, o Estado tem que ter planejamento, planejamento macro-econômico. Minimamente. Nos Estados Unidos, seja colocado em pauta, a Finantial Regulatory Reform possibilitou, via o Conselho de reguladores, um caminho irregular, mas caminho de controle da descabelada finanças. Ou seja, Obama pode tentar formatar uma direção financeira e começar a cuidar da economia produtiva. Uma vez que é preciso reposicionar a indústria automobilística, o que já começou a fazer desde o início do seu governo, substituindo diretores, impondo determinados tipos de linhas e carros a serem produzidas, etc. Ou seja, há que botar a referida indústria no seu lugar. Por quê? Por causa das necessidades de transformações do setor de energia, principalmente o petróleo. Estamos numa esfera decisiva, a mudança no setor energético: novas fontes de petróleo, o desenvolvimento do pré-sal e dos biocombustíveis, bem como a preparação de novas indústrias energéticas como a eólica, a solar e a do hidrogênio. Tudo isso vai ter que provocar novas relações, não só entre elas, mas com todo o conjunto de indústrias novas e velhas se misturando numa reformulação profunda de posições. Portanto, não adianta só falar em números, tem que mudar o Estado, tem que mudar as políticas econômicas; tem que mudar os setores produtivos; tem que mudar a liderança do setor industrial e tem que construir e conectar as cadeias produtivas que expressam esta nova realidade.

8) E, para isso, há que alterar o básico, há que alterar o financiamento. Ou seja, o sistema financeiro tem que se organizar em função dos setores produtivos, tem que haver crédito público e privado para as novas indústrias, principalmente às indústrias que vão entrar na maturidade, como as novas tecnologias de comunicação e informação, como às indústrias novas que entrarão em processo incremental de instalação, como os produtos das ciências médicas, etc. Portanto, a tal de finance led growth, vai ter que se inverter: o crédito para a especulação teve os seus anos dourados nos anos 2000. Agora não adianta dizer que os grandes bancos tiveram um semestre bom ou ruim. Não, não adianta dizer, eles vão ter que se transformar, vão ter que passar do financiamento para a especulação ao financiamento da produção. Isso não quer dizer que a especulação vai desaparecer. O que vai acontecer na nova lógica econômica é, possivelmente, uma cisão nas finanças: uma parte se dedicará ao desenvolvimento industrial, comercial e de serviços e a outra parte dará cobertura aos delírios especulativos. E cabe aos governos, através de políticas monetárias financeiras e fiscais, impedir a fusão desses dois mercados. Será a forma de desdobrar o perigo destes bancos “to big do fail” e deixarem, portanto, de serem prisioneiros desses gigantes da era neoliberal.

9) Finalmente, o Estado vai ter que planejar o desenvolvimento associado do setor público com o setor privado, com a finalidade não só de fazer a metamorfose da estrutura econômica, mas com a finalidade de destinar novas funções para o setor financeiro. Na viagem dessa aventura, corre uma remodelação do setor produtivo de tal modo que se possa substituir um processo de acumulação das finanças por um processo de acumulação produtiva que comande a expansão financeira. Se isso ocorrer, poderá haver uma forte criação do emprego e a economia pode retornar ao comando do investimento, com efeitos evidentes no consumo. Por outro lado, o que for excessivo para o financiamento do setor produtivo pode ser aproveitado pelo setor financeiro numa outra dimensão do que a atual. Esta nova economia exigirá, inclusive, o aumento de emprego no Estado, já que com características totalmente diferentes da economia de hegemonia financeira, não pode funcionar com a burocracia de hoje, estrutural e funcionalmente. O leitor sabe que o que é decisivo a partir da crise recente é a emergência de uma nova lógica econômica.

10) Desta forma a economia mundial terá que recomeçar, na verdade já está começando, pela expansão chinesa, organizando a Ásia e a recolocando a América Latina e a África no campo da recuperação. Mas, a economia chinesa não tem cimento para construir toda a economia planetária. A renovação americana será importante, porque não só os Estados Unidos continuarão dominantes, mas reorganizarão a Europa e a Inglaterra, consolidando igualmente, as economias latino-americanas e africanas. Mas essa recomposição, para países como o nosso, só acontecerá no momento em que as dinâmicas das corporações e das nações unirem novamente os Estados Unidos e a China, constituindo, então, uma outra economia mundial. Só ai é que esta voltará a empurrar e a construir o novo círculo virtuoso do conjunto das economias. E isso não será feito como a construção do mundo pelo Senhor, ou seja, em sete dias. Os homens, coitados, são mais demorados. Tem que organizar as forças sociais capitalistas e forças sociais dos trabalhadores, bem como frações de classes apêndices em torno de um novo projeto da economia mundial. E isso não se faz sem fortes e profundas lutas, nem sem poderosos acordos. Enquanto a nova lógica se constrói, a velha desaba. Esta é a versão econômica daquela antiga sabedoria de botequim de Ibrahim Sued: “enquanto a caravana passa, os cães ladram”.

quarta-feira, julho 21, 2010


CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
22 de julho de 2010
COLUNA DAS QUINTAS

A NOVA
REGULAÇÃO
FINANCEIRA
AMERICANA

(Será que não tem muita abóbora nesta goiabada?)
Por Enéas de Souza


1) Quando se fala sobre a constituição de um país, aqui no Brasil, sempre se compara com a americana. São doze pontos. E o resto é interpretação do judiciário. E todo mundo diz: olhem para a Americana e não façam como aquela que é uma “colcha de retalhos”, que tem uma “multidão de artigos”, como a nossa. Não sei se expresso bem o que quero dizer, mas isso me veio a cabeça quando soube que a nova regulação financeira dos Estados Unidos tinha 2.300 páginas (!). É patente que me surgiu o seguinte comentário: não pode dar certo. Só para regulamentarem a lei, só para começar a pôr em prática, vai levar um tempo fantástico. Os pessimistas falam até em anos. Será?

2) Veio-me, como sempre, a idéia de que a economia está sempre direta ou indiretamente enrolada na política. Esta foi a reforma política que Obama conseguiu. Em que sentido? No sentido, de que tudo é muito complicado nos domínios de Tio Sam. Primeiro, porque o Estado americano, ele sim, é uma colcha de retalhos, a regulação passa por níveis de superposição federal, estadual, municipal, passa por multiplicidades de agências reguladoras, por uma estrutura financeira onde não existe um princípio de unidade. Uma flora e fauna, uma selva selvagem - diria nosso comentarista italiano Dante – de tal ordem que James Friedman (o filho do sempre inolvidável Milton Friedman) disse com propriedade: vivemos nós, e queremos para os outros países alcancem o que temos, uma “anarquia liberal”. (Tira as crianças da sala, que tem palavrão no pedaço!). E como a dúvida é saudável, duvidem; mas duvidem e leiam e confiram o que estou dizendo no livro de Roubini, “A economia das crises”, sobretudo os capítulos 8 e 9.

3) O segundo ponto da complicação da reforma é que o Congresso é uma arena de gatos escaldantes de tal ordem que a negociação da lei passa por um conflito inigualável e inexorável nas duas casas do legislativo. E nelas, habitam no lugar, uma forte e intensa energia contraditória. Há pressão de vários grupos da população; há a disputa e a negociação dos partidos com o Executivo; há múltiplos interesses entre os representantes políticos, seja nos democratas, seja nos republicanos, seja numa casa do Congresso, seja noutra; há uma presença colossal dos lobbies, onde a deusa Grana faz as suas epifanias; há negociações de todos os tipos, chantagens de todas as figuras; há uma arena, um circo e uma praça de negócios atrás e na frente de todos os interesses. Preminger fez um filme, admirável sobre o combate e os conflitos no Congresso americano, que se chamava - olha só o título! – “Tempestade sobre o Washington”. Dentro desse redemoinho, dentro dessa volúpia, e medindo o grau das forças, sobretudo dos lobbies, o Executivo, via Christoffe Dodd, agora em 2010, fechou uma reforma, onde a meu ver a solução não é técnica, mas eminentemente política. De um lado é institucional, com um novo Conselho, um Conselho de Reguladores, que fará, de outro lado, propostas técnicas, como expressões de decisões de política financeira e monetária, que é a política no terreno das finanças.

O BATUQUE DA IMPRENSA E O CENTRO POLÍTICO

1) A imprensa convencional e personalidades que saem nela estão afirmando que é a maior reforma desde a 2ª guerra mundial e que aumentou fortemente a regulação, etc. etc. Penso - ainda sob a primeira impressão - que tem aí uma coisa ridícula, sobretudo nas declarações por parte dos políticos. “Nós queremos que este desastre não aconteça de novo, que quando a catástrofe se aproxime não tenhamos os instrumentos para impedi-la”. Ah! vã pretensão de políticos e de economistas e de propagandistas do sistema. Olha gente: capital é crise - dizia meu amigo Isaac Joshua. É crise, não se olvidem. Não há possibilidade do capitalismo não ter crises. Desde 1750 isto vem acontecendo periodicamente. A economia é cíclica, e o cíclico supõe os pontos das inversões das tendências ascendentes e descendentes, que são a crise e a retomada. Configura-se a velha pretensão hegemônica americana e do capital financeiro de dominar o ciclo. A cada retomada, passado um tempo, eles dizem: acabou o ciclo. Ora, estamos a ouvir a velha e enfadonha música, desconjuntada e triste, de que, agora sim, o tempo parou, de que a história acabou e que vamos ter fatalmente de encontrar o “happy end” dos filmes dos anos 50 do século passado. Como se desde lá o império tivesse triunfado para a eternidade.

