quinta-feira, junho 16, 2011

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
16 de junho de 2011
Coluna das quintas


DUELO DE TITÃS –
ESTADOS UNIDOS E CHINA
Por Enéas de Souza


Estamos numa época de transição, a economia americana, em declínio, está e vai se confrontar, cada vez mais, politicamente com a China, cuja economia produtiva e financeira se desenvolve em viagem fascinante. E o que está fazendo a diferença nesse momento no conflito é a posição dos dois Estados face à estratégia para definir a sociedade econômica de cada nação, para definir as formas de encarar o confronto social, para definir o futuro do capitalismo. De um lado, temos um Estado frágil na condução da política econômica, mas extremamente benevolente para os capitais, o Estado americano, e, de outro, um Estado que comanda e dirige a economia com características desenvolvimentistas, o Estado chinês. Qual a diferença estratégica dos dois?

A DANÇA DA MORTE E O CASSINO AMERICANO

No primeiro caso, nós temos um país, os Estados Unidos, cuja estratégia é continuar sendo a nação mais desenvolvida do mundo. Só que essa estratégia começa com duas realidades. A primeira: politicamente, para manter a posição de vanguarda, o país assume o estatuto de potência dominante, agressiva e invasora no plano militar, como, por exemplo, ocorreu na guerra do Iraque. Nela, o que sobressai é a amplitude da ação bélica para atingir a sua política energética, cujo objetivo, ouro negro em ebulição, é conservar intactas as suas reservas e buscar petróleo barato no exterior. Ora, o Estado americano proclamou sua unilateralidade com George Bush e praticou a dança da morte, como diria Pieter Brueghel, no Oriente Médio. Mas, de outro lado, a segunda realidade: esse Estado desarticulou da sua estratégia uma política econômica global, que tivesse objetivos de política industrial, de política agrícola, de política tecnológica, de política de salário, etc. Restou apenas um apoio genérico às finanças, deixando as instituições financeiras livres para fazerem a sua própria política. Jogou fora essa política global como se fosse uma viatura descabelada, tornou os seus movimentos erráticos, com espasmos originados dos capitais singulares. Dito de outra forma, foi a soma de decisões micro que constituiu a política macroeconômica.

Com isso, abdicaram os norte-americanos de um projeto de desenvolvimento produtivo renovado tecnologicamente, para centrar todas as suas armas numa economia financeira. Depois de viverem as delícias de um cassino – todos especulavam desvairadamente – levaram um tombo por causa dessa insanidade econômica. Estiveram no paraíso e caíram no labirinto da crise. E para chegar a tal situação, alimentaram um processo de desregulamentação na área financeira que favoreceu com intensidade a árvore das finanças, mas que terminou precipitando a economia para o risco sistêmico e, portanto, para a sua explosão. Uma desbragada vertigem sem controle. Ou seja, o Estado americano fez uma cisão na sua estratégia de manter a hegemonia mundial. De um lado, jogou fortemente numa ação militar e de outro lado, permitiu a expansão de um modelo de acumulação financeira. A riqueza fictícia das finanças seguiu numa trajetória, a ficção da guerra ao terror noutra. Aquela levou a desconfiança do valor dos títulos financeiros e essa trouxe o combate doloroso do equívoco estratégico. Foram processos distintos, mas, no fim, a busca da riqueza petrolífera pela guerra, escondida na expansão da “democracia e livre mercado”, capotou tanto quanto a tremenda paralisia do sistema financeiro.

O Estado americano hoje está em face de uma decrepitude desenvolta. De um lado, as finanças, abatidas no galope econômico, não cederam politicamente, ganharam pacotes de salvação, linhas de crédito e não aceitaram uma regulação de suas atividades. De outro, o fracasso da estratégia de Bush e Cheney para o mundo, concentrada exemplarmente no Iraque, tem que sofrer mudanças substanciais, seja reformulando a política do Oriente Médio, seja se posicionando militar e economicamente contra a China, inclusive aliando-se à Rússia, seja buscando chegar-se ao petróleo brasileiro e recuperar a sua influência na América Latina, seja produzindo uma nova relação com a Europa, etc. O grave problema é que os Estados Unidos não têm hoje uma estratégia econômica de longo prazo. Sua progressiva ação na direção de um padrão tecnológico distinto do atual está totalmente impedida por falta de uma política de desenvolvimento econômico, pela recusa das finanças em financiar o setor produtivo, pela concentração total dessas atividades no curto prazo. Vendo isso é que Obama está tentando emplacar uma espécie de Banco Nacional de Desenvolvimento (uma grande novidade) para fazer face à falta de crédito para a produção e para a renovação da tecnologia. Só que isso tem que passar pelo Congresso, tambor das contradições sociais, avesso a qualquer aumento de dívida, seja com que finalidade for. Percebe-se com clareza que o Estado americano é um ser amarrado, atado pelas finanças, pela política imediatista, pela política bélica, pela derrota na guerra iraquiana. A institucionalização neoliberal fracassou, o defunto morreu, mas não foi enterrado, está ali no caixão. Acho que é fatal, mais dia, menos dia, o Estado americano vai ter que reagir à presença avassaladora da China, alterando inclusive o estatuto do seu Estado. Ele vai ter que ter nova estratégia e uma nova posição na política econômica que não se reduza ao agora, ao já das finanças. Para ultrapassar o nível atual de fragmentação de seu projeto de continuar como a maior potência do planeta, os Estados Unidos precisam construir o que lhe falta, a unidade do Estado, que o sistema financeiro e a ação militar em desarmonia impediram que tal acontecesse.

O LONGO PRAZO FALA CHINÊS?

A China, por sua vez, está na liderança da organização do Estado pois, com modelo de um Estado desenvolvimentista, ela tem uma estratégia, não explícita, mas nem por isso secreta, de consagrar-se num futuro não muito distante como a primeira potência do mundo. Portanto, uma estratégia política, que se desdobra numa política econômica. Essa, desde logo, é global, pois tem um objetivo econômico muito claro de superar a defasagem que a economia chinesa tem da economia americana. E a China vai com passos de longo alcance construindo um projeto produtivo, onde, antes de tudo, labora em todos os setores: bens de capital, bens de consumo duráveis, bens de consumo não duráveis, visando ser a locomotiva industrial do mundo. E para tal, busca aquilo que lhe falta, matérias primas e alimentos na Ásia e na América Latina e África, tecnologia nos Estados Unidos, Japão e Europa. Trabalha ardorosamente para solucionar seus problemas energéticos. Mas, nos próximos anos não terá a possibilidade de alcançar as condições de alterar o padrão de produção e o seu grau tecnológico. Só que, se os Estados Unidos bobearem, dentro de alguns anos, a China, no correr de seu desenvolvimento, estará na rota da expansão das áreas de tecnologias de comunicação e informação. Toda a questão nesse quesito é a possibilidade ou não dos chineses encurtarem ou suprimirem a vantagem americana na estrutura tecnológica.

Assim, o que importa nesse panorama é a idéia de que a China tem dado um salto na velocidade do avanço na competição entre os dois países, porque o seu Estado tem um acentuado domínio da estratégia política e econômica. A China tem uma unidade no Estado e, por conseqüência, a política dirige a economia. E é por isso que ela, a China, pode, contra a tirania do mercado, controlar a taxa de câmbio e os fluxos de capitais. É por isso que ela pode trabalhar uma política de exportação e de importação. É por isso que ela pode desenvolver uma política coerente de reservas monetárias. É por isso que pode construir uma política de investimentos na seqüência dos ditames de sua organização macroeconômica. E, não se pode esquecer, que mesmo diante da crise de 2007, com efeitos profundos sobre o comércio externo e as reservas e suas aplicações financeiras no exterior, a China pôde introduzir modificações na sua estrutura econômica reorganizando o seu próprio espaço produtivo e articulando a Ásia, a África e a América Latina. Tudo em função de uma estratégia e de uma política de desenvolvimento garantida pela unidade do Estado. Há todo um jardim para ser florido. Claro, as mudanças ocorridas no contexto da crise causaram algumas inquietações sociais no país, mas o governo teve força para solucionar essas turbulências, em função de uma saída ordenada da derrapagem cíclica. A razão, não há dúvida, é só uma: a unidade do Estado.

O Estado chinês tem o controle da situação nacional, dos seus objetivos, dos seus recursos e dos seus limites. Tem bem claro que não pode enfrentar os Estados Unidos no campo militar, no campo político, no campo cultural, no campo tecnológico, mas no campo da indústria, da organização do Estado, do planejamento, da coesão estratégica, ele tem um futuro prontamente desafiador. E, sobretudo, a China tem claro que pode por em questão a moeda americana e que pode, no médio prazo, construir uma moeda chinesa, rival do dólar e do euro. Ao mesmo tempo, ela sabe do seu fantástico potencial de mercado e das condições de alcançar transformações tecnológicas profundas no longo prazo, por causa do seu desenvolvimento educacional. E ela tem expectativas de obter padrões ambientais razoáveis no médio prazo, na procura de uma sociedade com melhores condições de vida que no presente. E a razão essencial de toda essa ambição está na organização de um Estado unitário. E ao dinamizar o seu capitalismo financeiro estatal – que atenta tanto para o crédito interno à produção, como para a concorrência financeira internacional – a China tem vantagens dinâmicas na sua elasticidade econômica, quanto na concorrência política entre nações, liderando o bloco dos emergentes. E até se destacando dele, para se posicionar como o futuro rival dos americanos.

O FUTURO DO CONFLITO PASSA POR ONDE?

Se o leitor seguiu o raciocínio proposto por este artigo, ele é capaz de construir o filme dos próximos anos, o duelo de Titãs. E nesse duelo, nós vamos ter a disputa da hegemonia no interior do capitalismo. É preciso reconhecer que o capitalismo não pode viver sem Estado. E é exatamente isso que já tem a China, um Estado que tem uma coerência e unidade entre a estratégia e a política econômica. Porém, no campo político a China vai ter que ter muita habilidade para evitar um confronto direto com os Estados Unidos, cuja superioridade militar é indiscutível. Só que, em função da unidade do Estado, a China leva uma vantagem notável, porque a sua sociedade não está paralisada, está em processo dinâmico. E hoje os chineses estão jogando com segurança, porque o balanço de seus pontos positivos e de seus pontos negativos permite que eles saibam aonde vai o céu azul e onde estão as labaredas da fogueira. E mais, com a crise chegando a pontos dramáticos, a recessão e a depressão se encaminhando para tomar a respiração do Ocidente, a China está proporcionando o modelo para que os diversos Estados possam reagir diante da crise, fortalecendo a sua ação.

