quinta-feira, junho 24, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
24 de junho de 2010
COLUNA DAS QUINTAS

O SEGREDO
DAS
PERGUNTAS
Por Enéas de Souza



Uma pergunta vale um mundo. E como vamos voltar a fazer perguntas, vamos abrir vários mundos aos leitores. Estes, por sua vez, poderão continuar a dinâmica do perguntar. E trazer galáxias de mundos e de pensamentos para todos.

VOCÊ PODE GANHAR UM PRÊMIO APETITOSO

A primeira pergunta nossa é uma já conhecida, famosa, inevitável. Mas tem prêmio. Levante a mão e concorra a um manual matematizado do “mainstream” quem acredita que a crise já terminou. Pois, esta pergunta foi feita anteontem em Nova Iorque e em vários lugares dos Estados Unidos e o Finantial Times divulgou o resultado: nem os investidores acreditam que ela já se foi. Desta forma, todos estão partindo, nas nossas perguntas, do zero, como no bolão da Copa. Então, na sequência questionamos: você acha que a natureza desta crise é de curto, de longo ou de curto e longo prazo? Houve uma pressão enorme de bancos, de governos para salientar que a crise era rápida, tipo coelho: “vai ser bom, não foi?”. Na verdade, estamos numa longa jornada dentro da noite. Porque da noite? Porque sabemos que ninguém tem a resposta para as perguntas seguintes: Como se resolve o seu desdobramento? Como se acha a sua solução?

A BRIGA DE CACHORRO GRANDE

Embora o começo da crise tenha sido financeira, como já apontamos aqui, esta crise é financeira e produtiva. Então todo mundo quer saber: se não é financeiro, então, como se vai resolver esta crise econômica? Ela tem um escalonamento de saída? Soluciona primeiro a embrulhada financeira e depois a produtiva? Aliás, é bom indagar no momento: uma melhoria na bolsa, um retorno da sindicalização dos bancos e da securitização dos títulos resolveriam a esfera das finanças? Não fico só por estas searas, prossigo na investigação e indago: as autoridades e os legisladores deixarão de lado as questões da alavancagem? Deixarão de pensar na função do crédito na atual fase do capitalismo? O sistema financeiro funcionará para a produção ou para a especulação? Existe a possibilidade de construir uma nova arquitetura financeira? Pode-se separar os bancos comerciais dos bancos de investimentos? Vai se fazer algum controle dos hedge funds? Como vão ser tratados os grandes bancos, os chamados “to big to fail”? Nunca devemos deixar, no entanto, de reflexionar profundamente sobre o que vai acontecer com o Credit Default Swaps, uma das dinamites do sistema. Um pergunta fatal, em verdade. Contudo, no fundo de todas estas inquietações, ressalta o tema que coloco imediatamente em pauta: qual será o resultado do jogo de forças entre Obama e as finanças. Está claro, este é um jogo de cachorro grande. Olhe o seu termômetro e o seu barômetro econômico e político, e diga sem hesitação: vai terminar como? Pois, embora seja uma luta de quinze assaltos, como as maravilhosas lutas de box de antigamente, não se pode também deixar de questionar sobre a conseqüência desses combates sobre o que está se decidindo por esses dias no Congresso norte-americano: o “Regulatory Finantial Reform”. Que bicho vai dar? Vai dar empate? Ganha quem? Este round vai se decidir por esses dias.

AS MÃOS DADAS DE IGNÁCIO RANGEL E KEYNES

Veja o caro leitor, que o novelo da economia tem muitos aspectos para pensar como quando a gente caminha no sol nestas tardes de inverno. É preciso definir a natureza da crise, é preciso verificar as dimensões dos estragos em todos os níveis das finanças. Por isso, está faltando o questionamento sobre o Estado. O prof. Pedro Almeida traz sempre no debate a questão minskyana do “Big Government”, a sua capacidade financeira de pode atender os requisitos salvacionistas da crise. E à medida que esta avança, numa dança fatídica - a dança da morte como se mostra no célebre quadro de Breughel - o que se percebe é que há dificuldades de controlar os déficits e que as dívidas estatais seguem mantendo-se em alta. Algumas como a Espanha quase que dobraram desde o início da crise. E os Estados Unidos tem igualmente uma crise poderosa. Mas, a diferença é que a dívida americana é uma dívida na sua moeda. É uma dívida com eles mesmos. O que significa uma capacidade política e monetária de resolvê-la satisfatoriamente. Então, o Big Government como diz o meu colega André Scheler talvez seja um “Little Government”. Porque o tema do endividamento do Estado se encaminha na atual conjuntura, da Inglaterra a Grécia, para a questão recessiva. Ou seja, porque o Estado não é “Big Government” infinitamente, a solução da crise é dolorosamente a recessão. E pergunta-se: qual é a solução para esta? Porque o Estado está se sentido impotente? Não pretende alterar a sua estrutura, o seu endividamento, a sua liderança, a sua possível liderança na articulação de investimentos e de planejamento? Mestre Ignácio Rangel dizia que numa crise – acho que já salientamos isto por aqui – um dos lados da economia fica com recursos e outro, sem. Todo o problema é reformular as ligações que levaram ao desastre e unir o setor que tem capital com o setor que falta. Diria o velho Keynes: bota o Estado para aumentar fortemente a Eficiencia Marginal do Capital. Mas, as finanças deixarão o Estado atuarem em benefício da produção?

O QUE PENSAM AS FINANÇAS DO CICLO ECONÔMICO?

1)
Falando da economia produtiva. Os financistas têm mostrado que não têm nenhuma idéia sobre ela. Qualquer ativo, já mostrou o antes citado Minsky, não passa de um ativo financeiro, seja ele uma mercadoria, uma moeda ou um título público ou privado. Para eles basta recomeçar a especulação e a sociedade e a produção virão atrás, e o crescimento retomará seus belos e esplêndidos dias. Isto quer dizer que daqui a pouco, o mundo estará novamente em festa e o carrossel dos mercados estará porejando rendas financeiras por todos os lados. Enquanto isso não acontece, eles não compreendem que a economia produtiva é regida pelo longo prazo. É o investimento que altera o destino de uma nação. Não, eles não pensam assim. Eles insistem na necessidade da retomada da especulação; no retorno dos rendimentos financeiros substanciais; na passagem da preferência pela liquidez para decisões de aplicação financeira em papéis diversos; no retorno das altas rendas, pois que de parte delas virão os aumentos dos gastos em consumo. E que, portanto, as finanças continuarão sustentando através deste citado consumo o incremento da demanda efetiva. É deste curto prazo financeiro e de seus resultados que virão os novos investimentos. Finance led growth.

2) Duvido que as finanças e os financistas acreditem na transformação da liderança produtiva pelas novas tecnologias. Não que eles não acreditem nas novas tecnologias. Acreditam sim; mas como motivo especulativo. Talvez não seja por outra razão que se anunciam aplicações financeiras de Soros em tecnologias médicas. Tudo que escrevo serve para enfatizar que uma visão schumpeteriana não passa para as finanças de uma forma poética de ver a metamorfose da economia. Elas não acreditam que as atividades econômicas possam ser reorganizadas e refeitas em função, como diria Carlota Pérez, das tecnologias que se implantaram e que agora estão prontas para tornarem-se maduras. Logo, as finanças só estão interessadas nas tecnologias como novos ativos financeiros. Fora disso, estas só são instaladas para melhorarem a sua infra-estrutura técnica operativa. Elas, as finanças, não têm nenhuma idéia de que a atividade produtiva e econômica seja reformulada por uma lógica cíclica da crise, quando de tempos em tempos, há uma necessária e indispensável transformação da estruturas econômicas e da relação dos elementos desta estrutura. E que toda a reformulação surja a partir de um “cluster” de novas tecnologias e novos produtos.

A questão é: porque as finanças não acreditam no ciclo e nas transformações cíclicas?

PERGUNTAS E MAIS PERGUNTAS

1) E porque não é possível libertar o Estado das amarras das finanças? É o Estado um Prometeu Acorrentado? Porque é que as relações entre as finanças e o Estado são tão incestuosas - como se pode constatar, sobretudo, nos governos europeus, onde a crise das finanças é também uma crise de Estado, e onde a crise do Estado é uma crise das finanças?
2) Não resta dúvida nenhuma que, diante do fracasso do “Big Government” no Ocidente, a solução única para as finanças é jogar as cartas da contração fiscal, da quebra de contrato de salários do setor privado e público, do aumento anti-liberal de impostos, conduzindo a economia para a atividade recessiva. E no fundo da roupa escura da recessão aparecem as nuvens carregadas do espectro não explícito, mas visível, da depressão. Trata-se do processo que envolve uma espiral contracionista das economias e dos Estados. Uma possibilidade desagradável da dinâmica econômica e da política atual. Por isso, a questão é a seguinte: é possível que a miopia do imediato, da curta duração, atrase vertiginosa e vigorosamente a reformulação do longo prazo?
3) Mais outras perguntas. Não é da natureza do capitalismo o desenvolvimento cíclico da economia? De que depende a passagem da fase recessiva do ciclo para a fase de recuperação do novo ciclo econômico? Pode-se dizer que teoricamente a solução do ciclo se dá por dois modos: ou por uma extensa queima de capital, via depresssão, que seja capaz de retomar uma lucratividade brutalmente ascensional ou por uma intervenção do Estado que dirigirá a lucratividade para uma ascensão claramente planejada. Na sua opinião, quais serão as forças que sustentarão estes caminhos? Quanto tempo levará para a reorganização da economia da mundialização? De onde pode vir a reanimação da economia? A economia mundializada entre os Estados Unidos e a China terá uma performance semelhante? O G-20 terá um papel decisivo na governança e coordenação da metamorfose do longo prazo da economia capitalista?
4) Uma pergunta perfurante: o que acontecerá se as finanças continuarem a comandar o processo social, político e econômico do presente?
5) Uma pergunta de futuro: a política acabará por se afastar das finanças e descobrir a forma da construção de um novo Estado, que desenhará uma nova geopolítica e uma geoeconomia?
6) Parece que finalmente fica claro que o segredo das perguntas está na formulação das próprias. E deixá-las, depois da sua geração, florescer nas plantações do tempo. Por isso Érico Veríssimo tinha razão quando escrevia: "Olhai os lírios do campo".


quinta-feira, junho 17, 2010



CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
17 de maio de 2010
COLUNA DAS QUINTAS


O CONTRA-ATAQUE
NEOLIBERAL:
VAMOS CONTROLAR
O ESTADO!
Por Enéas de Souza


AS FINANÇAS CONTRA O ESTADO E A PRODUÇÃO

1) Há uma clara novidade na conjuntura presente: um contra-ataque neoliberal. Um ataque neoliberal das finanças à posição do Estado. A ironia da situação: as finanças, que foram salvas pela mão visível do Estado, estão pedindo, estão clamando que o Estado reformule a sua atuação e seja austero, faça uma política de contenção de gastos, etc. Aquela conversa neoliberal que eles chamam de política econômica. O Leviatã, na época da crise de 2007, agiu keynesianamente certo. Salvou, com o dinheiro ágil do seu cofre, as finanças em nome de vários aspectos. Em nome do risco sistêmico, da função estatal de emprestador em última instância, do resguardo do sistema financeiro, etc. Ou seja, o Estado – leitor, sinta a profundidade do gesto – contra os princípios neoliberais, teve que se fardar, vestir o seu traje de todo poderoso, se endividar, usar os recursos dos contribuintes, etc. para retirar os bancos, as instituições financeiras de situações críticas de insolvência e de bancarrota. E, na continuação do processo, levar o sistema financeiro para o hospital, cuidá-lo durante longo tempo, dando soros, dando sangue, injetando capital, operando reformas na contabilidade empresarial, com o objetivo de pôr em pé o sistema bancário e assemelhados. Sob certo ponto de vista, o Estado tomou uma atitude keynesiana.

2) Só que foi um keynesianismo perneta, “mais que perneta” disse meu colega André Scherer. Porque, uma crise como esta, na verdade, foi uma crise mais que a financeira, foi também produtiva. E não se aplica um keynesianismo pela metade. Faz-se uma ação completa. O Estado assume o comando da economia, salva as finanças e a produção. Lança junto com os “bailouts” do sistema financeiro, um conjunto de medidas que visam o investimento e o emprego. Mas, isto não aconteceu. Os americanos deram dinheiro para as instituições financeiras, mas não fizeram nenhum plano para atender a recuperação da demanda efetiva. E o ataque neoliberal é exatamente isso, ataque à recuperação da produção – para que essa fique nas suas mãos, jogando a carta pérfida da contenção de gastos, da austeridade a todo custo. Enfim, um ataque ao princípio keynesiano da demanda efetiva, que falamos acima. Mas, um ataque que não só contenha o Estado, como não modifique as relações funcionais entre as finanças e a produção. Mantenha as finanças tanto no seu poder especulativo como no seu poder de definir o crédito ao setor produtivo.

