quarta-feira, maio 11, 2011

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
12 de maio de 2011
Coluna das quintas



NOVAMENTE NO CAIS
O NAVIO NEOLIBERAL
Por Enéas de Souza



1) Já temos escrito aqui neste blog sobre o ‘revival’ neoliberal. E alguns comentaristas, falam e lembram especificamente das terapias oferecidas à Grécia, a Portugal, à Irlanda e, inclusive, à Espanha. Mas esse queijo tem muito mais furos e as primeiras fatias não são essas. A construção do monstro, o monstro do fundo dos oceanos econômicos, na verdade, começa nos Estados Unidos, na corda musical da nação e do Estado americano. Percebam bem e sigam a linha melódica deste pensamento. O desastre de 2007 foi dominado por uma política neoliberal com a finalidade de evitar o risco sistêmico. O lance foi comovente: pôr à disposição dos bancos e das instituições financeiras uma montanha de dinheiro. A pergunta estalou logo na época. Tamanha generosidade, dar recursos públicos, aos bandoleiros das finanças, era um boa? Tinha outra solução? Claro que tinha, sim! Simplesmente se poderia nacionalizar ou estatizar as instituições financeiras em pedaços. E, depois de saneadas, se poderia até devolvê-las a outros capitalistas menos bandidos. Mas isso não era neoliberal, cheirava a um perfume negativo. E os banqueiros ameaçados gritaram como numa peça de Brecht: “isso é socialismo!”.

2) Na crise de 2007, deu-se a derrota das finanças, mas na queda, apesar de tudo, houve o triunfo dos neoliberais, e por ação do executivo e do legislativo conjugada. Sempre o mesmo enredo desta escola de samba. A comissão de frente traz a seguinte inspiração: antes da crise, o Estado não pode entrar no jogo econômico, deve apenas favorecer a roleta e o cassino dos títulos. Sempre na mesma direção, desregulamentando os mercados. E sempre para assegurar o vôo das rendas financeiras. Até que, no meio do desfile, as finanças tomaram um tombo e precisaram da intervenção e dos recursos estatais. Também o capital produtivo entrou em colapso. E então, na mitologia do capital, era hora do tão mal falado Estado vestir a fantasia de Midas. Dinheiro, dinheiro. Mas ele não rolou para todos. O concreto é que muitas indústrias, mesmo enormes, não tiveram ajudas ou tiveram apoios muito limitados e com a exigência de planos precisos e grandes sacrifícios. O que quer dizer que, mesmo entre os capitais, uns são mais preferidos que outros. Mas o que interessa de qualquer modo é que a semente do ‘revival’ neoliberal começava ali, na hora dos salvamentos, o carro das finanças era o mais competitivo.

3) Ou seja, o ‘revival’ nasceu com problemas, foi para o berçário logo de saída na tentativa de solução da crise. O Estado procurou manter a iniciativa do capital, mas através da esfera financeira. Era preciso, indisfarçavelmente, recuperar as finanças privadas! O leitor sabe, o doente ficou muito tempo na UTI. E o dr. Bernanke e seu hospital, o Banco Central dos Estados Unidos, junto com o estagiário em política econômica do Tesouro, Paulson, fizeram a cirurgia dos ‘ativos bichados’ das empresas financeiras. Eles conduziram essas instituições ao setor de branqueamento dos balanços. Só que essa escovação dos títulos impuros – não se tem uma notícia precisa – não se sabe se os balanços estão ou não realmente zerados. Mesmo porque a contabilidade é uma zona escura e triste. E o doce e melancólico dr. Bernanke, caridoso, continua dando os seus soros milagrosos, jogando liquidez no sistema financeiro. O que fez o presidente do FED? Carregou as bazucas do sistema, tudo para dar às finanças um novo poder de fogo. E elas, como gafanhotos, estão caindo sobre os emergentes, trazendo uma alegre e furiosa especulação, instabilizando esses mercados (O Brasil, incluído, já que uma parte da atual inflação, não há dúvida, vem daí!).

4) Essas operações de sustentação dessas instituições, desde o princípio da crise até agora, foram realmente pesadas e sintomaticamente fortes. A medicina adotada reanimou o paciente que, alquebrado e combalido, sobreviveu, levantou-se – e voltou rapineiro, com mais vigor e mais ação, para os mercados disponíveis. E se os mercados financeiros americanos se encontram sem júbilo e sem festa, os navios do sistema zarpam para portos mais apetitosos no resto do mundo. E, sobretudo, saúdam a sua liquidez lançando suas fichas noutra parte do cassino, na mesa das ‘commodities’ – vale dizer: petróleo, matérias primas e alimentos. E o resultado, por fim, incrementa uma perturbação internacional inflacionária; pressiona a valorização de moedas como o real, por exemplo; e incentiva uma disputa monetária forte, dividindo a moeda mundial entre o dólar, o euro e o yuan, apesar do dólar continuar, em última instância, com a função de reserva de valor. E isso que não estamos falando dos reflexos nas economias de vastos e ponderáveis problemas fiscais que arrasam salários, previdência, idade e remuneração de aposentadorias, aumentos de impostos e enfraquecimento do poder de vários Estados.

5) Então, meus angustiados leitores, o nenezinho ‘revival’ saiu do hospital. E começou dando um duro em Obama (que teve que matar Osama para ter chances eleitorais), descortinando mercados novos fora dos Estados Unidos, provocando politicamente o reforço e a retomada da antiga aliança capital financeiro internacional e sistemas bancários locais. E através de seus aliados, com os canhões de Navarone da mídia comprometida, pressionar mais uma vez o mundo, as populações e os Estados com as idéias e as políticas neoliberais. Apesar de estarmos razoavelmente bem, o Brasil é também palco de um ‘revival’, que procura assustar o governo e as classes médias e pobres. Só que a desmoralização americana e européia e japonesa, oriunda da incompetência da política da desregulação financeira foi tão grande, que as vozes empresariais, mesmo das instituições das finanças, não clamam, aqui, com as suas trombetas dos infernos, para a saída do Estado da economia. É bom que se veja bem e eles sabem disso: foi pelo Estado que eles se salvaram. Lá e aqui. Mas agora, como cachorros magros e mal agradecidos, já estão virando – aqui no Brasil é muito audível – suas vozes para a mídia tradicional, tratando de buzinar novamente contra o Estado e seus órgãos. “Não controlam a taxa de juros!” (Embora desejem o contrário!). “Não atuam sobre o câmbio!” (O que de fato prejudica os calçadistas e a indústria têxtil, faz-se notar). Mas os banqueiros gostam disso: livre entrada de capitais, juros altos e cambio solto. E fazem o duplo jogo da perfídia. Da perfídia neoliberal em tempos de crise. Como se dizia na minha infância: escondem a mão e dão o tapa!

6) Todavia, a fotografia do ‘revival’ brasileiro tem colorações políticas especiais. Primeiro: um retorno da pressão dos bancos, tonificados pelos recursos americanos que aportam por aqui. Sob esse som, voltam a querer pôr o Estado para dançar. E segundo, essa pressão se eleva, sobretudo, quando segmentos da esfera produtiva se aliam a eles, para reivindicar uma política mais severa que os favoreça. Mas o prato principal desse restaurante é novamente a força imperiosa dos bancos. Um amigo do mercado financeiro me disse: “Enéas, não te espantes se daqui algum tempo não retornar um bandido para dirigir o Banco Central”. Êpa!, me espantei. Mas o meu interlocutor foi firme: "é verdade, não te espantes!" Pode ser isso mesmo. O retorno de um homem de mercado para comandar as sinuosidades do sistema financeiro e influir na política monetária e financeira do país, ‘porque a inflação está aí’. Ela é ruim para os aplicadores, é péssima para o povo. Essa música cola.

7) Por outro lado, os cronistas econômicos que salientam o retorno da visão neoliberal, chamam a atenção para a Europa. Lá, todavia, o fenômeno tem um rosto muito intenso, rosto de George Clooney ou de Juliette Binoche. Dá para se ter um olhar muito nítido, diria Fernando Pessoa, um olhar de girassol. O que houve nas terras européias foi o triunfo inigualável da Alemanha, tanto econômica como geopoliticamente. Lá os bancos estão triunfantes. Foram os primeiros a serem salvos e impuseram uma política fiscal saudável, aquela que vem comandada pelo coração de Ângela Merkel. E a Alemanha está cada vez mais forte geopoliticamente, domina o Leste europeu e faz uma aliança expressiva com a Rússia. E, por sua influência, o Banco Central Europeu tem uma alma ortodoxa. E sua política é fortemente financeira. E procura sustentar os grandes bancos contra os Estados mais fracos, casos que vão da Grécia a Portugal. E sempre a velha chave: bota o retrato das finanças outra vez, bota no mesmo lugar. Há que ter clareza, o salvamento escorchante tem uma faca que funciona com uma lâmina bem afiada. Por exemplo, Portugal vai tomar um empréstimo, com juros de cinco e pouco por cento, quando o próprio FMI lhe está cedendo recursos a 3,25. E agora, digam rapidamente, quem é que vai pagar socialmente a conta, para salvar esses Estados e inclusive os bancos desses países, emparedados por outros Estados e por banco de outros países? Digam com rapidez, digam!