Por incrível que pareça, até o momento, a crise ainda não atingiu aquele ponto onde os conflitos dos capitais e das nações chegaram a desestruturar a economia e a política. Alguns Estados – os menores é verdade, como a Grécia, Portugal e a Irlanda – já estão nesse caminho. Mas a solução, por enquanto, tem sido neoliberal. E duvido que ela resolva a questão, a não ser rebaixando e remodelando os países dentro do atual sistema de dominação. Então, nessa coisa do futuro, o que parece surgir no horizonte histórico é a passagem da unipolaridade americana para a bipolaridade China e Estados Unidos. E nela, a questão decisiva tem tudo a ver com o papel do Estado em todas as suas dimensões, desde o projeto estratégico até a constituição das estruturas da entidade estatal e da reorganização de sua burocracia. O combate está no tabuleiro do xadrez. E nele a disputa se alargará, a tensão Estados Unidos e China vai compor a harmonia e a discórdia da adversidade básica, que ordenará o alinhamento/desalinhamento dos demais Estados, incluindo o Brasil. A constelação política terá uma organização em função dessa contenda básica. Do contraste cada vez mais forte entre as duas grandes potências e do papel do Estado é que dependerá a composição do elenco hierárquico das demais potências e nações. O conflito elementar está se deslocando, até mesmo imperceptivelmente, só que de modo firme. A longa duração do capitalismo, na sua força ainda não desmentida, já principia a dispor o movimento dos atores na direção de uma futura mudança estrutural. O que vai trocar é o conflito que organiza a política, ao mesmo tempo em que esse contexto permitirá o surgimento de um novo padrão econômico, uma nova “Golden Era”, como diz Carlota Pérez. O bafo na nuca, no entanto, é a recessão que se avizinha. E a pergunta é óbvia: será criativo ou destrutivo esse conflito que está se instalando? A saída, cujo corpo está escondido, tem um olho e uma face que proclama mais capitalismo, mas, de qualquer maneira, com mais Estado e com uma outra relação entre as finanças e a produção.

sábado, junho 11, 2011

quinta-feira, junho 09, 2011

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
09 de junho 2011
Coluna das quintas


UM FRIO NA ESPINHA:
A GRANDE DEPRESSÃO
Por Enéas de Souza
GRANDE DEPRESSÃO À VISTA?


Vários economistas americanos falam disso. Já tratávamos dela, meu amigo André e eu, desde 2007. Na verdade, a história se passa assim: a crise financeira e a crise produtiva vieram ao mundo juntas; depois, tivemos a salvação das finanças que encaminharam o Estado para um déficit fiscal vigoroso. E, simultaneamente, houve a negação da aplicação de uma política keynesiana de gastos ou programas governamentais para salvar igualmente as indústrias. Como um lutador de peso pesado, o referido Estado deu um “knock down” na produção. Desse processo, uma dívida pública crescente pôs o nariz de fora, tanto nos Estados Unidos como na Europa. Só que alguns Estados atingiram o que se chama de insolvência. O que está levando a economia à uma forte depressão. Assim de uma chuva miúda que molha, entramos num temporal que inunda. E, estamos ouvindo, há alerta de tsunami. Naturalmente que a crise se prolonga porque a economia líder dos Estados Unidos diminuiu a sua dinâmica financeira, já que a crise represou a elasticidade da lucratividade das finanças. E também porque, simplesmente, já não funcionam mais os seus produtos, a sinergia de suas aplicações, a confiança nos seus mercados, etc. Os investidores financeiros em Nova Iorque, Londres e na Europa estão em ritmo mais lento. Então, o caminho das finanças é tentar a saída pelos mercados emergentes, visando sempre o objetivo especulativo e predatório, como fazem nas commodities, do petróleo aos alimentos, e igualmente nas especulações com títulos financeiros e públicos.


Portanto, a tão famosa e falada idéia de que salvando os bancos – dando crédito a eles, permitindo que tomem dinheiro no FED, como acontece nos Estados Unidos – eles iriam fornecer crédito à economia produtiva, isto é, uma concepção ideológica, falsamente real, impossível de ocorrer. Tem o sabor de pensamento mágico, em todo caso. E as finanças, isso é sabido desde sempre, correm atrás de especulação e não de tomadores de empréstimos para a produção. Portanto, os mercados financeiros estão dando resultados medíocres e a indústria não consegue funcionar na direção de um novo padrão produtivo, com investimento e emprego. O que temos é uma indústria velha, que desenvolve a produtividade, mas não traz novos postos de trabalho. De concreto, a liderança das finanças está paralisada, a produção até cresce, mas não se reinventa, ao mesmo tempo que o desemprego é a tônica no universo dos trabalhadores.


POLITICA ECONÔMICA DESORDENADA

As coisas começam nos Estados Unidos. Lá, o Estado já principia como maçã cortada ao meio por uma faca. De um lado, o Executivo e, de outro, o FED. Ou seja, o Banco Central é colocado fora do Executivo. É um órgão do Estado, mas fora da política do Governo. E essa decisão da história do capitalismo no Ocidente é chamada elegantemente de independência do órgão monetário e financeiro público diante do Executivo, com a desculpa de que as coisas são assim para não prejudicar o funcionamento da economia. Então, o princípio de tudo está aí, a fidelidade do FED, que não é ao governo, ao Estado, mas também não é à população. Ela é, sim, às finanças. O que significa um poderoso bloqueio na ação política de qualquer administração estatal.


E agora essa regra está nas vísceras do governo Obama. E com intensa robutez, pois mostra que a política do Estado fica cindida entre uma política para o setor financeiro e uma política para o resto da sociedade. Por essa razão, a salvação dos bancos não levou as instituições bancárias a terem praticamente nenhum compromisso com o Estado – muito menos com os desempregados e com a população. Seus únicos compromissos, altamente beneficiados e favorecidos, foram os financeiros com o FED e o Tesouro. Claro, foi uma ajuda estatal, com dinheiro da sociedade, dos contribuintes. E por absurdo que seja, em troca, não houve maior modificação dos seus hábitos. Ou seja, nenhum acréscimo substantivo da regulação, alguns pequenos requerimentos a mais de capital, nenhuma alteração ou restrição aos produtos (sobretudo os CDS), nenhuma restrição ou punição ou regulamento para as terroristas agências de ratings, etc. E tudo apenas com cláusula de pagamento do crédito privilegiado. Ou seja, nenhum compromisso com a nação.


(Enquanto isso, o desemprego continua com taxa de 9%!)


Se olharmos bem, não existe política econômica nos Estados Unidos. O que existe é uma política econômica reduzida, uma política econômica centrada nas finanças. Isto quer dizer uma política econômica parcial, forçada a ser apenas uma política monetário-financeira–fiscal. E com o pulo do gato explícito. Ela já é política cambial, porque o dólar, além de ser moeda de uma nação, se efetivou como moeda de reserva de valor para o mundo. Nesse sentido, para constituí-lo como moeda financeira, as finanças e o Estado, possuem os dois elementos necessários para essa existência. O Banco Central, que emite o dinheiro e define a taxa de juros básica do mercado e o Tesouro, que garante, via títulos do próprio Estado, a sustentação do valor dessa reserva. O resto da política macroeconômica, como a política industrial, a política agrícola, a política salarial, a política científica e tecnológica, etc. são produzidas no nível micro, pois são as empresas que a realizam. Fica claro então, que o Estado abdica, por imposição das finanças, de uma política macroeconômica global.


OS ÍNDIOS CERCAM A CARAVANA


Assim, a macroeconomia é simplesmente política monetária, financeira e fiscal. Então, o sol ilumina. O FED e o Treasury, sobretudo ficando em mãos de gente do sistema financeiro ou de seus aliados, tornam-se dois órgãos que controlam o Estado e, por tabela, a sociedade. O embrulho tem destino e benefício: as finanças. Dando mais um passo e olhando agora para o horizonte próximo, algo se faz realidade no momento, o Estado americano só avança com as decisões do Legislativo, que fica pressionado pela volumosa presença dos lobbies entre os democratas e republicanos. Deus, então, que abençoe os consumidores, os desempregados e a população, porque as finanças não precisam de Deus, já tem o Tesouro, o Banco Central e os lobbies. E, com efeito, vê-se um presidente que, além de estar cercado pelo setor financeiro, tem seu aperto agrandado pelo parlamento.


E isso se amplia no caso de Obama pelas limitações do primeiro mandato. Dizendo cruamente, hoje a sua preocupação imediata como político é reeleger-se. E para reforçar a idéia de que o atual perigo de queda da economia e do governo Obama é uma ameaça real, os republicanos optaram por uma proposta de limitação da dívida nacional ao redor de 14 trilhões de dólares. O Estado vai parar. Ah! É verdade, com essa manobra uma corrente de ferro amarra o presidente dos Estados Unidos, cujo corpo já está todo varado de flechas. Os índios republicanos, machadinha na mão, já estão enxergando a perspectiva de uma vitória na terra da Disneylândia. O que nos permite indagar: os americanos vão se posicionar ainda mais à direita?


A VOLTA DA ESPECULAÇÃO BANDIDA


Então, veja o enredo do filme que está em cartaz: a dinâmica econômica ficou paralisada por causa da estrutura do Estado e as decisões de política monetária, financeira e fiscal só favorecem aos financistas, enquanto uma nova estrutura econômica está barrada para um novo caminho. Pois o centro de uma economia expansiva é o investimento. E numa economia que precisa mudar o seu padrão produtivo, as inversões em indústrias com novos paradigmas tecnológicos funcionam como a mais nova alavanca de Arquimedes. E, por resíduo, ainda ajudam a puxar inúmeras inovações em todo o sistema produtivo. Como vimos, o Estado americano só tem política macro apenas para a moeda, para as finanças privadas e para as finanças públicas. O centro institucional para as duas primeiras é o FED. E o FED resolveu nos últimos tempos aumentar a liquidez dos bancos, visando com ela que o crédito seja aplicado e redistribuído à produção. Isso favoreceria as instituições financeiras e fertilizaria as indústrias. Agora, pensem um pouco. Onde é que os bancos vão botar esse dinheiro ganho à custa de taxas negativas de juros? Quem disser crédito à produção leva um esculacho, um croque na cabeça. É claro que eles vão tocar esse dinheiro na especulação, vão mandar para o Brasil, vão mandar para a Índia, vão mandar para outros mercados emergentes. E aqui, no país tropical, com as atuais e apetitosas taxas Selic, os capitais financeiros arriscam acrescentar de maneira fabulosa números positivos nas suas rendas. Pode até essa chegada de recursos estrangeiros, no primeiro momento, ajudar a “bombar” as atividades econômicas. É certo, no entanto, que numa próxima crise, num caso de déficit nas transações correntes, por exemplo, esses capitais vão afetar e intimidar e ameaçar tanto a economia como as contas do país.