O LANCE MUNDIAL DO NEOLIBERALISMO

1) O Estado americano se endividou e aumentou o seu déficit anual sempre em função das finanças. E para evitar maiores problemas deixou de atender ao investimento e ao emprego, seja porque era importante não apoiar as empresas produtivas velhas, seja porque as dimensões para injetar recursos nas novas tecnologias eram vastas e complexas. O Estado deixou o barco correr. Portanto, o keynesianismo ficou pela metade, mancando; se é que podemos falar de keynesianismo. E só estamos trazendo esse assunto porque depois de dois anos digerindo a sua comida tóxica e infértil, as finanças resolveram lançar um forte ataque contra o Estado sob pena de que o keynesianismo não deu certo. O gasto do Estado não deslanchou a produção, o Estado está ameaçado pela dívida e pelo déficit e, logo, é preciso, que cuidadosamente, o Estado tome uma atitude contracionista, que pare de gastar. Dito de outra forma, o substancial é que o ele reduza a sua dívida, que baixe fortemente o seu déficit. Enfim, que o Estado (depois de ter salvo as finanças) faça finalmente a sua parte, se recupere e saia da economia... Depois do keynesianismo capenga, a recuperação do neoliberalismo...

2) Ora, este contra-ataque liberal é um ataque global. Sobretudo, depois desta crise grega que se transformou numa crise européia. E o mote principal das finanças já está dado. “Recuperar os Estados”. (Claro, depois de salvar as finanças). Só que quem está sendo visado fortemente neste momento são várias coisas. Em primeiro lugar, impedir que o Estado faça o outro lado de uma atitude do Estado, lançar programas de investimento que recuperem a economia e o emprego. Em segundo lugar, enfraquecer o setor dos trabalhadores, seja público, seja privado, visando, antes de tudo, baixar salários. Daí a receita clássica: fazer o Estado cortar gastos, ajustar as suas dívidas, podar o seu déficit, porque como uma casa um Estado deve viver dentro dos seus recursos. Ora, clarividente leitor, esta é uma visão de usurário, de bodegueiro. Se a gente gasta demais, aperta-se o cinto. Claro, claro, não falemos da ajuda das finanças. Isto já passou. Ora, um Estado não é um boteco, não é uma casa. Um Estado pode fazer dívidas para fazer crescer uma economia, porque o crescimento desta permite que, a certa altura, o Estado recupere o seu controle econômico. O investimento é o que faz aumentar a renda. E o que faz aumentar as receitas do governo é, obviamente, o aumento da produção e do consumo.

3) Não é preciso, portanto, quebrar a espinha dos trabalhadores nem impedir que o Estado apóie a produção. Este impedimento faz parte do domínio das finanças sobre o Estado e sobre a economia. E vejam o truque em toda a sua extensão. Primeiro, as finanças crescem ao máximo e, para tal, o Estado desregulamenta o sistema financeiro. Não controla nem bancos, nem bancos de investimentos. Nem hedge funds, nem private equity. Nem nada, nem ninguém. O Estado libera tudo, fica apenas atento ao risco sistêmico. Se der bode com as finanças, aí sim, aí ele entra como um bom xerife para resolver a reboldosa no saloon. Deixa-se solto o reino da especulação. Quando o sistema financeiro quebra, o Estado, como os antigos heróis das histórias de quadrinhos, age rápido para a sua salvação e se possível para a sua ressurreição. Muito cristão, portanto. E os Estados Unidos, bem como a Europa, são, é verdade, zonas da cristandade. Porém, quando o Estado deve salvar o resto da economia para levá-la novamente ao crescimento, as finanças, que se beneficiaram com o Estado – inclusive fornecendo empréstimos a juros cada vez mais altos ou comprando títulos do governo a taxas apetecíveis – agora, elas lançam uma campanha de austeridade do Estado. É exatamente isso (e isto é hegemonia): o Estado tem que ser das finanças. Se a economia deve crescer, tem que crescer a partir da liderança delas, a tal de “finance led growth”. Jamais se pode crescer invertendo a equação. Nada disso. Nada do investimento estatal e investimento privado puxando o resto da economia. Emprego? Antes de tudo, cortar os salários dos empregados. E os novos empregos? Só quando houver a retomada cíclica “natural” – e com salários diminuídos. As chamadas “flexibilizações trabalhistas” como se diz aqui no país da “Lavoura Arcaica”.

CORTAR A ORGIA DE GASTOS

1) Desde a Grécia até a Itália, e você pode incluir a França, passando pela Espanha (olha só embolamento no seu sistema bancário neste momento), e a Irlanda, e chegar até a Inglaterra, a Europa evidencia que está com os Estados arrebentados substancialmente por causa da crise financeira mundial e regional. Mas, a solução política da crise, para o contra-ataque neoliberal, é apenas uma. Ela se desdobra como resultado do apontamento da orgia de gastos públicos (Com quem? Para quem?) como causa. E, por essa razão, a pressão segue só numa direção: cortes dos salários dos funcionários e corte nas aposentadorias. Já que, como sempre, quanto aos juros nada. E toda essa “audácia” para que se possa recuperar as finanças do Estado com o objetivo jubiloso de pagar os bancos, que atiçaram a dívida pública. Na verdade, esta austeridade tem dois objetivos: salvar as próprias instituições financeiras, mas ao mesmo tempo, recuperar os Estados para que a citada dívida pública e o orçamento possam, num segundo momento, servir aos ganhos dos bancos. De que maneira? Recomeçando o movimento financeiro de crescimento das finanças e, por derivação, dar algum capital para o crescimento da economia.

2) Só que isso é complexo. Porque a recuperação financeira do Estado passaria por empréstimos de bancos de outros países ou de outros Estados em melhores condições. E o recurso conseqüente da austeridade fiscal, no final das contas, vai desembocar no colapso da demanda efetiva, tanto do consumo como do investimento. A espiral contracionista se tornaria numa depredação da economia pública, por ausência de receita. A proposta neoliberal ainda tentaria empurrar eventuais eliminações de impostos, sob a idéia de que os ricos e as empresas não pagando tributos consumirão e investirão mais. Quá. Quá. Quá. Quá. Pagar menos imposto não quer dizer nem mais investimento, nem mais consumo. Os ricos e as empresas vão acabar aplicando no mercado financeiro. E há até uma variante desta estratégia depressiva. Aumenta sim, impostos; mas aumenta impostos sobre os produtos, o que encareceria a vida da população e jogaria mais para o chão o nível da indústria e do comércio. O malefício é fácil de perceber: a baixa de salários, a baixa das aposentadorias e o aumento de impostos embutidos nos bens, certamente, causariam o empobrecimento na qualidade de vida. E não provocaria o efeito desejado: o aumento das receitas do governo. Tome assim recessão e até depressão no lombo.

A RESSURREIÇÃO E A MORTE DAS FINANÇAS

1)
Temos então um vasto contra-ataque neoliberal, e nele uma tentativa de recompor a posição das finanças no domínio político do Estado, impondo a este um constrangimento de gastos. Esta postura impediria que o governo assumisse a liderança do processo econômico, como também anularia a transformação da função prioritária das finanças no apoio à produção. Veja, portanto, caro leitor, se você quer ser mais uma vez enganado pelas finanças, seja você empresário ou funcionário público ou empregado privado. As finanças usam, entre outros aspectos, um determinado tipo de austeridade para que a população, a economia e os economistas lutem pela ressurreição das finanças.

2) É por essa razão que não acreditamos que a crise terminou, e que estamos no caminho da sua solução. Ao contrário, acho que a crise está entrando numa trajetória inquietante, porque esta aposta está nos levando a mais recessão, senão à embrulhada tragédia da depressão. A sociedade e a política é conflito, e o capitalismo, que é processo de concentração e centralização de capital, também é competição intensa, destruidora e reconstrutora. Estão em jogo, nesta autêntica Copa do Mundo, as forças sociais. As finanças estão tomando a iniciativa, tratando de uma vigorosa ressurreição. Estarão as outras energias políticas de acordo? Estarão dispostas a sacrificar os seus rendimentos, o seu nível de vida, as suas pretensões econômicas e sociais em nome de uma força que absorve os recursos financeiros da sociedade pela especulação?

3) A luta segue permanente e constante. Nada está definido por ora. As finanças especulativas têm parte com o peru: não morrem de véspera.

quinta-feira, junho 10, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
10 de maio de 2010
COLUNA DAS QUINTAS


DE DEUSES
DOS ESTÁDIOS
A ATIVOS
FINANCEIROS (*)
Por Enéas de Souza


1) Houve um tempo, dos anos 40 aos 70 do século passado, que os jogadores de futebol, sobretudo os brasileiros e os argentinos, eram considerados, como Pelé, Zizinho, Didi, Di Stéfano, Labruna, deuses dos estádios. Da Inglaterra pairava a lenda de Stanley Mathews e da Hungria o nome de Puskas. Talvez fossem como Aquiles, filhos de deuses/deusas e homens/mulheres, assim misturados, porque atingiam, no campo e nas atuações, uma espécie de excelência indisfarçável. O divino Pelé foi o maior de todos. Veio depois de Di Stéfano, que até então era o mais luminoso. Pelé encomendava a cada coração, uma paixão pelo futebol com seus dribles de acrobata, com suas jogadas de bailarino, com suas fintas de sambista, com a inteligência apolínea de seu corpo. Marcava, a cada jogo, o limite da ação humana.

2) Mas, esses deuses, essas criaturas eram ardilosos inventores, pois não se pode esquecer dos lances que inovavam, das jogadas que fizeram brotar. Exemplo: Leônidas da Silva, com sua famosa bicicleta. Invenção e talento vigorosos. Leônidas era um preto luzente, cujo apelido acabou por dar origem a um chocolate que existe até hoje: Diamante Negro. Era tudo que ele valia. John Huston poderia ter pensado nele ao fazer seu filme “O Segredo das Jóias”. Já se vê que estes jogadores anunciavam uma era do excepcional, uma era do espetáculo. Garrincha foi outro protagonista do início destes tempos. Driblava sem sorrir, fazendo delirar a platéia, parecia um Buster Keaton na sua genialidade simples de circo. Do palhaço que faz da repetição a construção do riso. Garrincha repetia cem vezes a mesma jogada. E o povo exultava e ria. Circo puro. Mas, o circo foi indo, veio chegando e engrossou o que Guy Debord chamou da “Sociedade dos Espetáculos”, que no futebol tornou-se mundial e definitivo com a Copa de 70, a primeira copa televisionada para todo o planeta. Copa onde o gênio de Edson Arantes do Nascimento foi glorificado para sempre como Pelé. Não é verdade que Fernando Pessoa, antecipadamente, nos disse que “O mito é o nada que é tudo”?

3) O futebol foi desde logo para os brasileiros um processo complexo e amplo. Por isso, se pode dizer que ele é um processo ontológico, social, econômico, político, psicológico, ideológico, poético, filosófico, cultural, etc. E no dia a dia, funciona para as massas como um processo educacional, um processo de educação contemporânea, onde avultam no campo de jogo as ações, os gestos, a inteligência, a estratégia, a capacidade de corpo, funcionando como verdadeiro tratado de ética. Pelé é o nosso Platão, é o nosso Aristóteles, quem sabe até o nosso Spinoza, que ao contrário de escrever uma “Ética more geometrica demonstrata”, construí uma “Ética demonstrada pelo futebol”. E hoje, todas as facetas deste esporte são perpassadas pela conquista do futebol pelo capital, assim como a saúde, a previdência e a cultura tornaram-se produtos gloriosos do neoliberalismo. Ainda bem que deu tempo para ver Romário, que Cruyff, o grande astro da “Laranja Mecânica”, a Holanda, chamou de “gênio da pequena área”. Mas qualquer seja a nossa visão sobre a questão é indispensável dizer, inspirado em Mauss, que o futebol é um fato social total.

4) O futebol tem características épicas e trágicas. E por isso os leitores de Homero, de Sófocles, de Ésquilo, de Eurípedes podem certamente compreender os eventos maiores deste jogo. O futebol requer narração e requer teatro. A visão épica e trágica tem instrumentos para definirem o futebol, porque, sobretudo, um leitor de Heráclito, um filósofo trágico, trabalha com as idéias de jogo, de combate, de “guerra”. Um heraclitiano compreenderia o futebol muito bem já que é um jogo perpassado por um conflito e que tem uma tensão forte entre os contendores. Basta lembrar, por exemplo, um Brasil e Argentina, um Alemanha e Itália, um Alemanha e Inglaterra, um Brasil e Itália, um Brasil e França que colocam exatamente este elástico do filósofo de Éfeso, a discórdia, dia-noite, inverno-verão, etc., intimamente unidos, como a natureza do Jogo. O futebol tem uma ontologia heraclitiana, que significa dizer que o mundo está em constante mutação, mas ao mesmo tempo, que tem uma estrutura de dois lados que se afrontam. Grêmio e Internacional, Flamengo e Fluminense, Benfica e Sporting, Roma e Lazio, Barça e Real Madri. O futebol tem a malícia de ir do particular (os jogos locais) ao universal (a Copa do Mundo).