2) A segunda coisa que emerge rápido é esta idéia do Conselho de Reguladores, sob o comando do Secretário do Tesouro. Bem, esta proposta é ambígua. Não dá nenhuma certeza de possíveis mudanças. Por quê? Por causa, de que na arquitetura do sistema financeiro e nas suas funções, a coisa mudou pouco. E o que entra de novo é que a direção da política financeira será vigiada por este Conselho, Seu objetivo: evitar o risco sistêmico, tendo como seu agente 007 o FED, com licença não para matar, mas para liquidar, se for o caso, as instituições financeiras que estão causando tal problema.

Antes de tudo, a pergunta rigorosa e fatal sobre a reforma: qual é a vantagem?

3) A vantagem principal é que pelo menos haverá a busca de uma visão unitária (aleluia!) e, em caso de crise e de consenso no Conselho, surgirá uma ação bloqueadora, quem sabe rápida, face aos danos de uma eclosão perigosa e demolidora da crise. Ora, para que isso aconteça é preciso ter informações corretas, sabendo-se que vai haver até o registro daqueles derivativos potencialmente explosivos, mas supõe que o sistema de informações funcione – o que não aconteceu na crise de 2007.

4) Todavia, a ação contra os grandes bancos (to big to fail) é que vai definir o possível caráter transformador da reforma ou não. Lembremos que na crise de 30, a famosa lei Glass-Steagall foi o que permitiu a separação entre bancos comerciais e os bancos de investimento, o que impediu a conexão entre as áreas de crédito à produção com o crédito para as áreas especulativas. Aqui é arena onde tudo vai se definir. Como interromper a conexão das instituições financeiras para impedir o incêndio, o contágio, a contaminação dos ativos tóxicos? Como introduzir as portas corta-fogo que nesta reforma – infelizmente – não foram designadas e apontadas preventivamente? Tudo é nada mais que evidente; a fúria e o furor dos bancos, com seus esquemas de lobbies e com a privatização do Estado americano, tentarão sempre impedir o sucesso efetivo. E então, por ausência de mecanismos institucionais a serem implantados, o fogo das finanças terá que ser interditado pela ação clarividente deste Conselho aprovado.

5) O grande temor: a arena da compra e venda, se é que ela é possível. Ela vai se transferir do Congresso para as Agências Reguladoras, e destas, para o domínio do referido Conselho. Obama, com o seu ardil incrementado, deve ter pensado que no Conselho ele poderia ter uma capacidade de pressão mais alta, mais volumosa.. Por sua vez, as instituições financeiras cogitaram que também ali elas poderiam atenuar os efeitos de medidas dos reguladores. E a razão é só uma: se sabe que as Agências Reguladoras, em toda parte, são o capital regulando o capital. Só que nos últimos tempos o acontecimento teve uma figuração distinta: foi sempre o capital desregulando o capital. Na crise de 2000/2001, as ações da Enron, uma semana antes desta quebrar, eram consideradas pela SEC (Security Exchange Council) como exemplo de uma ação em estado de graça. Pois acredite, ela morreu de bronquite: despencou de mais de 80 dólares por unidade para 9 cents. Êta agencinha que cuidava bem dos interesses dos aplicadores!

6) No caso do Conselho, é claro, estas agências também dependem dos nomeados. E Obama, não sei se mudou a direção de todas, mas certamente de algumas ele fez as alterações devidas. O presidente americano, é óbvio, aguarda e espera fidelidade dos que emplacaram a sua política mais geral, a proposta de reforma dos Estados Unidos e do capitalismo. E isto, não há nenhuma dúvida, começa, mesmo que seja progressivamente, por um controle das finanças e de todo o sistema financeiro.

7) Acho que foi dentro dessa perspectiva como da capacidade de assimilação do Conselho de sua estratégia, que Obama optou por fazer a Reforma desse jeito. Um país individualista, um país avesso à regulações estatais, um país dominado pela cultura da hegemonia absoluta do capital, um país centro da dominância do capitalismo financeiro não poderia fazer uma reforma definindo uma unidade reguladora principal, uma arquitetura financeira bem armada e funções de crédito muito estabelecidas. Não há no momento possibilidades de discriminar claramente as duas esferas das finanças. Uma – fundamental – de financiamento da produção e outra – secundária e complementar – de financiamento da especulação. Porque não há como ter dúvidas, as finanças têm a vocação especulativa.

8) Logo, a separação destas áreas vai levar tempo. Os financiamentos e as aplicações que não estão ligadas à indústria, à agricultura, ao funcionamento dos serviços e do comércio, condizem com o seu caráter contundente: são pura especulação. São movimentos que se sustentam no capital fictício, de natureza potencialmente delirante e enganosa. Na verdade, uma bomba de sucção da renda da sociedade para o engordamento das instituições financeiras. Nunca é tarde demais para não esquecer que quem aplica em títulos, não tem, no limite do seu jogo um capital como garantia. Tem sim, um mero papel, uma promessa de valorização que pode não ser honrada, mesmo com a certificação de um agência de ratings. Felizmente, Obama conseguiu, num gesto político cauteloso, colocar na lei uma agência de proteção ao consumidor, uma vez que nos títulos é o velho jogo do cara e coroa financeiro: “cara, eu ganho; coroa, tu perdes”. Olhando e pensando bem esta reforma, a gente deseja, com fervor e esperança: GOD BLESS AMERICA!






quinta-feira, julho 15, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
15 de julho de 2010
COLUNA DAS QUINTAS

FORA ESTADO!
Por Enéas de Souza


O mundo parece parado. Sensação de que tudo já passou, embora não se saiba qual é o barco que vai conduzir a economia capitalista. E há no pedaço uma presença forte, até certo ponto silenciosa, quase um sussurro, dos chineses. O fato do Estado ali fazer a diferença, impede que a imprensa ocidental neoliberal venha e faça o seu berreiro de sempre. O capital depende do Estado, mas não é bom proclamar com tuba sonora. Fala baixo, porque senão os outros países se lançam nesta empreitada e nós, os americanos, vamos ter muito que fazer para desdobrar este caso. Mesmo, porque, se eles chamam Obama de “marxista”, “socialista”, “comunista”, como é que eles chamariam os netos de Mao Tse-Tsung – mesmo que estes sejam capitalistas? Afora, essas realidades, como é que a gente vê o rio da conjuntura?

PONTO NÚMERO UM: O REI NÃO É O CONSUMIDOR

1) A economia está parada porque os capitais estão em guerra contra o Estado. Claro, este, nos Estados Unidos, já fez o serviço sujo imprescindível: efetuou dois planos de salvação para as finanças e várias linhas de crédito (mais de 2 trilhões de dólares), deu algum dinheiro para o setor produtivo e uns trocados para os cidadãos. E pela luta decisiva que a economia futura trava no Congresso Americano, a gente percebe que só há um ponto que os bancos concordam: o Estado tem que se por à margem dos mercados e evitar qualquer regulação. Somente num aspecto todos os financistas são favoráveis: que o Estado atue no momento do risco sistêmico. O risco sistêmico é aquele tipo de comportamento de bancos e de ativos que põe em perigo todos os componentes do sistema financeiro e, por extensão, da economia em geral. Então, a primeira tese, tese prioritária: o Estado está a serviço do capital e dos negócios. PONTO FINAL.

2) E, portanto, conclusão mais que evidente, ele deve ficar longe das atividades econômicas. O que significa isso? Antes de tudo, que o Estado seja um soldado e um militante do lucro e da rendabilidade. Depois, que evite o tal risco sistêmico. E, em caso de explosão, arrebanhe todos os recursos, inclusive endivide-se, para salvar os bancos, em último caso as empresas. E os trabalhadores? Bem, é doloroso, mas vão ter que esperar um pouco, pois quando a economia responder positivamente e as firmas retomarem o crescimento, teremos sem dúvida a possibilidade de novos empregos. Eis o lema: todo dinheiro ao capital. Por último, o Estado deve, como um bom policial, depois de ter limpado a zona de perigos adversos, deixar a política econômica para soluções micros, ou seja, para as corporações. Eis a lei do crescimento: a macro é o resultado de decisões micros. E, por consequência, o Estado deve novamente recolher-se à espreita de uma nova irrupção de uma outra crise, espera-se, vai levar muito tempo para aparecer. Assim, ao contrário do que pensava Ludwig Von Mises, que o consumidor era o rei, o desejo aqui é outro: o rei é o capital. O leitor duvida que as finanças pensem isso? Pois, então leiam as manifestações dos dirigentes do “business” americano no Financial Times, no New York Times e em outros “times” do planeta.

3) Podemos concluir que, assim, desta forma, qualquer teoria, tipo Keynes, tipo Schumpeter, tipo Teoria da Regulação, devem ser descartadas, porque são desesperos – compreensíveis – do setor produtivo, dos saudosistas do Estado, e desta turba de trabalhadores desempregados que querem soluções mágicas?

VAMOS RECUPERAR O ESTADO – PARA NÓS

1) Ora, a conseqüência do momento é a seguinte. Vamos fazer da regulação proposta no Congresso Americano, uma limonada. Nada de incluir os bancos de investimentos fora do corpo dos bancos comerciais; preparem as velas para os hedge funds e para a especulação com tudo o que for possível. Pois, o mundo está custando a descobrir o que já era evidente desde o começo. “Speculation, that´s the name of the game”. Só que a especulação não está tão fácil assim. A renda caiu; os Estados, sobretudo os europeus, cheios de dívidas; os trouxas quebraram; os bancos desconfiam uns dos outros; e a securitização perdeu a germinação fértil e brava. Resultado: a queda da economia financeira parou, foram postos colchões estatais; mas um colchão não é como a lona do pula-pula. E o mundo continua parado, o crescimento das finanças não saltou e prossegue como um sonho permanente de pilantragem financeira. O que significa que não tenham capitais ganhando muito mais que outros. Mas, o negócio é o seguinte: o capitalismo é um baita processo de concentração e centralização. E daí?

