quinta-feira, agosto 26, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
26 de agosto de 2010
COLUNA DAS QUINTAS


O CREPÚSCULO
DO
NEOLIBERALISMO

Por Enéas de Souza


O CAMINHO DA ECONOMIA MUNDIAL

1) O LAÇO QUE SE DESMANCHA

Olha só como está o mundo: Estados Unidos em paralisia, obviamente que a digestão dos títulos podres ainda não terminou. Vai longe. E o desemprego também. Portanto, caldo de revolta junto com corrosão do desemprego. Não se vê retorno à vista. E a mídia a dar notícias que esta empresa aumentou os lucros, que aquele banco ganhou horrores neste semestre. O que é verdade, mas não é tendência da economia, é tendência de uma ou outra corporação. O fato é que o crédito não flui, não irriga a economia, nem à especulação, nem à produção. E hoje chegou a notícia que o setor imobiliário não deslancha, vendeu-se menos novas casas que o previsto. De qualquer modo, é preciso desarmar definitivamente as finanças e dar ênfase na produção. Mas vai levar tempo. Mesmo porque o FED (o Banco Central) está ameaçando em comprar mais títulos podres para ver se alguns bancos conseguem escapar.

Pode-se ver a turbulência social americana, internamente, com o lento desmanchar da economia de hegemonia financeira até chegar uma nova, com as devidas renovações tecnológicas decisivas e a reacomodação imprescindível das finanças. Fala-se, cada vez com mais insistência, numa necessária regulação dos bancos e num controle do sistema bancário separado do sistema não-bancário. Mas, até agora os bancos querem reaver a sua lucratividade sem consegui-la. Os atores continuam em cena, mas a platéia cansou do espetáculo. Falta o encerramento da peça.

Na geopolítica, continua o desastre americano no Iraque – trocando tropas oficiais pelas empresas de guerra privada – e no Afeganistão – onde Karzai rejeita estas últimas, por serem inclusive “terroristas”, segundo seu discurso de ontem. E o Irã continua sendo uma guerra em potencial, o que significa dizer que as confusões do Oriente Médio continuam a mostrar a dificuldade de Obama impor sua visão geopolítica de paz. No entanto, o que se sabe é que estamos em plena transição neoliberal, e o bafo conservador e militar ainda está fungando forte na presidência Obama. A unipolaridade americana, apesar do seu imenso poderio econômico, militar, político, diplomático já era. O problema é como ele vai se posicionar, agir, interagir com a Europa, a China, o Oriente Médio e o resto do mundo.

2) O LAÇO QUE SE SOLTA

Já a Europa vai de mal a pior. E lá, o incesto “Estado/Bancos” está levando a uma grande busca de contração fiscal. E sabem o que é contração fiscal? É Estado sem capacidade de gasto, é economia lomba abaixo, é deflação, é desemprego, são enormes fraturas sociais. O curioso é que a invenção da Comunidade Européia acabou sendo um bom negócio para a Alemanha, que está jogando de mão, exigindo controle fiscal, definindo as linhas gerais da Europa. E ainda pode decidir se fica ou não na Comunidade. Já a França, com o Sarkozy, saudado como o gênio europeu pela direita politicamente inculta do Brasil, está entrando numa zona de alta turbulência. Ameaças por toda parte, desde cortes fiscais de direitos sociais até perseguição aos ciganos. A palavra de ordem da população francesa é RESISTIR. Grande sucesso está fazendo um juiz chamado Portelli que levanta a resistência em nome da Revolução Francesa e dos franceses contra Vichy. A Comunidade Européia pode se desmanchar – talvez fique, apenas, um núcleo duro. E em toda a Europa existem muitos perdedores, sobretudo a Europa do Leste e a Grécia. Na evolução geopolítica e econômica já se prevê uma aliança Alemanha/Rússia, que poderia ser um subeixo econômico ao grande eixo futuro, Estados Unidos/China, na nova configuração econômica mundial. A cadeia neoliberal unipolar americana com os enlaces, em primeiro lugar, com a Inglaterra (God, please, save the Queen) e em segundo, com a Comunidade Européia, dá cores mais nítidas de uma degradação cujo fim ainda não se pode prever. Pode ir ou pode ficar euro, pode ir ou pode ficar a Comunidade. Enfim, tudo está incerto.

3) OS DOIS CENTROS

A retomada da economia mundial virá de uma relação entre a economia americana e a economia chinesa. Teremos dois centros daquilo que Braudel chamava de “economia mundo”. Só que, num primeiro momento, os Estados Unidos estão se reformulando. E obviamente no longo do tempo vão puxar tanto a economia das novas tecnologias de comunicação e informação como outras tecnologias inovadoras como aquelas ligadas às ciências médicas. Virá de lá também um dos pólos da renovação energética do mundo. E só neste momento é que a relação com a China vai se fazer plenamente. Embora não seja equivocado dizer que a China está em forte reconversão de sua economia, centrando mais na realidade interior, bem como na importação de mercadorias, só não se pode dizer que ela puxará sozinha o mundo. Seja como for, a China está sólida e com dinheiro na mão e com capacidade de decisão mais centralizada por causa do papel do Estado e do seu planejamento. Por isso, sua negociação com os Estados Unidos está sendo interessante e vai continuar interessante, porque eles têm 2 tri e 300 bi de dólares de reservas. Há interesse em articular os dois grandes centros. E por fim, é importante afirmar que o dinamismo do mercado mundial, neste momento, vem dela, que não só fertiliza a Ásia como enlaça a América Latina e a África. Naturalmente que inúmeras questões estão e vão surgir nesta parte da dinâmica da economia mundial que vem da China. Tudo está se fazendo e tudo está para ser negociado.

4) AS ESTRUTURAS QUE ESTÃO SE CONSTRUINDO

Do ponto de vista econômico, dois aspectos é preciso mencionar.

De um lado, a revolução da forma do capital financeiro. Uma retomada da superioridade da órbita produtiva com as transformações tecnológicas tanto da infra-estrutura energética como do encadeamento da nova dinâmica da produção. E a conseqüência mais vital, o recondicionamento das finanças, provavelmente dividida em duas partes, uma fornecendo crédito para a produção e outra, deixando espaço para a especulação, mas com controle para evitar a contaminação da esfera produtiva. A vantagem será que as eventuais crises financeiras serão circunscritas ao próprio espaço financeiro.

De outro lado, vai se articular um novo espaço internacional, onde a nova dinâmica ligará estes dois grandes centros: Estados Unidos/China, com os americanos hegemonizando a economia com as novas tecnologias de informação e comunicação, enlaçando outras tecnologias com a bioeletrônica, a nanotecnologia, etc. A China entrará em campo com uma larga produção de produtos mais tradicionais, Desta forma, em torno do eixo Estados Unidos/China os demais eixos, zonas ou países vão se compor. Estamos vivendo o crepúsculo do neoliberalismo. Um novo período histórico está surgindo. (Cabe ao Brasil, nesta eleição, decidir se vai se encolher como no tempo de FHC ou vai continuar a grande reformulação do governo Lula. Esta eleição é decisiva para o nosso destino).

5) E A CIVILIZAÇÃO?

Mas, a indagação mais profunda vai atravessar essa nova construção: que valores de civilização estarão se gestando nesse novo período histórico? Ou, dito de outra forma: teremos o prosseguimento desta civilização selvagem onde a traição, a truculência, o dinheiro, a subjetividade construída por mercadorias continuarão dominando? Se não houver uma política pública para a cultura é certo que os valores selvagens poderão continuar a dirigir as mentes dos habitantes do planeta. Nesse sentido, a pergunta é: teremos um novo período econômico e um novo período de civilização com os mesmos descabelados valores? Ou o novo período econômico estará produzindo o ocaso – quem sabe? – da civilização do capitalismo selvagem?

quinta-feira, agosto 19, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
19 de agosto de 2010
COLUNA DAS QUINTAS


PERGUNTAS
PARA O SERRA
RESPONDER
E GANHAR
A ELEIÇÃO

Por Enéas de Souza


1) Começou o horário eleitoral. Dilma está disparada na frente e Serra segue seu calvário e sua errância, tentando achar uma ruptura na estratégia da candidata de Lula. Indaga-se porque Dilma está na frente? Um clarão devastador. E para tal saber, vamos tentar observar o que lateja e o que grita como o efeito dos movimentos da sociedade, movimentos, é indispensável observar, nem sempre são tão claros e singularmente visíveis para a população e os votantes .

2) O primeiro passo da resposta parece fácil. Todo mundo diz: porque Dilma é a candidata de Lula. Mas, só isto não decifra a questão, que vibratória nos leva à tentativa de explicação desta facilidade. Vamos mais longe então. Aqui nós nos encontramos no meio da correnteza, o nosso barco se aproxima da clareira explicativa. O porto onde começa a nossa viagem se esclarece: porque Lula superou o neoliberalismo de Fernando Henrique e José Serra. Mas, é tão simples assim a resposta? A jogada de Lula deu certo? Vamos analisar o tema fora do quadro do imediato, do jogo político de divergências, de diferenças, de gozações e, às vezes, até de mágoas e atrevimentos, quase de ofensas como de picardia. Vamos seguir o roteiro que a história teceu, bem como este que vai se fazendo, um tapete explicativo, um painel de pelo menos de 16 anos, de 1994 para cá. É preciso olhar o período histórico FHC (e Serra). Cardoso, como é conhecido fora do Brasil, fez um governo dominado por um processo de acumulação financeira do capital, sem nenhuma distribuição de renda, a não ser na conversão do cruzeiro para real. No longo do período, um desastre para os baixos salários e os indigentes. No final, um expressivo desemprego avultava. A rosa negra do liberalismo. Ela toda colocada no vaso de uma imensa dívida externa.

3) O governo de FHC estabeleceu o Brasil como um dos paraísos das finanças. Sua base coletiva de apoio era liderada pelos banqueiros internacionais e nacionais. Fez uma política externa medíocre, aceitava a ALCA, não tinha presença mundial nenhuma salvo no MERCOSUL e suas decisões estavam sempre no alinhamento automático aos Estados Unidos. Uma das raras divergências era a posição pela paz no Afegasnistão. Fora disso, era a busca de condecorações e títulos honoríficos universitários, os chamados “Doctor Honoris Causa”. No plano da economia, construiu uma política econômica desfavorável aos setores produtivos (que ganhavam bastante, mas só no jogo financeiro) e aos trabalhadores, desligando-os de qualquer influência política. Acabou reiteradamente incrementando a alegria às finanças, como se o Tesouro brasileiro fosse um baú da felicidade. O resultado geral foi um caminho liberal econômico aguçado: desestatização (o que significou a construção de um Estado financeiro), desindustrialização (conseqüência fatal da prioridade da valorização dos juros e ausência de uma política industrial) e privatização em larga escala principalmente da Vale do Rio Doce (verdadeira calamidade estratégica para o Estado brasileiro). A doação do patrimônio nacional foi tão intensa que FHC só não conseguiu privatizar a PETROBRÁS (embora a tentativa da PETROBRAX), o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal. A estratégia nacional de FHC era não ter estratégia nacional. A sua retórica pregava que a dinâmica econômica fosse puxada pelo capital estrangeiro. E as suas decisões passavam pelo privilégio da abdicação macro do seu governo, ou seja, quem comandava eram as estratégias microeconômicas dos grandes atores internacionais e nacionais.

