terça-feira, janeiro 25, 2011

Obama: Sputnik moment ou "por que a China pode reeleger Obama"

O que não faz a vista dos chineses aos EUA e o terror que a mídia colocou no povo, falando da decadência do país nessa semana? Obama pode se reeleger graças ao medo da população. Vejam esse pedaço do discurso que ele proferirá daqui a pouco:

Half a century ago, when the Soviets beat us into space with the launch of a satellite called Sputnik¸ we had no idea how we’d beat them to the moon. The science wasn’t there yet. NASA didn’t even exist.
But after investing in better research and education, we didn’t just surpass the Soviets; we unleashed a wave of innovation that created new industries and millions of new jobs.
This is our generation’s Sputnik moment.

Ou seja: venham comigo ou vocês serão engolidos pelo dragão chinês. Quem tem o poder detém as rédeas do jogo. Agora, é só jogar!

quinta-feira, janeiro 20, 2011

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
20 de janeiro de 2011
COLUNA DAS QUINTAS



CHINA, O DRAGÃO
DO LONGO PRAZO
Por Enéas de Souza


Nesta semana, Jintao foi recebido por Obama na Casa Branca. Olhem só, o mundo está sendo pautado pela China. Pois vem dela o lado substantivo da economia contemporânea. Tendo emergido ao robusto primeiro plano mundial pelo enlace comercial e financeiro com os Estados Unidos e tendo recebido inúmeras empresas de todo o mundo por ser um local de produção barato e gigantesco, a China, dada a estratégia paralisante das finanças americanas, é o time que vai liderando o jogo. E tudo porque o seu Estado, com uma postura desenvolvimentista, saiu na frente, reorganizou o investimento, desenvolveu a sua indústria, apurou a tecnologia e desmontou as áreas em decadência, ao mesmo tempo em que assumiu uma postura financeira inteligente. Primeiro porque não ficou preso aos Estados Unidos, mas segundo porque percebeu precocemente que sem o dólar o mundo não vai. Seu “yuan” é uma moeda controlada, portanto não serve para o mercado mundial. Dito sem nenhum constrangimento: a China sabe que o dólar é moeda de reserva de valor, com os problemas que pode ter, mas sem o dólar não há vida no boteco do mundo.

Isto traz vantagens aos americanos, pois eles manipulam a emissão da moeda. Portanto, ponto para os Estados Unidos. Mas neste voley-ball, a bola vai e vem: os chineses maltratam o dólar no câmbio, porque tem um cambio manejado. E claro, os americanos vem com aquela banalidade neoliberal: os chineses tinham que desvalorizar o seu dinheiro. Quá, quá, quá. A conclusão é só uma: os americanos têm agora um companheiro na geoeconomia e geopolítica mundial. E mais. Tem um companheiro que sabe jogar, porque tem certeza que os americanos, apesar da crise, possuem a economia e a política líder do atual momento histórico.

Ora, os Estados Unidos! A vida está difícil por lá. Antes de mais nada, as finanças mandam e desmandam, detém a economia quando querem e não saem do comando com sua esteira adiposa de lobistas, de deputados e senadores financiados por elas. Dominam e dominam – a lei do pedaço do Tio Sam. Só que, a luta é feroz, os títulos podres ainda não terminaram, a credit crunch continua, os mercados não crescem e as aplicações têm que acontecer no exterior. Se olharmos bem, a economia pode até ter um leve crescimento, mas o emprego não evolui e a estrutura produtiva não se transforma profundamente. E Obama não consegue – ah, não consegue mesmo! – dirigir a liderança do processo econômico e social numa nova direção. Projeta passos, mas precisa recuar muitas vezes. E o Tea Party está aí. E a grande imprensa está assoprando ventos contrários. E por tabela, vem vindo uma certa chuva miúda, solene e constante, tão constante e tão solene, que é capaz de levar a um desmoronamento logo adiante. Atada a corda americana, a Europa está mal e tropeça, pois economicamente está enrolada, travada, salvo a Alemanha. E a Europa continua liderada politicamente pelo trio Alemanha, Inglaterra e França, trio que dança a valsa conservadora. O resultado só poderia ser uma economia ameaçada e desembocando num crescimento medíocre e melancólico.

E cuidado, nunca podemos esquecer: quem manda na Europa é a área financeira, da City a Berlim e ao Banco Central Europeu. E ela morre, estrebucha, mas não pensa, até por intolerância, na população européia. Então, o eixo Estados Unidos, Inglaterra, Europa está sendo sacudido por uma paralisia social e uma degradação das outras classes que não a financeira, que se não chega a ser mortal, ao menos a leva à borda do precipício. E, caro leitor, esmiúce um pouco e veja a questão política na Europa. A minha hipótese começa de modo simples. Quem dirige o céu estrelado são as finanças, que conseguiu, com apoio americano e manobrando um desejo europeu, conceber uma moeda única. Esta moeda é uma moeda financeira. Mas, financeira, capenga, como a Vênus Coxa de Machado de Assis. Por quê? Porque politicamente, a Europa não avançou o suficiente, seria preciso ir na rota de um Estado europeu. E Estado europeu significaria ter um Executivo europeu e obviamente um Tesouro europeu. Na Europa, as finanças mandam, via mercado, via Banco Central Europeu, via os seus Estados Nacionais, mas não mandam nos países, e não tem força política para transformações profundas no todo. Assim, o eixo está em profunda dependência americana, que por estar com o seu Estado em crise – déficit presente, dívida alta principalmente, e política econômica de um modo geral só financeira – o que não é capaz de atender as necessidades da população.

Pois aí é que, como um mandarim misterioso e astuto, entra a China. Ela tem um plano. Um plano de longo prazo: liderar o mundo. Só que a China liga o longo prazo ao curto. Ela sabe que tem uma disputa com os Estados Unidos e que, no momento, por realismo puro, não pode se dar ao luxo de um combate frontal imediato. A China não tem uma economia com invenções tecnologicamente avançadas no setor que vai liderar o próximo padrão de acumulação: as novas tecnologias de comunicação e informação. A China tem inovações tecnológicas nas indústrias existentes, mas não está na ponta das indústrias que puxarão o novo padrão. A China não tem liderança energética. Mas em tudo isso ela tem planos, só não se acredita que tenha meios para chegar lá. A China não tem composição militar para ganhar do seu principal adversário, etc., etc. Qual é o jogo chinês? O jogo chinês é o jogo do longo prazo; acumulando pequenos e definitivos triunfos para chegar ao momento onde sua superioridade pode se confrontar com o(s) seu(s) adversário(s).

O que ela está interessada no momento é mudar a sua relação relativa com o Ocidente. E a primeira coisa que está fazendo na prática é sustentar a hegemonia do dólar, mas não perder no câmbio; intervir na Europa para impedir que o eixo USA-Europa desabe; articular com a América Latina, África e a própria Ásia relações econômicas onde ela seja o sol e o imã do processo. A China não entrou no jogo americano do curto prazo como a União Soviética, por múltiplas razões, entrou: a 2ª Guerra Mundial, o esforço da Guerra Fria, a ambição do comunismo mundial, etc. A União Soviética foi derrotada por um cerco político, econômico, militar e cultural fulminante. A China, não. Posso trazer a idéia de que ela é um dragão sinuoso, insinuante e que lança fantasias e fogo, faz ameaças ligeiras e faz festa do consumo. Não se projeta nem se coloca nunca no lado inimigo, trabalha como aliado sem ser amigo. Numa palavra: o perigo da China é que ela tem estratégia. E estratégia de longo prazo. E sabe que a melhor estrada para chegar lá é o investimento, que é o caminho da materialização do futuro. E faz isso com o Estado. Mas o seu grande segredo: não estão vulneráveis no curto prazo, porque não querem acabar com o capitalismo. Pelo contrário, estão ajudando na sustentação da moeda, na salvação da Europa e na nova expansão do desenvolvimento do Brasil – e da América Latina.



quinta-feira, janeiro 13, 2011

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL

13 de janeiro de 201
Coluna das quintas



AS IMAGENS DE LULA E DILMA
Por Enéas de Souza




Uma imagem em política é formada por alguns aspectos que asseguram a definição de um determinado personagem. A imprensa cachorro grande, meio moleirona, no seu trabalho anti-popular, já saiu a campo para tentar pôr alguns traços da imagem da Dilma no balaio do lixo. A primeira de suas ações sub-reptícias – e isto é safadeza – foi comparar Dilma com Lula. Eles tecem o manto sagrado da diferença. Jogam um homem que fez uma das carreiras mais exitosas no cenário político com uma governante que está surgindo agora, que está entrando no jogo depois do finale admirável do seu antecessor.