5) Mas, hoje, as coisas se complicam; a poesia e a filosofia, que traduzem a metáfora do jogo, cada vez mais dão lugar, e já há bastante tempo, à implacável realidade: o futebol como fenômeno econômico. Este se superpõe às outras determinações e o jogador passa a ser um ativo financeiro. Ele entra numa bolsa de valores especial: o mercado dos craques famosos. Veja quanto vale Kaká, quanto vale Cristiano Ronaldo, quando vale Messi. Neste mercado temos investidores (inclusive oriundos da máfia russa), temos cotações, temos até uma indústria que prepara atletas por toda a parte do mundo, para serem vendidos, alocados na bolsa internacional, principalmente para os times ingleses, espanhóis, italianos, etc. E, certamente, temos craques, dependendo do seu jogo, valendo mais do que outros, mas seguindo para mercados hierarquizados. A Inglaterra, a Itália e a Espanha são as melhores praças para se vender um personagem futebolístico, para fazer um ativo financeiro render mais do que, por exemplo, em Portugal, na Rússia ou na Turquia. Isto não quer dizer, que debaixo do econômico, não resistam os valores poéticos e filosóficos. Nossos magos da metáfora como Nelson Rodrigues e Armando Nogueira morreram, mas sobrevive nos apaixonados do futebol a necessidade de escutar a palavra que organiza, que simboliza, as ordens e as desordens das partidas, as modulações das figuras dos astros e das histórias dos campeonatos. Haverá sempre um novo poeta para futebol? Ou o capitalismo vai destruir a poesia dos estádios e dos craques? Será que os novos meninos da Vila, glórias dos últimos domingos brasileiros, serão capazes de resistir o avassalamento do dinheiro? Neymar, este garoto de talento, este sacerdote do júbilo, ainda terá tempo para fazer os dribles e os gols no caminho da molecagem exitosa? E Ganso, o meio de campo soberbo, de lençóis e enfiadas altivas, estará apto para a seguir a longa tradição de meias canchas tipo Zito? Ou tudo isso é apenas a chispa das oportunidades que serão aproveitados pelos leilões das ofertas monetárias?

6) Esta Copa é a produção de imagens por meio de imagens. Uma feira de amostras, um bolsa de valores, uma Wall Street do espetáculo do futebol. Vai entrar muita grana no pedaço. Cada vez mais – e veja-se a própria Copa no Brasil, junto com as Olimpíadas – há uma união entre as empresas construtoras e os governos, entre as federações e a Fifa e as televisões de todo mundo. Um bloco econômico que vai impor realidades. Vocês lembram que a Copa de 1994 nos Estados Unidos era jogada ao meio dia para que houvesse uma transmissão para o maior número de telespectadores? Pois cada vez mais os capitais organizarão este festival de jogadores e de ativos financeiros. Só que os amantes do futebol continuam a amar as partidas, a ver os desenhos e as pinturas e o teatro dos jogos com aquela paixão inigualável. E a sonhar que se não vai aparecer um Pelé, talvez a grama dos estádios, as grandes áreas, os lances, os gols revelem algum grande jogador como Zidane, como Puskas, como Maradona, como Rossi, como Jairzinho, como Ronaldo, como Rivaldo. A Copa do Mundo é sempre o lugar, não dos vencedores, que é uma categoria bastarda, burocrática, midiática e econômica, mas o lugar das exceções que é uma categoria da excelência, da qualidade e do desejo. Esperemos que esta Copa seja uma Divina Comédia. E que Dante nos traga o novo Virgílio do futebol, que eternamente conduzirá o próprio Dante ao caminho do Paraíso. Este é o sonho borgiano dos fanáticos torcedores do mundo. E mesmo que o capital pense que domine tudo, sempre haverá um momento totalmente lúdico, o momento dos jogos, onde se poderá ver entre os ativos financeiros, o brilho inarredável dos astros. E para nós, humildes mortais, sempre estará presente a oportunidade impar de nos tornarmos crianças e usufruir novamente o momento iluminado do jogo. Do puro jogo – que é o rei da vida e da alegria.


(*) Artigo publicado originalmente em “Linhas de Passes – O Inconsciente em Campo”, Correio da APPOA, Associação Psicanalítica de Porto Alegre, junho de 2010.

quinta-feira, junho 03, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
03 de maio de 2010
Coluna das quintas

A FRATURA
DA ECONOMIA
MUNDIAL
Por Enéas de Souza




RESPONDA RÁPIDO: DECOMPOSIÇÃO DA ECONOMIA É PÓS-CRISE?

Para avançar na compreensão da situação atual da economia globalizada vamos fazer algumas perguntas. Primeira pergunta: é possível restaurar uma economia que está fraturada em duas, fraturada entre o enlace americano em profunda desorganização (Estados Unidos, Inglaterra e Europa) e o enlace chinês em vasta reformulação (China, Ásia, África e parte latino-americana)? Ou seja, a economia puxada pelos americanos – de construção global – que envolveu o mundo todo, inclusive a China, que se desenvolveu sob os templos dos déficits gêmeos dos Estados Unidos (déficit comercial e déficit fiscal), acabou numa desordem geoeconômica. Decomposição de proporções ainda não delimitadas, mas com um fenômeno importante: esta economia globalizada se rompeu e vai ter que ser reparada. É preciso, sem medo de errar, supor a idéia de que nenhuma economia retorna ao que foi. Portanto, o agradável pensamento de certos economistas, de certos políticos, de certos jornalistas sobre a recuperação e a restauração da atual economia não pode ser um pensamento sem objeto? Não estão nesta categoria também aqueles economistas que falam da economia da pós-crise?

A FRAQUEZA ECONÔMICA ESTÁ NA POLÍTICA TAMBÉM

Uma economia que se parte contem no seu casulo a possibilidade da construção de uma nova configuração econômica. Só que precisa desmanchar, pelo menos até certo ponto, a que estava aí. E este desmanche, porque social, tem resistência por todos os lados. E tudo fica muito difícil de se solucionar pela fraqueza dos Estados. Fraqueza diante do descozimento da economia. Dando nomes: da crise do sistema financeiro, da crise produtiva e do desemprego em larga fisionomia. A fraqueza americana se origina na incapacidade do seu Estado – na negociação do Executivo com o Legislativo – em aprovar uma nova arquitetura financeira com novas regras. E na fraqueza keynesiana do financiamento dos novos setores tecnológicos para recuperar o dinamismo produtivo. Não há como negar: a crise trouxe o questionamento do Estado no Ocidente. Pois o que se vê na Europa é um desdobramento em ramos específicos da quebra da árvore que fez florescer também os frutos europeus. Postergando a questão, as finanças e os conservadores de todos os lugares desta cadeia querem reter a forma que já se foi. Tudo isso pode nos levar ao que Tenessee Williams chamaria de “Um demorado adeus”.

O QUE FAZ A DIFERENÇA DA CHINA

Corta a cena e temos um novo plano: a China. O personagem é outro, tem outra realidade. Ela é uma economia emergente. Uma economia que se organiza com dinamismos próprios acentuados, O que não quer dizer que não se alteia também com estímulos do exterior. Foi o deslocamento de empresas americanas, em busca de baixa de custo, que deu um grande impulso ao “drive exportador” chinês. Nessa lufada de vento transferiu tecnologias administrativas, financeiras e produtivas para a economia receptora. Todavia, há um ponto que mostra uma substancial diferença. O Estado chinês. Um Estado que não se colocou a serviço das finanças e nem mesmo da produção pura e simples. Engendrou outra coisa. A China tinha um Estado que assumiu o processo de planejamento, de liderança e de investimento na economia. E desenvolveu os mecanismos de mercados sempre com o apoio, a vigilância e a regulação do Estado.

O AVESSO DO ESTADO AMERICANO ATUAL

Desta forma, a pergunta seguinte tem cor. Trazendo o fato de que a economia chinesa tem um Estado intervencionista, produtivista, um Estado que planeja as modificações das atividades econômicas, será que ele tem capacidade para reordenar e liderar, de puxar uma nova ordem mundial, além de tratar da reformulação de suas estruturas? Esta pergunta tem uma resposta evidente: não. Todavia, o que ela coloca às economias americana e européia é um contundente desafio: como uma economia pode resolver sua crise sem o papel do Estado? E diretamente: como lutar contra a expansão chinesa com um Estado frágil diante das forças econômicas internas em Estado de inércia ativa? Como o Estado americano pode lutar contra o bate pé das finanças? Como o Estado americano pode colocar vigorosos recursos para uma modificação estrutural do setor energético? Como pode o Estado americano dispor de financiamento para a solução dos problemas ambientais e constituir, de um modo capitalista, novas indústrias no setor? Como o Estado americano poderá dirigir à base do crédito destinado à especulação para o desenvolvimento dinâmico destinado à liderança da produção das novas tecnologias de informação e comunicação?

O CRITÉRIO DA MUDANÇA

O que queríamos fazer notar neste texto é que temos, de um lado, a decomposição de uma economia globalizada em torno dos Estados Unidos. Mas, uma economia que, neste desmanchar, destruiu a solidez do enlace que existia na globalização. Dito de maneira diferente, do jeito de Camões com “uma tuba canora e belicosa”: a economia mundializada está sim, está partida estrutural e dinamicamente. A economia que existiu não volta mais, não adianta dizer que há crescimento aqui e ali. Isto melhora, mas não altera quase nada. Por quê? A resposta está na pergunta que ladra: houve mudança estrutural na atual economia do mundo? Na China até que se fabricam transformações. Mas, nos Estados Unidos – e principalmente na Europa – a estrutura liberal que está depauperada, sem ânimo, não encontra capacidade para reformar os seus encantos, ela tem uma paralisia interna brutal. As nações e os Estados são prisioneiros das finanças; e as finanças não se resolvem e se deslancham; e o crédito não flui e não irriga a produção; e a produção não se transforma nem se aventura tecnologicamente. Pode uma economia desta ordem estar em retomada econômica? Em pós-crise?

A CHINA TEM FORÇA PARA PUXAR O MUNDO?

Do outro canto do planeta, a China encadeia uma transformação da economia. Deixou de lado o caráter exportador, volta-se para a sua intimidade, reforma as áreas produtivas para renovar os setores. Naturalmente, isto não é feito sem choques, sem conflitos sociais, sem pressões inflacionárias. Mas, como dizem os franceses: “on bouge”. A coisa anda. E nessa nova dinâmica, recompõe relações com regiões, com países, faz uma nova sintonia com Ásia, com a Índia, com o Brasil, etc. Ou seja, a China existe como dinamismo. Mas, a pergunta devorante é a seguinte: está ela em condições de substituir – dinâmica, tecnológica e financeiramente – a economia americana? É a economia chinesa uma economia capaz de soldar e puxar a economia americana? É a economia chinesa uma economia líder das transformações energéticas? Tem ela metamorfoses tecnológicas de ponta nas novas tecnologias de comunicação e informação, na nanotecnologia, na biotecnologia, nas tecnologias médicas, na bioeletrônica? É o Estado chinês capaz, por sua fortaleza, por sua dimensão, por sua influência mundial, de construir uma moeda com suficiente força para rivalizar ou substituir o dólar?

AS QUESTÕES JOGADAS SOBRE A ECONOMIA

Infelizmente, se as respostas forem não, a estrada ainda vai continuar longa. Ainda teremos o tema de Eugene O´Neill, “Uma longa viagem dentro da noite”. E as questões são essas, jogadas, lembrando Drummond, como as coisas que o mar lança a praia:
1) Como organizar no Ocidente um novo Estado que possa dominar as finanças e orientar, via planejamento, a nova produção? O planejamento pode ser reconstruído?
2) Como quebrar a hegemonia das finanças, inclusive o seu domínio sobre o Estado? Como transformar o Estado financeiro? Que Estado estará por vir?
3) Que estrutura de organização teremos nas empresas ocidentais, dado o fato de que a “corporate governance” é uma forma de financeirização das empresas? Existem novas formas de organizações empresariais à vista?
4) É possível mudar a economia globalizada, conservando as características da economia financeira apenas alterando o enlace com a China? Ou seja, diminuindo a liderança americana e proporcionando um maior fator de dinamismo na economia chinesa?
5) A questão fundamental passa por diversas sub-questões urgentes. Da pergunta principal, de como será organizada a combinação da nova estrutura da economia globalizada, podem emergir dúvidas sobre qual a liderança – ou até mesmo a hegemonia – que vai conduzir o processo econômico? É possível ainda pensar que a transformação da economia produtiva, como as novas tecnologias, a infra-estrutura energética, as condições ambientais, virão da recomposição da estrutura financeira neo-liberal?
6) Poderão os americanos reformar a sua economia e a sua política externa, baseada na guerra, na direção de uma nova economia mundializada que componha, sem conflitos, com as metamorfoses da China? Os recentes encontros entre americanos e chineses encaminharam as questões nesta trajetória?
7) É possível a economia americana dominar as finanças e encaixar uma economia de tecnologia avançada, com um objetivo de se tornarem novamente exportadores em face de uma China se estruturando economicamente pelo interior e se tornando importadora? Quais as conexões possíveis pondo na jogada as demais economias como a Europa, a Rússia, o Brasil, a Índia, etc.