(Como é que o Serra, participante e herdeiro desta postura, vai querer votos do setor produtivo e dos trabalhadores e dos pobres e dos miseráveis? O povo terá ouvidos para quem jogou desta forma? Claro, sua carta foram os trabalhos na saúde. Afora, como depôs Itamar, a apropriação indevida sobre a paternidade do combate a AIDS e os genéricos, Serra desempenhou um papel acentuado. Mas para quem foi um oculto Ministro de Planejamento, esta atuação setorial específica, pergunta-se, é suficiente para esperar o reconhecimento em votos da população? E eu pergunto, para aqueles que estão criticando este escrito, poderia ser diferente para o Serra, que como FHC, Malan, Armínio Fraga, e tantos outros que estiveram no governo de FHC, facilitaram e fizeram a montagem de um sistema de acumulação financeira? É politicamente razoável pensar que a população levaria o Serra a uma vitória retumbante? É racional compreender que a sociedade brasileira tinha que pensar de outra forma e rejeitar Lula e Dilma, diante desse processo social empreendido pelo governo henriquino? E não se pode esquecer que o próprio FHC declarou à revista Época, que foi Serra quem lhe convenceu a privatizar a Vale. Pergunta: é aceitável que a nação se rejubile com a candidatura de Serra?)

4) O arco político que sustentou o governo de Lula baseou-se num pacto tácito, na práxis social e econômica dos banqueiros, dos industriais, dos agricultores, dos trabalhadores, dos desempregados, dos empobrecidos, dos deserdados. Lula soube escutar os desejos diversos das camadas sociais. E montou um governo cujo objetivo foi, no médio prazo, desmontar política e ideologicamente ( e se possível economicamente) a hegemonia do financeiro no processo de acumulação capital do Brasil. É obvio que as finanças não perderam o comando, mas o seu poder na política econômica foi sendo progressivamente contrabalançado. Os alvos que se construíram não estiveram somente entre os objetivos exclusivamente financeiros. Estão visíveis, nas suas proposições e limitações próprias, os vastos e coerentes programas sociais e o reposicionamento do setor produtivo no campo dos negócios. Houve um segundo ponto extraordinário. Ocorreu uma vasta operação para inserir o país na geopolítica internacional. Viu-se então o Brasil organizando, dialogando, mediando, combatendo, interferindo, divergindo e propondo medidas e idéias e valores, como um player global - de porte médio, naturalmente. E o que se pode concluir é que o Brasil de Lula teve estratégia e projeto nacional.

(Pode Serra esperar que os múltiplos beneficiários deste programa possam rejeitar Lula e Dilma, por mais que tenham discordado de algumas opções do governo Lula, em prol da sua candidatura? É razoável pensar que Lula, tendo feito um governo aprovado espetacularmente pela população, seja repudiado na sua indicação de Dilma? Ou seja, do ponto de vista do movimento das classes, dos grupos e das frações sociais seria racional e razoável pensar que estas classes e estes grupos e estas frações vão rejeitar a candidatura de Dilma Roussef? )

5) De outro lado, é importante ver que o movimento político ao nível das classes é expresso politicamente por figuras determinadas. Ou seja, as personalidades têm importância no jogo político. Lula sai do governo mostrando uma genialidade política que nem de longe FHC pôde e pode aspirar, embora tivesse a vã pretensão de superar dois gênios da política brasileira, Vargas e Juscelino. Primeiro ponto de Lula foi a capacidade de organizar a sua estratégia em torno do arco político e social dos banqueiros, dos industriais, do setor agrícola, dos trabalhadores, dos desempregados, dos excluídos e enfrentar da melhor maneira possível, Prometeu acorrentado, a grande operação do “mensalão”. Debaixo de enchentes e desmoronamentos e soterramentos, ameaçado de impeachment, conseguiu atravessar o Rubicão nas eleições do segundo mandato. E daí, partir para alterar definitivamente a forma de agir do Estado e incidir sobre a hegemonia financeira. Tivemos, então, no decorrer desta fase, o começo da reconstrução do Estado, um esboço de recuperação do Planejamento (o PAC), a visibilidade do êxito do Bolsa Família, do Luz Para Todos, o ProUni, o crédito consignado, o lançamento do programa Minha Casa, Minha Vida, etc., etc. Ou seja, o Estado financeiro passou a se dirigir para um Estado capaz de projetar programas, intervenções e ter ambições estratégicas maiores, como entrar no campo energético, atuar no fornecimento de alimentos, exportar minérios, etc. Ou seja, esboçar um avanço na nova divisão internacional do trabalho.

6) Lula combinou uma estratégia de atender as necessidades de lucratividade dos setores capitalistas e uma estratégia de, com recursos escassos deixados pelo processo financeiro de acumulação, fabricar uma política consistente de apoio às classes empobrecidas. Os resultados são visíveis nas cidades do interior brasileiro, na periferia das grandes cidades, nas feiras, nos supermercados e nos shoppings. E, principalmente, a resposta política do Brasil na hora da crise mundial. Foi, dentro possível, um keynesianismo por dentro, abdicando de impostos, produziu uma bela sustentação de indústrias chaves, ao mesmo tempo que acrescentava poder de compra à população, inclusive da classe média.

7) Sutilmente, sem tirar a renda financeira, Lula foi desfazendo a política liberal e financeira de FHC e, lentamente, mostrou que o Estado é fundamental no capitalismo, seja para defender o capital, seja para distribuir renda. FHC era um subordinado do capital. Já Lula procurou favorecer a população, equilibrando as vantagens deste. FHC dava politicamente esmola com os seus programas sociais; Lula, ao contrário, valorizou os recursos para as classes desfavorecidas dando coerência à aplicação destes. FHC foi um fiel defensor da financeirização; Lula abriu perspectivas sociais para outras classes crescerem, mesmo que modestamente em contraposição. Nesse sentido, Lula foi um varguista. Ou seja, para contrabalançar o império político, social e ideológico do capital, é necessário fazer com que o Estado ponha o seu peso na contra-mão dos interesses dominantes. Mas, o varguismo de Lula foi também inovador, porque tanto usou os contatos diretos com sindicatos, organizações populares, etc., como usou a televisão, introduzindo um populismo mediático. E foi pelo conjunto da obra, desde o bloqueio da exclusividade de benefícios monetários para o capital financeiro até a possibilidade de dar bolsa família, educação, moradia e passagem de classe a grandes contingentes da população, que Lula encaminhou os votos para Dilma.

(Pergunta: Serra tem mesmo a pretensão de que toda a gente, que participou dessa transformação, vá votar na sua candidatura? Ele que sempre apareceu como nacionalista e, até como centro-esquerda, tem condições de disputar a presidência, indo para a direita, tentando recuperar o neoliberalismo esfacelado? É possível fazer uma manobra profunda e querer ir mais à esquerda, com as suas convicções e com o partido que tem? A política zigue-zagueante de ir para a direita e ir para o populismo, dará algum resultado?)

8) Precisamos, no entanto, salientar que um grupo social vai ser profundamente afetado na atual conjuntura: a mídia. Dado que as modificações do próximo padrão de acumulação de capital passa, entre outros aspectos, pelas novas tecnologias de comunicação e informação, pode-se esperar que estas empresas, que clamam tanto pela liberdade de imprensa/empresa, terão condições de continuar o seu papel de indústria ideológica, como atualmente se apresentam, ao contrário de indústria de informação? Assim, a sua radicalização tem sido notória, embora, nada esteja decidido. Pode-se notar que o desespero destas indústrias é expresso em ações ideológicas e estratégicas visivelmente contra a sua própria posição de empresas de informação, que um dia pretenderam ser. Este setor sim, está tentando derrubar a candidatura da Dilma, aliando-se ao Serra, que está embalado nelas. As últimas pesquisas têm mostrado que tem sido diáfanos e escassos os seus resultados. Embora tentem com disfarces indisfarçáveis apoiar o Serra, são responsáveis por seu caminho cada vez mais errático, e significativamente, à direita contra o arco prático da aliança social que aqui salientamos. Sempre lhes resta a armação, mas é preciso que pegue.

(Talvez a grande pergunta para Serra seja a seguinte: tem ele estratégia para avançar ou alterar este modelo financeiro (contrabalançado pelo produtivo e pelo social), que foi desenvolvido no período do governo Lula? Mas, temos ainda uma segunda pergunta. Pode um candidato, seja lá qual for, desmanchar uma aliança prática de classes - que mesmo tendo interesses profundamente divergentes e se combatendo mutuamente - que ainda pode dar passos juntos para avançar nacional e internacionalmente, seja política, seja econômica ou seja socialmente?

Sim - se a resposta for sim - a eleição será ganha por Serra!)

quinta-feira, agosto 12, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
14 de agosto de 2010
COLUNA DAS QUINTAS


NÃO HÁ PAZ
NA LONGA JORNADA
DENTRO DA GUERRA

(Comédia ou tragédia?)
Por Enéas de Souza


Quando Obama assumiu sabia que o vento passava à tempestade, como uma tarde destas de inverno balouçante e feroz. Mas, esta história da política externa está meio inquietante. Primeiro, porque ele lançou o tema da paz. E a jogada era boa. Stalin numa situação complicada e grave e sem dinheiro para gastar e com um país destruído lançou a cortina de ferro, o comunismo em crescimento e a paz. Deu no que deu. Embora a idéia da paz tenha sido frutífera. Pois, agora foi Obama quem entrou com a carta pacífica. Tudo muito bem, e na sociedade do espetáculo, tudo dá um bom marketing. Só que quando ninguém manda na política externa americana, nem Obama, nem Hillary, nem mesmo o Pentágono - porque não pode insistir demais na guerra, porque o povo é contra - o diabo se diverte com os Estados Unidos. E Obama fica pendurado na palavra.
Comédia ou tragédia?