2) Quer queiramos ou não, se a política não controla a economia, esta vai para o aumento frenético do tamanho das corporações, já começada com “to big to fail”, com o Bank of America e outras figuras do negócio bancário. Pode-se dizer mais. O que esperam os bancos e as finanças e mesmo as grandes corporações produtivas é que o Estado (executivo, legislativo e judiciário) favoreça este processo de concentração e centralização de capital e que ajeite e concerte os possíveis desarranjos. É o incentivo da lei do reino animal: o maior come o menor. O oposto seria claramente diferente: dar poder ao Estado para buscar sustentar o investimento e o emprego; bloquear o gigantismo ineficiente e ameaçador sistemicamente da concentração e centralização bancária; regular o sistema financeiro, sobretudo, nas suas interconexões; aplicar a Volker Rule; tornar a regulação do sistema financeiro unitária; e construir uma arquitetura financeira onde a função de crédito à produção seja prioritária em relação às finanças de mercado - e altamente especulativa. E principalmente, dar curso a uma metamorfose de toda a estrutura produtiva.

3) Por essa razão: as finanças proclamam que os Estados (de todo o mundo) devem buscar como ponto insofismável a redução dos gastos, a recuperação de sua capacidade financeira, obviamente com a finalidade de manter a inflação baixa e ter recursos para dar uma lucratividade indispensável aos títulos do Estado, até que elas, as finanças, consigam emplacar outras e tantas inovações de ativos financeiros, palatáveis para a economia.

4) Só tem um complicador: para a economia como um todo se recuperar, vai ter que haver, neste projeto, queima de capital. O que só ocorre por quebra de corporações ou quando alguns capitais absorvem outros. E isto não é um processo tão rápido. Ainda mais com o Estado dando dinheiro de presente como andou. Mesmo porque, a economia não é só financeira. A recuperação da produção passa por uma transformação e substituição profunda das indústrias que comandam o processo, bem como pelo impedimento da deterioração do meio ambiente e da metamorfose da infra-estrutura energética do mundo.

5) Coitado do Obama, que teve e que terá que lutar, no Congresso e na sociedade americana, com seu caminhãozinho de boas intenções contra os Exterminadores do Futuro. Mas, há um passo importante nas suas pretensões. Vota-se nesses dias, no Congresso, a nova “regulação financeira”. Houve ali uma batalha infernal, demonizaram o presidente o que deu. Mas, um projeto, resultado de negociações entre a Casa Branca e os partidos, vai ser votado hoje. e talvez seja o primeiro trampolim para redirecionar as finanças. Consta que o nervo desta reforma será a construção de uma forma política de redefinir o sistema financeiro centrada num Conselho de Reguladores, e não numa reforma com regras estritas e bem definidas, embora o texto tenha 2.300 páginas!

6) Ou seja, Obama pode avançar ou pode perder. Os bancos fizeram e vão fazer tudo para apropriarem-se desta reforma. Mas, Obama conta com a sua astúcia de avançar aos poucos, como um carro que vai a 40 kms e depois passa a 120 na auto-estrada. Tudo vai se decidir no andamento da carruagem, isto quer dizer na dinâmica da implantação do que será decidido no Congresso.

7) Então, como é que o Estado pode ficar de fora? É nesse ponto, que a economia se torna novamente política. E só uma luta democrática, viva e ativa, pode manter o Estado em benefício da sociedade. E nunca esquecendo que eleições são necessárias para a democracia, mas apenas eleições, não são suficientes. Só a invenção de múltiplos contrapesos na sociedade atual pode evitar que a ditadura das finanças - via o afastamento do Estado das questões sociais, através do seu domínio sobre os Bancos Centrais e as Fazendas e sobre a regulação do sistema financeiro - se torne uma fantasia ao modo de Walter Disney e dos desenhos animados japoneses. Ou seja, um maravilhoso mundo de aplicações, uma adrenalina pura, em ativos privados e públicos.

Que a reforma americana dê margem a ações importantes diante do império das finanças!

quarta-feira, julho 07, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
08 de julho de 2010
COLUNA DAS QUINTAS


O BRASIL
PARTE
PARA
O FUTURO(*)
Por Enéas de Souza



Pela primeira vez, depois da crise da dívida externa de 82, o Brasil vai ter condições de movimentar sua economia em função de uma estratégia de longo prazo. O que significa que está emergindo uma vontade social de desenvolvimento, que pode se materializar num pacto entre o Estado, o capital bancário, o capital industrial e os assalariados, sobretudo os de baixa renda. O que não exclui um enlace com novos capitais internacionais. Partindo de uma boa posição geopolítica conquistada, o país pode pretender ocupar uma adequada inserção na nova divisão internacional do trabalho, que resultará das atuais crises financeira e produtiva. Será uma oportunidade de integrar a dinâmica futura da economia do planeta, que emergirá sob a liderança das novas tecnologias de comunicação e informação (NTCI). Aqui teremos um grande salto: estas tecnologias entrarão na fase de maturidade, que puxarão, dada a reorganização da arquitetura das finanças, um processo que envolve a reformulação da infra-estrutura energética, a expansão de um setor de produtos alimentares para baixar o custo de reprodução da mão de obra da economia como um todo e uma nova oferta da produção de matérias primas.
O Brasil tem tudo para ocupar um lugar expressivo neste novo paradigma do capitalismo, seja na produção de alimentos (via agrobusiness), seja na produção de matérias primas (via a Vale do Rio Doce, por exemplo) e seja no campo energético, por intermédio da infatigável Petrobrás. Ao mesmo tempo, o Brasil precisa contar com empresas de presença mundial, pois o espaço de acumulação global é tecido por corporações multinacionais do tipo da Vale e da Petrobrás. Com isso, conseguirá armar dois vetores em seu benefício: de um lado, possuir alguns centros de decisões planetários relevantes no plano dos capitais (com o objetivo de incrementar produção, pesquisa e inovação) e, de outro lado, constituir a partir destas empresas, núcleos ou pólos nacionais de acumulação nas cadeias produtivas das quais participam. Por exemplo, ao estilo da dita Petrobrás, encadear indústrias de fornecedores, como a de navios e bem de capital para o setor, desenvolvendo uma expansão do investimento e ampliando o mercado interno.
É por isso, que além destas ações estratégicas de inserção do Brasil num novo padrão de desenvolvimento da economia capitalista, há que completar com uma reorganização do sistema de apoio geral da produção econômica. Há toda uma reformulação da infra-estrutura da realidade brasileira. Basta olhar para a logística da produção: estradas, portos, aeroportos, silos, etc. Basta olhar para as questões do saneamento básico, da construção de uma malha urbana adequada, etc. Isto significa dizer que estamos diante de uma trajetória muito ampla de desafios e de perspectivas. A ação combinada do Estado e do setor privado pode proporcionar o verdadeiro caminho para uma transformação profunda do Brasil de hoje, que é um Brasil a requerer um projeto do estilo juscelinista, para superar definitivamente 32 anos de crescimento medíocre (1982-2004).
Esta estratégia global se baseia num processo de concentração e centralização de capital e se desdobra, macroeconomicamente, no plano do balanço de pagamentos, já que através tanto de exportações como de lucros auferidos no exterior, podem ser um fator de melhoria no balanço de transações correntes, contrabalançando as substanciais importações. Desta forma, a estratégia combina a articulação do Estado com o setor privado, sob o comando daquele e que poderá ter uma ampliação social importante: políticas governamentais que atendam ao emprego, à proteção social e à melhoria dos serviços públicos, em favor do grupo de baixa renda, dependendo das relações de forças entre os setores apoiadores.
Dois problemas merecem consideração do país. Como enfrentar a nossa ausência no setor NTCI? E como responder a exigência de uma indústria militar capaz de amparar a realidade do Brasil como potência intermediária na política mundial? Assim, olhando as oportunidades e os problemas, afirmamos que o Brasil está no limiar de um novo padrão de sociedade. Basta que faça as alianças políticas internas e externas competentes e que conceba, para tal, uma clara estratégia de desenvolvimento.


Publicado pela Carta de Conjuntura da FEE

quinta-feira, julho 01, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
01 de julho de 2010
COLUNA DAS QUINTAS

O PARTO
VAI SER
DEMORADO
Por Enéas de Souza


A RODA DO APERTO

As bolsas são criaturas especulativas; mas expressam uma alma sensitiva. Trazem a inquietação do dinheiro e dos capitais neste sistema de hegemonia financeira. As bolsas do mundo andaram caindo devido a um passado duvidoso, senão carregado de pecados. Por exemplo: os bancos europeus tomaram, no ano de 2009, um empréstimo com prazo de 12 meses no Banco Central Europeu. Olha só a soma; 442 bilhões de euros com o objetivo de solucionarem seus problemas de liquidez. Pois, acompanhem; passaram-se os dias, o ano sumiu, e hoje, quinta feira, dia 1° de julho, dia sem jogo na Copa, os bancos devem comparecer ao guichet pagador. E todo mundo sabe, sobretudo entre os banqueiros, que quando o momento chega, faltando recursos, pode-se arrumar dinheiro no interbancário, que é onde os bancos se emprestam uns aos outros. É uma azafama para arrumar valores para fazer o que deve ser feito: pagar e/ou renovar os empréstimos. E o que a gente vê é que a turma está desesperada. Ninguém empresta para ninguém. Ou só por uma taxa inviável. E mais; algo que parece com uma nova barreira. O BCE diz, com qual o vigor ainda não se sabe, que não faltará dinheiro. Só que desta vez – detalhe fundamental -, ele empresta não por um ano; empresta somente por três meses. O BCE está apertando o torniquete.