8) Enfim, as perguntas poderão se desdobrar continuadamente, como um rio caudaloso, fertilizando os questionamentos. Crescem as tensões, crescem as deteriorações, crescem as questões sociais. Pergunta igualmente decisiva: não estarão retornando os grandes conflitos sociais de outras épocas, vestidos de novas roupagens e novos combates e novos ativismos? Ou seja, os conflitos ideológicos, políticos, econômicos entre capital e trabalho poderão emergir frontalmente em toda parte? Ou serão conflitos localizados, por exemplo, como na Europa? Não haverá uma direitização do mundo, por outra parte, como mostram as forças conservadoras que estão presentes nos Estados Unidos, que venceram as eleições na Inglaterra, que se manifestam sem reservas na Alemanha, etc.?

ATENÇÃO PARA AS DORES DA MUDANÇA

De qualquer forma, o que parece claro: vamos entrar numa nova fase histórica. E a passagem de uma forma para outra, do neoliberalismo financeiro e de guerra para uma nova modalidade, ainda em profunda e subterrânea gestação, não será feita sem dores. Por enquanto, o que temos é muito embaralhamento das questões e das forças sociais. Veja o leitor clássico que quando a peste invadia as cenas na épica ou na tragédia grega, ela anunciava tempos difíceis, tempos de profundas alterações. Nos anos trinta, a peste da Grande Depressão apontou para a 2ª Grande Guerra Mundial. Agora, a peste que assola a economia globalizada, com a ruptura de sua unidade, com a presença manca da financeirização, com a incapacidade de avanço das novas tecnologias, com a presença de novos países no cenário – incluindo o Brasil – com a retomada, ao menos, na Europa de revoltas populares, pode-se pensar que a peste está presente? Para onde aponta? Pode-se descobrir, como indica o título daquele livro de administração, “O lado bom da crise”? Como nos romances, como nos filmes inquietantes, a gente sempre se pergunta: como se desdobrarão os próximos atos? Como é que o cara - diretor ou romancista – vai terminar o seu texto ou as suas imagens?

quinta-feira, maio 27, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
27 de maio de 2010
COLUNA DAS QUINTAS

O ESTRANHO
DA CRISE:
DEZ SEGUNDOS
PARA O INFERNO
Por Enéas de Souza


DANÇANDO NAS NUVENS

Se a gente dá uma chegada na crise – porque para a maioria das pessoas a crise está muito longe, tão longe quanto qualquer boteco do outro lado da cidade, ou seja, quase noutro planeta – o negócio parece assustador. E naturalmente, muitas vezes chego a desconfiar das minhas análises. Não se trata de enxergar errado. Se trata de ver que as pessoas te olham como se fosse um ser do outro mundo. Mas, acho que, de fato, uma das funções dos economistas é pôr a estranheza no meio do cotidiano. Não é pôr o bode na sala, não. É fazer a pessoa achar que aquilo que ela pensa que é familiar, corriqueiro, tem uma baita coisa diferente. Freud falava muito bem sobre isso. Só que em termos de inconsciente. Não. O que quero dizer é um pouco outra coisa. Pensando bem, acho que vem do Freud mesmo. Lembra o leitor ocasional aquela história de quando o autor de “O mal-estar da cultura” estava numa estação ferroviária? E de repente, viu na janela do trem uma figura horrorosa, que achou medonha. Algo assim como: “que velho desagradável”. E mesmo quem não conhece a trama, já adivinhou: o velho medonho era ele mesmo, Freud. Pois, estou pensando nisso: a economia está como o cadáver de Polinices na peça Antígona de Sófocles: apodrecendo. E é isso que é o estranho, com o mundo saltitante, ao menos neste lado do Altântico. Vocês não lembram um seminário que a Globonews pretendeu fazer e que tinha no título a idéia de pós-crise? QUÁ, QUA, QUÁ, QUÁ. Todo mundo tem o direito de errar, mas pensar burramente é outra coisa. Daí a gente vê que os financistas, os políticos, os jornalistas, os economistas estão dançando nas nuvens, nem sabem a fera que está escondida na selva da crise.

DE COMO A POLÍTICA AMERICANA TRATA A CRISE FINANCEIRA

1) Olhe bem o leitor. A economia americana que estava saltitante e feliz como a banhista do quadro de Picasso, entrou em débâcle e encontrou a sua feiúra: quebra de bancos, gente perdendo muito dinheiro, diretores de instituições financeiras ganhando, por ano, o que eu, você e o Ronaldinho Gaúcho não ganhamos em cinco anos. E mais, e o principal: a produção despencando, o emprego sumindo, os emigrantes voltando. Uma economia financeira que manda no Estado, que diz via lobbies no Congresso o que ela quer. E o mundo para eles é o lugar da sua impávida arrogância: nós não vamos ceder em nada. Leiam os debates dos congressistas, leiam o noticiário sobre o assunto. Das finanças, temos que esperar a fome de lucros especulativos. E de outro lado, o Executivo, teoricamente com a liderança do processo querendo reorganizar a sociedade americana, mas alcançando resultados pífios. Parece que foi aceita apenas uma agência para defesa do contribuinte, um controle leve sobre esta medusa da agência de ratings, etc. Coisas mínimas. Pois, os pontos fundamentais – regulação, separação entre bancos comerciais e bancos de investimento, nível de capital para suportar os riscos, tratamento do “to big to fail”, agir em operações arriscadas com o seu próprio dinheiro, a eliminação desta dinamite que é o Credit Swaps Default, etc. – nada disso passou.

2) Acho que me excedi dizendo que os projetos não incidiram sobre a regulação. Sim, porque os congressistas – um bom número deles ligados às instituições financeiras – disseram: “Preferimos a regulação do que controlar o tamanho dos bancos”. Tradução: os acidentes de percurso do movimento do capital financeiro vão acontecer outra vez. É questão de tempo. (Basta ver que os comentaristas da crise grega e européia falam que muitos bancos americanos, por ligações misteriosas com os bancos europeus, estão “embuchados” – ou expostos, na linguagem financeira – com ativos gregos.) Em homenagem à Grécia, cutuco a minha lembrança de Heráclito, que começava um aforismo com estas palavras: “Este mundo, o mesmo para todos, é um fogo imensamente vivo, que se acende e se apaga com medida”. Talvez as finanças sejam estudiosas de grego...

O EURO NEM ERA UMA VERDADEIRA MOEDA

1) Passo para a Europa. Encaminho o leitor para o seguinte: vamos dar uma olhada na torção liberal e conservadora no modo como ela examina a questão. O que eles dizem é que os Estados – a Grécia, principalmente – foram desleixados, gastaram demais, etc. O caso pode começar a ser entendido com uma primeira pergunta: “O que é a Europa, hoje?” A Europa é, antes de mais nada, uma construção falha do capital financeiro. As finanças, inclusive européias, botaram na cabeça de alguns países que era legal fazer um Estados Unidos da Europa. E que o negócio devia dar partida com uma moeda única, o euro. Em tese, esta tese seria efetivamente uma boa idéia. Mas só se ela fosse acompanhada por uma construção política: união monetária, coordenação fiscal ou tesouro europeu e Estado da Europa. Pois é notório que não é uma moeda que sustenta uma comunidade, é uma comunidade que sustenta uma moeda. Mas, o que aconteceu foi outro filme: a lábia dos capitais e o olho dos políticos foram maior que a realidade. E o que tivemos: apenas a superfície, apenas a casca de uma comunidade. Na verdade, nem uma moeda mesmo foi construída.

2) Então, vejamos: se uma moeda tem três funções – meio de troca, medida de valores e reserva de valor – o euro só cumpria duas. Porque como já falamos insistentemente em nossos trabalhos, para que uma moeda possa ser uma moeda moderna – uma moeda financeira – ela tem que estar sustentada, tanto por um Banco Central, que define a taxa básica de juros e a sua valorização, como por um Tesouro, que garante esta valorização por intermédio dos títulos deste Tesouro, assegurando com essa estrutura estatal a função de reserva de valor. Assim se enxerga com clareza, econômica e politicamente, a necessidade que a Europa para ser um Estados Unidos da Europa tinha que ser uma UNIÃO POLÍTICA!

DE COMO AS FINANÇAS QUISERAM MANDAR NA EUROPA

1) A Europa era então apenas uma “união monetária” e cada Estado, que não dominava a moeda, tinha que garanti-la com o seu Tesouro. Então, a moeda européia tinha uma taxa de juros definida pelo Banco Central Europeu e muitos “tesourinhos”, cada um na sua fragilidade, “garantindo” a moeda única. E nessa estrutura, os bancos emprestavam para os Estados sem controle nenhum. E os Estados menos favorecidos, tendo perdido o controle da economia, tentavam compensar a perda de instrumentos, como consequência desse arranjo monetário, através de um endividamento que garantia sob forma de gastos seja o crescimento seja o emprego.

2) Contudo, a última perfídia das finanças foi sustentar a idéia de que foram os Estados que quebraram. Quando em verdade, os Estados estão quebrando porque eles estão salvando os bancos. Pois quem o pacote europeu está tirando do buraco, de fato, são os bancos. E por quê? Porque estes bancos não têm capital para sustentar, como todo bom banco, uma proposta de reestruturação das dívidas destes países. Forçaram o endividamento e a especulação sabendo que, no limite, as dívidas passariam dos Estados menores para o “bailout” da Europa. Assim, a Alemanha, a durona, teve que entrar na questão porque os seus bancos estavam metidos no buraco e poderiam quebrar. A loura germânica foi saindo como severa, mas bem que escondia a capa protetora.

Entre parêntese: o ministro Schäulbe, ministro das finanças da Alemanha, está propondo regulamentação e uma taxa para as finanças. Mas, “was ist dass?” Uma manobra para esconder a salvação escandalosa de bancos europeus e americanos. Sabe-se que o Morgan Chase e o Citicorp tinham expressivas aplicações no “affair europeu”. Portanto, o “Expresso Berlim”, como diria Jacques Tourneur, se parar para investigações vai verificar que desta ferida pode exalar ainda muito pus. Só que dada a velocidade dos acontecimentos europeus, o temor é outro, muito mais grave. No seu último livro, “Humilhação”, Philip Roth inicia seu romance com o capítulo “Sem deixar vestígio” da seguinte maneira: “Ele perdera a magia. O impulso se esgotara. (...)”. O escritor está falando sobre um ator de teatro, mas faço uma pergunta: o autor americano não poderia estar narrando sobre outro personagem? Sim, sobre um outro personagem chamado capital financeiro? Poderia ou não poderia? Só que o título do capítulo não deveria ser “Sem deixar vestígio”, porque, mesmo sem ainda ter estourado, a bomba de retardamento está visivelmente a ponto de explodir, deixando as pessoas sem emprego e outras com salários reduzidos. Tinha um filme de Samuel Fuller com um título expressivo: “Ten seconds to Hell” (“Dez segundos para o Inferno”), contando a história dos caras que desmanchavam bombas na Berlim da 2ª Guerra Mundial. Como em “Guerra ao Terror” da Kathryn Bigelow. A turma das decisões econômicas e políticas continua decidindo como se Keynes nunca tivesse existido.

OS SINOS DOBRAM PELAS FINANÇAS?