Quando se fala em imagem, o primeiro que se tem a destacar é o tempo. Uma imagem exibe sua consolidação após uma duração determinada. Lula conseguiu esta imagem de grande presidente não de hoje, de agora, mas depois de uma longa e vasta carreira pública. Não só construiu a sua imagem, como também operou a construção de seu mito. Como o leitor sabe, um mito é uma narrativa, e uma narrativa supõe um longo percurso do personagem, seus triunfos mais do que seus revezes e até derrotas que se tornaram vitórias.


Primeira forma de atacar é tentar fazer a comparação entre um mito e alguém, que até o momento, tem feitos e fábulas setoriais – ministeriais, posso dizer – mas que não tem nem um mês de presidente ou presidenta. Não encham a paciência do país. Claro, é natural, a gente pensar, apostar, tentar adivinhar qual a trajetória e qual o caráter político da Dilma. Mas, tudo que está por vir é projeto de história, tudo ainda é uma neblina diáfana, no qual se enxerga, quando muito, um esboço de futuro. A imagem da Dilma é um processo em construção, um work in progress. Ela é ainda, para falar ao estilo do cineasta Glauber Rocha, uma idéia na cabeça e um governo na mão. Faltam as cenas, as seqüências, falta o enredo, faltam as ações. Sim, a política é um cinema forte, um cinema americano, um cinema de ação. A imagem em movimento na política só se consolida na derradeira cena. Nenhum governo é bom ou ruim antes do seu fim e consolidado no tempo. Vide os dos Fernandos, o Collor e o FHC. Vide a reviravolta de Getúlio com o lance do suicídio.


Uma imagem leva tempo e é feita de múltiplas imagens, camadas que se superpõem e que se acumulam – e que eliminam outras imagens menos favoráveis à direção que ela tomou. Mais, as imagens vão se alterando, vão se perfilando, superiores, mais vistosas do que outras. Quem lembra a recepção de Lula e Dona Marisa pelo rei de Espanha? E mesmo esta que foi uma imagem torta, no tempo – sobretudo porque a vida de Lula foi uma aprendizagem constante, um crescimento renovado – se transformou numa imagem de passagem, da passagem de um presidente que aprendeu e se desenvolveu e se engrandeceu no cargo. A imagem do “grande presidente”, do cara que foi o estadista do ano, teve a sua configuração submetida a uma metamorfose dinâmica. Uma imagem desfazendo a outra e a melhor incorporando a menos brilhante, sobretudo, na vertiginosa transformação dos últimos tempos. E sintam como é importante não se deixar contaminar pelas imagens propostas pela grande imprensa. Se Lula ficasse nas imagens do mensalão, ele teria sido o grande presidente que foi? Tempo, tempo.


Depois, há que considerar a diferença entre a imagem de um presidente ou presidenta da imagem do seu governo. E sob certa forma há uma relação dialética entre os dois, onde um é diferente do outro, mas estão ambos perpassados pelo pólo oposto. E esta dialética das imagens vai se consolidar ao longo do tempo, na passagem da história. Me lembro do ex-governador Guazzeli falando sobre o governo de JK. Dizia ele que quando Juscelino tinha saído do governo, os jornais – e, principalmente, um grande articulista de ultra-direita, o católico Gustavo Corção, um escritor de frases e torneios estupendos – tinham dito horrores sobre Brasília. E hoje – época em que Guazzeli era governador – JK já era o grande presidente do Brasil. Seu trabalho com o movimento da política se consolidou, se agigantou. E só para citar dois exemplos: “50 anos em 5” e “o criador de Brasília” foram imagens que pegaram na sua pele histórica. E construíram a imagem de grande presidente que foi. Só o tempo desenvolve os traços, a cor, o relevo, os contrastes de luz e sombra, as marcas da imagem que vão ficar para o sempre.


Pois deixem a Dilma trabalhar – ou qualquer eleito ou re-eleito em 2010 – pois a sua imagem vai oscilar. Um pêndulo entre a imagem produzida por ela, Dilma; a imagem fabricada pela Comunicação do Governo; e a imagem que a oposição vai lhe atribuir, a imagem que a mídia vai tentar produzir. De qualquer forma, por enquanto, vai ser apenas um fio de água, detalhes da imagem que o artista chamado Tempo vai pintar, esculpir na matéria prima da História. E tudo está em aberto, porque uma imagem nunca é fechada, ela é como uma fruta – uma laranja, uma maçã, por exemplo – aberta à mesa, como um apelo de gosto, um prêmio, uma nota, que a população e o país e o mundo se nutrem. Uma imagem, portanto, evolui. E imagem então, ao mesmo tempo, se veste de consistência, torna-se uma substância ativa, um filme vivo, que penetra no imaginário da política e dos habitantes de uma sociedade. A imagem nos tempos que correm, nesta sociedade do espetáculo, tem a equivalência das imagens que Homero fabricou para os gregos tanto na “Ilíada” como na “Odisséia”. E como dizia Heráclito: essa narrativa de uns ela fez deuses, de outros homens comuns, de outros escravos.


Uma imagem só termina quando um filme termina, quando um quadro está pronto, quando uma peça encerra sua temporada. Assim como a imagem de Lula ainda pode ser modificada, a imagem de Dilma mal está começando. Estamos, em verdade sobre o reinado do Tempo majestade, que vence e classifica os homens. Mas tem um negócio. André Bazin, um célebre crítico de cinema, já nos dizia: a imagem é uma revanche dos homens contra o tempo.




quarta-feira, janeiro 12, 2011

André Contri e a inflação brasileira: "Bacen não deve subir a taxa de juros"

Repersussão da posse do economista Adalmir Marquetti como presidente da FEE-RS

Conhecimento, ciência e tecnologia para o desenvolvimento do Rio Grande do Sul

É simbólica e importante a presença do governador Tarso Genro na posse do presidente da FEE, Adalmir Antonio Marquetti. Em um estado que investe tão pouco em ciência e tecnologia, como o Rio Grande do Sul, a presença do governador pode ser um indicativo de que, finalmente, se iniciará o reconhecimento da importância da produção de dados qualificados para o embasamento das decisões de governo e, quem sabe, também para a geração de conhecimento científico de base.
Investimento em ciência básica e tecnologia e no(s) órgãos de assessoramento técnico-científico do Estado, na verdade, são atividades complementares, mas distintas. A tradição de não investimento em uma e outra, no entanto, é antiga e demonstra, mais do que o desconhecimento de sua importância, o desprezo puro e simples da sua necessidade para o bom exercício da gestão pública e para a promoção do desenvolvimento social e econômico da sociedade gaúcha.
O desprestigiamento da FEE, com o congelamento das verbas de investimento e manutenção e dos salários de seus quadros técnicos, de um lado, bem como o não cumprimento do percentual constitucional das transferências estatais para o fundo de financiamento científico, mantido pela FAPERGS, demonstra o menoscaso com que os governos anteriores trataram estas áreas.
Não por desconhecimento de sua importância, ressalte-se, mas porque a maioria dos governantes preferiu sempre relegar a tarefa de produzir conhecimento inovador que impulsiona o desenvolvimento e que possibilita melhor desempenho das funções públicas às universidades federais e às poucas universidades estaduais existentes no país, na melhor das hipóteses, ou aos centros de pesquisas internacionais, públicos ou privados, na pior das alternativas.
Muitos dos governantes brasileiros e gaúchos que integraram a leva ultraliberal tupiniquim acreditaram que se poderia importar conhecimento e que seria mais barato fazê-lo. Erro crasso. Esqueceram-se, ou melhor, tentaram fazer parecer que se esqueciam, de que conhecimento não é mercadoria de compra e venda direta. Quem detém conhecimento não o entrega, a não ser a preço muito elevado, e, quando o faz, entrega, normalmente, apenas os resultados finais do processo, mantendo para si, e como segredo, as etapas de sua geração.
Gerar um centro de pesquisas requer investimento pesado e contínuo por não menos do que 10 ou 15 anos – tempo médio de maturação necessário para que se produza massa crítica suficiente para a geração de cientistas e de um centro de excelência em pesquisas. Custa caro, sim, mas é o preço que se deve pagar para se obter boas informações e bom embasamento para a tomada de decisões no setor público e para se promover o desenvolvimento econômico e tecnológico avançado. Sem isto não se romperá nunca o circulo de dependência que ainda nos mantêm presos aos países e centros hegemônicos internacionais.
Se Tarso Genro pretende, como vem anunciando desde a campanha eleitoral e reafirmando desde sua posse como governador, retirar o Rio Grande do Sul da estagnação econômica e do atraso social e administrativo ao qual se mantêm atrelado há anos, é imprescindível que ele retome e aumente em muito os investimentos na FEE e nos seus técnicos, na FAPERGS e, inclusive, na UERGS.
O simbolismo da presença do governador na posse do presidente da FEE, por si só já alvissareiro, poderia ser reforçado com o estabelecimento de um calendário de aumento progressivo das transferências do orçamento público estadual para a ciência e tecnologia, definindo uma data para o cumprimento integral da determinação constitucional estadual para o setor.

