quinta-feira, novembro 18, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL

18 de novembro de 2010
COLUNA DAS QUINTAS


O BURACO NEGRO DO DÓLAR

Por Enéas de Souza




A primeira coisa que a gente tem de considerar com a reunião do G-20 é que o neolibralismo está de fato em decomposição, em dissolução. Assim, o que se pode tentar entender é que esta crise é uma crise do capitalismo. Atenção platéia: falei crise do capitalismo. E com isso, é preciso perceber que o capitalismo está com uma perna quebrada, a financeira, e que está tentando um engessamento do resto da sociedade para se salvar, para evitar a gangrena. Olha só: o neoliberalismo fez com que o Estado despeje uma galáxia de dinheiro nos cofres dos bancos para salvar os ativos podres dos que “cuidam do nosso dinheiro”. Então, vou repetir: o neoliberalismo acabou e o capitalismo está em crise. E quando o capitalismo está em crise é isso mesmo que acontece: incapacidade de efetuar investimentos e alto volume de desemprego. Somando a esse ventinho pneumônico, aparecem as complicações de uma crise no comércio internacional e outra nos movimentos de capitais. Há uma doidura geral nos grandes países, principalmente nas transações mercantis: todo mundo querendo ter preço baixo para que os outros países comprem. E eles também desejam que os outros mantenham abertas as entradas de recursos financeiros para aplicações em títulos, bolsas e até mesmo ativos reais, obviamente para sacar do exterior os resultados que faltam nos seus próprios mercados.

Então, o que ocorre é exatamente isso: crise do capitalismo que se expressa cada vez mais naquilo que permite as trocas: a moeda. Claro que não podia ser diferente. Então, estamos numa crise da moeda que é uma crise do dólar. Por quê? Porque não temos mais um padrão monetário confiável nas trocas. Uma das funções da moeda é ser medida de valores. Ora, se padrão é tão volúvel, e pode ser mexido a toda hora, vão-se os preços, vai-se a moeda, vai-se o dólar. Como dizia o poeta Raymundo Correia: “Vai-se a primeira pomba despertada.../ Vai-se outra mais... mais outra...enfim dezenas.” O que a gente tem que entender tem origem nessa verdade: o dólar é hoje uma moeda instável, uma moeda que vai se desvalorizando, uma moeda problemática. O que traz um odor do início de uma profunda crise monetária. Os americanos querem continuar arranjando a sua economia, como se nada tivesses acontecido, e jogar a sua crise no colo dos outros países. Me joga uma bomba que eu gosto de explosão!

Portanto, tudo começa nos Estados Unidos. E começa porque eles eram a primeira economia do mundo e porque eles quebraram. O modelo financeiro de acumulação quebrou, os bancos quebraram, as indústrias quebraram. E o governo botou dinheiro nos bancos e o Banco Central entupiu com os títulos podres. O governo ficou com uma dívida cavalar e um déficit de urso. Ora, isso tudo que principiou em 2007 continua ainda o seu efeito. Efeito que passa para o campo das trocas, afetando, como um knock down de Cassius Clay, o padrão dólar. E a faísca que está no rastilho da dinamite é que os americanos querem vender agora cada vez mais para o exterior, para melhorar a sua indústria e o seu balanço comercial. Para tal, as outras moedas precisam se valorizar, principalmente o yuan. O diagnóstico já está feito a tempo: a culpada é a China. Ah! Ah! Ah! E vejam de onde eles tiram essa idéia: “antes da crise usamos os chineses para deslocar nossas empresas e ganharmos muito dinheiro. E fizemos muito comércio com os próprios Estados Unidos, pois eram as corporações de Tio Sam que estavam instaladas na China. E o que era melhor: os chineses – mágica suprema – ainda nos emprestavam a grana para cobrirmos os furos da balança comercial, comprando os nossos títulos públicos, sustentando assim os nossos delicados déficits anuais e a nossa interessante dívida. Pois bem, agora o jogo virou. É preciso que os chineses desvalorizem a sua moeda para exportarmos mais, para melhorar nossa balança comercial e também desenvolver a nossa indústria. E vejam só, os mandarins estão dizendo não. Ora, isto está virando bagunça; os chineses não estão com medo do Exterminador”. Será possível?

Ora, o que é que quer dizer isso? Jogo pesado e começo de uma guerra cambial. E este é um jogo que não é só de dois parceiros, mas de todo o planeta. Se esta guerra continuar e se os cowboys, os chins, os europeus, os brasileiros, etc. não se entenderem, a briga vai ser generalizada. No G-20 que passou, eles não se entenderam. E aí a coisa pode ficar feia: protecionismo, controle de capitais, desvalorização de moedas, guerra comercial. E desta cadeia de eventos pode resultar (hipótese ainda longínqua, mas não descartável) que algum militar na ativa ache que é preciso fazer alguma coisa, e tentar buscar produtos essenciais à força. Não é um quadro que não tenha ocorrido; pelo contrário, se dá ares de presença frequentemente neste Ocidente azoado. Lembraram do Iraque e do petróleo? A hora pode chegar novamente!

Então repito: crise do capitalismo, crise da moeda. E se o barco continua navegando pode chegar a outros portos; como uma guerra comercial. Ah!, a guerra da moeda não se trata apenas da desvalorização. Toda a questão monetária está em brasa. E por essa razão, duas coisas se insinuam no horizonte da crise. Primeira coisa: ou o dólar no seu processo de valorização progressiva deixa de ser padrão monetário e perde o lugar de equivalente geral; ou este último lugar fica sendo ocupado por diversos outros substitutos em situações pontuais: num momento pelo euro, noutro pelo yen, talvez num instante efêmero pela libra; etc. Nesse ponto, a função reserva de valor da moeda passa a não ter uma moeda mundial, uma moeda de um país que faça o papel universal, que garanta a plenitude da função examinada. E o mundo vira um bordel e uma algazarra. A inquietude torna-se a ave de mau olhar e a bagunça, a cortesia de mercados em decadência. Dito assim, logo se vê, os países vão brigar como Caim e Abel. Até que dê uma inspiração súbita pelo cansaço e aconteça um acordo internacional. O que só emergirá quando ficar nítido quem mandará no mundo. E o que se sabe é que os Estados Unidos são uma potência em caminho descendente..

E parece que não estamos equivocados, porque, se conseguirem se acomodar, o mundo vai ser comandado não por um, mas por dois líderes: USA e China. Cabe, com certeza, uma pergunta: quanto tempo vai levar para que se estabeleça essa conveniência que eles – e o mundo, por conseqüência – se entendam? Os chineses estão progressivamente organizando o seu mercadinho; os americanos nem começaram. A razão é notória: as entidades financeiras, com o seu Congresso republicano anti-Obama, não vão deixar. E o pior é que a antiga economia que eles organizaram se esfalfou e não vai dar mais nem pudim nem doce de leite. No entanto, as finanças vão morrer sempre dizendo que tudo tem que começar com o mercado financeiro, aquele que dá crédito para a produção. (Ouvem-se ao fundo novas e sonoras gargalhadas, porque as finanças são matreiramente especulativas, dão crédito praticamente apenas para o jogo do mercado de títulos e ações). Portanto, este acordo não é para agora. E, de outro lado, sabemos que os chineses não têm uma moeda de curso no mercado mundial. Vão ter que construir uma, possivelmente. Só que isso leva tempo. Ou seja, deste mato não vai sair padrão universal por um bom tempo.

A outra coisa que fica apontando no horizonte é o velho Bankor do Keynes. Uma moeda mundial, uma moeda de referência. Porém, agora, sob a idéia de ser uma moeda ponderada por várias moedas, por uma cesta delas. Até já teve gente falando no Direito Especial de Saque (DES), uma moeda do FMI. Só que aí teríamos vários problemas e a necessidade de uma instituição que tivesse capacidade de controlar essa nova realidade monetária. E obviamente que tivesse força. E não será esse FMI, um pouco vitaminado com novas contribuições dos participantes, que iria fazer o seu trabalho. Seja como for, essa solução vai ter que ter uma arquitetura, tem que ser construída sob um fogo duro e uma batalha vigorosa. Não há no oceano da economia terra à vista. E enquanto a caravana não passa, os cães vão se trucidando. O dólar, via o “quantitative easing 2” (olha o nome!), vai tentando emagrecer e perder valor e, por causa desse movimento, o administrado yuan busca a sombra do dinheiro americano. Já o euro, uma luta das finanças européias; tenta se manter vivo com a Europa se rasgando. Irlanda, Portugal, Grécia e Espanha na mira permanente do default. E na fila, ainda estão presentes candidatos um pouco mais robustos do que estes. A Itália, por exemplo.

Enfim, o que é certo é que o boteco da economia vai mal e o dono não tem dinheiro para garantir o jogo das mercadorias. E esta crise é ainda resultado da crise financeira que se desdobrou numa crise produtiva, que caminhou para uma crise das dívidas e déficits do Estado, que está na rota da deterioração do dólar, que pode levar a problemas monetários nos inúmeros países, que aponta no horizonte para uma crise comercial e que navega na direção ao maremoto de uma crise da ordem econômica e política mundial. Assim, não tenhamos dúvidas: o perigo é, se o mundo bobear, que o dólar acabe nos arrastando para o buraco negro de uma crise maior que a crise de 30. Mudanças sociais e de liderança na economia tem que ocorrer. O jogo entrou no segundo tempo. Por isso, respondam rapidinho: vocês pensam que as finanças têm solução para a economia mundial?

















quarta-feira, novembro 17, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: A armadilha por trás do EFSF, por André Scherer

O principal dispositivo europeu para combater à crise do sistema financeiro é o European Financial Stability Fund. Criado durante a crise grega, trata-se de um fundo sediado em Luxemburgo para servir de emprestador em última instância aos países em dificuldades. Em realidade,o EFSF lastreia emissões de dívida no mercado a partir de um colchão de capital providenciado pelos membros da Zona do Euro.