BLOQUEIO À TRANSIÇÃO PRODUTIVA


Bom, e se não há crédito para a produção, é lógico que o investimento não vai se expandir. E, se botar na roda o Estado americano, a gente vê que ele está amarrado, bloqueado, sem condições econômicas e ideológicas para intervir na economia. Planos de mudança da estrutura da produção, nem pensar. Está quieto, amordaçado, fruta apodrecida, mas é preciso ver bem: a produção também entrou em crise em 2007, o paradigma modelado pelo petróleo e os automóveis entrou em falência. Obama tinha um plano bem jeitoso. Regular as finanças; desenvolver novas energias, nuclear e biocombustível, principalmente; buscar a metamorfose industrial através das novas tecnologias de comunicação e informação. E com isso, passar a liderança do capital novamente ao setor produtivo e colocar as finanças a serviço da produção e da sociedade. Mas as finanças se insurgiram, bateram pé e não concordaram. Embolsaram a grana dos pacotes de salvação (os bailouts) e pegaram a liquidez que está passando atualmente, liberada pelo FED. Primeiro, para se equilibrarem economicamente; depois, para buscar novos resultados na exportação de capital especulativo. Portanto, gesto regressivo, bloquearam a reformulação produtiva de todos os jeitos. Ou seja, não perderam nem o capital, nem o comando político. Dessa forma, a economia americana teve freada a dinâmica da transição. É preciso considerar que estamos falando da passagem de uma dinâmica de um padrão para outro. E não de alteração de taxa de crescimento. O importante neste momento não é que a economia cresça por crescer. O importante é que o crescimento esteja dentro de um movimento econômico que se dirija à construção de um novo paradigma. Arquitetura base para o estabelecimento de uma nova relação entre setor financeiro e setor produtivo, bem como uma nova relação entre o capital e o Estado.


O RESUMO DA ÓPERA


Pois vejam aonde foi dar o movimento atual do capital financeiro. Crise das finanças deu origem à salvação desses capitais com a presença do Estado, que entrou firme numa crise fiscal. E aí foi toda uma estrutura institucional que enferrujou, que explodiu e se tornou perigosamente adversa à sociedade. Trata-se de ver que isso envolve USA e Europa. E na Europa, já se viu, o osso está exposto nos braços e nas pernas da Grécia, da Irlanda, da Islândia, de Portugal. O desastre se alastra e está na veia da Espanha, ameaça o corpo da Itália. E se esse trânsito, gasolina chamando fogo, não for contido, a flama se aproxima da Inglaterra e, se chega na Inglaterra, atinge de volta os Estados Unidos.


A crise produtiva, sem uma política própria e sem novos apoios do Estado, se amplia. Mas agora com dois aspectos. Um já vimos: o aprisionamento do Estado pelas finanças; o outro, é a paralisia da indústria, sem espaço para avançar tecnologicamente e sem capacidade de concorrência com a China. E a China vai afetando a economia ocidental fortemente. E reparem como a China está bem. Pois com a ameaça de diminuição do crescimento chinês, esse dado reverte sobre os todos os países, mas principalmente sobre os Estados Unidos. Com isso, se mostra o labirinto que está a saída da economia americana e européia do buraco da crise de 2007.


SÓ A POLÍTICA SALVA


Falta falar da inflação resultante da recente política monetária do FED. Dela, Krugman diz: não me interessam os outros paises, eles que se virem, o que importa é aumentar o nível inflacionário americano de 2 para 4%. Aí teremos o financiamento da economia produtiva, aumentando o PIB industrial e fazendo crescer o emprego. Mas o que está ocorrendo é que a indústria cresce e o emprego não. Esse keynesianismo de liquidez bancária não pode dar certo. Dá especulação, dá diminuição de poder monetário da moeda americana, dá fuga do dólar, dá queda do investimento, dá queda do consumo, dá desordem internacional. Então, se começa a temer por um desdobramento da crise econômica. O blog “Naked Capitalism” realimenta a idéia de que a Grande Depressão já está inscrita no horizonte econômico desde o fim do ano passado. É claro que é preciso pensar que o capitalismo tem sido capaz de gerir essa crise, mesmo que alquebradamente, já que os contrapesos inventados por ele são diversos. Só que, desde 2007, a economia está pendurada no trapézio, cai não cai. E a hegemonia política das finanças sobre o Estado não levou a nenhuma reformulação da economia. Porque as finanças só pensam no curto prazo, para não dizer no curtíssimo, os lucros de hoje. Amanhã, já é longo prazo. E o mais interessante é que as finanças, na sua hegemonia social, têm um domínio absoluto também sobre os demais capitais, sejam produtivos, comerciais ou de serviço. E singularmente não os levam em conta, salvo como aplicadores no seu sistema. E aqui o decisivo: as finanças não têm projeto para a economia. Esperam manter tudo como está. Talvez fiquem um pouco preocupadas quando a atividade dos negócios diminui, mas nada capaz de esquentar muito a cabeça. Já foram longe demais. Retornamos, para encerrar o assunto, ao princípio do artigo: crise financeira, crise produtiva, crise fiscal. E a espantosa verdade: os países estão profundamente endividados. E essa dívida do Estado é com os próprios bancos, por isso, se os Estados caírem, caem os capitais. É aqui que começa o frio na espinha. Esperamos que o filme não seja o “The river of no return”. Dito de outra maneira: tudo navega na incerteza ou no fio da faca amolada. Só a política salva, mas só aquela que favorece a mudança do padrão produtivo e regula o setor financeiro.

quinta-feira, junho 02, 2011

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
02 de junho de 2011
Coluna das quintas


DILMA NA PASSAGEM
DE HAMLET À ANTIGONA
Por Enéas de Souza



1) O caso Palocci trouxe a evidência de algo novo, trouxe ao campo político a revelação de uma situação complexa e diferente. Até Dilma, todo presidente da República na redemocratização vinha de uma carreira política. Na verdade, um chefe de corrente política, mesmo que viesse de uma agremiação minoritária como Fernando Collor. E Collor tinha um bom itinerário político. Não é que Dilma não seja política, mostrou esse traço na sua atividade de militância contra a ditadura, mostrou na sua presença no PDT e depois no PT. Mostraram também os seus múltiplos cargos: secretária municipal, secretária estadual, ministra de Estado. Todos esses aspectos fazem parte de um percurso na área, Dilma não é uma flor de estufa. O que é indispensável considerar é que a Dilma não era e nem é um chefe partidário. Nunca teve embates de prefeito ou governador, nem postulou nenhuma candidatura parlamentar. Jamais tinha concorrido a eleições majoritárias. Teve sim comando de área estatal: Fazenda, Energia, Casa Civil. Lógico que esses traços de atuação administrativa têm uma face política; configuram um dado importante e contribuem para o problema que ela está enfrentando – que está enfrentando e que terá de enfrentar decisivamente. Não há como negar, Dilma é uma personalidade política de alta envergadura, mas que fazia parte – e parte fundamental – da equipe do Lula. Não carrega, portanto, atrás de si um dossiê de liderança partidária. Dado o seu absoluto e invulgar talento de técnica-política na esfera da administração, culminou como um quadro de Joseph Beuys ou de Francis Bacon na primeira linha da sua arte; e foi guindada à postulação do cargo de presidente da República. Contra o experiente Serra, se saiu com rara felicidade. Um ano antes parecia aos tucanos e até aos petistas, sonho de uma noite de verão, impossível de acontecer. A derrota do aparente puro sangue paulista não parecia, àquela altura, fazer parte dos resultados do páreo.

2) Dilma experimentou as doçuras e as agruras da campanha presidencial. Depois de ter sido ajudada por Lula a ser conhecida pelo povo, jogou com firmeza, astúcia, independência e precisão na disputa com o PSDB. Só que, agora, no desempenho do governo, não tem na sua bolsa a experiência do árduo jogo do político profissional, cujo objetivo é a tomada do poder e desenvolvimento da sua liderança política e social. Pois decorridos cinco meses de seu mandato, Dilma está lançada diante dessa realidade febril, a sua inexperiência nas aventuras, ciladas, adesões, traições, chantagens e invenções da luta política. Exatamente por sua carência na arte do jogo das grandes figuras, das grandes raposas, dos cachorros grandes. E aí é que o lulismo e o dilmismo estão enfrentando uma potente adversidade. Um pouco como as pessoas têm de encarar o mundo quando um dia de sol se transforma em temporal. Há que fazer algo para não se molhar, para chegar ao seu objetivo, ao seu destino. Pois a verdade é essa: Dilma tem poder, a nação a respeita como presidenta legítima, contudo ela não tem experiência do jogo em pauta. Não tem um grupo político e social sob o seu inteiro comando. Fez e faz parte de um determinado setor partidário. Ganhou o bilhete aéreo para o confronto republicano, mas ainda não é a chefe de uma facção ou de uma corrente política. Herdou e ganhou o poder; não herdou nem ganhou um partido. Esse continua sob a direção de Lula. Sem dúvida, é uma segurança para ela. Lula, além de ter criado a sua candidatura, foi um dos maiores presidentes do Brasil, no nível de Vargas, no nível de Juscelino; o tempo dirá se maior, igual ou menor. Em todo o caso, Lula está junto deles – e dela. E eles, não se pode olvidar, foram gênios da política no Brasil. E todos foram inequivocamente chefes partidários e políticos. Com Dilma, a coisa é diferente. No momento, é uma seguidora de Lula, mas já está na pista de decolagem para transformar a verticalidade da sua própria figura nacional. E só vai aprender se ela se colocar na posição de piloto do avião.

3) Então fixamos bem esse ponto, o problema que Dilma tem é a falta de carreira política, de não ter sido chefe político. E isso se tornou palpável e visível, espelho aguçado, no começo da formação de seu governo, onde a figura da articulação política ficou com Antonio Palocci. E Palocci expandiu-se. Não só ia fazer a relação com o parlamento, mas trazia, entre as suas credenciais, uma de substancial importância: a ligação com os banqueiros e com setores empresariais. Além, é claro, de sua conjugação com Lula. Isso significou uma posição cartográfica de notável importância. Porque, com a sua entrada no governo, Dilma sofreu um deslizamento para a parte da liderança administrativa, embora mantendo as decisões da chefia do Executivo. O que acontece, leitor crítico, é que na formação do seu governo, acabou com um ministro da Casa Civil com poderes excessivamente ampliados. O que Temer queria, ficou com Palocci. E isso teve como consequência imediata uma parede e um bloqueio entre a presidenta e os parlamentares. É obvio que se torna indispensável ter uma certa proteção. E essa proteção não pode anular o caminho da necessidade de todas as formas de relação política: negociações, proposições, sedução do poder, convencimento de parlamentares, jogo de apoio social, cargos, cooptação, pressões, concessões, decisões, anulação de chantagens, manobras e falsas manobras, escuta de reivindicações de todos os matizes, encontros secretos, acordos políticos, etc. Mas, principalmente, a proteção não pode segurar o desenho e a construção de uma base política para uma estratégia de poder. E, no caso da presidenta do Brasil, o mais definitivo: a configuração de uma estratégia nacional. E Dilma, prazer e sofrimento, teria que executar essa estratégia num face a face, no dia a dia, ao que chamei, em outro artigo, da combinação da grande política com a pequena política. Os grandes projetos e o comércio das miudezas cotidianas. Mas, ousaria dizer mais, para o êxito de sua jornada há que ter uma audácia especial. O Brasil não pode ser pensado apenas como Brasil, tem que ser pensado dentro de um projeto de negociação para o mundo. É na trajetória do mundo que o Brasil vai se construir. É desse norte absoluto que Dilma pode encontrar um desempenho para a sua realização como presidenta. E ela tem tempo para esculpir uma bela carreira política.