quinta-feira, janeiro 06, 2011

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
06 de janeiro de 2011
Coluna das Quintas



ANA DE HOLLANDA,
ANA DO BRASIL

Por Enéas de Souza



Discurso de posse depende de quem é o ministro ou o secretário e depende do recado que quer passar, do público que pretende atingir. Sempre tive medo da escolha do Ministro da Cultura. Sempre vi alguma referência sobre a área, contudo sem a ênfase que acho que merecia. Claro, a Dilma é uma mulher culta; leiam – não me lembro qual, se peça ou se comentário sobre o teatro, um trabalho de Ivo Bender, onde ele agradece às considerações da Dilma. Mas, quando a gente está na política, a urgência dela, o conflito que é básico no jogo do político, leva muitas vezes as pessoas a se esquecerem que o ambiente como um todo é que compõe a carne onde estes fenômenos se dão. Esquecem do ambiente como política - e este ambiente é a cultura, a sociedade viva como um todo. A arena do combate dos partidos e das classes pode ser o espaço público, mas a casa ampla onde os acontecimentos se efetivam levam a moldura do enquadramento cultural.

Pois, conhecia pouco o trabalho de Ana de Hollanda. Ontem, li o seu discurso de posse. Tinham me antecipado: “é bom”. Não acreditei muito, demasiado ligado à dúvida permanente. Embora pela origem de Ana, pudesse sair alguma megasena. Sempre achei que o Sérgio Buarque e sua mulher – pianista -, pelos múltiplos relatos sobre a sua família, tinham criado seus filhos imersos num viveiro de cultura. A variedade da obra dele é imensa, para começar. Lembro de suas críticas de literatura, entre a análise aguda à observação e o ponto de vista surpreendente. Quem como eu fui aluno da Economia de Campinas não deixou de ler e discutir “Raízes do Brasil”, sutilmente citado por Ana. As narrativas sobre o casal dão conta de sua casa sempre cheia de intelectuais e artistas. Mas, essas imagens sempre ficaram lá no fundo. Com a nomeação de Ana irrompeu a espera da surpresa, uma espera meio distraída, um tanto assim num aguardo e numa esperança vaga; vamos ver o que o Ministério vai fazer.

O discurso de Ana foi uma peça que me entusiasmou. Ana de Hollanda, Ana do Brasil. Atravessa a malha do texto uma voz de entusiasmo, um tom de lucidez, uma vocação de amplitude da idéia de cultura, que acho que o Sérgio Buarque anotaria com satisfação de pai e de intelectual. Mais. Se a gente se põe a escutar a palavra que corre na retórica, há uma cadeia delas que são palavras pra frente, pro alto, para a saudação da cultura brasileira, para o horizonte de futuro que, parece, pode estar aí e pode estar chegando. Ana, quero mais deste esplendor da grama, destas flores, quero mais deste jardim! Falando à moda dos diálogos imaginários do Nelson Rodrigues digo: Olha só, você fala que o Ministério da Cultura deve estar organicamente conectado ao programa geral de governo. Perfeito. O seu sonho de ministra, posto no papel, lido, falado para o auditório, tem o desafio da ponta do desejo. Tratando daqueles que ascenderam recentemente, você diz: “Até aqui essas pessoas têm consumido mais eletrodomésticos – e menos cultura. É perfeitamente compreensível. Mas a balança não pode permanecer assim tão desequilibrada. Cabe a nós alargar o acesso da população aos bens simbólicos. Porque é necessário democratizar tanto a possibilidade de produzir quanto a de consumir”.

Logo a seguir você, ministra da Cultura, nos diz, comovente, esta coisa maravilhosa: “A mesma e forte chama da cultura e de criatividade do nosso povo deve cintilar, ainda, no solo da reforma urbana e no horizonte da afirmação soberana do Brasil no mundo. Arquitetura é cultura. Urbanismo é cultura. Na visão tradicional, arquitetura e urbanismo só são “cultura” quando a gente olha para trás, na hora de tombamentos e restaurações. Isso é importante, mas não é tudo. Arquitetura e urbanismo são cultura também, no momento presente de cada cidade e na criação de seus desenhos e possibilidades futuras. Hoje, diante da crise geral das cidades brasileiras, isso vale mais do que nunca”. Aqui, Ana, você deu show de bola. Faça uma enquete com os secretários de Cultura dos estados e dos municípios para ver quantos acham que arquitetura é cultura. Aqui você pode até encontrar uma meia dúzia. Mas, urbanismo, aí sim, é que nós vamos ver quem entrou para o primeiro time, quem sabe que o barro não é apenas esperança de escultura, mas que também o urbano é a cultura traçando uma letra do seu nome.

Acho que sempre fui contra setores isolados. Para mim cultura tem que existir ligado à educação. Que bela homenagem você fez a todos que pensam desta maneira, nos incorporando e nos fazendo pensar nesta figura de diabo satanazim de Darcy Ribeiro. Fazia tanto tempo que o passado não ressurgia assim com aquela elegância brasileira da memória, quase portuguesa da saudade, mas de uma saudade que é promessa de futuro, de reconquista de terras perdidas para os tempos e os sapatos falsamente floridos e modernos do neoliberalismo.

Parece incrível, mas é verdade, você diz simplesmente isso, e que muitos acham que não: “A criatividade brasileira chega a ser espantosa, desconcertante e se expressa em todos os cantos e campos do fazer artístico e cultural: no artesanato, na dança, no cinema, na música, na produção digital, na arquitetura, no design, na televisão, na literatura, na moda, no teatro, na festa”. Que diferença de um colega seu, um antecessor, que disse que o seu grande triunfo e do governo ao qual pertencia, era ter introduzido no Brasil a indústria cultural. O que você está propondo tem outro condimento, passa pela cor do artista plástico, pela câmera do diretor, pela encenação do teatrólogo, pelo projeto do arquiteto, pela coreografia da dança, pelo traço do urbanista, pelo artesão de bonecos, pelo cantador de cordéis, pela concepção do artista de fogos de artifício. “Este é o verdadeiro milagre brasileiro, que vai do Círio de Nazaré às colunatas do Palácio da Alvorada, passado por muitas cores e tambores”. E você se jogou muito bem como Diadorim nesta vereda imensa: “ao assumir o Ministério da Cultura, assumo também a missão de celebrar e fomentar os processos criativos brasileiros. Porque, acima de tudo, é tempo de olhar para quem está criando”. E, leitor inquieto, escute esse clarão portentoso: “o Ministério (da Cultura) tem de realmente começar a pensar o Brasil como um dos centros mais vistosos da nova cultura mundial”.

E você sabe, Ana; você tem a intuição do que fazer: “A partir deste momento em que assumo o Ministério da Cultura, cada artista, cada criadora ou criador brasileiro, pode ter a certeza de uma coisa: meu coração está batendo por eles. E o meu coração vai saber se traduzir em programas, projetos e ações”. Bravo, Ana! Um dia Domingos de Oliveira filmou “Todas as mulheres do mundo”. Se você fizer o que você diz nestas palavras, vamos ter de inventar outro Domingos para escrever a sua época como ministra. Pois, sua aposta é de partido alto. E sua finura: “Por tudo isso é que devo dizer que a atuação do Ministério da Cultura vai estar sempre profundamente ligada às raízes do Brasil”.