ONDE ACABA O DESESPERO DA LIQUIDEZ

1) Temos aí dois visíveis pontos de tensão. O primeiro é o BCE fazendo o seu trabalho, forçando, com a mão mais pesada, o encurtamento do crédito. “Olha, já dei dinheiro; vocês tiveram 12 meses para trabalhar e melhorar a situação. Agora, chega, vamos diminuir os prazos de empréstimos. Vamos buscar uma melhoria da liquidez dos bancos. Façam o seu papel.”

2) Mas aí é que está. Muitos bancos estão engrossados de problemas. Os bancos espanhóis, por exemplo. E qual é a questão? Trata-se é óbvio de uma incapacidade de freqüentar a zona da liquidez, dado que os riscos assumidos no passado continuam e reaparecem. A questão é mais grave, a questão é de insolvência. Ora, o resultado disso é um aperto de crédito no interbancário, e aquele desespero de obter grana para pagar e renovar os empréstimos do BCE.

O EMPOLEIRAMENTO E A DEPENDÊNCIA

1)
Veja o leitor econômico ou o leitor de ocasião, o que está acontecendo. A crise dos Estados na Europa mostrou uma profunda e íntima ligação entre os Leviatãs e o Capital. E isto tudo está marcado por um espelhamento. Essencialmente, a dívida dos bancos acaba por cair nos cofres do Estado. Logo, sobre a dívida e os déficits estatais. E daí ela volta para os bancos e que neste círculo do toma que o filho é teu, repica intensamente sobre a regulação da instância monetário-financeira do Banco Central Europeu. Nasce uma pressão desconfortável.

2) E não deve escapar a ninguém, que estamos no desdobramento da crise financeira, que deu os seus primeiros saltos para a vida, em 2005 nos Estados Unidos. Dalí passou pela Inglaterra e chegou ao continente europeu. Depois de um tempo, aparentemente, tinha sido contida. Como se dizia antigamente, ledo engano. Porque, a crise financeira na Europa mostrou uma ligação fervorosa entre o Estado e as finanças, cujo casamento era mais “caseiro” do que nos Estados Unidos. Mais “caseiro” e menos fácil de resolver. Porque se a dívida e o déficit americano aumentaram, ela e ele são em dólar, são dívidas contra o próprios americanos. O manejo da política monetária sempre pode resolver. Mas, na Europa não. O euro é uma moeda sem uma perna, uma Vênus Manca, de tal maneira, que a verdadeira reserva de valor no continente é o dólar. E isto causa problemas graves. As dívidas acabam em outra moeda. Portanto, muito mais difíceis de serem solucionadas. E os Estados estão mais atados às finanças, como estas a estes. E a obesa dívida pública dificulta a solução. Ao mesmo tempo, que os bancos estão empoleirados no Estado e dependentes do Banco Central Europeu.

PARA ONDE VAI A ESPIRAL DINÂMICA DO ESTADO E DAS FINANÇAS

A complicação européia faz parte da evolução dinâmica da crise mundial, mostrando, de modo solar, a interligação dos sistemas financeiros e dos países, ao mesmo tempo, que revela, com sabores de relativa surpresa, mais duas coisas: a capacidade do sistema capitalista de pôr contenções e colchões às diversas quedas, e por conseqüência, desembocar num amplo perdurar da crise. Na verdade, temos uma constelação e uma combinação orgânica de vários fatores. Dela nasce um ritmo lento e prolongado. Para que tenhamos uma idéia desta evolução, listo os itens que compõe a foto: a) a relação incestuosa entre o Estado e bancos; b) a fluência e a contaminação dos sistemas financeiros; c) a transferência das dívidas das instituições financeiras privadas para o Estado, que mantém um certo controle da situação pelo seu próprio endividamento; d) a sinalização de um ponto onde a dívida e o déficit dos Estados precipitam uma parada da economia e afetam e são afetados pelos bancos. e) a instauração de um círculo vicioso Estado/finanças que, com uma política fiscal contencionista, encaminha a economia para uma tendência depressiva; f) a crise de uma parte do sistema tem o poder de passar o tecido danificado às demais partes da economia capitalista; e, g) o estabelecimento da hegemonia do dólar, que emerge como o cruzamento de efeitos onde o sistema pode desabar por completo.

Como se vê uma espiral dinâmica descendente.

NÃO DÁ PARA SEGURAR!

1) A economia americana foi a primeira a ser profundamente afetada pela crise, e foi também a primeira a receber uma terapia financeira por parte do Estado, que deu como contrapeso osso, uma modesta aspirina para recuperar a produção, solucionou temporariamente com um grande pacote para os bancos. E deu com a graça de sempre um tapinha nas costas dos empregados e desempregados, todos igualmente com dívida forte. E ela, a economia dos Estados Unidos, na sua pujança de economia mais poderosa, continua. No entanto, na cama, no leito, com uma doença ainda não resolvida. Não está nem em convalescença, quando mais pronta para sair a rua. Tudo está em passo de vamos ver como é que vai ficar. De outro lado, a China, segundo noticias, continua crescendo muito, mas crescendo menos, o que significa que como um motor poderoso para a demanda internacional tem menos potência. E não terá capacidade de segurar sozinha a recuperação da economia mundial.

2) Todas essas três razões, a crise na Europa, a crise dos Estados Unidos e uma desaceleração na China, provocaram no mundo e nas bolsas, nesta semana, uma respiração ofegante, cuja dramaticidade inquieta assinalou, apesar dos empolgamentos midiáticos com a Copa, que a geologia econômica não vai tão bem como as publicidades tentam nos dizer. (Já reparam como a mídia contemporânea gosta de vitórias e de falsas felicidades!) Por isso, habitantes do planeta, vibrem com os jogos, mas não retirem o olho do noticiário econômico e fiquem atentos às participações políticas, porque só a política contrarresta as náuseas da economia.

A CHEGADA DE KRUGMAN AO BANDO DOS PESSIMISSTAS

A verdade está, hoje, portanto, ali nas bolsas, pois o caminho da crise continua seguindo para uma tendência depressiva. E a depressão, se o leitor quer uma figura, ela é um animal, um bicho como o tatu - vai cavando, vai cavando; e muito e muito, o seu alentado buraco. Paul Krugman, economista de respeito, está chegando ao nosso time, aquele que pensa que o pessimista é um otimista bem informado. Diz ele: “Receio que estejamos nos primeiros estágios de uma terceira depressão”. Terceira depressão? Sim ele está falando de 1873, e daquela dos anos trinta, e desta que já vem passando do plano recessivo para a depressão. Assim, aquelas bobagens de curvas em V, de curvas em W – a tal de double dipp - não passam de ciclos menores, ciclos de curto prazo, inscritos numa crise de um ciclo longo. Deste modo a depressão nesta fase do capitalismo financeiro pode ser um momento indispensável para a revolução das estruturas produtivas, da reformulação da função das finanças, e da organização de uma nova sociedade política, econômica e social.

Se isto for assim - o parto vai ser evidentemente demorado!

quinta-feira, junho 24, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
24 de junho de 2010
COLUNA DAS QUINTAS

O SEGREDO
DAS
PERGUNTAS
Por Enéas de Souza



Uma pergunta vale um mundo. E como vamos voltar a fazer perguntas, vamos abrir vários mundos aos leitores. Estes, por sua vez, poderão continuar a dinâmica do perguntar. E trazer galáxias de mundos e de pensamentos para todos.

VOCÊ PODE GANHAR UM PRÊMIO APETITOSO

A primeira pergunta nossa é uma já conhecida, famosa, inevitável. Mas tem prêmio. Levante a mão e concorra a um manual matematizado do “mainstream” quem acredita que a crise já terminou. Pois, esta pergunta foi feita anteontem em Nova Iorque e em vários lugares dos Estados Unidos e o Finantial Times divulgou o resultado: nem os investidores acreditam que ela já se foi. Desta forma, todos estão partindo, nas nossas perguntas, do zero, como no bolão da Copa. Então, na sequência questionamos: você acha que a natureza desta crise é de curto, de longo ou de curto e longo prazo? Houve uma pressão enorme de bancos, de governos para salientar que a crise era rápida, tipo coelho: “vai ser bom, não foi?”. Na verdade, estamos numa longa jornada dentro da noite. Porque da noite? Porque sabemos que ninguém tem a resposta para as perguntas seguintes: Como se resolve o seu desdobramento? Como se acha a sua solução?

A BRIGA DE CACHORRO GRANDE

Embora o começo da crise tenha sido financeira, como já apontamos aqui, esta crise é financeira e produtiva. Então todo mundo quer saber: se não é financeiro, então, como se vai resolver esta crise econômica? Ela tem um escalonamento de saída? Soluciona primeiro a embrulhada financeira e depois a produtiva? Aliás, é bom indagar no momento: uma melhoria na bolsa, um retorno da sindicalização dos bancos e da securitização dos títulos resolveriam a esfera das finanças? Não fico só por estas searas, prossigo na investigação e indago: as autoridades e os legisladores deixarão de lado as questões da alavancagem? Deixarão de pensar na função do crédito na atual fase do capitalismo? O sistema financeiro funcionará para a produção ou para a especulação? Existe a possibilidade de construir uma nova arquitetura financeira? Pode-se separar os bancos comerciais dos bancos de investimentos? Vai se fazer algum controle dos hedge funds? Como vão ser tratados os grandes bancos, os chamados “to big to fail”? Nunca devemos deixar, no entanto, de reflexionar profundamente sobre o que vai acontecer com o Credit Default Swaps, uma das dinamites do sistema. Um pergunta fatal, em verdade. Contudo, no fundo de todas estas inquietações, ressalta o tema que coloco imediatamente em pauta: qual será o resultado do jogo de forças entre Obama e as finanças. Está claro, este é um jogo de cachorro grande. Olhe o seu termômetro e o seu barômetro econômico e político, e diga sem hesitação: vai terminar como? Pois, embora seja uma luta de quinze assaltos, como as maravilhosas lutas de box de antigamente, não se pode também deixar de questionar sobre a conseqüência desses combates sobre o que está se decidindo por esses dias no Congresso norte-americano: o “Regulatory Finantial Reform”. Que bicho vai dar? Vai dar empate? Ganha quem? Este round vai se decidir por esses dias.