4) Ao aceitar, optar e atribuir a Palocci como ministro da Casa Civil determinado tipo de coordenação, Dilma deixou aberta a possibilidade de que houvesse um curto-circuito na dimensão política da Presidência. Não que o seu poder fosse ferido. O que foi constrangido e diminuído foi o exercício do poder. Ou exercício do poder propriamente político. Ou mais precisamente, a concepção estratégica da presidência, com os desdobramentos pessoais, intransferíveis, do comando da negociação dessa articulação entre as duas variedades de políticas citadas acima: a grande e a pequena. O(A) presidente(a) é um imã, um diamante que organiza e responde a dança incontornável do baile e da festa dos atos políticos.

5) O caso Palocci, fora todo o problema ético – em processo de discussão e de confronto interno e externo ao governo – foi a cena de invulgar intensidade que exibiu a luz aguda da questão. A equação apresentava a seguinte forma: o comando político partidário com Lula, o poder de Estado com Dilma e o poder da gerência político parlamentar e empresarial com Palocci. Tudo o que um político abatido no governo anterior gostaria. Mas é regra na política: quem foi abatido – atenção, não quem perde uma batalha política – tem muita dificuldade de retornar ao poder. Veja-se o caso do próprio Collor. Pôde efetivamente recomeçar. Mas quem nessas condições reaparece, não tem o respeito efetivo dos confrades. Torna-se um alvo muito evidente. Suas vulnerabilidades ficam expostas com exuberância. É mais fácil de ser atingido. Os inimigos, os adversários e os participantes do fogo amigo sabem onde e como abalroá-lo. Palocci não teve sequer um semestre de folga, levou uma bala de calibre 38. E leve-se em conta que a oposição partidária está totalmente desarvorada.

6) Talvez Dilma ganhe um presente como Lula ganhou com a queda de Zé Dirceu. E mais, ela está aprendendo a desaprender. O que ela tem a desaprender é a sua extraordinária atuação como chefe da Casa Civil – onde foi o verdadeiro suporte da estratégia da política econômica e social do governo Lula. Frise-se, econômica e social! Seu caminho agora é um só: a dimensão política da presidência da República. Saindo ou não Palocci, o decisivo nesse caso para ela tem um conteúdo robusto: empunhar na sua mão todo o jogo da esgrima presidencial. O que não exclui a delegação de coordenações políticas de ordens maiores ou menores subordinadas e controladas por ela. O estouro do caso Palocci, o esfalfamento da votação do Código Florestal, o barulho da crise com o PMDB aportou à consciência da presidenta a necessidade de resolver o tema do poder e de seu exercício de maneira distinta, construindo agora um novo processo. Dilma está saindo para o mar revolto da disputa política. A lógica inexorável se impõe: não há boa presidência sem pleno mando do poder. Pois é com o pleno mando que o jogo estratégico se faz. E é com ele que se negocia interna e externamente as mais amplas latitudes dos conflitos políticos.

7) No entanto, para variar, a árvore da presidência tem sempre diversos ramos de problemas. No caso do atual governo, há que perceber que deve se abrir uma nova faceta política da relação Lula-Dilma, que foi absolutamente excepcional no governo Lula. E como eles têm uma relação singular, os ajustes não serão muito difíceis de fazer. Primeiro, há que ter clareza: o chefe político é Lula, o chefe do governo é Dilma. Segundo: é preciso se encaminhar para delinear com traços de finura um projeto político para o PT, um projeto político que envolva um projeto de nação. Isto quer dizer um projeto econômico, político e social dentro de uma nova etapa do capitalismo que está se formando. Um projeto de poder que inclua também a relação entre os dois personagens, onde Dilma não é mais a ministra de Estado apoiada pelo PT, onde ela é a presidenta da República e onde Lula é a maior figura do partido. É inevitável uma tomada de posição nessa questão. O momento é agora. Dilma, dada a sua fidelidade a Lula e dado o seu posto político, terá que ser a segunda personalidade política do PT e assumir a liderança do jogo político do Estado. Estamos numa nova etapa do poder, a construção do lulismo-dilmismo em termos políticos.

8) Quanto à questão ética do caso Palocci, não conheço suas particularidades, as informações são ainda escassas. De qualquer modo, para mim, respondendo de modo abstrato, a política não tem ética, o que não quer dizer que um político e um partido não devam tê-la. Só que o fato de eu ter ética e meu partido também, não significa que o outro tenha que ter a mesma postura. A política é permanentemente conflito e jogo de forças. É sempre duelo, divergência, combate. É óbvio que não fica excluído que um partido no poder coloque as suas forças na proposição de um jogo essencialmente ético. O que torna a ética um problema político e não a política um problema ético.

9) Também não se pode esquecer, ampliando para ver a moldura que envolve o atual quadro político do país, que a estratégia de longo prazo brasileira passa, neste momento, por problemas complexos internos e externos e que afetam o envolvimento de Dilma em toda a dimensão do seu poder. Externamente, uma conjuntura de crise e de transição da geopolítica e geoeconomia mundial com a progressiva configuração bipolar dos Estados Unidos e da China nos papéis principais da peça. E com a multipolaridade Brasil, Índia e Rússia e outros, presentes como coadjuvantes indisfarçáveis. Internamente, a galáxia da política profunda mudou, pelo menos nas cenas imediatas. Essa mudança está baseada no fortalecimento do capital bancário – dado o aporte de recursos financeiros aplicados no Brasil –, na divisão do capital produtivo em face do comércio de commodities e da concorrência chinesa no mercado mundial e latino-americano, na indispensável formulação de uma política industrial e tecnológica, na necessidade de consolidação da articulação capital industrial e trabalho, na necessidade de políticas econômicas e sociais favorecendo as camadas mais pobres da população, etc., etc. E o resultado da dialética dessas duas dimensões – externa e interna – atravessa os problemas do jogo político da presidenta. Por isso, se pode perceber a densa floresta de questões que Dilma tem que refletir para conectar a sua própria estratégia. E ela é totalmente hamletiana: ser ou não ser. Mas Dilma tem a energia de Antígona, vai se revirar e vai achá-la em si própria.





quarta-feira, maio 25, 2011

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
26 de maio de 2011
Coluna das quintas

O CAPITALISMO
NÃO É MAIS AQUELE,
MAS AINDA NÃO É OUTRO
Por Enéas de Souza

1) A grande crise mundial está entrando numa nova fase. De um lado, porque a economia está caminhando por pedras adversas e, de outro, porque agora, após a pólvora da crise financeira americana e européia, temos o fósforo aceso da crise fiscal, se espalhando por todo o conjunto Estados Unidos-Europa. Vendo as imagens contundentes da “revolução espanhola” da semana passada, a gente percebe que elas se juntam àquelas das populações da Grécia, de Portugal, da Islândia, da Irlanda – não citando Itália e França – que revelam tristes pontos de desespero e de revolta na realidade presente. A desfaçatez da fração de classe do capital financeiro é absoluta, pois suas instituições financeiras quebraram e foram salvas em detrimento do capital produtivo e dos assalariados. E depois de salvos, passaram a atirar contra o Estado e contra as conquistas sociais. E a coisa nesse nível é muito complicada, as práticas do capital financeiro são vorazes, predatórias e corruptoras e tentam, de todo o jeito, vender a mercadoria do neoliberalismo para resolver a multidão de crises, inclusive a crise política da decadência americana.

2) Assim, nos fixemos nos Estados Unidos. Lá, as finanças têm representantes nos principais órgãos econômicos do Estado, têm lobbies fortíssimos no Congresso Nacional, financiam as campanhas políticas de deputados, senadores e candidatos a cargos executivos. E através de sua aliança com a grande mídia – a verdade mais mentirosa do planeta – conseguem criar a ideologia do vencedor e que o valor das coisas tem o perfume e a cor do dinheiro. Exacerbam o que um dia Marx chamou do fetichismo da mercadoria, criando um ambiente de negócio e de vale tudo na sociedade. Nessa atmosfera, assumem a liderança dos capitais com uma hegemonia indiscutível. Apenas é preciso salientar e reforçar a idéia de que a crise econômica de 2007 não foi apenas financeira, mas foi também produtiva. E foi produtiva porque o padrão industrial e tecnológico dessa fase do capitalismo terminou. Está em curso a transição para um novo padrão baseado nas tecnologias de comunicação e informação, com mudanças e metamorfoses possíveis na infraestrutura energética.

3) Só que essa passagem depende de vários aspectos, entre eles: (I) o apoio do Estado para o financiamento em larga escala às diversas indústrias que virão para preencher esse novo padrão; (II) a mudança na estrutura de poder da sociedade e, consequentemente, do Estado; (III) o resgate de Estados altamente endividados, de tal modo que se restabeleça a capacidade desses de financiar as mudanças estruturais do próprio capital, levando, inclusive, a uma nova hegemonia da esfera produtiva; (IV) o retorno de uma política macroeconômica global, envolvendo política industrial, política tecnológica, política salarial, política de rendas, política agrícola e agrária, política financeira, política fiscal, etc. e (V) a submissão das finanças à sociedade, através de uma alteração profunda no controle desses capitais, principalmente, no estabelecimento de novas regras e no retorno a uma regulação financeira adequada. (Vários itens terão que ser encaminhados nesse teor: novos requerimentos de capitais para as instituições financeiras, uma regulação prudencial para proteger o sistema de novas crises, um controle efetivo do sistema bancário, um controle de perto do shadow banking  system, um controle atento e restritivo quando for necessário dos produtos financeiros a serem comercializados, uma definição mais rigorosa e mais exata de regras contábeis para as instituições financeiras, etc.). O que não se pode esquecer é que o desenvolvimento da democracia com a presença da sociedade é uma das condições que é companheira dessas transformações, porque permite a presença dos trabalhadores e outros grupos sociais nas negociações da economia, da política e do bem estar da sociedade.

4) Assim, cabe dar ênfase no seguinte: a crise econômica se desdobrou como uma flor maligna da crise financeira e foi lavrando as estruturas sociais. Foi chegando, foi batendo, foi atingindo inúmeras camadas sociais, com uma companheira socialmente perturbadora, a crise produtiva. E as duas se vestiram de crise política, desembocando num forte desemprego em muitos lugares do mundo. Veja-se a Espanha com 25% de desemprego geral (e, particularmente, com 45% entre os jovens). Só que a crise financeira desembocou, desde logo, numa crise fiscal, presente muito fortemente nos Estados Unidos e avassaladoramente cruel nos Estados europeus. Apenas a Alemanha parece um pouco mais confortável. Ou seja, a grande concorrência entre os capitais (seja financeira e/ou produtiva) atravessa agora a competição interestatal. O que significa duas coisas: em primeiro lugar, uma violenta competição entre os capitais nas finanças, na produção e nos serviços, dando prosseguindo a um vasto processo de concentração e centralização de capital; e, em segundo lugar, uma disputa intensa entre os Estados para recondicionar a sua participação na nova geopolítica mundial que apenas está se formando. Ou seja, a crise está e se encaminha para uma nova fase, onde os confrontos econômicos e políticos vão favorecer a um clima tenso e rascante na sociedade mundial. E a conjugação deles tem a potencialidade de elevar as discórdias a novos pontos de vibração inquietantes, até que uma solução – ou a terra – esteja à vista.

5) O contraponto geopolítico e geoeconômico dessa crise é certamente a China. Porque a China, com um Estado forte, tem conseguido reformar a sua economia, a sua sociedade e tem enfrentado os Estados Unidos de uma forma muito astuta, questionando-o em situações candentes: o dólar como moeda de reserva mundial, a política inflacionária americana, a gestão da recuperação econômica em detrimento de outros países (o que não exclui a própria contribuição chinesa). Enquanto fustiga por esses caminhos o seu adversário, a China faz algumas ações concretas na direção de uma nova política industrial, de um apoio muito forte e constante às suas inovações tecnológicas, de uma busca mais perseverante na renovação de sua matriz energética. Claro, essas atividades fazem parte da ação do dragão chinês na reformulação de sua política econômica, agora centrada também na reorganização econômica e produtiva do Sudeste Asiático em torno dela, fato que fortalece sua moeda, preparando-a, para num médio prazo, converte-la em moeda internacional. Pode-se observar igualmente que uma desaceleração recente na economia chinesa tem conseqüências estratégicas nos Estados Unidos, já que afeta e bloqueia o crescimento das exportações americanas. Dito de outra forma, a China está cada vez mais ativa no plano econômico, mas com escaladas geopolíticas progressivas nas suas relações com a África, com a América Latina, sem deixar de avançar uma política face à Europa, visando contrabalançar a longa influência americana, mas principalmente para absorver tecnologias decisivas para o seu desenvolvimento. O que quer dizer, a China, para o bem ou para mal, é um pólo dinâmico da nova mundialização.

6) Dessa forma, a gestação de um pólo oposto aos Estados Unidos começa a se formar, cada vez com mais força. O que significa apontar para o decréscimo americano, que ocorre por seus travamentos internos: finanças, governo de Obama em fase de recuperação para as eleições de 2012, incapacidade dos Estados Unidos de começar a transição de um padrão produtivo para outro. Tudo isso é contrabalançado por uma ascensão da China. O que significa que a passagem da geopolítica da unipolaridade para a bipolaridade está se fazendo. Cada vez é mais nítido que as forças que impelem a economia a subir vêm da China e aquelas que são decrescentes brotam dos Estados Unidos e da Europa (salvo a Alemanha). Mas, como já vimos defendendo aqui, essa nova polaridade nos parece que virá acompanhada de uma multipolaridade que comporá a nova figura. Isso porque, o desenvolvimento econômico dos emergentes trouxe pelo menos uma nova trindade que vai participar do jogo: Brasil, Índia e Rússia. Todos vão se inserir na nova divisão internacional do trabalho, naturalmente a partir das potencialidades de suas formações econômicas. O caso brasileiro é muito visível: estamos prontos para viajar na matriz energética com as conquistas do pré-sal, avançar no fornecimento de matérias primas e desenvolver uma exportação vigorosa nos produtos alimentares. E para que possamos crescer e ampliar o desenvolvimento da nossa sociedade será indispensável uma política industrial e uma política de ciência e tecnologia bem concebida, para que se esteja blindado economicamente, evitando cair na posição da Argentina no século XX. E com essa estratégia, o Brasil vai acumular poder para oscilar numa vinculação flexível frente à China e frente aos Estados Unidos. Parece, no olhar de agora, que nosso movimento é mais econômico com aquela e mais político com esse.

7) Encerrando essas observações, o analista encontrou uma forte crise econômica que se desdobra numa crise política, crescendo como serpente eriçada. A primeira, entrando numa fase aguda por causa da crise fiscal, e a segunda, desembocando num processo de formação de uma dualidade Estados Unidos e China. Nesse ponto, pode-se dizer que, por incrível que pareça, o assassinato de Bin Laden está permitindo que Barak Obama possa lançar uma nova política para o Oriente Médio. E constituir uma das bases da geopolítica vindoura, do face a face e do esconde-esconde com a China. Ou seja, finalmente a era Bush começa a ser ultrapassada. E, portanto, se os americanos se encontram em fase crítica na sua dinâmica econômica, no campo da política internacional, eles esboçam um passo para avançar na calçada muito delicada da competição entre os Estados. Dito de outra forma: a incerteza se mistura por toda parte, mas não se pode dizer que não haja movimento. Só que não sabemos se os movimentos destrutivos são maiores que os criativos. De qualquer forma, o mundo tem USA-China em disputa, como tem distintos emergentes em continuada ascensão. Para a tentativa de coordenação global está na arena o G-20, que, se não atenua os interesses conflitivos entre os países, permite, ao menos, algum fórum de negociação. Pois a metamorfose da geopolítica mundial, além de passar por concordâncias e divergências, deve também incluir na sua trajetória, à medida das necessidades e da evolução da configuração geopolítica, a alteração de antigas e a constituição de novas instituições com a finalidade de uma regulação das múltiplas facetas de uma nova etapa da mundialização. Será a tentativa de regrar o novo se desembaraçando do velho. O problema é que para chegar à aurora é preciso passar pelos perigos nada românticos do crepúsculo de um padrão econômico e político. E a questão é que ainda é noite, o neoliberalismo tenta descobrir forças para um último suspiro, a última bebida na madrugada. Mesmo assim, o panorama é claro: o capitalismo não é mais aquele, mas ainda não é outro.
Será outro?

segunda-feira, maio 23, 2011

Evento IPEA - FEE - A Dimensão da Pobreza Extrema no Brasil

Esse é um convite muito especial. O diretor de Políticas Sociais do IPEA, Jorge Abrahão estará em Porto Alegre apresentando o diagnóstico sobre a pobreza extrema no Brasil, base das políticas sociais da Presidenta Dilma.  O evento ocorre em parceria com a Fundação de Economia e Estatística e contará com um diagnóstico sobre a pobreza no RS, a ser apresentado pela pesquisadora Clítia Bacx Martins,  Coordenadora do Núcleo de Indicadores Sociais da FEE.



Atenção para o local: o evento ocorrerá no auditório da Faculdade de Economia da UFRGS e se inicia as 8:30 hs do dia 26/05, quinta-feira. Até lá!

Debates FEE

Debates FEE - Educação e Desenvolvimento, dia 24/05, 14:30 hs

quinta-feira, maio 19, 2011

CRISE FINANCEIRA INTERNACIONAL
19 de maio de 2011
Coluna das quintas



A MORTE POLÍTICA
DE
DOMINIQUE STRAUSS-KAHN
Por Enéas de Souza


A HIERAQUIA DOS FATOS


O complô é uma forma política de agir, talvez não seja uma forma adequada para pensar o político. De qualquer maneira, a política é conflito, é disputa, é discórdia. E no limite pode ser a guerra de todos contra todos, o “homo hominis lupus” da idéia de Hobbes, que Freud gostava, e inseriu e trabalhou no “Mal-Estar da Cultura”. Pois, o caso de Dominique Strauss-Kahn vem colocar inúmeras questões sobre essa realidade, desde os temas judiciais até os problemas do sistema financeiro internacional, não sendo a questão política da França a menor delas. Areia movediça e incêndio de vastas proporções, Naturalmente, que o processo judicial do assédio sexual, do cárcere privado e da tentativa de estupro, também tem o seu curso. E é de fundamental importância para as pessoas envolvidas. Mas na hierarquia dos problemas expostos pela anatomia do caso há algo mais profundo, há outra dimensão social e política. E é nessa que estamos interessados.


A IMPORTÂNCIA DO LUGAR DO DELITO


A pergunta fundamental é a seguinte: a quem interessa a prisão de Dominique Strauss-Kahn? Essa pergunta levanta uma série de sendas e de veredas, de caminhos e de linhas que envolvem dramaticamente o caso. Mas é preciso ver que, se houve complô, a armadilha foi bem feita. Não estou afirmando que houve armação, estou apenas me detendo no exercício do especular. Portanto, se houve cilada, eis o que teria de se considerar. Em primeiro lugar, Strauss-Kahn tinha um problema vulnerável, a questão da atração sexual pelas mulheres. DSK era o que na linguagem mais familiar se chama de mulherengo ou como se diz na França: DSK é um “coureur”. Pois, se houve armadilha, ela foi concebida em cima desse motivo. Mas coloquemos um segundo ponto. Para que a história tivesse um caráter eliminatório, definitivo, cortante, pleno de vexame, ela tinha que se dar num lugar onde as coisas do sexo fossem escandalosas, inquietantes e problemáticas. Onde o caso fosse amplificado, onde a moral derrubasse a figura atacada. E que o conhecimento do enredo, do segredo da jóia, permitisse uma chantagem sentimental em alta escala (ele atacou uma mulher negra, migrante, mãe de uma filha de 15 anos). Claro, o lugar só poderia ser os Estados Unidos. Porque, como complemento, nesse país a prisão pode ser feita com notável modo agressivo, cheia de humilhação, preponderantemente aviltante, e nenhuma importância com a questão jurídica da presunção da inocência (esse é um tema de grande repercussão, no entanto, na França, daí a revolta de inúmeros franceses). E foi nessa atmosfera que o laço cruel se aproximou do pescoço de Strauss-Kahn.


QUANDO A IMAGEM MATA


Mas, como disse, não quero discutir a questão judicial. O que me interessa é o local do delito como política. Antes de mais nada, é nos Estados Unidos, o lugar onde a política se mostra, desde logo, como espetáculo, onde, como um espelho especial, a comunidade se arma numa sociedade de imagens múltiplas. E a imagem é a forma como as relações sociais se dão entre os homens nos dias que correm. É exatamente nesse ponto que elas, as imagens, descem sua lâmina afiada sobre a integridade moral DSK. E como uma guilhotina moderna e um raio irreversível, a morte política de Strauss-Kahn se iluminou. No momento da foto, no momento da notícia, na presença das câmeras de televisão, na divulgação da rede dos blogs e na circulação da internet. Não importa se DSK é culpado ou não, politicamente ele está morto. Como falava Machado de Assis, a política tem medo da opinião pública, e a opinião pública de domingo até agora se alimentou, famélica e devoradoramente, das novidades da queda de DSK. A forma agressiva e humilhante desenhou no rosto abatido, nos olhos cheios de incredulidade, de desespero e de raiva de Dominique, a certeza de que fora, como um animal que se surpreende, fulminado numa grande cidade, a figura explosiva desta semana. Atingido por uma bala midiática numa tarde de sábado em Nova York – a imagem mata, efetivamente – Strauss-Kahn encontrou o muro de onde não passará. Aquela viagem para a França foi a impossibilidade de continuar tanto como presidente do FMI como candidato a presidente da República da França. Aquele avião não levará nunca DSK. A interrogação salta a todos: a quem interessava que ele não estivesse bordo, interrompendo qualquer chance de continuar a sua carreira institucional e política?


A QUALIFICAÇÃO COM FATOS


DSK era um político qualificado que tinha uma carreira exitosa. Foi ministro da Indústria e do Comércio, ministro das Finanças e foi sempre um economista acima da média. Até sábado, fez um trabalho muito bom no FMI, o que significa dizer que recuperou uma instituição totalmente desacreditada até a crise financeira de 2007 e conseguiu novos aportes de capital para o Fundo – compatível minimamente com as necessidades da época contemporânea. Com uma liderança decisiva, lançou, apesar do descrédito da entidade, a presença dela na solução dos desastres econômicos de diversos países e obteve uma participação significativa do FMI na gerência da atual crise da mundialização, seguindo os ditames do G-20. Tornou-se, por causa disso, um economista muito respeitado no meio das finanças, e, como consequência desse desempenho, ocorreu o seu crescimento no Partido Socialista da França. Obviamente, estrela em ascensão, emerge, avassaladoramente, como um sério candidato à presidência da nação francesa. Desde março, após o evidente fracasso de Sarkozy no seu mandato, Dominique Strauss-Kahn passou a liderar todas as pesquisas feitas desde então, algumas com margens de 16 pontos sobre o próprio Sarkozy. Nada mais conveniente para que passasse a ser um alvo a ser fulminado.


OS INTERESSADOS NO COMPLÔ


1) Na França


Certamente o maior interessado na queda de DSK era o grupo político do poder, o grupo de Sarkozy. DSK era o candidato mais forte da esquerda, cara de francês, jeito de francês e, se não amado pela população, ao menos era um político valorizado por seu trabalho internacional. Mas os comentaristas apontam também a possibilidade de haver gente de dentro do próprio PS que achasse melhor a apresentação de outro concorrente. Embora Dominique estivesse quebrando as resistências internas, esses mesmos comentaristas – pode até ser surpresa - lembraram haver tido no próprio PS antecedentes de deslocamento de candidatos em outras eleições. Ou seja, não seria impossível a existência de fogo amigo.


De outro lado, o posto de presidente do FMI tem sido ocupado por diversos franceses. E como DSK vinha desempenhando um papel de boa categoria, o governo francês, já trabalha, discretamente para a sua substituição. Mesmo que ele ainda não tenha pedido demissão, a figura em destaque é Christine Lagarde, ministra das Finanças. Suas credenciais apresentadas pela mídia são cômicas: já trabalhou nos States e (olha só o argumento!) fala fluentemente inglês... Não podemos pensar diferente: a vacância do poder é uma questão de obscena e mortífera ambição, Sabemos disso desde Shakespeare e suas peças notáveis como Ricardo II, Hamlet, King Lear, etc. A gente olha para a Europa e explodem candidatos por toda parte, inclusive na Alemanha e na França. Realmente, o despudor chegou ao extremo. A morte de DSK ainda não é oficial, e a turma do “afasta que a cadeira é minha” já botou o bloco na rua. Vê-se que a desgraça e a morte são estímulos para a liberação e o desenvolvimento exaltado da busca de poder. E isso que Strauss Kahn era um dos comandantes para a solução de vários problemas europeus. Sabemos que a Grécia, Portugal, Irlanda estão em sérias dificuldades, embora nos bastidores, também se fale de candidatos potenciais como a Espanha, a Itália, a Inglaterra, etc., etc. Dizendo rapidamente: vai ter muita grana em jogo, os governos e as finanças estão botando na mesa o seu olho gordo. E mesmo com o mau tempo e com a tempestade dos eventos do fim de semana, o circo não para, tem sessão todo dia. E ninguém sabe se ele não vai pegar fogo. Se tudo correr na direção que vai – e é bem provável, pois a crise ainda tem muito espaço para sobreviver. E a caída de DSK acelerou o processo de competição predatória entre os políticos.


2) Nos Estados Unidos


Aparentemente, aí não haveria muitos interessados. Ledo e ivo engano. Na bandeira tem muita gente querendo pegar. São vários os itens. Há uma tendência a dizer que os americanos estavam descontentes com Strauss-Kanh em muitos níveis. Uma geologia atiçada. Vendo a nova política implantada no FMI pelo dito, observando a transformação do Fundo em um agente mais ligado à governança mundial via G-20, e sentindo uma inserção mais contundente na área monetária e financeira, os Estados Unidos principiaram a se sentir meio ameaçados. O FMI foi uma instituição criada na esteira de Bretton Woods para resolver problemas de balanço de pagamentos e agora chega a ter pretensões novas: ser uma instituição mais autônoma em relação ao criador, o seu caridoso pai. Pois vejam a questão do DES (Direito Especial de Saque). A China já propôs que fosse a moeda internacional, principalmente na função de reserva de valor. Obviamente que os americanos não podem apoiar, nem gostar, afeta o dólar e seu poder de manobra. Já quanto à correnteza financeira, nunca esquecer a atuação que o FMI tem tido na solução das dívidas dos países europeus. Ela poderia incomodar a própria finanças privadas, que deve ter, falou-se numa grande instituição financeira, se alterado com as ações do Fundo em diversos casos. Tudo são falatórios, evidentemente. Mas que as finanças americanas certamente estariam contrariadas tem a ver com algumas idéias sobre a necessidade de introduzir uma maior regulação no sistema financeiro. Strauss-Kahn talvez estivesse indo longe demais. E se somarmos ainda a sua inclinação muito forte em atender soluções para a Europa. e o continuado uso de seu posto e de seu trabalho para crescer na política francesa, o odor, o feeling, de que “este cara passou dos limites” pode ser uma conclusão. Por que, então, não tirá-lo da Fórmula Um?


Tudo isso são especulações. Mas há mais. Os americanos estão já há algum tempo interessados em modificar a regra não escrita, que o presidente do Banco Mundial é americano e o do FMI, europeu. Portanto, um olho na presidência também se faz presente. Só que os emergentes – China, Índia, Brasil, Rússia, e outros – já estão, há muito tempo, querendo mudar as relações internas no Fundo, principalmente nas questões ligadas ao valor dos votos, e mesmo quanto a cargos e a própria presidência. Se isso é assim, está chegando a Hora. E o infortúnio de DSK açula esse momento. Porém, como um nascer do sol antecipado, os mais exagerados na teoria da conspiração chegam a viajar mais longe. Chegam a insinuar que talvez possa até mesmo ter havido um acordo – um sublime acordo? – entre alguma via americana e outra européia.


A CAIXA DE PANDORA E UM TIRO NUM COELHO SÓ


Porém, a teoria mais esquisita que apareceu até agora tem a ver com o retorno da mentalidade militarista nos Estados Unidos e com o assassinato de Bin Laden. Estaríamos numa nova era. E, então, há gente que pensa mesmo que algum órgão – sem excluir a CIA – estaria manejando os dados da Fortuna para cortar a ascensão de Dominique Strauss-Kahn, Primeiro, para livrar-se de um francês na presidência do Fundo Monetário Internacional e segundo, de um socialista na presidência da França. E com a vantagem de um tiro num coelho só.


O nosso interesse no caso de DSK foi sair da esfera judicial, onde existem inúmeras questões sem clareza, não explicadas e não examinadas. Nosso interesse foi mostrar que, independentemente das especulações advindas ao caso, como se fosse uma feijoada bem condimentada, o jogo político está sempre presente nos corredores dos acontecimentos. Policial ou não, o caso vem mostrar que a crise financeira internacional e as dimensões políticas dos países impõem um jogo agudo, tenso, duro, agreste, que se faz nas costas de um homem. Quase uma tragédia grega, mas que tem colorações de farsa e que não deixa de explodir inusitadamente como um melodrama. Pode até ter momentos dramáticos de quinta categoria, mas adquire, em certos instantes, tonalidades shakesperianas. Por isso, a morte política de DSK não é uma simples morte, é um vulcão nessa zona outrora mais fraterna dos Estados Unidos e da Europa. Os donos do poder, mesmo que não tenham feito nada, estão como pássaros vorazes, à espreita de uma nova abertura do Ovo da Serpente. O problema vai ser no desdobramento, haverá que fazer o enterro do cadáver político de Dominique Strauss-Kahn. Machado de Assis alertaria: cuidado que o caixão pode ser a Caixa de Pandora!

quarta-feira, maio 11, 2011

CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
12 de maio de 2011
Coluna das quintas



NOVAMENTE NO CAIS
O NAVIO NEOLIBERAL
Por Enéas de Souza



1) Já temos escrito aqui neste blog sobre o ‘revival’ neoliberal. E alguns comentaristas, falam e lembram especificamente das terapias oferecidas à Grécia, a Portugal, à Irlanda e, inclusive, à Espanha. Mas esse queijo tem muito mais furos e as primeiras fatias não são essas. A construção do monstro, o monstro do fundo dos oceanos econômicos, na verdade, começa nos Estados Unidos, na corda musical da nação e do Estado americano. Percebam bem e sigam a linha melódica deste pensamento. O desastre de 2007 foi dominado por uma política neoliberal com a finalidade de evitar o risco sistêmico. O lance foi comovente: pôr à disposição dos bancos e das instituições financeiras uma montanha de dinheiro. A pergunta estalou logo na época. Tamanha generosidade, dar recursos públicos, aos bandoleiros das finanças, era um boa? Tinha outra solução? Claro que tinha, sim! Simplesmente se poderia nacionalizar ou estatizar as instituições financeiras em pedaços. E, depois de saneadas, se poderia até devolvê-las a outros capitalistas menos bandidos. Mas isso não era neoliberal, cheirava a um perfume negativo. E os banqueiros ameaçados gritaram como numa peça de Brecht: “isso é socialismo!”.