(Ah! meu caro Sérgio, você e sua mulher não esperavam por essa, esperavam?) .

Agora tem mais alguma coisa que quero salientar. Tenho escrito por aqui que a nossa sociedade substitui o pensar pelo calcular, o pensamento é um vagabundo atrevido, pois coloca em cheque qualquer ideologia, inclusive a neoliberal da eficiência. Você, Ana, fala no criar, você louva a criação, você comemora que seu corpo e sua mente e sua sensibilidade pulsam com o artista, você põe junto cultura e arte. E você fala em pensar, fazer e saber escutar. Mas, falar em pensar é retomar a correnteza mais funda do Ocidente – sem esquecer o pensar zombante de Machado de Assis. Você está com ele, ou ele está com você: “Mas, volto a dizer, e vou insistir sempre: com a criação no centro de tudo. A criação será o centro do sistema solar de nossas políticas culturais e do nosso fazer cotidiano. Por uma razão muito simples: não existe arte, sem artista.” Você está certa Ana, você liga erradicação da miséria, ascensão social com ascensão cultural. E nesse movimento, está aí o segredo das jóias: “o Ministério vai ceder a todas as tentações da criatividade cultural brasileira”.

Ana, Aleluia! O plano das concepções, das idéias, dos sentimentos está ótimo, agora, como você disse, começa a hora do fazer!

(PS para a presidenta. Dilma, maravilha! Você não pensa só em taxa de juros, dívida pública, inflação, PAC e superávit primário, como muitos acham. Você mostrou que ao colocar Ana de Holanda no Ministério pensa também em superávit de cultura. Sua ministra disse bem: “Um momento novo está amanhecendo na história do Brasil”.)

quinta-feira, dezembro 30, 2010

ECONOBRASIL em 2011: TUMBLOG, TWITTER e FACEBOOK (Obs: link para o Tumblog corrigido)

Aos amigos que acompanham o EconoBrasil:

Criamos um tumblog (http://www.econobrasil.tumblr.com/ ) para onde migrei as postagens desse nosso blog, que aos poucos deve começar a substituí-lo como plataforma prioritária de postagens para 2011. O Tumblr permite maior agilidade e interatividade do que o Blogspot e, principalmente, a possibilidade de "reblogar" postagens àqueles que seguem o EconoBrasil.  O processo ainda está em caráter experimental em termos de layout e informações, mas está lá para quem quiser dar uma conferida e sugerir elementos (estou aceitando a sugestão para um template, quem quiser colaborar, agradeço). Já existem postagens por lá que não estão sendo reproduzidas aqui, ou seja, vale começar a seguir o blog já na nova plataforma.

Também estamos ativando o Twitter @econobrasil, que já existia desde março , mas estava ali abandonado... Convido a todos para nos seguirem também nessa plataforma, muito dinâmica e bastante interativa.  Em breve estaremos disponibilizando uma página EconoBrasil no Facebook. 

Nosso objetivo com essa ampliação dos espaços de atuação na rede é atingir um número maior de leitores em 2011 e, principalmente, melhorar a interatividade com o público interessado nos temas aqui tratados. Ressalto mais uma vez que essas mudanças ainda estão longe de terem uma forma (principalmente visual) definitva, esperamos ter algo melhor formatado na primeira quinzena de janeiro próximo.

Um Feliz Ano Novo a todos, 2011 promete muito!


André Scherer e Enéas de Souza

terça-feira, dezembro 28, 2010

Brasil eleva imposto de importação de brinquedos; por André Scherer

Mais uma pedra que foi cantada na palestra de 24/11 na FEE... e tinha gente que duvidava do aumento do intervencionismo no Governo Dilma. 

Link relacionado: http://tiny.cc/j4pr2

segunda-feira, dezembro 27, 2010

Mais sobre as hipóteses de futuro; por André Scherer

Leiam esse artigo publicado no blog Viomundo e notem onde pode desembocar a mudança no capitalismo mundial e a crise da civilização. É uma realidade que ainda pode ser revertida, mas o espaço para isso está se estreitando. O que não significa sua inexistência.

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Um novo mundo é inevitável...; por André Scherer

Retomada econômica não ocorrerá calcada na "ordem antiga"; novo sistema será movido a "conhecimento" com foco em recursos humanos
ANDREA MURTA
DE WASHINGTON

O mundo atual não é "plano", como insiste a imagem de uma era digital que supostamente aboliu as fronteiras geográficas da economia.


Para o urbanista Richard Florida, o cenário moderno é mais irregular: cheio de "pontas", que concentram a atividade econômica e criativa, e "vales", cuja desigualdade traz ameaças à ordem política global como não se via há mais de um século.

Sem reconhecer essa realidade -e seus perigos-, o planeta vem seguindo um caminho para sair da crise que, para ele, é totalmente errado.

"Há um conceito introjetado de que é preciso ressuscitar a ordem antiga e uma resistência em admitir que essa crise representa seu colapso e o nascimento de um novo capitalismo criativo, movido a conhecimento, que vai exigir novas formas de crescimento e novas instituições sociais e econômicas", diz.

Bom, parece que aos poucos algumas "realidades" há muito preconizadas no EconoBrasil estão se tornando evidentes e começam a ganhar espaço na "grande mídia", como mostra essa matéria da FSP de hoje. Há uma enorme crise do capitalismo mundial e da civilização e isso começa a ser reconhecido. Um "mundo capitalista plano" nunca passou de um utopia em uma cabeça rasa. Claro que essa conversa de "capitalismo movido a conhecimento" é outra grande balela, como se a mudança tecnológica não estivesse desde SEMPRE no centro da acumulação capitalista, mas, traduzindo o que ele quer dizer sem o ranço ideológico-propagandístico, vai haver uma modificação que colocará no centro da ação organizada do Estado capitalista as empresas ligadas às novas tecnologias de informação e de comunicação, que "eles" interpretam como sendo, por si só, intensivas em conhecimento. E é essa a tese que permeia o artigo sobre as "hipóteses de futuro"  escrito pelo Enéas... quanto tempo vai levar para que essa realidade se estabeleça? Depende do tempo que vai levar para que o Estado, especialmente nos EUA, deixe de alocar a imensa maior parte dos recursos da sociedade na preservação dos interesses econômicos de um sistema financeiro falido. A nova rodem capitalista será "melhor" para a maior parte da população do que a velha ordem neoliberal-financeirizada? Não necessariamente, depende em muito da forma como se dará seu nascimento. Mas, essa nova ordem será CAPITALISTA, ou seja, não dá para colocar muita fé em seus traços de justiça social... 

terça-feira, dezembro 14, 2010

Entrevista ao Sul 21, por André Scherer

A mídia, mesmo a não oficial, anda preocupada  com o recrudescimento da inflação. Apesar do título não condizer com o corpo da matéria, acho que a entrevista ficou bem interessante e dá uma ideia do que passa pela cabeça do governo para 2011.

Link relacionado:
http://tinyurl.com/2c7a8b9

Mais sobre o lobby americano de olho no petróleo do pré-sal; por André Scherer

Confiram a excelente matéria da Natália Viana sobre os telegramas relacionados ao "interesse" das petroleiras norte-americanas pelo marco regulatório do pré-sal:

Do CartaCapital WikiLeaks
"A indústria de petróleo vai conseguir combater a lei do pré-sal?". Este é o título de um extenso telegrama enviado pelo consulado americano no Rio de Janeiro a Washington em 2 de dezembro do ano passado.
Como ele, outros cinco telegramas a serem publicados hoje pelo WikiLeaks mostram como a missão americana no Brasil tem acompanhado desde os primeiros rumores até a elaboração das regras para a exploração do pré-sal – e como fazem lobby pelos interesses das petroleiras.