Satyajit Das mostra que esse mecanismo tende a se tornar um meio de contágio entre os países em dificuldades e os países em situação "normal".  Na medida em que a Irlanda, por exemplo, venha a utilizar recursos do fundo, mais aportes serão exigidos dos demais países para que o EFSF possa preservar sua capacidade de captação no mercado a juros relativamente reduzidos. Ora, supondo-se que países como Portugal e Espanha também venham a se utilizar dos recursos do fundo, maior será a contribuição dos demais países. Ou seja, as contas públicas alemãs (por exemplo) tendem a se deteriorar pelos aportes que o país terá que fazer ao EFSF, na tentativa de mantê-lo operacional. Isso somente pode ocorrer se os países em boas condições tiverem a possibilidade de levar seu endividamento no mercado, o que mostra bem como existe a possibilidade de contágio das dívidas dos países problemáticos sobre as dívidas dos países em relativamente boa situação.

 Isso mostra também como as opções de transferência das dívidas de um lado para outro - do setor financeiro ao setor público; dos países mais débeis aos países mais fortes - estão se esgotando. Está chegando a hora (provavelmente em 2011) dos credores admitirem  triste realidade:  fizeram maus negócios  e terão prejuízos. A possibilidade da ilusão está se esgotando.

Link relacionado: 

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Entrevista com a economista Maria da Conceição Tavares à TV Senado, primeira parte

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Entrevista da economista Maria da Conceição Tavares à TV Senado, segunda parte

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Entrevista da economista Maria da Conceição Tavares à TV Senado, última parte

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Esquadrão europeu "especialista em crise" vai chegar à Irlanda

Parece piada! Mas a mídia especializada fala em "especialistas do FMI, da ECB e da Comissão Europeia em crises financeiras e bancárias viajando à Irlanda para ultimar detalhes do pacote de resgate da economia do país"... Engraçadíssimo: então esse pessoal que não viu a crise chegar e não sabe o que fazer para resolvê-la são os "especialistas", capazes de "salvar" a economia irlandesa???? Pobres irlandeses... 

A realidade aparece é no relatório da BIS: são 650 bilhões de euros devidos pelo país e seu sistema financeiro aos bancos franceses, alemães e ingleses que devem ser pagos até março 2011. Os especialistas são realmente especialistas nisso: transferir ao povo do país em questão os custos dos problemas dos sistemas financeiros nacionais. E salvar os financiadores da encrenca, que saem de fininho embolsando juros bem acima da média do mercado em seus países de origem. Espoliação, esse é o nome do jogo, nem um pouco novo, apenas com novo alvo. Autofagia europeia, isso não vai acabar bem.

Deixando de lado a brincadeira, o bailout vai sair muito em breve, embora a negativa veemente do governo irlandês. Caíram na rede, agora são peixes. Interessante vai ser acompanhar quanto tempo vai demorar para que a pescaria recomece em outras águas...       

segunda-feira, novembro 15, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Euro em risco? Irlanda forçada a aceitar resgate europeu.

Para Ambroise Evans Pritchard, o conservador analista financeiro do Telegraph, a situação europeia está escapando ao controle graças aos erros da ECB. E da insistência dos governos centrais em propugnar a mistificação moralista do ajuste fiscal como uma possibilidade para países que não mais conseguem sustentar os custos de suas dívidas, tanto no setor financeiro, quanto nos setor corporativo privado. E isso acaba tornando irrelevante qualquer ajuste que possa promover o setor público, a despeito do discurso de austeridade... 

Os outros epísódios desde 2007 (subprime, Lehman Brothers, Grécia, para citar os mais importantes) mostram que o custo da inação é sempre pago com juros estratosféricos no calor da batalha: não há como deixar de resgatar o sistema financeiro pois o risco é sistêmico, portanto, compartilhado por todos os envolvidos. O tempo apenas aumenta a fatura a ser paga pela sociedade. No caso europeu, ainda veremos muita luta sobre em quem recairá o custo da brincadeira de imitação dos "dinâmicos" norte-americanos chamada "globalização financeira". Jogo pesado.

O Guardian mostra que Portugal e Espanha estão pressionando o governo irlandês a aceitar o resgate europeu antes que seja tarde. A Irlanda sabe que o caminho é sem volta e que a tranquilidade vai durar apenas mais alguns meses e tenta garantir um financiamento compartilhado permanente para seus bancos falidos, cujas perdas estão apenas iniciando a serem contabilizadas... É possível que o dia 16 amanheça já com as tratativas avançadas. Editorial do mesmo jornal avisa que o governo irlandês está lutando para manter algo que já perdeu: sua soberania econômica. Já disseram isso da Argentina antes, não lembram? Mas, reconheço que a situação da Irlanda é bastante mais delicada e complexa... Vejam bem o tamanho da encrenca.

Links relacionados:

domingo, novembro 14, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Regulação e Crise Financeira

Seguem os slides da palestra sobre regulação e Crise Financeira realizada no Seminário Tendências do Debate em Economia, no auditório da FACE/PUCRS, dia 28/10/010. Comentários serão bem vindos.
Nova Regulação Financeira - André Scherer

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Ascensão e Queda do Capital Financeiro

Nessa semana foram publicados pela Fundação de Economia e Estatística os livros sobre As Três Décadas da Economia Gaúcha, que podem ser acessados na íntegra em http://www.fee.rs.gov.br/3-decadas/.

Meu artigo com o Enéas, inserido no volume 1, traz uma retrospectiva crítica da trajetória da economia mundial e brasileira entre 1979-2009. Dada a amplitude do tema e a limitação do espaço ficou um pouco denso, mas ainda assim, me parece ser uma leitura agradável para quem se interessa pelo tema. Comentários serão muito bem vindos.



1979-2009: Ascensão e Queda do Capital Financeiro

sexta-feira, novembro 12, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Resgate da economia irlandesa em curso; por André Scherer

O resgate da economia irlandesa não vai esperar para 2011, ao que parece. Com o custo de rolagem da dívida irlandesa superando os 8%, a União Europeia está aproveitando o G-20 para antecipar o resgate. Trata-se de uma das mais delicadas operações desde o início da crise mundial e, certamente, envolverá o European Financial Stability Fund (EFSF), criado no primeiro semestre para tentar conter o contágio da crise grega aos demais países fragilizados do continente, em conjunto do recursos do FMI.

Vamos acompanhar de perto essas tratativas e seus resultados, os quais poderão ser determinantes nos rumos e no ritmo da crise financeira mundial nesses próximos meses.

Mais detalhes:



quinta-feira, novembro 11, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
11 de novembro de 2010
COLUNA DAS QUINTAS


DILMA E
A TEMPESTADE
SOBRE O CÂMBIO
Por Enéas de Souza



Naturalmente, que vencida a etapa das eleições no Brasil, volta a preocupação sobre o cenário mundial onde o Brasil está inserido. O jogo está pesado. Isto porque as finanças continuam dominando nos Estados Unidos, e a solução de Bernanke e do FED (pôr 600 bilhões no mercado comprando títulos públicos até a metade do ano que vem) é tentar equacionar o seu problema com uma inflação que vai mudar a paridade do dólar em relação às demais moedas. É uma solução financeira porque não se dá no âmbito de estímulos fiscais (como queria Paul Krugman), dirigidos, prometidos para áreas onde os investimentos seriam fundamentais. Não; são recursos que vão entrar na área financeira e serão aplicados em títulos, naturalmente em mais festa da especulação. Com isso uma nova alavancagem importante surge para as instituições financeiras. E estas, dada as condições complicadas nos Estados Unidos vão se dirigir para o exterior, Hong Kong, Brasil, Alemanha, ou algum lugar que tenha possibilidades de rendas. Mas o que mais importa é que a expansão do investimento no setor produtivo local parece excluído. O sonho do retorno de Keynes, no crepúsculo das finanças, continua sendo uma ilusão ao longe.

YUAN NA SOMBRA DO DÓLAR

Ora, esta manobra é uma manobra interessante dos USA, pois o aumento da massa monetária terá como finalidade imediata baixar o dólar e, além de fornecer recursos para as finanças, este aumento vai permitir maior competitividade das suas exportações. E, portanto, melhorar seu persistente déficit no comércio exterior. Na verdade, trata-se de combater também a China, só que a China, de posse de forte capacidade de jogo de política econômica e com um domínio sobre o nível do yuan, está pronta para fazer o lance mais normal possível: acompanhar o caminho do dólar. E logo, como não trabalham pelo mercado, se o dólar baixar, eles também vão baixar o yuan.

G-20, O LUGAR DO BANG-BANG CAMBIAL

É como aquele filme de faroeste “OK Corral” monetário. E naturalmente, o Brasil tem um interesse especial sobre o assunto. Não se pode ficar sem fazer nada diante de um combate, que pode ser sem tréguas, entre USA e China. E é por isso que Dilma está em Seul: para sentir, para poder conversar, mais dificilmente negociar e - se for o caso - orientar o ministro Mantega sobre suas possíveis idéias. O fundamental é ter estratégia, e o Brasil a tem. A explícita é a de tentar incentivar que a dupla que dirige o mundo se acerte e consiga um entendimento razoável. A implícita é ter um plano para o caso dos países não se entenderem, como é o mais provável. Então, existe um arsenal de medidas que podem ser tomadas, porém a principal, a proteção decisiva – e factível de imediato – é o controle de capitais.

O QUE É QUE A DILMA ESTÁ OLHANDO?

A necessidade fundamental é evitar a invasão de capitais que, como gafanhotos, podem arrasar parte da economia, alterando fortemente o mercado financeiro, como também o mercado de ativos reais. Criando, num primeiro momento, por tabela, a apreciação da nossa moeda. E, claro, oportunizando maiores níveis de importações por parte do Brasil e tendo dificuldades crescentes nas exportações. E com um problema adicional, um segundo mais tarde, a bomba explodindo no balanço de pagamentos, na zona das transações correntes. Ou seja, um verdadeiro desastre. Aí sim, aquela pneumonia que foi apenas uma marolinha na crise de 2007, acamparia nos pulmões nacionais agora em 2010/11. Assim, tudo que parecia ir bem, acabaria mal. O inverso do título da peça de Shakespeare.