8) Salve o neoliberalismo!
- “De volta, compadre?”
“Sim, de volta. Mas, não alertes nem espalhes muito. Tenho sim ainda a mídia a meu favor, tenho a ‘tuba canora’, como diria Camões. Mas não divulgues, não tenho mais a liderança da dinâmica econômica. E mais, confesso aqui, que não se domina mais, sem discussões, o Estado como antigamente. E te digo no ouvido: a dinâmica não vai tão bem, porque não há uma expansão da economia produtiva com taxas de lucros extremamente altas como na época da economia ponto com. Sim, a economia até cresce, mas é tudo indústria velha, lucros grandes, mas nada explosivo e vigoroso. A nova indústria, aquela que vai mudar o mundo e vai dar a nós novas oportunidades de amplos negócios, ainda não está em expansão, não está permitindo novos vôos especulativos. Aliás, temos um pouco de culpa! Nossas próprias especulações atuais com petróleo, matérias primas e produtos agrícolas, estão emperrando as transformações. E os déficits espantosos dos Estados são bons e são ruins. Bons porque ganhamos dinheiro; ruins porque o Estado não pode financiar as indústrias novas, sobretudo aquelas de comunicação e informação. Enquanto não acharmos uma fórmula para ligar finanças-Estado-novas indústrias tecnológicas, temos que continuar, na corda bamba, traçando esse ‘revival’ neoliberal. Mas, que ele vai acabar, vai. A hora é das indústrias novas. E aí o Estado precisa ajudar a produção. O que não se sabe é o tempo da mudança! Talvez a concorrência entre os Estados nacionais, incluindo o Estado e a economia da China, ajude. Mas, por enquanto, é sitiar e cercar com o ‘revival’ neoliberal o que for possível.”

quinta-feira, maio 05, 2011

O que a publicidade vende?

Muito bom o artigo  sobre  Perversão e Publicidade publicado no Diário Gauche. O problema é que a consciência da situação ajuda, mas não garante que qualquer ser escape dessa máquina trágica do capitalismo. 
CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
05 de maio de 2011
Coluna das quintas




OBAMA E OSAMA:
DUAS CABEÇAS A PRÊMIO
Por Enéas de Souza





1) Osama Bin Laden morto é o maior cabo eleitoral de Barack Obama. Isso é tão evidente que não mereceria nenhum comentário mais expressivo. Só que queria acrescentar, ou reafirmar, uma ou duas idéias nos fios de novelo. Esse episódio não é apenas um apoio à campanha de Obama. Mais que isso, para mim, ele é um turning point na trajetória do presidente americano. Trata-se de um vento de cauda, como dizem os pilotos dos aviões. Em primeiro lugar, é preciso ver que Obama vinha sendo um presidente totalmente batido pelas iniciativas dos conservadores, dos republicanos e dos financistas (veja-se que os três não são a mesma coisa). E a cachoeira de fatos caindo sobre sua cabeça trazia largos jorros de crítica da população. E não apenas da classe alta, mas gente de todas as classes. O governo do Obama, então, estava assim, parecendo um náufrago à deriva, se afogando lentamente, E o que aconteceu com ele? Há muitos aspectos – muitas determinações, diria Hegel – a respeito desse acontecimento. Há o aspecto simbólico, há o aspecto político interno, há o aspecto internacional, há o aspecto ideológico. E etc. Ou seja, as análises poderão ser longas. Longas e com muitos ângulos. No caso deste artigo vamos pegar apenas dois pontos: a política interna e os valores em jogo.



2) A morte de Osama Bin Laden mudou tudo. Ela faz parte de uma jogada de Obama para voltar ao centro das iniciativas da política americana. Sempre houve uma sombra na sua trajetória depois de eleito. A crítica feroz, sobretudo dos republicanos, a respeito de sua origem e da sua fraqueza política em defender os valores americanos, pelo menos. Na verdade, a coisa aqui é complexa, porque existem duas correntes ideológicas fortes nos Estados Unidos – a corrente guerreira e a corrente liberal – que enxergam o mundo, a presidência e a ação dos Estados Unidos de modo diferente. Obama navegou nessa última, prometendo uma diplomacia de paz, uma luta contra o sistema financeiro, uma série de pesquisas para mudar a matriz energética, uma reorganização da indústria americana e, politicamente, uma nova – ou um retorno – à liderança liberal. Tudo para fazer face à postura guerreira e canhestra do inefável Bush. Não conseguiu mover nada. “No meio do caminho tinha uma pedra”. Os financistas ocuparam todo espaço econômico do governo, o desemprego continuou alto e intolerável, a produção, indústria velha, vem se recuperando pela produtividade e nunca pela mudança do paradigma industrial. A dívida e o déficit americano, por causa da herança da crise, visitaram níveis muito altos. E as guerras, para desespero dos pacifistas, continuaram matando gente. O propósito da retirada das tropas do Iraque e do Afeganistão, e o fechamento da base de Guantánamo tiveram datas alteradas e tornaram-se figuras de histórias fingidas. Até o último fim de semana, Obama mergulhava no pântano político. A vizinhança da eleição e a sua queda de popularidade davam esperanças aos republicanos. Era o anúncio da dança da eleição perdida.



3) E aí aparece Bin Laden. E aparece morto. E isso muda tudo, sobretudo muda a estrada da re-eleição. A grande jogada de Obama foi conseguir que os Estados Unidos matassem o terrorista-mor, num momento inclusive em que o fracasso da política externa americana era uma realidade de nu frontal. O que Obama fez, ao anunciar a morte de Bin Laden, e ao expressar o seu discurso de reivindicação de justiça e de grandeza americana, foi matar um “inimigo jurado dos Estados Unidos”. Praticou a jihaad americana. Por que? Porque Bush forçou sempre a linha contra o terrorismo, consolidando a figura da “guerra ao terror” na imagem de Osama. Por oposição, esse se constituiu num símbolo, símbolo do terrorismo, símbolo da invasão do território americano. Por negação, esse símbolo unia os americanos. As Torres foram uma humilhação no orgulho pátrio. Tio Sam clamava por vingança. E o desejo de vingança expresso no desejo de matar estava presente na alma dos americanos. Desejo de vingança, sim; mas óbvio, claro, em nome da justiça. Antes de avançarmos na análise devemos atentar bem, quem foi morto não foi Osama, foi a materialização do símbolo que feriu os Estados Unidos.



4) Pois, Obama apostou alto. Jogou em cima do símbolo negativo de Osama Bin Laden trabalhado pela administração Bush. Esse símbolo negativo permitiu aos americanos fazerem a guerra do Afeganistão e do Iraque, construindo fortemente o avanço da unipolaridade geopolítica. Ponto para a indústria bélica, ponto para a indústria petrolífera, ponto para a construção civil. E naturalmente, ponto para os conservadores e os republicanos. (Enquanto isso, as finanças devastavam a economia). Todavia, o símbolo negativo, indiretamente, passou a ser o grande desafio para Obama. E emergia, no rastro do símbolo, toda a sua fraqueza política, ao mesmo tempo, que recebia as acusações de que não representava e não defendia os valores americanos. Apanhou como cão danado. Sua saída, para ultrapassar a desmoralização completa, foi fazer o lance do assassinato de Osama. A história do vivo ou morto. E a administração Obama preferiu Bin Laden morto.



5) Pois o gênio da jogada do assassinato de Osama Bin Laden é que a estratégia de Obama trabalhou sobre o símbolo que falamos acima. Ou seja, Obama não visou apenas um acréscimo de popularidade, uma recuperação de seus fracassos. Buscou a recuperação, pela direita, pelo lado guerreiro, do prestígio americano. Produto extremamente válido para o plano interno provocou, por consequência, uma reviravolta na re-eleição. Um cavalo de pau. E, sobretudo, ficou visível, Obama renasceu no calcanhar de Aquiles, ali onde os americanos se vêem como grandes guerreiros, como batalhadores da justiça, como povo líder do Ocidente e do Mundo. Imagem que estava rota e que foi usada pelos adversários do presidente contra o seu mandato. Como contraposição, veio uma caçada que termina por fulminar o terrorista que zombou dos Estados Unidos. Uma metamorfose singular, um feito absolutamente notável na imagem interna da política americana. Porque agora sim, o governo de Obama vai recomeçar. Ele é confiável, ele é americano, ele recuperou a auto-estima da população, ele conseguiu “o que todo mundo queria”. E colocando a sua bandeira na história do país (a morte do terrorista que humilhou os Estados Unidos) ele, agora sim, pode mudar, dar novas expectativas para poder reorganizar o país. Prova disso é o resultado de uma sondagem onde 96% da população americana aprovou o ato de Obama.



6) Do ponto de vista, da política como espetáculo, Obama consegue inflar de novo o seu prestígio. A partir de agora, como todos os personagens épicos americanos – dos filmes de história policial aos filmes de cowboys – ele entra no caldeirão dos vencedores. Fincou a bandeira na destruição do símbolo negativo, de onde poderá sair à re-eleição, de onde poderá superar os seus fracassos de política econômica, de política social, de política internacional. O meu sentimento é que Obama virou o jogo e vai passar ao ataque. Pela primeira vez desde que foi eleito.