A idéia da paz era uma boa idéia. O país vai de retro. As finanças dando as piruetas do momento, fazendo os lobbies mais indesejáveis possíveis e a economia não saindo do saco – basta ver o desemprego que continua alto, muito alto: 9,5%. Resultado: a carta da paz é uma bela carta, mas que se esmaece visivelmente. Vejamos o contexto. Obama sai tentando dar um drible em todos, passa a ênfase da guerra do Iraque para o Afeganistão, marcando a promessa de saída do primeiro, e garantindo aos militares com o segundo, a sua boa guerra. O anúncio de que os americanos saem agora em agosto pouca gente acredita, porque não basta que haja retirada de tropas, é importante que saiam também as agências privadas de guerra. Estas vão sair? Não. No caso do Afeganistão, o general Christal falou demais, meio que ridicularizou Washington, teve que abandonar o comando do teatro de operações enquanto o general Petraeus retornou ao campo, só que não mais no Iraque, mas no campo dos afegãos. Contudo, a coisa mais contundente foi essa história do Wikileaks, tremenda enrascada, onde está muita coisa em jogo: a capacidade dos americanos de fazer a guerra, a qualidade da sua estratégia e a segurança dos seus órgãos de inteligência. E, principalmente, a evidência de uma desordem militar, política e de inteligência do povo de Obama. (Isso sem contar o problema do controle da Internet, da qual falaremos proximamente).
Tragédia ou comédia?

Claro, a política externa americana é uma coisa complexa. Mandam três pontos: (1) o gabinete de Obama, (2) Hillary e (3) o Pentágono e a indústria bélica. Ou seja, não há unidade. Um grupo tenta sobrepassar o outro, e todos se atrapalham e o maior poderio do mundo – incontestável – do Exército dos Estados Unidos está colecionando, no momento, a sua segunda monstruosa derrota, o Iraque, e se encaminha para a terceira, o Afeganistão, depois do fatídico Vietnam. E tudo em tempo de busca de paz que é a busca de uma boa guerra. No Iraque, continuam os contratos de petróleo, provavelmente protegidos pelas empresas privadas de guerra (continua lá a turminha do Bush, do Cheney e da Blackwater). No Afeganistão, uma guerra sem sentido, num país devastado pelas lutas com a União Soviética, pela guerra civil e agora pela guerra contra Bin Laden, no pós 11 de setembro. Para se ter uma idéia destas circunstâncias, veja o leitor “Guerra do Terror” de Kathryn Bigelow (*), Oscar deste ano, que é sobre o Iraque, mas vale para o Oriente Médio (inclusive para a projetada e ambicionada guerra do Irã). Neste filme se pode perceber porque alguns americanos ainda vão para o combate, que é uma colcha de bombas chamando os soldados para o abraço do horror.

Ou seja, o lance de Obama está fazendo água, tem a figura de espelho partido: a paz, o Iraque, o Afeganistão, o vazamento de 92.000 documentos da Wilileaks, a fragmentação do comando da política externa, até mesmo a tentativa de criar clima de guerra com o Irã. Reflexo contraditório de sua vitória eleitoral e do desmanche da união finanças–indústria bélica–mídia–militares (que elegeu o governo Bush) e que obviamente ainda está de pé e tenta virar-se e revirar-se para novamente dominar e mandar no jogo. Mas, se algo está desmanchando ainda sem perspectiva de solução é porque não há acordos internos vencedores e muito menos uma nova e coerente política externa. Os conflitos que envolvem os Estados Unidos continuam em ebulição, mas sem transformação profunda. Claro, a hegemonia desleixou-se, mas o bloco insiste via Pentágono, via Wall Street, em ganhar o petróleo, vender armas, fornecer créditos e botar tropas em ação. E porque Wall Street? Para entender, temos que dar um passo adiante de Eisenhower, militar vencedor da 2ª guerra e presidente dos USA, que denunciou a articulação indústria militar e forças armadas. Pois não é que a privatização acrescentou as companhias privadas de guerra e as finanças aos dados do problema? Como é que Obama vai se safar? Conseguirá como presidente a astúcia indispensável e a inteligência e imaginação política para armar uma nova combinação social interna e externa? De qualquer maneira, a crise mostra que a hora é mais do que nunca política – e política de longo prazo. Há que reorganizar a sociedade em torno de uma nova estratégia nacional americana, que só vai sair em cima dos conflitos sociais de interesse, que envolvem forças que estão enlaçadas ou desfeitas desde a deterioração interna da economia e da sociedade até os problemas geopolíticos mundiais, inclusive os aqui referidos. O panelão do diabo ainda acrescentou o recente e espetacular crescimento da China, para temperar o momento.
Comédia ou tragédia?

(*) Quem tiver interesse em ler uma abordagem cinematográfica sobre “Guerra ao Terror” tem um texto meu sobre o filme na revista “TEOREMA” número 16¨, lançada agora em agosto.

quinta-feira, agosto 05, 2010



CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
05 de agosto de 2010
COLUNA DAS QUINTAS

NO
TABULEIRO
DA
CRISE
Por Enéas de Souza

A CÓCEGA DA RECUPERAÇÃO

Está interessante o quadro do momento. A imprensa tonitroante não está alardeando a recuperação inevitável e saltitante da economia contemporânea. Existe gente – e muitos economistas bons - pensando que as coisas vão ficar longo tempo neste chove pouco e longa parada da molhação. Porque, nada na economia está decidido. Vivemos um tempo de transição. As finanças continuam enganando que estão bem, com abundantes ativos tóxicos na sua contabilidade enganadora. Porém com dinheiro em caixa, um dinheiro recuperado para investir. E o que elas buscam? Tentam outros mercados que não o americano, sondando um tanto na Ásia, voando outro tanto por aqui - a Bolsa brasileira está retornado, crescendo. Mas, a verdade é que se há dinheiro para aplicações, as inovações estão paradas, os mercados não estão dando grandes respostas, salvo é claro os emergentes. Ou seja, temos uma economia financeira no primeiro mundo sem o brilho dos áureos tempos, estamos num tempo de transição. O dinheiro está farejando, como se vê, HongKong, Brasil – e por aí. Só que nada deslancha, nada mantém muito o vigor. A verdade é que não houve uma reorganização da órbita financeira que permita o aumento vertiginoso da especulação e retome o ambiente de euforia. Porque área financeira é dinheiro em ebulição, mas sem área de pouco resultado. Estamos, olhando bem, num ambiente de funeral, salvo nos emergentes, onde a brisa do movimento dos capitais chega a dar algum alento, mas é tiro curto. A pergunta é quase desmoralizante: quanto tempo vai durar essa cócega de recuperação que é o prenuncio da morte dos cemitérios?

A BP É BOMBA RELOGIO

Quanto mais se olha a situação da British Petroleum, mais a gente percebe um caso grave, um desastre do ponto de vista social, empresarial, político e, obviamente ecológico. Esta fulgurante empresa é bem o sinônimo e o exemplo de uma corporação numa sociedade dominada pelas finanças. Pois vejam como é o caso da BP no capitalismo financeiro. Em primeiro lugar, como empresa produtiva ela é um desastre, porque embora produtiva a sua valorização se dá no mercado financeiro. E as suas ações, devido aos problemas no Golfo do México, chegaram a baixar 40%, o que torna esta entidade produtiva frágil e vulnerável. Ou seja, ela pode ser comprada a qualquer momento numa oferta hostil. Só que para se defender, a BP entrou em contato com empresas financeiras, como a Goldman Sachs para desenharem planos de proteção. Ora, a Goldman Sachs não para de estar nas bocas. E a olhar pelo que aconteceu na Grécia, a BP não parece estar em boa companhia.

Neste sentido, a BP vem maculando, diariamente e a meses, a sua imagem, o que reforça a sua vulnerabilidade. Ficar desde 20 de abril com um vazamento de petróleo nos Estados Unidos e afetando fortemente 4 estados americanos, não é para qualquer firma. Embora ela tenha reservado 20 bilhões de dólares para atender aos danos que provocou, há cálculos que chegam a mais de 60 bilhões de multas e indenizações os seus futuros prejuízos. Claro, não imediatamente, mas como efeito dos múltiplos processos que vão lhe afetar, de agora até aos próximos meses. A única vantagem deste desastre é dar oportunidade para Obama relançar o tema da pesquisa energética e da defesa do meio ambiente, apesar de Cameron, o primeiro-ministro britânico, insistir que não se deve demonizar a British Petroleum. A conclusão é só um: conservador tem cara de pau, não tem? E por isso as propostas energéticas e ambientais de Obama vão encontrar um incremento econômico e político como até o momento não tiveram.

Hoje uma empresa produtiva funciona como uma corporação financeira. E a British Petroleum, quem a conhece, alerta para a sua contabilidade, onde dizem existir um festival de ativos podres. O que se de fato ocorrer pode causar não só complicações para a sua estrutura empresarial, como também, por extensão, para o mercado financeiro e para a Inglaterra, sobretudo fundo de pensões. Portanto, fiquemos de olho neste exemplo magistral do capitalismo presente, já que de bancarrota ele igualmente vive.

O mercado financeiro e a questão energética, por mais que evitem, acabam por requerer uma ação vigorosa do Estado, seja no sentido de dar uma função nova para as finanças, seja em planejar a transformação da matriz energética em pauta. O mundo está à espera desta metamorfose. Vai levar tempo, mas vai chegar.

sexta-feira, julho 30, 2010

Painel na FEE - 04/07/2010 - Convite aos leitores

Painel

A nova etapa da crise mundial

Data: Dia 04 de agosto de 2010 (quarta-feira)

Horário: 14h30min

Local: Auditório da FEE (Rua Duque de Caxias, 1691)

Promoção: Núcleo de Estudos de Política Econômica /Centro de Estudos Econômicos e Sociais (NEPE/CEES/FEE)


Entrada Gratuita

Painelistas

Perspectivas da conjuntura econômica mundial

Econ. André Scherer (FEE e PUCRS)

A nova dinâmica do capitalismo financeiro

Econ. Enéas de Souza (FEE)

A economia brasileira e sua inserção na economia mundial

Econ. Pedro Almeida (FEE e Unisinos)

Informações

Assessoria de Comunicação Social (Ascom): 3216-9013

quinta-feira, julho 29, 2010

CRISE MUNDIAL FINANCEIRA
29 de julho de 2010
COLUNA DAS QUINTAS

O QUE IMPORTA
É
A LÓGICA ECONÔMICA
Por Enéas de Souza
1) O nome decisivo em economia é lógica – lógica do capital. E no caso presente, lógica do capital financeiro. Portanto, ao contrário do que pensam certos economistas, a matemática não é uma lógica econômica, e só pode funcionar subordinada a esta. Fazer equações e modelagens só tem sentido se forem construídas em torno de proposições oriundas da economia. Ao mesmo tempo que não se pode aplicar uma teoria já preparada para a compreensão da realidade, um modelo ou uma visão a priori. O meu ex-professor de filosofia, católico, apostólico, romano, Armando Câmara, sempre dizia como Lênin – e eu sempre me lembro desta frase quando falo sobre o assunto – “nada tão prático como uma boa teoria”. Só que a boa teoria é o resultado apurado de idéias que se envolvem com a práxis. E que neste face a face com a realidade confirma aspectos verdadeiros, mas permite a correção de outros. E arma, por aprendizado, novas figuras intelectuais que o real vai exaltando e desenvolvendo. Portanto, o decisivo numa situação econômica é sempre saber por que a dinâmica da conjuntura é essa; que estrutura está presidindo essa correnteza histórica.