O que é que Dilma está olhando? São as nuvens que anunciam tempestade sobre o câmbio, mas não somente o câmbio brasileiro. Porque vamos atravessar uma fase complexa, onde o que está na mira no conflito das finanças e da produção é sem dúvida a moeda. A moeda construída pelo capital financeiro, na verdade, a moeda financeira, onde o fundamental era a combinação da taxa de juros do FED com os títulos do Tesouro Americano, que garantiam – ah, garantiam! – o dólar como o dinheiro que sustentava a função monetária mais importante, a de reserva de valor. Pois isso foi jogado na lixeira com a crise, com a baixa dos juros americanos, com as importações sendo maiores que as exportações, etc. O dólar hoje é uma moeda que saiu do rock da especulação desagradavelmente bêbada. Significa imperiosamente a necessidade não só de resolver a economia globalizada (daí a necessidade de uma moeda padrão), como de fornecer condições para uma trajetória da economia que não atente contra as demais nações.

O JOGO DE CINTURA É UMA QUESTÃO DE DEFESA

Certamente, Dilma, por ser economista, já tem um horizonte de solução país, mesmo dentro do governo Lula. Mantega tem sido hábil na condução da política econômica. E o que importa ver é que a crise da globalização e da economia americana tem que ser solucionada sem que o futuro do Brasil seja abalroado. E na economia, sobretudo na crise, as soluções surgem dos conflitos políticos. E é inequívoco e solar, que as finanças, se puderem, devastam o mundo, mas se salvam. E hoje, se nos Estados Unidos elas comandam, com a queda do neoliberalismo, a concertação de instituições financeiras não tem mais o mesmo domínio sobre o mundo – e sobre nós – como teve no governo de FHC ou mesmo durante parte do governo Lula. A luta dos capitais por espaço se tornou mais impetuosa. Já os nossos banqueiros e empresários não farão mais tanta pressão como fizeram nos anos 90 para o avanço do livre mercado. Um pouco de Estado acham que fará bem, para eles inclusive. É uma questão de defesa. Enfim, o mundo mudou, e é isso que Dilma já sabia e está vendo. Pela primeira vez nas histórias das crises mundiais, nós, o Brasil, estamos com razoável jogo de cintura.

PROTEÇÃO CONTRA A CRISE DA MOEDA

Mas temos que estar de olho na fúria tonta dos capitais das finanças. Por isso, a nossa proteção passa por conter os fluxos volumosos de recursos ávidos de grana fácil. E com isso proteger nossa moeda nesse momento selvagem do câmbio que pode virar uma vasta tempestade. E trabalhar com os demais países para a recomposição estrutural do capital financeiro. Um esforço de Estado e de mercado, do setor público e do setor privado para mudar a hegemonia de financeira para produtiva. E, ao mesmo tempo, saber que a “economia mundo”, como chama Braudel, se polarizará no futuro entre Estados Unidos e China. De qualquer forma, Dilma estará vendo o deslizar deste navio globalizado para encontrar um porto monetário razoavelmente seguro, fora da novidade esperta americana, que hoje diz do dólar para o mundo “toma que o filho é teu”. Trata-se então de conseguir que a moeda transite da fraqueza do dólar para um sistema misto (dólar, euro, yuan, libra, etc.) ou mesmo o Direito Especial de Saque, ou... O Zoellig, o sub do sub do sub, assim apelidado pelo Lula, hoje no Banco Mundial, está até propondo, de uma forma ou de outra, incorporar “a relíquia bárbara”, o ouro. É preciso, pode ver o leitor, é necessário encontrar uma referência monetária. Seja como for, a guerra das moedas já está exibindo o seu filme, que pode até receber o título poético de “O Mundo da Vênus Platinada”. A moeda tem sedução e é uma construção social, faz estrondos na geoeconomia e cala fundo na geopolítica. Por essa razão, enquanto as feras rugem e não se acertam, cabe ao Brasil assumir uma posição não-liberal. O objetivo está claro: controle do fluxo de capitais para evitar que a tempestade caia sobre o nosso câmbio. A favor da nossa economia produtiva e contra a especulação financeira internacional.


terça-feira, novembro 09, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Irlanda vai pedir auxílio ao FMI-UE... em 2011

A grande história de 2011 já está escrita desde hoje. No verão europeu próximo a Irlanda será obrigada a demandar ajuda financeira ao FMI ao EFSF, fundo de auxílio da União Europeia. O déficit público irlandês para 2010 está em 32% do PIB... isso, 32% em um ano, agravado pelas recorrentes necessidades de aportes aos bancos locais. A estrutura da dívida permite que até o meados de 2011 a situação esteja sob relativo controle, mas a partir daí novos recursos serão necessários. O custo hoje de um "seguro" (CDS) contra default da dívida irlandesa se encontra em 600 pontos base, ou seja, 6% acima do custo relativo a dívida alemã... e os problemas hipotecários (a Irlanda observou uma das principais bolhas imobiliárias no mundo até 2007) estão apenas começando por lá. A situação da Europa é calamitosa a médio prazo.

Leia mais sobre as dificuldades da economia irlandesa (o ex "tigre celta") neste artigo publicado no Irish Times http://www.irishtimes.com/newspaper/opinion/2010/1108/1224282865400.html

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: China aperta o controle sobre ingresso de capital externo... Brasil próximo da fila?

A reação dos governos mundiais à intenção explícita da Federal Reserve de monetizar o incremento da dívida interna norte-americana nos próximos meses (ou seja, compara títulos da dívida dos EUA) aumentando a já enorme liquidez no mercado internacional de divisas têm sido no sentido de ampliar os controles sobre a entrada de capital externo.

Após a Coréia ter anunciado medidas no sentido de limitar a entrada de dólares, agora a China, que já possui um dos sistemas de controle mais fortes do mundo, anuncia medidas complementares visando tapar os buracos que a imaginativa atuação dos aplicadores externos vêm explorando para promover o ingresso de capital de curto prazo no país. Isso inclui uma maior supervisão sobre fundos de bancos chineses no exterior. Ao mesmo tempo, serão monitoradas as contas dos bancos do país para que o volume de reservas em dólar não caia de um dia para o outro, entre outras medidas.

O Brasil também parece pronto, após o G20 dessa semana, a ampliar medidas de controle da entrada de capitais estrangeiros de curto prazo. É fundamental, dessa vez, exigir uma "estadia mínima" do capital no país (quarentena) e limitar as possibilidades de aplicações externas em bolsa de valores, com o retorno da cobrança de imposto de renda sobre os ganhos do capital estrangeiro. É quase certo que a reunião do G20 apenas aprofundará as divergências quanto ao tema, restando as soluções individuais de auto-defesa aos países alvo desses capitais que procuram sair do dólar.

Vale o ditado: antes tarde... Voltaremos a esse tema com detalhes em breve.



quinta-feira, novembro 04, 2010

04 11 2010
COLUNA DAS QUINTAS

PORQUE O PSDB PERDEU?
Por Enéas de Souza


ACHANDO RESULTADOS

O PSDB não quer na sua presunção intelectual reconhecer a sua fragorosa derrota eleitoral. E estão tentando achar resultados para dizer que não foram batidos. Daqui mais uns dias, pode ser que eles tentem nos convencer pela mídia, pelo sujeito comunicacional, pela indústria ideológica, de que ganharam ou que foram os vencedores morais da eleição. E poderiam continuar, dizendo que a votação foi equivocada e que o povo não sabe votar. Mas que São Paulo deu a vitória a Serra; que Porto Alegre deu a vitória a Serra; que Curitiba deu a vitória a Serra; que Florianópolis deu a vitória a Serra. E veja-se inclusive a fragilidade do argumento: o PSDB tenta fazer pensar que ter a vitória numa cidade ou numa região é não ter nenhum voto contra. E, por outro lado, dizem no seu silêncio que o Nordeste não interessa; que Brasília não interessa; que o Rio não interessa. É dar mais peso a uns votos que a outros. É o mesmo preconceito dos que um dia votaram contra Lula porque ele era metalúrgico e não falava inglês. Certos eleitores são mais qualificados que outros. No fundo, no fundo, os conservadores se acham os donos do Brasil e não querem que haja uma nova realidade no país. Não querem desenvolvimento com distribuição de renda, porque a distribuição de renda diminui a diferença entre as classes. Não querem a tendência a uma maior igualdade. Parte do PSDB não quer aceitar essa transformação profunda na economia. Resolveram bater chapa – e foram derrotados três vezes! Três vezes: duas com Lula e uma com Dilma. Sempre tratando de dizer, mesmo que no sussurro, mesmo que disfarçadamente, que a financeirização do Brasil foi um sucesso. E esta é a diferença fundamental da política econômica do PSDB e do PT, baseadas ambas na estabilidade da economia. Um, desenvolve a atividade econômica apenas para as finanças e o outro, não só para os capitais; mas também para uma boa parte da população.

PORQUE NÃO LER DESCARTES?

O PSDB paulista está absolutamente equivocado nesta pretensão de se eternizar. E Serra já se lançou candidato à próxima eleição, sendo o seu discurso de derrota, a tentativa de ser um discurso imaginário de vitória. E isto diante da mão estendida de Dilma. O PSDB tem que se convencer que perdeu. E, portanto, fazer uma reflexão, lá consigo, mas uma reflexão honesta, forte, intensa, sempre como fazia Descartes, duvidando das coisas. Aliás, é um bom conselho para Serra. Descartes dizia que se deve duvidar pelo menos uma vez na vida. E parece que Serra não duvida, nem duvidou nunca. Ele é o melhor. O PSDB – porque o PSDB não é Serra; é Aécio, é Alkmin, é Beto Richa, é ainda FHC – deve pensar porque perdeu. Deve fazer mais perguntas do que ter desde logo explicações. Serra não faz perguntas, já tem respostas. E tudo começa com ele nesta derrota eleitoral e pessoal.