7) Na política interna, em função da proximidade das eleições, em função das derrotas sucessivas em múltiplas questões (salvo na votação do plano de saúde), a paralisia do seu governo chegou a ser cogitada na votação do orçamento deste ano. Obama rumava para o despenhadeiro, a sua história política fazia amizade com o abismo. Pois bem, é nesse ponto que matar Osama Bin Laden foi a jogada de gênio. Por que? A primeira coisa: arrancou dos republicanos a liderança ideológica e destruiu o símbolo negativo. Obama se apossou do centro do espectro político e se transformou no super-herói da alma americana. Bin Laden tinha posto em cheque e tinha humilhado o orgulho do país, o primeiro a atacar, com êxito, Tio Sam na sua própria terra. Na política como espetáculo, matar o terrorista faz toda a diferença, provoca a metamorfose da figura de Obama, permite que haja um avesso na sua trajetória. E assim, lanhado o símbolo negativo, agora vai assumir efetivamente a política americana como líder legítimo. Tanto que hoje vai ao “Ground Zero” para dar a virada de página definitiva da era Bush. São aqueles jovens, sedentos de bravura indômita, que agora vão apoiá-lo, como se o marido de Michele fosse um deles.



8) O segundo ponto que queria assinalar são os valores do governo americano. Eles se colocam como vítimas, como justiceiros. Os outros são vilões. E mais, eles podem intervir em qualquer parte do mundo. E podem fazer uma caçada de morte. Tudo em defesa da democracia... E podem se rejubilar com a morte de um cara – para não dizer de um homem. Ora, esses acontecimentos me lembram as peças de Ésquilo, a trilogia chamada Orestíade. Nela, o que existe como pano de fundo e pano de frente é a idéia de olho por olho, sangue chamando sangue, morte se empilhando em cima de morte. E quando Orestes vai ser julgado, o resultado final é o estabelecimento da necessidade de um tribunal para resolver os conflitos da humanidade. Os romanos fizeram algo notável e o direito canônico deu continuidade a isso. A primazia da lei. É a lei que permite a civilidade – e não o tacape como forma de organização do mundo. Mas, como sempre afirmamos neste blog, o conflito está na base da política. Mas se ela não dá uma acalmada e não controla a violência, engendra, anima e amplia o teatro dos conflitos. Só que, se os homens permanecem constantemente na belicosidade, o que nós temos é a vitória da famosa expressão do Hobbes, “homo homini lupus”. O combate em toda a sua extensão. Uma faca puxa outra, um tiro traz o segundo, e o segundo encaminha a série na direção do infinito. Como observava Borges: existe um apelo de dinâmica ativa quando seguro um punhal na minha mão.



9) Por isso, a política é a forma de negociar e deter a violência na sua manifestação mais acerba de exercício da brutalidade. A cultura surge por bloquear, senão duradouramente, mas, pelo menos por um tempo, a agressividade progressivamente letal. E o que nos espanta nesse episódio de Osama Bin Laden é, em primeiro lugar, que o presidente dos Estados Unidos, uma das figuras importantes do século XXI, venha à televisão americana e mundial e diga – imagem diante dos nossos rostos, diante dos nossos olhos, diante da nossa inteligência – que assassinar Bin Laden significou que “a justiça foi feita”. E não deve deixar passar batido que se pode invadir um país assim na pura vontade de invadir, como ocorreu no Paquistão. E que essa interdição possa ser suprimida só porque o presidente americano avisou (a posteriori) ao presidente do Paquistão. Foi invasão sim e assassinato também. Ora, que retórica política mais miúda essa do domingo! O que está em jogo é o problema da Orestíade: o desejo de vingança. A lei ficou grudada no artefato que matou Bin Laden. Isso põe o século XXI de volta na atmosfera dos séculos antes de Cristo, ou naquele mundo dos animais que aparecem no início do filme de Stanley Kubrick, “2001”. Um darwinismo muito cortante, uma lâmina vastamente afiada. Barack Obama sucumbiu à direita norte-americana e mundial. Onde estava o seu discurso de paz? Onde ele colocou o seu diploma de Prêmio Nobel da Paz? Certamente, Bin Laden deveria ser julgado e condenado. Mas o desejo de vingança triunfou sobre o desejo de legalidade. Tivemos, depois da Páscoa, uma Aleluia sangrenta e conservadora.



10) Não há dúvida, dentro da “realpolitik”, Obama vai ao lado destro do cenário político para se salvar. São concessões políticas que tem que fazer para que o poder possa ser mantido. Pois veja, leitor eventual, Osama vem sendo superado politicamente pelas novas formas de resistência das democracias do Norte da África e pelos movimentos por mudanças políticas no próprio Oriente Médio. Então, a operação Bin Laden foi, de fato, uma operação política, ilegalidade gritante, com predominância interna e com grande ênfase no caráter simbólico, para permitir que Obama seja respeitado no plano interno e quiçá no plano externo. Não queremos dizer que ele será necessariamente vitorioso nas eleições do ano que vem; apenas salientamos que a sua candidatura já está na pista de decolagem. Decolará? Os seus fins justificarão seus meios?



11) Porém continuam a vigorar inúmeras questões. As perguntas são as seguintes: o desejo de justiça deve funcionar como desejo de vingança? E onde fica a lei? O que é bom para os Estados Unidos é bom para o mundo? O que vale para mim vale para os outros? E, finalmente, a questão decisiva: qual é o contrato contemporâneo que nos salvará da guerra de todos contra todos?

quinta-feira, abril 28, 2011

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
28 de abril de 2011
Coluna das quintas



AS DUAS
GRANDES
ADVERSIDADES
DE DILMA
Por Enéas de Souza



1)As novas questões do Brasil passam pela reordenação de sua política de longo e de curto prazo. Na época de Lula tivemos a passagem, com o olho bem aberto, de objetivos imediatos, marca de FHC dominado pelo neoliberalismo, para um tratamento estratégico dos dois termos temporais citados, definidos por um projeto nacional. O objetivo era sair do labirinto de políticas de duração exígua, concepção do setor financeiro, rumo a uma inserção do Brasil na ordem econômica da globalização. Um futuro mais claro à frente com uma novidade substancial: uma política econômica de melhoria da renda e do emprego. Fazia parte deste projeto a presença do país como um ator de média estatura na política externa, alvo que foi plenamente atingido, tanto que Lula se tornou a grande figura da política mundial em 2010.



2) É preciso ver que as ações na realidade externa são expressões do lado de dentro da sociedade, com uma dose de pimenta dada pelo Estado. O jogo dos grupos sociais tinha se alterado na arena de combates do Brasil durante a primeira década do século XXI. Uma força vital começou a desaguar no governo lulista através do apoio das classes menos favorecidas, por causa da nova formulação da política econômica. E esta força voluptuosa cresceu diante da articulação/desarticulação financeira e produtiva, sobretudo porque esta última área, insatisfeita com a imperiosidade das finanças, aderiu a um projeto mais produtivista, mais de acordo com a facção social que Lula representava. E o grande emblema dessa mutação foi José de Alencar, figura que revelou muito bem essa faceta, pondo uma garantia e um cimento entre a produção e os trabalhadores. Cabe destacar igualmente que as finanças perderam terreno, pois tiveram uma paralisia na sua aliança internacional/nacional por ocasião da crise de 2007. A divergência dos empresários, a associação capital produtivo/trabalho e o crescimento da figura da população transformaram o campo da ação política de Lula.


3) O tempo é algoz implacável dos homens e das sociedades. E vai alterando as suas configurações, uma vez que ele se opõe a si próprio. Como a água, toma a forma de outros recipientes, de outros copos, de outros cálices. Então, o mundo, assumindo a fisionomia do rio de Heráclito, muda de forma permanente. A consequência é que Dilma encontrou, após a eleição, uma dupla adversidade no plano de vôo da nação. A primeira aparece no campo externo: o mundo apresenta uma enredada mundialização em tumulto. Aqui há uma acentuada presença ativa da China, acumulando triunfos políticos e econômicos, com uma estratégia nítida e insistente. Aqui há também um desequilíbrio americano, com ponteiros domésticos em desacerto, buscando fazer uma revisão dolorosa de sua política externa unilateral e militar, tentando barrar os revezes financeiros privados e públicos, e percebendo uma decadência produtiva e mercantil a exigir uma metamorfose tecnológica e empresarial. Ou seja, a geo-economia e geopolítica do planeta aquecem a temperatura dos conflitos. Desenha-se a figura de uma rota de futura bi-polaridade, atravessada, Deus dirá se é verdade, por tintas e cores de múltiplas influências, pois a Índia, a Rússia e o Brasil e tantos outros, tratam de alterar suas posições relativas no conjunto internacional em movimento.


4) Dito de outra forma: Dilma está em face de uma outra etapa de uma nova ordem política e econômica mundial. Tem que ter cautela para agir. E para bem agir, há que pesar os caminhos retos, sinuosos, ou em ziguezague, o mundo não tem mais a cara da unipolaridade americana. Ele está mais complexo e mais à beira do precipício. Os quatro cavaleiros do apocalipse ainda estão cavalgando: crise financeira em desdobramento, mudança do tabuleiro dos conflitos políticos, retorno do movimento social para a ultra-direita e ideologia selvagem dos cortes sociais.