Os documento revelam a insatisfação das pretroleiras com a lei de exploração aprovada pelo Congresso – em especial, com o fato de que a Petrobras será a única operadora – e como elas atuaram fortemente no Senado para mudar a lei.
"Eles são os profissionais e nós somos os amadores", teria afirmado Patrícia Padral, diretora da americana Chevron no Brasil, sobre a lei proposta pelo governo . Segundo ela, o tucano José Serra teria prometido mudar as regras se fosse eleito presidente.
Partilha
Pouco depois das primeiras propostas para a regulação do pré-sal, o consulado do Rio de Janeiro enviou um telegrama confidencial reunindo as impressões de executivos das petroleiras.
O telegrama de 27 de agosto de 2009 mostra que a exclusividade da Petrobras na exploração é vista como um "anátema" pela indústria.
É que, para o pré-sal, o governo brasileiro mudou o sistema de exploração. As exploradoras não terão, como em outros locais, a concessão dos campos de petróleo, sendo "donas" do petróleo por um deteminado tempo. No pré-sal elas terão que seguir um modelo de partilha, entregando pelo menos 30% à União. Além disso, a Petrobras será a operadora exclusiva.
Para a diretora de relações internacionais da Exxon Mobile, Carla Lacerda, a Petrobras terá todo controle sobre a compra de equipamentos, tecnologia e a contratação de pessoal, o que poderia prejudicar os fornecedores americanos.
A diretora de relações governamentais da Chevron, Patrícia Padral, vai mais longe, acusando o governo de fazer uso "político" do modelo.
Outra decisão bastante criticada é a criação da estatal PetroSal para administrar as novas reservas.
Fernando José Cunha, diretor-geral da Petrobras para África, Ásia, e Eurásia, chega a dizer ao representante econômico do consulado que a nova empresa iria acabar minando recursos da Petrobrás. O único fim, para ele, seria político: "O PMDB precisa da sua própria empresa".
Mesmo com tanta reclamação, o telegrama deixa claro que as empresas americanas querem ficar no Brasil para explorar o pré-sal.
Para a Exxon Mobile, o mercado brasileiro é atraente em especial considerando o acesso cada vez mais limitado às reservas no mundo todo.
"As regras sempre podem mudar depois", teria afirmado Patrícia Padral, da Chevron.
Combatendo a lei
Essa mesma a postura teria sido transmitida pelo pré-candidtao do PSDB a presidência José Serra, segundo outro telegrama enviado a Washington em 2 de dezembro de 2009.
O telegrama intitulado "A indústria de petróleo vai conseguir combater a lei do pré-sal?" detalha a estratégia de lobby adotada pela indústria no Congresso.
Uma das maiores preocupações dos americanos era que o modelo favorecesse a competição chinesa, já que a empresa estatal da China, poderia oferecer mais lucros ao governo brasileiro.
Patrícia Padral teria reclamado da apatia da oposição: "O PSDB não apareceu neste debate".
Segundo ela, José Serra se opunha à lei, mas não demonstrava "senso de urgência". "Deixa esses caras (do PT) fazerem o que eles quiserem. As rodadas de licitações não vão acontecer, e aí nós vamos mostrar a todos que o modelo antigo funcionava... E nós mudaremos de volta", teria dito o pré-candidato.
O jeito, segundo Padral, era se resignar. "Eles são os profissionais e nós somos os amadores", teria dito sobre o assessor da presidência Marco Aurelio Garcia e o secretário de comunicação Franklin Martins, grandes articuladores da legislação.
"Com a indústria resignada com a aprovação da lei na Câmara dos Deputados, a estratégia agora é recrutar novos parceiros para trabalhar no Senado, buscando aprovar emendas essenciais na lei, assim como empurrar a decisão para depois das eleições de outubro", conclui o telegrama do consulado.
Entre os parceiros, o OGX, do empresário Eike Batista, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e a Confederação Naiconal das Indústrias (CNI).
"Lacerda, da Exxon, disse que a indústria planeja fazer um 'marcação cerrada' no Senado, mas, em todos os casos, a Exxon também iria trabalhar por conta própria para fazer lobby".
Já a Chevron afirmou que o futuro embaixador, Thomas Shannon, poderia ter grande influência nesse debate – e pressionou pela confirmação do seu nome no Congresso americano.
"As empresas vão ter que ser cuidadosas", conclui o documento. "Diversos contatos no Congresso (brasileiro) avaliam que, ao falar mais abertamente sobre o assunto, as empresas de petróleo estrangeiras correm o risco de galvanizar o sentimento nacionalista sobre o tema e prejudicar a sua causa". 

Vale a pena acompanhar o excelente trabalho da Natália em  http://cartacapitalwikileaks.wordpress.com/ e também no blog http://operamundi.uol.com.br/

segunda-feira, dezembro 13, 2010

Desmoralizado... finalmente!; por André Scherer

Folha de S.Paulo - Petroleiras foram contra novas regras para pré-sal - 13/12/2010

Petroleiras foram contra novas regras para pré-sal

Segundo telegrama do WikiLeaks, Serra prometeu alterar regras caso vencesse

Assessor do tucano na campanha confirma que candidato era contrário à mudança do marco regulatório do petróleo

JULIANA ROCHA
DE BRASÍLIA
CATIA SEABRA
DE SÃO PAULO

"As petroleiras americanas não queriam a mudança no marco de exploração de petróleo no pré-sal que o governo aprovou no Congresso, e uma delas ouviu do então pré-candidato favorito à Presidência, José Serra (PSDB), a promessa de que a regra seria alterada caso ele vencesse.

É isso que mostra telegrama diplomático dos EUA, de dezembro de 2009, obtido pelo site WikiLeaks (www.wikileaks.ch). A organização teve acesso a milhares de despachos. A Folha e outras seis publicações têm acesso antecipado à divulgação no site do WikiLeaks.

"Deixa esses caras [do PT] fazerem o que eles quiserem. As rodadas de licitações não vão acontecer, e aí nós vamos mostrar a todos que o modelo antigo funcionava... E nós mudaremos de volta", disse Serra a Patricia Pradal, diretora de Desenvolvimento de Negócios e Relações com o Governo da petroleira norte-americana Chevron, segundo relato do telegrama.

Um dos responsáveis pelo programa de governo de Serra, o economista Geraldo Biasoto confirmou que a proposta do PSDB previa a reedição do modelo passado."

Não é necessário comentar nada, está tudo aí! Temos que notar como o Serra fala "nós" quando está conversando com os representantes estadunidenses. É o caso de colocar aquela camiseta: EU JÁ SABIA!

quinta-feira, dezembro 09, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: A nova guerra do ópio; por André Scherer

Em busca de redução de custos, corretoras dos EUA estão "ensinando" jovens chineses a especular na bolsa... É bem possível que tenham conseguido achar a solução para conter o avanço mundial da economia chinesa à médio prazo, hehehe...

Link relacionado:
http://www.nytimes.com/2010/12/10/business/global/10daytrade.html?_r=1&partner=rss&emc=rss

quarta-feira, dezembro 08, 2010

A nova dinâmica do capital financeiro, por Enéas de Souza

Pessoal, o Enéas está em férias, mas aí está para vocês o novo artigo dele, recém-publicado pela FEE. Trata-se de um excelente texto, inspirado na palestra que demos ainda em julho deste ano, já sob impacto do contágio europeu. No artigo, o Enéas explora hipóteses e condições para uma superação da crise mundial. 

Boa leitura.

sábado, dezembro 04, 2010

Hummm... Descobriram que os juros reais não devem aumentar no Governo Dilma; por André Scherer

Pois é, começou a cair a ficha... ao menos para os japoneses do banco Nomura, hehehe (ver último link abaixo do post) Um dia depois do anúncio de medidas que fogem ao cardápio utilizado nos últimos doze anos (frente à possibilidade de elevação da inflação, sobem os juros e, com isso, os gastos do governo e o rendimento dos aplicadores em renda fixa; o câmbio se aprecia e a inflação cai; em detrimento dos exportadores do país; como consequencia o déficit externo se aprofunda e vivemos felizes para sempre) já há vozes alertando para o que realmente isso significa: a determinação do futuro governo em reduzir as taxas reais de juros e em utilizar, para isso, vasto cardápio de intervenções na economia disponível.