MODERNIDADE É FALAR DA HERANÇA?

O PSDB tem que discutir qual é a sua modernidade diante da derrota para o Lula e para a Dilma. Qual é a sua modernidade – obviamente de direita – diante do projeto “desenvolvimento com distribuição da renda”. Os paulistas não querem ceder, mas é indiscutível que Aécio tem, no momento, melhor proposta do que eles. Primeiro, politicamente, uma oposição moderada. Segundo, na economia, uma revalorização do governo do FHC. É verdade que aqui Aécio está equivocado, mas ao menos tenta achar as suas raízes neoliberais. O próprio Serra não procura e também não tem resposta; pois busca ocultar a trajetória do PSDB e de seu único presidente, Fernando Henrique. E por quê? Independente do desastre que foi FHC, que obviamente Aécio não acha, o povo brasileiro discorda soberana e imperiosamente do projeto neoliberal, é a terceira derrota do PSDB na década. O neoliberalismo passou a ser uma árvore frutífera que não dá mais frutos - e nem presidentes. Igualmente, sem indagações hamletianas, Serra também acredita nisso lá no seu íntimo. Pois, nas duas eleições que participou, quase sem nenhuma hesitação, teve imensas dificuldades em reivindicar a herança de FHC. E quando Alckmin trouxe para si as idéias do neoliberalismo, não houve jeito, fracassou sumariamente. E aí está o fulcro da questão. O neoliberalismo é uma posição que acabou. É preciso que a direita tenha uma visão de capitalismo adequado aos novos tempos. Serra deu uma lembradinha na privatização...e derrapou feio na pista, se esborrachou...

NÃO É A HORA?

Aí está o grande tema para o PSDB: repensar a sua posição. Porque a questão do neoliberalismo tem um fundo histórico importante. O PSDB foi fundado por gente que, nos anos 60 e 70, era de esquerda. Assim como a Dilma também era. O problema é que o PSDB inclinou-se para a direita. Mario Covas é que o sustentou numa posição de centro-esquerda/centro-direita, uma lição aprendida com o velho pêndulo de Ulysses Guimarães, sempre de centro. A social-democracia poderia ser isto, mas o social liberalismo, jamais. E os antigos políticos de esquerda foram deslizando para a direita, na direção do neoliberalismo. O FHC fica irritado quando dizem que ele é neoliberal. Fernando, não te irrita! Tua posição é esta mesma! Tu defendes a privatização e o livre mercado. Agora é possível evoluir. Então, está na hora do PSDB refazer as suas fraturas e as suas feridas e repensar uma direita moderna. Não bastaram três derrotas? Não é hora de achar um novo caminho?

CONSERVADORES DO ATRASO OU DO AVANÇO?

O grande equívoco desta posição, desta impertinência de continuar sendo oposição sem ter discurso, sem ter proposta, é terminar como Serra no domingo. Freqüentando uma linha de fronteira perigosa, uma linha de fronteira que envolve um misto de oportunismo, de retardo do processo econômico, de defesa de um atraso político. E logo quando o momento histórico está pendendo para uma nova modernidade no Brasil. Lula chegou à margem do futuro; e Dilma tem a chance de trazer o futuro ao presente. O PSDB, no entanto, está perdendo o seu espaço. Não quer entender que Serra representou os conservadores do atraso. E a direita sempre avançou quando foi conservadora modernizante. Agora vejam onde está a nova modernidade. De fato, um partido que cresceu muito foi o PSB, que é um partido de esquerda, com uma vocação democrática e que traz, pelo menos, uma nova estrela do cenário político: Eduardo Campos. Assim, em termos de jovens, o PSDB não tem ninguém, salvo Aécio. Mesmo Alkmin já não é mais novo. Então, estão no cenário Eduardo Campos, Jacques Wagner, Sérgio Cabral e Tarso Genro, que formam com Aécio, o quinteto dos novos mais expressivos. Ou seja, eles estão a indicar que algo de diferente está nascendo na sociedade brasileira, em termos de política; diga-se, a bem da verdade, de prática política. Só Aécio é do PSDB - e à direita. Os demais, são do campo do centro para a esquerda. E devem incitar ao PSDB uma reflexão que passa tanto pelo projeto econômico, político e social, como pelo recrutamento de seus quadros. E não se trata de idade, a cabeça do PSDB, no momento, está velha. E nada melhor para começar a mudar do que fazer perguntas. E a primeira é a seguinte: porque esta é a terceira derrota para o projeto lulista? Porque perderam? Meu caro Serra, o PSDB perdeu. A derrota pode fazer bem, se o PSDB se reinventar. Caso contrário, a falência múltipla dos órgãos é o seu destino. Ou tornar-se um partido paulista.

A GRANDE VERDADE

Mas a grande verdade é que o PSDB perdeu porque o PT e o Lula tinham um projeto e uma proposta de Brasil mais ampla e mais brasileira. Uma proposta de desenvolvimento, uma proposta econômica e uma proposta social que atingia largas faixas da população. É preciso pensar isso, com carinho, com seriedade, com audácia e com vontade política. Uma proposta de benefício a qualquer classe social deve beneficiar as outras também. E Lula teve êxito porque o Brasil se colocou frontalmente contra o neoliberalismo. Mesmo no período inicial de suas gestões, ele organizou uma canalização coerente de políticas públicas sociais. Com o PAC, com a crise financeira e com a atuação do governo brasileiro no período da dita crise, isentando impostos e retomando a produção e o emprego, Lula e Dilma botaram o governo de FHC ladeira abaixo. Ficou evidente que o neoliberalismo é o governo que distribui renda para cima. Como poderiam Serra e o PSDB combater um governo que deu aumento real de salário mínimo, bolsa família, crédito consignado, Luz para Todos, ProUni e apoiou a agricultura familiar, inclusive com assistência técnica e crédito? Enfim, teria muito mais a dizer, sobretudo sobre este projeto de futuro que se baseia no Estado, no Pré-Sal e na Petrobrás e num ambicionado Fundo Social resultante deste Pré-Sal. O PSDB perdeu porque Lula, Dilma, o PT e os demais partidos apoiadores tinham e têm um projeto claro de continuidade e de ampliação do governo Lula, do Brasil e de inserção do Brasil no mundo. Qual era o projeto do PSDB e de Serra? Fica tanto mais claro quanto mais se fala que o PSDB precisa se reiventar, se modernizar e sintonizar com uma nova modernidade política e econômica que está vivendo o Brasil. E, se isso acontecer, será importante para a sociedade e a democracia brasileira. Acabará a raiva e o ressentimento, começarão as propostas e os projetos políticos de nação. Este é o desafio para o PSDB. E para tal, terá que entender e saber por que perdeu.

CONTRASTE EM FORMA DE PARÊNTESE

(Vejam o contraste com a Dilma. Bateram nela adoidado. Chamaram-na de tudo. Deu o lado, estendeu a mão. E ela tem tudo para vencer, tem qualidades que seus adversários se negam a considerar: inteligência, quando pensam que ela é apenas cria do Lula; fidelidade, quando acham que ela é submissa e sem imaginação; firmeza, quando lhe atribuem um vigoroso autoritarismo; talento, quando não vêem o brilho estratégico do PAC; e serenidade, quando não olham a sua força flexível. Há, todavia, uma qualidade a mais, aqueles que a conhecem sabem que ela tem, uma larga generosidade. E é com esta generosidade que ela vai tentar ampliar a construção de um novo Brasil para a população brasileira. Só resta desejar: boa sorte, Dilma!)

terça-feira, novembro 02, 2010

Eleições nos EUA: propostas inacreditáveis, por André Scherer

As eleições nos EUA são bastante importantes para o governo Obama. Na oposição republicana, destaca-se a novidade dos candidatos Tea Party, ultra-conservadores, que defendem a volta aos valores do século XIX... Misturando misticismo religioso a um conservadorismo rígido, eles querem fazer os EUA retornar aos tempos da colonização e aos "Pais Fundadores".

Amostras do que pensam os representantes do Tea Party:

Many Americans who end up voting for Tea Party-backed Republicans because they are worried about the state of the economy or size of the deficit will be shocked to find the kind of gridlock that will be caused if and when candidates get elected to office who have pledged not to support anything they don't find in their 19th-century view of the Constitution.

A few of the many races to watch:

  • Mike Lee, U.S. Senate Candidate from Utah: Lee, virtually guaranteed a win in this heavily Republican state, will bring to the Senate a remarkably reactionary view of the Constitution and the U.S. government's role in society. He has denounced as "domestic enemies" those who disagree with his radically limited view of the (divinely inspired) Constitution. He would abolish the federal departments of Energy and Education, dismantle the Department of Housing and Urban Development, and phase out Social Security. He says earmarks are unconstitutional. Lee could be one of a number of new senators who take the GOP's already unprecedented campaign of partisan obstruction to a damaging new level.
  • Joe Miller, U.S. Senate candidate from Alaska: Miller says the Department of Education should be eliminated because it's not in the Constitution. Also violating the Constitution, in Miller's mind, was health-care reform and legislation to extend jobless benefits to out-of-work Americans. He says he would phase out Social Security and Medicare.
  • Ken Buck, U.S. Senate candidate from Colorado: Buck calls for the elimination of the federal Department of Energy and Department of Education, the privatization of the Centers for Disease Control and Prevention, and the elimination of student loans. He says he "doesn't know" whether Social Security is constitutional, but calls it a "horrible policy" and says the federal government should not be running health care or retirement programs.
  • Marco Rubio, U.S. Senate candidate from Florida: Rubio calls "statism" the "fastest-growing religion in America."
  • Rand Paul, U.S. Senate candidate from Kentucky: Paul has suggested that Congress should not be making mine safety rules. He says Medicare is socialized medicine. He wants to eliminate the Departments of Education and Agriculture, do away with the Federal Reserve, and abolish the Americans with Disabilities Act.
  • David Hamer, U.S. House candidate from California's 11th Congressional District: Hamer, who calls public schools "socialism in education," wants to abolish public schools entirely and return education to "the way things worked through the first century of American nationhood," when an awful lot of people had no access to educational opportunities.