5) Esmiuçando a segunda adversidade, que tem origem nas discórdias internas, vê-se que Dilma está diante de um quadro de luta social mais candente. O fogo do caldeirão já está aceso. Os banqueiros que estavam felizes, com FHC e com Lula, viram, no final do Lula II, as astúcias desse último. A política econômica escorada nos interesses dos bancos e do capital internacional tinha agora um novo sócio; sócio minoritário, de fato, mas novo sócio: as classes trabalhadoras e as deserdadas. Lula tinha feito uma manobra fantástica, com as sobras dos recursos dirigidos às finanças, achou uma janela entreaberta. E culminou por construir uma política coerente para as classes pobres (desde uma política de aumento real do salário mínimo, do programa Bolsa-Família até o começo de uma outra política de habitação). Hoje, estes passos elevaram as tensões sociais de maneira muito forte. Os bancos retornaram, junto com um novo suspiro das finanças internacionais, com o desespero da grande imprensa e de parte dos empresários produtivos ameaçados pela China, a forçarem uma política mais conservadora. Na verdade, o objetivo dos bancos é retornar e desenvolver uma política econômica de figurino financeiro. Em resumo: Dilma está diante desta onda de revival neoliberal, onda do Ocidente e onda brasileira.


6) Por sua vez, as classes trabalhadoras e setores marginalizados, da cidade e do campo, querem avançar. Mas seu desejo está mais para um desejo de melhoria de vida atual, ou seja, desejam novas e mais mercadorias – de moradias às carros – ou seja, um considerável e justo aumento do padrão de vida – e imediatamente. Parece não existir assim espaço, na hora presente,  para uma correção de política na direção de uma maior socialização e para uma nova sociedade que seja mais igualitária, que tenha uma cultura menos banal, que tenha uma passagem para o longo prazo diferente da continuidade desse processo em vigor. Nesse sentido, a luta na sociedade se tornou mais aguçada que no tempo de Lula. Para alterar o rumo, há que traçar uma política que concilie os problemas de agora com a política de futuro. Mas as finanças querem acabar com a política e a estratégia de longo alcance, pois a eles só interessam os ganhos do momento. Esse festival de aporte de capitais internacionais é o que interessa, pois é aí que vai o seu objetivo rentista.


7) Para encarar essa dupla adversidade, Dilma tem que contar com o Estado. E a pergunta é: onde está o Estado? No final do Lula II, como conseqüência inclusive da ação do PAC, o curso estatal se dirigia para uma maior intervenção na economia. Mas o combate das forças sociais tem detido o seu crescimento, já que ele esbarra na resistência dos dominantes e nas múltiplas questões que se agravam no país. Infraestrutura pública (logística e urbana), financiamento do investimento, formação de quadros burocráticos, decomposição do quadro político-partidário, retorno da pressão financeira, etc., etc. Dilma, nesse ponto, está dando passos cautelosos, ao menos na minha consideração. Há uma floresta enevoada na sua frente. Daí a dificuldade de estabelecer, através de uma análise precisa e de uma inteligência esperta, uma estratégia coerente, articulando o longo e curto prazo. E essa observação é nítida, uma vez que a estratégia antiga, a dos tempos de Lula, tem que ser alterada. E Dilma sabe disso e não pode errar, a pressa pode levar a uma terceira adversidade, o atraso do Brasil em relação aos seus parceiros e ao avanço social interno. Há ciladas por toda parte. Na política econômica presente, por exemplo, a gente constata juros elevados, taxa de câmbio em posição contrária à produção, uma desindustrialização inquietante, uma inflação mundial que, por enquanto, está controlada, mas que está aí com a máscara da ameaça.


8) A conclusão: o Estado não conseguiu dar um salto próprio, nem conseguiu realizar uma parceria hegemônica com o setor privado, capaz de atuar no interesse nacional e não no interesse dos grupos particulares. Por isso, não tem forças para poder controlar o câmbio, nem definir positivamente a taxa de juros, nem ter uma política econômica global, etc. O governo de Dilma está agindo cautelosamente para não perder os pontos conquistados. Sente-se, portanto, que o Estado não mudou de patamar. Seja porque as relações das forças sociais nacionais e internacionais não permitem; seja porque o governo ainda está se instalando; seja porque ainda está enfraquecido pela ideologia neoliberal que teve vigência desde os anos 90; seja porque, na luta internacional, o modelo chinês de presença do Estado não encontrou ainda caminho de expansão; seja porque é preciso novamente acumular forças para tentar progredir para uma nova organização estatal, tanto para aumentar as conquistas sociais internas como para encarar o pesado jogo das disputas entre os diferentes Estados. Por qual a razão seja, inclusive levando em conta todas juntas, o Brasil de Dilma está em face das adversidades descritas e da necessidade de rearticular uma política e uma estratégia do dia a dia com o longo prazo. Logo, precisa pesar as forças em contenda e vislumbrar com clareza as oportunidades que surgirão. Por isso, o gesto político fundamental nesta hora indefinida é cautela. Cautela por tática e não por medo. Cautela para dar o passo certo no momento adequado. Está aí exposto o nervo frontal do desafio.


segunda-feira, abril 25, 2011

DEBATES FEE 2011

DEBATES FEE
Rumos do Investimento no Rio Grande do Sul
Palestras/Palestrantes
Conjuntura e perfil de investimentos do BRDE
Celso Afonso Monteiro Pudwell
Economista do BRDE e professor da PUCRS
Trajetória da Competitividade das indústrias de calçados e móveis do Rio Grande do Sul
Achyles Barcelos da Costa
Economista e professor da Unisinos
Dia 27/04 – Quarta-feira
Horário: 14h30min
Local: Auditório da FEE
Rua Duque de Caxias, 1691 - Porto Alegre – RS
O evento é gratuito e aberto ao público

quinta-feira, abril 21, 2011

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
21 de abril de 2011
Coluna das quintas




PARA COMEÇAR
A ENTENDER
NOSSO MUNDO
Por Enéas de Souza






TENSÃO NA ALDEIA MUNDIAL

A primeira coisa visível é certamente a passagem de uma sociedade unipolar, dominada sem pudor pelos americanos da era Bush, para uma sociedade em transição para algo diferente, com um pano de fundo oriental. O comunicado dos BRICS fala em uma sociedade multipolar. Mas acho que a tendência está marcando outra coisa. Temos sim a ascensão da China e, claramente, China e Estados Unidos farão o que Braudel chama a economia mundo tornar-se bi-polar. A China cresce, cresce e vai se expandindo como o sorriso de Ji Hintao. E ela reorganiza países em torno de si, inclusive o nosso Brasil. Tem uma fome de política e de economia, contida há muito tempo. O comunicado dos BRICS fala em sociedade multipolar. Se olharmos um pouco mais, o que estamos vendo é que, na verdade, corre um vento levando a convergência para a dualidade citada acima. Quer dizer que Índia, Brasil e Rússia e África do Sul estão fora? Não, o que eles estão construindo é uma espécie de multipolaridade junto à biopolaridade, que vai funcionar como um pêndulo, ora caindo para o lado americano, ora para o caminho chinês. Basta ver o Brasil. Comércio com este, diplomacia com aquele. E assim, cada integrante da BRICOLÂNDIA tem a sua própria oscilação, o seu próprio movimento, a sua figura pendular.

Leitor amigo, precisamos nos entender bem. Temos dois motivos da tensão e da instabilidade no atual sistema mundial. Primeiro, é a passagem do sistema unipolar para o sistema bipolar. Esse trânsito tem a suas próprias perturbações, os seus próprios entraves, os seus próprios floreios. Por exemplo: a tensão entre um Estado dominado pelo capitalismo financeiro, que é o americano; e um outro, com um caráter de capitalismo estatal, obviamente chinês. O efeito visível maior dessa tensão aparece candente no câmbio. O segundo motivo é que o crescimento da economia mundial, financeiramente dominado pelos Estados Unidos e produtivamente pela China, criou um sistema econômico mundial crítico. A crise de 2007 encaminha o mundo agora para a necessidade de um rearranjo político e econômico. É preciso pintar uma nova casa. E nesse ponto, dado a ausência ainda de uma nova ordem internacional, países como Brasil, Índia e Rússia estão afetados por diversos fatores, por uma instabilidade sem perspectiva de resolução imediata. Só resta agirem pendularmente, em torno da bipolaridade, aumentando a tensão do sistema mundial. Já os europeus se inclinam em decadência, com uma preponderância alemã, para o lado americano e a África para o lado chinês.

A MODELAGEM DA TENSÃO

A competição entre os Estados Nacionais se acantonou entre duas formas de Estado. Como a realidade mundial antes era organizada pelos Estados Unidos, esse foi capaz de modelar politicamente o mundo pós-guerra fria. Primeiro, uma hegemonia da democracia liberal; segundo, a manutenção do dólar como moeda, mas com a instituição de um dólar financeiro, baseado na taxa de juros e na venda dos títulos do Tesouro Americano. Por qual razão? Simplesmente, porque os anos 70 do século passado foram os anos da mutação fundamental do capital financeiro. O capital financeiro é uma forma de expansão do capital, aparecida no final do século XIX, que se dá via órbita produtiva e via órbita financeira. Só que nos anos que estamos falando, ele fez uma metamorfose exemplar. Antes, o que tínhamos era a hegemonia do produtivo. E a partir daqueles anos, o capital passou, astuciosamente, a ter uma preponderância do outro ramo. Portanto, uma metamorfose impar do capitalismo, com o triunfo total das finanças.