Assim, a crise financeira não terminou nos Estados Unidos. E prossegue e desaba na Europa. E faltam medidas de todas as ordens, sobretudo, tratando de regulação, nova estrutura financeira, separação de instituições, níveis de capital, crédito para produção e não para a especulação – e, portanto, a metamorfose de uma economia de acumulação de capital fictício para uma economia de acumulação produtiva. Nesse barco faltam a transformação da liderança tecnológica, a construção da liderança de indústrias com novas tecnologias, a transformação da base energética, a criação de indústrias vinculadas ao meio ambiente, etc. Falta a construção de um novo Estado não submetido às finanças. Na Europa falta um Estado europeu, um Estado para todos e não um Estado para o Capital. Ou seja, o importante é distinguir que a trajetória da nova economia começa por interromper a fatalidade das finanças. Pois, o excesso financeiro – hybris, como diria a cultura da Grécia antiga – caminha com velocidade de míssil na rota da depressão. Ou seja, parece que a política não está conseguindo – está impedindo até – que a economia canalize o seu desastre cíclico para uma distinta e diferente economia. Tudo porque a cristandade das finanças quer que a sua hegemonia seja respeitada. Só que ela é uma hegemonia cega, bêbada e corrompida. E o destino de quem não enxerga é aquele de esbarrar contra qualquer obstáculo que leva a uma perturbada e fulminante contusão. Para mim, fica cada vez mais claro que a proposta de Keynes da “eutanásia do rentista” vai ser substituída por uma realidade mais explosiva: a autodestruição das finanças. E sob o som e a fúria, sob o signo de Escorpião ou sob o olho de Marte, mesmo na possibilidade de todos contra todos, um novo Estado vai surgir. Temos que lutar mais do que nunca pela sua democracia.

quinta-feira, maio 20, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
20 de maio de 2010
COLUNA DAS QUINTAS

VAMOS PARA
A DEPRESSÃO?
Por Enéas de Souza



O TIRO DAS FINANÇAS NÃO VAI AONDE ELA QUER

Não se pode ver a crise da Europa isoladamente e culpar a Grécia como o bode expiatório da realidade. É preciso ver que isso tudo faz parte da instalação das finanças no comando do mundo. Mas, hoje, é ela quem está caindo. E, contudo, como fera acuada, as finanças estão manobrando para pôr nos governos a culpa; empurrar para a população os custos; e assumirem, com a astúcia de vítima, um pouco mais, o domínio político-econômico das regiões. E, ameaçam. Sim, ameaçam. Ameaçam com um ataque de gavião, onde a sua garra financeira, fulminante, rasga e dilacera. Trata-se de uma garra que tem o nome de especulação. E que traz um ás escondido, uma receita econômica preferida: corte de gastos, diminuição de salários dos funcionários públicos, liquidação dos regimes de aposentadorias, aumento de impostos sobre os bens de consumo, etc., visando uma falsa estabilização. E, olha a perfídia das mentes traiçoeiras e das bactérias oportunistas: em nome de que os governos vão ter menos receitas, porque este plano é obviamente deflacionário, contracionista, dobram a aposta e retornam, num segundo tempo, a um novo movimento especulativo, ameaçando os governos e as nações de uma crise sem precedente. Mas, o resultado final não será o que eles almejam, porque sempre pensam individualmente. E o que é bom para um capital, não é para todos – e muito menos para todos os países. Então, este jogo não será aquele de um tiro no pé, vai ser o de um tiro no próprio peito.

A BALA ARMADA

O grave problema é que de um lado, os governos, tendo criado a desregulamentação dos mercados financeiros, ao ouvirem a sedução das finanças, se encontram hoje impedidos – por estarem ligados a este setor – de tomarem medidas extremas para re-haver o controle público da economia. Exemplo: poderiam definir uma regulamentação para as finanças; interditarem vários tipos de operações e títulos; poderiam nacionalizar os bancos; e poderiam, ponto supremo da mais extrema audácia, estatizar os bancos. Então, dada a impossibilidade destas medidas, abrem-se aos famosos e ditos planos de austeridade e, logo, às avenidas tensas e críticas da revolta social. E olhe, leitor perseverante, elas já estão vagando pela Grécia. Num passe de temor, podem incendiar outros países ameaçados: Espanha, Portugal e Itália. Como também já se sentem comichões pela França. Porém, com olhos míopes dos governos pelas idéias neoliberais e pela terapia da austeridade buscam dar uma medicina “amarga, mas necessária” como os cortes e os aumentos que já falamos acima. Como é que não querem que se diga que os Estados continuam na mão dos mercados? É a visão dos Arsène Lupin das finanças. Que vão acabar por recuperar no social o mito de Robin Hood, que Ridley Scott está exibindo agora nos cinemas do mundo. Vê-se que o cinema é capaz de funcionar como metáfora dos eventos econômicos. E tudo se passa, através da indústria midiática da ideologia, como se os bancos não tivessem participado do excesso de crédito oferecido aos Estados. As instituições financeiras querem enrolar a quem? Terapia da austeridade é aperitivo para novas especulações, é transferência de renda do Estado e da população para as finanças. E, obviamente, é a bala armada para o tiro no peito.

QUE ESTADO AS FINANÇAS CONSTRUÍRAM?

É preciso analisar o tema dentro da dinâmica do capital e da organização da política em função do triunfo progressivo, desde os anos 70, do setor financeiro. O primeiro movimento foi criar um desfavorecimento à área produtiva via uma taxa de juros imbatível – uma taxa de rendimento do capital aplicado nos mercados financeiros – em face da expectativa dos resultados futuros dos investimentos produtivos. Esta hegemonia tornou o setor financeiro um sugador de recursos do setor produtivo e dos trabalhadores. Já o segundo movimento foi garantir que as políticas monetárias e financeiras, e mesmo fiscais, fossem todas na direção do incentivo às finanças privadas. E a ação forte, como um ferro abrasador, foi dominar os governos, separando a área econômica da influência da atividade política normal. Os bancos centrais passaram, de uma forma ou de outra, a assumir um papel de independência e de autonomia em relação aos executivos. E em muitos deles, a própria Fazenda (chamadas de Finanças ou Tesouro em alguns países), como propugnador das políticas financeiras do próprio sistema. Criou-se o Estado Financeiro em toda a sua dimensão hegemônica e coercitiva. O ápice deste movimento foi, certamente, a desregulamentação que permitiu inúmeros fatos: alavancagens absurdamente perigosas; nenhum controle sobre os níveis de capital para solucionar aplicações podres; possibilidades quase infindáveis de securitizações que elevavam as apostas financeiras alargadas teoricamente ao infinito. E, sobretudo, à combinação ou ao conúbio espúrio entre os bancos comerciais e os bancos de investimento que davam insegurança aos depósitos e margens amplas para especulações devastadoras, como estas que não afrontam apenas aos investidores e aos bancos, mas ao próprio e ao garantidor em última instância, o Estado. É a visão contemporânea da sentença romana “delenda Cartago”. Porém o que se escuta é a voz do último desejo das Finanças.

O VÍRUS DA ESPECULAÇÃO NA SOCIEDADE

Pois com as finanças soltas como cães danados na noite das sociedades, o crédito foi praticamente direcionado para as especulações, e a financeirização assumiu a sociedade em todos os níveis: na esfera da produção, via governança corporativa e o princípio do valor acionário; na esfera do governo com ataques aos orçamentos, déficits e dívida pública. E, como desdobramento lógico desta dominância, o ataque frontal à remuneração de funcionários públicos e assalariados. Ora, se combinarmos esta reboldosa com a estrutura do Estado financeiro temos a gênese da culpa que os banqueiros e a imprensa de plantão acusam: a “farra” do endividamento. É isso que os economistas conservadores chamam de que “os governos e pessoas viviam acima das suas possibilidades”, que eles faziam festa com o dinheiro dos outros... Como se os bancos não tivessem nenhuma participação nessa “farra” e usassem seu próprio dinheiro nesse processo e nesse clima. Na verdade, é preciso verificar que a ideologia das finanças invadiu o Estado e invadiu a sociedade. E criou um sistema lamentável, onde o futuro é desconsiderado pelo presente, onde o investimento só surge por efeito do exagero do consumo. E agora que amputam os gastos públicos e privado, botam os Estados em quarentena. E não nos enganemos, olhando bem, as finanças se vestem neste carnaval tétrico com a fantasia de bactéria oportunista.

A INSANIDADE COMO POLÍTICA ECONÔMICA

1) Desta forma, na crise de 2007, quando as finanças americanas foram atropeladas por elas mesmas e quando o Estado teve que salvar os bancos, elas, as finanças, ficaram muito agradecidas e comovidas, e voltaram, como gangsters de filmes dos anos 30, a ameaçar a sociedade e o governo de Obama, com recusas de mudanças do sistema financeiro e com novas especulações, sobretudo atravessando a economia globalizada. Assalto puro: revólver na cabeça. Porém, o neoliberalismo não era uma propriedade americana, estava impregnado como um carrapato em toda parte. Perniciosamente, esta classe dominante continuou tentando viver como antigamente. E, naturalmente, depois de demolir os Estados Unidos, faltava desmontar o outro lado do Atlântico. Já na crise americana, vários bancos ingleses, alemães, franceses, suíços, tiveram problemas. Mas, as armações, verdadeiras bombas de retardamento, estavam inseridas em todo o sistema.

2) Pois agora, em 2010, o estouro se deu ali no canto mais pobre, porém berço da civilização ocidental, a Grécia. E com isso pôs a descoberto vários aspectos. O primeiro deles que o euro era uma moeda capenga e coxa, que, como escrevi no SUL 21, parodiando Machado de Assis, mostrava-se como uma Vênus Manca. A nudez mostrou tudo: a Europa como União Monetária não é um vestido que se sustente, pois nenhuma moeda sobrevive às crises cíclicas sem Tesouro. Mais, em segundo lugar, o que falta à Europa, além das etapas da consolidação fiscal é o projeto de construção de uma União Política. Sem isso não há solução definitiva dos problemas econômicos e sociais europeus. Então, parece que a insanidade está valendo como política econômica em tempos de crise. Ela está toda inteira nisso: jogar as infelizes nações a uma política conservadora de cortes públicos, de baixas de salários, de inanição de investimentos públicos e privados, de desemprego, etc., como se essas idéias fizessem parte de uma solução salvadora, além de ser a única e a insubstituível. Olha só o palpite infeliz da dona Ângela Merkel: a solidariedade e a solidez das economias são irmãs. E diz isso sem enrubescer e quando a crise explodiu. A Alemanha está inventando a teoria da destruição como forma de solidariedade. Talvez uma outra forma de se apoiar na pulsão de morte de Sigmund Freud, ou ainda, na transformação da postura econômica de Schumpeter em teoria política: a destruição criadora... Keynes poderia falar do seu túmulo: “Frau Merkel, o que liga o futuro ao presente é o investimento”.

E AGORA, EUROPA? E AGORA, MUNDO?

Vamos para a depressão? É a pergunta inquietante que brota desta crise americana e européia. Serão os Estados capazes de se distanciarem desta fração da classe dominante que querem exaurir todos os recursos públicos em nome de sua salvação? Como a política vai gerir esta crise econômica profunda? Combater algumas operações dos especuladores como quer a Alemanha é apemas um modestíssimo começo. Os conflitos estão à flor da pele, vamos ver se surgem os estadistas que nos faltaram até agora. E é preciso ver como a população vai ser tratada na política que virá. Sobretudo, se sabendo que o caminho da renovação está claro: um novo Estado, uma nova arquitetura financeira, um novo retorno à separação entre o banco comercial e o banco de investimento, uma nova relação finanças-produção, uma nova onda de investimentos baseadas nas novas tecnologias, e, sobretudo, uma nova política de empregos e de proteção social e uma nova política cultural e uma política ambiental. Fácil de escrever, difícil de realizar. Porque, obviamente, as ações e os gestos são políticos. O que é certo é que, neste caminho, por mais nítido que pareça, não será feito sem grandes solavancos. As cabeças estão a prêmio, mas as armas ainda não começaram a disparar no rumo certo. Estamos entre os romances de Marçal Aquino e os filmes de Michael Mann. Pode-se até dizer que o clima é mais dramático, mais duro com o coração da gente. Tem o tom da película de Sidney Lumet “Antes que o diabo saiba que você está morto”, se a gente quiser enxergar esta questão social e histórica do ponto de vista pessoal.

quinta-feira, maio 13, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
13 de maio de 2010
COLUNA DAS QUINTAS

A EUROPA
OLHOU
O ABISMO
Por Enéas de Souza


A FALÊNCIA DO DESENVOLVIMENTO DA EUROPA

1)A Europa olhou o abismo antes de o abismo chegar. O tombo grego parecia ter uma volúpia inexcedível. Principalmente porque a Europa estava inerte, parada, o corpo com uma rigidez quase cadavérica. Dª Ângela Merkel não compreendeu a dimensão de uma liderança. Um líder é esculpido por uma estratégia. E por menos apoio que tenha ou por mais que precise realizar, não pode perder um momento de eminência de vitória e de poder e de realização. Mesmo que esta vitória lhe custe problemas futuros. Pois, ela, Ângela Merkel, na hora decisiva, diante de uma perda eleitoral na Alemanha, justamente por sua posição favorável na questão grega, acabou indo assistir a comemoração da derrota nazi-fascista exatamente da 2ª Guerra Mundial, em Moscou. Que fuga mais séria! Não encarar o caso grego e descuidar da herança hegeliana: a de olhar o negativo no rosto. Naturalmente que ir à capital russa seria importante em tempos normais, mas, não nesse fim de semana, decisivo, inconfundível para a Europa. Resultado: Ângela Merkel complicou-se, enroscou-se, e candidamente - para não dizer, quase simploriamente - decidiu ir ver a parada russa e os girassóis de Putin, permitindo que sua possível liderança, ao alcance da mão, escorresse pelo week-end perdido no convívio com Dimitri Medvedev.