AS MÃOS DADAS DE IGNÁCIO RANGEL E KEYNES

Veja o caro leitor, que o novelo da economia tem muitos aspectos para pensar como quando a gente caminha no sol nestas tardes de inverno. É preciso definir a natureza da crise, é preciso verificar as dimensões dos estragos em todos os níveis das finanças. Por isso, está faltando o questionamento sobre o Estado. O prof. Pedro Almeida traz sempre no debate a questão minskyana do “Big Government”, a sua capacidade financeira de pode atender os requisitos salvacionistas da crise. E à medida que esta avança, numa dança fatídica - a dança da morte como se mostra no célebre quadro de Breughel - o que se percebe é que há dificuldades de controlar os déficits e que as dívidas estatais seguem mantendo-se em alta. Algumas como a Espanha quase que dobraram desde o início da crise. E os Estados Unidos tem igualmente uma crise poderosa. Mas, a diferença é que a dívida americana é uma dívida na sua moeda. É uma dívida com eles mesmos. O que significa uma capacidade política e monetária de resolvê-la satisfatoriamente. Então, o Big Government como diz o meu colega André Scheler talvez seja um “Little Government”. Porque o tema do endividamento do Estado se encaminha na atual conjuntura, da Inglaterra a Grécia, para a questão recessiva. Ou seja, porque o Estado não é “Big Government” infinitamente, a solução da crise é dolorosamente a recessão. E pergunta-se: qual é a solução para esta? Porque o Estado está se sentido impotente? Não pretende alterar a sua estrutura, o seu endividamento, a sua liderança, a sua possível liderança na articulação de investimentos e de planejamento? Mestre Ignácio Rangel dizia que numa crise – acho que já salientamos isto por aqui – um dos lados da economia fica com recursos e outro, sem. Todo o problema é reformular as ligações que levaram ao desastre e unir o setor que tem capital com o setor que falta. Diria o velho Keynes: bota o Estado para aumentar fortemente a Eficiencia Marginal do Capital. Mas, as finanças deixarão o Estado atuarem em benefício da produção?

O QUE PENSAM AS FINANÇAS DO CICLO ECONÔMICO?

1)
Falando da economia produtiva. Os financistas têm mostrado que não têm nenhuma idéia sobre ela. Qualquer ativo, já mostrou o antes citado Minsky, não passa de um ativo financeiro, seja ele uma mercadoria, uma moeda ou um título público ou privado. Para eles basta recomeçar a especulação e a sociedade e a produção virão atrás, e o crescimento retomará seus belos e esplêndidos dias. Isto quer dizer que daqui a pouco, o mundo estará novamente em festa e o carrossel dos mercados estará porejando rendas financeiras por todos os lados. Enquanto isso não acontece, eles não compreendem que a economia produtiva é regida pelo longo prazo. É o investimento que altera o destino de uma nação. Não, eles não pensam assim. Eles insistem na necessidade da retomada da especulação; no retorno dos rendimentos financeiros substanciais; na passagem da preferência pela liquidez para decisões de aplicação financeira em papéis diversos; no retorno das altas rendas, pois que de parte delas virão os aumentos dos gastos em consumo. E que, portanto, as finanças continuarão sustentando através deste citado consumo o incremento da demanda efetiva. É deste curto prazo financeiro e de seus resultados que virão os novos investimentos. Finance led growth.

2) Duvido que as finanças e os financistas acreditem na transformação da liderança produtiva pelas novas tecnologias. Não que eles não acreditem nas novas tecnologias. Acreditam sim; mas como motivo especulativo. Talvez não seja por outra razão que se anunciam aplicações financeiras de Soros em tecnologias médicas. Tudo que escrevo serve para enfatizar que uma visão schumpeteriana não passa para as finanças de uma forma poética de ver a metamorfose da economia. Elas não acreditam que as atividades econômicas possam ser reorganizadas e refeitas em função, como diria Carlota Pérez, das tecnologias que se implantaram e que agora estão prontas para tornarem-se maduras. Logo, as finanças só estão interessadas nas tecnologias como novos ativos financeiros. Fora disso, estas só são instaladas para melhorarem a sua infra-estrutura técnica operativa. Elas, as finanças, não têm nenhuma idéia de que a atividade produtiva e econômica seja reformulada por uma lógica cíclica da crise, quando de tempos em tempos, há uma necessária e indispensável transformação da estruturas econômicas e da relação dos elementos desta estrutura. E que toda a reformulação surja a partir de um “cluster” de novas tecnologias e novos produtos.

A questão é: porque as finanças não acreditam no ciclo e nas transformações cíclicas?

PERGUNTAS E MAIS PERGUNTAS

1) E porque não é possível libertar o Estado das amarras das finanças? É o Estado um Prometeu Acorrentado? Porque é que as relações entre as finanças e o Estado são tão incestuosas - como se pode constatar, sobretudo, nos governos europeus, onde a crise das finanças é também uma crise de Estado, e onde a crise do Estado é uma crise das finanças?
2) Não resta dúvida nenhuma que, diante do fracasso do “Big Government” no Ocidente, a solução única para as finanças é jogar as cartas da contração fiscal, da quebra de contrato de salários do setor privado e público, do aumento anti-liberal de impostos, conduzindo a economia para a atividade recessiva. E no fundo da roupa escura da recessão aparecem as nuvens carregadas do espectro não explícito, mas visível, da depressão. Trata-se do processo que envolve uma espiral contracionista das economias e dos Estados. Uma possibilidade desagradável da dinâmica econômica e da política atual. Por isso, a questão é a seguinte: é possível que a miopia do imediato, da curta duração, atrase vertiginosa e vigorosamente a reformulação do longo prazo?
3) Mais outras perguntas. Não é da natureza do capitalismo o desenvolvimento cíclico da economia? De que depende a passagem da fase recessiva do ciclo para a fase de recuperação do novo ciclo econômico? Pode-se dizer que teoricamente a solução do ciclo se dá por dois modos: ou por uma extensa queima de capital, via depresssão, que seja capaz de retomar uma lucratividade brutalmente ascensional ou por uma intervenção do Estado que dirigirá a lucratividade para uma ascensão claramente planejada. Na sua opinião, quais serão as forças que sustentarão estes caminhos? Quanto tempo levará para a reorganização da economia da mundialização? De onde pode vir a reanimação da economia? A economia mundializada entre os Estados Unidos e a China terá uma performance semelhante? O G-20 terá um papel decisivo na governança e coordenação da metamorfose do longo prazo da economia capitalista?
4) Uma pergunta perfurante: o que acontecerá se as finanças continuarem a comandar o processo social, político e econômico do presente?
5) Uma pergunta de futuro: a política acabará por se afastar das finanças e descobrir a forma da construção de um novo Estado, que desenhará uma nova geopolítica e uma geoeconomia?
6) Parece que finalmente fica claro que o segredo das perguntas está na formulação das próprias. E deixá-las, depois da sua geração, florescer nas plantações do tempo. Por isso Érico Veríssimo tinha razão quando escrevia: "Olhai os lírios do campo".


quinta-feira, junho 17, 2010



CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
17 de maio de 2010
COLUNA DAS QUINTAS


O CONTRA-ATAQUE
NEOLIBERAL:
VAMOS CONTROLAR
O ESTADO!
Por Enéas de Souza


AS FINANÇAS CONTRA O ESTADO E A PRODUÇÃO

1) Há uma clara novidade na conjuntura presente: um contra-ataque neoliberal. Um ataque neoliberal das finanças à posição do Estado. A ironia da situação: as finanças, que foram salvas pela mão visível do Estado, estão pedindo, estão clamando que o Estado reformule a sua atuação e seja austero, faça uma política de contenção de gastos, etc. Aquela conversa neoliberal que eles chamam de política econômica. O Leviatã, na época da crise de 2007, agiu keynesianamente certo. Salvou, com o dinheiro ágil do seu cofre, as finanças em nome de vários aspectos. Em nome do risco sistêmico, da função estatal de emprestador em última instância, do resguardo do sistema financeiro, etc. Ou seja, o Estado – leitor, sinta a profundidade do gesto – contra os princípios neoliberais, teve que se fardar, vestir o seu traje de todo poderoso, se endividar, usar os recursos dos contribuintes, etc. para retirar os bancos, as instituições financeiras de situações críticas de insolvência e de bancarrota. E, na continuação do processo, levar o sistema financeiro para o hospital, cuidá-lo durante longo tempo, dando soros, dando sangue, injetando capital, operando reformas na contabilidade empresarial, com o objetivo de pôr em pé o sistema bancário e assemelhados. Sob certo ponto de vista, o Estado tomou uma atitude keynesiana.