(Em parêntese: quem quiser conhecer num texto sintético, mas rigoroso, sobre a época, pode recorrer a um trabalho de André Scherer e meu. Ele leva o título de “Período 1979-2009: Ascensão e Queda do Capital Financeiro”, publicado pela FEE no conjunto de trabalhos sobre as “Três décadas de Economia Gaúcha”. Está no marco do primeiro livro “O ambiente regional”).

DE ONDE VIRÃO O NOVO ESTADO E A NOVA MOEDA?

1) A queda das finanças em 2007, numa rocambolesca crise que deu uma pausa enganadora em 2009/2010 ao mudar de nível, combinando agora crises políticas e econômicas, não trouxe até o momento uma mutação substancial no plano do Estado, da hegemonia financeira. A produção não retornou nem retomou o comando da economia e da sociedade. O Estado americano se enrolou todo nas trapalhadas financeiras. E as finanças, com o poder do dinheiro, por intermédio dos lobbies, conseguiram parar as possíveis transformações do Estado americano, atando as mãos e os atos e as idéias de Obama. E fez mais: enfiou a culpa de suas trapalhadas nele, Estado, e nele, no novo presidente, depois de ter alcançado, com açúcar e com pacotes econômicos, a sua salvação. E a crise política americana em andamento é resultado da crise conjugada financeira e produtiva.

2) Tudo é muito claro: terminou uma época do capital; só que terminou, mas não acabou, nem a hegemonia foi ultrapassada. As finanças continuam a respirar. E ajudadas pelo Estado americano, a quem continuam mandando, engenharam um esquema. O resultado é a ação do FED dando dinheiro para os bancos – uma expansão de liquidez – que permite ao setor, como diria ex-governador gaúcho Olívio Dutra, se espraiar pelo mundo. E especular com as commodities (petróleo e alimentos!). E penetrar em sistemas financeiros internacionais, como o Brasil, trazendo o aumento do valor da moeda local (o que facilita as exportações de Tio Sam), causando problemas para as dívidas nacionais e para os déficits dos governos. E com um poder sinistro: aportarem parte da inflação que a liquidez do sistema causa. Ora, tudo isso vem do dólar. Um dólar sustentado por um Estado que permite o respiro das finanças, que, ao respirar, incomoda. Não a si, mas aos outros.

3) De outro lado, como desdobramento do sistema mundial, cresceu nele, como uma planta um pouco exótica, o dragão chinês. E os americanos sempre acharam que a China era útil para receber as empresas americanas em busca de baixo custo, e que a política chinesa de saldos comerciais, poderia financiar o déficit do Tesouro. Uma esperteza dos “ours boys”. Mas o que a gente quer, não determina a vida dos outros. Resultado: a China construiu um Estado burocrático, descendente da revolução comunista de Mao, um Estado no mínimo autoritário, que usou todas as suas forças para resolver a crise asiática, que também bateu nela, nos anos 1990. E resolveu via exportação e atração de capitais que se deslocavam para lá e, com isso, deu um dos maiores saltos desenvolvimentistas da história. Trouxe, na curva do processo, uma posição muito simples quanto a moeda. Ela tinha que ser dirigida, manejada e controlada pelo Estado. Era assim, foi assim, e assim continua.

4) Quando começa a estourar a crise financeira mundial as coisas saem do plano do desenho ligeiro e pouco nítido e a crise traz dois graves problemas para os Estados Unidos: uma decadência da produção e um atravancamento do sistema financeiro. E daí, meus caros amigos, os banqueiros e os políticos americanos queriam e pensavam que iam ter pela frente uma dócil China. Os chineses, de fato, sorriam sim, mas não faziam, nem fazem o que os americanos sonhavam e sonham. De repente, a realidade aparece, aquela planta exótica torna-se a segunda potência econômica do mundo. E que joga estrategicamente bem: negaceia as insistências americanas, continua a manejar o yuan e acaba por questionar o dólar como moeda mundial, moeda de conta, moeda de comércio e moeda de reserva. Esse questionar surge agora de forma mais ampla, pois o mundo se deu conta das manobras americanas. E veio nessa nova trajetória algo mais forte, uma proposta da última reunião dos BRICS em Sanya. A BRICOLÂNDIA, na sua diversidade e nas suas divergências, tem, entre convergências, essa de discutir o papel do dólar como moeda. Ou seja, trata-se de propor uma nova. E, claro há uma pretensão no ar. Se por acaso não for possível colocar outra moeda no lugar, se os Estados Unidos resistirem como tem resistido, existe em oculto ao menos uma idéia em exame. Quem sabe, um projeto: cindirem o sistema financeiro mundial em dois. Um regido pelo dólar e outro por uma moeda, do estilo do DES (Direito Especial de Saque) do FMI.

5)Esta cisão seria uma estratégia para conter as manobras escandalosas dos americanos de expandirem sua liquidez para o resto do mundo, visando reconstruir as finanças e a sua economia à custa dos outros. Sempre vem aquela idéia da locomotiva americana. Ou dito de outra forma: o que é bom para os “States”, é bom para o mundo. Mas o mundo mudou e o sistema internacional – com essa tensão Estados Unidos e China emergindo tanto na questão do Estado como na questão monetária – seguramente já marca um passo no processo de transformação da ordem política mundial A viagem parte da estação unipolar para a bipolar, com escalas na multipolaridade do Brasil, Índia e Rússia. Da janela do avião se enxerga o colorido desses múltiplos atores. Que ninguém se engane: ao mesmo tempo, essa ordem política mundial precisa reorganizar toda a sua estrutura paraestatal, de ordem supranacional. ONU, FMI, Banco Mundial, OMC, etc... Há igualmente que reformular a relação dos países e regiões (vão ter que ser definidas a posição da Europa – enfim, da Inglaterra, da Alemanha, da França – do Oriente Médio, da América Latina, da África, para que esse novo modelo emerja com força e com dominância. E nesse panorama, a moeda – manutenção ou não do dólar – dará o sinal, no devido tempo, de que o sistema passou para uma nova ordem.


Quantos debates, quantas chantagens, quantas concepções, quantas estratégias, quantas reuniões, quantos acordos, quantos combates militares, quantas ações e conflitos políticos, quantas competições de mercados, quantas soluções produtivas e financeiras, quantas inovações tecnológicas, quantos arranjos entre as nações serão necessárias para chegarmos a uma nova organização das ordens política e econômica mundial?

quarta-feira, abril 20, 2011

Cheap Asia imports hit Brazil’s industry

From lipsticks and handbags to plastic figures of Buzz Lightyear, almost everything Priscila is selling in her small shop in São Paulo’s Paraisópolis favela, or slum, has been made in China.

“It’s just so much cheaper,” the shop owner says, pointing out items that would cost over five times as much if they had been manufactured in Brazil. “It has to be; otherwise lots of people here couldn’t afford it.”

Further down the hill from Priscila’s shop in Paraisópolis’s only chain store – Casas Bahia, a household goods retailer – it is the same story. Here most of the cheaper appliances, such as the electric drills, are “Made in China”.

As inflation rises in Brazil – it hit 6.44 per cent as of mid-April, only a fraction short of the upper end of the central bank’s upper limit of 6.5 per cent – the government of President Dilma Rousseff is facing a dilemma.

Cheap imports from Asia help to reduce the price of household goods but they are also accused of undermining domestic manufacturers. The government is being forced to choose between local industry and protecting the poor from inflation.

“Imports have a deflationary impact; they act as a brake on rising prices,” said Hugo Bethlem, vice-president of Pão de Açúcar, Brazil’s biggest retailer.

Fuelled by rapid credit growth in the lead-up to last year’s presidential election, Brazil’s economy expanded 7.5 per cent in 2010.

The government is forecasting that it will grow about 4.5 per cent this year, but the slowdown has not been enough to reduce the overheating in the economy.

Economists expect inflation to breach the central bank’s target level this month and to peak in August at about 7 per cent. Meanwhile, the central bank has responded by raising interest rates – it was expected to increase the benchmark Selic rate of 11.75 per cent late on Wednesday by another 25-50 basis points.

But Brazil’s interest rates are already the highest of any large economy. Further increases are only attracting more hot money inflows from abroad, worsening what Brazil calls the “currency war”, the steady appreciation of its currency, the real, against the US dollar.

In recent weeks, the real has appreciated from a level of about R$1.65 against the dollar to between R$1.55 and R$1.60.

To augment the interest rates increases, the government is implementing capital controls that seek to dampen consumer credit growth – one of the sources of overheating in the economy.

It is also introducing taxes that aim to discourage companies from borrowing dollars abroad at low interest rates and then repatriating the proceeds to Brazil, a trend that is strengthening the real.

In the meantime, it is trying to protect domestic manufacturers from the stronger real, which is leading to a flood of cheap imports, by raising tariffs, particularly on Chinese goods.

Only a few days before Ms Rousseff left on a five-day trip to China this month, Brazil slapped an anti-dumping tariff of $4.1 per kilogramme on Chinese-made synthetic fibres, in response to growing pressure from domestic industry lobby groups. Economists say, however, that these trade protection measures run counter to the government’s main battle, which is against inflation. “They are not making the calculus that ‘we are going to use cheap imports to fight inflation’,” said Christopher Garman of Eurasia Group.