2) E porque razão? Já que esta razão não nos é dada antes dos acontecimentos, de modo a priori. Sabe-se igualmente que uma concepção também não é um apanhado e uma amálgama de variáveis que se pegou para descrever uma presente situação analítica. O que parece decisivo é saber por que se está numa situação como se está. E construir com a interação da teoria e da realidade uma teoria sempre em ato, uma concepção que está sempre aberta à elaboração de novas proposições que nos dêem a inteligibilidade do desenvolvimento econômico. E essa abordagem só existe se, por trás dessa presença de conhecimento, aparecem forças sociais suficientes para sustentar determinadas posições. Então, tomamos três pontos – um: uma teoria é o que permite compreender uma determinada realidade em movimento, o que significa entender a dupla história, da teoria e da realidade; dois: a teoria precisa ser sempre apreciada pela capacidade de incorporar novidades da realidade que ela mesma é incapaz de antecipar; e, por último, três: uma teoria só pode avançar para a transformação da prática se tiver grupos sociais que estejam apoiando tal direção da teoria sob formas de ações políticas. Uma política econômica tem a sua gênese da economia política.

3) Esses pontos estão envolvidos na lógica que vai compondo a compreensão da dinâmica capitalista numa certa direção. Sem esta lógica, o que temos é a vacuidade insignificante dos números usados a bel prazer por qualquer um. No fundo, hoje, existe um bom número de economistas e de gente que se autodenominam de gestores, cuja vocação é furtar a interpretação, já tendo eles próprios uma interpretação confusa, para que possam servir ao conservadorismo como se estivessem servindo ao bem público. Esta é mais uma das banalidades da contemporaneidade, a adoração dos números. O que significa que não sabem o que está acontecendo. Não pensam, passam a vida a calcular. A grande nudez destas posições apareceu nitidamente na incapacidade que tiveram de entender a crise quando ela estava estourando no mundo, quando não havia sinais de fogo, mas quando, em verdade, o fogo já estava grassando a olho nu. O número é cego, só a teoria proporciona a fala deste número. Na ocasião, estes analistas, continuavam seu triste destino ideológico e a dizer: tudo vai bem. E tudo vai bem por quê? Simplesmente porque um número, uma equação, uma modelagem não tem uma lógica que perceba a dinâmica de uma lógica econômica instalada. Uma variável tem que ter sociedade, classe social, teoria para sustentá-la. Sem essa condição, nenhum analista é capaz de entender minimamente o que está acontecendo.

4) O capitalismo vai se reerguer, mas não teremos de volta este capitalismo indecente que já passou. Que ele deu? Como disse na sua palavra simples, um chofer de táxi de Buenos Aires: “Los ricos continuán a ganar más plata, y los pobres siguén más pobres que antes”. Tradução: o neoliberalismo piorou em toda a parte a distribuição de renda. Tudo por uma única razão. Conseguiram passar para a sociedade que retirar o Estado da economia iria permitir o desenvolvimento social de todos. Como isso se mostrou uma balela, inventaram a idéia de que o sistema promove vencedores. E que para orgulhar um cara ante todos, existe, entre milhões de pessoas, alguém que é sempre um vencedor: você. Mas, se você não é um vencedor, o problema é seu e não do sistema Que pobreza de espírito, que maluquice mais estúpida! No entanto, o inusitado e o chocante é que esse besteirol colou. Agora que as derrotas das forças populares nos anos 90 foram assimiladas, partes equivocadas das teorias políticas e econômicas foram descortinadas, novas apostas podem ser feitas, principalmente, porque o neoliberalismo mostrou todo o fracasso de sua proposta, como nos disse o motorista de táxi de Buenos Aires. Pois o que se viu foi uma distribuição de renda mais desgastante e um Estado que agiu a serviço dos bancos – sobretudo dos bancos. E veja o milagre da repartição dos pães. Quem os salvou da bancarrota? O Estado. E mais: com o dinheiro da população, com “o nosso dinheiro” como gostam de dizer os donos do mundo, quando é para pagar algo que vai para os pobres, como a Bolsa Família, por exemplo.

5) 2007 destapou o subterrâneo da economia: aquela volúpia financeira através do abuso vigoroso e quase virtuoso da securitização. Claro que se esta só tivesse títulos financeiros de base, a crise teria ficado no reino das finanças. Mas, as hipotecas imobiliárias vinculavam o setor financeiro e o setor produtivo. Então, aconteceu o irreversível, não apenas a superacumulação de direitos financeiros, mas a superacumulação de bens e produtos. Resultado: hecatombe – que poderia ser um nome de fantasia para a crise econômica. E, claro, seguindo o baile, a pergunta se faz: onde é que a crise mundial se resolveu razoavelmente? Resposta: nos lugares onde o Estado estava menos endividado como no Brasil, onde o Estado estava no comando da economia, como na China. E começou-se, então, a sentir que, primeiro, para salvar os bancos e as instituições não-bancárias e as entidades não-financeiras, o que se precisava era de dinheiro público, o tal do “nosso dinheiro”. E, de repente, como um deslizamento mágico, o “nosso” virou dinheiro “deles”. E pior, riram da nossa cara, nos Estados Unidos, os recursos do Estado serviram inclusive para pagar o bônus de alguns dirigentes financeiros. Deboche absoluto. E mais, o Estado, o americano para termos uma idéia, foi longe, foi bastante longe, gastou e se endividou mais ainda, contudo somente para “la pátria financiera”, como dizem os argentinos. Porque, como migalha, só houve uma beirada miúda, quase desprestigiada, para o setor produtivo, automobilístico em especial. E um troquinho, muito mixa, para os trabalhadores, os part times e os desempregados.

6) Já faz no mínimo dois anos que os cantores do sistema dizem que agora sim, a coisa vai virar. E lá vêem eles com atléticos números estatísticos, que são plasmados para dizer o que as finanças querem. E aí está o nosso ponto: mesmo que a aparência mostre que a economia está se recuperando, o inverso é que é verdadeiro. Por quê? Isto está parecendo aquela história do Nelson Rodrigues, que ao ser alertado que tal partida de futebol não tinha sido como ele analisara, respondeu, altivo e triunfante: pior para os fatos. Pois é quase: o setor X cresceu, o banco Y recuperou a lucratividade, a empresa Z bateu o último semestre do ano anterior, etc., etc. Isto tudo são números vazios. O que temos que fazer é botar os números no interior da lógica econômica. Sim, porque a lógica econômica que presidiu o mundo anterior (a dinâmica aplicações financeiras-rendas financeiras-consumo-investimento) levou um tombo, caiu e não se levanta mais. Por quê? Porque não se fazem mais alavancagens como antigamente; os bancos não se emprestam como se emprestavam em outros tempos; as ações não estão rendendo para os investidores como rendiam nos anos 90; a securitização não tem espaço para crescer, nem para retornar ao mesmo nível anterior. A lógica econômica é submetida ao tempo. E o tempo é irreversível. Os ativos financeiros de ontem não são mais negociados como antes e a produção empaca na sua expansão: houve uma superacumulação de capital. O que está havendo é queima de capital. Não adianta dizer que em um mês cresceu um pouco mais aqui, um pouco mais ali. A economia como um todo não está crescendo. O investimento não aumentou, o emprego desabou – e, obviamente, não há horizontes para recuperação. Logo, a economia não é mais a mesma, perdeu a cabeça, perdeu o braço, perdeu o pé. Tem que nascer outra economia. Não adiantam números, não adiantam equações, não adiantam previsões numéricas. Há que mudar a lógica da razão econômica, o que significa dizer: estrutura, funções, dinâmica. E esta transformação não se dá porque um mercado cresceu bem hoje. Este crescimento só é representativo se e somente se ele está integrado numa nova lógica, porque cada período histórico é organizado por uma lógica distinta que se altera conforme a época e a etapa da sociedade. Esta é a plasticidade da lógica do capital e do capitalismo.

7) Então, quando é que os números vão se apresentar significativamente? Quando a economia se transformar; quando dinamicamente, ou seja, quando a finance led growth deixar de ser o movimento fundamental; quando o Estado tiver poder de decisão, como na China, por exemplo, e voltar a realizar uma política econômica não-liberal. Para isso, o Estado tem que ter planejamento, planejamento macro-econômico. Minimamente. Nos Estados Unidos, seja colocado em pauta, a Finantial Regulatory Reform possibilitou, via o Conselho de reguladores, um caminho irregular, mas caminho de controle da descabelada finanças. Ou seja, Obama pode tentar formatar uma direção financeira e começar a cuidar da economia produtiva. Uma vez que é preciso reposicionar a indústria automobilística, o que já começou a fazer desde o início do seu governo, substituindo diretores, impondo determinados tipos de linhas e carros a serem produzidas, etc. Ou seja, há que botar a referida indústria no seu lugar. Por quê? Por causa das necessidades de transformações do setor de energia, principalmente o petróleo. Estamos numa esfera decisiva, a mudança no setor energético: novas fontes de petróleo, o desenvolvimento do pré-sal e dos biocombustíveis, bem como a preparação de novas indústrias energéticas como a eólica, a solar e a do hidrogênio. Tudo isso vai ter que provocar novas relações, não só entre elas, mas com todo o conjunto de indústrias novas e velhas se misturando numa reformulação profunda de posições. Portanto, não adianta só falar em números, tem que mudar o Estado, tem que mudar as políticas econômicas; tem que mudar os setores produtivos; tem que mudar a liderança do setor industrial e tem que construir e conectar as cadeias produtivas que expressam esta nova realidade.

8) E, para isso, há que alterar o básico, há que alterar o financiamento. Ou seja, o sistema financeiro tem que se organizar em função dos setores produtivos, tem que haver crédito público e privado para as novas indústrias, principalmente às indústrias que vão entrar na maturidade, como as novas tecnologias de comunicação e informação, como às indústrias novas que entrarão em processo incremental de instalação, como os produtos das ciências médicas, etc. Portanto, a tal de finance led growth, vai ter que se inverter: o crédito para a especulação teve os seus anos dourados nos anos 2000. Agora não adianta dizer que os grandes bancos tiveram um semestre bom ou ruim. Não, não adianta dizer, eles vão ter que se transformar, vão ter que passar do financiamento para a especulação ao financiamento da produção. Isso não quer dizer que a especulação vai desaparecer. O que vai acontecer na nova lógica econômica é, possivelmente, uma cisão nas finanças: uma parte se dedicará ao desenvolvimento industrial, comercial e de serviços e a outra parte dará cobertura aos delírios especulativos. E cabe aos governos, através de políticas monetárias financeiras e fiscais, impedir a fusão desses dois mercados. Será a forma de desdobrar o perigo destes bancos “to big do fail” e deixarem, portanto, de serem prisioneiros desses gigantes da era neoliberal.

9) Finalmente, o Estado vai ter que planejar o desenvolvimento associado do setor público com o setor privado, com a finalidade não só de fazer a metamorfose da estrutura econômica, mas com a finalidade de destinar novas funções para o setor financeiro. Na viagem dessa aventura, corre uma remodelação do setor produtivo de tal modo que se possa substituir um processo de acumulação das finanças por um processo de acumulação produtiva que comande a expansão financeira. Se isso ocorrer, poderá haver uma forte criação do emprego e a economia pode retornar ao comando do investimento, com efeitos evidentes no consumo. Por outro lado, o que for excessivo para o financiamento do setor produtivo pode ser aproveitado pelo setor financeiro numa outra dimensão do que a atual. Esta nova economia exigirá, inclusive, o aumento de emprego no Estado, já que com características totalmente diferentes da economia de hegemonia financeira, não pode funcionar com a burocracia de hoje, estrutural e funcionalmente. O leitor sabe que o que é decisivo a partir da crise recente é a emergência de uma nova lógica econômica.

10) Desta forma a economia mundial terá que recomeçar, na verdade já está começando, pela expansão chinesa, organizando a Ásia e a recolocando a América Latina e a África no campo da recuperação. Mas, a economia chinesa não tem cimento para construir toda a economia planetária. A renovação americana será importante, porque não só os Estados Unidos continuarão dominantes, mas reorganizarão a Europa e a Inglaterra, consolidando igualmente, as economias latino-americanas e africanas. Mas essa recomposição, para países como o nosso, só acontecerá no momento em que as dinâmicas das corporações e das nações unirem novamente os Estados Unidos e a China, constituindo, então, uma outra economia mundial. Só ai é que esta voltará a empurrar e a construir o novo círculo virtuoso do conjunto das economias. E isso não será feito como a construção do mundo pelo Senhor, ou seja, em sete dias. Os homens, coitados, são mais demorados. Tem que organizar as forças sociais capitalistas e forças sociais dos trabalhadores, bem como frações de classes apêndices em torno de um novo projeto da economia mundial. E isso não se faz sem fortes e profundas lutas, nem sem poderosos acordos. Enquanto a nova lógica se constrói, a velha desaba. Esta é a versão econômica daquela antiga sabedoria de botequim de Ibrahim Sued: “enquanto a caravana passa, os cães ladram”.

quarta-feira, julho 21, 2010


CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
22 de julho de 2010
COLUNA DAS QUINTAS

A NOVA
REGULAÇÃO
FINANCEIRA
AMERICANA

(Será que não tem muita abóbora nesta goiabada?)
Por Enéas de Souza


1) Quando se fala sobre a constituição de um país, aqui no Brasil, sempre se compara com a americana. São doze pontos. E o resto é interpretação do judiciário. E todo mundo diz: olhem para a Americana e não façam como aquela que é uma “colcha de retalhos”, que tem uma “multidão de artigos”, como a nossa. Não sei se expresso bem o que quero dizer, mas isso me veio a cabeça quando soube que a nova regulação financeira dos Estados Unidos tinha 2.300 páginas (!). É patente que me surgiu o seguinte comentário: não pode dar certo. Só para regulamentarem a lei, só para começar a pôr em prática, vai levar um tempo fantástico. Os pessimistas falam até em anos. Será?

2) Veio-me, como sempre, a idéia de que a economia está sempre direta ou indiretamente enrolada na política. Esta foi a reforma política que Obama conseguiu. Em que sentido? No sentido, de que tudo é muito complicado nos domínios de Tio Sam. Primeiro, porque o Estado americano, ele sim, é uma colcha de retalhos, a regulação passa por níveis de superposição federal, estadual, municipal, passa por multiplicidades de agências reguladoras, por uma estrutura financeira onde não existe um princípio de unidade. Uma flora e fauna, uma selva selvagem - diria nosso comentarista italiano Dante – de tal ordem que James Friedman (o filho do sempre inolvidável Milton Friedman) disse com propriedade: vivemos nós, e queremos para os outros países alcancem o que temos, uma “anarquia liberal”. (Tira as crianças da sala, que tem palavrão no pedaço!). E como a dúvida é saudável, duvidem; mas duvidem e leiam e confiram o que estou dizendo no livro de Roubini, “A economia das crises”, sobretudo os capítulos 8 e 9.

3) O segundo ponto da complicação da reforma é que o Congresso é uma arena de gatos escaldantes de tal ordem que a negociação da lei passa por um conflito inigualável e inexorável nas duas casas do legislativo. E nelas, habitam no lugar, uma forte e intensa energia contraditória. Há pressão de vários grupos da população; há a disputa e a negociação dos partidos com o Executivo; há múltiplos interesses entre os representantes políticos, seja nos democratas, seja nos republicanos, seja numa casa do Congresso, seja noutra; há uma presença colossal dos lobbies, onde a deusa Grana faz as suas epifanias; há negociações de todos os tipos, chantagens de todas as figuras; há uma arena, um circo e uma praça de negócios atrás e na frente de todos os interesses. Preminger fez um filme, admirável sobre o combate e os conflitos no Congresso americano, que se chamava - olha só o título! – “Tempestade sobre o Washington”. Dentro desse redemoinho, dentro dessa volúpia, e medindo o grau das forças, sobretudo dos lobbies, o Executivo, via Christoffe Dodd, agora em 2010, fechou uma reforma, onde a meu ver a solução não é técnica, mas eminentemente política. De um lado é institucional, com um novo Conselho, um Conselho de Reguladores, que fará, de outro lado, propostas técnicas, como expressões de decisões de política financeira e monetária, que é a política no terreno das finanças.

O BATUQUE DA IMPRENSA E O CENTRO POLÍTICO

1) A imprensa convencional e personalidades que saem nela estão afirmando que é a maior reforma desde a 2ª guerra mundial e que aumentou fortemente a regulação, etc. etc. Penso - ainda sob a primeira impressão - que tem aí uma coisa ridícula, sobretudo nas declarações por parte dos políticos. “Nós queremos que este desastre não aconteça de novo, que quando a catástrofe se aproxime não tenhamos os instrumentos para impedi-la”. Ah! vã pretensão de políticos e de economistas e de propagandistas do sistema. Olha gente: capital é crise - dizia meu amigo Isaac Joshua. É crise, não se olvidem. Não há possibilidade do capitalismo não ter crises. Desde 1750 isto vem acontecendo periodicamente. A economia é cíclica, e o cíclico supõe os pontos das inversões das tendências ascendentes e descendentes, que são a crise e a retomada. Configura-se a velha pretensão hegemônica americana e do capital financeiro de dominar o ciclo. A cada retomada, passado um tempo, eles dizem: acabou o ciclo. Ora, estamos a ouvir a velha e enfadonha música, desconjuntada e triste, de que, agora sim, o tempo parou, de que a história acabou e que vamos ter fatalmente de encontrar o “happy end” dos filmes dos anos 50 do século passado. Como se desde lá o império tivesse triunfado para a eternidade.

2) A segunda coisa que emerge rápido é esta idéia do Conselho de Reguladores, sob o comando do Secretário do Tesouro. Bem, esta proposta é ambígua. Não dá nenhuma certeza de possíveis mudanças. Por quê? Por causa, de que na arquitetura do sistema financeiro e nas suas funções, a coisa mudou pouco. E o que entra de novo é que a direção da política financeira será vigiada por este Conselho, Seu objetivo: evitar o risco sistêmico, tendo como seu agente 007 o FED, com licença não para matar, mas para liquidar, se for o caso, as instituições financeiras que estão causando tal problema.

Antes de tudo, a pergunta rigorosa e fatal sobre a reforma: qual é a vantagem?

3) A vantagem principal é que pelo menos haverá a busca de uma visão unitária (aleluia!) e, em caso de crise e de consenso no Conselho, surgirá uma ação bloqueadora, quem sabe rápida, face aos danos de uma eclosão perigosa e demolidora da crise. Ora, para que isso aconteça é preciso ter informações corretas, sabendo-se que vai haver até o registro daqueles derivativos potencialmente explosivos, mas supõe que o sistema de informações funcione – o que não aconteceu na crise de 2007.

4) Todavia, a ação contra os grandes bancos (to big to fail) é que vai definir o possível caráter transformador da reforma ou não. Lembremos que na crise de 30, a famosa lei Glass-Steagall foi o que permitiu a separação entre bancos comerciais e os bancos de investimento, o que impediu a conexão entre as áreas de crédito à produção com o crédito para as áreas especulativas. Aqui é arena onde tudo vai se definir. Como interromper a conexão das instituições financeiras para impedir o incêndio, o contágio, a contaminação dos ativos tóxicos? Como introduzir as portas corta-fogo que nesta reforma – infelizmente – não foram designadas e apontadas preventivamente? Tudo é nada mais que evidente; a fúria e o furor dos bancos, com seus esquemas de lobbies e com a privatização do Estado americano, tentarão sempre impedir o sucesso efetivo. E então, por ausência de mecanismos institucionais a serem implantados, o fogo das finanças terá que ser interditado pela ação clarividente deste Conselho aprovado.

5) O grande temor: a arena da compra e venda, se é que ela é possível. Ela vai se transferir do Congresso para as Agências Reguladoras, e destas, para o domínio do referido Conselho. Obama, com o seu ardil incrementado, deve ter pensado que no Conselho ele poderia ter uma capacidade de pressão mais alta, mais volumosa.. Por sua vez, as instituições financeiras cogitaram que também ali elas poderiam atenuar os efeitos de medidas dos reguladores. E a razão é só uma: se sabe que as Agências Reguladoras, em toda parte, são o capital regulando o capital. Só que nos últimos tempos o acontecimento teve uma figuração distinta: foi sempre o capital desregulando o capital. Na crise de 2000/2001, as ações da Enron, uma semana antes desta quebrar, eram consideradas pela SEC (Security Exchange Council) como exemplo de uma ação em estado de graça. Pois acredite, ela morreu de bronquite: despencou de mais de 80 dólares por unidade para 9 cents. Êta agencinha que cuidava bem dos interesses dos aplicadores!

6) No caso do Conselho, é claro, estas agências também dependem dos nomeados. E Obama, não sei se mudou a direção de todas, mas certamente de algumas ele fez as alterações devidas. O presidente americano, é óbvio, aguarda e espera fidelidade dos que emplacaram a sua política mais geral, a proposta de reforma dos Estados Unidos e do capitalismo. E isto, não há nenhuma dúvida, começa, mesmo que seja progressivamente, por um controle das finanças e de todo o sistema financeiro.

7) Acho que foi dentro dessa perspectiva como da capacidade de assimilação do Conselho de sua estratégia, que Obama optou por fazer a Reforma desse jeito. Um país individualista, um país avesso à regulações estatais, um país dominado pela cultura da hegemonia absoluta do capital, um país centro da dominância do capitalismo financeiro não poderia fazer uma reforma definindo uma unidade reguladora principal, uma arquitetura financeira bem armada e funções de crédito muito estabelecidas. Não há no momento possibilidades de discriminar claramente as duas esferas das finanças. Uma – fundamental – de financiamento da produção e outra – secundária e complementar – de financiamento da especulação. Porque não há como ter dúvidas, as finanças têm a vocação especulativa.

