quinta-feira, agosto 18, 2011

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
18 de agosto de 2011
Coluna das quintas


AS RAÍZES DO FUTURO DO BRASIL
Por Enéas de Souza


O Brasil está fazendo um movimento amplo de transformação de sua sociedade. Um movimento que ocorre no meio de uma crise profunda da economia mundial. Pois a coisa é assim mesmo. Na transição da geoeconomia e da geopolítica planetária, os momentos de ruptura, de esgarçamento, de destruição, de mudanças de formas, etc., alteram a posição de vários países, em função de inúmeros fatores. No caso brasileiro, o que estamos vendo é uma tríplice manobra do governo Dilma, com tal força e com tanto ímpeto, que, muitas vezes, os analistas não percebem. Na minha opinião, temos uma política e uma estratégia nacional que abarca pelo menos três aspectos fundamentais: 1) construir uma atitude unitária do Estado brasileiro; 2) compor uma resposta coordenada do Brasil diante da crise; e 3) inclinar a economia brasileira na via de uma trajetória de desenvolvimento e de integração mais ampla na economia mundial.

A LIDERANÇA POLÍTICA DE DILMA
E A UNIDADE DO ESTADO

1) Esses três movimentos se fazem em simultâneo, mas o principal é, sem dúvida, a construção de uma nova fase do Estado. Trata-se de uma manobra sutil, o que não quer dizer secreta. E ela está em busca do reencontro de uma unidade que estava perdida na política brasileira, a unidade do Estado nacional. Pois o atual período, a época que transitamos, é aquele que corre para um desassombrado gesto de tentar erradicar instituições e/ou procedimentos neoliberais. O que vai se fazendo com passos até agora precisos. Dito de outra forma, essa unidade política se dá tendo como base a recomposição da unidade econômica do Estado. Pois olha-se a Presidência, a Fazenda e mesmo o Banco Central e percebe-se um posicionar semelhante diante dos fatos econômicos.

2) A ameaça de que a crise venha estourar no Brasil faz com que essas três instituições se entrelacem e se encaminhem para um funcionamento articulado, o que ratifica o comando e a liderança da Dilma, que tem um agudo senso estratégico. Ele aparece no caráter mais visível e imediato da preparação para o pulo do gato da saída do colapso da economia mundial. E essa possível ação faz parte de uma estratégia de longo prazo, que chamo da passagem do modelo de acumulação financeira para o modelo de acumulação produtiva dentro da construção de um novo padrão da acumulação planetário. E esse jardim não se fará sob a noite da unipolaridade americana, mas sob a regência, ainda sem cor, da bipolaridade geopolítica dos Estados Unidos e da China, que tramam dois eixos econômicos em emulação e conflito.

3) A primeira proposição, portanto, dessa estratégia, como dissemos, é o reforço do Estado, posição que começou lá em 2006 com o lançamento do PAC, que independentemente dos resultados quantitativos e puramente econômicos, foi uma torção política extraordinária, reintroduzindo uma idéia de comando unitário na política econômica, repondo um pensamento de planejamento e trazendo, para o centro estratégico do governo, a Petrobrás. Agora, está sendo dado mais um passo, diríamos mais um degrau, chegando a um outro patamar. A fragmentação do poder público, começada por ser anulada no governo Lula com a recuperação da Fazenda, enfrenta neste momento uma batalha decisiva. O permanente desgarramento e a ampla distância entre Banco Central e governo, ocorrida na época do neoliberalismo, agora parece ficar cada vez menor, a junção cada vez mais próxima. Ou seja, a modernidade neoliberal da Fazenda e do Banco Central de outros tempos, a formarem um duo da canção financeira como nos Estados Unidos, criando problema para a política da Presidência, parece se arrefecer, tomar novo rumo com Dilma.

4) Passamos da desintegração provocada pelo triunfo das finanças para uma reunificação política do econômico na direção de um outro tipo de acumulação. E o resultado e a atração maior, politicamente, é a unidade do Estado, supostamente mais coerente. Esse movimento vai no sentido de alcançar uma política econômica global, se ergue para superar aquela política reduzida, restrita à política monetária, à política cambial, à política financeira e à política fiscal. Nela, regidas pela política financeira e monetária, se davam as avenidas do sonho das finanças. Desde o governo Lula, a recomposição da totalidade da política econômica tem sido um objetivo perseguido. E Dilma tem se esmerado desde a sua entrada na Casa Civil, fornecendo munição para as possibilidades desse itinerário. E a construção da unidade do Estado é uma parte densamente importante, decisiva e construtora, da estratégia global que vai unir as dimensões da política e da economia do Brasil.

Parêntese 1 - Podemos nos dar conta dessa aproximação na política econômica através de determinados sintomas, como os pronunciamentos e decisões da presidente, do ministro da Fazenda e do presidente do Banco Central a respeito de uma possível proteção e repercussão dos problemas que viriam da crise do eixo americano (USA-UK-EUROPA). Estamos querendo acentuar que a mágica desses atos é de alcançar uma integração da política econômica global do Estado brasileiro.

Parêntese 2 - Pode-se perceber, além disso, que na área propriamente política se desenvolve uma linha ainda muito diáfana na manobra refinada do retorno de Celso Amorim ao Ministério. Creio que é possível conjeturar e constatar que a unidade do Estado proporciona uma conexão extremamente importante na área da diplomacia e da defesa.

5) Ora, a passagem de um modelo financeiro para um modelo produtivo requer que, por trás da política do Governo, haja ocorrido ou esteja para se confirmar um acordo em termos de economia política. Ou seja, que os grupos sociais que vão sustentar a posição da liderança política nacional sintonizem com a mão que dirige o Governo. Pois, como disse, essa transição e essa metamorfose – de uma hegemonia financeira para uma hegemonia produtiva – está sendo armada pela Dilma já faz algum tempo. O que temos agora na economia globalizada é uma lenta capitulação da área financeira internacional. E embora ela esteja projetando até aumentar a sua presença por aqui, a flor especulativa está murchando, quem sabe no médio prazo será uma outra flor, instalada num outro terreno. E, ao mesmo tempo, fazendo parte e integrada em diferente vegetação, o que garantirá a mudança de figura do crédito, de especulativo para dedicado à produção. Com isso, a flor do financeiro adquirirá uma face distinta e se transformará, porque plantada numa união institucional em favor da área produtiva. Dilma tem dado passos nessa direção e o jardim da economia está sendo pensado de outra maneira. Por esse motivo, a estratégia nacional da unidade do Estado está, como uma serpente prospectiva, se enroscando nas outras dimensões do projeto econômico nacional. Analiticamente, temos o momento da defesa da economia diante da crise e o momento da construção de uma estratégia de desenvolvimento. E a natureza dessa complexa estratégia se materializa numa arquitetura ainda instável que vai nascendo sob a liderança da Dilma.

Parêntese 3 - Uma coisa é a política profunda das classes sociais, que atravessa complicações conjunturais para estabelecer estruturas que perduram, que tem dinamismo lento, mas que, firmes, acabam por definir trajetórias de longo alcance. Mas essa política é mediada por lutas de diversas ordens, que eleitoralmente se expressam em conflitos de política partidária. Com isso, avulta e emerge algo que ainda não tem uma tendência mais definitiva, e que se dá na relação entre a presidente, o congresso, os partidos, a mídia convencional, a mídia alternativa e a população em geral. É uma disputa que baila na superfície do dia a dia. E tem toda uma configuração, tem muitos lados. Todavia, no caso que nos interessa, trata-se da questão da corrupção. Se de um lado, Dilma tem tomado medidas cirúrgicas contundentes, mostrando o Governo na linha de frente dessa batalha; de outro, a mídia conservadora e os partidos descontentes, no entanto, tentam empurrar a idéia de que o governo da Dilma “está cheio de corruptos”. A própria presidente não está atingida, as bazucas estão assestadas para o desgaste do Executivo; Dilma não é o alvo direto, mas o governo dela. É a tática da política como espetáculo e como escândalo que se constitui como o maior perigo do governo Dilma. Pode até afetar o processo de unidade do Estado. Até agora, é verdade, as ruas apóiam e sustentam a presidente. Mas esse problema não pode deixar de ser considerado na tríplice manobra.

O VOLUPTUOSO ARCO ESTRATÉGICO 
LIGANDO O CURTO AO LONGO PRAZO

1) Há duas coisas a fazer do ponto de vista econômico, a partir da reconstrução progressiva da unidade do Estado. E essa unidade serve para um lance que se apóia do longo prazo, um fio lançado no espaço do futuro, e que desce até o curto, desenhando, na verdade, uma defesa contra os efeitos maléficos da crise. Por essa razão, a estratégia do Brasil não deixa de considerar os dois tabuleiros, praticando uma partida simultânea, pois não dá para separar no tempo as jogadas, embora visando alvos diferentes. Não se pode ficar esperando para lançar as malhas de amanhã esperando superar detalhes que batem no presente. E nem se pode cuidar da praia sem pensar no alto mar.

2) O que me parece ser o movimento mais dilatado, mais extenso e de mais duradoura ambição, tem um foco maiúsculo. Convém que se fale da transformação de uma economia financeira para uma economia produtiva. E se nomeie os lances para o adiante, na preparação, na transição do atual paradigma tecno-produtivo – como dizem certos schumpeterianos – na estrada para um segundo paradigma. Na minha linguagem, a transformação de um padrão de acumulação, organizado a partir do duo petróleo e automóvel, para um padrão que começou a se desenvolver, já nos anos 1970, em torno da indústria da informática, da telecomunicação, da internet, mais popularmente chamado de novas tecnologias de comunicação e informação, exatamente no momento da sinergia dos componentes, numa ascensão cíclica rumo sua fase de maturidade.

3) Não se pode deixar de pensar que estas mutações se dão num ambiente geoeconômico balanceado entre o eixo americano e o eixo chinês. O Brasil, que está no ponto de conexão dessas duas linhas, não pode deixar de se situar igualmente na esfera geopolítica tramada a partir dos dois países líderes. Ou seja, o Brasil terá que atuar tanto geoeconomica como geopoliticamente. Ora, a visão se complexifica, o cenário torna-se mais espinhoso e o futuro embrulhado: a atmosfera histórica traz nuvens carregadas e sombrias, inquietantes de ameaça. Dessa forma, a estratégia brasileira põe dois elementos fundamentais: na esfera econômica, investimento e tecnologia; no campo político, busca de uma situação pendular entre Estados Unidos e China.