2) Ora, Dª Ângela! Não seria a hora de dar uma resposta vasta, de fazer um gesto amplo e de marcar atitude profunda? Ou seja: não se tratava de assumir, com os cofres recheados da nação européia que melhor resolveu a situação econômica, a liderança do processo de metamorfose da Europa? Dar, de fato, uma de estadista? Dito de outra forma: não seria o caso de buscar a união e a solidariedade para um projeto e um planejamento da Europa – de uma Europa do crescimento, e não de uma Europa da contração fiscal? Mas, Ângela Merkel não soube ser a líder que a Europa precisava. E o pacote europeu saiu à custo, um pouco empurrado por Obama. Sim, ele salvou, no momento, a Grécia e a própria Europa. Contudo foi um pacote burocrático, quase que orientado pelos bancos, por gente de cabeça financeira, que tem objetivos claros: austeridade, ajustes fiscais e contração da economia. Enfim, uma política de casa de família, uma política doméstica. No máximo uma política de supermercado. Mas, uma política que possa pagar, no fim das contas e nos prazos fatais, os juros que contabilizam as finanças nos empréstimos e nas especulações.

3)Faltou, portanto, alguém que fosse o estadista do momento, o político que empunhasse a bandeira da reformulação do velho continente e que saltasse para a mudança do Estado nacional na direção de uma unidade política da região. Claro, tudo isso tem seu tempo, tem que ser feito no longo prazo. O que obviamente poderia ser colocada era uma proposta que começasse agora; com passos precisos na construção de um Fundo ou de um Fisco europeu. Algo mais do que esta coisa contábil, como quer fazer a Comissão Européia, a de examinar os orçamentos nacionais. O ponto chave da hora presente é dar substância ao euro como moeda financeira, já que ele tem apenas a cara de moeda: o Banco Central Europeu (BCE) fixa apenas a taxa de juro. Só que o avesso da cara é a coroa, que simplesmente inexiste. E a coroa é extremamente importante, é a garantia que só um Tesouro - e teria que ser um Tesouro da Europa - pode dar aos aplicadores em títulos públicos da região. Sem isso não existe moeda, porque a moeda tem que ter cara e tem que ter coroa.

4) Mas, a Europa teria que ir mais longe do que uma moeda com cara e coroa. Teria que cultivar uma estratégia para uma trajetória de desenvolvimento. Sarkozy, que enxergou a situação, não tem nem bala, nem visão suficiente na cartucheira. E seguramente, nem dinheiro necessário para ocasião. No entanto, poderia fazer um duo com Ângela Merkel, como em outros momentos fizera. Se esta percebesse estaria instalada a hegemonia franco-germânica. O momento, em todo caso, não era dele, era dela. E Ângela Merkel, que não enxergou o sucesso que lhe estava reservado, não visualizou a liderança da Alemanha, perdendo-se nas filigranas da política interna. A bola esteve por mais de dois meses picando na sua frente. E a terra de Bach não achou a melodia que precisava. E, no palco da política, os concertos de Bradenburgo viraram valsas do Danúbio. Dizendo mais claramente, sobre o duo França-Alemanha, nem a música clássica alemã, nem a canção francesa emplacaram ou se completaram. Como diria o cantor francês Georges Brassens, quem ganhou foram “Les oiseaux de passage” Naturalmente, que “os pássaros de passagem” foram, mais uma vez, os bancos. E veio ao contrário de uma estratégia de desenvolvimento uma política na direção da recessão.

PARA O EURO NÃO SE DESMANCHAR NO AR

1)
O que aconteceu na Europa foi grave e mostrou a sua verdadeira vulnerabilidade. Por ter uma moeda acima das nações, ela tinha um falso seguro, a potência européia. Nada mais equivocado, porque a Europa é um conjunto de países, dispersos, todos separados. Eduardo Lourenço, um pensador português, sempre disse: ”Nossa história é aquela de uma guerra civil perpétua”. Como conseqüência, o euro pairava no ar, bailando na ponta da taxa de juros. Sim, porque uma moeda financeira tem que ter banco central para definir a taxa de valorização das aplicações financeiras, mas tem que ter também uma instituição que garanta minimamente esta valorização. Melhor, que permita que essa moeda cumpra plenamente a função de reserva de valor. A moeda como reserva de valor aglutina, então, a taxa de valorização e o instrumento que cauciona a percepção deste valor. E quem garante esta parte da moeda é o título de uma entidade pública. A Europa tem Banco Central (BCE), mas não tem Tesouro; logo, não tem quem sustente a segunda dimensão da moeda como reserva de valor. Os países europeus têm tesouros particulares, que por si só não garantem qualquer título europeu, só podem garantir, se tiverem com dívidas e déficits controlados, os seus próprios títulos.. Logo, o euro atual é um vôo de Icaro. Tenta decolar da montanha mas vem a baixo. Olhando bem, o euro não é uma moeda financeira, é uma moeda parcial, uma promessa de pagamento que quando a economia entra em crise é apenas uma máscara de moeda. Só o conjunto dos governos, reunidos e acuados, tomando decisões em fim de semana e em fim de noite, podem, quase no desespero, garantir, por algum tempo a mais, a sua efetividade.

2) Para que o euro se sustentasse, havia a necessidade de algum fundo, já que não tinha fisco nenhum por trás. E foi isso que a Alemanha não enxergou, com sua mentalidade de punição e austeridade. Ficou apenas falando na Grécia, onde os conservadores, de veras, tinham exacerbado a corrupção e o gasto. Quando se deu conta de que ela também ficaria, ainda que longinquamente, na linha de tiro; quando percebeu que a Europa iria dançar a valsa do dominó; concordou com o movimento geral de criar um fundo de 750 bilhões de euros, quase 1 trilhão de dólares. Foram 60 da Comissão Européia, 440 dos países membros e mais 250 do FMI. Claro, isso não é dinheiro posto sobre a mesa, trata-se de uma garantia, de um montante colocado à disposição, para que os europeus possam enfrentar os mares altos que vão cair sobre as praias do verão europeu: Grécia, Portugal, Espanha, Irlanda ou Itália. Ou, sobre qualquer outro país que possa ser visado pela especulação. E daí os leitores são capazes de compreender o pequeno pensamento da posição alemã. Ela estava conjeturando unicamente em si, em manter a sua boa posição econômica, os seus consagrados excedentes comerciais e os seus não tão habilidosos bancos. E, como a exigência de um mestre severo, a Alemanha falava ininterruptamente em austeridade e em condicionalidades à Grécia. Precisou o Obama telefonar para a Ângela Merker e dizer: “Como é, vais deixar a Europa e os Estados Unidos, por tabela, virem abaixo?”. Obama tocou no tema do contágio. Foi assim que só restou aprovar o pacote que atendia a toda Europa.

3) Ficou claro, então que a moeda européia era pasto para as finanças fazerem o seu rapa. Mesmo porque era uma boa: as nações faziam as dívidas com os seus bancos e com bancos estrangeiros. E tudo facilitado, taxas de juros baixas e liquidez relativamete abundante do BCE. Resultado: uma mistura e uma promiscuidade, relações perigosas diria Choderlos de Laclos, entre bancos e Estado. E, naturalmente, sob o guarda-chuva do Banco Central Europeu. Só que nesses últimos tempos, quem estava à perigo eram os Estados como já vimos. Em primeiro lugar, o grego. Depois os bancos deste país e os bancos dos demais países europeus. E, enquanto o caldeirão fervia, os especuladores atiçavam as taxas de juros para cima. Fogo contra fogo. Pergunta: quem pode salvar a Grécia? Quem poderia salvar os bancos? Resposta: em princípio, os Estados. Mas, se os Estados estavam ameaçados, quem poderia salvá-los? Os bancos? Claro que não! Então, só os Estados mais poderosos (Alemanha, Franca, etc). Só a Europa em conjunto, em profunda solidariedade Só ela teria munição para o pacote. E assim ele foi feito. Não se pode esquecer que houve uma arma que a impelia a ação: estavam em jogo os seus bancos. No caso grego, os bancos alemães tinham 27 bi aplicados lá, os franceses 50, a Itália, 20. Não tinha escolha: a Grécia e os bancos tinham que ser salvos. E seus bancos, e no limites estes generosos países. Como se vê esta conjunção carnal, “Estados europeus e bancos”, não pode dar certo sem que haja uma força maior, um Banco Central junto com um Tesouro. Ou ao menos um fundo salvador. Isso foi decidido de sexta a domingo em Bruxelas, enquanto Dª Ângela estava olhando os girassóis na Rússia. E por uma boa causa: uma parada anti nazi-fascista.

4) Ora, para cortar os raios da tempestade teve que haver algumas manobras. Primeiro, se não se tinha fisco, logo tinha que haver um fundo. E isto foi realizado. O tal do pacote de empréstimo. E ao mesmo tempo, se programou uma ação forte, sob a vigilância do FMI, de fazer uma “prensa” fiscal, um ajuste com fortes pitadas de austeridade, em primeiro lugar nos gregos. Será possível que isso possa ter êxito? Talvez. Mas, de qualquer modo, ficou constatado que a Europa vai ter que achar um jeito de construir algo como um Fundo ou um Tesouro,.se não o cachimbo vai cair. Segundo, o Banco Central Europeu para ter capacidade de dar liquidez aos títulos privados e públicos, que emperravam o interbancário, por exemplo, recebeu ajuda do FED, que colocou à disposição “Swaps”, para fornecer dólares ao BCE.. Então, o FED funcionou como o emprestador em última instância, assim como a Comunidade Européia (Comissão e mais os países e mais o FMI) funcionou como o Tesouro do não-Tesouro europeu. E cada vez ficou mais evidente: o dólar é a única e verdadeira moeda da economia globalizada. (Pode o leitor ver quem será ameaçado se a Europa tombar nos mercados?)

5) Logo, o tema é simples, mas o caminho efetivo é complexo: 1) há que construir a fiscalidade européia, há que fazer um Estado europeu, há que construir uma moeda. Uma baita trajetória a palmilhar. 2) Há que pensar num projeto de crescimento para a Europa, e consequentemente para a Grécia, porque caso contrário: “sabe quando a Grécia vai se levantar da sua crise?” Nunca. 3) Há que achar uma liderança para o projeto porque Alemanha não será a líder: a sua política, para a Grécia e para os outros países ameaçados, é somente contração de gastos públicos, diminuição da remuneração e de vantagens dos funcionários, aumento de impostos, queda de preços e salários nos produtos exportados. Conclusão: como é que vai ocorrer a recuperação da economia grega e européia? 4) Há que fazer com que Alemanha perceba que ela é o país que tem que inverter a sua posição; que tem de puxar a demanda efetiva, e não desampará-la. Só que ela não quer perder as receitas de exportações, não quer sair do seu controle fiscal, não quer perder o seu Estado de equilíbrio, seja lá o que isso for; A Alemanha sonhou tanto com um domínio sob a Europa, que agora quando poderia liderá-la, vai ficar presa ao seu passado de austeridade fiscal. 5) Há que mostrar à Europa que está em jogo um volume intenso de tendências deflacionistas, cujo caminho segue o ônibus da “Depressão”. 6) Há que reverter o domínio das finanças sobre o euro, por isso é indispensável fazer da Europa um Estado forte, sob que forma for. Pode-se partir da atual questão fiscal para se atingir uma entidade política mais ampla. Mas quanto tempo levará a se implantar esta idéia? Vinte, trinta, quarenta anos? Ou nunca. Portanto; 7), há que de qualquer maneira, de qualquer jeito, fortalecer a unidade política frágil deste conjunto de países em conflito secular. Contudo, o cheque mate de todas ações está nisso: deixar de ser prisioneira dos seus bancos, mesmo que eles sejam públicos. A política tem que voltar a imperar sobre as falsas premissas econômicas, notadamente aquelas contracionistas. A verdadeira salvação dos Estados é a concertação de um projeto de crescimento e desenvolvimento.

SE O MEU MUNDO CAIR

Como se vê a crise financeira mundial, que desabou sobre os Estados Unidos, agora bota incêndio na Europa. E se a gestão da crise for mal conduzida, ela avançará pelo eixo Inglaterra-Estados Unidos. o que nos levaria à inevitabilidade da depressão. Vale, portanto, a lembrança da velha palavra de Maisa; “se meu mundo caiu, eu que aprenda a levantar”.

quinta-feira, maio 06, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
06 de abril de 2010
COLUNA DAS QUINTAS

OBAMA
COMEÇA
A ROMPER
O CERCO


Por Enéas de Souza


SÓ EXISTE UMA APOSTA

1)
Obama está conseguindo furar o cerco que levou no primeiro ano de seu governo. Isto quer dizer que, depois de muito tempo, começou a produzir atos visando à realização de sua estratégia. Deixou de lado o campo da observação e do constrangimento para lutar por seus objetivos políticos Em primeiro lugar, conseguiu uma semi-vitória, a aprovação do seu Healthcare, que significou, no concreto, uma melhoria de vida para 32 milhões de pessoas. Foi uma semi-vitória, porque não alcançou a universalização dos serviços médicos. Mas, para um país avesso à presença do Estado na economia, a aprovação deste projeto se constituiu, obviamente num passo para os pobres - de um modo geral deserdados no maior potência econômica do mundo. Não há dúvida, o resultado foi espetacular. E Obama, percebendo-se um herói vitaminado, sentiu-se com poder, amparado simbolicamente, para iniciar o longo processo de combate e de solução da questão financeira.