Ainda sobre o resultado das eleições.. Por André Scherer

Dá para recomendar a leitura desse artigo publicado no blog do Nassif e que ajuda a ter uma precisão maior sobre a distribuição regional da votação em 2010 em comparação com 2006: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/regionalizacao-preconceitos-politicos#more

Boa leitura a todos.

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Um protesto real e efetivo: retirar seu dinheiro dos bancos! Por André Scherer

Premidos pela loucura neoliberal remanescente que pede que os povos paguem via ajustes ficais absurdos pela estupidez financeira reinante nos últimos 30 anos, a reação (tardia ma non troppo) dos europeus não poderia ser mais radical: já que protestar nas ruas não faz mais efeito no mundo dos bancos centrais independentes (dos interesses das populações, evidente), os europeus querem agora sacar seus depósitos dos bancos!!!!!

E o protesto tem até data: 07 de dezembro! E o nome do protesto está absolutamente correto: REVOLUÇÃO.

Independente se vai funcionar, se vão fazer, se vai ter adesão: o simples fato dessa iniciativa estar sendo organizada em larga escala, de forma continental e via internet (ou seja, sem necessidade da cumplicidade da mídia oficial) mostra mais uma vez o óbvio: o neoliberalismo acabou enquanto ordem político-econômica dominante. E a simplicidade (e óbvia eficácia) da forma de luta escolhida mostra que hoje existe uma compreensão quanto ao fenômeno da hegemonia financeira que não permitirá mais que os argumentos de um falso interesse global na manutenção da ordem vigente triunfem.

O mundo mudou radicalmente com a crise financeira de 2007. Está na hora de entregar os anéis... ou ficarão sem as mãos.

domingo, outubro 31, 2010

Dilma Presidenta do Brasil! Mudanças na economia? Por André Scherer

Bom, no estilo twitter, muito poucos caracteres:

Primeiro discurso de Dilma, nas entrelinhas:

- o Brasil vai adotar medidas protecionistas (excelente decisão), com o discurso de que é uma forma de forçar a negociação de parte dos países ricos;

- o Brasil não vai fazer ajuste fiscal, aliás, ela já trocou o discurso do equilíbrio por "o governo não vai gastar de modo insustentável"!).

Me parece que vem mudança na economia por aí... mas, do discurso à prática, por vezes demanda tempo e por vezes nem acaba acontecendo.

quinta-feira, outubro 28, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
28 de outubro de 2010
CRONICA DAS QUINTAS



DECIDIDAMENTE DILMA!
Por Enéas de Souza


No meu modo de ver, a superioridade de Dilma sobre Serra é notória e vertiginosa. A primeira razão – razão substancial – é que ela tem, fazendo parte do governo Lula, uma visão e uma proposta de Brasil mais ampla e mais brasileira do que Serra. Seu papel como ministra da Casa Civil foi essencial para o sucesso do atual do governo. Em que ponto? Em verdade, ela foi uma espécie de Super-Ministro do Planejamento. Logo de saída, deu ordenação e coerência nas obras dos diversos ministérios. Deu unidade e tornou denso o trabalho do governo. Pois, antes de Dilma, as pernas estavam para um lado, os braços para outro, a cabeça jogada lá diante, e os calcanhares e os pés andavam sozinhos pela Esplanada dos Ministérios. Tudo existindo, mas, todas as partes dispersas. Uma espécie de diáspora do governo Lula. Dilma fez como os mágicos: agregou um cenário ao conjunto e reuniu tudo num corpo só. E surgiu daí a envergadura do governo Lula. Era o que o político Lula precisava. Tinha que vir alguém que soubesse organizar as peças do governo numa cara de governo. Precisava de um ministro que planejasse e coordenasse as ações para que Lula se tornasse o estadista. E ele o foi. E é. Assim, no final do Lula I, a população já tinha se dado conta que todo um projeto estava organizado: aumento de salário mínimo consistente, Bolsa Família, crédito consignado, ProUni. E Dilma, vindo do Ministério de Minas e Energia acrescentou o que faltava: Luz para Todos. Isto depois da secura e dos apagões dos anos neoliberais de FHC e Serra, onde grassava a hemorragia da privatização, a volúpia desastrosa da dívida, o crescimento ralo do PIB (média de 2,2%), o crescente desemprego, o empréstimo “fraternal” Clinton-FMI, a decadência da infra-estrutura, etc. Ruth Cardoso é quem forçava os programas sociais que estavam soltos dentro do governo de FHC (Não nos esqueçamos das palavras caniculares e afrontosas de Sérgio Motta sobre “Comunidade Solidária” da Dona Ruth: “Essa masturbação sociológica me irrita porque não chega a nenhum resultado”. 1995. Que diria em 2010 do sociológico sucesso total do governo Lula?).

O Luz para Todos. Se pensarmos bem foi um dos grandes projetos de Dilma. Pense o leitor e imagine. Na época, discutia com um amigo e lhe disse: “Ah, você acha que esse é um programa banal, é? Faça o seguinte, você que é classe média: apague as luzes da sua casa e fique uns 15 dias sem luz. Pense como será o seu dia; pense, sobretudo, como será a sua noite. Você está na Idade Média. São 15 milhões de pessoas que viajaram 500/600 anos”. E não deu outra. Lula apesar dos grandes ataques do Mensalão, conseguiu uma vitória espetacular naquela eleição de 2006. Dilma botou a sua parcela de votos na cesta eleitoral de Lula. Só isso já seria bastante para consagrá-la: dar coerência ao governo e apoiar a população a ter um melhor padrão de vida.

Mas, o grande lance veio a 22 de janeiro de 2007, logo depois da vitória de Lula, no Lula II, o lançamento do PAC. Fiquei tão entusiasmado que escrevi imediatamente um artigo: “DA ESTRATÉGIA DO INVESTIMENTO NASCEM AS NAÇÕES”, datado de 29 de janeiro de 2007 e publicado em Indicadores Econômicos FEE, vol. 34, n.4, março de 2007. Mas, qual o motivo do entusiasmo? Era como dizemos, nós os gaúchos: “o tal de PAC”. E o PAC, disse Serra, “era uma lista de obras”. Não sejamos tão apressados na conclusão, vamos pensar um pouco. Sim, o PAC tinha uma lista de obras, alguns projetos com dificuldades para sair do papel, inclusive, vimos depois, por briga entre empresas. Mas, isso é ver pouco, é ficar com o olho grudado no chão. Vamos fazer um contraste, a diferença entre o projeto econômico de Lula e o de Fernando Henrique. O governo de FHC tinha sustentado um modelo financeiro de acumulação. A jogatina das finanças dava um falso ar de festa. FHC e Serra continuaram a crise produtiva de 1982 e terminaram o século e entraram no século XXI sem investimento. Tudo se pautava pela multiplicação dos pães miraculosos dos títulos financeiros públicos e privados. Na verdade, não eram pães, era papel que rendia dinheiro e não dava emprego. Eles construíram um Estado que chamei, em outros textos, de Estado Financeiro, onde o núcleo da sua estratégia se pautava numa política econômica peculiar, uma “política econômica reduzida”. Só se pensava em moeda, câmbio, taxa de juros e contas públicas. Não havia política industrial, política agrícola, política agrária, política tecnológica, política de rendas, etc. Tudo ficava para o mercado. O Estado só se preocupava com a acumulação financeira. E houve um abandono melancólico e desesperado, dostoievskiano, do investimento. Deu-se um investimento raquítico e tudo ia para o circuito financeiro. E é nesse ponto que surge o PAC, para quebrar o cassino brasileiro.

Não fiquemos na idiotice empírica, a lista de obras. O grande do PAC foi o gesto simbólico, imponente, maior, um gesto estratégico. Um toque de reunir dos empresários com uma forte declaração do governo: O FUNDAMENTAL DE UM PAÍS É O INVESTIMENTO. O velho Keynes veio do Além e conversou com a Dilma, o Lorde sabia das coisas: “Dilma, joga as tuas fichas no investimento”. Vejam caros leitores, não tinha havido ainda a crise financeira americana e mundial. O Lehman Brothers não tinha falido. O Lorde sabia por que nos anos trinta ele tinha escrito e batalhado por isso, pelo investimento. A especulação financeira estava matando o Brasil. E o que fez Dilma? Fez mais que um programa, fez um ato político da maior transcendência. No meio do neoliberalismo, com o barco das aplicações financeiras velejando a todo vapor para o boom, que vai desabar logo em seguida, ela ousa. E Lula? A apóia vigorosamente. E o investimento viaja mar afora, o mar que vai, mais tarde, nos levar ao Pré-Sal. Fernando Pessoa falava do mar português; com a Petrobrás o mar pode ser brasileiro. E então vamos para o investimento.

Mas, este ato político de Dilma trouxe mais duas coisas decisivas – e fundamentais. Ela estava dizendo de forma magistral que havia uma inspiração no pensamento econômico brasileiro na hora e a vez do PAC. Veio na herança de Celso Furtado, de Ignácio Rangel, de Maria da Conceição Tavares, E de todos outros economistas nacionais que são “desenvolvimentistas”. Qual o ensinamento? É preciso recuperar o ESTADO, é preciso recuperar a nossa capacidade de PLANEJAMENTO. Que coisa bendita, poder ser herdeira de uma grande corrente, da corrente que veio construindo e lutando pelo Brasil, desde os anos 30. Mas, o PAC não passou apenas esta mensagem. Tinha mais coisa. Para muitos, foi um capricho de Lula pôr Dilma como candidata a presidente da República. Nada disso, descrentes brasileiros. Não, Lula, viu tudo; viu tudo porque também se beneficiou deste vigor de pensamento de Dilma. Um ESTADO para ser forte tem que ter instrumentos para realizar o seu projeto e sua estratégia. E aí que o PAC mostrou a arma engatilhada desde sempre.