Não há determinação "se a taxa de câmbio não valorizar, haverá inflação" - e aqui poderia citar tantas outras -  dado que as possibilidades de política econômica são... infinitas! Isso mesmo, infinitas, quando se entra no campo de intervenções pontuais... e o governo Dilma parece disposto a seguir esse caminho. Por exemplo, as metas de inflação passarão a ser definidas por um índice que exclua a variação dos preços voláteis e sazonais (a chamada core inflation, que orienta a política monetária do FED), muito influenciados pelo ultra-especulativo mercado internacional de commodities, dando um folguinha a mais para a manutenção ou queda dos juros nominais. Era óbvio que o novo governo faria qualquer coisa para derrubar as taxas de juros, as taxas de juros reais elevadas sepultam toda a estratégia neo-desnvolvimentista do governo Dilma (ver http://econobrasil.blogspot.com/2010/12/governo-dilma-ampliacao-do.html ).

Os rentistas que se beneficiaram dos juros reais elevadíssimos nos últimos 30 anos não vão gostar nem um pouquinho da novidade. Vem chumbo grosso por aí, pois agora vai começar a tocar no bolso e é aí que o bicho pega.

Links relacionados:



sexta-feira, dezembro 03, 2010

Governo Dilma: ampliação do intervencionismo para acomodar uma política de crescimento; por André Scherer

No último dia 24 de novembro fizemos um painel sobre economia brasileira bastante interessante no auditório da FEE. Quem lá esteve, me ouviu dizer, entre outras coisas, que há um projeto de unificar a política econômica brasileira sem o contrapeso ortodoxo que representava o Banco Central de Meirelles. E, que para impedir tanto o aumento da inflação quanto um desequilíbrio fatal nas contas externas, o governo lançaria mão tanto do protecionismo seletivo (aumentando as tarifas de importação de alguns produtos) quanto de medidas de intervenção discricionária no mercado de crédito. Isso evitaria uma expansão acelerada do consumo, especialmente de bens duráveis, sem necessidade de elevações abruptas dos juros (ao contrário, os juros reais devem cair no próximo governo, essa é a base da política que se vislumbra). Isso foi dito na FEE como detalhamento ao último slide da palestra.

Dez dias depois, a coisa já está em pleno andamento. O que são as medidas que dificultam a possibilidade de refinanciamento dos saldos de cartões de crédito e a medida de hoje, de limitar o prazo de financiamento dos automóveis, senão medidas de limitação discricionária do crédito? E a medida de elevar o compulsório dos bancos, não se trata de restringir  e encarecer o crédito sem elevar as taxas de juros que o governo paga para rolar a dívida interna?  

Soube antes quem estava na FEE dia 24. E, posso garantir, não era nenhuma informação privilegiada de fontes governamentais ou bola de cristal. Essas medidas são só as primeiras, o andar da carruagem irá exigir muito mais do governo. Vai funcionar? Depende, em grande parte, do cenário externo. Como foi descrito na mesma apresentação.

quinta-feira, dezembro 02, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
02 de dezembro de 2010
COLUNA DAS QUINTAS


O DOMINÓ EUROPEU
Por Enéas de Souza



Incerteza é uma palavra usada muito pelos economistas. E tudo porque a economia capitalista financeira tem, no seu bojo, um verme que se chama especulação, que atende em certos momentos pelo título de bolha financeira. Ou seja, a bolha é um elemento do sistema que tem uma peculiaridade contundente: a certa altura do panorama, explode. E o pior é que quando ela faz uma lambança, a economia não se conserta assim no mais. É preciso um Estado forte para dar um jeito nesta história. Mas, os Estados não são iguais, uns são robustos, outros nem tanto, e terceiros, sempre levam a pior, porque miúdos e frágeis. E quando se trata de Europa, a diferença entre eles é notável, afetando, sobretudo, os menores, os mais atiçados. Acertou quem apontou Grécia e Irlanda. Mas podem estar certos também aqueles que falaram em Portugal, Espanha e Itália. E até quem indicou a poderosa Inglaterra. Tudo por quê? Porque, as finanças desabaram em crise sistêmica. No caso dos Estados Unidos, não o salvou, como se dizia antigamente, o Rhum Creosotado, salvou-o o FED, o Banco Central americano. Mas, assim mesmo, elas estão convalescentes. E a convalescença é um estado que requer cuidados.

Ora, este estado só ocorreu depois de bons e admiráveis resultados. Era um sistema, centrado em títulos securitizados, uns garantindo outros, ativos podres que ninguém sabia, assegurando bons. Até que puxaram o tapete deles e o vulcão começou a expelir títulos tóxicos, verdadeiras bombas caindo no bolso dos aplicadores, dos investidores e de bancos e instituições financeiras não-bancárias. História conhecida, falada desde 2007. Também é história contada, catalogada e dolorosa, aquela do Estado americano que botou uma grana fabulosa para salvar os bancos. Tudo isso é conhecido. Ou seja, aqui o tempo de perder já deu o seu primeiro e profundo passo. Mas, o perder não foi só para os bancos, raspou também as contas correntes da população. Os trabalhadores formais e informais perderam rendimentos, perderam créditos, perderam casas, perderam empregos. E o Obama, que foi eleito nessa onda, acabou ficando totalmente cercado pelas finanças, pelos republicanos, pelo Congresso, pelos lobbies. Por toda uma fauna da direita, todos liberais, agora profundamente conservadores. Isto que Obama tinha a estratégia certa: salvar os bancos, investir na produção, tratar de resolver as questões energéticas, bloquear as guerras, saindo da mais dura, o Iraque, e chegar para uma mais leve, o Afeganistão. Mas, Obama tem levado uma surra do Tea Party, dos políticos de ambos os partidos e de grande parte da população. Veremos se ele consegue a solução do estilo Lula: “I love this guy!”. E por quê? Porque Lula deu tanto o pulo do gato no primeiro mandato, como o pulo da terceira eleição. Obama tem que ganhar o segundo salto. Será que depois deste cerco, ele vai conseguir o tempo de ganhar?

E os bancos, que receberam grana do Bush e do Obama, querem voltar a ganhar mais grana, só que tanto do governo como do mercado. E jogam difamando Obama. Mas, quem está perdendo são os americanos. Vejam como, geopoliticamente, têm que fazer acordo com Moscou, ensaiam avanços na Otan, tentam atuar no Atlântico Sul, não conseguem convencer o mundo de que a China é a culpada pela crise exportadora americana e pelo fracasso da sua indústria. Mas, o pior, a sua aliada, que Bush desprezava, a Europa, entrou em pane. Tudo porque – e o André Scherer lembrou, outro dia, muito bem – estamos no “Merkel Crash”. A Europa é uma febre. Os Estados da região, de um modo geral, estão endividados e não há possibilidades de salva-los, nem via o Fundo de Estabilidade Européia nem com o FMI. Ontem, conjeturávamos André e eu, a possibilidade da China poder salvar parte da Europa, seja via FMI, seja por outro tipo de solução. O que está se tornando patente é uma corrida de ladeira abaixo dos europeus. A razão é a incapacidade de resolver a insolvência (!) dos Estados, a incapacidade de fazer uma unidade fiscal e uma unidade política (!). Isso que era uma esperança em outros tempos, agora fica cada vez mais impensável. Parece que, claro, os capitais financeiros alemães e franceses ganharam com o processo, à custa dos Estados, da população, à custa dos funcionários públicos, à custa da queda de arrecadação dos países, à custa de acréscimo de endividamentos, que não resultarão em nenhuma melhora para as nações endividadas. Por isso, muitos falam da solução Argentina: não pagar a dívida, romper com o financiamento dos capitais privados estrangeiros. Só que aí tem um problema: a moeda. Enfim, o furúnculo está estourando.

Bela questão, esta, a monetária. O dólar vai se derretendo e o euro, às vésperas da derrapagem. E a China, grande vencedora neste momento, não tem moeda de curso internacional – porque o yuan é uma moeda administrada. Portanto, não é capaz de ser a moeda de troca, capaz de ser medida de valores e, sobretudo, impossível neste momento, de ser moeda de reserva de valor do mundo. Se do ponto de vista produtivo e do ponto vista geopolítico, este é um tempo de ganhos para a China, o mesmo não acontece com a sua moeda. Então, o sol não está a aparecer na crise mundial, a manhã e a aurora não estão à vista, temos dinamites espalhados pelos Estados Unidos e pela Europa. O que não quer dizer que estes artefatos não vão chegar à China, à Índia e ao Brasil. Tudo é uma questão de encadeamento e dos Estados usarem suas portas corta-fogos. O Brasil está tentando como a China valorizar o mercado interno, mas está pensando também em controle de capitais, está pensando em fazer políticas contra-cíclicas – agora que o ciclo no país reaqueceu e a que a inflação pode estar ali na esquina. Então, em 2011, o tempo vai se acelerar.