2) Na crise de 2007, deu-se a derrota das finanças, mas na queda, apesar de tudo, houve o triunfo dos neoliberais, e por ação do executivo e do legislativo conjugada. Sempre o mesmo enredo desta escola de samba. A comissão de frente traz a seguinte inspiração: antes da crise, o Estado não pode entrar no jogo econômico, deve apenas favorecer a roleta e o cassino dos títulos. Sempre na mesma direção, desregulamentando os mercados. E sempre para assegurar o vôo das rendas financeiras. Até que, no meio do desfile, as finanças tomaram um tombo e precisaram da intervenção e dos recursos estatais. Também o capital produtivo entrou em colapso. E então, na mitologia do capital, era hora do tão mal falado Estado vestir a fantasia de Midas. Dinheiro, dinheiro. Mas ele não rolou para todos. O concreto é que muitas indústrias, mesmo enormes, não tiveram ajudas ou tiveram apoios muito limitados e com a exigência de planos precisos e grandes sacrifícios. O que quer dizer que, mesmo entre os capitais, uns são mais preferidos que outros. Mas o que interessa de qualquer modo é que a semente do ‘revival’ neoliberal começava ali, na hora dos salvamentos, o carro das finanças era o mais competitivo.

3) Ou seja, o ‘revival’ nasceu com problemas, foi para o berçário logo de saída na tentativa de solução da crise. O Estado procurou manter a iniciativa do capital, mas através da esfera financeira. Era preciso, indisfarçavelmente, recuperar as finanças privadas! O leitor sabe, o doente ficou muito tempo na UTI. E o dr. Bernanke e seu hospital, o Banco Central dos Estados Unidos, junto com o estagiário em política econômica do Tesouro, Paulson, fizeram a cirurgia dos ‘ativos bichados’ das empresas financeiras. Eles conduziram essas instituições ao setor de branqueamento dos balanços. Só que essa escovação dos títulos impuros – não se tem uma notícia precisa – não se sabe se os balanços estão ou não realmente zerados. Mesmo porque a contabilidade é uma zona escura e triste. E o doce e melancólico dr. Bernanke, caridoso, continua dando os seus soros milagrosos, jogando liquidez no sistema financeiro. O que fez o presidente do FED? Carregou as bazucas do sistema, tudo para dar às finanças um novo poder de fogo. E elas, como gafanhotos, estão caindo sobre os emergentes, trazendo uma alegre e furiosa especulação, instabilizando esses mercados (O Brasil, incluído, já que uma parte da atual inflação, não há dúvida, vem daí!).

4) Essas operações de sustentação dessas instituições, desde o princípio da crise até agora, foram realmente pesadas e sintomaticamente fortes. A medicina adotada reanimou o paciente que, alquebrado e combalido, sobreviveu, levantou-se – e voltou rapineiro, com mais vigor e mais ação, para os mercados disponíveis. E se os mercados financeiros americanos se encontram sem júbilo e sem festa, os navios do sistema zarpam para portos mais apetitosos no resto do mundo. E, sobretudo, saúdam a sua liquidez lançando suas fichas noutra parte do cassino, na mesa das ‘commodities’ – vale dizer: petróleo, matérias primas e alimentos. E o resultado, por fim, incrementa uma perturbação internacional inflacionária; pressiona a valorização de moedas como o real, por exemplo; e incentiva uma disputa monetária forte, dividindo a moeda mundial entre o dólar, o euro e o yuan, apesar do dólar continuar, em última instância, com a função de reserva de valor. E isso que não estamos falando dos reflexos nas economias de vastos e ponderáveis problemas fiscais que arrasam salários, previdência, idade e remuneração de aposentadorias, aumentos de impostos e enfraquecimento do poder de vários Estados.

5) Então, meus angustiados leitores, o nenezinho ‘revival’ saiu do hospital. E começou dando um duro em Obama (que teve que matar Osama para ter chances eleitorais), descortinando mercados novos fora dos Estados Unidos, provocando politicamente o reforço e a retomada da antiga aliança capital financeiro internacional e sistemas bancários locais. E através de seus aliados, com os canhões de Navarone da mídia comprometida, pressionar mais uma vez o mundo, as populações e os Estados com as idéias e as políticas neoliberais. Apesar de estarmos razoavelmente bem, o Brasil é também palco de um ‘revival’, que procura assustar o governo e as classes médias e pobres. Só que a desmoralização americana e européia e japonesa, oriunda da incompetência da política da desregulação financeira foi tão grande, que as vozes empresariais, mesmo das instituições das finanças, não clamam, aqui, com as suas trombetas dos infernos, para a saída do Estado da economia. É bom que se veja bem e eles sabem disso: foi pelo Estado que eles se salvaram. Lá e aqui. Mas agora, como cachorros magros e mal agradecidos, já estão virando – aqui no Brasil é muito audível – suas vozes para a mídia tradicional, tratando de buzinar novamente contra o Estado e seus órgãos. “Não controlam a taxa de juros!” (Embora desejem o contrário!). “Não atuam sobre o câmbio!” (O que de fato prejudica os calçadistas e a indústria têxtil, faz-se notar). Mas os banqueiros gostam disso: livre entrada de capitais, juros altos e cambio solto. E fazem o duplo jogo da perfídia. Da perfídia neoliberal em tempos de crise. Como se dizia na minha infância: escondem a mão e dão o tapa!

6) Todavia, a fotografia do ‘revival’ brasileiro tem colorações políticas especiais. Primeiro: um retorno da pressão dos bancos, tonificados pelos recursos americanos que aportam por aqui. Sob esse som, voltam a querer pôr o Estado para dançar. E segundo, essa pressão se eleva, sobretudo, quando segmentos da esfera produtiva se aliam a eles, para reivindicar uma política mais severa que os favoreça. Mas o prato principal desse restaurante é novamente a força imperiosa dos bancos. Um amigo do mercado financeiro me disse: “Enéas, não te espantes se daqui algum tempo não retornar um bandido para dirigir o Banco Central”. Êpa!, me espantei. Mas o meu interlocutor foi firme: "é verdade, não te espantes!" Pode ser isso mesmo. O retorno de um homem de mercado para comandar as sinuosidades do sistema financeiro e influir na política monetária e financeira do país, ‘porque a inflação está aí’. Ela é ruim para os aplicadores, é péssima para o povo. Essa música cola.

7) Por outro lado, os cronistas econômicos que salientam o retorno da visão neoliberal, chamam a atenção para a Europa. Lá, todavia, o fenômeno tem um rosto muito intenso, rosto de George Clooney ou de Juliette Binoche. Dá para se ter um olhar muito nítido, diria Fernando Pessoa, um olhar de girassol. O que houve nas terras européias foi o triunfo inigualável da Alemanha, tanto econômica como geopoliticamente. Lá os bancos estão triunfantes. Foram os primeiros a serem salvos e impuseram uma política fiscal saudável, aquela que vem comandada pelo coração de Ângela Merkel. E a Alemanha está cada vez mais forte geopoliticamente, domina o Leste europeu e faz uma aliança expressiva com a Rússia. E, por sua influência, o Banco Central Europeu tem uma alma ortodoxa. E sua política é fortemente financeira. E procura sustentar os grandes bancos contra os Estados mais fracos, casos que vão da Grécia a Portugal. E sempre a velha chave: bota o retrato das finanças outra vez, bota no mesmo lugar. Há que ter clareza, o salvamento escorchante tem uma faca que funciona com uma lâmina bem afiada. Por exemplo, Portugal vai tomar um empréstimo, com juros de cinco e pouco por cento, quando o próprio FMI lhe está cedendo recursos a 3,25. E agora, digam rapidamente, quem é que vai pagar socialmente a conta, para salvar esses Estados e inclusive os bancos desses países, emparedados por outros Estados e por banco de outros países? Digam com rapidez, digam!



8) Salve o neoliberalismo!
- “De volta, compadre?”
“Sim, de volta. Mas, não alertes nem espalhes muito. Tenho sim ainda a mídia a meu favor, tenho a ‘tuba canora’, como diria Camões. Mas não divulgues, não tenho mais a liderança da dinâmica econômica. E mais, confesso aqui, que não se domina mais, sem discussões, o Estado como antigamente. E te digo no ouvido: a dinâmica não vai tão bem, porque não há uma expansão da economia produtiva com taxas de lucros extremamente altas como na época da economia ponto com. Sim, a economia até cresce, mas é tudo indústria velha, lucros grandes, mas nada explosivo e vigoroso. A nova indústria, aquela que vai mudar o mundo e vai dar a nós novas oportunidades de amplos negócios, ainda não está em expansão, não está permitindo novos vôos especulativos. Aliás, temos um pouco de culpa! Nossas próprias especulações atuais com petróleo, matérias primas e produtos agrícolas, estão emperrando as transformações. E os déficits espantosos dos Estados são bons e são ruins. Bons porque ganhamos dinheiro; ruins porque o Estado não pode financiar as indústrias novas, sobretudo aquelas de comunicação e informação. Enquanto não acharmos uma fórmula para ligar finanças-Estado-novas indústrias tecnológicas, temos que continuar, na corda bamba, traçando esse ‘revival’ neoliberal. Mas, que ele vai acabar, vai. A hora é das indústrias novas. E aí o Estado precisa ajudar a produção. O que não se sabe é o tempo da mudança! Talvez a concorrência entre os Estados nacionais, incluindo o Estado e a economia da China, ajude. Mas, por enquanto, é sitiar e cercar com o ‘revival’ neoliberal o que for possível.”

quinta-feira, maio 05, 2011

O que a publicidade vende?

Muito bom o artigo  sobre  Perversão e Publicidade publicado no Diário Gauche. O problema é que a consciência da situação ajuda, mas não garante que qualquer ser escape dessa máquina trágica do capitalismo. 
CRISE FINANCEIRA MUNDIAL
05 de maio de 2011
Coluna das quintas




OBAMA E OSAMA:
DUAS CABEÇAS A PRÊMIO
Por Enéas de Souza





1) Osama Bin Laden morto é o maior cabo eleitoral de Barack Obama. Isso é tão evidente que não mereceria nenhum comentário mais expressivo. Só que queria acrescentar, ou reafirmar, uma ou duas idéias nos fios de novelo. Esse episódio não é apenas um apoio à campanha de Obama. Mais que isso, para mim, ele é um turning point na trajetória do presidente americano. Trata-se de um vento de cauda, como dizem os pilotos dos aviões. Em primeiro lugar, é preciso ver que Obama vinha sendo um presidente totalmente batido pelas iniciativas dos conservadores, dos republicanos e dos financistas (veja-se que os três não são a mesma coisa). E a cachoeira de fatos caindo sobre sua cabeça trazia largos jorros de crítica da população. E não apenas da classe alta, mas gente de todas as classes. O governo do Obama, então, estava assim, parecendo um náufrago à deriva, se afogando lentamente, E o que aconteceu com ele? Há muitos aspectos – muitas determinações, diria Hegel – a respeito desse acontecimento. Há o aspecto simbólico, há o aspecto político interno, há o aspecto internacional, há o aspecto ideológico. E etc. Ou seja, as análises poderão ser longas. Longas e com muitos ângulos. No caso deste artigo vamos pegar apenas dois pontos: a política interna e os valores em jogo.