“Essentially, the government has multiple strategies – they don’t want to compromise growth, they don’t want currency appreciation and they don’t want high inflation but it’s hard to have your cake and eat it too,” Mr Garman added.

Ultimately, the government may be fighting a losing battle against cheap imports. While China accounted for about 14 per cent of total imports to Brazil last month by value, according to the industry and trade ministry, Chinese goods already dominate certain Brazilian industries, such as textiles made of synthetic yarn.

Meanwhile, Brazilian importers of textiles from China insist that they will keep buying in spite of higher tariffs. “Brazilian industry just doesn’t produce enough to meet demand,” said Jonatan Schmidt, president of the country’s Association of Textile Importers.

“We will just keep on importing and it will be the consumers who end up footing the bill,” he said.

quinta-feira, abril 14, 2011

DEBATE NA FEE




DEBATES FEE

Conjuntura em debate: contexto internacional e política econômica

Palestras/Palestrantes


Desindustrialização: realidade ou risco?
Fernando Maccari Lara
Economista – Núcleo de Estudos de Política Econômica/FEE

Brasil na América Latina: protagonismo e pragmatismo.
Luiz Augusto Estrella Faria
Economista e professor da UFRGS – Núcleo de Estudos de Política Econômica/FEE

Os incertos rumos da política internacional.
Paulo Fagundes Vizentini
Professor e Coordenador do Curso de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos Internacionais da UFRGS

Dia 18/04 – Segunda-feira
Horário: 9h30min
Local: Auditório da FEE
Rua Duque de Caxias, 1691 - Porto Alegre – RS
O evento é gratuito e aberto ao público


CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
15 de abril de 2011
Coluna das quintas



DO TEATRO DA
POLÍTICA MUNDIAL
À CRISE PORTUGUESA
Por Enéas de Souza




Retorno das férias, tendo passado um tempo na Europa. E vou fazer algumas observações sobre diversos aspectos da geopolítica e da geoeconomia mundial, que de lá pude observar.



O JOGO DOS CACHORROS GRANDES

O grande jogo estratégico dos Estados Unidos é tentar uma rivalidade USA-China, agora, na brasa, onde certamente levariam vantagens, se tudo continuasse no ritmo presente. Mas o jogo é muito mais complicado. Primeiro, a China não está indo nessa. Está jogando bem com uma idéia de multiplicidade de pólos, os BRICS, embora com alta divergência, podem ser ligeiramente hegemonizados por ela, exatamente pelo seu atual poder econômico. Sim, a China tem dinheiro, tem indústria, tem uma perspectiva tecnológica, tem um Estado que joga pesado, tem uma diplomacia ativa. E, sobretudo, tem sabido evitar os confrontos que eventualmente os Estados Unidos propõem, porque ela tem uma estratégia de longo prazo. Não acredito, pelo nível da velocidade de vôo do mundo, que o poder americano seja batido a curto prazo. O que é certo é que os Estados Unidos não podem manter uma hegemonia financeira privada, com um Estado com uma dívida enorme, um déficit não totalmente controlável e uma política externa com derrotas acachapantes como a do Iraque e tão sem proposta de longo prazo. O que não quer dizer que não poderão encontrá-la. O problema é que as finanças continuam mandando e desatando os objetivos mais coletivos, via lobby, detonando, com essa astúcia vulgar, as intenções positivas do governo de Obama. E, além disso, todo mundo sabe, é de uma palpabilidade irritante, as finanças não têm projeto de longo alcance. Só lhe interessa o caráter rentista da economia, que são evidentemente os resultados imediatos do jogo financeiro. Desse jeito, a China está dando um salto estratégico fundamental; segundo no ranking das nações ela já é. Portanto, fiquemos atentos à atual visita da Dilma (e o renovado apoio da nação chinesa à pretensão do Brasil ao assento permanente no Conselho de Segurança) e à reunião dos BRICS, que está acontecendo hoje naquele país. Os ventos da Ásia estão soprando em direção ao Ocidente. E virão juntas, mentalidades novas em todas as áreas, da economia ao campo financeiro, da educação às alterações na cultura. E uma reorganização outra na ordem econômica e política mundial.



Será que estamos preparados para tal acontecimento?



JAPÃO EXPLODE A ENERGIA NUCLEAR



A crise japonesa, com a eclosão do sistema nuclear energético, parece sepultar, pelo menos de imediato, por temor, por segurança, por tecnologia, a perspectiva dessa energia substituir o petróleo. As questões de segurança espalham crises de medo até mesmo onde elas são dominantes e relativamente bem cuidadas, como na França, por exemplo. As turbulências no Oriente Médio ajudam – e muito – a agudizar o quadro energético, porém não deixam de reforçar incandescentemente o próprio petróleo como elemento essencial do atual quadro do setor. Claro, as alternativas da bioenergia, da energia eólica e da energia solar retornam com força. Mas tudo envolve investimento, custos, concorrências, apoios estatais, estratégias nacionais, conflitos militares, ideologias, etc. Logo, muita energia retórica e científica no campo das energias.



A FRANÇA VAI DANÇAR À ESQUERDA?



A Europa está sofrendo um processo grave de deslocamento do plano econômico internacional, com vários países em derrocada, como Grécia, Irlanda, Portugal, Espanha, Itália e a própria França. O que se percebe é um triunfo da Alemanha, com Ângela Merkel firme no comando do processo, apesar de uma derrota interna recentemente. O triunfo alemão é tanto econômico quanto político. Ela está deixando a França, em franca deterioração sarkosyana, para trás e a Inglaterra com o seu contínuo discurso do rei – e do conservador Cameron – fazendo, como quase todos os atuais governantes, figuração e astúcias midiáticas. Na França, as duas eleições cantonais recentes, mostraram três fatos marcantes: a queda do sarkosysmo, a ascensão da filha de Le Pen e um triunfo quase animador dos socialistas. Em enquetes nos dias seguintes, o grande nome para “a presidencial” de 2012 será Dominique Strauss-Kahn, atual presidente do FMI. Disparado. Tem cara de francês, tem habilidade política, saiu-se bem na reformulação do gendarme econômico internacional e é dos socialistas com face capitalista. Portanto, confiável. E pasmem, Marine Le Pen está pronta para bater o pequeno Nicolas. E nesse sentido, o presidente da França está ameaçado de não entrar no segundo turno. E se isso ocorrer, o seu partido, o UMP, se dividirá entre a ultra-direita, o Partido da Front National e o Partido Socialista, com aparente e suave inclinação para o primeiro. A esquerda-esquerda parece desesperançada e cada vez mais sem munição, idéias e propostas. E ânimo. Contudo, o movimento social tende a se inclinar à esquerda, o que é paradoxal, mas indica que o tabuleiro político e ideológico, está a exigir das esquerdas uma reformulação de pensamento e de prática que não parecem em curso. Strauss-Kahn seria o coringa esquerda-capitalista.



O ARCO SINGULAR DE PORTUGAL



A crise portuguesa é vasta e está quebrando os azulejos dessa entrada da União Européia. E nos revela algo fundamental: Portugal é um país que cresceu por exclusiva integração com a Europa. E cresceu materialmente com uma básica infra-estrutura urbana de qualidade. Mas dominado pelo sistema financeiro e por uma capitalização estatal. O resultado desse processo foi uma vitória das finanças, apoiada pelo BCE, e uma corrupção incrível no campo do governo. Teremos, “já está lá”, o FMI – chamado por Boaventura Santos de “agência de segurança para os credores” – o que vai levar uma destruição da atual situação social portuguesa, baseada na idéia dos conservadores de que “os portugueses estão vivendo acima de suas posses”. O objetivo tem coloração nítida que é conseguir a renovação das finanças estatais, pela poupança e não pelo investimento e cujo final do filme já é conhecido: remodelar Portugal para que se torne fonte de novas vantagens aplicações dos bancos privados.



Na atual configuração internacional, Portugal é um lugar privilegiado para entender o artifício básico das finanças nacionais e internacionais: sugar os recursos do Estado, por meio da dívida e déficit, incentivando o descalabro e a corrupção da política. E depois dessa atuação econômica, as finanças geram via mídia e organismos internacionais, uma pressão econômica, baseadas, inclusive, nas agências de ratings. Essas funcionam como promotores de acusação e o FMI, em nome da saúde do país e da sociedade mundial, aplica sentenças que serão executadas por suas geralmente inflexíveis equipes. E a crise que era econômica e virou política, levou assim à necessidade lírica de “ajuda externa”. Temos então uma reviravolta da crise, que nem um trapezista de circo, ela, agora, dá um novo salto mortal e a política abdica de suas decisões para que haja uma solução econômica.



No entanto, crítico leitor, entendamos, você e eu, a perfídia da manobra. Essa solução econômica é, em verdade, um avanço político das finanças, porque o grande acusado passa a ser o Estado, sobretudo o fato conhecido: a corrupção dos políticos, o gasto excessivo com funcionários, as liberalidades evidentes dos encargos sociais, sobretudo os da saúde e previdenciários. O bilhete da aeronave da solução está entregue: vem o FMI, exige austeridade e sacrifícios – extremo rigor fiscal, dispensa de funcionários, diminuição do estatuto econômico dos aposentados, degradação dos serviços públicos, etc. Cortam-se os anéis; sim, sim, mas, não se deixam os dedos. Tiro certo: a privatização das empresas públicas. E se o país é frágil, faz-se como no tempo de FHC, a reestruturação do sistema financeiro local para sua maior eficácia no interior do sistema financeiro internacional. É perfeito como chantagem econômica, chantagem política. Tudo em nome do bem: reforma do teatro dos vícios.