2) Só que foi um keynesianismo perneta, “mais que perneta” disse meu colega André Scherer. Porque, uma crise como esta, na verdade, foi uma crise mais que a financeira, foi também produtiva. E não se aplica um keynesianismo pela metade. Faz-se uma ação completa. O Estado assume o comando da economia, salva as finanças e a produção. Lança junto com os “bailouts” do sistema financeiro, um conjunto de medidas que visam o investimento e o emprego. Mas, isto não aconteceu. Os americanos deram dinheiro para as instituições financeiras, mas não fizeram nenhum plano para atender a recuperação da demanda efetiva. E o ataque neoliberal é exatamente isso, ataque à recuperação da produção – para que essa fique nas suas mãos, jogando a carta pérfida da contenção de gastos, da austeridade a todo custo. Enfim, um ataque ao princípio keynesiano da demanda efetiva, que falamos acima. Mas, um ataque que não só contenha o Estado, como não modifique as relações funcionais entre as finanças e a produção. Mantenha as finanças tanto no seu poder especulativo como no seu poder de definir o crédito ao setor produtivo.

O LANCE MUNDIAL DO NEOLIBERALISMO

1) O Estado americano se endividou e aumentou o seu déficit anual sempre em função das finanças. E para evitar maiores problemas deixou de atender ao investimento e ao emprego, seja porque era importante não apoiar as empresas produtivas velhas, seja porque as dimensões para injetar recursos nas novas tecnologias eram vastas e complexas. O Estado deixou o barco correr. Portanto, o keynesianismo ficou pela metade, mancando; se é que podemos falar de keynesianismo. E só estamos trazendo esse assunto porque depois de dois anos digerindo a sua comida tóxica e infértil, as finanças resolveram lançar um forte ataque contra o Estado sob pena de que o keynesianismo não deu certo. O gasto do Estado não deslanchou a produção, o Estado está ameaçado pela dívida e pelo déficit e, logo, é preciso, que cuidadosamente, o Estado tome uma atitude contracionista, que pare de gastar. Dito de outra forma, o substancial é que o ele reduza a sua dívida, que baixe fortemente o seu déficit. Enfim, que o Estado (depois de ter salvo as finanças) faça finalmente a sua parte, se recupere e saia da economia... Depois do keynesianismo capenga, a recuperação do neoliberalismo...

2) Ora, este contra-ataque liberal é um ataque global. Sobretudo, depois desta crise grega que se transformou numa crise européia. E o mote principal das finanças já está dado. “Recuperar os Estados”. (Claro, depois de salvar as finanças). Só que quem está sendo visado fortemente neste momento são várias coisas. Em primeiro lugar, impedir que o Estado faça o outro lado de uma atitude do Estado, lançar programas de investimento que recuperem a economia e o emprego. Em segundo lugar, enfraquecer o setor dos trabalhadores, seja público, seja privado, visando, antes de tudo, baixar salários. Daí a receita clássica: fazer o Estado cortar gastos, ajustar as suas dívidas, podar o seu déficit, porque como uma casa um Estado deve viver dentro dos seus recursos. Ora, clarividente leitor, esta é uma visão de usurário, de bodegueiro. Se a gente gasta demais, aperta-se o cinto. Claro, claro, não falemos da ajuda das finanças. Isto já passou. Ora, um Estado não é um boteco, não é uma casa. Um Estado pode fazer dívidas para fazer crescer uma economia, porque o crescimento desta permite que, a certa altura, o Estado recupere o seu controle econômico. O investimento é o que faz aumentar a renda. E o que faz aumentar as receitas do governo é, obviamente, o aumento da produção e do consumo.

3) Não é preciso, portanto, quebrar a espinha dos trabalhadores nem impedir que o Estado apóie a produção. Este impedimento faz parte do domínio das finanças sobre o Estado e sobre a economia. E vejam o truque em toda a sua extensão. Primeiro, as finanças crescem ao máximo e, para tal, o Estado desregulamenta o sistema financeiro. Não controla nem bancos, nem bancos de investimentos. Nem hedge funds, nem private equity. Nem nada, nem ninguém. O Estado libera tudo, fica apenas atento ao risco sistêmico. Se der bode com as finanças, aí sim, aí ele entra como um bom xerife para resolver a reboldosa no saloon. Deixa-se solto o reino da especulação. Quando o sistema financeiro quebra, o Estado, como os antigos heróis das histórias de quadrinhos, age rápido para a sua salvação e se possível para a sua ressurreição. Muito cristão, portanto. E os Estados Unidos, bem como a Europa, são, é verdade, zonas da cristandade. Porém, quando o Estado deve salvar o resto da economia para levá-la novamente ao crescimento, as finanças, que se beneficiaram com o Estado – inclusive fornecendo empréstimos a juros cada vez mais altos ou comprando títulos do governo a taxas apetecíveis – agora, elas lançam uma campanha de austeridade do Estado. É exatamente isso (e isto é hegemonia): o Estado tem que ser das finanças. Se a economia deve crescer, tem que crescer a partir da liderança delas, a tal de “finance led growth”. Jamais se pode crescer invertendo a equação. Nada disso. Nada do investimento estatal e investimento privado puxando o resto da economia. Emprego? Antes de tudo, cortar os salários dos empregados. E os novos empregos? Só quando houver a retomada cíclica “natural” – e com salários diminuídos. As chamadas “flexibilizações trabalhistas” como se diz aqui no país da “Lavoura Arcaica”.

CORTAR A ORGIA DE GASTOS

1) Desde a Grécia até a Itália, e você pode incluir a França, passando pela Espanha (olha só embolamento no seu sistema bancário neste momento), e a Irlanda, e chegar até a Inglaterra, a Europa evidencia que está com os Estados arrebentados substancialmente por causa da crise financeira mundial e regional. Mas, a solução política da crise, para o contra-ataque neoliberal, é apenas uma. Ela se desdobra como resultado do apontamento da orgia de gastos públicos (Com quem? Para quem?) como causa. E, por essa razão, a pressão segue só numa direção: cortes dos salários dos funcionários e corte nas aposentadorias. Já que, como sempre, quanto aos juros nada. E toda essa “audácia” para que se possa recuperar as finanças do Estado com o objetivo jubiloso de pagar os bancos, que atiçaram a dívida pública. Na verdade, esta austeridade tem dois objetivos: salvar as próprias instituições financeiras, mas ao mesmo tempo, recuperar os Estados para que a citada dívida pública e o orçamento possam, num segundo momento, servir aos ganhos dos bancos. De que maneira? Recomeçando o movimento financeiro de crescimento das finanças e, por derivação, dar algum capital para o crescimento da economia.

2) Só que isso é complexo. Porque a recuperação financeira do Estado passaria por empréstimos de bancos de outros países ou de outros Estados em melhores condições. E o recurso conseqüente da austeridade fiscal, no final das contas, vai desembocar no colapso da demanda efetiva, tanto do consumo como do investimento. A espiral contracionista se tornaria numa depredação da economia pública, por ausência de receita. A proposta neoliberal ainda tentaria empurrar eventuais eliminações de impostos, sob a idéia de que os ricos e as empresas não pagando tributos consumirão e investirão mais. Quá. Quá. Quá. Quá. Pagar menos imposto não quer dizer nem mais investimento, nem mais consumo. Os ricos e as empresas vão acabar aplicando no mercado financeiro. E há até uma variante desta estratégia depressiva. Aumenta sim, impostos; mas aumenta impostos sobre os produtos, o que encareceria a vida da população e jogaria mais para o chão o nível da indústria e do comércio. O malefício é fácil de perceber: a baixa de salários, a baixa das aposentadorias e o aumento de impostos embutidos nos bens, certamente, causariam o empobrecimento na qualidade de vida. E não provocaria o efeito desejado: o aumento das receitas do governo. Tome assim recessão e até depressão no lombo.

A RESSURREIÇÃO E A MORTE DAS FINANÇAS

1)
Temos então um vasto contra-ataque neoliberal, e nele uma tentativa de recompor a posição das finanças no domínio político do Estado, impondo a este um constrangimento de gastos. Esta postura impediria que o governo assumisse a liderança do processo econômico, como também anularia a transformação da função prioritária das finanças no apoio à produção. Veja, portanto, caro leitor, se você quer ser mais uma vez enganado pelas finanças, seja você empresário ou funcionário público ou empregado privado. As finanças usam, entre outros aspectos, um determinado tipo de austeridade para que a população, a economia e os economistas lutem pela ressurreição das finanças.

2) É por essa razão que não acreditamos que a crise terminou, e que estamos no caminho da sua solução. Ao contrário, acho que a crise está entrando numa trajetória inquietante, porque esta aposta está nos levando a mais recessão, senão à embrulhada tragédia da depressão. A sociedade e a política é conflito, e o capitalismo, que é processo de concentração e centralização de capital, também é competição intensa, destruidora e reconstrutora. Estão em jogo, nesta autêntica Copa do Mundo, as forças sociais. As finanças estão tomando a iniciativa, tratando de uma vigorosa ressurreição. Estarão as outras energias políticas de acordo? Estarão dispostas a sacrificar os seus rendimentos, o seu nível de vida, as suas pretensões econômicas e sociais em nome de uma força que absorve os recursos financeiros da sociedade pela especulação?

3) A luta segue permanente e constante. Nada está definido por ora. As finanças especulativas têm parte com o peru: não morrem de véspera.

quinta-feira, junho 10, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
10 de maio de 2010
COLUNA DAS QUINTAS


DE DEUSES
DOS ESTÁDIOS
A ATIVOS
FINANCEIROS (*)
Por Enéas de Souza


1) Houve um tempo, dos anos 40 aos 70 do século passado, que os jogadores de futebol, sobretudo os brasileiros e os argentinos, eram considerados, como Pelé, Zizinho, Didi, Di Stéfano, Labruna, deuses dos estádios. Da Inglaterra pairava a lenda de Stanley Mathews e da Hungria o nome de Puskas. Talvez fossem como Aquiles, filhos de deuses/deusas e homens/mulheres, assim misturados, porque atingiam, no campo e nas atuações, uma espécie de excelência indisfarçável. O divino Pelé foi o maior de todos. Veio depois de Di Stéfano, que até então era o mais luminoso. Pelé encomendava a cada coração, uma paixão pelo futebol com seus dribles de acrobata, com suas jogadas de bailarino, com suas fintas de sambista, com a inteligência apolínea de seu corpo. Marcava, a cada jogo, o limite da ação humana.

2) Mas, esses deuses, essas criaturas eram ardilosos inventores, pois não se pode esquecer dos lances que inovavam, das jogadas que fizeram brotar. Exemplo: Leônidas da Silva, com sua famosa bicicleta. Invenção e talento vigorosos. Leônidas era um preto luzente, cujo apelido acabou por dar origem a um chocolate que existe até hoje: Diamante Negro. Era tudo que ele valia. John Huston poderia ter pensado nele ao fazer seu filme “O Segredo das Jóias”. Já se vê que estes jogadores anunciavam uma era do excepcional, uma era do espetáculo. Garrincha foi outro protagonista do início destes tempos. Driblava sem sorrir, fazendo delirar a platéia, parecia um Buster Keaton na sua genialidade simples de circo. Do palhaço que faz da repetição a construção do riso. Garrincha repetia cem vezes a mesma jogada. E o povo exultava e ria. Circo puro. Mas, o circo foi indo, veio chegando e engrossou o que Guy Debord chamou da “Sociedade dos Espetáculos”, que no futebol tornou-se mundial e definitivo com a Copa de 70, a primeira copa televisionada para todo o planeta. Copa onde o gênio de Edson Arantes do Nascimento foi glorificado para sempre como Pelé. Não é verdade que Fernando Pessoa, antecipadamente, nos disse que “O mito é o nada que é tudo”?

3) O futebol foi desde logo para os brasileiros um processo complexo e amplo. Por isso, se pode dizer que ele é um processo ontológico, social, econômico, político, psicológico, ideológico, poético, filosófico, cultural, etc. E no dia a dia, funciona para as massas como um processo educacional, um processo de educação contemporânea, onde avultam no campo de jogo as ações, os gestos, a inteligência, a estratégia, a capacidade de corpo, funcionando como verdadeiro tratado de ética. Pelé é o nosso Platão, é o nosso Aristóteles, quem sabe até o nosso Spinoza, que ao contrário de escrever uma “Ética more geometrica demonstrata”, construí uma “Ética demonstrada pelo futebol”. E hoje, todas as facetas deste esporte são perpassadas pela conquista do futebol pelo capital, assim como a saúde, a previdência e a cultura tornaram-se produtos gloriosos do neoliberalismo. Ainda bem que deu tempo para ver Romário, que Cruyff, o grande astro da “Laranja Mecânica”, a Holanda, chamou de “gênio da pequena área”. Mas qualquer seja a nossa visão sobre a questão é indispensável dizer, inspirado em Mauss, que o futebol é um fato social total.

4) O futebol tem características épicas e trágicas. E por isso os leitores de Homero, de Sófocles, de Ésquilo, de Eurípedes podem certamente compreender os eventos maiores deste jogo. O futebol requer narração e requer teatro. A visão épica e trágica tem instrumentos para definirem o futebol, porque, sobretudo, um leitor de Heráclito, um filósofo trágico, trabalha com as idéias de jogo, de combate, de “guerra”. Um heraclitiano compreenderia o futebol muito bem já que é um jogo perpassado por um conflito e que tem uma tensão forte entre os contendores. Basta lembrar, por exemplo, um Brasil e Argentina, um Alemanha e Itália, um Alemanha e Inglaterra, um Brasil e Itália, um Brasil e França que colocam exatamente este elástico do filósofo de Éfeso, a discórdia, dia-noite, inverno-verão, etc., intimamente unidos, como a natureza do Jogo. O futebol tem uma ontologia heraclitiana, que significa dizer que o mundo está em constante mutação, mas ao mesmo tempo, que tem uma estrutura de dois lados que se afrontam. Grêmio e Internacional, Flamengo e Fluminense, Benfica e Sporting, Roma e Lazio, Barça e Real Madri. O futebol tem a malícia de ir do particular (os jogos locais) ao universal (a Copa do Mundo).

5) Mas, hoje, as coisas se complicam; a poesia e a filosofia, que traduzem a metáfora do jogo, cada vez mais dão lugar, e já há bastante tempo, à implacável realidade: o futebol como fenômeno econômico. Este se superpõe às outras determinações e o jogador passa a ser um ativo financeiro. Ele entra numa bolsa de valores especial: o mercado dos craques famosos. Veja quanto vale Kaká, quanto vale Cristiano Ronaldo, quando vale Messi. Neste mercado temos investidores (inclusive oriundos da máfia russa), temos cotações, temos até uma indústria que prepara atletas por toda a parte do mundo, para serem vendidos, alocados na bolsa internacional, principalmente para os times ingleses, espanhóis, italianos, etc. E, certamente, temos craques, dependendo do seu jogo, valendo mais do que outros, mas seguindo para mercados hierarquizados. A Inglaterra, a Itália e a Espanha são as melhores praças para se vender um personagem futebolístico, para fazer um ativo financeiro render mais do que, por exemplo, em Portugal, na Rússia ou na Turquia. Isto não quer dizer, que debaixo do econômico, não resistam os valores poéticos e filosóficos. Nossos magos da metáfora como Nelson Rodrigues e Armando Nogueira morreram, mas sobrevive nos apaixonados do futebol a necessidade de escutar a palavra que organiza, que simboliza, as ordens e as desordens das partidas, as modulações das figuras dos astros e das histórias dos campeonatos. Haverá sempre um novo poeta para futebol? Ou o capitalismo vai destruir a poesia dos estádios e dos craques? Será que os novos meninos da Vila, glórias dos últimos domingos brasileiros, serão capazes de resistir o avassalamento do dinheiro? Neymar, este garoto de talento, este sacerdote do júbilo, ainda terá tempo para fazer os dribles e os gols no caminho da molecagem exitosa? E Ganso, o meio de campo soberbo, de lençóis e enfiadas altivas, estará apto para a seguir a longa tradição de meias canchas tipo Zito? Ou tudo isso é apenas a chispa das oportunidades que serão aproveitados pelos leilões das ofertas monetárias?

6) Esta Copa é a produção de imagens por meio de imagens. Uma feira de amostras, um bolsa de valores, uma Wall Street do espetáculo do futebol. Vai entrar muita grana no pedaço. Cada vez mais – e veja-se a própria Copa no Brasil, junto com as Olimpíadas – há uma união entre as empresas construtoras e os governos, entre as federações e a Fifa e as televisões de todo mundo. Um bloco econômico que vai impor realidades. Vocês lembram que a Copa de 1994 nos Estados Unidos era jogada ao meio dia para que houvesse uma transmissão para o maior número de telespectadores? Pois cada vez mais os capitais organizarão este festival de jogadores e de ativos financeiros. Só que os amantes do futebol continuam a amar as partidas, a ver os desenhos e as pinturas e o teatro dos jogos com aquela paixão inigualável. E a sonhar que se não vai aparecer um Pelé, talvez a grama dos estádios, as grandes áreas, os lances, os gols revelem algum grande jogador como Zidane, como Puskas, como Maradona, como Rossi, como Jairzinho, como Ronaldo, como Rivaldo. A Copa do Mundo é sempre o lugar, não dos vencedores, que é uma categoria bastarda, burocrática, midiática e econômica, mas o lugar das exceções que é uma categoria da excelência, da qualidade e do desejo. Esperemos que esta Copa seja uma Divina Comédia. E que Dante nos traga o novo Virgílio do futebol, que eternamente conduzirá o próprio Dante ao caminho do Paraíso. Este é o sonho borgiano dos fanáticos torcedores do mundo. E mesmo que o capital pense que domine tudo, sempre haverá um momento totalmente lúdico, o momento dos jogos, onde se poderá ver entre os ativos financeiros, o brilho inarredável dos astros. E para nós, humildes mortais, sempre estará presente a oportunidade impar de nos tornarmos crianças e usufruir novamente o momento iluminado do jogo. Do puro jogo – que é o rei da vida e da alegria.


(*) Artigo publicado originalmente em “Linhas de Passes – O Inconsciente em Campo”, Correio da APPOA, Associação Psicanalítica de Porto Alegre, junho de 2010.

quinta-feira, junho 03, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
03 de maio de 2010
Coluna das quintas

A FRATURA
DA ECONOMIA
MUNDIAL
Por Enéas de Souza




RESPONDA RÁPIDO: DECOMPOSIÇÃO DA ECONOMIA É PÓS-CRISE?

Para avançar na compreensão da situação atual da economia globalizada vamos fazer algumas perguntas. Primeira pergunta: é possível restaurar uma economia que está fraturada em duas, fraturada entre o enlace americano em profunda desorganização (Estados Unidos, Inglaterra e Europa) e o enlace chinês em vasta reformulação (China, Ásia, África e parte latino-americana)? Ou seja, a economia puxada pelos americanos – de construção global – que envolveu o mundo todo, inclusive a China, que se desenvolveu sob os templos dos déficits gêmeos dos Estados Unidos (déficit comercial e déficit fiscal), acabou numa desordem geoeconômica. Decomposição de proporções ainda não delimitadas, mas com um fenômeno importante: esta economia globalizada se rompeu e vai ter que ser reparada. É preciso, sem medo de errar, supor a idéia de que nenhuma economia retorna ao que foi. Portanto, o agradável pensamento de certos economistas, de certos políticos, de certos jornalistas sobre a recuperação e a restauração da atual economia não pode ser um pensamento sem objeto? Não estão nesta categoria também aqueles economistas que falam da economia da pós-crise?

A FRAQUEZA ECONÔMICA ESTÁ NA POLÍTICA TAMBÉM

Uma economia que se parte contem no seu casulo a possibilidade da construção de uma nova configuração econômica. Só que precisa desmanchar, pelo menos até certo ponto, a que estava aí. E este desmanche, porque social, tem resistência por todos os lados. E tudo fica muito difícil de se solucionar pela fraqueza dos Estados. Fraqueza diante do descozimento da economia. Dando nomes: da crise do sistema financeiro, da crise produtiva e do desemprego em larga fisionomia. A fraqueza americana se origina na incapacidade do seu Estado – na negociação do Executivo com o Legislativo – em aprovar uma nova arquitetura financeira com novas regras. E na fraqueza keynesiana do financiamento dos novos setores tecnológicos para recuperar o dinamismo produtivo. Não há como negar: a crise trouxe o questionamento do Estado no Ocidente. Pois o que se vê na Europa é um desdobramento em ramos específicos da quebra da árvore que fez florescer também os frutos europeus. Postergando a questão, as finanças e os conservadores de todos os lugares desta cadeia querem reter a forma que já se foi. Tudo isso pode nos levar ao que Tenessee Williams chamaria de “Um demorado adeus”.

O QUE FAZ A DIFERENÇA DA CHINA

Corta a cena e temos um novo plano: a China. O personagem é outro, tem outra realidade. Ela é uma economia emergente. Uma economia que se organiza com dinamismos próprios acentuados, O que não quer dizer que não se alteia também com estímulos do exterior. Foi o deslocamento de empresas americanas, em busca de baixa de custo, que deu um grande impulso ao “drive exportador” chinês. Nessa lufada de vento transferiu tecnologias administrativas, financeiras e produtivas para a economia receptora. Todavia, há um ponto que mostra uma substancial diferença. O Estado chinês. Um Estado que não se colocou a serviço das finanças e nem mesmo da produção pura e simples. Engendrou outra coisa. A China tinha um Estado que assumiu o processo de planejamento, de liderança e de investimento na economia. E desenvolveu os mecanismos de mercados sempre com o apoio, a vigilância e a regulação do Estado.

O AVESSO DO ESTADO AMERICANO ATUAL

Desta forma, a pergunta seguinte tem cor. Trazendo o fato de que a economia chinesa tem um Estado intervencionista, produtivista, um Estado que planeja as modificações das atividades econômicas, será que ele tem capacidade para reordenar e liderar, de puxar uma nova ordem mundial, além de tratar da reformulação de suas estruturas? Esta pergunta tem uma resposta evidente: não. Todavia, o que ela coloca às economias americana e européia é um contundente desafio: como uma economia pode resolver sua crise sem o papel do Estado? E diretamente: como lutar contra a expansão chinesa com um Estado frágil diante das forças econômicas internas em Estado de inércia ativa? Como o Estado americano pode lutar contra o bate pé das finanças? Como o Estado americano pode colocar vigorosos recursos para uma modificação estrutural do setor energético? Como pode o Estado americano dispor de financiamento para a solução dos problemas ambientais e constituir, de um modo capitalista, novas indústrias no setor? Como o Estado americano poderá dirigir à base do crédito destinado à especulação para o desenvolvimento dinâmico destinado à liderança da produção das novas tecnologias de informação e comunicação?

O CRITÉRIO DA MUDANÇA

O que queríamos fazer notar neste texto é que temos, de um lado, a decomposição de uma economia globalizada em torno dos Estados Unidos. Mas, uma economia que, neste desmanchar, destruiu a solidez do enlace que existia na globalização. Dito de maneira diferente, do jeito de Camões com “uma tuba canora e belicosa”: a economia mundializada está sim, está partida estrutural e dinamicamente. A economia que existiu não volta mais, não adianta dizer que há crescimento aqui e ali. Isto melhora, mas não altera quase nada. Por quê? A resposta está na pergunta que ladra: houve mudança estrutural na atual economia do mundo? Na China até que se fabricam transformações. Mas, nos Estados Unidos – e principalmente na Europa – a estrutura liberal que está depauperada, sem ânimo, não encontra capacidade para reformar os seus encantos, ela tem uma paralisia interna brutal. As nações e os Estados são prisioneiros das finanças; e as finanças não se resolvem e se deslancham; e o crédito não flui e não irriga a produção; e a produção não se transforma nem se aventura tecnologicamente. Pode uma economia desta ordem estar em retomada econômica? Em pós-crise?

A CHINA TEM FORÇA PARA PUXAR O MUNDO?

Do outro canto do planeta, a China encadeia uma transformação da economia. Deixou de lado o caráter exportador, volta-se para a sua intimidade, reforma as áreas produtivas para renovar os setores. Naturalmente, isto não é feito sem choques, sem conflitos sociais, sem pressões inflacionárias. Mas, como dizem os franceses: “on bouge”. A coisa anda. E nessa nova dinâmica, recompõe relações com regiões, com países, faz uma nova sintonia com Ásia, com a Índia, com o Brasil, etc. Ou seja, a China existe como dinamismo. Mas, a pergunta devorante é a seguinte: está ela em condições de substituir – dinâmica, tecnológica e financeiramente – a economia americana? É a economia chinesa uma economia capaz de soldar e puxar a economia americana? É a economia chinesa uma economia líder das transformações energéticas? Tem ela metamorfoses tecnológicas de ponta nas novas tecnologias de comunicação e informação, na nanotecnologia, na biotecnologia, nas tecnologias médicas, na bioeletrônica? É o Estado chinês capaz, por sua fortaleza, por sua dimensão, por sua influência mundial, de construir uma moeda com suficiente força para rivalizar ou substituir o dólar?

AS QUESTÕES JOGADAS SOBRE A ECONOMIA

Infelizmente, se as respostas forem não, a estrada ainda vai continuar longa. Ainda teremos o tema de Eugene O´Neill, “Uma longa viagem dentro da noite”. E as questões são essas, jogadas, lembrando Drummond, como as coisas que o mar lança a praia:
1) Como organizar no Ocidente um novo Estado que possa dominar as finanças e orientar, via planejamento, a nova produção? O planejamento pode ser reconstruído?
2) Como quebrar a hegemonia das finanças, inclusive o seu domínio sobre o Estado? Como transformar o Estado financeiro? Que Estado estará por vir?
3) Que estrutura de organização teremos nas empresas ocidentais, dado o fato de que a “corporate governance” é uma forma de financeirização das empresas? Existem novas formas de organizações empresariais à vista?
4) É possível mudar a economia globalizada, conservando as características da economia financeira apenas alterando o enlace com a China? Ou seja, diminuindo a liderança americana e proporcionando um maior fator de dinamismo na economia chinesa?
5) A questão fundamental passa por diversas sub-questões urgentes. Da pergunta principal, de como será organizada a combinação da nova estrutura da economia globalizada, podem emergir dúvidas sobre qual a liderança – ou até mesmo a hegemonia – que vai conduzir o processo econômico? É possível ainda pensar que a transformação da economia produtiva, como as novas tecnologias, a infra-estrutura energética, as condições ambientais, virão da recomposição da estrutura financeira neo-liberal?
6) Poderão os americanos reformar a sua economia e a sua política externa, baseada na guerra, na direção de uma nova economia mundializada que componha, sem conflitos, com as metamorfoses da China? Os recentes encontros entre americanos e chineses encaminharam as questões nesta trajetória?
7) É possível a economia americana dominar as finanças e encaixar uma economia de tecnologia avançada, com um objetivo de se tornarem novamente exportadores em face de uma China se estruturando economicamente pelo interior e se tornando importadora? Quais as conexões possíveis pondo na jogada as demais economias como a Europa, a Rússia, o Brasil, a Índia, etc.

8) Enfim, as perguntas poderão se desdobrar continuadamente, como um rio caudaloso, fertilizando os questionamentos. Crescem as tensões, crescem as deteriorações, crescem as questões sociais. Pergunta igualmente decisiva: não estarão retornando os grandes conflitos sociais de outras épocas, vestidos de novas roupagens e novos combates e novos ativismos? Ou seja, os conflitos ideológicos, políticos, econômicos entre capital e trabalho poderão emergir frontalmente em toda parte? Ou serão conflitos localizados, por exemplo, como na Europa? Não haverá uma direitização do mundo, por outra parte, como mostram as forças conservadoras que estão presentes nos Estados Unidos, que venceram as eleições na Inglaterra, que se manifestam sem reservas na Alemanha, etc.?

ATENÇÃO PARA AS DORES DA MUDANÇA

De qualquer forma, o que parece claro: vamos entrar numa nova fase histórica. E a passagem de uma forma para outra, do neoliberalismo financeiro e de guerra para uma nova modalidade, ainda em profunda e subterrânea gestação, não será feita sem dores. Por enquanto, o que temos é muito embaralhamento das questões e das forças sociais. Veja o leitor clássico que quando a peste invadia as cenas na épica ou na tragédia grega, ela anunciava tempos difíceis, tempos de profundas alterações. Nos anos trinta, a peste da Grande Depressão apontou para a 2ª Grande Guerra Mundial. Agora, a peste que assola a economia globalizada, com a ruptura de sua unidade, com a presença manca da financeirização, com a incapacidade de avanço das novas tecnologias, com a presença de novos países no cenário – incluindo o Brasil – com a retomada, ao menos, na Europa de revoltas populares, pode-se pensar que a peste está presente? Para onde aponta? Pode-se descobrir, como indica o título daquele livro de administração, “O lado bom da crise”? Como nos romances, como nos filmes inquietantes, a gente sempre se pergunta: como se desdobrarão os próximos atos? Como é que o cara - diretor ou romancista – vai terminar o seu texto ou as suas imagens?