Olho, em primeiro lugar, no dominó europeu. As finanças estão especulando contra os Estados e querem o seu sangue; elas parecem vampiros açulados, tudo parente do Drácula. Os Estados estão fazendo a coisa mais burra possível, programas de austeridade. Mas é preciso entender: isto é burrice do ponto de vista da nação, das camadas sociais, de uma economia política dos paises, porque uma economia política não se gere como uma economia doméstica. A questão é apenas apetitosa do ponto de vista exclusivo das finanças. Elas estão pensando só no seu ganho, no seu tempo de ganhar. E elas agora já querem agir como queriam fazer com a Argentina – que a política econômica dos Estados europeus em crise seja gerida por comitês de credores, o que significa transformar as receitas estatais em pagamentos de juros. E a população que se vire; quem mandou os seus Estados se endividarem com os bancos e caírem nas notações das agências de ratings? Como se fosse a população que tivessem feito as dívidas e os déficits correntes! É óbvio que foram os políticos gananciosos, corruptos – e muitos pró-finanças – que tomaram essas decisões. Então, o grande perigo do momento é que os investidores queiram antecipar os resultados de suas aplicações, saindo e abandonando os títulos desses países. Ou seja, como resultado dessa feijoada e dessas caipirinhas e das azeitonas malditas, não fica em perigo apenas a Grécia, a Irlanda, Portugal, Espanha, Itália, Bélgica e a Inglaterra; mas também o euro, e, quem sabe, a Europa, e não apenas a Comunidade Européia. O diabo pode inventar todos os cenários desastrosos possíveis. Trichet, o presidente do Banco Central Europeu, garante que a Irlanda e a Grécia estão solventes, mas o mercado, em dúvida – satanazim astuto, como diria Guimarães Rosa – não acredita. Esperemos, lembrando ainda o romancista brasileiro, que Deus venha ao sertão europeu, armado. Armado de políticas econômicas inventivas, de concepções financeiras saudáveis para todos e, sobretudo, de bom senso, coisa que não é, certamente, a mercadoria mais disponível no mundo.





(p.s. – Entro em férias, volto em 2011. O artigo pode ter um tom de esperança pessimista, mas, para os amigos e leitores, ele se envolve com uma energia ambicionando felicidades. Até lá).

quarta-feira, dezembro 01, 2010

Sarkozy: Herói da América; por André Scherer

Que esse cara é um imbecil proto-fascista todo mundo sabe faz anos... A fotinho dele com o Bush que ilustra a reportagem do Monde vale mais do que mil vazamentos.E os comentários vazados pelo WikiLeaks comprovam. Segundo os diplomatas estadunidenses, o homem é "visceralmente pró-americano". 

A França decadente sob Sarkozy? Pleonasmo.

Clique aqui para ler a matéria do Monde sobre Sarkozy e o WikiLeaks (em francês).

terça-feira, novembro 30, 2010

Liberdade... Assange perseguido pela Interpol: crimes sexuais; por André Scherer

Um dia após divulgar um "vazamento" de documentos comprometendo um "grande banco" dos EUA (em outra entrevista ele confirma ser o BofA), o fundador do WikiLeaks passa a ser perseguido internacionalmente pela Interpol. Crimes sexuais. Alguém acredita?

segunda-feira, novembro 29, 2010

China constrói hotel em seis dias; por André Scherer

Sei que esse vídeo já está um pouco antigo (está já faz quase um mês na Internet), mas me parece espetacular a construção de um hotel de quinze andares em seis dias... ainda mais quando se leva 6 anos para duplicar uma estrada no Brasil.

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Vazamentos financeiros ameaçam Wall Street; por André Scherer

WIKILEAKS... Pouca gente entendeu a real importância do que está ocorrendo. Prometo aos leitores do ECONOBRASIL  uma grande matéria interpretativa sobre o tema. E sobre o que o ativismo de Assange representa, ao meu modo de ver...

Vocês sabem que o site WikiLeaks vazou para todo o mundo as "opiniões" da diplomacia norte-americana sobre os mais diversos temas e também sobre os principais líderes mundiais... muitos deles haviam dado informações aos EUA sob compromisso de sigilo. Bem, Assange, o fundador e porta-voz do site, agora promete um vazamento espetacular com documentos "leakados" de um ou dois grandes bancos norte-americanos. Tudo isso para o início de 2011.

 Assange gosta mesmo de uma boa encrenca, quero ver se ele resiste à força conjunta do Pentágono e Wall Street. Vale a pena dar uma lida no que ele pensa, no que faz e por que faz.

Link relacionado:

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Vencimento dos títulos espanhóis... hummmmm; por André Scherer

Hummmm... a maturidade dos títulos espanhóis não ajuda em nada a conter o contágio europeu. Que aliás, com  toda a justiça, já tem nome devido: Merkel Crash.

Link relacionado:
http://tiny.cc/evr11

sábado, novembro 27, 2010

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Europa em contágio fatal?

Três artigos interessantes sobre a possibilidade de contágio das grandes economias europeias dados os sucessivos resgates das economias menores. aliás (e aí está o problema), o estoque de pequenas economias em crise está acabando...

Comentário de um professor alemão recolhido por Evans-Pritchard, do Telegraph: "não se encontra um cofre  bancário disponível  na Alemanha inteira porque eles já estão cheios de ouro e de prata". Preocupante. 

Artigos relacionados:

quinta-feira, novembro 25, 2010

HOJE - Palestra em Chapecó

IX Ciclo de Debates sobre o Desenvolvimento Regional - UNOCHAPECO

Palestra: "Conjuntura Internacional: Oportunidades e Desafios para o Brasil", com André Scherer

Hoje, 25/11 as 19:30 hs.

Convidamos aos leitores do EconoBrasil no oeste catarinense a comparecerem ao evento.

Painel na FEE

O painel de ontem na FEE sobre a economia brasileira no governo Dilma  foi tema de reportagem do Sul21 hoje. 

CRÍTICA FINANCEIRA MUNDIAL
25 de novembro de 2010
COLUNA DAS QUINTAS



A DANÇA RITUAL
DA UNIDADE ECONÔMICA

Por Enéas de Souza



A unidade de política econômica parece ser a grande conquista do governo Dilma. E ela não se fez de rogada. Escolheu uma equipe que vai seguir as suas determinações. Naturalmente, que o ministro da Fazenda tem autonomia para fazer a política determinada pela presidente, como também o ministra do Planejamento tem autonomia para seguir as orientações da Dilma. É o que o mercado financeiro mais esperava; confirmou-se, o presidente do Banco Central também terá a sua autonomia. Ou seja, tem todos autonomia. E são todos auxiliares da presidente do Brasil. Esta talvez seja uma linguagem que os mercados não entendam. Autonomia após as diretrizes.. Felizmente, as instituições financeiras ficaram contentes. O problema da autonomia do Banco Central é importante porque ela é diferente de sua independência. Esta é uma coisa que passa pela incapacidade que tem o presidente da República, depois de escolhido o presidente da Autoridade Monetária, de retirá-lo do jogo. Escolheu, não tira mais. O cara tem mandato definido por lei especial. E a independência significa que o Banco Central não tem que estar alinhado com o Executivo, com o país. O Banco Central escolhe as políticas, as metas, a execução e o Estado que se vire para arrumar os seus gastos, os seus títulos, a sua dívida, a sua política de desenvolvimento, etc. Este modelo é o ideal para as finanças. Por quê? Porque ele não segue a postura estratégica da nação, segue e faz a política dos capitais, dos mercados. Parece que funciona assim: é como se estudantes definissem os temas dos cursos, os horários e a periodicidade das aulas, dos estudos e as questões que vão cair na prova. O professor que se vire, a partir daí pode fazer o que quiser.