8) Logo, a separação destas áreas vai levar tempo. Os financiamentos e as aplicações que não estão ligadas à indústria, à agricultura, ao funcionamento dos serviços e do comércio, condizem com o seu caráter contundente: são pura especulação. São movimentos que se sustentam no capital fictício, de natureza potencialmente delirante e enganosa. Na verdade, uma bomba de sucção da renda da sociedade para o engordamento das instituições financeiras. Nunca é tarde demais para não esquecer que quem aplica em títulos, não tem, no limite do seu jogo um capital como garantia. Tem sim, um mero papel, uma promessa de valorização que pode não ser honrada, mesmo com a certificação de um agência de ratings. Felizmente, Obama conseguiu, num gesto político cauteloso, colocar na lei uma agência de proteção ao consumidor, uma vez que nos títulos é o velho jogo do cara e coroa financeiro: “cara, eu ganho; coroa, tu perdes”. Olhando e pensando bem esta reforma, a gente deseja, com fervor e esperança: GOD BLESS AMERICA!






quinta-feira, julho 15, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
15 de julho de 2010
COLUNA DAS QUINTAS

FORA ESTADO!
Por Enéas de Souza


O mundo parece parado. Sensação de que tudo já passou, embora não se saiba qual é o barco que vai conduzir a economia capitalista. E há no pedaço uma presença forte, até certo ponto silenciosa, quase um sussurro, dos chineses. O fato do Estado ali fazer a diferença, impede que a imprensa ocidental neoliberal venha e faça o seu berreiro de sempre. O capital depende do Estado, mas não é bom proclamar com tuba sonora. Fala baixo, porque senão os outros países se lançam nesta empreitada e nós, os americanos, vamos ter muito que fazer para desdobrar este caso. Mesmo, porque, se eles chamam Obama de “marxista”, “socialista”, “comunista”, como é que eles chamariam os netos de Mao Tse-Tsung – mesmo que estes sejam capitalistas? Afora, essas realidades, como é que a gente vê o rio da conjuntura?

PONTO NÚMERO UM: O REI NÃO É O CONSUMIDOR

1) A economia está parada porque os capitais estão em guerra contra o Estado. Claro, este, nos Estados Unidos, já fez o serviço sujo imprescindível: efetuou dois planos de salvação para as finanças e várias linhas de crédito (mais de 2 trilhões de dólares), deu algum dinheiro para o setor produtivo e uns trocados para os cidadãos. E pela luta decisiva que a economia futura trava no Congresso Americano, a gente percebe que só há um ponto que os bancos concordam: o Estado tem que se por à margem dos mercados e evitar qualquer regulação. Somente num aspecto todos os financistas são favoráveis: que o Estado atue no momento do risco sistêmico. O risco sistêmico é aquele tipo de comportamento de bancos e de ativos que põe em perigo todos os componentes do sistema financeiro e, por extensão, da economia em geral. Então, a primeira tese, tese prioritária: o Estado está a serviço do capital e dos negócios. PONTO FINAL.

2) E, portanto, conclusão mais que evidente, ele deve ficar longe das atividades econômicas. O que significa isso? Antes de tudo, que o Estado seja um soldado e um militante do lucro e da rendabilidade. Depois, que evite o tal risco sistêmico. E, em caso de explosão, arrebanhe todos os recursos, inclusive endivide-se, para salvar os bancos, em último caso as empresas. E os trabalhadores? Bem, é doloroso, mas vão ter que esperar um pouco, pois quando a economia responder positivamente e as firmas retomarem o crescimento, teremos sem dúvida a possibilidade de novos empregos. Eis o lema: todo dinheiro ao capital. Por último, o Estado deve, como um bom policial, depois de ter limpado a zona de perigos adversos, deixar a política econômica para soluções micros, ou seja, para as corporações. Eis a lei do crescimento: a macro é o resultado de decisões micros. E, por consequência, o Estado deve novamente recolher-se à espreita de uma nova irrupção de uma outra crise, espera-se, vai levar muito tempo para aparecer. Assim, ao contrário do que pensava Ludwig Von Mises, que o consumidor era o rei, o desejo aqui é outro: o rei é o capital. O leitor duvida que as finanças pensem isso? Pois, então leiam as manifestações dos dirigentes do “business” americano no Financial Times, no New York Times e em outros “times” do planeta.

3) Podemos concluir que, assim, desta forma, qualquer teoria, tipo Keynes, tipo Schumpeter, tipo Teoria da Regulação, devem ser descartadas, porque são desesperos – compreensíveis – do setor produtivo, dos saudosistas do Estado, e desta turba de trabalhadores desempregados que querem soluções mágicas?

VAMOS RECUPERAR O ESTADO – PARA NÓS

1) Ora, a conseqüência do momento é a seguinte. Vamos fazer da regulação proposta no Congresso Americano, uma limonada. Nada de incluir os bancos de investimentos fora do corpo dos bancos comerciais; preparem as velas para os hedge funds e para a especulação com tudo o que for possível. Pois, o mundo está custando a descobrir o que já era evidente desde o começo. “Speculation, that´s the name of the game”. Só que a especulação não está tão fácil assim. A renda caiu; os Estados, sobretudo os europeus, cheios de dívidas; os trouxas quebraram; os bancos desconfiam uns dos outros; e a securitização perdeu a germinação fértil e brava. Resultado: a queda da economia financeira parou, foram postos colchões estatais; mas um colchão não é como a lona do pula-pula. E o mundo continua parado, o crescimento das finanças não saltou e prossegue como um sonho permanente de pilantragem financeira. O que significa que não tenham capitais ganhando muito mais que outros. Mas, o negócio é o seguinte: o capitalismo é um baita processo de concentração e centralização. E daí?

2) Quer queiramos ou não, se a política não controla a economia, esta vai para o aumento frenético do tamanho das corporações, já começada com “to big to fail”, com o Bank of America e outras figuras do negócio bancário. Pode-se dizer mais. O que esperam os bancos e as finanças e mesmo as grandes corporações produtivas é que o Estado (executivo, legislativo e judiciário) favoreça este processo de concentração e centralização de capital e que ajeite e concerte os possíveis desarranjos. É o incentivo da lei do reino animal: o maior come o menor. O oposto seria claramente diferente: dar poder ao Estado para buscar sustentar o investimento e o emprego; bloquear o gigantismo ineficiente e ameaçador sistemicamente da concentração e centralização bancária; regular o sistema financeiro, sobretudo, nas suas interconexões; aplicar a Volker Rule; tornar a regulação do sistema financeiro unitária; e construir uma arquitetura financeira onde a função de crédito à produção seja prioritária em relação às finanças de mercado - e altamente especulativa. E principalmente, dar curso a uma metamorfose de toda a estrutura produtiva.

3) Por essa razão: as finanças proclamam que os Estados (de todo o mundo) devem buscar como ponto insofismável a redução dos gastos, a recuperação de sua capacidade financeira, obviamente com a finalidade de manter a inflação baixa e ter recursos para dar uma lucratividade indispensável aos títulos do Estado, até que elas, as finanças, consigam emplacar outras e tantas inovações de ativos financeiros, palatáveis para a economia.

4) Só tem um complicador: para a economia como um todo se recuperar, vai ter que haver, neste projeto, queima de capital. O que só ocorre por quebra de corporações ou quando alguns capitais absorvem outros. E isto não é um processo tão rápido. Ainda mais com o Estado dando dinheiro de presente como andou. Mesmo porque, a economia não é só financeira. A recuperação da produção passa por uma transformação e substituição profunda das indústrias que comandam o processo, bem como pelo impedimento da deterioração do meio ambiente e da metamorfose da infra-estrutura energética do mundo.

5) Coitado do Obama, que teve e que terá que lutar, no Congresso e na sociedade americana, com seu caminhãozinho de boas intenções contra os Exterminadores do Futuro. Mas, há um passo importante nas suas pretensões. Vota-se nesses dias, no Congresso, a nova “regulação financeira”. Houve ali uma batalha infernal, demonizaram o presidente o que deu. Mas, um projeto, resultado de negociações entre a Casa Branca e os partidos, vai ser votado hoje. e talvez seja o primeiro trampolim para redirecionar as finanças. Consta que o nervo desta reforma será a construção de uma forma política de redefinir o sistema financeiro centrada num Conselho de Reguladores, e não numa reforma com regras estritas e bem definidas, embora o texto tenha 2.300 páginas!

6) Ou seja, Obama pode avançar ou pode perder. Os bancos fizeram e vão fazer tudo para apropriarem-se desta reforma. Mas, Obama conta com a sua astúcia de avançar aos poucos, como um carro que vai a 40 kms e depois passa a 120 na auto-estrada. Tudo vai se decidir no andamento da carruagem, isto quer dizer na dinâmica da implantação do que será decidido no Congresso.

7) Então, como é que o Estado pode ficar de fora? É nesse ponto, que a economia se torna novamente política. E só uma luta democrática, viva e ativa, pode manter o Estado em benefício da sociedade. E nunca esquecendo que eleições são necessárias para a democracia, mas apenas eleições, não são suficientes. Só a invenção de múltiplos contrapesos na sociedade atual pode evitar que a ditadura das finanças - via o afastamento do Estado das questões sociais, através do seu domínio sobre os Bancos Centrais e as Fazendas e sobre a regulação do sistema financeiro - se torne uma fantasia ao modo de Walter Disney e dos desenhos animados japoneses. Ou seja, um maravilhoso mundo de aplicações, uma adrenalina pura, em ativos privados e públicos.

Que a reforma americana dê margem a ações importantes diante do império das finanças!

quarta-feira, julho 07, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
08 de julho de 2010
COLUNA DAS QUINTAS


O BRASIL
PARTE
PARA
O FUTURO(*)
Por Enéas de Souza



Pela primeira vez, depois da crise da dívida externa de 82, o Brasil vai ter condições de movimentar sua economia em função de uma estratégia de longo prazo. O que significa que está emergindo uma vontade social de desenvolvimento, que pode se materializar num pacto entre o Estado, o capital bancário, o capital industrial e os assalariados, sobretudo os de baixa renda. O que não exclui um enlace com novos capitais internacionais. Partindo de uma boa posição geopolítica conquistada, o país pode pretender ocupar uma adequada inserção na nova divisão internacional do trabalho, que resultará das atuais crises financeira e produtiva. Será uma oportunidade de integrar a dinâmica futura da economia do planeta, que emergirá sob a liderança das novas tecnologias de comunicação e informação (NTCI). Aqui teremos um grande salto: estas tecnologias entrarão na fase de maturidade, que puxarão, dada a reorganização da arquitetura das finanças, um processo que envolve a reformulação da infra-estrutura energética, a expansão de um setor de produtos alimentares para baixar o custo de reprodução da mão de obra da economia como um todo e uma nova oferta da produção de matérias primas.
O Brasil tem tudo para ocupar um lugar expressivo neste novo paradigma do capitalismo, seja na produção de alimentos (via agrobusiness), seja na produção de matérias primas (via a Vale do Rio Doce, por exemplo) e seja no campo energético, por intermédio da infatigável Petrobrás. Ao mesmo tempo, o Brasil precisa contar com empresas de presença mundial, pois o espaço de acumulação global é tecido por corporações multinacionais do tipo da Vale e da Petrobrás. Com isso, conseguirá armar dois vetores em seu benefício: de um lado, possuir alguns centros de decisões planetários relevantes no plano dos capitais (com o objetivo de incrementar produção, pesquisa e inovação) e, de outro lado, constituir a partir destas empresas, núcleos ou pólos nacionais de acumulação nas cadeias produtivas das quais participam. Por exemplo, ao estilo da dita Petrobrás, encadear indústrias de fornecedores, como a de navios e bem de capital para o setor, desenvolvendo uma expansão do investimento e ampliando o mercado interno.
É por isso, que além destas ações estratégicas de inserção do Brasil num novo padrão de desenvolvimento da economia capitalista, há que completar com uma reorganização do sistema de apoio geral da produção econômica. Há toda uma reformulação da infra-estrutura da realidade brasileira. Basta olhar para a logística da produção: estradas, portos, aeroportos, silos, etc. Basta olhar para as questões do saneamento básico, da construção de uma malha urbana adequada, etc. Isto significa dizer que estamos diante de uma trajetória muito ampla de desafios e de perspectivas. A ação combinada do Estado e do setor privado pode proporcionar o verdadeiro caminho para uma transformação profunda do Brasil de hoje, que é um Brasil a requerer um projeto do estilo juscelinista, para superar definitivamente 32 anos de crescimento medíocre (1982-2004).
Esta estratégia global se baseia num processo de concentração e centralização de capital e se desdobra, macroeconomicamente, no plano do balanço de pagamentos, já que através tanto de exportações como de lucros auferidos no exterior, podem ser um fator de melhoria no balanço de transações correntes, contrabalançando as substanciais importações. Desta forma, a estratégia combina a articulação do Estado com o setor privado, sob o comando daquele e que poderá ter uma ampliação social importante: políticas governamentais que atendam ao emprego, à proteção social e à melhoria dos serviços públicos, em favor do grupo de baixa renda, dependendo das relações de forças entre os setores apoiadores.
Dois problemas merecem consideração do país. Como enfrentar a nossa ausência no setor NTCI? E como responder a exigência de uma indústria militar capaz de amparar a realidade do Brasil como potência intermediária na política mundial? Assim, olhando as oportunidades e os problemas, afirmamos que o Brasil está no limiar de um novo padrão de sociedade. Basta que faça as alianças políticas internas e externas competentes e que conceba, para tal, uma clara estratégia de desenvolvimento.


Publicado pela Carta de Conjuntura da FEE

quinta-feira, julho 01, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
01 de julho de 2010
COLUNA DAS QUINTAS

O PARTO
VAI SER
DEMORADO
Por Enéas de Souza


A RODA DO APERTO

As bolsas são criaturas especulativas; mas expressam uma alma sensitiva. Trazem a inquietação do dinheiro e dos capitais neste sistema de hegemonia financeira. As bolsas do mundo andaram caindo devido a um passado duvidoso, senão carregado de pecados. Por exemplo: os bancos europeus tomaram, no ano de 2009, um empréstimo com prazo de 12 meses no Banco Central Europeu. Olha só a soma; 442 bilhões de euros com o objetivo de solucionarem seus problemas de liquidez. Pois, acompanhem; passaram-se os dias, o ano sumiu, e hoje, quinta feira, dia 1° de julho, dia sem jogo na Copa, os bancos devem comparecer ao guichet pagador. E todo mundo sabe, sobretudo entre os banqueiros, que quando o momento chega, faltando recursos, pode-se arrumar dinheiro no interbancário, que é onde os bancos se emprestam uns aos outros. É uma azafama para arrumar valores para fazer o que deve ser feito: pagar e/ou renovar os empréstimos. E o que a gente vê é que a turma está desesperada. Ninguém empresta para ninguém. Ou só por uma taxa inviável. E mais; algo que parece com uma nova barreira. O BCE diz, com qual o vigor ainda não se sabe, que não faltará dinheiro. Só que desta vez – detalhe fundamental -, ele empresta não por um ano; empresta somente por três meses. O BCE está apertando o torniquete.

ONDE ACABA O DESESPERO DA LIQUIDEZ

1) Temos aí dois visíveis pontos de tensão. O primeiro é o BCE fazendo o seu trabalho, forçando, com a mão mais pesada, o encurtamento do crédito. “Olha, já dei dinheiro; vocês tiveram 12 meses para trabalhar e melhorar a situação. Agora, chega, vamos diminuir os prazos de empréstimos. Vamos buscar uma melhoria da liquidez dos bancos. Façam o seu papel.”

2) Mas aí é que está. Muitos bancos estão engrossados de problemas. Os bancos espanhóis, por exemplo. E qual é a questão? Trata-se é óbvio de uma incapacidade de freqüentar a zona da liquidez, dado que os riscos assumidos no passado continuam e reaparecem. A questão é mais grave, a questão é de insolvência. Ora, o resultado disso é um aperto de crédito no interbancário, e aquele desespero de obter grana para pagar e renovar os empréstimos do BCE.

O EMPOLEIRAMENTO E A DEPENDÊNCIA

1)
Veja o leitor econômico ou o leitor de ocasião, o que está acontecendo. A crise dos Estados na Europa mostrou uma profunda e íntima ligação entre os Leviatãs e o Capital. E isto tudo está marcado por um espelhamento. Essencialmente, a dívida dos bancos acaba por cair nos cofres do Estado. Logo, sobre a dívida e os déficits estatais. E daí ela volta para os bancos e que neste círculo do toma que o filho é teu, repica intensamente sobre a regulação da instância monetário-financeira do Banco Central Europeu. Nasce uma pressão desconfortável.

2) E não deve escapar a ninguém, que estamos no desdobramento da crise financeira, que deu os seus primeiros saltos para a vida, em 2005 nos Estados Unidos. Dalí passou pela Inglaterra e chegou ao continente europeu. Depois de um tempo, aparentemente, tinha sido contida. Como se dizia antigamente, ledo engano. Porque, a crise financeira na Europa mostrou uma ligação fervorosa entre o Estado e as finanças, cujo casamento era mais “caseiro” do que nos Estados Unidos. Mais “caseiro” e menos fácil de resolver. Porque se a dívida e o déficit americano aumentaram, ela e ele são em dólar, são dívidas contra o próprios americanos. O manejo da política monetária sempre pode resolver. Mas, na Europa não. O euro é uma moeda sem uma perna, uma Vênus Manca, de tal maneira, que a verdadeira reserva de valor no continente é o dólar. E isto causa problemas graves. As dívidas acabam em outra moeda. Portanto, muito mais difíceis de serem solucionadas. E os Estados estão mais atados às finanças, como estas a estes. E a obesa dívida pública dificulta a solução. Ao mesmo tempo, que os bancos estão empoleirados no Estado e dependentes do Banco Central Europeu.

PARA ONDE VAI A ESPIRAL DINÂMICA DO ESTADO E DAS FINANÇAS

A complicação européia faz parte da evolução dinâmica da crise mundial, mostrando, de modo solar, a interligação dos sistemas financeiros e dos países, ao mesmo tempo, que revela, com sabores de relativa surpresa, mais duas coisas: a capacidade do sistema capitalista de pôr contenções e colchões às diversas quedas, e por conseqüência, desembocar num amplo perdurar da crise. Na verdade, temos uma constelação e uma combinação orgânica de vários fatores. Dela nasce um ritmo lento e prolongado. Para que tenhamos uma idéia desta evolução, listo os itens que compõe a foto: a) a relação incestuosa entre o Estado e bancos; b) a fluência e a contaminação dos sistemas financeiros; c) a transferência das dívidas das instituições financeiras privadas para o Estado, que mantém um certo controle da situação pelo seu próprio endividamento; d) a sinalização de um ponto onde a dívida e o déficit dos Estados precipitam uma parada da economia e afetam e são afetados pelos bancos. e) a instauração de um círculo vicioso Estado/finanças que, com uma política fiscal contencionista, encaminha a economia para uma tendência depressiva; f) a crise de uma parte do sistema tem o poder de passar o tecido danificado às demais partes da economia capitalista; e, g) o estabelecimento da hegemonia do dólar, que emerge como o cruzamento de efeitos onde o sistema pode desabar por completo.

Como se vê uma espiral dinâmica descendente.

NÃO DÁ PARA SEGURAR!

1) A economia americana foi a primeira a ser profundamente afetada pela crise, e foi também a primeira a receber uma terapia financeira por parte do Estado, que deu como contrapeso osso, uma modesta aspirina para recuperar a produção, solucionou temporariamente com um grande pacote para os bancos. E deu com a graça de sempre um tapinha nas costas dos empregados e desempregados, todos igualmente com dívida forte. E ela, a economia dos Estados Unidos, na sua pujança de economia mais poderosa, continua. No entanto, na cama, no leito, com uma doença ainda não resolvida. Não está nem em convalescença, quando mais pronta para sair a rua. Tudo está em passo de vamos ver como é que vai ficar. De outro lado, a China, segundo noticias, continua crescendo muito, mas crescendo menos, o que significa que como um motor poderoso para a demanda internacional tem menos potência. E não terá capacidade de segurar sozinha a recuperação da economia mundial.

2) Todas essas três razões, a crise na Europa, a crise dos Estados Unidos e uma desaceleração na China, provocaram no mundo e nas bolsas, nesta semana, uma respiração ofegante, cuja dramaticidade inquieta assinalou, apesar dos empolgamentos midiáticos com a Copa, que a geologia econômica não vai tão bem como as publicidades tentam nos dizer. (Já reparam como a mídia contemporânea gosta de vitórias e de falsas felicidades!) Por isso, habitantes do planeta, vibrem com os jogos, mas não retirem o olho do noticiário econômico e fiquem atentos às participações políticas, porque só a política contrarresta as náuseas da economia.