Conclusão: a causa do desastre é a dinâmica das finanças, com sua expansão especulativa e predatória – vejam as especulações sobre o câmbio e as commodities. Mas a visibilidade social da crise se dá no campo da política. Os causadores dela são “os culpados de sempre”: o Estado e o povo – que vivem acima dos seus rendimentos. E no bar da sociedade, porque essa é uma solução de botequim, o preço é pago pelo Estado. Mas quem deu e dá e dará o dinheiro (e ficará sem bens materiais, financeiros e culturais) são os empregados públicos e privados, os desempregados, os aposentados, os pobres, os jovens, os imigrantes, etc. A fila é grande.




PS – Estava no Porto, quando Lula recebeu o título de Doctor Honoris Causa em Coimbra. Sucesso absoluto. A sua presença e o seu discurso ocuparam as primeiras páginas dos diários portugueses e ofuscaram a presença inglesa do príncipe Charles. O triunfo de Lula mostrou também o aumento de prestígio e de poder do Brasil. E todos ficaram comovidos com a palavra da Dilma, afirmando, com oportunidade política indiscutível, que o Brasil estaria disposto a ajudar a solucionar a crise de Portugal.







quinta-feira, março 10, 2011

CRISE ECONÔMICA MUNDIAL
10 de março de 2011
Coluna das quintas




O CARNAVAL SINISTRO
DAS FINANÇAS
Por Enéas de Souza


É a comédia, é a vigarice aparecendo desnuda, é a mostração de um grupo social cuja natureza é a traição, a burla, o duplo jogo. Traição dos seus clientes, traição da realidade, conjugando poder e dinheiro, triunfo econômico e domesticação da política. É aí que a gente vê o nu frontal das finanças. Não há como se enganar: olhem o filme: “Trabalho interno” (Inside Job) de Charles Ferguson. Ele nos mostra – e perdoem, os leitores, nossa falsa modéstia, o que o André e eu sempre mostramos – os falsários do neoliberalismo. Nós nunca estivemos sós, tínhamos posições próprias, mas dialogávamos com inúmeros autores: Chesnais, Roubini, Aglietta, Orléan, Satiyajit Das, Krugman, etc. e com vários blogs como Naked Capitalism, Zero Hedge, La pompe à la phynance e até mesmo o incandescente Leap, etc. etc. Apesar disso, éramos uma gotinha no meio da garrafa espumante e cascateira das finanças. Pois passando pela gigantesca fraude que estourou em 2007, ainda existem pessoas que acham que foi o Governo que motivou a crise, que os financistas eram honestos, mas tiveram opções infelizes e se equivocaram. Enfim, que tudo não passou da “verdade do mercado”. E que é preciso recomeçar um novo período das finanças, etc., etc.

Pois qualquer que seja a sua visão, assista “Trabalho Interno” (Inside Job), que está passando em todo o Brasil, talvez em todo o mundo, pois ganhou o Oscar de documentário. Lá está estampado todo o sexo da falcatrua financeira. Lá está desmontada toda a trama do enredo da desregulamentação econômica, como fizemos aqui durante alguns anos. Não estou tratando neste artigo da qualidade estética do filme, trato dos temas contidos nele. E você pode ver nesta película o delituoso da economia que o cinema nos traz com uma pintura antropológica inédita. São os depoimentos de personalidades que combinam notavelmente com os escombros desse neoliberalismo. As falas emergem das tomadas de personagens reais em grandes planos, onde as faces, as palavras, as idéias, os silêncios, as justificativas atrapalhadas e canhestras, a incapacidade muitas vezes de encontrar uma mentira, etc., exibem a natureza podre, cínica e trapaceira que construiu a imensa pilantragem das finanças nos últimos tempos.

Sim, é preciso ver que o neoliberalismo terminou, mas o sistema ainda não chegou ao fim. Principalmente porque ele retorna. E retorna com fome redobrada e quase sem memória, propondo o mesmo logro de sempre. Claro, a dinâmica econômica desse tipo de economia não pode mais funcionar como antes. Os próprios capitalistas não acreditam mais que a fantasia e a mentira funcionem nem entre eles e, muito menos, com grande parte dos aplicadores. Mas sempre há incautos e sempre oportunidades para que a especulação funcione. A dinâmica do capital está como uma bicicleta cuja roda entortou; ainda anda, mas tem que ser corrigida a cada momento. Contudo o poder político das finanças ainda não foi derrotado. Porque embora se possa ver um ou outro senador desmontando as máscaras da trampa, como exibe o filme, o Senado e a política, submetidos aos lobbies financeiros, ainda impedem possíveis reformas e novas leis, detendo uma esperada regulamentação firme. Até Soros defende essa posição. O importante é ver, no entanto, que a saída de Bush não impediu que botassem Obama na roda. É aquilo que escrevi há tempos atrás. O governo deste estava totalmente cercado. E o filme mostra o que dizíamos: o secretário do Tesouro, Geithner; o presidente do National Economic Council da Presidência da República, Lawrence Summers, etc., etc., todos tinham participado do fracassado cassino e estavam voltando ao governo. Ou seja, Obama, após a eleição, entrou no círculo de ferro do capital financeiro. Lembro de que fiz uma brincadeira. Disse que logo depois da posse do presidente americano e, na manhã seguinte, ao levantar, ele poderia se dar conta de que Michelle, ela também, poderia ser das finanças. Aí estaria perdido. Lembram?

Pois, recentemente também escrevi – sobretudo quando se pode perceber um rearranjo no domínio interno americano das finanças-indústria bélica-energia – como o neoliberalismo abalado não se dá por vencido. Vai como Nero incendiar o mundo. E agora ele pegou uma boa causa: “Delenda Kadafi!” Ou, em linguagem de computador: “Deleta Kadafi!”. Repetindo enfaticamente: é esse movimento especulativo – marca profunda da natureza do sistema financeiro – que está atravessando e assustando o mundo com a especulação do petróleo e das matérias primas e dos alimentos. E que, ao mesmo tempo, retorna à cena para dizer, com a maior cara de pau do mundo, que precisamos acabar com a violência na Líbia. Por que não se parou a violência contra o Iraque? Paul Wolfowitz, na sua perfídia de ocasião, disse outro dia numa entrevista que o mundo ainda vai reconhecer o esforço americano de propor a democracia no Iraque. (Por favor, amigos, não atirem pedras e tomates e outras coisas piores sobre o pobre do Paul, um dos arquitetos da ação americana sobre os iraquianos.).

Falo tudo isso porque vocês podem ver no filme de Charles Ferguson, a cores, as caras espetaculares que fizeram os financistas, os políticos, os administradores públicos e privados, os representantes das agências de ratings, o defensor de uma entidade de lobistas e, principalmente, economistas (ah, nossa categoria!) expondo e exibindo os seus verdadeiros rostos, numa retórica de falsidade, de hipocrisia, de vigarice e de embuste. Quando conversamos, por celular, outro dia, André e eu, ele me disse: “só faltou ao filme dizer que a recuperação das finanças foi paga pelo Estado”. E disse eu: pelos governos de Bush e de Obama. Mas acrescentou André com ênfase: “o filme devia ter dito para a platéia: por vocês mesmos!”. Pois foram, no fundo, aqueles que pagaram os famosos “bailouts”.

E sobra uma questão muito forte: por que os economistas, salvo poucos, permitiram que a “ciência econômica” se tornasse uma lógica do trambique? Por que abandonaram a economia como um pensamento crítico e examinador das questões político-econômicas? Por que esqueceram de descrever, ao menos, a realidade como ela se apresentava, sem tomar a atitude laudatória? E, finalmente, a pergunta demolidora: como é que se poderia chamar esse pacto entre certa economia e as finanças?

Assim, tenhamos claro, hoje, que a guerra no Norte da África e no Oriente Médio não é apenas uma guerra política, é também uma profunda guerra econômica, na qual o neoliberalismo armado tenta recuperar, por novas propostas “humanitárias”, a sua liderança no mundo. Que a situação nos países árabes e no Oriente Médio deve mudar, não há dúvida nenhuma. Todavia, temos que considerar no caminho das metamorfoses e das revoluções ali inscritas, que, se o neoliberalismo terminou como sociedade viva, não acabou como domínio e propaganda política. Ele ainda não está morto, ataca, ainda neste momento, com uma proposta econômica e política fantasma e rapineira, em diversos pontos do mundo, tanto na geoeconomia como na geopolítica. “Speculation, that´s the name of the game” Se duvidarem – e a dúvida é uma herança da civilização – vejam o filme “Trabalho Interno”. E se não duvidarem, também. Ele nos mostra o carnaval sinistro que construíram e que querem que continue.



PS – Entro em férias por um mês. Até abril.

quinta-feira, março 03, 2011

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
03 de março de 2011
Coluna das quintas






A CRISE FINANCEIRA
E
OS GRITOS DE KADAFI
Por Enéas de Souza






1) Ah! Volto ao meu velho tema: a continuação da crise financeira mundial. Ela começou com os papéis bichados das finanças e devastou financeira e produtivamente diversas indústrias e minou a resistência fiscal de diversos países e passou dos Estados Unidos para a Europa e etc., etc. O que parece claro é que ela veio num ritmo imperioso, ora fulminante como nos eventos financeiros dos Estados Unidos, ora lenta como nos efeitos de sua vasta presença nos grandes países europeus. E a crise continua aí, como aquele fogo, aquela chama que, de repente, chega a novos focos de incêndios. Mas inúmeros comentaristas, diversos jornais – todos austeros e sábios – acompanhados de executivos e lobbies ativistas clamaram já não sei quantas vezes: “a crise acabou”, “a crise acabou”. Voz de coro de peça trágica grega. Só que a brasa estava fermentando e o vento do deserto reacendeu a luz vermelha. Eles, o vento e o fogo, passaram e passam forte pelo Egito, pela Tunísia, pela Líbia e batem nas janelas, nas vidraças de outros países árabes e tudo recomeça, um sinistro carrossel de circo. Que atrevidos esse fogo e esse vento! Mas os dois vêm mostrar que além da crise não ter terminado, ela não é apenas econômica, tem substância política misturada. E olhando bem, a gente observa que existe algo de novo, talvez ainda não perceptível totalmente, no panorama internacional da geoeconomia e da geopolítica. Como nos fala o amigo José Luís Fiori, isso se chama a nova política externa americana, que está fazendo como um avião que muda de rota, numa inflexão distinta dos últimos tempos. No meu modo de ver, essa política ainda está sendo trôpega, mas é indiscutível que a terra do Oscar se recompõe. É uma rede de comunicação que se reinventa.


2) O que este escriba pode ver são os Estados Unidos armando uma continuada ascendência sobre a Europa, se achegando à Rússia com apoio da Alemanha, para dar novos pesos europeus, tentar equilibrar o Oriente Médio e pôr uma certa contraposição à China. Mas é preciso ver que isto representa também uma mudança interna nos Estados Unidos. Antes de tudo, permite ver que a velha unidade finanças-indústria bélica-energia se recompõe noutro nível, que falaremos a seguir. Usando, porém, a imagem do xadrez, essa aliança faz um movimento singular, avançando um bispo importante, quase substituindo o inolvidável George W. Bush. Pois, de fato, ela re-posiciona Obama, cujos discursos humanitários e de boa retórica ajudam a propor como palatável a nova política, inclusive contra ditadores que sempre os Estados Unidos apoiaram.


3) Mas a coisa é complexa. Antes de tudo, as finanças mandam e tentam governar, mas já não comandam o mundo. Esse lhes escapa de várias maneiras. A consequência imediata é que os efeitos financeiros do desastre das finanças recaíram sobre a política fiscal americana com uma afetação brutal da sua moeda, o dólar. Todavia, o dólar continuará sendo a moeda de referência mundial, mas ele oscila por causa da dívida e do déficit americano, por causa do jorro de liquidez que o FED deu aos bancos, por causa da volúpia dos capitais financeiros em busca de rendabilidade no resto do mundo e por causa da necessidade de exportação da economia do norte.


4) Embora haja um poder da economia hegemônica em colocar os problemas da sua moeda para os outros países, o fato é que a expansão americana para a Ásia (China, em especial), impede que ela passe rapidamente a questão para as demais economias. A China sabe disso e força uma boa queda de braço com a política monetária americana. Como é uma economia estatal, controla o câmbio e procura levar vantagem tanto no fato de empresas americanas estarem no seu território como também pelo fato dela, China, sustentar em parte a dívida do Tesouro Americano. O que não se pode esquecer é que a política externa chinesa tem como objetivo prioritário o crescimento chinês, pois nesse sentido, ela melhora a sua posição contra os Estados Unidos e agrega ao seu redor a Ásia, a Índia e os países da América Latina. Por isso, a política monetária chinesa joga com esses fatores e se movimenta com controlada estratégia a seu favor, face às mudanças do dólar.


5) Os americanos e os europeus estão um pouco desesperados com a situação. Claramente pelo o crescimento e pela expansão do domínio chinês. Pois até se fala, no médio prazo, no avanço da China sobre os Estados Unidos. E outros acoplam um casamento estranho entre a China e a Índia. Mas o desespero tem um rosto tremente por causa da instabilidade do petróleo – e, por consequência, o Oriente Médio perturba os cálculos, já que o aumento do preço do “ouro negro” ou “sangue negro”, causado pela ausência de fornecimento, inquieta e assusta. Contudo, o aumento do custo não vem só por causa da retirada dos barris da Líbia, mas está vinculada decisivamente, como sempre, à especulação das finanças. E esse problema com a energia, é óbvio, se derrama sobre a recuperação americana e européia. Todavia, a especulação renova e mantém na pauta a música da contradição forte entre as finanças e a produção, já que tomba como uma adversidade cortante sobre a atividade produtiva. Mas a especulação é um vírus terrível, pois há um segundo ponto que avança sobre todo o mundo e foi uma causa decisiva nas insurreições dos países árabes: a volúpia volátil dos aumentos dos alimentos, que funcionam na dinâmica capitalista contemporânea como ativos financeiros. Claro, o tema econômico rebate, como uma bola jogada sobre uma parede, sobre o panorama estratégico americano, se a gente pensa no controle geoeconômico e geopolítico do Oriente Médio. As atuais transformações políticas complexas certamente não estão indo na direção americana, nem na direção de Israel, além de complicarem muito o tema da organização e das relações entre os diversos países daquela região. Isto sem falar no aumento da tensão finanças e produção.


6) Todo o movimento estratégico geoeconômico dos Estados Unidos e da Europa é procurar, a todo o momento, passar a crise monetária para os países mais fracos, inclusive os da América Latina. Vejam como as exportações brasileiras e, consequentemente, a balança comercial e o balanço das transações correntes ficam afetados pela valorização do real. Esse é o objetivo da política monetária americana: jogar no colo dos países emergentes e menores a bomba da desvalorização do dólar para favorecer a economia exportadora americana e dificultar importações desses mesmos países. Só que as finanças perturbam todo o ambiente em função da especulação financeira com produtos primários, com petróleo, com matérias primas. Mas olhem bem a sutileza dos americanos e dos europeus: tentam botar a culpa nos países produtores de alimentos como o Brasil. Numa escandalosa atitude, Sarkosy chegou a propor que se coloque um limite ao preço dos produtos alimentares. Tudo em nome do aumento da fome do mundo. Só que quem tem que ceder são os países produtores de alimentos, os culpados. E deixam numa boa os especuladores, sempre prontos para voar com os seus mísseis sobre novos alvos e novos ativos de qualquer espécie transformados em títulos financeiros.


7) Ora, o que se percebe com o recente discurso do rei, ou do rei dos reis, Kadafi, é que o desespero e a crise crescem no mundo. E se o protagonista do grito é o ditador líbio, o que se vê, na verdade, é mais uma trajetória na sucessão da crise financeira mundial. As finanças perderam, mas não saíram de cena nem modificaram suas posições no contexto econômico. E forçam o Estado americano a organizar uma política externa de dólar que quer contaminar as outras moedas, de uma política para forçar o jogo do petróleo, de manter, apesar das mudanças, a influência no Oriente Médio, etc. Mas o que se percebe também é que, macroeconomicamente, os americanos não comandam unilateralmente mais o mundo porque a China é hoje um rival com crescente poder, dado que através do Estado conseguem bloquear os movimentos dos Estados Unidos e dos países atrelados ao dólar. E de outro lado, do ponto de vista microeconômico, a chamada competição de mercado - sobretudo com o império da financeirização do mundo -está levando ao descontrole do preço do petróleo e à exacerbação daqueles dos alimentos. Assim, de uma forma ou de outra, o macro e o micro põem cheque a unidade e o domínio americano, e exigem uma renovação constante nas táticas de sua estratégia geopolítica.


8) Só que os Estados Unidos, numa atitude defensiva, podem desviar e apertar o seu projeto econômico, político, social e cultural, tentando impor valores e dinâmicas comerciais, financeiras e produtivas num ambiente desorganizado, dado o seu poder global. O que significa que a crise continua. Ela agora está saindo do nível geoeconômico, pela perturbação permanente das finanças, e se espraiando pelos campos já mais sombrios e mortíferos da geopolítica. Temos, no entanto, um aspecto picante. Exatamente num movimento reverso, a política se torna incestuosa com a economia, pondo na tela dos conflitos contemporâneos o novo adubo das desordens dos últimos tempos. O discurso do rei é, não resta dúvida, desespero do ditador, mas traz também um sujeito oculto: a incapacidade americana tanto de equilibrar e dominar o Oriente como da busca inquieta de outras fontes de petróleo e de energia.


9) Termino com duas perguntas.

Primeira. Não será por essas razões que os Estados Unidos estarão pensando mais carinhosamente na América Latina, que tem petróleo e que tem alimentos?

Segunda. E também não será pelas mesmas movitvações que o Brasil, como tática de defesa da sua estratégia geopolitica, parece tão cauteloso na política externa e insinua esboçar uma aproximação mais apurada com os brothers da América do Norte?