O PAC trouxe para o núcleo estratégico do governo a filha pródiga, a filha dileta, a filha por quem a nação tinha lutado. A Petrobrás. A campanha “O Petróleo é nosso” é uma memória histórica tão forte, tão contundente, tão brasileira, tão nossa, que impediu que FHC e Serra vendessem a Petrobrás. E o gesto de Dilma na época do Programa de Aceleração do Crescimento, pouca gente entendeu. Ora, para quê trazer, para dentro do PAC, a Petrobrás que já tinha um programa avantajado de investimentos? A miopia neoliberal não permitiu às pessoas enxergarem que o PAC era um fabuloso gesto simbólico e político, do qual falamos antes, e que trazia para o centro estratégico do governo um verdadeiro núcleo de acumulação. E quando veio a descoberta do Pré-Sal, a cabeça oca de muita gente “explodiu de lucidez”, como dizia meu colega Galeno da UNICAMP. Perceberam que o Pré-Sal iria encadear um conjunto de indústrias, todas investindo adoidado. E, principalmente, dentro de um programa que assegurasse às empresas um conjunto de obras. Uma demanda garantida. Na verdade, o sonho de todo empresário. Basta ouvir o presidente da Petrobrás Sérgio Gabrielli para ver o gigantismo do projeto, da riqueza que temos pela frente, das possibilidades de aumentar o índice de nacionalização da cadeia produtiva. O mundo do investimento – o futuro – voltou a reabrir-se para o Brasil. E tudo veio da audácia do Governo Lula de ir contra o neoliberalismo, de buscar novamente o investimento e o emprego e desenvolver a riqueza brasileira. E Lula encontrou em Dilma o talento para continuar a sua obra: despachar o neoliberalismo, “bye, bye, forever”. E com esse lance, retomar o baú de riquezas nacional: desenvolvimento com distribuição de renda.

DECIDIDAMENTE DILMA!

quinta-feira, outubro 21, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
21 de outubro de 2010
COLUNA DAS QUINTAS

QUATRO
LANCES
DE DADOS
Por Enéas de Souza



PRIMEIRO LANCE
O Dramaturgo da Vida olhou para a eleição brasileira e viu dois personagens. Serra e Dilma. Para definir o jogo teatral das campanhas imaginou como faria a natureza das figuras dramáticas. Para Dilma não lhe veio nada imediatamente. Talvez lutadora, talvez firme, talvez de pronta resposta. "Não sei, não estou certo. Vou pensar um pouco". Quanto ao Serra, vou concebê-lo agora. Botou-se a imaginar e a sua definição veio logo: camaleão. Porque? Porque ele vai tentando se amoldar às coisas. Se está perto da terra, fica como terra. Se está do lado das folhas, fica verde. "Camaleão" é uma boa, pensou o Dramaturgo. Ele vai mudando sempre. Tem efetivamente um mérito, funciona como uma matéria plástica, vai se conformando ao debate, vai escapando aos ataques. Como não tem posição, vai saltando para todos os lados. Sobre aborto, ele pula para cá e se funde ao assunto. Sobre religião, para lá e já tem cara de beato. Sobre privatização, para um terceiro lugar e já pensa no pré-sal. Mas, como a personagem Dilma reagiu, Serra, camaleão, respondeu rápido: vou fortalecer a Petrobras.
SEGUNDO LANCE
Depois, de camaleão, escolheu o Dramaturgo da Vida uma outra face do Serra. Ter dois estilos. Na frente das câmeras, nas discussões fazer-se de santo, procurar construir a figura de homem sereno, que tem perfil de retidão moral, absolutamente imbatível. Fez tudo, projetos, leis, medidas. Sempre foi o primeiro. Seja no Ministério, na Câmara, no Senado e como Governador. Fora dos holofotes, articula e arma vários golpes e várias tramas. E vem o aborto, e vem a religião, e vem os santinhos da Igreja. Por isso, ao lado camaleão se agrega o lado daquele que tem a capacidade de dividir-se. Enquanto no primeiro vai se adequando ao terreno, no segundo se cinde para melhor combater. A face visível, a que pode ser exposta, constrói a figura do puro. Na face invisível emerge um químico sutil, torna-se um fabricador de enredos e de história como ninguém. E todas as suas fábulas são para fazer a DIlma, sua adversária, perder tempo com problemas importantes, mas menores. As questões maiores, como uma estratégia e um projeto nacional, isso não lhe diz respeito.
TERCEIRO LANCE
A terceira característica do candidato é ser privatizador. Como é que é esta figura? Ela começou com Fernando Henrique Cardoso, mágico do neoliberalismo, que convenceu a todos de sua equipe que enfraquecer o Estado, que eliminar o capital estatal, que dar a liderança ao investimento estrangeiro na dinâmica econômica brasileira, traria vantagens. E o Brasil seria feliz. Então precisou de um privatizador; na verdade, de um mestre, de um doutor, de um engeneiro da privatização. E o escolhido foi o Dr. Serra. E podemos vê-lo, nas fotos e nos filmes da época, incessante, no mandado de FHC, fazendo rápidas e muitas privatizações. Assumiu esta personalidade e guardou para si a receita, com carinho e fraternidade, da relação com os investidores estrangeiros. Mas, o mais importante é que guardou o pensamento. Pois bem, Lula foi extraordinário, fez um desenvolvimento com distribuição de renda. E também descobriu o pré-sal. Com isso deixa uma herança para o povo brasileiro. E para a Dilma e a Petrobrás o caminho da exploração da riqueza. E com um projeto amplo, a partir dos seus resultados, desenvolver ciência e tecnologia e dar à população do Brasil, educação, saúde, segurança, etc. Na verdade, resumindo numa frase de efeito: o pré-sal vai sustentar o bolsa família. Só que Lula não contava com uma surpresa. Atrás da porta, está o privatizador das estatais, com um objetivo, anunciado por um de seus assessores: privatizar o pré-sal. E claro, se se animar, mais tarde, virá a própria Petrobrás, depois o BB e quem sabe num futuroo oportuno, a financiadora dos imóveis, a Caixa Econômica Federal. Mas, o Dramaturgo da Vida vai jogar este problema, este conflito no bojo das eleições: riqueza para a população versus venda para o setor privado. As peripécias do confronto trarão os encaminhamentos do desenlace.
QUARTO LANCE
Para dar maior sensação a este personagem, o Dramaturgo da Vida vai colocá-lo como um dos protagonistas de sua geração. Talvez o maior dela tenha sido FHC, o grande neoliberal, mas que hoje está semi-retirado, numa quase obscuridade dourada. FHC teria um novo rosto. E este rosto cabe bem em José Serra. São ambos vinhos da mesma bodega, da mesma vinícola. E qual é a marca suprema, o traço peculiar destes personagens? No fundo, realizar a grande metamorfose: ser de esquerda na juventude - Serra foi presidente da UNE - e de direita na maturidade. Com isso, o Dramaturgo da Vida está satisfeito, já que se completa, numa primeira amostragem, os mais importantes determinantes de sua figura dramática, este neoliberal candidato a presidente da Repúlica.

quinta-feira, outubro 14, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
14 de outubro de 2010
COLUNA DAS QUINTAS

TROPA DE ELITE
Por Enéas de Souza


O que fizeram FHC/Serra?
FHC e Serra enganaram muito tempo, mascararam durante muitos anos. O primeiro, cognominado como Príncipe da Sociologia, com uma carreira acadêmica sublinhada pela glória de ter sido aluno de Florestan Fernandes e de ter participado de um seminário de Marx em tempos de ditadura, escreveu um livro famoso em parceria com Enzo Faletto e foi eleito suplente de senador, suplente de Franco Montoro. Este último episódio trouxe uma movimentação de classe média inédita, única, porque a favor de um grande intelectual. Me lembro que a UNICAMP e o resto de São Paulo se moveu toda em torno dele. E apostem para saber quem era o puxador da campanha do ilustre sociólogo? Advinhem? Acertaram. O prof. Serra. Como Fernando, também se apresentava como um nacionalista, um intelectual que, colado na Maria Conceição Tavares, participou de um trabalho marco na época da ditadura: “Mas allá del desarollo”, escrito nas plagas promissoras e depois, terríveis do Chile dos anos 70. E naquela época, Fernando Henrique tinha a sua luz e a sua aura; era o farol e a cintilação, o grande resistente da ditadura. Nada mais justo que José Serra fosse o seu escudeiro, sempre ligado a muitas estatísticas, avizinhando uma possível posição nacionalista. Nunca foi uma grande figura como Fernando Henrique, me lembro do seu único e belo trabalho “solo”. Trata do desempenho do Brasil no século XX até os anos 70, mostrando a performance de longo prazo nacional, só superada, no mundo pelos japoneses. Fernando Henrique era o Zeus do Olimpo paulista, e Serra, o Mercúrio do chefe da assembléia de deuses.

A dança da política trouxe duas carreiras políticas, com um ou outro percalço para o pleno de sucesso. Glória, glória, nas alturas. Nas múltiplas trajetórias das pessoas existem episódios menores, porém pode ocorrer algo maior, algo que mude tudo. Tudo se transforma. FHC é escolhido presidente. Aqui é o salto do tigre. FHC pula do nacionalismo para o liberalismo. Poucos viram antes das eleições. José Luís Fiori viu claro. Anunciou para todos que Fernando vinha como o cavaleiro andante do Consenso de Washington. Anunciou e escreveu. De todos que falavam da opção do futuro presidente, foi o único que o Príncipe se dignou a responder. Respondeu por que José Luís tinha visto o coração da reforma intelectual e política de FHC, que ao longo do processo foi de todo o seu grupo. O nacionalismo virou liberalismo. A defesa do Estado virou delapidação das suas propriedades. Diga-se: propriedades do povo brasileiro. As empresas foram torradas por títulos podres, o governo permitiu o uso de títulos desvalorizados no processo de compra, o governo financiou grupos internacionais e nacionais na compra destas corporações. E José Serra, o escudeiro fiel, tornou-se o agilizador das vendas, o cirurgião – porque Ministro do Planejamento – da amputação do Brasil, o Chefe do Plano de Privatização.