4) O arpão está lançado no futuro. Não vai para Moby Dick, vai para o padrão de acumulação das novas tecnologias de comunicação e informação. Pois cabe, em primeiro lugar, dar-se conta que essas altas tecnologias estão fora do olhar e da inteligência científica brasileira. Não temos nada em estoque, nem temos condições de financiarmos essas pesquisas. No entanto, pode-se apostar um cartão, dois quem sabe, nesta MegaSena. Porém, uma coisa é certa: a tecnologia acessível vai comandar a reorganização produtiva do patamar pensado. É nisso que o Brasil terá que trabalhar. Mas, economicamente, o decisivo é saber que temos dois objetivos chaves: a ancoragem no novo padrão e o financiamento das propostas de investimento para o nosso desenvolvimento neste percurso. Ou, dito de outra forma, precisamos cimentar a nossa participação na nova divisão internacional do trabalho.

5) Na minha opinião, já estamos, felizmente, ancorados nesse novo padrão, no porto específico da construção de sua infra-estrutura. Pois o retorno da Petrobrás ao centro estratégico do governo, as descobertas do pré-sal posicionaram de forma irreversível a nossa inscrição na infra-estrutura energética desse padrão. E isso nos permite saber e refletir que o Brasil terá um papel destacado. E vai além do petróleo, pois tem bala para fornecer matérias primas, onde a Vale estará envolvida, como, igualmente, para alimentar o mundo, através da pujança do agrobusiness. Naturalmente que se requer uma maior industrialização, seja de produtos derivados desses setores, seja de bens oriundos da diversificação indispensável da indústria brasileira.

6) Daí a gente entende como é importante o setor de bens de capital, não só maquinário para construção civil, mas máquinas e equipamentos para a produção das indústrias. E o setor de bens de capital tem um papel fundamental porque o dinamismo da economia produtiva vem dele, pois vai à frente distribuindo vigor tecnológico e dinamismo produtivo. Se o investimento é a variável decisiva da próxima ancoragem da economia brasileira no novo padrão econômico, sem dúvida, a expansão do setor de bens de capital é imperiosa.

7) E estudos mostram que o Brasil pode estar preparado para a exigência de bens de capital, mesmo na hipótese de altas taxas de crescimento. Por isso, nessa passagem do modelo de acumulação financeiro para o produtivo, o investimento tem que alcançar níveis compatíveis com a pretensão brasileira. Um estudo do BNDES diz que o Brasil, em 2009, estava com uma taxa de 17% em relação ao PIB, muito menos elevada que a da China (45,6%) e dos países asiáticos e da média do conjunto dos BRICs (28,7.%). Todavia, a herança financeira do neoliberalismo nos colocou ainda abaixo do Equador (24,1%), do Peru (24%), do México (21,6%), do Chile (21,4%) e da Argentina (20,9%). E o pior fica evidente: estamos num nível inferior ao da média mundial (19,5%). Um desastre quase completo. É verdade que ganhamos dos Estados Unidos (15,1%), só que este é um pais bem mais financeirizado que o nosso. Todos esses dados nos garantem que o papel do investimento e do financiamento ao investimento no Brasil estará na primeira linha das preocupações. Transformar o crédito à especulação em crédito para a produção é uma alavanca maior para o projeto brasileiro, sabendo-se que será indispensável e inadiável, para o êxito nacional, o investimento em infra-estrutura (energia elétrica, telecomunicação, saneamento, logística, ferrovias, transportes rodoviários, portos) etc. Para tal, o setor público terá que puxar as inversões, seja por meio do orçamento público, de programas públicos, do BNDES, do sistema de bancos públicos, de empréstimos estrangeiros, além dos investimentos privados nacionais e do investimento internacional. Não resta dúvida que, sem uma unidade do Estado, estas perspectivas não sairão do chão.

POR QUE PORTA A CRISE VAI ENTRAR?

1) Tratamos antes do projeto de desenvolvimento. Algo porém, como uma areia no sapato, como uma barreira na rodovia, incomoda: são as coisas do curto prazo. A resposta desse problema está fortemente arraigada no pensamento, nas táticas e na estratégia de Dilma. Portanto, ela tem um diagnóstico e sabe que a crise está vindo, e tem uma potência destruidora. A primeira pergunta vem fácil: por onde a crise vai chegar? A meu ver, existem dois pontos por onde ela pode surgir. Um deles é o da via comercial, como diz Henrique Meirelles, que seria efeito da queda da especulação em commodities, provocando uma baixa nos seus preços, principalmente no caso de uma crise generalizada. E o segundo, é uma pinta vermelha no nariz, o desdobramento no setor dos bancos nacionais, já que se fala que estão muito expostos lá fora.

2) Naturalmente, que a defesa do curto prazo implica ao menos em duas coisas. Uma se sustenta na defesa dos petardos financeiros que baterão sobre o câmbio e sobre o movimento de capitais. O Brasil já tem experiência nessa área, e acredito que, no limite, está até preparado para o fogo máximo que se dará, se a crise for generalizada. Precisando operar no ponto extremo, o país pode exercer um controle apurado da taxa de câmbio e do fluxo de capitais, chegando inclusive à quarentena do capital estrangeiro. Isso já aconteceu nos anos 1970 e praticado pelo ministro Mario Henrique Simonsen, um economista liberal. Só estamos tocando nesse assunto, porque o tamanho, a envergadura, a audácia da resposta brasileira aos ventos e temporais da crise está na dependência do tamanho dos fatos. E esses são imprevisíveis.

3)Todavia, a defesa da economia brasileira não se trata apenas de medidas financeiras, mas deve se referir a uma segunda questão: o fortalecimento e a competitividade da indústria brasileira (de forma imediata na competição com a importação chinesa). O governo tem feito uma série de medidas desde o Brasil Maior até o Supersimples, objetivando não só reforçar a empresa nacional, dar-lhe espírito de inovação e audácia para exportar, mesmo em situações adversas. O Governo procura garantir financiamento, aumento de competitividade, visando o acréscimo do investimento, mas também a expansão do emprego. Portanto, tentando dar um nível de concorrência alto às empresas dos mais diversos portes – grande, média, pequena e micro – o Brasil se prepara para não só responder aos impactos imediatos da crise, mas também para adicionar a uma trajetória de crescimento as idéias de investimento, de tecnologia e de emprego. É tão importante driblar o furacão do colapso desta fase do capitalismo como, no mesmo tranco, unir os rearranjos do curto prazo à futura plenitude do padrão de acumulação.

CONCLUSÃO

O governo de Dilma tem trabalhado para dar uma perspectiva da economia brasileira no processo de transformação de um modelo de acumulação financeira para um modelo de acumulação produtiva. E essa mudança de forma se dá dentro de um padrão de acumulação que transforma a produção em massa, comandada pelo automóvel e pelo petróleo, numa outra, liderada pela informação e telecomunicação. Para o Brasil é importante disputar uma integração nesse modelo de capital e nesse paradigma tecnológico. Só que as suas possibilidades são condicionadas a sustentar a infra-estrutura desse modelo e desse padrão, através do petróleo, das matérias primas minerais e dos produtos agrícolas. A par dessa posição importante, o Brasil tenta através do investimento, da tecnologia, robustecer a sua participação, se não nos setores líderes, pelo menos em patamares importantes das indústrias mais antigas, porém impulsionadas pela inovação. O que se pode dizer é que nessa nova organização, a indústria de bens de capital do Brasil pode ter uma figura dinâmica bem importante. No entanto, tudo isso só está na eminência de acontecer – só, e somente só – por causa da superação da fragmentação e da destruição do Estado neoliberal. O que o atual governo e, principalmente, Dilma têm conseguido é um processo de reconstrução da unidade do Estado brasileiro. E os arautos podem proclamar: sem unidade, que ainda está em processo de reconstituição, o Brasil não terá a possibilidade de tornar-se um país sério e ativo. O casamento profícuo entre o Estado, o capital, o investimento, a tecnologia, o emprego, a distribuição de renda, a alocação de recursos para a área social, trazem as causas materiais para chegaremos à civilização. E, para chegar lá, precisamos dos condimentos da educação, da pesquisa científica, da saúde e da cultura. Atenção: o Brasil não pode se enganar: não há civilização sem cultura. Só a cultura faz a civilização e o progresso material durar.

quinta-feira, agosto 11, 2011

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
11 de agosto de 2011
Coluna das quintas

TODAS CRISES SÃO UMA SÓ
Por Enéas de Souza




São tantos assuntos a discutir. A crise americana e a crise européia; a situação do Brasil e a sua resposta à crise global; a questão da corrupção, essa flor negra e malcheirosa plantada no jardim brasileiro; e as inúmeras manifestações de violência que assolam várias partes do mundo, desde Santiago do Chile, Noruega, TelAviv até a Síria, até a Espanha e até as mais midiáticas de todas: as explosões das cidades inglesas. Pensava eu, neste momento, escrever sobre o nosso país, depois de ter me centrado na crise americana e na crise européia. Mas vou continuar tratando dessas, dados os acontecimentos dos últimos dias, pois a crise do eixo USA-Inglaterra-Europa está no centro do tráfico do capital financeiro. E aglutina eventos econômicos, políticos e sociais que estão eclodindo como efeito de uma crise mais profunda, mais decisiva, mais devastadora: a crise mundial do capitalismo. Essa sim é a verdadeira crise, aquela que interessa e da qual o Brasil não está isento e da qual faz parte. Prefiro, por essa razão, analisar o quadro mais geral, pois certamente ele tem repercussões e determinações muito fortes sobre todas as regiões. E não poderia ser diferente, afeta também o país de Macunaíma e de Brás Cubas. Ou como diria Glauber Rocha, o país de Paulo Martins. O que é preciso ver é que a crise capitalista tem características gerais que perpassam todas as partes, só que ela tem um rosto que se mostra singular nas figuras históricas de cada lugar e de cada país.


NÃO EXISTE CRISE ISOLADA, TODO MUNDO ESTÁ NO INCÊNDIO


1) As crises não podem ser tomadas isoladamente. A crise dos Estados Unidos, a crise da Inglaterra, por exemplo. O que está acontecendo é uma crise da dinâmica do capital, levando suas instituições ao limite. Tínhamos, até 2007/08, um único eixo econômico, cujo pólo dominante era os Estados Unidos e que enlaçava todo o mundo. Seu ponto culminante, sua pedra preciosa, seu toque de gênio foi capturar a China para a realimentação do seu capital. E duas foram as conexões: o deslocamento das indústrias americanas para a produção de suas mercadorias, a preços mais baixos, na China e a atração dos saldos do comércio externo dessa para serem aplicados como reservas chinesas nos títulos do Tesouro Americano. Faziam essas operações parte da dinâmica expansiva do capital com a hegemonia financeira dos Estados Unidos, que se articulava e se expandia por todo o mundo. Esse processo tem o nome de globalização financeira, mas que não é apenas financeira, pois esse movimento reorganizava também o espaço da produção das multinacionais. As finanças iam à frente, puxando o barco produtivo. Ou seja, o capitalismo sempre teve uma pretensão de universalidade, sempre buscou ir além das fronteiras nacionais. Um economista chegou a dizer que o capital é sem pátria. Tivemos nesses últimos tempos, então, um capitalismo que buscava se expandir por um espaço extra-nacional e que passava por dentro de múltiplos países. Ele tinha, além de uma faixa de acumulação mundial, uma zona de acumulação restrita, pois penetrava no interior de uma nação. Era como uma centopéia, um corpo amplo unindo vários pés. Logo, esse capitalismo, com fortes movimentos multinacionais, com um espaço de acumulação mais amplo que o território das nações, estava inscrito tendencialmente a absorver ou a se confrontar com os Estados nacionais. Árvore frutífera que, gerada num quintal, dá galhos e frutos no terreno ao lado.


2) A crise de 2007/08 colocou em cheque brutalmente a liderança financeira americana. E pode-se ver a passagem – e isso vem se consolidando desde aí – de um eixo único mundial para a constituição de dois eixos, um que é o eixo Estados Unidos-Inglaterra-Europa, que está em turbulência, e um segundo eixo, cujo dinamismo parte da China, agrega Ásia, África e engata também na América Latina, sobretudo com o Brasil. Só que o Brasil, como o resto desta América, sempre esteve e ainda está no eixo americano, digamos assim, por simplificação. Mas, dizendo melhor, estamos na conexão, estamos entre os dois eixos, fato que tem conotações econômicas e políticas Significa que estamos hoje mais vinculados produtivamente à China, mais financeiramente aos Estados Unidos e mais politicamente ligados ao Ocidente. Contudo, saímos pelas reuniões dos Gs, pelos fóruns e pelos congressos um tanto companheiros dos BRICS.


3) Fiquemos então com a análise da turbulência. A crise de 2007/08 deu uma explosão no eixo único, partindo-o em dois, e restringindo o fulgor dela ao eixo USA-UK-EU, mas com efeitos bem menos potentes sobre o outro pólo liderado pela China. O tumulto não deixou de afligir, inclusive, os países que estão na conexão dos dois eixos. Tornou-se evidente que a dinâmica financeira mundial havia se rompido, pois o vulcão americano teve que lidar com a falência e o rearranjo dela. Enquanto que, do lado da China, a dinâmica do capital foi hegemonizado pelo Estado, que passou a comandar as peças financeiras, produtivas, comerciais e de serviço do capital, encadeando e rearranjando as articulações com a Ásia: Hong-Kong, Coréia, Singapura, e até ao Japão. Já a Índia e o Brasil, por exemplo, ficaram na ligação vacilante entre os dois eixos. Essa dinâmica econômica global, em processo de fracionamento, ia também construindo no plano político a passagem da unipolaridade americana para uma possível bipolaridade Estados Unidos-China. E com essa descrição já podemos constatar alguns efeitos: I) a fragmentação da economia universal liderada pelos Estados Unidos; II) a constituição de dois eixos dinâmicos baseados nos Estados Unidos e na China; III) a reformulação do novo eixo americano com uma recomposição de cada um dos seus integrantes, afetados com as crises nomeadas americana, inglesa e européia; IV) e os desafios múltiplos infligidos às economias que estão na conexão: Brasil, Índia, Rússia, por exemplo. Fica, então, a sinopse da peça: a crise pegou todo mundo e ela é inexoravelmente mundial.


ESTAMOS NA ÚLTIMA ESTRADA DA PRAIA DO NOVO PADRÃO


Agora, amigo leitor, mais outro passo. Existe no capitalismo um processo de longa duração que se desdobra em vários ciclos econômicos, caracterizados pela constituição de padrões de acumulação produtiva animados por indústrias que puxam a economia como um todo. E que, de tempos em tempos, entram em crise e dão nascimento a outro padrão. É o caso agora: estamos saindo de um baseado no petróleo e no automóvel e que possibilitou a criação de várias indústrias de produção em massa. Tendo chegado ao seu final, se dirige, meio tumultuadamente, para um outro patamar, que vai se organizar ao redor das indústrias de comunicação e informação. Mas tenhamos em mente que essas indústrias que vão passar a liderar já estavam no padrão que termina, pois a presença da eletrônica e da informática veio dando alento final a ele, através da modificação da tecnologia no setor de bens de capital com a mecatrônica; através da transformação na comunicação de dados no setor das instituições financeiras; e através da transformação da mídia, inclusive com a presença irreversível da internet, etc. Estamos, portanto, rumando na direção de um outro oceano. E para lá chegar, a transição não é automática; o capitalismo não se faz sem obstáculos, sem resistências, sem crises, sem rupturas, sem violência, já que a trama do real é caracterizada por agrestes e selvagens conflitos. A hora é essa: o passado está chegando e o futuro ainda não é presente.


A AUTO-IMPLOSÃO DO EIXO AMERICANO


1) O nosso objetivo, portanto, é examinar os eventos dramáticos que ocorreram nos Estados Unidos, na Inglaterra e na Europa. Vamos situar o episódio do rebaixamento da nota dos Estados Unidos, os inúmeros distúrbios na Inglaterra, o surpreendente rumor da ameaça de rebaixamento da nota da França e os ataques especulativos contra bancos franceses de importância. É claro, para quem lê esta coluna, que essa não é uma nova crise, como muitos economistas e a grande parte da mídia estão afirmando. Na verdade, é o prosseguimento da crise do neoliberalismo de 2007/08 que está se revelando uma crise da economia capitalista. E os desdobramentos de agora são os conseqüências daqueles momentos. Por isso que a crise financeira nos Estados Unidos se espalhou por todo o eixo, incendiando a Inglaterra e a Europa, e deixando problemas que eclodiram nesses tempos soturnos, mas cômicos, de forma diferente e em pontos distintos, evidenciando questões políticas, econômicas ou sociais. A lógica dos Estados Unidos, da Inglaterra, da Europa fez a sua parte, naturalmente que dentro de uma espécie de sistema, um sistema de vasos comunicantes, pois o que ocorre num lugar pode contagiar outro, seja num plano ou noutro.


2) A crise financeira levou a três situações distintas no eixo americano. Nos Estados Unidos, a situação recente era a incapacidade do Estado de regulamentar as finanças. A hegemonia desse setor era de tal ordem que houve dois salvamentos públicos, inúmeros programas do FED para dar liquidez e solvabilidade aos bancos, o que terminou por fazer com que esses, novamente robustos (embora com a queda de seus mercados e com a liquidação de alguns produtos e a reduzida inovação de outros), se impusessem novamente como líderes do processo. E, com garra renovada, atacaram o Estado com a sua velha proposição de cortes de gastos. Pois essa ação estava dentro do desejo do setor financeiro, que, podemos assinalar, é de (I) acabar com o controle público de suas atividades, ou seja, eliminar os pequenos controles que passaram a existir depois da anêmica reforma bancária do Congresso em 2009, sendo o alvo único e obsessivo o retorno à plena auto-regulação; (II) manter a dinâmica financeira livre, usando o crédito para especulação e sendo o crescimento econômico a conseqüência de um efeito derivado, a retomada do consumo tão rápida quando possível; (III) subordinar o Estado nacional através do domínio de FED, do Tesouro, de agências reguladoras de áreas da economia e do próprio Legislativo, esse por intermédio de lobbies; (IV) cortar gastos para que os Estados possam pagar belos juros pela compra de títulos públicos e para que possam usar a dívida pública com a finalidade de cumprir uma função financeira do Estado: a de emprestador em última instância – uma função salientada por Hyman Minsky.


3) Pois como conseqüência de endividamentos anteriores e do endividamento durante a crise, a dívida americana tinha chegado ao limite de um teto fixado pelo Congresso em 14,3 trilhões de dólares. Claro que a solução para o problema era aumentar o referido limite e, ao mesmo tempo, exigir corte de gastos e/ou aumentar impostos. Mas, a sociedade pós-crise não é nada fácil, diversos problemas continuam se impondo: empobrecimento da população, perda de emprego, baixa do consumo, perda de residências, assistência pública diversificada, etc. E entre os grupos sociais existem muitos pensamentos sobre as causas e diversas propostas de solução para a presente crise. Pensamentos e soluções geralmente encharcados de ideologia. E no bojo do processo americano surgiu uma proposta contundente para a crise da dívida. Uma proposta mais à direita, fogosamente reacionária, e, portanto, mais à direita do que a da própria direita. Não só cortar gastos, mas forçar o governo de Obama a só gastar o que arrecadasse. E com um propósito maligno: cortar na pele do social. Essa lava de vulcão veio da extrema direita, de um grupo do Tea Party. Uma beleza de concepção fiscal!


4) Lançaram o bode na sala. O Tea Party forçou, batalhou, conspirou e constrangeu a sociedade a ir mais para a direita, quase arrastando para o abismo o Partido Republicano e uma parte dos democratas. O resultado final foi o aumento controlado e escalonado da dívida e o estabelecimento de cortes nos gastos. E a perfídia do controle: a aprovação de uma comissão parlamentar para definir quais cortes efetuar. Ou seja, foram derrotados Obama, o Partido Democrata, o Partido Republicano, as finanças e a sociedade pobre. Mexeram na colméia, todos queriam o mel e emergiu um bando furioso de abelhas, picando para todo o lado. E foi por esse bloqueio que uma fração das finanças, sentindo-se abandonada e criticando os partidos políticos, partiu para tocar fogo na aldeia. A Standard and Poor´s, uma agência de rating, acabou por rebaixar a classificação e a nota dos Estados Unidos (triple AAA), após o fechamento da Bolsa de sexta-feira, dia 5 de agosto. E essa atitude instalou um pânico especulativo que sacudiu o mundo, dando origem a um medo que se espalhou pela sociedade planetária. Um revival piorado de 2007/08


5) Que fatos importantes ocorreram aí? A par da paralisia e limitação objetiva do governo Obama, evidenciou-se um limite da democracia. Como é que um Estado poderoso é capaz de ser derrubado por uma agência de rating, onde meia dúzia de técnicos funcionários tem a petulância de fazer uma avaliação e uma análise fuleira, com erros de cálculos de 2 trilhões de dólares? Como é que essa mesma agência é também capaz de fazer julgamentos sobre o comportamento de partidos, pondo os Estados Unidos e o tão santificado mercado e o mundo à beira do abismo?


6) Mas não foi somente nesse ponto que o limite foi alcançado. Existe um outro e aconteceu na esfera política. Como é que um grupelho de parlamentares – deputados – pôde jogar o governo numa situação de aprisionamento, sob certa forma com a conivência moderada de outros parlamentares? E, dessa maneira, pôde-se constatar que, politicamente, os americanos começaram a traçar um caminho muito forte com o Tea Party para a direita e para o fascismo. E não se viu nenhuma resistência maior a essa energia direitista. Imaginem então se ocorrer uma aglutinação de finanças, Pentágono, mídia conservadora e Tea Party. Já do ponto de vista econômico, abriu-se, com essas medidas, uma crise fiscal que embaralha mais ainda as possibilidades da retomada do crescimento. Não fica no horizonte nenhuma possibilidade de investimento e da criação de empregos. Por outro lado, a decisão do FED de não aumentar a taxa de juros, por um período de dois anos, até 2013, teve o poder de parar, na terça feira, dia 9, o movimento depressivo da Bolsa de Valores. Pois tal medida instala alguma certeza, favorecendo, meio que esfarrapadamente, a liquidez, o que tende a trazer o retorno da manivela e o círculo vicioso da especulação.


Que notícias péssimas para a democracia e para a economia americana.


O INTERVALO INGLÊS: A PAUSA QUE NÃO REFRESCA


Não podemos esquecer, então, os distúrbios da Inglaterra. Esse país foi a primeiro que salvou aos bancos e fez uma meia sola na direção financeira deles, mas tudo retornou à felicidade dos bônus. De outra parte, o Governo inglês instalou um processo contracionista, reduzindo salários e custos sociais, o que, na prática, levou muitos ao desemprego. E o resultado foi escandalosamente claro: baderna e saques na rua, dos jovens sem trabalho, dos injustiçados, etc. Foi assim como em outras partes da Europa. E não se pode olvidar o ato direitista do fuzilamento de pessoas na Noruega. Enfim, ligando o Tea Party, com as desordens das cidades inglesas, com os movimentos de Madrid, as revoltas na Grécia, etc., etc., movimentos das mais diversas orientações políticas e sociais, uma coisa é clara: a direita se organiza, tem apelo social pela exclusão que propõe, requer sempre forças repressivas para buscar uma ordem não democrática. Age contra o medo com o medo da força. O que vai deter esses atores? E mais profundamente: qual é o movimento que a esquerda e as forças da liberdade propõem?


A QUARTA FEIRA DA BOMBA EUROPÉIA


1) A crise nos Estados Unidos é uma crise política e social grave e uma crise fiscal controlável no interior de uma crise econômica sem perspectivas de retomada do crescimento. Estamos na véspera e na linha de tiro de um fuzil recessivo. É verdade que o sistema bancário está ainda parcialmente controlando o seu colapso, mas a moldura dessa pintura é o avanço da crise do capitalismo. Já a face européia é uma crise política extremamente grave, uma crise econômica ampla, uma crise eminente do sistema bancário e uma crise fiscal poderosa. E tudo tomou um caminho sinistro por causa do rumor de que a França, dado sua situação fiscal e, inclusive, a fragilidade dos seus bancos (Société Générale, BNP Paribas), iria sofrer um rebaixamento de nota como o dos Estados Unidos. Depois, ficou constatado que a França tem uma dívida de 85,4 % do seu PIB, (contra 102,4% dos Estados Unidos) e um déficit que está em 5,7% embora tivesse chegado a 7,1% (versus 11% dos americanos). E a comicidade chegou ao climax quando a inefável Standard and Poor´s acabou por declarar que a situação francesa era melhor do que a dos Estados Unidos, sobretudo porque o pessoal do vinho e do queijo controlava melhor a execução orçamentária. A conclusão depois dessas trapalhadas e da especulação que se deu em cima, principalmente, dos bancos franceses é que o capital financeiro está em desespero e relativamente desarticulado e não está enxergando uma trajetória a seguir. Vamos então à depredação do patrimônio: os mercados financeiros estão caindo; as moedas (dólar e euro) estão balançando, balançando; e os Estados europeus estão quase preparados para uma queda em dominó: Irlanda, Grécia, Portugal... Espanha...Itália, e hoje...França (escrevo quarta-feira, dia 10).


Ah! O ouro chegou a 1.800 dólares.


2) A saída da Europa é política e tem de haver um movimento em direção a um Tesouro europeu, agora, já! E preparar uma agenda onde se estabeleça um projeto de constituição de um Estado. Faço, então, as indagações indispensáveis: querem isso os países da região, os políticos e os povos europeus? Querem isso Sarkozy e Ângela Merkel? Veja-se a Alemanha, sua população está rejeitando qualquer movimento de aportar recursos. É certo que a Alemanha vai ganhar, mas como diz meu colega André: “vai perder, porque vai pagar a conta”. Na Europa, temos o exemplo frontal de que, nos últimos tempos, os capitais foram na frente, varando tudo o que encontravam na estrada, até que a crise de 2007/08 deu uma porretada neles. E depois, logo em seguida, ampliaram e se enredaram mais ainda nos empréstimos aos Estados da mesma zona, empréstimos impagáveis, como o que acontecerá com a Grécia. Ou seja, na Europa, parece que, se houver uma crise bancária, ela se tornará igualmente uma crise de Estado. E se, ao contrário, a crise vier do Estado, ela se transformará imediatamente em crise bancária. Portugal mostrou isso exemplarmente. Por isso que todas as ajudas aos países têm que resolver tanto o endividamento estatal como o fortalecimento dos bancos. E olhem que nem estamos falando no crescimento da economia e no aumento do emprego.


FÁCIL DE NOMEAR


Retornamos ao ponto fundamental. Olhe-se por onde se olhar, esmiúce o que tiver que ser esmiuçado, estamos numa crise do capitalismo, uma crise que não é uma crise da longa duração, mas sim uma crise do longo prazo, na verdade um crise cíclica, uma crise de um padrão de acumulação em transição para outro. Fácil de nomear, difícil de chegar ao outro lado do rio. É preciso aprender a nadar.


 

quinta-feira, agosto 04, 2011

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
04 de agosto de 2011
Coluna das quintas

A DÍVIDA BANDIDA
Por Enéas de Souza

A crise americana tem que ser vista na articulação do curto com o longo prazo, tanto no campo geoeconômico quanto no plano geopolítico. O que faz com que a questão da dívida seja algo que tenha aspectos superficiais e imediatos, claro que importantes, mas que atravesse a lâmina da atualidade em direção à trajetória futura. De um modo geral, a História vai se fazendo sem que os atores tenham muita consciência do que estava e está acontecendo. A tensão midiática dos últimos dias foi talvez por temas menores, mais fáceis de serem consumidos pelo público, principalmente porque a mídia tem uma vocação melodramática - e subterraneamente cômica. No caso americano atual a épica foi descartada. Ninguém é um herói de algo que não existe: a epopéia da dívida. Sem maiores análises, a dívida traz personagens do mal, personagens do bem, vilões, farsantes e crápulas, samaritanos e vigaristas, bandidos e fanáticos. São tantas e tais personificações de realidades concretas que a crise pode terminar numa feira de seres exóticos. Mas, se a dívida em si, para quem estava em contato com a política e a economia, era um tema relativamente ridículo. para os Estados Unidos, no entanto, se vistos na correta perspectiva, a partir do longo prazo, ela poderá revelar algo. E é este algo que tentaremos ver.

A DANÇA DA DESORDEM DO CURTO PRAZO



1) Primeiro vejamos a questão do curto prazo. O que estava em jogo aqui era mais uma problemática política do que econômica. Para a economia americana, embora a dívida fosse alta, ela era manejável e os Estados Unidos não iriam entrar em default. O default veio pela questão do teto, que é uma questão política e econômica do Congresso, que estabelece, periodicamente, um limite para o país se endividar. Ou seja, economicamente a dívida não seria problema. E nem seria se, por acaso, ela aumentasse e crescesse e ampliasse, e se alargasse, os Estados Unidos não iriam sofrer qualquer problema na questão do crédito, na questão dos juros, na questão de prazos; as coisas correriam normalmente, se os republicanos não pusessem a sua garra política.



2) E olhado o panorama, visto de qualquer ponto, a gente podia constatar: o governo tinha boa postura, estava examinando cortes de gastos, mas também e principalmente aumento de impostos, num país de pouca carga fiscal, ao redor de 26%. Normalmente estava também cogitando, como todos os governos do mundo, da feitura de novos empréstimos. Claro, para um tomador com triple AAA, portanto com crédito lá em cima, pagador pontual, com uma moeda passando alguma dificuldade, mas uma moeda de alcance universal, a dívida não seria nenhum problema. Então, a crise econômica não dançou pelo lado econômico, encrespou-se pela face e atmosfera política. A intenção desastrosa de cortar gastos e manter o teto da dívida em rédea curta, oriunda do partido republicano – e da Tea Party, sua banda ultra-direitosa – vai trazer, querendo ou não querendo, repercussões econômicas. Porque com o resultado da votação e da birra política contra Obama, a posição majoritária negociada no Congresso carrega na ponta de seus votos uma contração econômica potencial. Os americanos e o mundo vão ver; logo, logo.



3) A questão foi uma questão política com uma forte tonalidade ideológica. E a questão política cozinhava um objetivo claro: fustigar e desgastar o presidente Obama. A derrota deste nas eleições parlamentares de novembro foi terrível, porque os republicanos alcançaram maioria na câmara dos deputados, e passaram, com certa raiva e fúria, a ameaçá-lo e mira-lo com um fuzil preciso: disparar contra sua re-eleição. Armava-se, então, nesta jogada da dívida, um ataque cerrado, buscando a paralisia do governo. Uma paralisia para liquidar com a imagem do presidente. E o lance do teto era uma meta para atingir o ponto de inversão da vitória de Obama nas eleições de 2008. E conseguir, com o desgaste do democrata, o retorno dos republicanos ao poder na eleição presidencial do ano que vem.



4) E como se deu o passa-pé político? Ora, após a explosão financeira de 2007/08, começando no termino do governo Bush e continuando no início da administração Obama, o Estado teve que se endividar, aumentando a mal falada dívida pública. Esta que agora estava na marca do penalty. A verdade é que Busch assoprou sem temores, na onda patriótica do 11 de setembro, a inflação da dívida, por causa da guerra do Iraque e do Afeganistão e do primeiro pacote da salvação dos bancos. E como um esperto da direita, para bloquear a crise econômica, fez uma manobra contundente, deu uma forte isenção de impostos, sobretudo para os ricos. Isenção que chega até o governo atual, afetando o lado da receita desde então. Por isso, Obama queria aumentar os tributos para recuperar a arrecadação perdida.



5) E por causa da incrível e da progressiva política de desregulamentação financeira - começada com Clinton e ampliada por Bush e encabeçada nos últimos tempos deste, pela política do Tesouro de Paulson – emergiu, com espalhafato, o grande escorregão das finanças. Dele, pelo risco sistêmico, eminente e iminente, saiu sem dor para elas, a participação do Estado na salvação das instituições financeiras. Tendo como nome mais expressivo o Lehman Brothers, a conta vazou para o governo Obama, que teve que praticar um segundo pacote, o segundo “bailouts” dos bancos. Eles receberam 1,75 tri de Bush; 1,75 tri de Obama. E note-se: com aprovação do Congresso. O mesmo que atira agora a pedra na vidraça da dívida.



6) Se a gente examinar quem fez a dívida do governo americano, os registros indicam: dos 14,3 trilhões a pagar, 6,1 são do governo Bush; 2,4 do Obama, e 5,2 das administrações anteriores a Bush (Clinton, Bush pai, Reagan e de administrações anteriores ao ator presidente). As perguntas geram as inquietações: não foi um pouco de safadeza política a jogada dos republicanos? Política é isso: era uma vez o Oeste?



7) Mostro esta moldura financeira para desenhar o rabo de foguete e o engarrafamento de fim de tarde que pegou Obama. E o resultado foi demolidor. Só que foi demolidor para todo mundo. Os republicanos viram a sua maioria se dividir (dêem uma olhada no quadro de votações), por causa de um grupo partidário rebelde e fanático como o Tea Party. Estes não trouxeram contribuição inovadora nenhuma, suas propostas eram fortemente neoliberais e reacionárias. As primeiras envolviam corte de gastos e bloqueio do aumento de impostos. E as reacionárias propunham: só gastar o que for arrecadado. O que é um absurdo ideológico na política econômica porque desconhece não só as funções do Estado como iguala do ponto de vista macro este a um indivíduo. Simplesmente ignorando que o primeiro não quebra e o segundo tem um limite de endividamento muito curto.



8) Ora, a questão da dívida foi um mel, foi um quindim, foi um molho de baunilha para os republicanos. Ganhavam apoio do público seja por causa da busca de cortes (“o governo gasta demais”), seja porque todo mundo paga imposto em excesso (ocultando que os ricos foram isentos pelo Bush) seja por causa da idéia maluca que as pessoas têm que a administração do governo é como a da sua casa. Olhemos, agora, um pouco para o montante adequado de uma dívida pública. A Comunidade Européia estabeleceu, no tratado de Maastrich, um limite razoável para o endividamento dos seus membros, algo em torno de 60% do PIB. Deve-se levar em conta que os Estados Unidos estavam próximos dos 100%. o que é um tanto alto. Só que para a maior potência do mundo é pouco. Não há quem não queira emprestar para eles. Vejam a China tem 1 trilhão e 300 bi de dólares aplicados em títulos do Tesouro americano. O Brasil tem 220. Todavia, a idéia de calote nunca esteve no horizonte do governo Obama. A má-fé dos republicanos jogou a víbora no pescoço dele.



9) Como disse: todos perderam. Os democratas tiveram uma derrota incrível, porque se partiram ao meio na Câmara dos Deputados, metade a favor, metade contra. A esquerda do partido se rebelou e pôs a nu a frágil liderança de Obama. Todo mundo está dizendo que ele perdeu. Mas, não sei não. Sim, sim, imediatamente, sim. Mas, Obama, que tinha sido eleito por uma massa de centro-esquerda, foi lentamente, dado uma Câmara profundamente adversa, e manobrada por lobbies financeiros e por republicanos de direita e de ultra-direita, escorregando exatamente para este lado, para a centro direita. E daí fica evidenciado o seu jogo. Ele funciona como Ulysses Guimarães funcionava no Brasil, sempre procurando o meio, sempre procurando o centro. Obama saiu da centro esquerda e deslizou para a centro direita. E tudo porque, a meu ver, há um cálculo político eleitoral. Ganhar o centro, embora perdendo a esquerda e conseguindo bloquear a ultra-direta do Tea Party, para nesta aposta, arriscada aposta, ganhar em 2012, mantendo inclusive um leve discurso à esquerda. Será isso?



O DILEMA DA TRAVESSIA AMERICANA



1) Mas, o que está em jogo, mais profundamente, nesta luta? Antes de qualquer coisa, aquilo que José Luís Fiori disse recentemente: o futuro dos Estados Unidos. E, a meu ver, estamos percebendo um bloco de poder se desmanchar na nossa frente. Um bloco neoliberal, que no limite, ainda está com poder e tenta manter os anéis, depois da saída de Bush, humilhado com o fracasso da guerra e da economia. Este grupo, que vai se derretendo, constitui-se numa expressão política – não direta e mecanicamente, é claro - de um bloco econômico onde se aglutinaram indústria bélica, finanças, mídia conservadora, indústria de automóveis, construção civil ligada à guerra. Bloco que sustentava as instituições neoliberais (deregulamentação das finanças, saída do Estado da economia, agências estatais dirigidas pelos capitais, etc.) e a política da unilateralidade americana (baseada na luta contra o eixo do mal e da intervenção militar do império onde necessário fosse). Duas sementes que não dão mais as mesmas árvores.



2) Este bloco é que nem cachorro baleado; gane, gane, e tenta manter-se de pé. E o desespero contra Obama é porque este representou uma leve transição. Na verdade, um anúncio de uma transição. Pois para que ocorra uma transição efetiva é indispensável que haja uma nova configuração econômica e uma outra realidade política. E por incrível que pareça pode-se até vislumbrar a trajetória dessa passagem. Contudo, o leitor, sabe bem, quem está no poder; mesmo caindo resiste até as últimas balas, emprega os seus derradeiros punhais. O neoliberalismo está batendo pé: não quer que a sociedade se transforme, parece a Nora Ney cantando “Meu mundo caiu”. Por essa razão, segurando as entranhas em sangue, como um personagem patético, os Estados Unidos estão diante de um dilema: ou a próxima eleição será o momento da restauração neoliberal ou a passagem para um outro mundo começará a se fazer.



O FUTURO COMEÇA A ENSAIAR A SUA CENA



1) As tarefas dos Estados Unidos são árduas e inadiáveis. É preciso que tenham uma posição clara na geopolítica. Há todo um movimento de reformulação que está sendo feito e que envolve um reposicionamento com a Europa (e nela, com a Alemanha), uma reaproximação com a Rússia em busca de retomada de territórios e prestígio; uma tentativa de manutenção e reformulação do Oriente Médio; uma ação atrasada e meio precária para não perder a África, e uma busca de revisão com a América Latina, principalmente com o Brasil. O jogo maior e certeiro é para bloquear e cercar a China, que visivelmente está em tremendo avanço, e com uma substância altamente explosiva para o mundo neoliberal. Talvez a maior carta chinesa seja o Estado, Melhor: a forma como ele está organizado. Porque o Estado chinês tem o domínio da política, da produção, das finanças, do comércio externo, o que proporciona a possibilidade de focar a construção de um novo modelo de acumulação de capital centrado na produção e com apoio do sistema financeiro. A China tem, em desdobramento desta arquitetura econômica, um projeto de fazer da geopolítica mundial a construção de um duo entre ela e os Estados Unidos. E nesse momento, para agravar a crise deste último país, os asiáticos estão impondo o seu jogo aos adversários. Mas que ninguém se engane: toda esta crise americana é uma crise de transição do Ocidente para um novo processo de acumulação que passará das finanças para a produção. E embora a China progrida velozmente no plano produtivo, a liderança das altas tecnologias ainda permanecem com os americanos. Por isso, avaliando tudo, está tão difícil a transito, porque na terra de Tio Sam as finanças e o neoliberalismo resistem o que podem a qualquer alteração, política e economicamente.



2) Portanto, a crise do teto da dívida americana é um episódio de superfície, que indica a vinda de transformações profundas na sociedade planetária. Elas ocorrerão em todas as dimensões. Na política, na economia produtiva, na economia financeira, na disputa militar, na produção cultural, etc. O que indica que o neoliberalismo como expressão da hegemonia financeira-militar dos Estados Unidos, com a dupla ideológica “livre comércio e democracia” atravessam um estado de pneumonia aguda. Resiste fortemente às mudanças, pois são privilégios que saem em troca de privilégios que entram. Só que a força e a energia que estão sendo contidas pressionam, enquanto que as forças, outrora dominantes, se seguram como podem e procuram com a algazarra ideológica deter - para usar na política uma expressão que Schumpeter usou na economia – a destruição criadora que virá. E para o leitor e para o analista, a pergunta final: onde está a ênfase dos próximos tempos: na destruição ou na criação?

quinta-feira, julho 28, 2011

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
28 de julho de 2011
Coluna das quintas

NEM EUROPÉIA,
NEM AMERICANA:
A CRISE É MUNDIAL
Por Enéas de Souza

1) André Scherer escreveu um belo artigo em http://econobrasil.tumblr.com/ sobre a crise européia. E como num jazz, ele tocou uma guitarra, agora, estimulado pelo som, pela música, toco o meu sax tenor. Estamos numa plena “jam session” ou num sarau sobre a crise financeira internacional. O que poderia dizer em paralelo? A minha primeira frase musical vai para a velha tese, que André também concorda: a questão é o domínio econômico e político das finanças. E, em minha opinião, é preciso retomar a autonomia do político em relação à economia; isso porque, certamente, a política está dominada, subordinada, funciona como serva das finanças. Claro, a Alemanha observa o lado geopolítico. E pode-se ver que toda a sua manobra, desde muito tempo, era compor uma parceria crítica com a Rússia e enrolar a França deste gênio Sarkozy para fazer da Europa, uma Europa dos capitais. E, nesse movimento, tomar uma posição mais consolidada em face dos Estados Unidos e da China. A Comunidade Européia sempre foi um sonho da Alemanha... para a Alemanha.

2) Cabe falar um pouco da Europa dos capitais. Pois, a idéia alemã era exatamente isso: avançar num espaço sem controle, o espaço europeu, sem nenhuma força política, salvo os Estados e as representações limitadas dos Estados, para ter um espaço de domínio da valorização dos capitais europeus. Um além Estado nacional onde o capital pudesse se valorizar sem freios. Ou melhor, com algum controle, só que a seu serviço, em seu benefício. Por isso, para arbitrar as desavenças entre as instituições financeiras, foi criado o Banco Central Europeu. E, inclusive, para definir coisas singelas para os capitais, como a taxa de juros básica do sistema.

3) Parecia essa idéia uma aleluia. O sistema inventa e os homens – no caso, os financistas – ficam à margem como pescadores na borda do rio das finanças. Mas o que importa de um modo geral aos homens de negócios são os cálculos da economia sem ver que essa só se mantém se existe uma dinâmica que passa pela ordem política. Então, Volker, o presidente do FED, inventou, sem saber, o dólar como moeda financeira, depois de 1979, que inclui duas coisas, duas realidades: a taxa de juros que assegura ao dinheiro a valorização temporal mínima desse capital, mas que se materializa nos títulos do Tesouro, no primeiro caso, nos títulos do Tesouro Americano. Esses dois elementos garantem a moeda com a sua função principal de reserva de valor, num mundo pós-Bretton Woods, num mundo sem o dólar ouro, com o dólar financeiro.

4) Falei duas condições: o Banco Central com sua taxa básica e o Tesouro, com o termo que garante a valorização do dinheiro. Pois vejam a falseta européia. Criaram o Banco Central, mas não criaram o Tesouro – deixando a cargo dos países componentes da Comunidade a garantia da moeda, ou seja, cada país sustentava o Euro com o seu Tesouro. Olha só o lado manco que a Europa armou: um banco central geral, mas vários Tesouros, alguns Tesourinhos, para sustentar o Euro. Olhe e pense o leitor: o Tesouro irlandês, o Tesouro português, o Tesouro grego estão à altura do Tesouro Francês e, suprema comparação, do Tesouro Alemão? O Euro criou o múltiplo e capenga Tesouro esfacelado da Europa. É essa multidão de pedaços que os políticos europeus estão tentando costurar.

5) Dirá o leitor controverso: mas, alto lá! Como é que a moeda européia continua geralmente valorizada no mesmo nível por relação ao dólar (1,40)? Ambrose Evans-Pritchard matou a questão. O euro está caindo em relação a várias moedas, inclusive o “Brazilian Real”. Ou seja, o dólar e o euro são duas moedas bêbadas. Claro, tem um lado que a desvalorização tenta servir ao comércio externo dos países da Europa e dos Estados Unidos, tentando favorecer suas exportações. Mas o fato é que o eixo inflamado USA-Inglaterra-Comunidade Européia está em queda na sua sustentação econômica, caracterizada pela derrapagem de suas moedas. E essa derrapagem está expressando a queda desse eixo em relação à China. E o problema é grave, porque o yuan não é moeda de mercado, não tem capacidade para ser moeda mundial, o que significa que nosso Mantega tem razão: estamos numa guerra cambial. E, sobretudo, o sistema monetário internacional não tem uma moeda forte para conduzir o processo das trocas.

6) A Europa está complicada porque o jogo está sendo feito em cima não de uma Europa política, mas sim de uma Europa dos capitais, que, para se proteger, avança mais um pouco o lado político. É isso; mais um pouco. Vejam: o Fundo de Estabilidade Europeu tem mais possibilidades de ser uma Agência Européia de Resgate de Dívidas do que um Tesouro. A turma segue com cuidados, mesmo agora, quando Trichet, o presidente do BCE, já está convencido que é preciso um Tesouro europeu. Não adianta, a turma vai num passo cauteloso por causa da necessidade do capital não querer controles sobre si e desejar manter um poder forte, intenso, de pressão, sobre o(s) Estado(s).

7) O projeto das Finanças européias não é incrementar a formação do Estado europeu, salvo se ele for absolutamente necessário. Por quê? Por causa da liberdade de ação. A tal autorregulamentação dos capitais. Eles tiveram um susto com a Grécia, Portugal e Irlanda. Mas acreditam que driblaram a crise. E vejam só como pensa uma cabeça de banqueiro: vamos ajudar os gregos, os irlandeses, os portugueses. A taxa de juros é, digamos, 5%, agora estão baixando para 3, 5%. Pois bem, ajuda? Vejam a Alemanha paga 3%. Pois mesmo nesta ajuda existe um premio de risco de 0,5%. que os capitais vão faturar. É obvio que para os países em crise é um grande negócio, pois a Grécia chegou a pagar 17% de premio. Mas ajuda? Ajuda, sim, só que os caras ganham ainda um naco. Ou seja, ajudam, contudo continuam, para não perder o costume, batendo o bolso dos contribuintes gregos. Na verdade, a pergunta decisiva é: a quem eles estão ajudando?

8) Quem ganha? Em primeiro lugar, as finanças que não quebram, e, em segundo, os Estados dos bancos emprestadores. Porque se quebrarem os bancos, quebram os Estados também. O pacote é sensacional porque é um pacote financeiro que tenta salvar todo mundo: Estados devedores, bancos dos Estados devedores; bancos emprestadores e Estado dos bancos emprestadores. E nesse lance, há algo que é preciso enxergar: a Alemanha forçou todo o tempo a entrada, na “ajuda”, dos capitais privados. À primeira vista é interessante, porque os bancos são “voluntariamente” convidados a comparecer, modificando juros para baixo e prazos por mais tempo para cima. Certo? Certo! Só que há um pequeno detalhe: Ângela Merkel concitou os banqueiros a entrarem nas negociações, o que é um escândalo, porque aprofunda a combinação Estado-bancos. E consequência tem sabor especial: os bancos propõem uma atitude particular numa negociação de Estado e o Estado se privatiza mais ainda, com as finanças aumentando o seu domínio público. Maravilha!

9) E, pelo apresentado acima, se pode ver que as finanças, com cumplicidade dos chefes de Estado dos países, não só resistem à formação dos Estados Unidos da Europa, como os avanços eventuais que se façam, serão desviados, em cima do lance, em proveito delas. Ou seja, Estado nunca! A não ser que sejamos os donos dele. Por isso, não acredito que a Europa se faça Europa sem que haja uma hecatombe. E o passo feito agora é apenas para construir um arremedo de Tesouro, uma Agência de Resgate de Dívidas. E se conecta nesse link uma integração dos banqueiros na reestruturação da dívida, compondo com o grupo de dirigentes do Estado um acréscimo da privatização das decisões estatais.



10) Uma coisa importante que André e eu concordamos: não há crise grega, ou crise irlandesa, ou crise portuguesa. O que há é uma crise européia. E para dizer a verdade: a crise não é européia. Nem européia, nem americana, a crise é da economia mundial. E ela vem avançando a partir de um eixo que está desabando, fenômeno de geologia econômica, capaz de trazer para o primeiro plano uma profunda crise financeira que culmina numa crise monetária. E, no caso, uma dupla crise monetária: o dólar pelo lado americano e o euro pelo lado europeu. Então, como afirmamos acima, a crise da moeda tem origem numa crise do Estado. Efetivamente, o resultado vem a galope, estamos diante de uma imperiosidade de grande envergadura: a mudança da configuração atual do Estado. E aparece a fatal pergunta: mudará?

11) O que é que deve mudar nesses Estados? Primeiro, o retorno da soberania, do poder e da autonomia do Estado em relação às forças econômicas. É a política que deve assumir o comando do processo social, em função dos interesses do Estado e da sociedade. O poder que institui é o povo, a população, a multidão, a sociedade, em nome do qual se governa. A pergunta do momento: não foi exatamente a idéia de Bem Comum que as finanças esqueceram?



12) Pode-se ver a realidade do poder social através da posição que o Banco Central ocupa no conjunto das instituições. E daí vem a pergunta subseqüente: como é que existe um órgão encastelado no Estado, com o poder coercitivo do Estado, que não se submete ao poder executivo, quando toma medidas executivas? Ora, não pode o Banco Central ser autônomo e nem, muito menos, independente do governo. Ele tem que estar integrado na política econômica do Estado, numa política econômica global, que atue sobre as políticas monetária, cambial, fiscal, financeira, mas também sobre as políticas industrial, tecnológica, de rendas, agrícola, agrária e sociais, mesmo num quadro de acumulação de capital multinacionalizado. Por isso se percebe a mágica das finanças. Sob a alegação de que não deve haver influência política nas decisões financeiras do Banco Central faz-se uma agência que decide “tecnicamente” sobre as variáveis que influenciam o mercado. “Tecnicamente”, é claro, quer dizer que as melhores decisões são aquelas que encontram as soluções mais benéficas para a concorrência dos capitais na esfera financeira. Mas, atenção, se conseguiu algo melhor ainda – e essa foi a solução dos últimos tempos - as finanças passaram a deter a sua própria regulamentação. E o que sobrou para o Banco Central? Definir a taxa juros básica do mercado e coordenar, nas crises, soluções para as falências ou pacotes de salvação para as instituições financeiras.

13) A segunda mudança fundamental do Estado é a posição que o Tesouro assume na sua estrutura. Ele não pode ser instrumento de uma política financeira das finanças, tem que ser um dos pilares da política e da estratégia de um Estado. Logo, o que importa na dinâmica da política contemporânea é a mudança das relações políticas, de uma sociedade que impeça o assalto do Estado que as finanças fizeram e fazem nos dias que se aceleram. É óbvio que essa mudança só se processa no tempo, depois de muito combate e muita luta, na continuidade dos fracassos sociais rotundos das políticas geradas pelo atual setor hegemônico. No entanto, ela já está a caminho. Só que sua concretização depende do persistente trabalho da política e da sociedade.

14) Podemos dizer que, na dimensão histórica da vida presente, essa metamorfose se fará no bojo de uma dupla passagem. A passagem geopolítica da unipolaridade americana para a bipolaridade USA-China, e a passagem de um modelo de acumulação de capital centrada na produção de petróleo e automóveis e produção em massa para um modelo baseado nas novas tecnologias de comunicação e informação (revolução da informação, “cheap microeletronics”, computadores, softwares, telecomunicações, biotecnologia, novos materiais). É nas lutas para essa dupla passagem que poderemos buscar à seguinte realidade, o seguinte e óbvio objetivo: não são os povos que devem servir as finanças, mas as finanças que devem servir aos povos. Por que uma realidade tão clara foi obscurecida por tanto tempo pela filosofia e prática do neoliberalismo?

quarta-feira, julho 27, 2011

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Entrevista com Enéas de Souza no Sul 21

Grande (nos dois sentidos) entrevista com Enéas de Souza no jornal online Sul 21.

CANCELADO O DEBATE COM LUÍS BÉRTOLA

Informe da Assessoria de Comunicação da FEE:

Comunicamos que a palestra “Rasgos principales del desarrollo de América Latina desde la Independencia”, que ocorreria no dia 28/07, está cancelada devido à impossibilidade de o palestrante, Luis Bértola, embarcar para Porto Alegre na data e horário programados

sábado, julho 23, 2011

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Algo de estranho acontecendo

Quando eu escrevo um artigo e o pessoal ultra-conservador do Telegraph argumenta no mesmo sentido, que o "pacote europeu" está atrasado ao menos em 18 meses, tem algo de errado acontecendo...

 E eu suspeito que o que está muito estranho é a economia mundial.

PS: outras indicações de que algo está muito errado:
1) o Presidente da BundensBank declarou que o acordo apenas transfere os riscos para os países mais fortes e reduz o incentivo ao juste dos endividados. Essa é uma das questões que não explorei suficientemente no artigo abaixo: mesmo que haja vontade política e instituições garantidoras, não haverá uma contaminação dos países mais fortes (França e Alemanha) pela dívida dos mais fracos?;
2) a agência Fitch declarou o défault da dívida grega. Algo me diz que o "mercado" vai exigir novas explicações dos líderes europeus ainda nessa próxima semana.

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Colapso do Bank of Ireland confirmado

A agência noticiosa Reuters confirma que o governo da Irlanda está em tratativas com investidores privados na tentativa de não nacionalizar o maior banco privado do país, insolvente desde o início do mês de julho. Será mais uma transferência ao setor público dos prejuízos financeiros do setor privado, aumentando a já enorme dívida pública irlandesa, com  potenciais transbordamentos para bancos ingleses e norte-americanos. 

Até agora, nada na Bloomberg, Financial Times, WStreet Journal... Sintomático.

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Potencialidades e riscos do novo acordo europeu, por André Scherer

O acordo estabelecido no dia 21/07 entre os líderes europeus baseia-se em quatro pontos:

1) 1)  a extensão do European Financial Stability Fund (EFSF), em tamanho e escopo (tornando-o o embrião de um Fundo Monetário Europeu capaz de tomar medidas preventivas em relação às dívidas soberanas e aos sistemas financeiros em risco), de modo a garantir as dívidas dos países europeus ameaçados de défault;
2) 2) a redução dos juros e alongamento dos prazos das dívidas de Irlanda, Portugal e Grécia, com comprometimentos diferentes entre esses países (maiores e mais claros em relação a Grécia; não tão explícitos em relação aos demais);
3)     3) o “convencimento” aos bancos privados em aceitarem uma perda em torno de 21% de seu engajamento em relação aos títulos gregos – e somente os gregos -, o que configura o já famoso “défault seletivo” a ser proclamado pelas agências de notação na próxima semana, com conseqüências sobre o mercado de Credit Default Swaps (CDS);
4)  4)  criação de uma agência de rating européia que possibilite uma maior independência em relação ao julgamento promovido pelas agências tradicionais.

   Há um enorme potencial para o aprofundamento institucional da União Europeia nas decisões tomadas na última quinta-feira. Esse pode ter sido o dia em que, finalmente, os europeus se deram conta de que o atual suporte institucional e orçamentário é estruturalmente deficiente. Há, nas medidas propostas, um cheiro de união fiscal e política, única forma de vencer a crise avançando em direção ao “projeto europeu” de unificação, esboçado após o final de II Guerra Mundial.

   Afinal, as medidas aprovadas somente têm alguma probabilidade de sucesso em médio prazo com a institucionalização de um Tesouro Europeu que fará dos países hoje existentes entidades sem substância econômica e/ou capacidade política. E, em funcionando, um país vencedor, a Alemanha, que suportará a dor dos bail-outs necessários à consolidação fiscal dos países devedores, tal qual suportou os custos da sua própria unificação. E continuará tendo um mercado quase cativo nos agora disciplinados países “periféricos” da Europa Unificada, incapazes de disputarem politicamente o comando (ou as resistências) em face de seus “salvadores”. O que não foi obtido pelas armas pode ser possível obter pela via do “mercado”, num reflexo europeu de uma ditadura soft engenhosamente engendrada pelas finanças em nível mundial, com a submissão daqueles que se deixam capturar pelo jogo financeiro.

   A “nova periferia” européia sobreviverá em uma institucionalidade (inclusive Espanha e Itália, obviamente) a ser construída em um momento em que seu peso político e seu potencial para se contrapor as decisões franco-alemãs será praticamente nulo. Mas, em vencendo a etapa inicial e os conflitos políticos internos, haverá uma Europa, uma política fiscal, monetária e externa européias, unificada; e um espaço a disputar no complicado jogo geo-econômico global da primeira metade do século XXI.

No entanto, nada indica que o caminho esboçado acima possa ser facilmente percorrido a partir de agora. A lista de percalços é longa, mas, para facilitar a compreensão, iniciemos por aqueles de caráter mais “conjuntural” (mas não menos decisivos para o desenlace do imbroglio):

1)   1) o timing para que uma decisão como a tomada nessa semana fosse indiscutivelmente efetiva pode ter passado. Esse é um problema recorrente desde o início da crise financeira mundial e que decorre, conforme inúmeras vezes argumentado nesse blog, de dois fatores complementares: de um lado, a incompreensão teórica quanto à gravidade e aos mecanismos que dão dinamismo à crise; de outro, a diferença no tempo de resposta aos acontecimentos da política e da “finança”. A finança propõe e a política reage. Inúmeras vezes, tanto no campo norte-americano quanto europeu (sem esquecer as instituições multilaterais como o FMI ou a BIS), ouvimos uma declaração que se repetiu na última quinta-feira:  a de que era hora de passar à frente, de ter em mão instrumentos  preventivos e ações conseqüentes engatilhadas face à dinâmica dos acontecimentos. Não há dúvida de que as decisões tomadas são uma tentativa de retomar a dianteira estratégica do Estado no jogo financeiro, mas terão elas a agilidade e o tamanho para uma resposta efetiva capaz de modificar o perigoso contágio em direção às dívidas espanhola e italiana já em curso?
2)  2) a incerteza quanto ao teor  e a capacidade implementação, econômica e política, efetiva das medidas propostas. Nesse sentido, é emblemático que o teor efetivo do pacote de medidas a ser considerado pelo parlamento alemão somente venha a ser detalhado pela chanceler Angela Merkel no final de agosto. As decisões cruciais concernem não apenas o tamanho do EFSF (o qual, segundo várias estimativas, deveria ser ao menos triplicado para cerca de 1,2 trilhão de euros de modo a ganhar em efetividade) mas também os prazos (há uma proposição de dobrarem para quinze anos ao invés dos 7,5 anos atualmente vigentes) e as taxas de juros (possivelmente limitadas a 3,5% ao ano). Como efetivar essas medidas com a agilidade necessária dadas as questões políticas envolvidas, especialmente na Alemanha?;
3)   3)  a extrema fragilidade do sistema financeiro privado, em particular na Itália e na Irlanda, coloca riscos de novas crises graves a serem resolvidas in extremis pelo Banco Central Europeu (BCE) a qualquer momento. Correm nesse final de semana rumores quanto ao défault dos bônus do Irish Bank, o último dos grandes bancos irlandeses ainda não nacionalizado, o qual teria proposto no início do mês de julho um desconto de 90% em sua dívida vincenda no valor de 2,6 bilhões de euros! Conforme a Reuters, a International Swaps and Derivatives Administration (ISDA) teria determinado o dia 28 de julho para a compensação dos CDS referentes ao credit event referente a Irish Bank, a qual seria nacionalizada em seguida. Sabemos que qualquer abalo maior na Irlanda repercute tanto na Inglaterra quanto nos EUA e, sintomaticamente, na semana passada os representantes do Irish Bank teriam feito o tour em Wall Street na busca desesperada por impedir o trágico desfecho. A história tem potencial e promete, caso se confirme, fortes emoções para a próxima semana. Na Itália, o Unicredit não sai das manchetes e já deu a clássica declaração pública de que “o banco se encontra suficientemente capitalizado” na semana passada... Nesse contexto, não é surpreendente que tenha havido insistência quanto ao fato de que o setor privado participaria “apenas no caso grego”, com a reestruturação “voluntária” da dívida soberana do país. Será factível e realista essa proposta?
   Esses, dentre outros problemas, devem complicar bastante a  efetividade da ambiciosa (porém tardia) proposta européia. Mas as questões estruturais envolvidas não são de menor monta, ao contrário. Para não me alongar muito nessa já imensa postagem cito:

1)    1) quem convencerá o povo alemão a pagar a conta das dívidas da periferia européia depois de toda a campanha midiática em contrário feita nos últimos anos?;
2) 2)  quem convencerá os povos dos “novos países periféricos europeus” a consolidar e cristalizar essa condição em uma nova institucionalidade européia?;
3)  3)  como garantir um mínimo de crescimento econômico no continente europeu,condição fundamental para o estancamento dos prejuízos financeiros, dados os planos de austeridade condicional que continuam a ser exigidos dos povos endividados?;
4)  4) como impedir o contágio recíproco entre União Europeia, Inglaterra e EUA, mantendo o livre fluxo de capitais?;
5)     5) como impedir um desastre no mercado de derivativos de crédito, dados os volumes envolvidos e o caráter sistêmico de suas relações financeiras complexas?

Volta-se ao início: os governos não entendem o que está em jogo, reagem tardiamente e com mecanismos inadequados ao estágio do problema. Como ensina François Chesnais, ao contrário de 1929, não podem e não desejam confrontar o poder financeiro. O fato de ainda estarmos lidando com um poderio financeiro praticamente intocado mostra que não existem forças nos Estados, no momento, para impedir um desfecho fatal. Essa segunda década do século XXI promete ser bastante agitada. O que o Estado não faz, o “mercado” desfaz, resultando em uma crise autofágica que somente pode nos remeter a Marx: “o limite do capital está no próprio capital”. Ou, reafirmando: “capital é crise”. O ambicioso pacote europeu parece pouco, muito pouco, face ao que está em jogo.


quarta-feira, julho 20, 2011

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
21 de julho de 2011
Coluna das quintas

OS TAMBORES DA ESPECULAÇÃO
E DA POLÍTICA AMERICANA
Por Enéas de Souza

O leitor atento tem muitas coisas para pensar e debater. Há, de um lado, a crise americana com a sua crise fiscal – o Congresso disputando um limite, um teto, para a dívida pública; há, de outro, a avalanche européia que vai derrubando a Grécia, Portugal e Irlanda e se avizinha como um anjo negro da Espanha e da Itália; há as relações perigosas da imprensa com o Estado na questão inglesa de Murdoch – o homem que sabia de menos – para contrastar com Hitchcock, o homem que sabia de mais. Temos um clima de incerteza no mundo, uma crise no compasso do estouro e outra, vindo logo ali atrás, e o Ocidente parecendo um bordel, onde todos os frequentadores estão brigando, estão se digladiando, com adversidades pelo caminho. Temos bandidagem, temos vigarice, temos chantagem, temos mortes, temos desesperança, temos desespero. Enfim, o avesso do dinheiro, da política e dos negócios. Se a gente toma a posição de um analista que vê as coisas como comédia e como tragédia, a gente sente que vamos ter muita confusão. Em todo caso, já dá para ver também que se pode chegar a um trabalho de observação agudo sobre o capitalismo, sobre as relações do Estado com a sociedade, sobre o conflito financeiro/produtivo, sobre as forças da política e da economia. Mas não se pode esconder que o Ocidente está muito bagunçado. Como o espaço é pequeno para tanta questão, vamos nos contentar em desenvolver uma rápida análise sobre o caso americano. A razão é simples. Já comentamos na semana passada a Europa e hoje vamos entrar no caminho americano, pois os Estados Unidos são a maior potência do planeta. E mesmo que a geopolítica esteja em transição da unilateralidade americana para uma bipolaridade com a China, o que parece interessante é que as vastas lutas no interior da sociedade americana, tanto políticas como econômicas, terão um papel decisivo na transição do capitalismo. Vejamos os conflitos que vive a “soi disant” América, para observar que, como na Europa, há ali também um barril de pólvora.



O DESENCONTRO DAS FINANÇAS E DOS CONSERVADORES



1) A crise americana, depois do tropeço de 2007/08, se encaminha para uma nova fase. Duas coisas avultam: uma nova crise especulativa e a questão do teto da dívida americana em discussão no Congresso nacional. A crise especulativa, depois de muitas assistências que o Estado deu às finanças, desde salvamentos a ajudas de liquidez, passa, agora, para um novo patamar, devido a um novo rastilho especulativo, onde sobressaltam os fundos mútuos. Ou seja, vamos para mais uma ameaça de queda do mercado financeiro. E isso vem evidenciar que o problema de 2007/8 não foi resolvido. O elemento radical para a solução da baderna dos mercados de títulos privados e públicos era e é a regulamentação do sistema financeiro. O que obviamente não aconteceu naquela ocasião, uma vez que as finanças conseguiram bloquear no parlamento qualquer tentativa de votação de uma lei que regulamentasse o setor.



2) Não escapa a ninguém que as finanças têm um poder de lobby absurdo, fulminante, devastador e podem arquitetar um muro, com a finalidade expressa de impedir qualquer proposta congressual. E podem brandir, no momento decisivo da hora crítica, a cruz do risco sistêmico. Vai vir tudo abaixo. E, então, o presidente de plantão, como foram Bush e Obama, tira da cartola, não um coelho, mas mais um plano de salvação. O leitor acertou: um plano de salvação com dinheiro público. E esses planos, de um modo geral, atendem bastante aos bancos, muito pouco aos empresários produtivos e praticamente nada aos trabalhadores.



3) Os banqueiros na Fórmula Um do dinheiro se acostumaram a ter o Estado, como um super-herói, ao seu lado. Mas, também, como se ele fosse um bombeiro disciplinado para apagar o incêndio das especulações que as finanças atiçam. No processo político-econômico, os financistas detém um tal poder no Legislativo que freiam qualquer dose de regras fortes ao setor. E, ao mesmo tempo, como um guri, como um moleque bagunceiro, sabe que, de um modo geral, o Executivo está pronto para entrar em campo e retira-lo das maldades dos excessos praticados. Essas ficam com a população e com o Estado. Assim, a tática das finanças com o Executivo e com o Legislativo é jogar perigosamente, mas nunca chegar a fechar as portas do bar – já que, com o contribuinte, elas acham que ele só tem que comprar os seus títulos, podres ou não. O resto é silêncio.



4) As finanças são conservadoras. Só que tem gente que é mais conservadora ainda, chegando ao campo da ultra-direita no Congresso, estando entre eles aqueles que simpatizam ou estão diretamente ligados ao “Tea Party”. Para esses conservadores, o tema preferencial tem outra cor – a de um vermelho sangue intenso – pois muitos republicanos querem a jugular do governo. O problema aqui é eleitoral e ideológico. Os conservadores querem derrubar Obama. E, então, toda a estratégia, sobretudo depois da vitória eleitoral no Legislativo do meio do mandato, é pôr água no chope, aumentar a radicalização contra o governo democrata. E depois da aprovação do programa de Saúde, a ação se fortaleceu e se cristalizou. Amarrar o governante e a burocracia, jogar em cima de um teto para o endividamento federal. Ou seja, buscar um controle maior do Estado sobre os gastos, sobre o déficit e sobre a dívida, sobre a assistência social e impedir aumento de impostos. E o jogo tem uma data fatal: 2 de agosto.



5) Se a insanidade vier à tona, o Congresso vai impor para o governo de Obama uma limitação na progressão da dívida dos Estados Unidos. Ora, essa medida levaria a um “default” americano, que certamente repercutiria devastadoramente sobre o dólar, o que anularia essa moeda como reserva de valor e afetaria todas as posições de países credores do Tesouro americano, como a China, Grã-Bretanha, Japão, países produtores de petróleo, Brasil, etc. O resultado seria a catástrofe.



6) Assim, embora sejam aliados contra o governo Obama, as finanças e os conservadores têm posturas distintas. Os financistas ambicionam manter o controle da política econômica. E, portanto, não distantes dos recursos e do endividamento público para que obtenham a salvação, caso necessitem dela. Os financistas trabalham no horizonte financeiro. E os conservadores querem retornar ao poder. Logo, seu panorama tem a ver com a política. Estão dispostos a fustigar ao máximo o governo Obama, paralisando-o, engessando-o, limitando seus raios de manobra, sua capacidade de receita e de gasto, etc. Querem que o governo fracasse.



7) O que se espera é que eles, os conservadores, não cheguem a afrontar a razão, criando um impedimento para que os Estados Unidos não refinanciem as suas dívidas e que possam se endividar tranquilamente em função de sua estratégia. Que não se pense no “default” como objetivo derradeiro. Pois como já vimos, caso ocorresse, isso seria o caos americano e mundial. Trata-se de uma demência. Assim, se os conservadores forem ao limite do inferno, o fogo fará do mundo um campo minado em explosão, cujas conseqüências são imprevisíveis. Afasta de mim esse cálice, pensaria Milton Nascimento. Portanto, que isso fique no limite do jogo político congressual e inter-partidário.



8) Agora, uma coisa é clara: enquanto as finanças não forem controladas, não haverá solução nem para a economia financeira, nem para a economia produtiva, nem para os avanços tecnológicos, nem para a liderança do Estado. O aprendizado geralmente vem dos erros – e de muitos erros. Só assim que os humanos e o capital e os governos começam a encontrar, com um faro que termina por aparecer, o caminho do longo prazo, saindo das disputas miúdas e destrutivas do curto prazo.



O ENLACE COM A EUROPA



Certamente, a configuração da crise dos Estados Unidos se articula com a configuração da crise européia, que analisamos semana passada neste espaço. O compasso da crise avança semana a semana, dia a dia, e o eixo que envolve Estados Unidos – Inglaterra – Comunidade Européia está inflamado em vários níveis. O que se põe em pauta aqui é uma figura desse eixo, as entranhas de um país fundamental. A especulação e o teto da dívida estão fervendo e as apostas dos personagens nessas duas cenas se conectam, se desarticulam e se concentram nos Estados Unidos e se espraiam para o resto do mundo. Aqui como na Europa, os tambores estão rufando, o que não quer dizer que China, Brasil, Rússia, África do Sul, Coréia e o resto do mundo não estejam atentos. Mas todos têm poder e não têm, porque a intriga da realidade é maior que as nações e os capitais. Cabe analisar o que dá, mas sabe-se que o jogo é feito entre a razão e a desrazão. Mostramos aqui nesse jogo americano, alguns pontos de sandice. Por isso cabe a pergunta: será que a razão será capaz de vencer a insanidade? Ou os homens e os países continuam os mesmos?

terça-feira, julho 19, 2011

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Um dia depois do outro...

Bom, na sexta-feira eu coloquei que não existia crise italiana e, sim, europeia e mundial... Hoje, sem surpresa,o blog Credit Writedowns traz um post sobre o já aparente contágio da crise para a França... e daí para a Alemanha:

 "The contagion to (France and Germany) is already starting if you look to the CDS market. It has done in the past as well but things always settled down again. You see that in the German and French CDS charts. This time I suspect France will remain slightly coupled."

Moral da história: em um mundo comandado pela valorização financeira especulativa, só bobo acredita em "fundamentos". Todos estão "nadando nus" quando a maré baixa (Warren Buffet). Já repetimos isso muitas e muitas vezes nesse blog!


sexta-feira, julho 15, 2011

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Não existe "crise italiana"; por André Scherer

Uma pequeníssima nota: não faz nenhum sentido examinar as condições da economia italiana, sua relação dívida/PIB, a maturidade de sua dívida pública... Nada disso faz sentido porque NÃO EXISTE CRISE FINANCEIRA ITALIANA E SIM CRISE FINANCEIRA MUNDIAL, a qual, nesse momento, tem um dos seus centros de contágio na Europa. Sim, a Itália pode fazer quanto ajustes fiscais e reduções de despesas públicas quiser E AINDA ASSIM ENTRAR EM DÉFAULT de sua dívida! É um problema de contágio, de mimetismo, de "miopia financeira" e não de "fundamentos". 

Sem financiamento, sem jogo.  E pior, com fuga de capitais, o que acontece? O problema "micro" é que a dificuldade em encontrar um mínimo consenso na UE em relação a quem perde e como no setor bancário privado europeu está levando a uma situação de fuga de depósitos bancários nos últimos dias. Isso aparece nas quedas do M1 em diversos países como a Itália... e a França! E no aumento dos depósitos bancários na... Suíça, o que tem levado o franco suíço a uma valorização record frente ao euro. As taxas do interbancário europeu estão variando nervosamente nos últimos dias, mostrando que os bancos grandes estão escolhendo seletivamente para quem vão dar funding. 

Nesse contexto, pensar isoladamente em crise grega, crise portuguesa, crise espanhola, crise italiana é simplesmente não compreender NADA  dos mecanismos de contágio financeiro em operação na Europa, é pensar com cabeça de "agência de rating", de investidorzinho rastaquera... Os fundamentos da Alemanha são ótimos, mas nem esse país está a salvo do contágio europeu, que possui facetas múltiplas e mecanismos variados.