2) Mas, há que considerar o estilo de Obama. Antes de mais nada, Obama é um estrategista. Tem bem claro a sua política e os pontos que organizam a sua ação. O alvo do seu empreendimento é o retorno a um liberalismo econômico e político, através da reorganização do capitalismo. Significa, sem hesitação, desmontar este absurdo capitalismo financeiro, que embora seja um “finance led growth” (as finanças conduzindo ao crescimento), na verdade é muito mais transferência de renda para as finanças do que crescimento, Bom, este é o ponto chave: desmontar as finanças para as finanças. Desartiular um sistema financeiro que deixava apenas sobras miúdas à produção e à camada popular da sociedade. Logo, está em pauta, uma nova batucada e um novo objetivo, uma estratégia de longo prazo. Pretende Obama que as finanças aportem o seu mel para a atividade produtiva. E se esta proposição tiver sucesso e ela ocorrer, teremos a retomada de um capitalismo industrial como centro da economia. E ele virá, não liderado pelas velhas indústrias, mas com outras alavancas e com outros pontos de impulso. Pode-se dizer que terá o seu rosto baseado numa ampliação e numa maturação das novas tecnologias de informação e comunicação, acompanhadas, porque necessária econômica e ambientalmente, de uma transformação da matriz e da infra-estrutura energética. Nesta reviravolta fundamental, o segredo das jóias é a reposição das finanças como motor do financiamento da produção. Ou seja, o que está na ronda da noite e na roda do samba é a estratégia de longo prazo de Obama.

A POLÍTICA DO LONGO PRAZO

No campo político, o objetivo de longo prazo de Obama é retomar e reformar o capitalismo e desenvolver uma forma democrática peculiar, estruturando-o para a paz. Claro, “si vis pacem para bellum” (“se queres a paz prepara-te para a guerra”), pois a estrutura política dos homens – e não seria diferente do capitalismo - não é outra do que uma estrutura de conflito. Nessa visão, os Estados Unidos continuariam a sua liderança, partindo do seu poder militar (apenas como potência, evitando o esforço bélico), e enjambrando no bojo desta força, o poder político e o poder ideológico. Tal manobra daria tempo para reformular a liderança econômica, cuja substância viria da sua vanguarda tecnológica. Embora pareça claro, para os próprios americanos, que eles vão partilhar uma menor figuração no crescimento do PIB mundial, o que lhe interessa é manter o domínio da ordem econômica a partir do político. Eles estão dispostos a tolerarem as presenças renovadas da China e dos emergentes (incluindo o Brasil), tanto na ordem econômica e política, mas não abrem mão da sua “vocação de liderança”. E dada as configurações bélicas, Obama propõe, então, uma liderança militar pela paz, reformulando o mapa do mundo, começando com acordos nucleares com a Rússia, harmonizando o Oriente Médio e tentando trabalhar cooperativamente com os países líderes dos diversos continentes, Por via da política há um objetivo estratégico nítido, a reformulação do capitalismo, com inovações tecnológicas significativas, sob a liderança dos Estados Unidos.

A UTOPIA DE OBAMA

A visão idílico-realista de Obama leva-o a atuar, pelo menos imediatamente, em três frentes: 1. na frente econômica; jogando, por sua vez, três pontos chaves: a desmontagem das finanças, a reorganização das relações com a China e a abertura para o longo prazo na questão energética; 2. na frente da política externa, onde o ponto chave é a construção um outro tipo de liderança, através de um reposicionamento da Europa; de uma estabilização da frente nuclear, ao mesmo tempo, que recompõe um novo equilíbrio na questão do Oriente Médio. De um lado deslocando o eixo da guerra para o Afeganistão e de outro, tentando dar novos contornos ao tema Israel-Palestina, contendo Israel e diminuindo o voluntarismo do Irã. 3) na frente da realidade social americana. Aqui as ações visam à metamorfose da economia a curto e longo prazo, o que significa no primeiro aspecto recuperar o emprego, e no segundo, proporcionar uma proteção maior aos cidadãos comuns americanos.

E O ESTADO COMO FICA?

Nesses três pontos, está embutida uma tentativa de reorganização do Estado. O princípio que gera este movimento é a tentativa de fazer dele, algo independente do capital – basicamente do capital financeiro. Embora pretenda ser, e continue a ser, aliado de diversas facções desta figura econômica da sociedade (de tal forma que possa ser um Estado pró-capital), tem, distintamente, um alvo superior. Tem um “up grade”. tem uma grande proposição: o de querer poder controlar e ser o regulador político dos mercados. Notoriamente, não tem objetivo de ser um Estado social-democrata, mas um Estado capitalista com preocupações sociais - um pouco mais marcantes do que as do governo Buch. Ou seja, um Estado onde as desigualdades entre as classes não atinja o nível selvagem deste capitalismo financeiro. Então, este desenho estatal tem como movimento prioritário a manutenção modificada do capitalismo. E passa, como seria esperado, por uma liderança internacional, onde vai desfazer-se das idéias de unilateralismo dos “neocons”, assumindo um lado liberal mais clássico. Com essa rota, o governo de Obama e os Estdos Unidos se preparam para dar uma ordem política ao mundo, enquanto se preparam para reencontrar o caminho econômico. Nesta trajetórias está em projeto uma disputa e uma reordenação das relações Ocidente e Oriente, baseados, ao menos em intenção explícita, num confronto pacífico com a China. E esta certamente vai colaborar, pela forma do seu governo e de suas instituições políticas, com o reforço do papel do Estado em todo o Ocidente e nos Estados Unidos. O que não estão excluídas rugas num tempo mais distante.

A OPOSIÇÃO CAPITALISTA A OBAMA

1) A questão básica é, no entanto, as diversas frações políticas e econômicas que se opõem à Obama. Ele está cercado. E por essa razão vai ter que matar um leão a cada tarefa. Tem diante de si grandes combates. É verdade que agora está se sentindo com mínimas forças sociais para encarar os monstros. No meu modo de ver, ele tem pelo menos três frentes complexas para desbastar: a área financeira, a área militar e a área energética.

2) A questão financeira é a principal, porque significa pôr um freio, dar um chega para lá, na turma das finanças, que não quer de modo nenhum afastar-se da desregulamentação e da sua concepção exclusiva de fazer negócios. O que se alterou nos últimos tempos no panorama americano foi, sem dúvida, a estratégia de Obama. No meio de um Congresso, inclusive com democratas hostis à regulação, o presidente armou uma dupla ação. De um lado, preparou via Geithner o “Finantial Regulatory Reform”, que deu motivos a grandes discussões e inúmeras sugestões no Congresso, E de outro, a Volker Rule, que o próprio Paul Volker disse ter ido ao Congresso apenas para aparecer na fotografia. O que não expressa a força efetiva e subterrânea da proposta.

3) A “Finantial Regulatory Reform” pretende modestamente criar um FED, um pouco mais forte, com poder de resolver qualquer crise sistêmica que se anuncie. E também um conselho de diretores de agências que orientaria o FED a estas intervenções, etc. Já a Volker rule, tem dois pontos suculentos: um, a necessidade de uma capitalização efetiva para os bancos, e dois, a procura de impedir que os bancos usem os capitais de terceiros para especularem. O que na prática voltaria a divisão, supressa ao longo do processo de desregulamentação, entre os bancos comerciais e os bancos de investimentos.

4) Mas, o importante não foi exatamente isso. Pelo menos até agora. O importante foi o jogo de boxe entre as finanças e Obama. Logo nos primeiro momentos, os banqueiros, que saíram na dianteira, jogaram uma barragem de fogo no Congresso, através do seu Partido dos lobbies. Só que Obama usou uma estratégia mais silenciosa e sutil contra eles. Nosso personagem lembra aquele grande pugilista, meio médio ligeiro, Ray Sugar Robinson, um boxeador elegante, competente nos punhos e de grande estilo. Começou com ataques aparentemente sem muita envergadura, discretos, ao nomear personalidades fiéis as suas visões para as agencias reguladores. (Neste último mês já está tornando o FED com um jeito mais seu). Tratou, enfim, com astúcia, de colocar nomes que não fossem representantes maquiados dos bancos. Só para dar uma idéia da importância destas nomeações. A SEC (o equivalente a Comissão de Valores Mobiliários no Brasil), por exemplo, na crise de 2001, na crise da Enron, uma semana antes dela falir, a corporação era considerada, pela agência reguladora, uma empresa sem nenhum problema.

5) Agora, a fotografia é distinta. A atual SEC fez uma acusação pública e formal contra a Goldman Sachs, levando ao chefe desta instsituição a reconhecer que a conduta da Goldman na crise financeira em 2007, “visto de hoje”, 2009, era de fato altamente questionável. Claro, ela foi a corporação que formou com os títulos podres da Paulson & CO um Collateral Debt Obligation. E depois, saiu olimpicamente a vender estes títulos aos seus clientes, sem falar das porcarias que vendiam. E mais tarde, com a vivacidade delituosa dos atores do mercado financeiro, jogaram contra este Collateral Debt Obligation, um Credit Swapps Default, ou seja, enganaram os seus clientes de forma vergonhosa. E hoje, na imprensa e no Senado, tiveram a cara de pau de dizer que essa era uma prática ética comum no mercado. Dito no acessível: ganharam, por um lado, por vender um título podre e depois ganharam porque jogaram contra ele. No que importa: Obama deu um golpe no fígado deles. Não foi um “knock out”, mas foi ao menos um “knock down”. O que significa que atacando um banco símbolo do sucesso do capitalismo financeiro, e de maneira contundente, Obama acrescentou inúmeros pontos nos “rounds” para a vitória final da luta. E, vejam bem, leitores do esporte financeiro, a estratégia de Obama está montada no longo prazo. E nunca, nunca, joga tudo numa parada; vai minando como Sugar Ray Robinson progressivamente os adversários. São golpes aqui, golpes ali, pausa, novos ataques, até que dá a pancada final. Se esta visão é correta, a luta entre as finanças e Obama não se encerra na presente proposta de regulamentação. Mas de passo em passo, jogando inclusive tanto quanto possível com a população, o presidente vai fazendo recuar o sistema financeiro.

6) Tudo é ainda muito pouco. É preciso encarar os meandros e a duração das discórdias Mas, o decisivo é, como já firmei nos parágrafos acima, que Obama tem projeto de longo prazo. Toda a sua habilidade está empenhada em tentar ligar este ponto mais longínquo com o imediato, para empinar a economia e a política americana para o patamar de uma nova realidade. O que se nota, todavia, é que, com ataque cerrado a Goldman Sachs, se esboça, pela primeira vez, algo inusitado: uma leve ruptura do cerco a que foi submetido desde o seu triunfo eleitoral. Obama sempre esteve acuado. Só que agora com os lances efetuados no tabuleiro social, já pode começar a se olhar no espelho. O que apenas quer dizer que Obama está pronto para agir. Embora se possa escrever que a crise, como o verme dos livros de Machado de Assis, continue a roer.

quinta-feira, abril 29, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
29 de abril de 2010
COLUNA DAS QUINTAS


DA CRISE GREGA
ÀS FINANÇAS:
PERGUNTAS,
SEMPRE PERGUNTAS


Por Enéas de Souza



A QUESTÃO GREGA

1)
A Grécia está numa enrascada violenta. Uma dívida colossal, com muita pressão de curto prazo, em função do vencimento de parcelas. Esta pressão tem uma companhia de coloração negra, já que nos mercados existe um movimento especulativo contra os títulos helênicos. Está no horizonte, muito enrolada, uma ajuda dos países da Comunidade Européia. Só que esta ação tem um correlato, uma imensa pressão para que sejam definidas as condições dos empréstimos. E a campeã destas exigências é a loira Alemanha (cujos bancos estão atolados em ativos originados da dívida impagável). E, como um personagem que parece um corvo, está presente o FMI, o que assegura uma turbulência grande nos palcos políticos da Grécia, uma mobilização interna da população grega contra o governo, contra o FMI, contra os alemães, etc..