Mas, não é disso que queremos falar. O nosso negócio é a unidade do governo, a unidade da economia. Quando o neoliberalismo dominava na época de Fernando Henrique o esquema era o seguinte: O comando do Executivo estava dividido entre o presidente da República de um lado, a Fazenda e o Banco Central de outro. Num segundo momento, sobretudo depois da intervenção do FMI, a cisão foi absolutamente crítica: de um lado, FHC, do outro, a Fazenda e o Banco Central, mas agora com um lado picante, o Armínio Fraga, que dirigia este último, passou a mandar mais do que Pedro Malan e até mesmo que o FHC. Claro que esta linha de fissura era sutil, pois quando tocava assuntos propriamente políticos, seguramente, o Fernando comandava, mas quando se tratava de assunto econômico, o presidente não palpitava. Um, que ele não sabia nada de economia; dois, que o poder estava com os bancos – e logo com o Armínio Fraga.

Com o Lula o jogo foi pouco assim: o Palloci parecia vigorar imperiosamente. Mas, era o Meirelles, então, quem mandava mais que todos. Como diria o Tom Zé, não se podia ofender o Meirelles, porque o mercado não gostava, e obviamente, Pallocci e Lula seguiam o dito. O Pallocci, jeitoso, manêro, sem ofender o Lula, até tava mais com o Meirelles. Diante de alguns clamores do PT, da esquerda, o Lula começou a se aconselhar com economistas; e o Belluzzo e o Delfim insinuaram questões importantes. Lula tinha dúvidas. Até que Palloci, o “médico que sabia mais economia que os economistas”, deu um passo em falso, na sua dança ritual, e foi substituído por Guido Mantega. Pois, Mantega foi a surpresa. Foi um bilhete premiado. Lula foi ver, olhou bem, no princípio Mantega fez uma ou outra bravata, mas logo, logo, se ajeitou e se ajustou; e criou uma primeira cisão forte entre Fazenda e Banco Central. Guido era do lado de cá, era desenvolvimentista. E, embora com alguns arrufos desafetivos, Mantega e Meirelles acabaram encontrando uma linha de convivência e de conduta. Mas, a imbatível combinação Banco Central/Fazenda tinha um trincado na sua taça. O mundo mostrava sinal de mudanças, a fruta tinha amadurecido.

A trajetória vitoriosa de Meirelles - soberbo imperador da economia do Brasil; até Ministro chegou a ser, um posto que no tempo do Delfim era um cargo subordinado - tornou-se por longo tempo o comandante geral da economia, dirigindo medidas, ações, normas, posicionando o Banco Central, o COPOM e a Fazenda, para uma política monetária que favorecia fortemente o modelo financeiro de acumulação, originado aureamente no governo de FHC. Tempos inesquecíveis de Meirelles no Lula I. Depois da queda do Pallocci - o Hipócrates economista - os tempos mudaram. E com a entrada da Dilma na Casa Civil, servindo como o centro de planejamento e aliada inconsutil de Mantega, aconteceu uma transformação na composição do poder econômico na cúpula do governo. O sistema equilibrou. E lentamente, a força foi deixando a praia de Meirelles. Tanto o equilíbrio das contas do governo, com o desempenho de Mantega; como o recomeço do desenvolvimento e o retorno do investimento com a ação firme da Dilma; tanto os resultados da diplomacia de Celso Amorim como os avanços do conhecimento do Estado, do mundo e da economia, por parte do presidente Lula, fizeram com que o balão altivo do Meirelles se tornasse cativo. Acresce a esta química, uma mistura inusitada dos meandros e dos labirintos do fracasso neoliberal no mundo e da recuperação desenvolvimentista, inclusive na China, Índia e que passaram pelo Brasil, foi levando as águas do rio à inevitabilidade da saída de Meirelles. O mundo liberal estava cantando aquela música glorificada por Nora Ney: “Meu mundo caiu”. O tombo sem saudades das finanças, sobretudo dos Estados Unidos; o aumento da taxa de investimento e a busca de crescimento do PIB no Brasil - postulados pela Dilma e também por Mantega - trouxeram um velejar a plenos pulmões para a expansão da economia produtiva. As finanças estavam sendo senão batidas; no mínimo, postas nas cordas com um lutador de boxe acuado. Mas, não esqueçamos: batidas, mas não derrotadas.

Pois, o que está fazendo agora, Dilma? Está tentando dar unidade ao comando da política econômica, que por ser política tem a orientação da presidência da República, e, por ser econômica, deve ser seguida pelos ministros da área. Ou seja, cada um tem individualidade e tem autonomia, cada um deve ter brilho e inteligência pessoal, mas sob as diretrizes do governo e da presidente da República. Portanto, todos agem solidariamente, de modo técnico e político, dentro de uma estratégia e dentro de um projeto de nação. O Estado serve para isso: para organizar e executar uma política nacional. E obviamente, o Estado, via a presidência da República, desenvolve sob este conteúdo uma política econômica global. Pois, além da política monetária, financeira, cambial e fiscal – únicas fundamentais na política econômica neoliberal – constrói-se também uma política industrial, uma política agrícola, uma política de rendas, uma política de comércio exterior, uma política social, uma política tecnológica, etc., etc., etc. Ou seja, o presidente da República trabalha a unidade do Estado no guarda chuva do campo da política e do projeto nacional. Por isso, a unidade da equipe econômica é da maior importância, porque um Estado Desenvolvimentista tem que ter uma unidade de planejamento, de ação e de trajetória. E quem arbitra, obviamente, os conflitos naturais numa equipe do governo é o presidente da República, ouvido os ministros em sua autonomia e complementariedade operativa. Mas, é preciso dizer, e ser claro, nem todos os ministros são iguais, eles agem e são apreciados na sua hierarquia dentro da unidade do governo. Então é bom não confundir hierarquia e autonomia com independência, com o fazer o que bem quiser, com o fazer o que o mercado deseja. O que a Dilma está nos dizendo com as escolhas atuais é isto; há unidade, há hierarquia, há autonomia, mas o ponto principal é a unidade de comando que fica na presidência da República. E o ponto de sustentação de tudo está na política e no projeto nacional. Adeus Meirelles, o tempo do neoliberalismo dominante terminou, começou o do neodesenvolvimentismo. Que este - tenha longa vida!


segunda-feira, novembro 22, 2010

Preconceito em alta no Brasil

Muito interessante o resultado da pesquisa realizada pela Fundação Perseu Abramo sobre a percepção dos brasileiros frente aos grupos sociais menos favorecidos. É raiva e ódio para todo lado.

 De minha parte, vale a expressão "eu odeio a quem odeia". Gente chata, se importando com os outros que nunca fizeram nada para eles além de existir e serem diferentes.


CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Irlanda obrigada a pedir auxílio financeiro

Era inevitável, dada a deterioração da situação bancária com a aceleração da fuga de capitais: Irlanda pede ajuda ao European Financial Stability Facility (EFSF) e ao FMI. O montante do resgate é estimado em torno dos 100 bilhões de euros. Ainda se desconhecem os detalhes da operação. 

Agora é esperar para ver se, ao menos momentaneamente, Portugal e Espanha respirarão novamente sem aparelhos.

Link relacionado:

domingo, novembro 21, 2010

Palestra na FEE

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL: Bancos irlandeses em risco, afirma mídia inglesa.

O jogo pesado continua: o mundo tentando empurrar a conta para o povo irlandês a partir de um plano de resgate do seu sistema financeiro e o governo irlandês, por motivos políticos óbvios, tentando obter termos que não retirem completamente a autonomia econômica do país para assinar esse acordo. 

Mas aí, o "mercado" tem a força: os aplicadores estrangeiros estão retirando seus "investimentos" do sistema bancário irlandês, o que pressiona para que a solução seja adotada o mais rapidamente possível, o que joga em favor das propostas oficiais. O vazamento de notícias a esse respeito desde a sexta-feira é apenas mais uma amostra do quão os bancos alemães e ingleses estão empenhados em abocanhar os recursos do Banco Central Europeu e do FMI o quanto antes, deixando a conta para a população irlandesa pagar pelas próximas décadas. E o governo irlandês está comprometido com uma garantia sobre depósitos bancários de 440 bilhões de euros concedida para acalmar a ameaça de corrida bancária ocorrida em 2008. É uma garantia muito acima das possibilidades do país. Já se sabia disso em 2008...

Veja a notícia alarmista no Daily Mail: