terça-feira, fevereiro 10, 2009

A resposta do NY Times à questão do Enéas: SIM!

Geithner prevaleceu na elaboração do pacote, que é um enorme "mais do mesmo". Frase essencial da reportagem que dá o tom da dominação financeira:
"He resisted those who wanted to dictate how banks would spend their rescue money. And he prevailed over top administration aides who wanted to replace bank executives and wipe out shareholders at institutions receiving aid."
Em capitalização devem ser cerca de US$ 500 bilhões para bancos cujo valor de mercado não chega hoje aos US$ 200 bilhões! Esperemos os detalhes. Mas o que transpira na reportagem mostra que o pacote é um Frankenstein destinado a dar uma sobrevida a um sistema financeiro falido. Não vai funcionar e entre junho e agosto teremos outro plano em marcha.
Link relacionado:

Entrevista em ZH: pacote(s) americano

Estranhamente eu e Maílson da Nóbrega na mesma posição (com exceção quanto ao prognóstico dele quanto à duração da crise)... Aproveitem, é raríssimo. Me lembro que em março do ano passado Maílson declarou em Porto Alegre que a crise era restrita aos EUA e que as providências dos governos como os cortes nos juros bastariam para resolver o problema. E louvava a possibilidade do Brasil ocnquiestar o "investment grade" (alguém se lembra dessa proeza hoje?). Bom ver que a interpretação do colega sobre os fatos avançou de lá para cá.
Mas a frase mais interessante é a de Marcelo Suano: "Eu não defendo a iniciativa pública na economia, mas defendo o público na hora da crise". Na prática é mais ou menos assim: quando está tudo bem nós ganhamos o dinheiro e ele é nossa recompensa pelos "riscos" que tomamos. Quando está tudo mal, vocês entram pagando a conta. E viva o capítalismo global! Alguém pode passar a minha parte, please?
Link relacionado:
http://zerohora.clicrbs.com.br/pdf/5897835.pdf
AS FINANÇAS ESTÃO CERCANDO OBAMA?
por Enéas de Souza

Acabamos de ouvir o presidente Obama. E percebemos, e ele também está percebendo, que a crise, na qual estamos metidos, nós e ele, é de uma dimensão volumosa, senão gigantesca. Independente dos múltiplos aspectos de sua fala, todas merecendo comentários, nós ficamos, para análise, apenas na discussão da questão econômica. Furtando-se comentar extensivamente o pacote e remetendo os temas para o secretário do Tesouro, Obama deixou claro três pontos fundamentais da sua estratégia, da sua orientação ao seu governo. O primeiro passo seria a recuperação do emprego; o segundo, o retorno do crédito, e o terceiro, a questão da habitação.
Com esses três passos, Obama deu o norte, mas para que o governo chegue até lá, muito esforço, muita discussão, muitos interesses, muito desespero terá que ser vencido e ultrapassado. Veja-se o primeiro ponto, o emprego. Obama deu inclusive um número de sua meta: 4 milhões de novos postos de trabalho. Ora, este é um projeto difícil, porque a dinâmica recessiva acumulada já trouxe na contabilidade geral mais de 10 milhões de pessoas para fora do mercado. E isto sem contar mais uns 5 milhões trabalhando em tempo parcial. Pode-se, então, verificar que a economia está caminhando para a depressão, e um pacote de 300 bilhões não terá a capacidade de recuperar tão expressivamente o nível o emprego. Talvez chegue a 1,5 a 2 milhões. Mas, para ser otimista, o importante é que o pacote aciona a única força que pode investir no momento, que é o Estado. Dá-se um passo na direção correta, eliminar a idéia de que a acumulação financeira pode fornecer os recursos indispensáveis para o crescimento econômico. Felizmente, começa-se a pensar que o investimento produtivo é o centro da economia, e não a festa das aplicações financeiras.
O segundo ponto é a recuperação do crédito. Não há como negar, sob qualquer ângulo, que a economia capitalista é creditícia. E aí, o problema se acopla com o primeiro. Ou seja, cabe centrar a economia no investimento, mas para que este prossiga tem-se que dispensar um sistema financeiro voltado praticamente para a especulação. Todavia, a crise é dramática nesse particular. Como estamos constantemente falando neste blog, o poder que cerca Obama, o poder que tem força na mídia, o poder que tem um lobby forte no Congresso é naturalmente o poder financeiro. Embora, em bancarrota, ele não pensa em ficar no segundo plano, a renda dos bons tempos ainda é um estimulo a pensar contra o investimento produtivo como a chave da economia contemporânea. De qualquer forma, a partir da estratégia simples do presidente norte-americano há que fazer um longo caminho para construir um novo modelo de desenvolvimento e crescimento da economia americana e da economia mundial. E para tal tem que fugir ao cerco das finanças.
O último item, a questão da habitação, é uma preocupação de limpar o mercado especulativo de imóveis e seus efeitos danosos para mais de 10 milhões de compradores de residências. Mercado que foi atravessado por falcatruas imobiliárias e financeiras e das agências de ratings. Convém que se pense que os objetivos aqui de Obama são possibilitar que os consumidores possam solucionar as suas dívidas, que possam, de uma maneira ou de outra, a atenuar a perda de riqueza que tiveram ao entrar nesses negócios. Mas, se relacionarmos este item com os outros dois, o que se pode constatar é que a entrevista de Obama revelou que ele tem, de fato, uma estratégia. Mas que ele nada falou sobre os múltiplos e vastos obstáculos que estão no caminho para a solução da atual crise econômica. Deixou sim, a questão para o secretário do Tesouro, um homem vindo do sistema financeiro, do FED de Nova York. Então, a pergunta que vem surgindo nos últimos dias: as finanças continuam comandando o processo de decisões sobre a economia americana?

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

US$ 9,7 trilhões comprometidos!

A Bloomberg atualiza as estimativas de comprometimento do Estado norte-americano com os diversos planos de resgate do sistema financeiro, de ajuda ao setor imobiliário e de estímulo à atividade econômica. O comprometimento potencial atinge US$ 9,7 trilhões, já incluídos aí esse segundo pacote de estímulo fiscal que está em análise no Senado. Desse total, US$ 3 trilhões já foram utilizados... E pensar que tinha gente que estimava o custo da crise em US$ 100 bilhões em 2007... A grande questão é se cerca de US$ 10 trilhões, caso se materializem, não são muito mesmo para um país poderoso como os EUA.
Veja o detalhamento dos gastos e do comprometimento com os custos da crise nos EUA no link abaixo:

Roubini fora dos EUA

O Prof. Roubini fica bem mais solto quando não está falando especificamente ao público norte-americano. Convidado pela Financial Times a responder as perguntas dos leitores ele foi bem mais incisivo e claro do que tem sido em seu site e nas entrevistas paraórgãos de imprensa dos EUA. Da leitura fica claro que ele não está gostando em nada das medidas tomadas pela equipe de Obama, que ele não acredita em solução indolor para os problemas do sistema financeiro e bancário, que ele vê ameaças sobre alguns países europeus que assumiram garantias sobre sistemas financeiros que são maiores do que a capacidade dos Estados e que ele acredita em uma estagnação prolongada da economia mundial.
Aos poucos, Roubini vai se afastando de seu prognóstico inicial de uma recessão profunda mas com duração de dois a três anos (até 2011) para admitir um cenário bem mais assustador, de uma crise bem mais prolongada e profunda. Dada a timidez e a incapacidade política para contrariar a dominação financeira que vem demonstrando o time Obama, o prognóstico "EUA (e o mundo) um novo Japão" vem aumentando de chances. Obama vai mudar de caminho ali adiante por que politicamente os EUA não são o Japão, mas haverá tempo (e recursos) para que essa modificação se mostre eficaz?
Link relacionado:
AS FINANÇAS, O ESTADO E A CRISE AMERICANA por Enéas de Souza

O processo econômico que está se desmanchando é um só: o modelo de hegemonia financeira com a desmontagem de vários aspectos: alavancagem, organização do sistema bancário e do sistema não -bancário: alcance da intervenção do banco central, estrutura do crédito, o papel da securitização, a imensa multiplicação de produtos financeiros e as agências de ratings. Mas há algo especial, a incapacidade do sistema financeiro de amparar o sistema produtivo, seja pelo lado do financiamento da produção (equipamentos,inovações, tecnologia, etc.), seja pelo lado dos comercial papers, seja pelo lado do financiamento dos bens aos consumidores, seja pelo financiamento dos cartões de créditos, etc. Desta forma este modelo falhou tanto no lado financeiro quanto no lado produtivo. E, é preciso salientar, que nos dois setores, a dinâmica estourou pela superacumulação de capital, expressos na inflação de ativos financeiros bichados e pela considerável quantidade de bens produzidos pela indústria e tornados invendáveis. O desdobramento desse modelo de hegemonia financeira nos Estados Unidos, encadeou outros dois pontos importantes: um comércio internacional ancorado em déficits volumosos do comércio externo americano, sobretudo com a China; e recursos de capitais vindo do exterior, desta e dos países emergentes, para atraídos pelos títulos do Tesouro dos Estados Unidos que constituíram um segundo déficit, o déficit fiscal, que fez a dívida pública alcançar mais de 10 trilhões.
O desenho de quadro serve apenas para dizer o seguinte: a gravidade da crise, a partir deste novo governo, o governo Obama, não alterou significativamente a política do Estado para a economia. Ou seja, basta ver o comportamento da Secretaria do Tesouro e do Banco Central (o FED). Na verdade, estes dois pilares estatais continuam na antiga prioridade: salvar os bancos. Não é que o sistema não deva encontrar um formato de reformulação da função das finanças na economia. Mas, fica claro, no entanto, que o objetivo daquelas instituições não é certamente modificar a relação de forças entre as finanças e a produção (empresas e trabalhadores). Trata-se de recondicionar o sistema, dando tempo (!) para que a combalida área financeira volte a utilizar a economia a seu favor. Só que a crise vai continuar se desdobrando fortemente. Prova disso são os ativos tóxicos ainda não desativados, a insuficiência capitalização dos bancos, a crescente ameaça sobre os Hedge Funds, os Private equitys e os Fundos de Pensões, etc. Por isso, o duplo jogo das finanças emerge com nitidez: além do objetivo de ganhar tempo, elas precisam manter a disponibilidade do Estado em fornecer recursos para o funil insaciável e aparentemente intermiável do setor.
Por essas razões, o pacote americano dá apenas uma modesta contribuição para o relançamento das obras públicas ligadas à retomada da produção e do emprego, não chegando a 400 bilhões de dólares. Acrescenta-se a esses aspectos, a não existência, no plano, de um atendimento expressivo e consistente para a população que perdeu com as hipotecas imobiliárias. Ou seja, o pacote, na sua timidez, continua sob o império das finanças. Isso significa que os Estados Unidos podem ser punidos por concepções deste tipo, pois a solução hoje não pode ser das finanças para as finanças, com uma pequena contemporização para os demais setores. A solução passa por um Estado que organize coordenadamente a mutação da sociedade, atendendo os vastos problemas da produção, da renovação da matriz energética, das mutações tecnológicas, e sobretudo da combinação de todas as crises da economia e da sociedade com a crise ecológica.

domingo, fevereiro 08, 2009

Mercados desregulamentados

Conhece http://www.jobaphiles.com/ ? Novo serviço de usa de emprego na região de Boston, ele permite que os desempregados e recém-formados possam leiloar seus salários a partir de ofertas de emprego. Obviamente o mais qualificado e que aceita ganhar menos leva o emprego. Vai virar moda, quer apostar? Mas, e os efeitos depressivos da redução de salários sobre a demanda?
E sempre haverá um imbecil para apontar esse tipo de coisa como a prova definitiva da superioridade da economia de mercado norte-americana sobre os mercados regulamentados. E dizer, em alto e bom som, que o problema do Brasil é a falta de uma "reforma trabalhista". Aaaaargghhhhhhh!!!!!!

Ireland, the next Iceland?

As demandas por gasto governamentais aumentam ao mesmo tempo em que as receitas diminuem. Notar que " a demanda por automóveis está próxima de zero e mais de 30.000 empregos foram perdidos em janeiro".
Para um governo que está comprometido com seguros sobre ativos bancários no valor de 4 vezes o PIB, nada mau! Se não etsivessem cobertos pelo Euro, já teriam apelado ao FMI. Será suficiente a cobertura européia?
Link:

Pacote postergado para terça

Novo anúncio do pacote de medidas para o setor financeiro parece estar sendo deixado para terça (não oficial ainda). Isso demonstra as dificuldades em conciliar o inconciliável: o interesse dos bancos com a necessidade de modificações estruturais no setor. Como a equipe econômica de Obama é de insiders do sistema, as dificuldades aumentam. Aposto em um pacote cosmético, light, "mais do mesmo" que já não funcionou. E em um novo pacote no verão norte-americano.
PREFERÊNCIA PELA LIQUIDEZ VERSUS INVESTIMENTO por Enéas de Souza


Um dos nós que embaraça a economia americana e as demais economias é sem dúvida a preferência pela liquidez. O que significa isso? Quem tem dinheiro, não larga, guarda, poupa como dizem alguns. Na verdade, o que ocorre é que é uma atitude de expectativa, de bancos, empresas, consumidores, diante da necessidade de primeiro, não entrar em aventuras com o dinheiro, e em segundo lugar, confundindo-se um pouco com o motivo de precaução, guardá-lo para alguma eventualidade. Assim, se uma empresa pretende ampliar o seu mercado, alterar a sua tecnologia, contratar pessoal, etc. diante de um panorama sombrio, as expectativas arrefecem, não aparece o horizonte de lucratividade nitidamente. A solução é parar para pensar, parar para esperar, parar para ver. A mesma coisa, acontece com os bancos. Emprestar para perder dinheiro, descapitalizar-se, isso não faz sentido. Só se faz se um negócio se ele se apresentar inevitável. Pois antes do crédito ou da aplicação, o dinheiro em caixa. Ou aplicado em títulos seguros como os títulos do Tesouro Americano.
O quadro se mostra interessantemente paralisante. A taxa de juros, em todos os lugares tende a cair. Até no Brasil com a sua morosidade insana. Pois, o fundamental para a economia como um todo é que a produção retorne as suas melhores atividades: produzir. A perspectiva de lucro tem que subir, tornar-se uma promessa fulgurante e a taxa de juros baixar, cair na lona.. Mas, se a preferência pela liquidez se mantem, não se consegue fazer nenhum investimento. E para todo o planeta capitalista existe uma desafiadora realidade: como substituir um modelo de acumulação financeira por um modelo de crescimento produtivo. Se essa realidade já é um atiçado e intrincado problema, a situação atual se complica por outras razões: há uma necessidade de solucionar a infra-estrutura energética, passando de uma matriz energética dominada pelo petróleo para uma matriz energética mista. E há um segundo problema: como enfrentar a questão da renovação tecnológica de muitos setores industriais, num momento de intensa desaceleração por causa da superprodução de capital, de um lado, e a queda do consumo, por causa do alto desemprego dos trabalhadores. É por essa razão que Keynes volta. É preciso que o Estado retorne, pois não está submetido aos imperativos da lucratividade, podendo aumentar sua dívida pública, podendo controlar instrumentos de política econômica como taxa de câmbio, taxa de juros, etc., por conseqüência, pode assumir a chave da questão: o aumento do investimento. Só que é preciso tratar as coisas com doses adequadas. Claro, que isso não faz sem problemas, porque como na vida, na economia também, se segue um caminho e aparecem diversos obstáculos; se segue outro e entram diferentes barreiras. É sobre isso que estamos e iremos conversando. O André e eu.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

A CLASSE TRABALHADORA NÃO VAI AO PARAÍSO por Enéas de Souza

Os dados da economia do trabalho nos Estados Unidos se revelam assustadores. Desde novembro de 2008 foram mais de 1 milhão e setencentas mil pessoas despedidas, o que está elevando a taxa de desemprego em 7,6%. Ora para um país que chegou a ter um patamar de 4%, considerado como pleno emprego, trata-se de uma hecatombe social. Os Estados Unidos foram uma economia que além dos habitantes do país e emigrantes legais, empregavam uma quantidade expressiva de emigrantes ilegais. Esta era uma das formas de manter controlado o custo da mão de obra na economia norte-americana, sabendo que o outro fator era o preço conveniente das mercadorias que eram consumidas pelos trabalhadores, através da importação de bens dos países emergentes, principalmente da China.
A crise financeira se desdobrou numa crise produtiva, que além de causar a queda da produção das empresas dos diversos setores, provocou também um considerável movimento de "liberação" da mão de obra, seja da mão-de-obra não especializada seja trabalhadores especializados. Nestes dois contingente estão, por exemplo, 150 .000 trabalhadores do setor financeiro. O que vem a ser isso? Trata-se, antes de mais nada, de perceber o ritmo da crise com os fracassos da área financeira, em seu processo de inflação de ativos, e a superprodução da área produtiva, com uma estrutura creditícia tocando a economia para cima. Porém, a perda de vigor da dinâmica econômica se refletiu nesta onda de rescisões de contratos, que acabou somando 597.000 desempregados em novembro, 577.000 em dezembro, e agora, neste janeiro de 2009, 598.000 integrantes do mercado de trabalho. 
Quando se olha as grandes empresas de qualquer setor as programações de dispensas são numerosas, porque é preciso se dar conta que a crise continua, que ela tinha dado uma pequena parada, mas que já tomou fôlego e que recomeçou o seu compasso candente e furioso. Ou seja, as projeções, como do RGE Monitor, atingem um número completamente inquietante. Em 2009 a taxa de desemprego está prevista para 9,1%, mesmo com o pacote do Obama, o chamado plano de estímulos fiscais. Ou seja, o Estado está entrando em campo, pronto para gastar, desenvolvendo uma atitude keynesiana, com a finalidade de uma retomada da produção e do emprego. E estará também distribuindo, sob intensa crítica, volumosos recursos para solucionar a profunda crise da área financeira. Fazendo as contas macroeconômicas, nota-se que o pacote não terá a amplitude salvadora ansiada, ele será tímido, e carente de outras medidas mais fortes. Com isso, lentamente, a sociedade, o Governo e o Congresso, serão despertados para a vasta mudança que deve ocorrer tanto na economia como na política dos Estados Unidos, o que significa dizer que o comando financeiro do social vai ser progressiva e continuadamente posto em questão. E os dados sobre o desemprego mostram, com um terrível cenário, que os trabalhadores não vão ao paraíso; em verdade, terão que ir à luta.
A SOLUÇÃO POLÍTICA DA ECONOMIA E A PERGUNTA FATAL por Enéas de Souza



A economia, quando entra em crise, só se soluciona através da política. Pois, é o que está no momento ocorrendo em toda parte. O caso dos americanos é o mais importante, porque muito do futuro do mundo será decidido lá. A questão política, então, se divide em dois aspectos, a política oriunda dos grupos sociais e a política dos partidos políticos. É obvio que existe relações entre ambas. No momento, o que está ocorrendo é o desabamento do domínio político e econômico das finanças. O desastre amplo deste setor, desde os imensos problemas dos bancos tradicionais até o desaparecimento dos bancos de investimento, passando pelo prolongado "credit crunch" do sistema bancário, ainda não atingiu toda a área financeira. Porque as forças que levam a decomposição não completaram o seu trabalho. No mínimo podemos prever a possibilidade de eventos negativos nos private equitys, nos hedges funds e nos fundos de pensões. Apesar disso, a antiga dominante financeira não está derrotada. O que ela está tentando fazer é encontrar o caminho da sua sobrevivência. Mas, o seu poder que era absoluto, em função do seu falso êxito, descortina agora rachaduras, limitações e está entrando em decadência. Ora, a questão agora se transformou e pode ser formulada desta maneira: como as finanças conseguirão ainda deter o mando, mesmo na vasta confusão que estão metidos? Alcançar este objetivo significa poder conseguir uma regulação frouxa, recursos para resolver os seus balanços, dinheiro para se capitalizarem, força para comandarem as instituições nacionais (tipo FED, Secretaria do Tesouro) e instituições supra-nacionais (FMI, Banco Mundial) em função dos seus desígnios, com o mínimo de contestação possível.

Olhem bem o quadro: as finanças perderam; mas ainda estão querendo construir um futuro que balance, como no passado, plenamente a seu favor. E isso, apesar de terem errado a mão e colocado muitos grandes e pequenos investidores face a vastas perdas do seu portfolio. Existem, todavia, alguns pontos que precisam ser esclarecidos e impedem o imediato retorno senão da hegemonia financeira, ao menos de sua liderança. Qual é o sistema financeiro que vai surgir? Teremos que solução para os ativos tóxicos? Haverá possibilidade de evitar a nacionalização dos bancos? Como os bancos serão capitalizados: dinheiro público, investidores privados ou uma combinação destes dois fatores? O governo terá capacidade financeira para atender as necessidades do sistema? Qual a capacidade do governo para negociar com o Congresso e obter recursos para atender as exigências continuas dos setores financeiro, produtivo e dos trabalhadores, durante o desenrolar da crise?
Desta forma, quando a política das finanças, por divisão interna deste setor, não tem poder para definir um rumo de política econômica, essa impotência significa que não só a luta política social está aberta, mas como esta luta ecoa, grita e se embaralha no Congresso. E aí a confusão e a negociação entre toda a sociedade passam a ser intensas. O que a gente não sabe é se a força das finanças será suficiente para conseguir uma importante socialização das suas perdas e manter a acumulação de capital prioritariamente na esfera financeira ou se algumas entidades vão se salvar, mas terão que aceitar uma nova combinação social com a esfera produtiva, tendo esta uma posição bem mais relevante do que atualmente. O que a gente não sabe também é qual é a capacidade do Estado de gerir toda a dimensão da crise e propiciar as classes médias e trabalhadoras mais benefícios socias. Estas perguntas e obsservações nos levam a pergunta fatal: quanto tempo vai levar para que as tendências descendentes da economia americana encontrarão as múltiplas forças que a farão reverter para um novo ciclo de crescimento?

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Summers versus Volcker: mau sinal

Segundo a Bloomberg, Summers está conseguindo escantear Volcker das discussões sobre o plano de resgate do sistema financeiro dos EUA. Volcker é o único outsider do grupo, alguém de quem se pode discordar das idéias sobre economia, mas que não tem uma ligação mais direta com o sistema financeiro e seus atores. Ou seja, é o único que pode contribuir para uma decisão menos colusiva entre os interesses do governo dos EUA e do estabilishment financeiro. Caso desista da empreitada, será mais um mau sinal.
Link para o artigo:
UMA ESTRATÉGIA PARA O BRASL DIANTE DA CRISE por Enéas de Souza



A queda da produção da indústria, revelada ontem, deu, no país, mais um choque de realidade da crise. Um choque progressivo de que a crise está aí, está nas fábricas, está nos shoppings, está nos restaurantes, está nas lojas, ela está nos espiando com seu rosto soturno e triste. Estes dados da indústria nos mostram uma forte desaleração deste setor e lembram que já existe um crescente desemprego. Mas, é tempo de férias. E então existe um certo descompasso entre o ritmo da crise e o ritmo das pessoas. O choque não parece tão poderoso quanto de fato é. Mas, quando março chegar, a crise vai desabar nas questões econômicas e nas conversas de todo o mundo. Enquanto isso, o governo já anuncia medidas via PAC e via BNDES para incrementar tanto o investimento público quanto o investimento privado. E aqui, segundo nossa perspectiva, está o nervo exposto da questão.
O Brasil precisa ter uma estratégia. Ela deve começar por tratar da inserção do país no mundo. A crise é uma "janela de oportunidade" como costumam dizer certos enfadonhos economistas e administradores. Ou seja, dito de outro modo: esta é a hora, este o momento. Temos que ter claro qual será o papel do Brasil na nova divisão internacional do trabalho. Está absolutamente claro que a desordem mundial vai propiciar uma nova ordem. mas quanto tempo vai levar para tal, não é possível prever. Mas que vai ter uma nova ordem, vai. E do ponto de vista econômico, o que o país precisa é uma estratégia adequada, a partir de um verdadeiro conhecimento de sua situação. É preciso adequar nossos meios a esta nova estratégia.
E o que vemos nesse momento, é que é indispensável a presença significativa do Estado no investimento, já que o investimento é o que liga o presente ao futuro, transformando-o. E o investimento público é aquele que não precisa da motivação do lucro, é um investimento auatônomo, está fundado nas necessidades da nação e da sociedade. Ora, para isso, é preciso urgentemente retornar a um projeto nacional baseado na citada estratégia acima assinalada. E com isso, substituir um modelo financeiro de acumulação de capital por um modelo de crescimento produtivo do Brasil inserido na economia mundial.
De que jeito? Reorganizando o Estado para este novo modelo. Em primeiro lugar, dando ao Estado instituições e capacidade para estabelecer este novo projeto. Significa, então, reorganizar a sua estrutura. Em segundo lugar, dando unidade de ação ao próprio Estado, o que significa que todo o governo, inclusive o Banco Central, atuem na direção do desenvolvimento e não para definir políticas favoráveis a rentabilidade das finanças. Em terceiro lugar, começar a trabalhar para a implantação deste modelo, o que deve fazer valer a estratratégia proposta, que visa, é preciso esclarecer, tanto a inserção do Brasil no mundo como a construção de uma sociedade com desenvolvimento social avançado e profundamente atual. Por isso, há um quarto ponto, o Brasil precisa pulsar politicamente. E a política se faz com uma vasta discussão nacional e com organização das múltiplas frações da sociedade. É preciso de não ter medo de discutir e debater. E o Estado deve integrar no seu interior esta dinâmica brasileira. Por isso, está na hora de buscar este novo modelo de desenvolvimento, sabendo-se que a arma do tiro inicial está ai e está dada: o investimento público.

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Martin Wolff está bem assustado... Roubini também...

Interessante a coluna de Martin Wolff sobre Davos... Ele coloca corretamente que a solução tem de vir dos EUA... Ele diz que a estratégia de Obama tem de rapidamente solucionar os problemas das instituições financeiras dos EUA e trazer um plano que enquadre o resto do mundo. Está difícil, ele reconhece. Mr Wolff está pessimista com o que vê. Dadas as notícias sobre as discussões quanto ao plano de resgate financeiro norte-americano, essenciais para os EUA e economia mundial, ele tem razão.
Roubini tem um post ontem na mesma linha, dizendo que as chances dos EUA sofrerem uma estagnação à la japonesa vem aumentando. Ele propõe que o plano norte-americano tem de ser de choque, envolvendo a liquidação das instituições financeiras insolventes. O que tem vazado até o momento vai na direção de uma postergação da solução desse problema. Tanto o plano de criar um bad bank sob comando estatal no qual as instituições insolventes possam depositar os ativos tóxicos quanto a idéia mais recente de uma garantia estatal para os ativos tóxicos apenas empurram o problema para mais adiante. Isso foi feito no Japão com resultados desastrosos.
Fica a questão: se Obama com sua legitimidade não consegue confrontar os interesses da atual elite dirigente de Wall Street, quem conseguirá? A economia sempre foi e sempre será política acima de tudo...
Links para os artigos:
A CRISE E O PACOTE AMERICANO por Enéas de Souza.

A crise mundial se desenha complexa. Primeiro, é preciso deter a crise americana e começar a revertê-la para um caminho de recuperação. No lado financeiro, continuam obstáculos poderosos: não se definiu um desenho para o novo sistema, não se encontrou um plano de regulação (uma Basiléia III, capaz de prevenir o risco sistêmico), não se completou a recapitalização dos bancos, não se solucionou a presença de ativos tóxicos nos seus patrimônios, o crédito continua em "crunch",etc.. No lado produtivo, o pacote aprovado na Câmara ainda está dependendo de decisão do Senado. O pacote é pouco, mas é um começo. Porém, existem senadores contra , talvez até democratas. Se o plano for derrotado, a crise dará mais um passo descendente, sem nenhuma força ascensional. E a aprovação é urgente, pois além de outras ajudas (educação, saúde, etc), prepara-se um aporte de mais de 300 bilhões de dólares para obras públicas. Seria uma medida tentando contrabalançar a crescente queda da produção e do emprego. As últimas notícias sobre a GM, Ford e Toyota são aterradoras, com quedas altamente expressivas nas suas atividades . Nesse sentido, a tendência ao aumento da crise é vasta e perigosa. E dado o efeito progressivo dos Estados Unidos no mundo, o resultado é um decréscimo desalentador, mesmo se existem promessas de programas de recuperação em vários países. Porque o problema nesta era do capital financeiro com os programas de recuperação é que o que se tenta sustentar é antes de mais nada o sistema financeiro, buscando o retorno do esperançoso crédito. Mas, não basta esse reformulação das finanças, a lógica do desenvolvimento produtivo tem um lado próprio e inarredável. E se esta não for transformada, realimentada, reformulada, e mesmo preparada para introduções tecnológicas, energéticas e organizacionais, a crise prosseguirá avassaladora. Por isso, o pacote é apenas uma aspirina, o que sempre pode diminuir a dor. Daria, não resta dúvida, para um pequeno recomeço, proporcionando um pequeno fôlego, para que novas idéias, novas ações, novos pensamentos pudessem ser dispendidos tanto para tratar de apagar o incêndio do desastre financeiro e produtivo, como para dar um novo impulso à economia como um todo. Se isso acontecesse, a economia mundial agradecia. Desde a China ao Brasil.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Mais do mesmo resolve?

Pedersen e Roubini propõem no Financial Times que as técnicas que medem os riscos no interior dos bancos sejam aplicadas pelos reguladores para medirem a imputação de cada banco ao risco sistêmico. Assim, ao exigir-se a capitalização de cada banco conforme sua constribuiçao ao risco do sistema, esse estaria suficientemente capitalizado e, em caso de falência bancária, não representaria grande esforço fiscal para evitar a contaminação do sistema como um todo.
Dois problemas: a)as medidas de risco atualmente utilizadas são pró-ciclícas e utilizam o valor dos ativos no passado como projeção desse valor no futuro; b) os balanços dos bancos controlados pleos reguladores não incluem o total de suas exposições. A solução "mais do mesmo" no atual estado da regulação bancária somente transfere os problemas individuais para outro nível ainda maior. Dentro de um amplo conjunto de reformas que virão, esse item pode voltar a ser novamente analisado, mas esperemos que Basiléia III seja bem mais do que isso. Dessa vez, pisada na bola de Mr. Roubini!
Link para o artigo:

Modelo japonês

O Japão é o país mais afetado até o momento pela crise financeira global. A produção industrial vem caindo cerca de 10% mês contra mês e já totaliza mais de 30% de perdas, o que faz com que o total produzido nos últimos 12 meses esteja ao mesmo nível de 1983! A produção de automóveis vem liderando a queda, devendo se reduzir à metade em 2009 frente ao ano passado.
O modelo japonês de produção industrial foi vitorioso e copiado no mundo inteiro, o que retirou a vantagem competitiva das empresas japonesas. Isso ocorreu em conjunto com a hegemonia financeira a partir dos anos 1980. O próprio sucesso chinês foi construído como uma extensão internacional desse modelo.
A derrocada da globalização financeira não significará o insulamento da produção e uma nova forma de relacionamento entre capital e trabalho, com uma nova organização produtiva? As relações entre o finanças e produção e seu impcato são uma das consequências menos discutidas das trasnforamações a economia mundial após os anos 1980. Seu desconhecimento não permite soar o alarme quanto às consequências da crise sobre a localização e o modo da produção mundial. O Japão talvez seja centro dessas mudanças. O que funcionava antes, talvez agora dê um efeito contrário. Afinal, a idéia central do ponto de vista da acumulação do capital não era liberal capital imobilizado era permiti-lo girar mais rapidamente? Pois bem, nesse momento esse caital "excedente" está sendo destruído com a desalavancagem do sistema financeiro.
A notícia detalhada sobre a economia japonesa pode ser vista em

Nova Fase

O Econobrasil está enrando em nova fase. O blog passa ser dividido entre os economistas André Scherer e Enéas de Souza e manterá o estilo de um diálogo sobre os mais diversos temas que seguem sua proposta inicial, com a diferença de que focalizará especialmente a crise financeira global.

Com isso buscamos dar mais regularidade e agilidade ao blog.

Boa diversão a todos!

sexta-feira, outubro 19, 2007

A crise de crédito global e a globalização financeira

A Crise de Crédito Global: uma crise da globalização financeira[1]

A partir de meados de julho de 2007 o mundo financeiro tem sido fortemente chacoalhado por uma sucessão de eventos cuja gravidade não pode mais ser negada ou escondida. Palavras e siglas dantes desconhecidas ou de uso restrito dos especuladores mais diretamente interessados passaram subitamente às primeiras páginas dos cadernos financeiros e foram ouvidas dos lábios de embaraçados apresentadores no mundo blasé e eternamente cor-de-rosa do telejornalismo financeiro. Subprime, ABS, MBS, CDO, ABCP, CDPO e tantas outras siglas e expressões oriundas do mundo mágico da finança global, passaram a rimar com expressões bem mais antigas e conhecidas, com as quais o capitalismo ciclicamente nos brinda: crise, recessão e desemprego, dessa vez com sua origem na principal economia mundial, os Estados Unidos.
Paradoxalmente, a “sopa de letras” confunde e explica ao mesmo tempo. O mundo financeiro se tornou intencionalmente complexo e opaco, fonte de enormes lucros para “espertos” donos da melhor informação e do menor esforço. A chamada “alavancagem” – tomar empréstimos para assumir uma posição especulativa mais rentável em busca de um lucro diferencial ­– é hoje tão normal quanto acordar pela manhã, mesmo que, ao multiplicar ganhos nos momentos de alta, também possa inflar enormemente os prejuízos quando os ventos passam a soprar na direção oposta. E nesse caso, mesmo ventos inicialmente de pequena intensidade são capazes de gerar, na medida em que se intensificam com o acúmulo de prejuízos, estragos de grandes proporções.
Trata-se da primeira crise cujas características decorrem exclusivamente das especificidades do mundo financeiro criado a partir dos anos 1980, momento onde a confluência da desregulamentação com as novas tecnologias da informação liberaram forças cuja contenção escapa inclusive aos Bancos Centrais. A securitização e os derivativos – instrumentos de repartição do risco em um mundo cada vez mais incerto – predominam na busca da proteção, mas também nas “apostas” especulativas. Os fundos de investimento, de pensão, hedge e private equity proliferam e espalham esses títulos pelo planeta, interligando geograficamente mercados aparentemente distantes. Os bancos, procurando fugir das regras que lhes garantiriam a solvência em tempos de crise, criam seus próprios fundos para poderem conceder empréstimos acima dos limites prudenciais. As agências de notação – aquelas que dão notas e opiniões inclusive quanto à capacidade de solvência de países soberanos – participam da festa, chancelando como “seguros” títulos frutos da chamada “engenharia financeira”, cujas características lembram mais um desengonçado Frankenstein, a partir da cobrança de “módicas comissões” que engordam seus crescentes lucros. E tudo isso se passa sem que os Bancos Centrais possam ter uma visão sobre quem “carrega” esses títulos mais perigosos, conhecidos no mercado financeiro pelo sugestivo apelido de “lixo tóxico”.
E o que temos ao final se não uma enorme e perigosa “cascata de dívidas”, onde a inadimplência de um agente se reflete na capacidade de outro em honrar seus compromissos? E como saber quais são os títulos “podres” e as instituições em perigo quando a securitização e os derivativos espalharam os riscos em todas as direções e em diversas partes do mundo, sem supervisão adequada, a partir da confiança nas supostas virtudes da auto-regulação? A incerteza emerge com força inaudita nessa crise contemporânea, paralisando mercados tidos até ontem como “a salvo”, transformando a busca pelos ativos “infectados” em algo muito parecido ao jogo infantil onde se busca encontrar o “Wally” em meio a uma miríade de títulos que podem ou não estar contaminados. A desconfiança mina assim a fluidez de mercados e traz a possibilidade de crises que abalem tanto à saúde das instituições financeiras quanto à capacidade de crescimento do consumo, afetando as empresas ditas “produtivas” com a possibilidade de uma recessão.
Todas essas características gerais que demonstram a insanidade da formação de um complexo sistema que parte da acumulação de capital fictício com o único objetivo de geração maior de capital fictício que caracteriza o capitalismo financeiro contemporâneo (circuito reduzido D-D’ em Marx, caracterizado como a forma fetichista máxima da acumulação de capital), aparecem quase caricaturalmente na crise atual.
Vejamos então o que tem ocorrido e como uma crise com origem no setor imobiliário norte-americano pode abalar profundamente as estruturas do sistema financeiro global. A crise que abalou as bolsas norte-americanas em 2000/2001 foi superada a partir de grandes reduções nas taxas de juros daquele país. Isso incitou, de parte das famílias, a uma retomada em seu endividamento. Com a confiança nas bolsas de valores abalada pelas recentes perdas, os novos empréstimos direcionaram-se especialmente ao setor imobiliário, o que elevou os preços das residências. Na medida em que esses preços aumentaram, foi possível às famílias refinanciarem esses empréstimos e tomarem mais recursos tendo como contrapartida seus imóveis, destinando parte desses recursos ao consumo em geral, o que possibilitou uma nova rodada de crescimento baseada na elevação do consumo.
Com o passar do tempo, com os preços dos imóveis em elevação, as exigências para concessão de crédito foram relaxadas, ao mesmo tempo em que se criaram novos “produtos’, com facilidades iniciais de pagamento aos tomadores de empréstimos que se constituem em verdadeiras “bombas-relógio”, com contratos que contemplam a abrupta possibilidade de elevação nos preços das prestações. Esses contratos são revendidos aos bancos que conformam com eles novos títulos (ABSs ou MBSs) para serem novamente revendidos aos fundos e aos bancos de investimento. Os bancos de investimento misturam esses títulos vendidos pelos bancos comerciais a outros, criando um novo papel (CDOs) que são revendidos aos fundos do mundo todo, com a benção das agências de notação. Esses fundos muitas vezes tomam novos empréstimos dando como contrapartida esses papéis. Podemos notar que esses “investidores” estão bastante distantes dos compradores dos imóveis que deram origem ao primeiro contrato de hipoteca, o que possibilita comportamentos “agressivos” quanto ao risco de todos os envolvidos nessa cascata de títulos.
Mas a história ainda continua. Bancos comerciais do mundo todo criam fundos e tomam recursos nos mercados de curto prazo a juros mais baixos, investindo-os em CDOs de prazo mais longo e maior rendimento, colocando em risco mercados monetários essenciais para o dia a dia financeiro das empresas produtivas.
Com o declínio no preço dos imóveis a partir de 2006 e o aumento da inadimplência nas hipotecas, todo o ciclo se reverte. O valor dos títulos emitidos a partir das hipotecas (MBSs e CDOs) cai abruptamente, uma vez que o fluxo de pagamentos gerado por esse empréstimos se torna mais instável. As perdas se acumulam e “pipocam” casos de falência de fundos e problemas bancários em várias partes do mundo (Alemanha, Inglaterra, Canadá, Nova Zelândia, Austrália, etc.). Fica claro o comportamento irresponsável e ganancioso das agências de notação ao certificar a “segurança” dos títulos emitidos a partir da revenda das hipotecas. Os mercados monetários se fecham, os juros de curto prazo sobem e os bancos passam a desconfiarem uns dos outros, evitando a concessão de empréstimos entre si. Resta apenas a intervenção estatal, a partir de empréstimos dos bancos centrais, para evitar o colapso. Os apologistas “modernos e ousados” do livre-mercado se convertem em bebês chorões, em busca dos recursos salvadores oriundos dos impostos dos contribuintes. Tal qual piromaníacos arrependidos, chamam pela intervenção salvadora dos bombeiros.
Assim se compreende a intervenção dos Bancos Centrais, na tentativa de dar a liquidez necessária para a volta à normalidade dos diversos mercados. Mas a confiança está quebrada, a crise imobiliária norte-americana apenas em seu início, o mercado de crédito não poderá mais ser o mesmo dos últimos anos. Trata-se de uma crise de longa duração – fenômeno admitido em setembro pelo mesmo FMI que em abril dizia não haver risco de crise maior –, a mais grave do capitalismo financeiro contemporâneo, com reflexos econômicos e políticos que apenas o futuro poderá nos revelar. A possibilidade de crescimento mundial com uma crise no consumo norte-americano será brevemente desmentida. Os efeitos da agressiva redução nos juros norte-americanos se revelarão passageiros. O entusiasmo dos especuladores com os “mercados emergentes” das últimas semanas será revertido. Os ganhos com as ações nas bolsas de valores não se manterá e o ano de 2008 marcará o fim das ilusões quanto às possibilidades de um “desendividamento indolor”.
Estamos apenas no início. Devemos estar preparados para aproveitar as oportunidades políticas que se abrirão com essa crise em diversas partes do mundo, inclusive no Brasil, país completamente entregue à hegemonia dos bancos e da especulação financeira. Infelizmente, muitos que não se beneficiaram em nada com a especulação pagarão a conta da crise. Trata-se de uma das características mais perversas do capitalismo financeiro contemporâneo, que deve despertar a indignação de todos aqueles que buscam uma sociedade com maior justiça e igualdade. A compreensão dos eventos contemporâneos deve ser a base para a ação conseqüente e eficaz na luta contra mistificação ideológica dos benefícios do livre-mercado.

[1] Artigo publicado no jornal Página 50, em outubro de 2007.