2) A morte de Osama Bin Laden mudou tudo. Ela faz parte de uma jogada de Obama para voltar ao centro das iniciativas da política americana. Sempre houve uma sombra na sua trajetória depois de eleito. A crítica feroz, sobretudo dos republicanos, a respeito de sua origem e da sua fraqueza política em defender os valores americanos, pelo menos. Na verdade, a coisa aqui é complexa, porque existem duas correntes ideológicas fortes nos Estados Unidos – a corrente guerreira e a corrente liberal – que enxergam o mundo, a presidência e a ação dos Estados Unidos de modo diferente. Obama navegou nessa última, prometendo uma diplomacia de paz, uma luta contra o sistema financeiro, uma série de pesquisas para mudar a matriz energética, uma reorganização da indústria americana e, politicamente, uma nova – ou um retorno – à liderança liberal. Tudo para fazer face à postura guerreira e canhestra do inefável Bush. Não conseguiu mover nada. “No meio do caminho tinha uma pedra”. Os financistas ocuparam todo espaço econômico do governo, o desemprego continuou alto e intolerável, a produção, indústria velha, vem se recuperando pela produtividade e nunca pela mudança do paradigma industrial. A dívida e o déficit americano, por causa da herança da crise, visitaram níveis muito altos. E as guerras, para desespero dos pacifistas, continuaram matando gente. O propósito da retirada das tropas do Iraque e do Afeganistão, e o fechamento da base de Guantánamo tiveram datas alteradas e tornaram-se figuras de histórias fingidas. Até o último fim de semana, Obama mergulhava no pântano político. A vizinhança da eleição e a sua queda de popularidade davam esperanças aos republicanos. Era o anúncio da dança da eleição perdida.



3) E aí aparece Bin Laden. E aparece morto. E isso muda tudo, sobretudo muda a estrada da re-eleição. A grande jogada de Obama foi conseguir que os Estados Unidos matassem o terrorista-mor, num momento inclusive em que o fracasso da política externa americana era uma realidade de nu frontal. O que Obama fez, ao anunciar a morte de Bin Laden, e ao expressar o seu discurso de reivindicação de justiça e de grandeza americana, foi matar um “inimigo jurado dos Estados Unidos”. Praticou a jihaad americana. Por que? Porque Bush forçou sempre a linha contra o terrorismo, consolidando a figura da “guerra ao terror” na imagem de Osama. Por oposição, esse se constituiu num símbolo, símbolo do terrorismo, símbolo da invasão do território americano. Por negação, esse símbolo unia os americanos. As Torres foram uma humilhação no orgulho pátrio. Tio Sam clamava por vingança. E o desejo de vingança expresso no desejo de matar estava presente na alma dos americanos. Desejo de vingança, sim; mas óbvio, claro, em nome da justiça. Antes de avançarmos na análise devemos atentar bem, quem foi morto não foi Osama, foi a materialização do símbolo que feriu os Estados Unidos.



4) Pois, Obama apostou alto. Jogou em cima do símbolo negativo de Osama Bin Laden trabalhado pela administração Bush. Esse símbolo negativo permitiu aos americanos fazerem a guerra do Afeganistão e do Iraque, construindo fortemente o avanço da unipolaridade geopolítica. Ponto para a indústria bélica, ponto para a indústria petrolífera, ponto para a construção civil. E naturalmente, ponto para os conservadores e os republicanos. (Enquanto isso, as finanças devastavam a economia). Todavia, o símbolo negativo, indiretamente, passou a ser o grande desafio para Obama. E emergia, no rastro do símbolo, toda a sua fraqueza política, ao mesmo tempo, que recebia as acusações de que não representava e não defendia os valores americanos. Apanhou como cão danado. Sua saída, para ultrapassar a desmoralização completa, foi fazer o lance do assassinato de Osama. A história do vivo ou morto. E a administração Obama preferiu Bin Laden morto.



5) Pois o gênio da jogada do assassinato de Osama Bin Laden é que a estratégia de Obama trabalhou sobre o símbolo que falamos acima. Ou seja, Obama não visou apenas um acréscimo de popularidade, uma recuperação de seus fracassos. Buscou a recuperação, pela direita, pelo lado guerreiro, do prestígio americano. Produto extremamente válido para o plano interno provocou, por consequência, uma reviravolta na re-eleição. Um cavalo de pau. E, sobretudo, ficou visível, Obama renasceu no calcanhar de Aquiles, ali onde os americanos se vêem como grandes guerreiros, como batalhadores da justiça, como povo líder do Ocidente e do Mundo. Imagem que estava rota e que foi usada pelos adversários do presidente contra o seu mandato. Como contraposição, veio uma caçada que termina por fulminar o terrorista que zombou dos Estados Unidos. Uma metamorfose singular, um feito absolutamente notável na imagem interna da política americana. Porque agora sim, o governo de Obama vai recomeçar. Ele é confiável, ele é americano, ele recuperou a auto-estima da população, ele conseguiu “o que todo mundo queria”. E colocando a sua bandeira na história do país (a morte do terrorista que humilhou os Estados Unidos) ele, agora sim, pode mudar, dar novas expectativas para poder reorganizar o país. Prova disso é o resultado de uma sondagem onde 96% da população americana aprovou o ato de Obama.



6) Do ponto de vista, da política como espetáculo, Obama consegue inflar de novo o seu prestígio. A partir de agora, como todos os personagens épicos americanos – dos filmes de história policial aos filmes de cowboys – ele entra no caldeirão dos vencedores. Fincou a bandeira na destruição do símbolo negativo, de onde poderá sair à re-eleição, de onde poderá superar os seus fracassos de política econômica, de política social, de política internacional. O meu sentimento é que Obama virou o jogo e vai passar ao ataque. Pela primeira vez desde que foi eleito.



7) Na política interna, em função da proximidade das eleições, em função das derrotas sucessivas em múltiplas questões (salvo na votação do plano de saúde), a paralisia do seu governo chegou a ser cogitada na votação do orçamento deste ano. Obama rumava para o despenhadeiro, a sua história política fazia amizade com o abismo. Pois bem, é nesse ponto que matar Osama Bin Laden foi a jogada de gênio. Por que? A primeira coisa: arrancou dos republicanos a liderança ideológica e destruiu o símbolo negativo. Obama se apossou do centro do espectro político e se transformou no super-herói da alma americana. Bin Laden tinha posto em cheque e tinha humilhado o orgulho do país, o primeiro a atacar, com êxito, Tio Sam na sua própria terra. Na política como espetáculo, matar o terrorista faz toda a diferença, provoca a metamorfose da figura de Obama, permite que haja um avesso na sua trajetória. E assim, lanhado o símbolo negativo, agora vai assumir efetivamente a política americana como líder legítimo. Tanto que hoje vai ao “Ground Zero” para dar a virada de página definitiva da era Bush. São aqueles jovens, sedentos de bravura indômita, que agora vão apoiá-lo, como se o marido de Michele fosse um deles.



8) O segundo ponto que queria assinalar são os valores do governo americano. Eles se colocam como vítimas, como justiceiros. Os outros são vilões. E mais, eles podem intervir em qualquer parte do mundo. E podem fazer uma caçada de morte. Tudo em defesa da democracia... E podem se rejubilar com a morte de um cara – para não dizer de um homem. Ora, esses acontecimentos me lembram as peças de Ésquilo, a trilogia chamada Orestíade. Nela, o que existe como pano de fundo e pano de frente é a idéia de olho por olho, sangue chamando sangue, morte se empilhando em cima de morte. E quando Orestes vai ser julgado, o resultado final é o estabelecimento da necessidade de um tribunal para resolver os conflitos da humanidade. Os romanos fizeram algo notável e o direito canônico deu continuidade a isso. A primazia da lei. É a lei que permite a civilidade – e não o tacape como forma de organização do mundo. Mas, como sempre afirmamos neste blog, o conflito está na base da política. Mas se ela não dá uma acalmada e não controla a violência, engendra, anima e amplia o teatro dos conflitos. Só que, se os homens permanecem constantemente na belicosidade, o que nós temos é a vitória da famosa expressão do Hobbes, “homo homini lupus”. O combate em toda a sua extensão. Uma faca puxa outra, um tiro traz o segundo, e o segundo encaminha a série na direção do infinito. Como observava Borges: existe um apelo de dinâmica ativa quando seguro um punhal na minha mão.



9) Por isso, a política é a forma de negociar e deter a violência na sua manifestação mais acerba de exercício da brutalidade. A cultura surge por bloquear, senão duradouramente, mas, pelo menos por um tempo, a agressividade progressivamente letal. E o que nos espanta nesse episódio de Osama Bin Laden é, em primeiro lugar, que o presidente dos Estados Unidos, uma das figuras importantes do século XXI, venha à televisão americana e mundial e diga – imagem diante dos nossos rostos, diante dos nossos olhos, diante da nossa inteligência – que assassinar Bin Laden significou que “a justiça foi feita”. E não deve deixar passar batido que se pode invadir um país assim na pura vontade de invadir, como ocorreu no Paquistão. E que essa interdição possa ser suprimida só porque o presidente americano avisou (a posteriori) ao presidente do Paquistão. Foi invasão sim e assassinato também. Ora, que retórica política mais miúda essa do domingo! O que está em jogo é o problema da Orestíade: o desejo de vingança. A lei ficou grudada no artefato que matou Bin Laden. Isso põe o século XXI de volta na atmosfera dos séculos antes de Cristo, ou naquele mundo dos animais que aparecem no início do filme de Stanley Kubrick, “2001”. Um darwinismo muito cortante, uma lâmina vastamente afiada. Barack Obama sucumbiu à direita norte-americana e mundial. Onde estava o seu discurso de paz? Onde ele colocou o seu diploma de Prêmio Nobel da Paz? Certamente, Bin Laden deveria ser julgado e condenado. Mas o desejo de vingança triunfou sobre o desejo de legalidade. Tivemos, depois da Páscoa, uma Aleluia sangrenta e conservadora.



10) Não há dúvida, dentro da “realpolitik”, Obama vai ao lado destro do cenário político para se salvar. São concessões políticas que tem que fazer para que o poder possa ser mantido. Pois veja, leitor eventual, Osama vem sendo superado politicamente pelas novas formas de resistência das democracias do Norte da África e pelos movimentos por mudanças políticas no próprio Oriente Médio. Então, a operação Bin Laden foi, de fato, uma operação política, ilegalidade gritante, com predominância interna e com grande ênfase no caráter simbólico, para permitir que Obama seja respeitado no plano interno e quiçá no plano externo. Não queremos dizer que ele será necessariamente vitorioso nas eleições do ano que vem; apenas salientamos que a sua candidatura já está na pista de decolagem. Decolará? Os seus fins justificarão seus meios?



11) Porém continuam a vigorar inúmeras questões. As perguntas são as seguintes: o desejo de justiça deve funcionar como desejo de vingança? E onde fica a lei? O que é bom para os Estados Unidos é bom para o mundo? O que vale para mim vale para os outros? E, finalmente, a questão decisiva: qual é o contrato contemporâneo que nos salvará da guerra de todos contra todos?