Caiu a máscara da face, diz o samba antecipador. E venderam mal, pois cobraram pouco, permitiram que as moedas podres entrassem na jogada. A Vale foi um crime de lesa-pátria. E por que? Porque estrategicamente foi como perder uma das armas decisivas numa política de agigantamento do país. Olhem onde a Petrobrás foi novamente colocada por Lula e Dilma, no centro do grande movimento de retorno do Estado à economia brasileira. Ocupa o nervo estratégico do governo. Se a Vale fosse do Estado seria o segundo grande suporte. (A descoberta do pré-sal veio na corcova deste processo.) E o FHC não queria deixar a Petrobrás de fora, queriam fazer a Petrobrax. Olha só, Petrobrax! Mente de colonizado. Não conseguiram vender, o fantasma do velho Getúlio e a história do “Petróleo é nosso” impediram a venda. E isso nos salvou. Um dia, discutindo sobre a economia brasileira, no final do segundo mandato de FHC, com o economista francês Pierre Salama, (Salama temia que o Brasil seguisse os passos da Argentina) lhe disse: “a grande diferença é que o Brasil não entregou nem a Petrobrás, nem o Banco do Brasil, nem a Caixa”. E, de fato, o Fernando Henrique não teve coragem de ir até o fim no seu processo de venda. E com o Brasil quebrando três vezes, com a privatização desamparada e desarvorada pendendo para os lados dos compradores, com a abertura do comércio externo (completando Fernando Collor) e com a abertura financeira, sem pedir nada em troca, o Fernando Henrique tornou-se um grande entregador de empresas estatais. Tudo em nome da modernidade da economia. E nós, brasileiros, ficando sem investimentos e com alto desemprego, e sendo chamados, por cima, de “neo-bobos”.

Mas, o que queria salientar era outra coisa. Pela primeira vez, temos concorrendo à presidência da República dois candidatos que, de uma forma ou de outro vem das batalhas dos anos 60, mais exatamente da ditadura. Serra era presidente da UNE na hora do golpe, participou dos discursos do famoso comício de 13 de março, o comício onde Jango bradava por um caminho inexistente e Maria Tereza olhava perdida para o infinito. Como se antevisse a derrota, o golpe militar. Duvidam que Maria Tereza olhava para o infinito? Vejam o filme de Silvio Tendler sobre “Jango”. Como dissemos, Serra era presidente da UNE. Um das músicas do CPC da UNE, acho que uma música do Carlos Lira, falava nos “capitais amigos dos Estados Unidos”. A UNE do Serra. Pois, mirem-se nos engajamentos políticos dos anos sessenta. Havia muitos caminhos: ser golpista, ser pró-americano, ser resistente – e aqui com várias raízes, vindas de dois troncos fortes: a guerrilha e a resistência legal. Fernando Henrique e Serra foram contra a ditadura. E Dilma, a adversária de Serra, nem se fala.

Mas, a aranha que formata as teias da história não formata como poderia parecer a lógica dos personagens. Qual seria esta lógica? Que a resistência à ditadura por parte de gente de esquerda (Fernando Henrique era, Serra sempre pareceu que, e Dilma esteve sintomaticamente na contramão da ditadura) os levasse não só à democracia, mas com uma posição nacionalista. Pois, o que é a realidade, o cara que foi da UNE, o cara que participou do Seminário de Marx dos anos 60, ao entrarem no templo da política culminaram como vendedores do patrimônio estatal. Entregaram a preços de amendoim. O que foi a venda da Vale? E Serra vendeu muito mais. Fernando Henrique aprovou tudo. Pois não é que oito anos depois do FHC, depois que o neoliberalismo está em decomposição, Serra não desmente o “anúncio” de David Sylbersztajn de que o pré-sal pode ser vendido. O Serra, como dizia a minha mãe, “o Serra não se emendou”. Parece continuar na ponta do balcão a dizer: “Quem quer comprar o pré-sal? Se for presidente, o pré-sal vai estar à venda”. Comprem, comprem. A astúcia da História mostrou bem: a tropa de elite da intelectualidade e da política brasileira quer vender o Brasil.

E Dilma, não. Continua fiel aos princípios pelos quais foi à luta em 64. Pela democracia, pela distribuição da riqueza para os brasileiros. Mas, esta tropa de elite, não, Quando tomaram o poder, foi para negociarem tudo. Venderam tudo. Vale, Telebrás, Banespa, etc. etc. E agora fingem deveras que querem estatizar, (“Vou reestatizar tudo”, disse Serra depois do debate da Bandeirantes) quando pensam em vender. Isto consagra a grande volta que fizeram, quando trocaram de lado: de nacionalistas a neoliberais, de defensores do Estado a adeptos do mercado, de homens de esquerda a políticos de direita. São os pássaros desta vertigem e da fascinação pelo capital financeiro. Constituíram uma tropa de elite, uma formação de primeira (FHC, Serra, Malan, Paulo Renato Souza, Wiston Fritsch, Elena Landau. Mendonça de Barros, Gustavo Franco, Pérsio Arida, Armínio Fraga, Lara Rezende, Edmar Bacha, etc.) para ser a vanguarda econômica e política do neoliberalismo. Anos 90. Agora, no século XXI, não esqueçam que, apesar da crise nos Estados Unidos, existe um movimento forte de capital das finanças, alimentados pela liquidez americana garantida pelo Banco Central (FED). Estes capitais estão dispostos a investirem no Brasil e no mundo afora. Seríamos, portanto, a cauda de um neoliberalismo financeiro retardatário. As metas parecem claras: pré-sal, em primeiro lugar (como disse o economista Pedro Almeida, este patrimônio pode valer 8 trilhões de dólares ou seja mais da metade do PIB anual dos Estados Unidos). E claro, vende-se primeiro o dito pré-sal, e depois pode ser a Petrobrás. Isto pode descortinar um itinerário. E obviamente nessa visão, o Estado não deve ter bancos, pensando assim poderíamos arrastar o Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal para linha de tiro. No fim, quem sabe se ponha o BNDES para correr; ou, como Fernando Gros (outro que foi da Tropa de Elite e já faleceu) fez, transformá-lo em Banco de Investimento (que, na linguagem neoliberal, é banco de aplicações financeiras).

(Como podemos resistir a este itinerário político e econômico da privatização, que já foi efetuado no passado e que está antevisto para o futuro do Brasil na campanha de Serra? O “candidato do bem” sabe a quem oferecê-lo. Que Serra, FHC e seu grupo tomem esta posição faz parte do jogo democrático, mas não queiram passar por nacionalistas e defensores da riqueza nacional, quando são atores da privatização e da venda de empresas estatais para o capital estrangeiro. São atores do neoliberalismo).

quinta-feira, outubro 07, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
07 de outubro de 2010
COLUNA DAS QUINTAS


A CENA FINAL
Por Enéas de Souza


Estamos na seguinte situação: a peça está entrando no último ato. Para que ela fique interessante o Autor do texto, o Senhor, o Acaso - como se queira chamar - fez uma pequena falseta, algo que não estava no “plot”, no enredo, na tessitura dramática. O personagem Dilma que tinha tudo para não perder, não ganhou a consagração no primeiro turno de nossas eleições, foi para o segundo, depois de ter chegado quase lá. Ora, o ardiloso Autor, já que a peça estava tão boa, resolveu, feito esses autores de novelas da TV, espichar um pouco mais as cenas, fazer render os horizontes dos personagens, etc. Mas, como sabem os escritores e os roteiristas, não se pode fazer nada contra a lógica dos personagens, eles são rebeldes a qualquer maltrato. Não me lembro quem, mas recordo de um grande artista dizendo o seguinte (até nem sei se não foi o nosso Erico Verissimo): “se quero que o personagem faça algo diferente de sua natureza, ele não aceita, ele tem rebeldia. Resiste – e não consigo mudar o seu modo de ser. Os diálogos saem falsos e as ações sem sentido”.

Tem um personagem na atual história das eleições que se chama Mídia Convencional. De repente, estando sendo derrotada, se deu conta da mudança de parte da população em face da candidata Dilma Rousseff. E ela fez uma pirueta e apostou nos verdes, nos religiosos e na Marina. E olha só o minuto de traição da história. Prestes a vencer no primeiro turno, Dilma encontrou este obstáculo. O Dramaturgo da Vida resolveu dar mais sensação ao drama, pôr mais caldo no suco de maçã. Dilma ficou ali; 3 pontos da vitória no primeiro turno. E ela, como muitos – eu mesmo, vamos confessar – sentiu que a adversidade tinha aparecido na noite de domingo no nosso apartamento. Como diz o título do filme de Stanley Kramer “Advinhe quem vem para jantar?” Pois é, ficamos todos decepcionados, perplexos. Antes era a vitória certa, agora a vitória adiada... E Dilma falando no domingo, depois de ter tido milhões de votos a favor, quase 15 milhões de diferença para o adversário, ela, Dilma, estava com um ar de decepção, quase de derrota por não ter ganho no primeiro turno.

Como costumavam dizer as gurias no meu tempo de luta política estudantil: “olha aqui, gente”. Sim, olha aqui, gente. O companheiro Hegel já nos falava: vamos encarar o negativo na cara. O negativo foi não termos vencido a eleição no primeiro turno. Mas, o grande resultado foi o seguinte: uma candidata sem experiência de campanha política levou uma mensagem, a de continuidade ampliada do governo Lula, ao povo, aos eleitores. E saiu dos famosos 3% iniciais para 47%, derrotando – vou escrever com letras maiúsculas: DERROTANDO – o seu adversário de forma espetacular. Foi uma vitória maiúscula. “Gente”, não vamos cair nesta armadilha porque não triunfamos de primeira. Não vamos deixar que este sentimento de frustração passe para o primeiro plano, machuque o nosso entusiasmo e dê ao candidato tucano uma vantagem psicológica, que ele, metido a esperto, e que não tem o “physique du rôle”, quer aproveitar. Ora, convenhamos, Dr. Serra, foi um massacre: 47 a 33. Felizmente, a equipe da Dilma se deu conta e já está se reorganizando, lavando as feridas, percebendo as falhas. Já consciente do passa pé do último momento, da surpresa elaborada pelas traças do destino, Dilma está repensando o jogo. E os contra-ataques já estão sendo disparados como quem lava um cacho de uva naturalmente. Pois quem ganhou do jeito que ganhou não pode achar que o jogo vai virar.

O Dramaturgo da Vida está pensando: “que cenas vou botar agora?” Concebe em seguida: o grupo da Dilma vai ter que fazer duas coisas: primeiro, mostrar de onde veio, novamente. Sim, sim, veio do Lula. E aí põe o que o Lula fez. Bolsa-família, aumento de salário mínimo, crédito consignado, luz para todos. Pode contar que ele manteve os empregos com a desoneração fiscal para as indústrias automobilísticas e para a linha branca eletrodoméstica. E ainda cabe neste balaio o fato de que jogou o consumo para cima. Mas, se isto já é muito, veja mais um outro passo do Lula: retoma a Petrobrás para o país assim como deixa também a descoberta de uma riqueza notável como o pré-sal. É pouco? E o Dramaturgo da Vida pensa: “mas isso o povo sabe!” Só que raciocina: Dilma vai ter que dizer tudo de novo, porque é preciso confirmar o que foi feito. Comparar Lula com FHC. “Confirmar o voto”, pensam agora os eleitores das praias e dos sertões, das cidades e dos campos.

“Ah, mas vou ter que dizer o que a Dilma vai fazer”, fala para si mesmo o autor da peça, somando as idéias dela ao que o Lula fez. A candidata vai dizer que vai aumentar o poder do Estado para fazer mais investimentos, para alcançar mais empregos, para melhorar a infra-estrutura do país, para fazer a Petrobrás gerar indústrias na sua cadeia produtiva: indústria naval, indústria de bens de capital para o petróleo, ou seja, produzir navios, plataformas, sondas, etc. E mais, vai mandar alimentos, minerais e petróleo na pauta de exportações para garantir importações brasileiras, sobretudo de equipamentos para a nossa indústria. É isto: Dramaturgo da Vida sabe que a Dilma vai pôr o Estado em defesa do Brasil, seja na questão externa, seja no mercado interno, seja onde for necessário. Estas coisas estão na lógica do personagem. “E claro não se pode esquecer que Dilma vai dar um carinho especial ao trabalho do Lula na diplomacia”. Virá uma herança imensa das jornadas do Celso Amorim. O leitor pode imaginar: Ângela Merkel e Dilma Rousseff?

Antes disso, ainda nos confrontos eleitorais do segundo turno, o personagem Dilma vai ter que indagar: “Mas que é que o outro cara vai fazer?” Ah, aí é que está toda a diferença! O Zé, como disse o Plínio de Arruda Sampaio no debate final do primeiro turno, vai fazer duas coisas, como já disse logo depois da derrota, comemorando como se a Dilma tivesse perdido: “Vamos fazer um Estado forte”. Sim, foi isso que eles – o FHC e ele, o José Serra, Ministro de Planejamento – fizeram quando instalaram no Brasil o neoliberalismo tropical. Engana-se quem conjeturou que retirar o Estado da economia, deixando as finanças livres para ganhar o que puderem, é fazer um Estado fraco. Não. É um Estado forte. Mas, a pergunta se desdobra, e é pergunta de advogado: “Fazer um Estado forte para que? E para quem?”. O José Serra diz agora, como dizia no final dos anos 90 e início do século XXI, que é para dar desenvolvimento e emprego. Pois aí, pensa o Dramaturgo da Vida, a personagem Dilma vai ter que ser explícita: “Ora, candidato” – candidato, como se costuma falar agora – “essa não é a sua linha. Quando FHC estava no governo e você era ministro do Planejamento e depois ministro da Saúde, o que vocês fizeram foi privatização. Venderam as coisas do Estado. Pior: venderam as coisas do povo. Venderam as coisas do Brasil. VENDERAM.”. E aí reflete o Dramaturgo: “Querida Dilma, tens que ser cruel e definitiva” E põe o personagem no ataque: “Será que você, Serra, não quer vender também o Pré-sal? Quem sabe você não quer vender a Petrobrás, como na eleição de 2006, Alckimin disse que queria fazer? Quem sabe você não quer vender o Banco do Brasil e a Caixa Econômica como o Fernando Henrique estava pronto para tocar adiante?”

Pensando no desenvolvimento da trama da peça, o Dramaturgo da Vida cogita: “Aqui, para o conflito da peça crescer – pois é o último ato – tenho que forçar o clímax. E Dilma vai ter que botar o José Serra diante de sua biografia, já que é isto que ele diz que tem”. “Como é, candidato, como é que você diz que vai fazer o que nós queremos fazer, um governo para o povo, quando no governo você aconselhou FHC a vender a Vale do Rio Doce? Como é que você vai fazer os bancos serem a favor da população, como o Banco do Brasil, a Caixa Federal – sobretudo para o setor habitacional – e o BNDES, quando você logo que assumiu o governo de São Paulo queria vender a NOSSA CAIXA. Como é que você vai ajudar o Brasil privatizando o país. Vai vender o BB e a Caixa?”

E aí o Dramaturgo da Vida pode até pôr uma frase popular no seu enredo como fala derradeira.. Pode pôr o Plínio, no fundo da cena, dizendo: “Acorda, Zé. O neoliberalismo acabou”.

terça-feira, outubro 05, 2010

Fernanda Torres leu o EconoBrasil... e não entendeu!

Na FSP de domingo dia 03, dia da eleição brasileira em primeiro turno, a excelente atriz e colunista Fernandinha Torres deu o recado: ela é fã de carteirinha do EconoBrasil e do Enéas, nosso co-editor. O artigo do Enéas sobre a motivação do papel da mídia na eleição (http://econobrasil.blogspot.com/2010/09/crise-financeira-mundial-23-de-setembro.html#links) foi tão brilhante, tocou tão fundo, que nossa Fernanda não se recusou em refutá-lo em plena Folha de São Paulo domingueira.

E, vejam o paradoxo: ela queria mostrar em seu artigo o quão desprezível é a força da nova mídia (blogs, redes sociais, etc...).

Para nós, do EconoBrasil, é exatamente o oposto: a nova mídia pauta a velha, que deverá existir para ter repercussão cada vez maior dentre nós. Estamos fazendo nossa parte, Fernanda. Publicamos abaixo seu artigo, e esperamos que continue nos seguindo, pois certamente o tema "mídia e novas tecnologias de informação e de comunicação" não deixará tão cedo a pauta do EconoBrasil:

São Paulo, domingo, 03 de outubro de 2010

FERNANDA TORRES

Cronos


Rezo para que a antropofagia estéril das mágoas acumuladas não seja a grande vencedora em 2010


SE DILMA se eleger neste domingo, eu terei ao menos um grande alívio: o fim da preocupação de escrever essa coluna semanal.
Quando me foi feito o convite, a possibilidade de uma leiga como eu analisar a corrida eleitoral pelo seu lado teatral, o da política como fenômeno de comunicação, me seduziu a aceitar a proposta.
No meio do caminho, a disputa antes velada entre o poder e a imprensa se acirrou violentamente. Em um pronunciamento privado, José Dirceu nomeou seus principais desafetos: o Grupo Folha e as Organizações Globo.
Apesar de não ter contrato fixo com a TV Globo, eu, assim como centenas de atores que conheço, trabalho com frequência na maior produtora de conteúdo dramatúrgico do país. Não satisfeita, aceito participar do caderno Eleições 2010 da Folha de S.Paulo. Péssimos antecedentes.
Sempre que acontece uma polarização extrema, exige-se dos que estão envolvidos um posicionamento claro, partidário. Ou bem você ama a liberdade de expressão ou o povo. Ou você é Dilma, ou Serra. PT ou PSDB.
Lula sugeriu que os jornais explicitassem seu voto, em vez de mascararem o partido político pelo qual torcem com denúncias aparentemente isentas.
Ao longo dos últimos oito anos, aconteceram excessos de todos os lados, capas de revistas com pontapés na bunda do presidente e pronunciamentos de rancor público por parte das autoridades.
O economista Enéas de Souza, em um texto na rede, declarou que a imprensa se transformou na voz agonizante das oligarquias, em pânico diante da ameaça da verdadeira democracia opinativa das novas mídias de comunicação via internet.
O profético radicalismo apocalíptico do dilúvio tecnológico de Enéas, que virá abalar a atual concentração de poder e reinventar um mundo melhor, me incomoda tanto quanto os exageros difamatórios e o protecionismo de mercado das grandes corporações de comunicação.
Mais uma vez, reafirmo minha frágil posição de ovo sobre um muro estreito. Detesto extremismos e me preocupa o reflexo deste ódio mútuo nos setores menores da sociedade.
Em uma reunião entre a classe teatral e a secretária de Cultura do Rio, o diretor de um grupo teatral tomou o microfone para dizer que a dificuldade de sobrevivência, a falta de recursos e conexão com as plateias, ou seja, toda a crise do setor seria culpa dos atores, nas palavras dele, GLOBAIS, que além de fazer um teatro comercial, visam o lucro, viciando plateias com produções digestivas e destruindo a possibilidade de sua trupe, essa sim, séria, pura e competente, de existir como criadora.
Me deu vontade de mandá-lo assistir Marco Nanini em Pterodátilos para saber que ofensa há na existência de um trabalho extraordinário como aquele, que recebeu um redondo não de todos os possíveis patrocinadores, e que luta para existir tanto quanto qualquer mortal.
Rezo para que a antropofagia estéril das mágoas acumuladas não seja a grande vencedora em 2010.


FERNANDA TORRES é atriz




Ciro Gomes fala a verdade sobre a "era FHC-Serra"