2) De um lado, para a Europa o problema é sério. Vejamos com mais detalhes. / Primeiro, se a Grécia não honrar suas dívidas, os bancos, a Europa, o euro, etc., além da própria Grécia, vão ficar abalados criticamente. Fala-se que a Alemanha tem 28 bilhões de euros em títulos gregos, a França, surpreendentemente tem uma cota maior, 50 bilhões e a Itália, 20 bi. A fotografia parece clara: o cachorro vai sim, morder o seu próprio rabo. / Segundo, se a Grécia aceitar as condições da Comunidade européia, ela e sua população vão atravessar um longo período de sofrimento, pois além de queda no PIB e da baixa do padrão de vida, pode ocorrer o aumento de impostos como já houve uma baixa de salários. E perdendo, através das condicionalidades, o controle fiscal, nada poderá ser feito pelos gregos, porque não podendo desvalorizar a moeda, que é européia, para exportar mais, acabaria com qualquer resquício de política econômica. Seria uma longa guerra de Tróia, só que com os antigos invasores, hoje, sitiados de dentro da fortaleza. / Terceiro, se ocorrer o fracasso da solução da dívida grega, todo mundo verá a continuação de um processo de especulação contra os países com altos déficits públicos. Isso seria feito através de uma progressiva e candente alta dos juros contra os títulos nacionais, até torná-los inegociáveis. Nessa direção, Portugal já está na borda do abismo, sabendo-se que depois de Portugal, são candidatos a Espanha (que teve a sua nota, ontem, quarta-feira, rebaixada pela Standard & Poor´s), a Irlanda, a Itália.,etc. Este processo poderia ser nomeado de o itinerário da pólvora e se constituiria numa espiral explosiva devastadora. / E quarto, se ouvirmos os mais catastrofistas, o observador consegue enxergar o rastilho destas dívidas, fulgurante, cujo elo final da cadeia seria a Inglaterra e os Estados Unidos.

3) A melodia da crise está esboçada: os seus compassos financeiros atingiriam o tom de uma profunda crise fiscal. E, por sua vez, esta devolveria às finanças o impulso para uma crise mais vasta, que culminaria numa falência do Estado, envolvendo um climax dramático de crise monetária. Na ordem das coisas, o euro tombaria primeiro. E, num segundo momento, numa etapa mais distante, viria o crepúsculo, o dólar desabaria. Parece, contudo, que estamos longe disso, mas certamente decidir bem a questão da Grécia, será um passo para deter este movimento. Teria se trabalhado para a interrupção desta cadeia de incêndio, desta força imperativa cujo termino seria, inevitávelmente, a depressão. No entanto, as perguntas são: serão atendidas as reivindicações da Grécia? E, por conseqüência, se encaminharão bem as soluções para as demais nações ameaçadas? Por outro lado, querem os europeus mesmo defender o euro? Não estará se formando um movimento de destruição econômica e política da Comunidade Européia? Se a Europa se for, os Estados Unidos terão, sem sombras de dúvidas, o dólar ameaçado? Serão os financistas e os políticos suscetíveis a uma ameaça sistêmica à economia? Será o Estado americano capaz de bloquear este escorregador do desastre que vai dar na areia do dólar?

O SISTEMA FINANCEIRO ESTÁ EM CHAMAS?

1) Obama conseguiu reunir energias para fazer uma ação contra o sistema financeiro. Foi a Nova Iorque, na semana passada, para dar um recado. “Join us”. Ou seja, está clamando por uma resposta positiva às suas propostas de reforma do sistema. Diga-se de passagem, reformas tímidas, mas que cheiram como um começo. Porém, a raça inflexível dos financistas está de ouvido fechado. Ouvem, mas não escutam. Os seus auriculares não captam estas vozes e esta ópera. O contra-ataque de Obama já está ocorrendo desde o verão americano do ano passado, de modo ritmado. Destacam-se dois pontos evidentes: o “Regulatory Finantial Reform”, com uma proposta de negociação dessas reformas e a “Volker rule”, tentando conter o desbragamento financeiro.

2) Só que no desdobramento de muitas escaramuças, apareceu, recentemente, uma cena dramática: a ação independente da SEC (apesar dos desmentidos de que tenha havido interferência do Obama) contra os bancos. O alvo inicial foi o Goldman Sacks, esta pantera financeira. Mas, claro estava na mira um certo Blankfein, turbulento, arrogante e ganancioso chefe desta instituição. E o problema se proclamou em cor berrante, a Goldman Sachs teria dado um passo em falso, agindo fraudulentamente no começo da crise financeira de 2007. Ora, os financistas não estão apenas lutando na concorrência dos mercados. Usam, como quem lava as mãos no banheiro, as armas que possuem: a mídia e os lobbies. E a publicidade é obvia: tudo contra a regulação! O que é que esse cara (o Obama) está querendo, fazer o seu nome às nossas custas?

3) Pois, como se viu, a desregulação é um incentivo à turbulência anunciada, à facilidade de ganhos financeiros ilícitos. Dando uma recuada no panorama, a pergunta fica nítida e exuberante: as finanças que se recuperaram - ao menos no curto prazo dos impactos da crise, através dos “bailouts” do Estado - tem disposição agora para negociar, justamente quando voltaram a jogar de mão? Ou ainda dito numa forma diferente: será necessário um outro Lehman Brothers - a metáfora básica da crise financeira - para que então sim, as finanças aceitem sentar à mesa de negociações com intuito de buscar uma nova realidade, uma nova arquitetura do sistema, uma nova função? Somando tudo isso, Grécia, Europa, impasse na regulação dos bancos, outras indagações surgem. O sistema financeiro está indo para o espaço? Será que Obama não tinha razão, quando disse no começo de sua gestão aos banqueiros: “Eu sou a salvação de vocês”? Esta frase seria lenda ou “bene trovato”?

quinta-feira, abril 22, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
22 de abril de 2010
COLUNA DAS QUINTAS

O FUTURO
DA
INCERTEZA
Por Enéas de Souza



ESTAMOS NO CAMINHO DA QUEDA?

1) Novos lances da economia em desagregação. O primeiro foi a Grécia trazendo as aventuras da crise explícita para o campo dos Estados. Neste sentido a Europa aparece como um mirante para a contemplação do abismo. Só que uma radiografia mais geral da globalização, recentemente feita pelo FMI, mostra que vários Estados estão em posição adversa e crítica - e não apenas no continente europeu. O segundo lance foi a ação da SEC (Securities Exchange Commission) contra a Goldman Sachs, acusando esta instituição financeira de fraude, por ocasião do início da crise financeira. (Não esqueçamos que a Goldman também esteve envolvida, recentemente, no caso dos títulos da Grécia). Esta acusação cria, apesar da exuberância desta corporação que teve lucros expressivos no primeiro trimestre de 2010, uma sombra de desconfiança sobre o seu comportamento e o do próprio mercado financeiro.

2) De um lado, a pólvora visitou a Grécia, e ainda está rondando por ali, fumegando, prometendo seguir em direção a Portugal, Espanha, Irlanda, Itália, etc. Logo, logo, a gente vê, olhando com cuidado, no fundo da foto, o panorama de uma Europa ameaçando se desintegrar. A solução dada ao caso grego não aliviou muito as dores.. O FMI e a Comunidade, dando cobertura, não conseguiram desbastar as nuvens do perigo, o mercado continua achando que nada está resolvido. A indicação está nas taxas dos bônus de 10 anos da Grécia, que não caíram, os olhos dos especuladores estão atentos. As coisas estão mais claras que a cor branca: se não estancarem a hemorragia helênica, o Minotauro pegará a Europa. De outro lado, a crise financeira, que parecia estagnada, controlada, volta ao campo das finanças com uma imponderável força. E depois da acusação contra a Goldman Sachs, começou-se a enxergar uma lista de instituições na mesma condição dela. O que significa, amice lectore, uma reboldosa no pedaço. Certamente é por isso que Obama fala hoje, dia 22, sobre a reforma financeira, para dizer "(Esta reforma) É essencial para que aprendamos as lições desta crise, para que nós não sejamos condenados a repetí-la". Será que as finanças e o seus lobbies têm bons nervos acústicos e têm orelhas bem limpas?

3) A crise está passando então para uma nova etapa, enrolando dois eixos: finanças e Estados. Setor privado e setor público. Existe uma forte possibilidade de que a crise continuada do mercado financeiro possa marcar um passo para o seu futuro controle. Antes, contudo, prosseguirá fazendo estragos como fez na Grécia. Mas, diz a lei da dialética, que o desastre leva ao seu contrário. Podemos, por isso, pensar que começamos a chegar ao portal da via da regulamentação do sistema. E junho/julho será o momento da decisão do Congresso americano sobre a questão do controle dos bancos e das finanças. Porém, o que agora está balançando forte no trapézio da crise é a consciência da emergência do problema fiscal dos Estados, sobretudo na Europa. E uma crise desta ordem é o sinônimo de um desdobramento direto numa crise política. É preciso ficar dando uma olhada neste quesito.

4) O que pode nos levar a conclusão de que a questão viaja nas bordas da contaminação financeira. Alguns vislumbram uma trajetória: do mercado às instituições financeiras, destas aos Estados, e dos Estados às regiões do mundo. Assim, a crise grega e européia aparece como um detonador do movimento geral de transformações contemporânea, tanto da geopolítica como da geoeconomia mundiais. Com isso, cresce o grau de incerteza da realidade econômica. Temos um sopro de abalo tanto nas atividades produtivas e financeiras quanto nas disputas da competição política, como dizem certos politólogos. Portanto, com a incerteza, o que cai para o segundo e esquecido plano, em função da crise dos capitais aplicados nas finanças e da crise no Estado, é sem dúvida o investimento. E o pior, o problema monetário ainda está longe de emergir, mas lá no labirinto do cenário, lá na esquina da crise terminal (se houver) está pronta uma crise monetária, uma crise da moeda reserva de valor, uma crise do dólar. Estamos longe sim, mas a gente tem visto que a crise, até agora, teve um compasso lento, mas persistente. Será inexorável a fogueira sobre a moeda fiduciária principal?

A METAMORFOSE E A POSTERGAÇÃO

1) Há um verso de Tennyson, que Borges cita: ‘Time flowing in the middle of the night” (Tempo fluindo no meio da noite) que pode nos dar o sentido atual da crise. Há uma energia deslizando que impele a economia e a política para uma outra confluência hidrográfica. O verso força a mão no tempo e no meio da noite. Pois é exatamente, onde estamos, no meio da noite. E com isso se evidencia um dos aspectos fundamentais da atual questão. Estamos no escuro, estamos na escuridão, estamos sem luz. Estamos sem saber do nosso destino na voragem da corrente do rio. Diante desta noite, o que o economista pode fazer é especular teoricamente. Ou como nos diz Keynes, num momento como este, as probabilidades não caem do lado matemático. O que nós temos são juízos; na verdade, opiniões. E a nossa opinião vem sustentada no entanto por uma suposição.

2) Todavia, antes de falarmos da suposição, cabe tentar explicitar, num nível mais abstrato, o que está em jogo. É muito simples. O essencial é que existe uma lógica que conduz uma forma econômica, a atual forma do capital financeiro, a sua transformação. É bem sobre ela que estamos considerando. Estamos escutando a sua transição e a sua metamorfose. O som e a fúria. Só que em economia, as ações e os frutos são humanos. E são estes mesmos que, fazendo os seus gestos iluminados por estruturas e no seu grau de independência, têm a possibilidade de invenção, que pode surpreender. As surpresas devem fazer parte das previsões. E desta forma, se estas atuações forem criativas, elas terminam por acelerar a forma social onde se desenvolvem. Se o engenho por qualquer razão não florescer, temos, na melhor das hipóteses, o vírus da estagnação, que causa uma petrificação da dinâmica da sociedade. Mas, os homens não agem todos no mesmo sentido E as ações na sociedade são conflitos, batalhas, discórdias, em todas as dimensões humanas, políticas, econômicas, ideológicas, culturais, judiciais, legislativas. Como sintoma deste sistema, a incerteza é a parceira do meio da noite.

3) Porém, como falava Corneille, adaptando-o para a situação atual: é lógico que a crise tenha uma lógica. E esta lógica é a que tentamos compreender. No caso da sociedade contemporânea a lógica é a lógica do capital, uma lógica dinâmica e desequilibrada, que não se deixa aprisionar por equações e modelos econométricos ou modelos estocásticos. A lógica do capital tem seus fundamentos originados nas relações sociais de produção, que atualmente estão hegemonizadas pelas finanças. Só que as relações estão se transformando. E cabe ao economista apontar o(s) eixo (s) desta crise e de uma possível nova revolução do capital. Podemos dizer que eles, os eixos, e elas, a crise e a revolução, passam pelas finanças, pela produção (investimento, tecnologia e o trabalho), pelo Estado e pela ordem mundial. Falamos hoje, neste texto, de vibrações estranhas que estão ocorrendo em dois eixos, na crise e no caminho desta revolução (?). Mas, antes que os apressados compreendam mal: revolução aqui está empregada no sentido astronômico, assim como quem diz revolução solar. Pois a metamorfose social profunda não é uma revolução deste porte. Para usar uma metáfora de um artigo da mestra Maria da Conceição Tavares: a metamorfose social profunda é “a explosão do sol”. Contudo, esta é um acontecimento que navega no meio da noite como Hamlet: na postergação. Resta sem dúvida detectar a lógica que impera atualmente, sustentada por um vasto processo de concentração e centralização de capital. E lutar para que a barbárie não faça da civilização um puro mercado, onde tudo se compra, da honra aos automóveis, do computador ao voto, sobretudo quando são os financistas que dão o tom da ética, da política e da cultura. Se reafirma então a questão: para onde vai a lógica do capital?