A CHEGADA DE KRUGMAN AO BANDO DOS PESSIMISSTAS

A verdade está, hoje, portanto, ali nas bolsas, pois o caminho da crise continua seguindo para uma tendência depressiva. E a depressão, se o leitor quer uma figura, ela é um animal, um bicho como o tatu - vai cavando, vai cavando; e muito e muito, o seu alentado buraco. Paul Krugman, economista de respeito, está chegando ao nosso time, aquele que pensa que o pessimista é um otimista bem informado. Diz ele: “Receio que estejamos nos primeiros estágios de uma terceira depressão”. Terceira depressão? Sim ele está falando de 1873, e daquela dos anos trinta, e desta que já vem passando do plano recessivo para a depressão. Assim, aquelas bobagens de curvas em V, de curvas em W – a tal de double dipp - não passam de ciclos menores, ciclos de curto prazo, inscritos numa crise de um ciclo longo. Deste modo a depressão nesta fase do capitalismo financeiro pode ser um momento indispensável para a revolução das estruturas produtivas, da reformulação da função das finanças, e da organização de uma nova sociedade política, econômica e social.

Se isto for assim - o parto vai ser evidentemente demorado!

quinta-feira, junho 24, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
24 de junho de 2010
COLUNA DAS QUINTAS

O SEGREDO
DAS
PERGUNTAS
Por Enéas de Souza



Uma pergunta vale um mundo. E como vamos voltar a fazer perguntas, vamos abrir vários mundos aos leitores. Estes, por sua vez, poderão continuar a dinâmica do perguntar. E trazer galáxias de mundos e de pensamentos para todos.

VOCÊ PODE GANHAR UM PRÊMIO APETITOSO

A primeira pergunta nossa é uma já conhecida, famosa, inevitável. Mas tem prêmio. Levante a mão e concorra a um manual matematizado do “mainstream” quem acredita que a crise já terminou. Pois, esta pergunta foi feita anteontem em Nova Iorque e em vários lugares dos Estados Unidos e o Finantial Times divulgou o resultado: nem os investidores acreditam que ela já se foi. Desta forma, todos estão partindo, nas nossas perguntas, do zero, como no bolão da Copa. Então, na sequência questionamos: você acha que a natureza desta crise é de curto, de longo ou de curto e longo prazo? Houve uma pressão enorme de bancos, de governos para salientar que a crise era rápida, tipo coelho: “vai ser bom, não foi?”. Na verdade, estamos numa longa jornada dentro da noite. Porque da noite? Porque sabemos que ninguém tem a resposta para as perguntas seguintes: Como se resolve o seu desdobramento? Como se acha a sua solução?

A BRIGA DE CACHORRO GRANDE

Embora o começo da crise tenha sido financeira, como já apontamos aqui, esta crise é financeira e produtiva. Então todo mundo quer saber: se não é financeiro, então, como se vai resolver esta crise econômica? Ela tem um escalonamento de saída? Soluciona primeiro a embrulhada financeira e depois a produtiva? Aliás, é bom indagar no momento: uma melhoria na bolsa, um retorno da sindicalização dos bancos e da securitização dos títulos resolveriam a esfera das finanças? Não fico só por estas searas, prossigo na investigação e indago: as autoridades e os legisladores deixarão de lado as questões da alavancagem? Deixarão de pensar na função do crédito na atual fase do capitalismo? O sistema financeiro funcionará para a produção ou para a especulação? Existe a possibilidade de construir uma nova arquitetura financeira? Pode-se separar os bancos comerciais dos bancos de investimentos? Vai se fazer algum controle dos hedge funds? Como vão ser tratados os grandes bancos, os chamados “to big to fail”? Nunca devemos deixar, no entanto, de reflexionar profundamente sobre o que vai acontecer com o Credit Default Swaps, uma das dinamites do sistema. Um pergunta fatal, em verdade. Contudo, no fundo de todas estas inquietações, ressalta o tema que coloco imediatamente em pauta: qual será o resultado do jogo de forças entre Obama e as finanças. Está claro, este é um jogo de cachorro grande. Olhe o seu termômetro e o seu barômetro econômico e político, e diga sem hesitação: vai terminar como? Pois, embora seja uma luta de quinze assaltos, como as maravilhosas lutas de box de antigamente, não se pode também deixar de questionar sobre a conseqüência desses combates sobre o que está se decidindo por esses dias no Congresso norte-americano: o “Regulatory Finantial Reform”. Que bicho vai dar? Vai dar empate? Ganha quem? Este round vai se decidir por esses dias.

AS MÃOS DADAS DE IGNÁCIO RANGEL E KEYNES

Veja o caro leitor, que o novelo da economia tem muitos aspectos para pensar como quando a gente caminha no sol nestas tardes de inverno. É preciso definir a natureza da crise, é preciso verificar as dimensões dos estragos em todos os níveis das finanças. Por isso, está faltando o questionamento sobre o Estado. O prof. Pedro Almeida traz sempre no debate a questão minskyana do “Big Government”, a sua capacidade financeira de pode atender os requisitos salvacionistas da crise. E à medida que esta avança, numa dança fatídica - a dança da morte como se mostra no célebre quadro de Breughel - o que se percebe é que há dificuldades de controlar os déficits e que as dívidas estatais seguem mantendo-se em alta. Algumas como a Espanha quase que dobraram desde o início da crise. E os Estados Unidos tem igualmente uma crise poderosa. Mas, a diferença é que a dívida americana é uma dívida na sua moeda. É uma dívida com eles mesmos. O que significa uma capacidade política e monetária de resolvê-la satisfatoriamente. Então, o Big Government como diz o meu colega André Scheler talvez seja um “Little Government”. Porque o tema do endividamento do Estado se encaminha na atual conjuntura, da Inglaterra a Grécia, para a questão recessiva. Ou seja, porque o Estado não é “Big Government” infinitamente, a solução da crise é dolorosamente a recessão. E pergunta-se: qual é a solução para esta? Porque o Estado está se sentido impotente? Não pretende alterar a sua estrutura, o seu endividamento, a sua liderança, a sua possível liderança na articulação de investimentos e de planejamento? Mestre Ignácio Rangel dizia que numa crise – acho que já salientamos isto por aqui – um dos lados da economia fica com recursos e outro, sem. Todo o problema é reformular as ligações que levaram ao desastre e unir o setor que tem capital com o setor que falta. Diria o velho Keynes: bota o Estado para aumentar fortemente a Eficiencia Marginal do Capital. Mas, as finanças deixarão o Estado atuarem em benefício da produção?

O QUE PENSAM AS FINANÇAS DO CICLO ECONÔMICO?

1)
Falando da economia produtiva. Os financistas têm mostrado que não têm nenhuma idéia sobre ela. Qualquer ativo, já mostrou o antes citado Minsky, não passa de um ativo financeiro, seja ele uma mercadoria, uma moeda ou um título público ou privado. Para eles basta recomeçar a especulação e a sociedade e a produção virão atrás, e o crescimento retomará seus belos e esplêndidos dias. Isto quer dizer que daqui a pouco, o mundo estará novamente em festa e o carrossel dos mercados estará porejando rendas financeiras por todos os lados. Enquanto isso não acontece, eles não compreendem que a economia produtiva é regida pelo longo prazo. É o investimento que altera o destino de uma nação. Não, eles não pensam assim. Eles insistem na necessidade da retomada da especulação; no retorno dos rendimentos financeiros substanciais; na passagem da preferência pela liquidez para decisões de aplicação financeira em papéis diversos; no retorno das altas rendas, pois que de parte delas virão os aumentos dos gastos em consumo. E que, portanto, as finanças continuarão sustentando através deste citado consumo o incremento da demanda efetiva. É deste curto prazo financeiro e de seus resultados que virão os novos investimentos. Finance led growth.

2) Duvido que as finanças e os financistas acreditem na transformação da liderança produtiva pelas novas tecnologias. Não que eles não acreditem nas novas tecnologias. Acreditam sim; mas como motivo especulativo. Talvez não seja por outra razão que se anunciam aplicações financeiras de Soros em tecnologias médicas. Tudo que escrevo serve para enfatizar que uma visão schumpeteriana não passa para as finanças de uma forma poética de ver a metamorfose da economia. Elas não acreditam que as atividades econômicas possam ser reorganizadas e refeitas em função, como diria Carlota Pérez, das tecnologias que se implantaram e que agora estão prontas para tornarem-se maduras. Logo, as finanças só estão interessadas nas tecnologias como novos ativos financeiros. Fora disso, estas só são instaladas para melhorarem a sua infra-estrutura técnica operativa. Elas, as finanças, não têm nenhuma idéia de que a atividade produtiva e econômica seja reformulada por uma lógica cíclica da crise, quando de tempos em tempos, há uma necessária e indispensável transformação da estruturas econômicas e da relação dos elementos desta estrutura. E que toda a reformulação surja a partir de um “cluster” de novas tecnologias e novos produtos.

A questão é: porque as finanças não acreditam no ciclo e nas transformações cíclicas?

PERGUNTAS E MAIS PERGUNTAS

1) E porque não é possível libertar o Estado das amarras das finanças? É o Estado um Prometeu Acorrentado? Porque é que as relações entre as finanças e o Estado são tão incestuosas - como se pode constatar, sobretudo, nos governos europeus, onde a crise das finanças é também uma crise de Estado, e onde a crise do Estado é uma crise das finanças?
2) Não resta dúvida nenhuma que, diante do fracasso do “Big Government” no Ocidente, a solução única para as finanças é jogar as cartas da contração fiscal, da quebra de contrato de salários do setor privado e público, do aumento anti-liberal de impostos, conduzindo a economia para a atividade recessiva. E no fundo da roupa escura da recessão aparecem as nuvens carregadas do espectro não explícito, mas visível, da depressão. Trata-se do processo que envolve uma espiral contracionista das economias e dos Estados. Uma possibilidade desagradável da dinâmica econômica e da política atual. Por isso, a questão é a seguinte: é possível que a miopia do imediato, da curta duração, atrase vertiginosa e vigorosamente a reformulação do longo prazo?
3) Mais outras perguntas. Não é da natureza do capitalismo o desenvolvimento cíclico da economia? De que depende a passagem da fase recessiva do ciclo para a fase de recuperação do novo ciclo econômico? Pode-se dizer que teoricamente a solução do ciclo se dá por dois modos: ou por uma extensa queima de capital, via depresssão, que seja capaz de retomar uma lucratividade brutalmente ascensional ou por uma intervenção do Estado que dirigirá a lucratividade para uma ascensão claramente planejada. Na sua opinião, quais serão as forças que sustentarão estes caminhos? Quanto tempo levará para a reorganização da economia da mundialização? De onde pode vir a reanimação da economia? A economia mundializada entre os Estados Unidos e a China terá uma performance semelhante? O G-20 terá um papel decisivo na governança e coordenação da metamorfose do longo prazo da economia capitalista?
4) Uma pergunta perfurante: o que acontecerá se as finanças continuarem a comandar o processo social, político e econômico do presente?
5) Uma pergunta de futuro: a política acabará por se afastar das finanças e descobrir a forma da construção de um novo Estado, que desenhará uma nova geopolítica e uma geoeconomia?
6) Parece que finalmente fica claro que o segredo das perguntas está na formulação das próprias. E deixá-las, depois da sua geração, florescer nas plantações do tempo. Por isso Érico Veríssimo tinha razão quando escrevia: "Olhai os lírios do campo".